sábado, 19 de outubro de 2013

Parlamento gastou quase 65 milhões de euros com subvenções e eleições autárquicas


18 Out, 2013, 20:42


Os partidos com mais de 50 mil votos nas eleições legislativas são subvencionados pelo parlamento proporcionalmente aos votos recebidos e ao valor do indexante dos apoios sociais. Só oito partidos recebem do Estado mais de 14 milhões de euros por ano.

Como em 2013 houve eleições autárquicas, os partidos políticos tiveram direito a um quinhão maior. A Assembleia da República gastou este ano quase 65 milhões de euros do seu orçamento com as subvenções e a campanha para as eleições autárquicas.


Daí alguns partidos desejarem que houvesse eleições todos os anos...


sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Quando é que o graffiti é crime?


Banksy, o pintor de graffiti cujos stencils têm aparecido neste Outubro nas paredes de Nova Iorque, está a ser procurado pela polícia desta cidade sob a acusação de vandalismo.
Foi o presidente da Câmara de Nova Iorque, Michael Bloomberg, quem lançou a acusação em declarações ao jornal New York Post: “O graffiti estraga, sim, a propriedade das pessoas e é um sinal de decadência e de perda de controlo”.

Se as convicções anarquistas do artista aspiram à destruição da família e da sociedade, sendo algumas das suas obras ofensivas pelo desrespeito que veiculam ou até subtilmente perversas, outras estão imbuídas de uma ingenuidade ou de um lirismo tocantes. Como as que reunimos aqui:



Bed Stuy / Williamsburg, Nova Iorque, EUA, 17 de Outubro de 2013



Tribeca, Nova Iorque, EUA, 15 de Outubro de 2013


Manhattan, Nova Iorque, EUA, 1 de Outubro de 2013



Love Is In The Air, 2009


Muro de segurança, Belém, Israel, Agosto 2005

Uma conversa entre Banksy e um velho palestiniano, contada pelo próprio, onde desvaloriza a sua capacidade de metamorfosear a realidade feia numa ilusão estética:
"Velho: Ao pintar o muro, você fá-lo parecer bonito.
Eu: Obrigado.
Velho: Não queremos que seja bonito, nós odiamos esse muro, vá para casa."



Goldfish Room, Camden, Londres


Quando é que o graffiti é crime? Quando provoca poluição visual:

Nuno Marco 18/10/2013 17:39
O Bansky é discreto e não ostensivo. É elegante na expressão da mensagem.
Agora pergunto: é ele o único grafiteiro de Nova Iorque?
O meu problema não é a propriedade mas o bom gosto, a harmonia de uma cidade (muitas vezes já pouco harmónica e muito confusa) que fica destruída por desenhos berrantes e mais ou menos caóticos, que criam cansaço e confusão visuais.
A estética aqui é a questão decisiva. Mas os desenhos discretos do Bansky apresentam uma elegância estética, uma concisão expressiva e uma preocupação ética no respeito pela cidade que são atitudes quase ímpares entre os grafiteiros. É, neste caso, uma perseguição injustificável.


Passos Coelho e Cavaco Silva no Canal do Panamá



Esta animação mostra o projecto de expansão do Canal do Panamá programado para terminar em 2014. O projecto inclui dois novos conjuntos de eclusas e canais de navegação que serão capazes de receber navios com um comprimento 25% maior e transportar três vezes mais carga que os maiores navios acolhidos no canal existente, bem como aumentar o número de passagens de 35 para 50 navios por dia.


O alargamento do Canal do Panamá é uma oportunidade excepcional para os portos portugueses, em especial para o porto de Sines, como já havia sido declarado por vários investigadores em diversos eventos, de que destacamos uma série de três conferências, em 2011, na Sociedade de Geografia de Lisboa, sobre o tema “China, Panamá, Sines. A Rota da Seda do século XXI?”.

Na intervenção de síntese no final da segunda conferência, disse o professor catedrático jubilado do IST, António Brotas:
O porto de Sines é, possivelmente, na Europa, o porto com melhores condições para receber os navios vindos da China pelo canal do Panamá. Esta ligação deve ser encarada não como uma ligação da China a Portugal, mas como uma ligação da China à Europa.

E na terceira conferência, em que foi orador, apontou o caminho a seguir pelos governantes:
No último encontro sobre «Sines e os transportes terrestres», em que eu e o Professor Luis Mancorra, da Universidade de Badajoz, falámos, ficou perfeitamente claro que a obra que temos de fazer nos próximos anos é uma linha ferroviária de bitola europeia e baixa velocidade, com custos relativamente diminutos, na direcção Norte-Sul.

Portanto merece-nos aplauso a visita que Pedro Passos Coelho e Cavaco Silva fizeram hoje ao Canal do Panamá, antes do início da cimeira ibero-americana. Há que prosseguir neste rumo.


O protesto dos antigos alunos do Colégio Militar


A comunicação social divulgou recentemente problemas ocorridos no Colégio Militar relativos a abuso de poder dos alunos mais velhos, sobre crianças ou adolescentes que frequentavam esta escola em regime de internato, que assumiu a forma de violência psicológica e física. Violência essa que foi consentida por omissão pela direcção militar do colégio porque terá confundido sensibilidade com fraqueza de espírito inaceitável num militar.

No entanto, o Colégio Militar nunca teve a missão exclusiva de preparar jovens para uma carreira militar.
Muitos pais e mães recorreram ao colégio para protegerem os seus filhos do abuso do álcool e outras toxicodependências que actualmente se tornaram banais entre os adolescentes.
Muitas famílias lograram encontrar dentro daquelas paredes bicentenárias a morigeração dos costumes que desejavam incutir na geração seguinte, precavendo-a da frouxidão de espírito e da degradação moral que contamina grande parte da juventude e devasta a sociedade portuguesa.
Enquanto a escola pública se massificava e os seus professores e a tutela deixavam a disciplina relaxar-se e o ensino perder qualidade, valiosos quadros da administração pública e de empresas do sector privado foram sendo formados na disciplina rigorosa e no ensino exigentíssimo do Colégio Militar.

Torna-se imperioso, por isso, reflectir sobre a manifestação dos antigos alunos do Colégio Militar, nesta sexta-feira, durante a cerimónia de abertura solene do ano lectivo da instituição, contra aquilo a que chamam “a morte do Colégio Militar”.






Primeiro que tudo, uma palavra sobre a elevação do protesto, que as imagens demonstram. Cerca de 500 antigos alunos, com vestuário de cores escuras, juntaram-se na sede da sua associação e depois dirigiram-se ao Colégio Militar onde entraram através de um portão lateral pelas 15:00. Fizeram um protesto silencioso, interrompendo a cerimónia da abertura solene do ano lectivo e saindo cerca de 20 minutos depois, novamente em silêncio.

É absolutamente indispensável realçar esta atitude num País que está a habituar-se a ouvir falsidades, impropérios e insultos vociferados por manifestantes incultos e a ver apedrejamento da polícia em manifestações recentes. Incultos, diga-se de passagem, porque o querem ser: actualmente ninguém tem a desculpa de não ter uma escola perto de casa, ou de não desfrutar de transporte exclusivo para os seus filhos quando a escola fica arredada da residência.

A razão do protesto está no modelo de admissão no Colégio Militar consignado no Despacho 4785/2013 do ministro Aguiar-Branco:
1. A estrutura de funcionamento do próximo ano letivo (2013/2014), em cada um dos estabelecimentos de ensino, assentará nos seguintes pressupostos:

1.1. Colégio Militar:

a) Deverá assegurar a abertura de novas matrículas nos seguintes anos:

i) 1.º ciclo: duas turmas de 1.º ano e duas turmas de 2.º ano, em regime misto e exclusivamente em externato;
ii) 2.º ciclo: três turmas de 5.º ano e três turmas de 6.º ano, com opção entre regime de internato e de externato para alunos do sexo masculino e em regime de externato para alunas do sexo feminino;
iii) 3.º ciclo: três turmas de 7.º ano nos moldes previstos para o 2.º ciclo, referidos no ponto ii) da presente alínea;
iv) Secundário: quatro turmas de 10.º ano, nas condições referidas no ponto ii) da
presente alínea;

b) Relativamente aos anos em que não há novas admissões, funcionarão as turmas que forem necessárias ao público existente, bem como às alunas que queiram transitar do Instituto de Odivelas, devendo ainda ser possibilitada aos alunos do sexo masculino a opção entre o regime de internato e de externato;(...)

2. Em simultâneo, o Exército deverá diligenciar o seguinte:
(…)
c) Desencadear, de imediato, o processo conducente à construção da infraestrutura de internato feminino no Colégio Militar apresentando um plano calendarizado e quantificado do processo, tendo em vista o pleno funcionamento desta infraestrutura previamente ao início do ano letivo 2014/2015;

Se a associação dos antigos alunos concorda com a extensão da escolaridade ao 1º ciclo, já a entrada de novos alunos nos 5º, 6º 7º e 10º anos, com a criação de turmas mistas, merece-lhe profunda discordância.
A associação também contesta a construção da infra-estrutura — um edifício no valor de 6,5 milhões de euros — para, no ano lectivo 2014/2015, proporcionar internato às alunas do Instituto de Odivelas que vai ser encerrado.

Não são infundadas as preocupações dos antigos alunos do Colégio Militar: estavam previstas 13 turmas mistas com novos alunos!
Se neste ano lectivo a integração das raparigas foi fácil, deve-se ao facto de terem entrado apenas 50 alunas do Instituto de Odivelas, que já estão habituadas a uma disciplina saudável e a um ensino exigente. Quando a população estudantil for metade masculina e metade feminina é que os problemas vão surgir.

Estudámos e trabalhámos mais de meio século em escolas públicas portuguesas e assistimos, com pesar, ao aparecimento de distracções durante as aulas provocadas pelos namoricos de alunos, ainda que o par de namorados esteja em turmas diferentes da escola. E se estiverem na mesma turma, então geram-se interrupções da aula e todos os alunos são prejudicados.

Margarida Pereia Muller, presidente da associação das antigas alunas do Instituto de Odivelas, lembra que estamos a falar de crianças e adolescentes, e não de adultos, e que um ensino misto poder criar muitas “distracções”. Lembra bem.

Que saibam ouvir as suas preocupações. Que saibam ouvir as preocupações dos antigos alunos do Colégio Militar.






quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Foi apresentado o OE 2014


Actualização em 10 de Janeiro de 2014: ver alterações AQUI.


*

No dia 1 de Janeiro de 2014 vai entrar em vigor mais um orçamento do Estado draconiano. As principais medidas da proposta de Lei do Orçamento do Estado para 2014, explicadas no Relatório do dito orçamento, estão resumidas a seguir:


  • Redução salarial na Administração Pública e Sector Empresarial do Estado (art.33.º)
    • As remunerações entre 600 e 2000 euros sofrem uma redução entre 2,5% e 12%;
    • remunerações acima de 2000 euros têm um corte de 12%.
    Ver esta tabela ou usar a calculadora.
    O impacto desta medida é estimado em 643 milhões de euros.


  • Subsídio de férias e de Natal (art. 35.º)
    • subsídio de férias: sem alteração;
    • subsídio de Natal: para trabalhadores do Estado e pensionistas continua a ser pago mensalmente em regime de duodécimos (e absorvido pelo IRS).


  • Convergência das pensões da CGA com as do regime geral
    Uma pensão da CGA é a soma de duas parcelas: a primeira tem como referência o último salário de 2005 (a que se deduzia o então desconto de 10% para a CGD, actual 11%) enquanto a segunda se baseia na média dos salários recebidos a partir de 2006.

    Portanto há funcionários públicos que estão a receber uma pensão equivalente a 90% do último salário. O objectivo é passar para apenas 80%, o que implicará um corte de 10% na parcela da pensão calculada com base no último salário.

    Não sofrerão cortes os pensionistas com rendimentos mais reduzidos: os valores mínimos protegidos são
    • 600€ para pensões de velhice e 419€ para pensões de sobrevivência, se os pensionistas tiverem idade até 75 anos;
    • 750€ e 450€ se tiverem idade superior a 75 anos e inferior a 80 anos;
    • 900€ e 500€ se tiverem idade superior a 80 anos e inferior a 85 anos;
    • 1050€ e 550€ se tiverem idade superior a 85 anos e inferior a 90 anos;
    • 1200€ e 600€ se tiverem idade superior a 90 anos.

    O impacto estimado é 728 milhões de euros.
    Para as futuras pensões fica estabelecido, como regra de incompatibilidade, a suspensão obrigatória da pensão de aposentação ou de reforma quando o seu titular volte a exercer funções públicas.


  • Contribuição extraordinária de solidariedade (CES) (art. 74.º)

    Quando o valor mensal global das pensões de um único titular se situar
    • entre 1350 e 1800 euros: sofre um corte de 3,5% sobre a totalidade.
    • entre 1800,01 e 3750 euros, além do corte de 3,5% sobre 1800 euros, tem um corte adicional de 16% sobre o montante que exceda os 1800 euros.
    • superior a 3750 euros: corte de 10% sobre a totalidade;
      • tem um corte cumulativo de 15% sobre o montante que exceda 5030,64 euros (doze vezes o IAS = 419,22 euros) mas não ultrapasse 7545,96 euros (dezoito vezes o IAS);
      • tem um corte cumulativo de 40% sobre o montante que exceda 7545,96 euros.

    A CES só acumula com a redução das pensões da CGA (para convergência com o regime geral da segurança social) na parte que exceder esta redução. Portanto um aposentado da CGA só vai sofrer o corte CES se o valor mensal global das suas pensões for superior a 5030 euros.


  • Subvenções vitalícias (art. 75.º)
    Passam a ter condição de recursos anual: um rendimento médio mensal, excluindo a subvenção, superior a 2000 euros ou um património mobiliário superior a 240 vezes o valor do indexante dos apoios sociais (IAS), ou seja, 100.613 euros.
    • É suspensa para os beneficiários que verifiquem, pelo menos, uma das condições de recursos.
    • Para os restantes, a subvenção fica limitada à diferença entre 2000 euros e o rendimento médio mensal, excluindo a subvenção.

  • Pensões de sobrevivência dos cônjuges e ex-cônjuges (art. 116.º)

    Também passam a ter condição de recursos: quando o valor mensal global das pensões de um único titular se situar
    • de 2000,00 a 2250,00 euros, a pensão de sobrevivência é reduzida de 12% se for da CGA, ou 10% se for do regime geral da Segurança Social;
    • de 2250,01 a 2500,00 euros, é reduzida de 14% ou 15%;
    • de 2500,01 a 2750,00 euros, é reduzida de 20% em ambos os casos;
    • de 2750,01 a 3000,00 euros, é reduzida de 24% ou 25%;
    • de 3000,01 a 4000,00 euros, é reduzida de 32% em ambos os casos;
    • superior a 4000 euros, é reduzida de 34% ou 35%.
    O efeito desta medida é estimado em 100 milhões de euros.


  • IRS (art. 175.º)
    Os escalões de IRS, bem como as deduções pessoais e à colecta, não serão actualizados com a taxa de inflação.

  • Sobretaxa (art. 176.º)
    3,5% sobre a parte do rendimento colectável do IRS que exceda o valor anual da retribuição mínima mensal garantida.

  • Taxa adicional de solidariedade (TAS)
    • 2,5% para rendimentos colectáveis entre 80 000 até 250 000 euros (quinto escalão do IRS).
    • 5% para rendimentos colectáveis acima de 250 000 euros.

  • Contribuições extraordinárias sobre os sectores bancário e energético (art. 215.º-217.º)
    • A contribuição sobre o sector bancário representa um aumento de receita de 50 milhões de euros.
    • A taxa da contribuição sobre o sector energético é de 0,85%, representando um aumento de receita de 100 milhões de euros.
    O impacto estimado é 150 milhões de euros.

  • IRC
    O imposto sobre o rendimento das empresas diminui para 23% dos lucros tributáveis.
    • sobre o lucro superior a 1,5 milhões de euros e até 7,5 milhões de euros acresce uma Derrama Estadual de 3%.
    • sobre o lucro superior a 7,5 milhões de euros acresce uma Derrama Estadual de 5%.


Tabela de cortes salariais na função pública em 2014


Actualização em 26 de Novembro: ver NOVA TABELA com o limite mínimo de 675 euros.


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O segundo Governo Sócrates impôs, no Orçamento de Estado para 2011, uma redução salarial de 3,5% a 10% para os salários da função pública entre 1500 e 4165 euros brutos mensais e o corte de 10% acima de 4165 euros.

Esta redução salarial continuou em vigor nos orçamentos dos anos seguintes. Agora o Governo Passos Coelho pretende substituí-la, alargando o leque de salários e aumentando a taxa.

O Relatório do Orçamento do Estado para 2014 (p.49-50) prevê a aplicação de "uma redução progressiva entre 2,5% e 12%, com caráter transitório, às remunerações mensais superiores a 600 euros de todos os trabalhadores das Administrações Públicas e do Sector Empresarial do Estado (SEE), bem como dos titulares de cargos políticos e outros altos cargos públicos".
Esta regra da redução remuneratória pode ser assim descrita: para valores de remunerações superiores a 600 euros e até 2000 euros, aplica-se uma taxa progressiva que varia entre os 2,5% e os 12%; acima deste valor, aplica-se a taxa de redução de 12%.

Pode conhecer exactamente o seu salário em 2014 com a nossa calculadora, se o computador tiver o Microsoft Excel.
Se não tiver, pode usar a calculadora do Negócios (não calcula até 620€) ou consultar esta tabela:




No entanto, até à aprovação do Orçamento o desenho da medida ainda pode ser alterado. Também já sabemos que os cortes transitórios costumam transitar para os anos seguintes.


domingo, 13 de outubro de 2013

Desvendado o mistério das pensões de sobrevivência


*


Depois de uma semana de suspense e de um conselho de ministros que já decorria há dez horas, Paulo Portas desvendou o mistério do corte das pensões de sobrevivência, divulgando a tabela de aplicação da condição de recursos que vai permitir uma poupança de 100 milhões de euros no OE 2014:


13/10/2013 - 20:45


Queria dar duas informações prévias que são importantes para que os cidadãos e os idosos, em particular, possam perceber as opções do Governo. O Governo está consciente que as pensões de sobrevivência, na sua maioria, estão no regime contributivo e quando pagamos 34,75% da TSU, uma parcela — 2,44 — destina-se a cobrir certo tipo de eventualidades entre as quais a pensão de sobrevivência. Por isso era necessário e evidente um especial cuidado na redacção da norma.

No entanto, apesar de estarmos, na maioria dos casos, em regimes contributivos, há um problema que não pode ser escamoteado. Entre CGA e Segurança Social, o Estado paga cerca de 2700 milhões de euros deste tipo de pensões por ano.
Ora os descontos que o Estado recebe para poder fazer o pagamento de pensões não ultrapassam os 1500 milhões de euros, o que significa que, mesmo numa versão conservadora, há um défice contributivo de cerca de 1200 milhões de euros.
É por isso que, pelo menos, dez países da União Europeia têm uma forma de condição de recursos nas pensões de sobrevivência: é para evitar problemas como estes. E a condição de recursos significa que se soma o valor da pensão original, que nunca será tocado, com uma segunda pensão e se vai ver, se apurado o rendimento, a recepção integral desse segundo valor se justifica na totalidade.
(...)

Qual é, então, a condição de recursos que o governo decidiu estabelecer? Só a partir da acumulação de duas ou mais pensões com um valor superior a 2000 euros é que se gerará alguma forma de redução. Como podem imaginar isto está muito longe do que aqueles que quiseram assustar os idosos, disseram e escreveram.
Na nossa estimativa, de cerca de 800 mil pessoas que, em Portugal, recebem pensão de sobrevivência, na sua maioria viúvas e viúvos, apenas cerca de 3,5%, não mais de 25 mil, terão alguma forma de impacto e, mesmo assim, gradual e moderada.




Quando a soma de todas as pensões mensais for superior a 2000 euros, a pensão de sobrevivência paga pela Caixa Geral de Aposentações ou pelo Centro Nacional de Pensões é reduzida, a partir de 1 de Janeiro de 2014, de acordo com a seguinte tabela:




No somatório entram todas as pensões de aposentação, reforma e sobrevivência que sejam pagas ao titular da pensão por quaisquer entidades públicas, independentemente da respectiva natureza, institucional, associativa ou empresarial, do seu âmbito territorial, nacional, regional ou municipal, e do grau de independência ou autonomia, incluindo entidades reguladoras, de supervisão ou controlo e caixas de previdência de ordens profissionais, directamente ou por intermédio de terceiros, designadamente companhias de seguros e entidades gestoras de fundos de pensões.


quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Passos Coelho no programa da RTP O País Pergunta


No programa O País pergunta o primeiro-ministro Passos Coelho respondeu a perguntas de 20 cidadãos portugueses, durante mais de uma hora e meia.

09 Out 2013

Eis alguns dos assuntos abordados nas perguntas e um excerto das respostas:

Cortes nas pensões

“É preciso ter a noção que o 13º e 14º mês que foram suspensos em 2012, foram repostos em 2013. Se a nossa despesa voltou a aumentar por essa razão, temos de encontrar forma de voltar a reduzi-la. E não é possível voltar a reduzi-la sem mexer em salários e pensões.
(...)
Não é possível reduzir o nosso défice público, e portanto manter a confiança dos nossos credores, sem baixar os salários e as pensões. Mas não teremos para os aposentados da função pública em 2014 uma situação pior do que aquela que existiu em 2012. Portanto não teremos maior austeridade sobre os pensionistas em 2014 do que aquela que já tivemos em 2012.”

A redução do IVA no sector da restauração

"A maior parte dos empresários não repercutiu o IVA no preço. Por isso, o maior problema, dado que não houve repercussão, não está no imposto, está no facto de as pessoas estarem forçadas a fazer escolhas diferentes das que faziam.
Muitas pessoas deixaram de ter condições para ir aos restaurantes, e passaram a levar a refeição preparada para comer no seu local de trabalho. É esta quebra de procura que afecta a restauração."

"Não estou a eliminar essa hipótese [mexer no IVA], estou simplesmente a não alimentar uma expectativa à volta disso. Dentro do Governo iremos discutir essa matéria no Conselho de Ministros de amanhã e de domingo quando fecharmos a proposta de orçamento. Nós encomendámos um estudo, já divulgado publicamente, que mostra que reduzir novamente o IVA da restauração para a taxa intermédia [de 13%] tem um impacto de perda de receita que não é negligenciável, está acima de 100 milhões de euros. Tenho que ter outra receita que substitua essa, a menos que aceite que o défice do Estado cresça em vez de diminuir."

"O assunto irá ser debatido. Nós precisamos de dar alguns sinais que possam em 2014 fortalecer este crescimento da economia que está agora a verificar-se. Não sei se esse será um deles, não está excluído por enquanto, mas não quero alimentar essa expectativa."

“No próximo ano vamos ter uma redução do IRC, que é o imposto que as empresas pagam, portanto também os restaurantes, que será importante para a retoma da economia e que já irá implicar alguma perda de receita. Não podemos perder receita em toda a linha.”

O desaparecimento da classe média

“Muitas pessoas estão a fazer sacrifícios para tirar o país da situação difícil em que está. Quem está a pagar a factura mais pesada nos tempos difíceis que estamos a viver não são evidentemente as pessoas que têm mais baixos rendimentos. Essas têm sempre dificuldades, mas tentámos protegê-las o mais possível, excluindo das medidas as pessoas com rendimentos mais baixos.

Quem está a suportar o peso todo desta crise é justamente a classe média e aqueles que têm maiores rendimentos. O que eu espero, com honestidade, é que até ao final do primeiro semestre do próximo ano este período de emergência que estamos a viver possa ser encerrado e nós possamos retornar a um caminho de crescimento que seja melhor do que aquele que tivemos no passado."

Os incêndios florestais

"O Estado detém a propriedade de muito pouco espaço florestal. É uma obrigação dos privados manter a floresta bem ordenada e limpa. O Estado tem tido dificuldades em substituir-se aos privados em fazer essa limpeza.”

“Há uma responsabilidade que tem de ser assumida pelos privados sob pena de um grande património que temos — o espaço florestal — acabe por perder-se porque não há condições para ser preservado”.

“A prevenção deve ser feita ao longo do ano, a limpeza de todos os espaços, não é cumprida devidamente (...) Não houve mais incêndios nem mais área ardida pelo facto de não haver governador civil."

Zona Franca da Madeira

“Não serão as condições fiscais que o Governo Regional [da Madeira] pretendia, mas são equiparáveis às que as Canárias têm, o que me parece uma boa base (...) Julgo que foi mal encerrado e por isso é que fiz tudo ao meu alcance para reabrir esse dossiê em Bruxelas.”

O tunel do Marão

"As obras não pararam porque tivéssemos decidido parar essas obras. Elas pararam porque a empresa concessionária não teve condições para as poder concluir.
Nós estamos apenas a aguardar da parte do Banco Europeu de Investimentos, que era uma das entidades financiadores deste projecto, bem como do resto do sindicato bancário aceitem transferir para o Estado as mesmas condições de crédito."

O Estado e a Auto-Estradas do Marão, liderada pela Somague, entraram em litígio, sendo que houve “pedidos de indemnizações muitos elevados que o Estado não sentiu que tivesse responsabilidade de outorgar.”

“Só há muito pouco tempo é que a própria empresa assumiu, com clareza, a impotência para poder fazer a obra." Em Junho, o contrato de concessão foi rescindido, mas sem mútuo acordo, pendendo vários processos entre o Estado e a empresa.

Concursos públicos para todos os directores-gerais e subdirectores-gerais

“Os funcionários públicos estão fartos, ao longo de muitos anos, de se verem dirigidos por pessoas que foram escolhidas em termos partidários e que não têm a preparação técnica e profissional suficiente para poderem assumir esses cargos da direcção.
E hoje temos a possibilidade, teremos até ao final deste ano, de ter praticamente todos os dirigentes de 1º grau e de 2º grau da administração escolhidos em função do seu mérito profissional e não de escolhas partidárias o que é muito importante quando se pretende iniciar e dar mais corpo a uma reforma da administração púbica.”

O preço dos combustíveis

“Não podemos pensar em ter combustíveis mais baratos porque iria sair caro em termos ambientais. O preço dos combustíveis é um regulador que evita que os hidrocarbonetos tenham impacto na degradação da qualidade ambiental"

“Descer os impostos sobre os combustíveis seria dar o sinal errado, o sinal de que se poderia usar mais o carro. Temos de encontrar outras possibilidades”, afirmou, falando nos transportes públicos, em especial no transporte ferroviário.

Corte de salários na função pública

“A medida ainda não está finalizada. Portanto faz pouco sentido entrar em pormenores de coisas que ainda não estão finalizadas. Mas, desde Abril, o País sabe que, através da tabela salarial da função pública, pensamos poupar cerca de 500 milhões de euros: 499 milhões de euros. Este valor é conhecido.
A convergência das pensões da Caixa Geral de Aposentações para o regime geral da Segurança Social vale cerca de 700 milhões. Isso está escrito desde Abril."

"Quando falamos do choque de expectativas, e fiz essa referência, é justamente porque, apesar destas medidas serem conhecidas, elas são apresentadas e tratadas no debate público como novas medidas ou mais medidas e estamos sempre a falar das mesmas medidas."

“Pois nós temos um défice orçamental que ainda deve diminuir em 2014, face a 2013, como é que é possível oferecer como perspectiva realista às pessoas que vamos baixar os impostos e aumentar a despesa se precisamos de diminuir o défice.

Em 2014 vamos baixar mais o défice, e em 2015 ainda vamos de ter de baixar mais. E para futuro temos de ter excedentes orçamentais se quisermos aliviar o peso da nossa dívida."


Divergência de mentalidades


09 Out, 2013, 14:12

Num encontro do "grupo de Arraiolos", formado pelos presidentes não executivos dos estados-membros da União Europeia, que decorreu em Cracóvia, na Polónia, Cavaco Silva defendeu a solidariedade dos países do norte e centro da Europa para com os países do sul, pedindo taxas de juro nos empréstimos similares à dos países do norte e centro da Europa que não se endividaram excessivamente:
Chamo a atenção para a necessidade de encetar uma séria reflexão sobre estes acontecimentos [morte de mais de 300 emigrantes africanos ao largo da ilha de Lampedusa]. Deveríamos melhorar, reforçar a cooperação com os nossos vizinhos do sul para lidar com esta tragédia humana que afecta todos os países europeus.
(...)
Esta crise não é apenas uma crise económica e financeira, é também uma crise de confiança. Na minha opinião, o principal objectivo da União Europeia deverá focar-se no crescimento e no emprego e no pleno funcionamento da união económica e monetária. A meu ver, é imperativo reduzir os excessivos custos de empréstimos para as pequenas e médias empresas nalguns estados-membros, tal como Portugal; são muito mais elevados do que noutros países europeus.


09 Out, 2013, 20:58

Resposta de Toomas Hendrik Ilves, presidente da Estónia, país da Zona Euro:
Se aceitamos as regras, cumprimo-las, não gastamos mais do que ganhamos, não pedimos emprestado mais do que podemos pagar.
Claro que a solidariedade é um princípio fundamental que temos aqui, mas os eleitores nacionais, pelo menos em países como o meu, não aguentam muito tempo pagar voluntariamente pela prodigalidade dos outros.





Salários mínimos nos países da União Europeia. Os países europeus de leste, como a Estónia, têm os menores salários mínimos.


terça-feira, 8 de outubro de 2013

Nobel da Física 2013 para os teóricos do bosão de Higgs



"Os conceitos básicos do bosão de Higgs", lição de David Barney e Steven Goldfarb, físicos do CERN


À entrada do centro de controle do Laboratório Europeu de Física das Partículas (CERN) está uma pedra onde foi gravada a representação matemática do Modelo Padrão da física das partículas, incluindo o mecanismo de Brout-Englert-Higgs.

A pedra do Modelo Padrão no CERN

A linha superior descreve as forças: a electromagnética e as nucleares forte e fraca. A segunda linha descreve como essas forças actuam sobre as partículas fundamentais da matéria, ou seja, sobre os quarks e os leptões. A terceira linha descreve como essas partículas obtêm a massa do bosão de Higgs e a quarta linha permite ao bosão de Higgs actuar.

O mecanismo de Brout-Englert-Higgs foi proposto pela primeira vez em 1964, em dois artigos publicados de forma independente, o primeiro pelos físicos belgas Robert Brout (falecido em 2011) e François Englert, e o segundo pelo físico britânico Peter Higgs. Explica como a força nuclear fraca é muito mais fraca do que a força electromagnética e ficou conhecido como o mecanismo que confere massa às partículas fundamentais. Peter Higgs sublinhou que o mecanismo exigia a existência de uma partícula nunca vista, a que hoje chamamos o bosão de Higgs.

Muitas experiências no CERN e noutros laboratórios já tinham verificado pormenorizadamente as duas primeiras linhas. O Large Hadron Collider (LHC) do CERN permitiu verificar que o bosão de Higgs existe e actua conforme previsto nas duas últimas linhas, confirmando a teoria.

Simulação de uma colisão de protões na qual é produzido um bosão de Higgs


Passado um ano sobre esse memorável acontecimento, são consagrados os físicos que desenvolveram o trabalho teórico sobre o bosão de Higgs: o Prémio Nobel de Física 2013 foi atribuído conjuntamente a François Englert e Peter W. Higgs "pela descoberta teórica de um mecanismo que contribui para a compreensão da origem da massa das partículas subatómicas, e que recentemente foi confirmado através da descoberta da partícula fundamental prevista, pelas experiências ATLAS e CMS no Large Hadron Collider do CERN".

François Englert (esquerda) e Peter Higgs no CERN, durante o anúncio da descoberta do bosão de Higgs, em 4 de Julho de 2012.

E o CERN festejou:
"Estou felicíssimo que o prémio Nobel deste ano tenha ido para a física das partículas", diz o director-geral do CERN Rolf Heuer. "A descoberta do bosão de Higgs no CERN, no ano passado, que valida o mecanismo de Brout-Englert-Higgs, marca o culminar de décadas de esforço intelectual de muitas pessoas no mundo."


Foi no CERN que, em 1990, Tim Berners-Lee criou os dois softwares essenciais — o editor-navegador para produzir e ler o hipertexto dos documentos HTML guardados em computadores da Internet, chamado WorldWideWeb, e o programa para enviar a informação, chamado servidor — que geraram a Web.
São estes investigadores que projectam e constroem os mais avançados detectores de partículas do mundo que têm permitido desenvolver a imagiologia, revolucionando os meios de diagnóstico em medicina.


segunda-feira, 7 de outubro de 2013

domingo, 6 de outubro de 2013

Uma entrevista demolidora da política à portuguesa


Numa entrevista de José Pacheco Pereira ao Público, o historiador e militante do PSD considera as eleições autárquicas de 2013 as mais interessantes desde o 25 de Abril:


05/10/2013 - 18:33

Assistimos a uma vitória considerável do partido socialista em termos de municípios, assistimos a um crescimento do partido em muitos municípios e a uma perda significativa do PSD. Mas não podemos raciocinar apenas assim porque seria menosprezar o facto de, quer o PS, quer o PSD terem perdido um número muito significativo de votos, os independentes e a CDU tiveram um crescimento significativo absoluto em termos de votos (...) Aliás, até do ponto de vista do significado eleitoral das eleições, a única vitória do PS que tem significado nacional é a de Lisboa, porque em todos os outros casos os resultados do PS estão muito longe daquilo que o partido precisava para caminhar para uma maioria absoluta.

O PSD tem dois problemas muito graves que se tornam ainda piores com estas eleições: tem uma direcção política que não tem nada a ver com o programa do partido, com a génese do partido, com a história do partido, com a identidade do partido, isto é uma coisa que pode ser discutida à parte. E depois tem um aparelho que aqui levou um verdadeiro murro no estômago que é muito preocupante para o estado actual do PSD.
Muitas vezes as pessoas não compreendem até que ponto no PSD, e em parte também no PS, o fenómeno da partidocracia se estabeleceu, tornando o partido muito difícil de mudar interiormente. E estas eleições atingem bastiões onde estão, literalmente, centenas de militantes do PSD empregados porque, quando analisamos a partidocracia, estamos a falar em carreiras e empregos.




06/10/2013 - 08:14

Compreendo a distinção entre as dissidências e as independências, mas é um fenómeno que vai acabar por ser comum, ou seja, as candidaturas dissidentes vão ganhar uma lógica própria e vão afastar-se do modelo inicial. O que vai acontecer é que cada vez há maior pressão para que independentes tenham um papel activo na vida pública. E o problema é saber até que ponto, na medida em que os partidos não se reformam por dentro, tem que se encontrar mecanismos de pressão por fora. Mais do que meditar sobre os independentes nas autárquicas, temos de começar a pensar nos independentes nas legislativas, o que implica mudar a lei eleitoral. (...)
O primeiro-ministro fez uma declaração completamente falsa na noite das eleições, dizendo que muitos candidatos do PSD tinham sido penalizados por não terem candidaturas populistas. Acho que não leu os cartazes nem de Lisboa, nem do Porto. Não viu as propostas de manuais escolares gratuitos para toda a gente, não viu os túneis em Lisboa, não viu as pontes nem os túneis do Porto. Aliás essa disfunção de linguagem compreendo bem porque o peso da ideologia não é grande, é maior o peso do oportunismo pragmático. A direcção aceitou patrocinar candidatos que fizeram campanhas parecidas com aquilo que criticam no esbanjamento de Sócrates.

A declaração de Portas é ridícula, como é ridículo a quantidade de jornais que o puseram entre os vencedores das autárquicas. Com Portas há muitas vezes o benefício do infractor. A declaração de Portas com o “penta” é profundamente desleal em relação ao PSD porque a maioria daquelas vitórias foram contra o PSD, bom, concorreram separados, mas a verdade é que também concorreram coligados, portanto, pelo menos, um certo tónus de moderação era esperável. E depois não há uma palavra sobre as coligações em que a direcção do CDS se envolveu, como Lisboa por exemplo, e a tentativa de apropriação da vitória de Rui Moreira no Porto.
Portanto, neste momento, a falta de vergonha de Paulo Portas é uma coisa que devia ser afrontosa para as pessoas. Mas a verdade é que ele, pelas suas amizades na comunicação social
[a quem divulga informações confidenciais], consegue passar pelos pingos da chuva. Aquela declaração da noite eleitoral é patética! Se me pedirem para comparar a declaração de Passos Coelho e a de Portas, a de Passos Coelho é de uma honestidade impressionante em relação ao “penta” de Portas.



06/10/2013 - 17:38

Eu sou do Porto, a minha terra tem um etos muito especial e foi isso que permitiu a vitória eleitoral de Rio Rio ou o reforço eleitoral de Rui Rio. Esse etos é uma certa tradição não jacobina do valor do trabalho. É uma cidade em que o liberalismo não chegou de França, veio do tecido económico e social, veio do pequeno comércio, veio também da influência inglesa, criou instituições na cidade, como clubes, o Ateneu. Era uma cidade de grandes fábricas — indústria têxtil —, era uma cidade onde na 1ª República havia um peso do partido socialista que não existia em Lisboa, onde os anarco-sindicalistas se evidenciavam. Um etos que, de alguma maneira, Rui Rio encarnou contra o período final de esbanjamento do PS com o Porto Capital da Cultura. E Rui Moreira vem nessa tradição e, desse ponto de vista, não é alheio as qualidades da cidade ao que aconteceu.

No entanto, a candidatura de Rui Moreira é a verdadeira candidatura social-democrata do Porto, no sentido que é uma candidatura que remete para valores de moderação, para valores do trabalho, para valores da contenção em períodos difíceis, para alguns valores de justiça e de equilíbrio social. Luís Filipe Menezes foi dar os porcos aos bairros sociais, mas as pessoas dos bairros sociais votaram no Rui Moreira. Há uma manha tradicional nos portugueses e nos portuenses que é bem justa, comeram o porco mas depois votaram no outro.
Rui Rio tinha feito um trabalho importante nos bairros sociais e, desse ponto de vista, a candidatura de Rui Moreira é muito importante e deve ser um exemplo para o partido social-democrata a nível nacional: como é possível neste contexto, sem fazer promessas demagógicas, com uma linguagem moderada, sem grandes populismos, ter ganho uma importante câmara contra tudo e contra todos e criar mais uma situação extremamente favorável a entendimentos com o PS.

(...)
"Não auguro nada de bom para o PSD, nem a nível nacional, nem a nível interno. Os partidos políticos não têm nenhum acordo com a eternidade. Quando se analisa os sistemas políticos, às vezes há partidos que perdem o seu papel. Se o partido social-democrata perder este papel que é complementado pela sua história concreta, perder o papel do partido com capacidade reformista e se transformar no partido dos grandes interesses financeiros e dos grandes lóbis, dos escritórios de advogados, das consultoras, das empresas de marketing e do seu próprio aparelho, o seu papel na vida política portuguesa é definhar. E deixa um enorme vazio.
(...)
O único futuro que pode salvar os dois grandes partidos em Portugal é um futuro que envolva o Rui Rio e o António Costa que são pessoas que se entendem, que se respeitam, com os quais é muito mais fácil obter os entendimentos que o presidente da República deseja e a sociedade deseja. Se houvesse eleições directas do conjunto dos portugueses, não tenho dúvidas que uma solução deste género resultaria para bem de todos nós."


Rui Machete soma e segue





Entre 2002 e Julho de 2013, o ministro dos Negócios Estrangeiros Rui Machete foi consultor de um escritório de advogados, a PLMJ, que representa Isabel dos Santos, filha do presidente angolano José Eduardo dos Santos, mas também dois generais angolanos envolvidos no caso dos "diamantes de sangue".

Numa entrevista à Radiodifusão Nacional de Angola, Machete pediu desculpa pelas investigações e processos do DCIAP sobre cidadãos angolanos, afirmando que se tratava de processos sem gravidade e já ultrapassados.


quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Caos na colina do Capitólio



Ver Caos na colina do Capitólio em mapa maior


Uma mulher de 34 anos, desarmada, com a filha de 1 ano no carro, terá batido num posto de controle de segurança junto à Casa Branca, no cruzamento das ruas 15ª e E NW, pelas 14:12, nesta quinta-feira, terceiro dia da paralisação do governo dos Estados Unidos. Agentes do serviço secreto estavam a gritar para o carro, diz uma testemunha, Joseph Shawn, 29 anos: "Parecia [que a condutora estava] amedrontada ou perdida. Pensei que poderia ter sido uma turista". Fugiu.

As autoridades iniciaram, então, uma perseguição com dezenas de polícias e carros. Meia dúzia de carros patrulhas conseguiram encurralá-la em Garfield Circle, junto ao Capitólio. Recuou e voltou a fugir.

18:38 GMT, 3 October 2013
Bloqueada pela polícia e agentes à paisana em Garfield Circle, junto ao Capitólio, Miriam Carey, com a filha no banco traseiro do Nissan Infiniti preto, foge.


O Capitólio dos EUA foi colocado em bloqueio de segurança, os congressistas e senadores receberam ordens para se trancarem nos gabinetes e adiaram o debate para obtenção de um acordo que permita a aprovação do orçamento e ponha fim à paralisação do governo federal. Os polícias — intervieram o FBI, a US Capitol Police e a DC Police —, tal como o restante milhão de funcionários públicos que estão a assegurar os serviços mínimos nos EUA, não estão a receber salário.
Os jardins do Capitólio foram evacuados. Transeuntes e turistas fugiram espavoridos. Um dos polícias espatifou o carro patrulha numa barreira na Constitution Avenue.
Noutra barreira erguida mais à frente, no cruzamento com a 2ª Rua NE, a mulher abrandou a velocidade do carro e foi morta a tiro.

Depois das autoridades policiais terem inspeccionado o automóvel e concluído que não tinha armas nem explosivos, foram inspeccionar a residência de Miriam Carey com um robô.



Oct 3, 2013
O alarido da perseguição policial junto ao Capitólio dos EUA e o pânico dos transeuntes.



(clicar para ampliar)


O carro patrulha que chocou contra uma barreira embutida na Constitution Avenue.


O carro de Miriam no posto de controle da US Capitol Police onde foi morta a tiro.



Friday, Oct 4, 2013 | Updated 6:07 EDT


quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Martifer ganha Estaleiros Navais de Viana do Castelo


Consta que o júri do concurso para a subconcessão dos terrenos e infra-estruturas dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo (ENVC) vai propor a esta empresa estatal a adjudicação da operação à Martifer.

Este concurso envolve uma área total de 245.162 m² para o "exercício da indústria de construção e reparação de navios, podendo ainda ser utilizada para a instalação de indústria de fabricação de componentes para aerogeradores eólicos e para o exercício da indústria metalomecânica".
Decorreu até 23 de Setembro e tinha apenas dois critérios de avaliação, ambos de cariz financeiro.
O primeiro era a renda anual proposta por cada concorrente pelos terrenos e infra-estruturas a subconcessionar pela administração dos ENVC até 31 de Março de 2031, com um peso de 70% na avaliação do júri.
O segundo exigia o pagamento de uma caução, que "não poderá ser inferior a 5% da soma das rendas anuais propostas durante todo o período da subconcessão", num total de 209 meses (17,42 anos), pesando o montante proposto 30% na avaliação.

Das oito entidades nacionais e estrangeiras que levantaram o caderno de encargos do concurso, apenas apresentaram propostas a Martifer e a A.K. do magnata russo Andrey Kiselev, empresário que já tinha concorrido ao frustrado concurso de privatização daqueles estaleiros.

A concorrente A.K. Portugal — Consultoria de Gestão foi agora excluída pelo júri porque apresentou uma garantia bancária de um banco russo com notação de risco B+ quando o concurso exigia uma notação mínima BB-.
Ontem terminava o prazo de cinco dias adicionais para entregar nova garantia bancária, mas a A.K. apresentou apenas um requerimento a pedir mais dez dias úteis, o que não foi aceite.



Portanto o júri só validou a proposta subscrita pela Martifer Energy Systems e pela sua participada Navalria.
A Navalria explora os estaleiros navais de Aveiro donde já saíram os últimos navios da Douro Azul, a operadora turística do rio Douro detida pelo empresário Mário Ferreira que mandou construir mais duas embarcações.

No entanto, densas nuvens negras permanecem no horizonte dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo que já foram uma empresa de referência internacional:

Anónimo 15:19
Essa dupla não é aquela que levou a Martifer para a bolsa a € 8,00 por acção e hoje vale quanto? Noooossa, ... € 0,57. Parabéns!
  • Anónimo 15:50
    Os € 8,00 foi no tempo da teta socializante... Aliás, em que mamavam por todos os lados, sem olhar a meios. Entretanto a teta esvaziou...

Saraiva14 15:22
O quê? Entregar os ENVC à Martifer, uma empresa falida?
Quem se deveria ter apresentado a concurso era o Partido Comunista Português e explorava aquilo em conjunto com os 'camaradas' que já lá tem! Quando falisse, falia e o Estado não tinha que lá pôr mais dinheiro!

Mário Raposo@Facebook 15:43
A proposta vencedora do concurso é subscrita pela Martifer e a sua participada Navalria, que explora os estaleiros navais de Aveiro, de onde saíram os últimos navios da Douro Azul e que está a construir mais duas embarcações para a operadora turística detida pelo empresário Mário Ferreira. Segundo, informações o consórcio tem trabalho em carteira. Uma decisão acertada, o tempo dirá!

Anónimo 15:48
Pode ser este o último negócio destes pistoleiros... Os Russos tinham uma garantia bancária BB-, mas quem é que emitiu a garantia bancária da Martifer? Neste momento há algum banco disponível para isso?

inguias 16:17
Se bem me lembro a Martifer ganhou também o concurso das minas de Aljustrel, durante o governo Sócrates. É bom sinal que não mais se tenha ouvido falar disso mas seria interessante uma reportagem a pesquisar como as coisas estão.

José Pereira 18:47
Quantos estaleiros navais, até com melhores condições, estão fechados na Europa? O grupo russo seria melhor solução? Conhecem esse grupo? A Martifer pode não ser a solução ideal mas são portugueses, penso ser positivo.
A situação internacional não é favorável para investimentos nesta área de negócio. Conheço vários estaleiros em Itália, Espanha, França que apenas se dedicam a reparar e, mesmo assim, com grandes dificuldades. Desejo sucesso à nova administração. Seria bom para a região e para Portugal.

Teixeira 19:20
Ficar em mãos Portuguesas? Grande mer$da! Se ficasse em mãos do norte da Europa, Leste, eram navios que vinham dessas paragens para serem arranjados aqui.
Onde vão estes metralhas, que se metem em tudo e mais alguma coisa — minas, construção naval, painéis solares, energia das ondas, construção metálica, centros comerciais —, buscar receitas para financiar isto tudo e encomendas para alimentar dois estaleiros navais? Onde?

  • Carlinhos o grande! 20:20
    É fácil... Normalmente quando se deve muito, não se pensa no pagamento. O problema deixa de ser do devedor e passa a ser do credor!

    Quem deve suar todos os dias com o tamanho da imparidade, são os subempreiteiros, os fornecedores, os bancos, principalmente BES, Montepio e Banif... Há quem se gabe na Martifer dizendo "já fali mais um subempreiteiro".

    A Martifer é uma casa para fechar, pela péssima gestão e pela falta de respeito básico pelos trabalhadores e pelos fornecedores. Não acredito que consiga voltar a ser uma boa empresa, ou pelo menos uma empresa saudável, enquanto for encabeçada por pessoas que premeiam a improficiência.

Anonymous 20:58
Garantias bancárias de magnatas, e gente estrangeira que investe no nosso país, não servem!
Aceitar garantias bancárias de bancos portugueses falidos e credores de uma dívida de centenas de milhões de euros da empresa ganhadora do concurso, sim! Onde está a coerência do concurso?
Vejo aqui comentários a criticar a Martifer, mas a Martifer é uma empresa grande, criada por estes dois senhores, com muitos empregados portugueses, cresceu obviamente com ajudas "políticas"...
O problema da empresa, hoje em dia, reside no facto destes senhores terem à sua volta pessoas que só lhes espetam facas nas costas e que pela frente se mostram verdadeiros "líderes". Está na altura dos manos abrirem os olhos e fazerem uma limpeza geral aos "velhinhos" da empresa, ou os accionistas se encarregarão de correr com eles de lá...

P.S.: Conheci Andrey Kisilev em 2010 e o Eng. Carlos Martins em 2011. Ambos inteligentes e ambiciosos, mas o primeiro tem o estilo russo frio e implacável, não se deixa rodear de chicos espertos nem de oportunistas.

*

Actualização em 4 de Outubro:

Martifer fica com os estaleiros de Viana, durante mais de 17 anos, por 415 mil euros anuais, metade do valor da renda proposta pelo grupo russo excluído do concurso.


Anónimo 08:54
Existem bares em Albufeira com rendas anuais mais elevadas...

Anónimo 17:20
Ao longo de vários anos da minha actividade profissional mantive muitos contactos com os ENVC. Conheci pessoas desde a Administração até ao porteiro. Pessoas como o Eng.Laranjeira (administração), Eng.Portela (div.cargos) e outros. Eram pessoas dedicadas e honestas.
Os operários eram boas pessoas mas comandados pelo PCP que lá, como em todos os locais de influência, trabalha para a instabilidade, para a distribuição antes da criação, para o confronto, para a miséria. Onde é que o PCP, alguma vez ou em qualquer momento, criou estabilidade laboral e prosperidade para as empresas ou seus trabalhadores? Na Coreia do Norte? Na Albânia? Na Bolívia? Em Cuba? Quem não sabe da miséria que lá existe e continuam a pregar e a intoxicar a população com as doutrinas socialistas. Ou a administração da Martifer entra a matar nos ENVC ou ao fim de pouco tempo acaba morta.

  • antonio 17:26
    Sem dúvida!
    O principal cancro dos ENVC são mesmo os operários. Não por falta de competência, profissionalismo e vontade de trabalhar. Simplesmente porque estão mal sindicalizados. Aliás, pensam que estão sindicalizados e na realidade estão "associados" a uns tipos que os querem ver é na miséria!
    Infelizmente devido aos "sindicatos" infelizes de Portugal, estes trabalhadores competentes e profissionais não terão qualquer futuro nos ENVC. Se a nova subconcessionária (Martifer) alguma vez ponderar a manutenção dos postos de trabalho nas condições actuais, estará a pôr em causa a viabilidade e competitividade dos estaleiros, pois lá no fundo money talks! Ou se fazem as coisas bem e com preços competitivos ou então... não falta quem faça noutras geografias!

  • António André 23:33
    Eu trabalhei nos Estaleiros da Setenave, uma empresa nacionalizada pelo governo de Vasco Gonçalves, e aconteceu neste estaleiro exactamente a mesma situação dos ENVC. Os sindicatos eram comunistas, a comissão de trabalhadores era comunista, e quem não fosse comunista era prejudicado, perseguido e ostracizado por eles.
    Fazia-se todo o tipo de greves, manifs, chegou-se ao ponto dos armadores desistirem de colocar navios neste estaleiro, a empresa só tinha prejuízos acumulados e entrou em falência, eramos cerca de 5000 trabalhadores e chegámos a ter ordenados em atraso.
    Este estaleiro entrou em rotura e foi entregue aos antigos donos que eram os da Lisnave.
    A Lisnave fez uma limpeza, escolheu os trabalhadores que queria e dispensou os restantes. O Estado Português teve que indemnizar os restantes e ainda teve que pagar à Lisnave as mais valias pelo fecho do Estaleiro da Lisnave em Almada.


terça-feira, 1 de outubro de 2013

O declínio do Bloco de Esquerda


Apesar do desaire eleitoral nas eleições autárquicas do passado domingo, João Semedo, um dos coordenadores do Bloco de Esquerda, diz que “não vê qualquer razão” para pôr em causa a coordenação, a direcção ou a sua estratégia política.
Mas promete que se alguém no partido quiser discutir os resultados “encontrará espaço para o fazer com toda a naturalidade, sem discriminação ou preconceito”.

Definimos, para estas eleições, quatro objectivos e ficámos longe de os alcançar; só alcançámos um deles. Não conseguimos manter a Câmara de Salvaterra de Magos; não elegemos um vereador [o próprio Semedo] em Lisboa por 52 votos; tivemos menos 45 mil votos, baixámos 0,62%, e perdemos mandatos nas câmaras, embora tenhamos conseguido nas freguesias”, enumerou João Semedo.

A única vitória foi a das coligações anti-Jardim, onde derrotámos estrondosamente o jardinismo no Funchal”.

*

Se os bloquistas forem capazes de reflectir sobre os comentários à notícia, talvez percebam por que motivos os seus eleitores se afastaram:


Luis Martins 15:33
Não deixa de ser irónico o BE pedir ao governo que se demita depois do desaire eleitoral e eles (que foram quem mais perdeu depois do PSD) assobiem para o lado, como se nada tivesse acontecido, dando "liberdade" para discutir, mas avisam à partida que essa discussão não terá consequências (isto é que é respeito democrático!).
Espero, contudo, que este fracasso sirva para que esta gente do BE deixe de falar pelo povo português, como se fossem donos da moral e da vontade do povo. Por mim não fala e por estas (como pelas anteriores) eleições pode dizer-se que não fala por quase ninguém.

Anónimo 16:15
O BE perdeu porque está a ser um partido igual aos outros, não luta por nenhum dos interesses do povo e não dá o exemplo. Como exemplo, deveria lutar para acabar com as ajudas aos partidos, regalias, assessores, carros com motoristas, ajudas, subvenções aos políticos e magistrados, regabofes, viagens e todos os benefícios dados aos partidos, fundações e políticos em geral.
Na Suécia, os juízes e parlamentares vão trabalhar com os próprios carros, não possuem ajudas, nem motoristas, nem assessores e o país funciona melhor que o nosso.
Portanto devem dar o exemplo. As pessoas só vão votar no BE em massa quando resolverem fazer isso.

Aleximandros
Setúbal 16:48
Vamos ser isentos, mas práticos: o problema do pessoal do BE, sobretudo a nível local, é que são uma "nata", a parte da sociedade sempre com ideias muito avant-garde mas quando se trata de trabalhar, ali no terreno, junto do povo que tanto apregoam, "tá quieto"...
E esta é a realidade do militante "médio" bloquista: para estarem num bar ou num café até às tantas da manhã a discutir em torno de uma mesa de cervejas e cigarros os "grandes rumos" servem, mas para estarem às 6h da manhã para abrir o mercado local, todos os dias, como acontece em algumas juntas, já não estão para isso...
Este contexto é um metaforismo para compreenderem melhor o meu pensamento, sou absolutamente neutro em relação ao espectro partidário português.

Alexandre Paris 17:03
O Bloco falhou naquela que seria a sua missão histórica: conseguir unificar a esquerda, excepto o PCP por razões óbvias, e viabilizar governos de esquerda com o PS.
O Bloco é dirigido por uma esquerda complexada, agarrada ao PREC, saudosista, olhando para o passado em vez de olhar para o futuro. Não compreendeu até hoje as aspirações democráticas e reformistas do seu eleitorado. Este retribui-lhe e nas próximas legislativas deverá desaparecer da Assembleia da República.
O Bloco deixou de fazer diferença, ouvir o seu discurso e o do PCP é a mesma cassete. Para isso o eleitorado prefere a cassete PCP, sempre tem garantia de antiguidade.

LuísP 17:59
O Bloco perdeu e perderá cada vez mais porque não tem credibilidade. Não a tem porque não quer. Louçã, a única figura credível, eclipsou-se. Cada vez mais dá a impressão de terem acabado todos o liceu anteontem.
A incapacidade de identificar causas maioritárias é preocupante. O discurso social-compassivo e o ar de fraternidade Erasmus — "vamos fazer coisas!" — não casam. Põem umas garotas a falar do desemprego, com um ar esperto e conscientes disso.
Por duas vezes, partilhei locais públicos com altos dirigentes desse partido. Numa, discutiam aos gritos divergências internas, no pressuposto talvez de que uma esplanada repleta equivalia a um plenário. Na outra, uma deputada, mencionando nomes, alardeava em voz alta certos podres parlamentares e o seu desprezo pela função representativa.

Andrade 20:59
Ficamos a saber que foi o BE que derrotou Jardim.


segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Breve análise dos resultados das autárquicas 2013


Terminada a contagem dos votos, observemos os resultados das autárquicas 2013 — câmaras municipais:

3.092 freguesias apuradas em 3.092 freguesias (2 votações não realizadas)



________________
PS
PSD
PCP
PSD/CDS
Grupo Cidadãos
PSD/CDS/outros
CDS
PSD/outros
BE
PCTP
PS/BE/outros
CDS/outros
Outros

EM BRANCO
NULOS
________________
Votantes
Abstenção
________________
Inscritos

Resultados 2013
_______________
1.810.744 votos
833.772 votos
552.506 votos
379.137 votos
344.566 votos
226.921 votos
151.828 votos
129.953 votos
120.914 votos
23.275 votos
23.259 votos
13.955 votos
43.886 votos

193.334 votos
147.124 votos
_______________
4.995.174 votos
4.502.230 votos
_______________
9.497.404 votos

%
__________
36,25%
16,69%
11,06%
7,59%
6,90%
4,54%
3,04%
2,61%
2,42%
0,47%
0,46%
0,28%
0,87%

3,87%
2,95%
__________
100,00%




Resultados 2009
_________________
2.084.382 votos
1.270.137 votos
539.694 votos
537.247 votos
226.111 votos
335.182 votos
171.049 votos

167.101 votos
14.275 votos


24.543 votos

94.983 votos
69.120 votos
_________________
5.533.824 votos
3.843.519 votos
_________________
9.377.343 votos

%
__________
37,67%
22,95%
9,75%
9,71%
4,09%
6,05%
3,09%

3,02%
0,26%


0,44%

1,72%
1,25%
__________
100,00%




Variação pp
__________
-1,42
-6,26
+1,31
-2,12
+2,81
-1,51
-0,05
+2,61
-0,60
+0,21
+0,46
+0,28
+0,43

+2,15
+1,70
__________
0,00





Todos os partidos políticos perdem dezenas ou mesmo centenas de milhar de votos, relativamente a 2009, exceptuando o PCP e alguns pequenos partidos.

Mas a única força que vê mais que duplicar a sua dimensão é o grupo dos votos brancos/nulos: recebem quase mais 4 pontos percentuais, alcançando 6,8% dos votos, muito mais que o CDS e o BE juntos, rivalizando até com os Grupos de Cidadãos que são a quarta maior força eleitoral.

Os Grupos de Cidadãos ganham quase mais 3 pp dos votos, atingindo 6,9%, e mais 46 mandatos. É quem ganha mais mandatos nestas eleições autárquicas.
O vencedor da noite é o grupo encabeçado por Rui Moreira que ganha a câmara do Porto.

O PCP sobe 1 pp, conseguindo obter mais 39 mandatos, entre presidentes de câmara e vereadores. É o partido que mais aumenta a sua influência nestas eleições.

O PS perde cerca de 1 pp dos votos. Ganha mandatos ao PSD e perde para o PCP e para os Grupos de Cidadãos, mas consegue manter o mesmo número de mandatos de 2009. A coligação com o BE e pequenos partidos rende mais 6 mandatos.
O BE perde 0,6 pp dos votos e perde também a câmara de Salvaterra de Magos, a única câmara que tinha.

Embora o CDS praticamente não altere a sua votação individual, recebe mais 16 mandatos, passando de uma para cinco câmaras municipais. E as coligações rendem mais 5.
O PSD vê a sua votação individual diminuir 6 pp, perdendo 135 mandatos. No entanto, as suas coligações com outros partidos — CDS, MPT, PPM — rendem mais 32 mandatos. Perde influência para o CDS, para o PS, para os Grupos de Cidadãos e é o grande derrotado da noite.




Há, evidentemente, um claro voto de protesto através dos votos brancos/nulos.

Por outro lado, a enorme vitória de Rui Moreira, no Porto, é um sinal de que o eleitorado melhor informado procura fugir aos políticos e escolher candidatos competentes e íntegros.

Mas, globalmente, os eleitores não escolheram os governantes locais no respeito pelo princípio do mérito.
Tal como vem acontecendo desde 1989, o eleitorado usou as eleições autárquicas simplesmente para bater no partido/coligação do governo, dando a vitória ao maior partido da oposição.

O leitor pode confrontar estes resultados com os discursos dos líderes partidários:



30 Set, 2013, 00:08

O PSD tinha colocado como fasquia ganhar as eleições autárquicas conquistando, portanto, a maioria das câmaras municipais e isso não aconteceu. Pelo contrário, o PSD registou um dos piores resultados ao nível daqueles que em finais dos anos 80 e meados dos anos 90 alcançou também durante períodos de governação mais exigente”, afirmou Passos Coelho.



30 Set, 2013, 00:18

António José Seguro realçou que o PS obteve mais votos e mais câmaras municipais que o PSD e o CDS, portanto "nestas eleições há um vencedor, o PS, e há derrotados, os partidos do governo", e lembrou que o seu partido reconquistou a presidência da Associação dos Munícipios Portugueses. Também afirmou que nunca um partido teve tantas câmaras municipais, mas é falso: em 1985, o PSD obteve 149 câmaras.



29 Set, 2013, 23:19

Jerónimo de Sousa exigiu, mais uma vez, a demissão do Governo.



30 Set, 2013, 00:11

Paulo Portas considera que o partido voltou a ser relevante nas autarquias e recordou que o CDS apoiou, no Porto, um candidato independente porque dava a garantia de continuar o trabalho de Rui Rio.



30 Set, 2013, 11:12

O coordenador do Bloco de Esquerda, João Semedo, disse que não esperava a derrota na câmara de Salvaterra de Magos mas declarou que o Governo é o grande derrotado destas eleições autárquicas.


domingo, 29 de setembro de 2013

Os dinossauros estão a morrer


Menezes, vindo de Gaia, assume derrota no Porto (ficou em 3º lugar):


29/09/2013 - 21:32

"Não estou habituado a perder, é a primeira vez que perco. Assumo a derrota com a mesma tranquilidade e humildade."


Dos montes da Lua para Lisboa, Seara perde:


29/09/2013 - 21:06

A responsabilidade é exclusivamente minha, fui eu que falhei. Assumo a responsabilidade. Quando se perde, perde-se sozinho, quando se ganha, ganham todos. Não transfiro responsabilidades para ninguém.


A extinção dos dinossauros vai dar lugar, pouco a pouco, a novos espécimes de políticos. Na cidade Invicta surge o empresário Rui Moreira:


29 Set, 2013, 22:31

29 Set, 2013, 22:24

"Pela primeira vez, o partido que venceu na cidade foi o Porto. Tenho orgulho dos portuenses, tenho orgulho em ser portuense. (...) O Porto mais uma vez na sua história mostra de que é feito, mostra a sua fibra. Não se deixa influenciar por mensagens, nem por promessas irresponsáveis. (...)

Sempre dissemos que não somos contra os partidos, mas os partidos não têm estado bem, e esta eleição é um claro sinal do Porto de que é possível fazer diferente e que os partidos têm de ser diferentes. Se os partidos não entenderem o que se passou aqui hoje, então não perceberam nada. (...)

Também, em nome dos portuenses, gostava de me dirigir a todos aqueles que desde o início tentaram impedir esta candidatura, procurando condicionar os nossos apoiantes, que, obviamente, não se deixaram afectar.

Estou a referir-me desde às mais altas individualidades do Estado até a comentadores da TV com pretensões políticas individuais a dirigentes e comentadores de jornais que permanentemente tentaram intoxicar a população. Meus senhores e minhas senhoras, esqueceram-se de que estão a falar do Porto. (...)

Ganhámos e vamos cumprir o nosso programa, vamos introduzir novos protagonistas na cidade, na vida pública e na vida política porque um dos motivos por que votaram em nós foi para rompermos com o actual estado de coisas, em que são sempre os mesmos que permanentemente se instalam nos corredores do poder, gerindo compadrios e desperdiçando recursos públicos de todos nós. Quero dizer-vos que também cumprirei esse papel.

E mais uma vez, do Porto, daremos o exemplo a Portugal. Viva o Porto!
"


Actualização em 30 de Setembro:
Sobreviveu um dinossauro incendiário, uma espécie de dragão, em Oeiras, perdão, no estabelecimento prisional da Carregueira.