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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

Putin anuncia operação militar no Donbass


Numa declaração televisiva, o presidente da Federação Russa acaba de anunciar a realização de uma operação militar especial no território das repúblicas do Donbass cuja independência foi reconhecida pelo parlamento russo na passada terça-feira:


"As repúblicas populares de Donbass recorreram à Rússia com um pedido de ajuda. A este respeito, de acordo com o artigo 51, parte VII da Carta da ONU, com a decisão do Conselho da Federação da Rússia e em conformidade com os tratados ratificados pela Assembleia Federal, em 22 de Fevereiro de 2022, de amizade e assistência mútua com as Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk, decidi realizar uma operação militar especial.
O objectivo é proteger as pessoas que foram submetidas a torturas e genocídio pelo regime de Kiev durante 8 anos. Para isso, visaremos a desmilitarização e a desnazificação da Ucrânia e processaremos aqueles que cometeram inúmeros massacres, inclusive contra os cidadãos russos."

Putin sublinhou que a Rússia não planeia ocupar a Ucrânia, mas esclareceu que a resposta de Moscovo seria "instantânea" se alguém tentasse impedir esta operação militar especial.


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O artigo 51 do capítulo VII da Carta da ONU, referido por Putin, prevê o direito dos países de se empenharem na legítima defesa, incluindo legítima defesa colectiva, contra um ataque armado.

Este artigo foi citado pelos Estados Unidos da América para justificar a legalidade da sua intervenção na Guerra do Vietname entre 1959 e 1973: "Os Estados Unidos argumentaram de forma convincente que, embora o Vietname do Sul não seja um Estado soberano independente ou membro das Nações Unidas goza, no entanto, do direito de autodefesa, e os Estados Unidos têm o direito de participar na sua defesa colectiva." (The Charge of Criminal Conduct in Vietnam B.1. §4).

Agora é a Rússia que invoca o artigo 51 para justificar uma operação militar. E numa região onde a população russa é maioritária. No entanto, o artigo 51 é considerado de difícil aplicação com justeza na vida real.

Terminada a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) conseguiu estabelecer regimes socialistas, não só em parte da Alemanha, mas também em todos os países europeus do Leste. Face a esta ameaça, os países europeus ocidentais e os Estados Unidos criaram uma organização militar, a NATO, em Abril de 1949.

Com a integração da Alemanha Ocidental na NATO, em Maio de 1955, foi a vez da URSS e aliados socialistas se sentirem ameaçados e criarem uma aliança militar — o Pacto de Varsóvia.

O decorrer do tempo, porém, veio demonstrar que economias estatizadas acabam por definhar. O Pacto de Varsóvia desfez-se e a União Soviética implodiu em Dezembro de 1991.

Assinatura dos Acordos de Belovezh — que declararam a cessação da URSS e estabeleceram a Comunidade de Estados Independentes (CEI) como sucessora — pelos líderes de três das quatro repúblicas que tinham assinado o Tratado de 1922 que criou a URSS: todos sentados, o presidente ucraniano (segundo à esquerda), o presidente do parlamento bielorrusso (terceiro à esquerda) e o presidente russo Boris Yeltsin (segundo à direita). Bielorrússia, em 8 de Dezembro de 1991.


França, Alemanha e Itália são economias fortes que podiam disponibilizar fundos para financiar o desenvolvimento das economias dos países europeus do bloco de Leste. Não só estes, mas até os países — Estónia, Letónia e Lituânia — que se declararam independentes em relação à União Soviética solicitaram a entrada na União Europeia. Serem os Estados Unidos a arcar com despesas militares desses países foi um aliciante para começarem também a aderir à NATO a partir de 1997.
Em 1997, três países do antigo Pacto de Varsóvia — Polónia, República Checa e Hungria — foram convidados, convertendo-se em membros da NATO em 1999. Eslováquia, Roménia, Bulgária, três repúblicas socialistas soviéticas — Estónia, Letónia e Lituânia — e Eslovénia aderiram na cimeira de Istambul de 2004. Albânia e Croácia em 2009, o Montenegro em 2017 e a Macedónia do Norte em 2020. A NATO passou de 16 para 30 membros.
Repúblicas que pertenciam à URSS: na Europa, Estónia, Letónia, Lituânia (passaram para a NATO), Bielorrússia, Moldávia e Ucrânia; na Ásia, Geórgia, Azerbeijão e Arménia.
(Ver comparação das forças militares da Rússia e dos Estados Unidos actualizada; ver valores das forças militares da maioria dos Estados Membros da NATO actualizados)


A cimeira de Bucareste, em Abril de 2008, foi a cereja em cima do bolo para a NATO, de tal modo que comentou efusivamente na declaração final (§23): "A NATO congratula-se com as aspirações euro-atlânticas da Ucrânia e da Geórgia para a adesão à NATO. Concordámos hoje que esses países se tornarão membros da NATO".

Acontece que, se este desiderato se concretizasse, a Rússia ficava com tropas, tanques e aviões de guerra da NATO em número muito superior ao das suas forças armadas na fronteira europeia, ou seja, excepto na fronteira finlandesa e bielorrussa, ficava sitiada.

Quando a União Soviética instalou mísseis em Cuba, em 1962, os Estados Unidos protestaram, e com razão, apesar de existir mais de 140 km de mar entre os dois países, além de disporem da Base Naval de Guantánamo na ilha. E os soviéticos tiveram de retirar os mísseis.

Em Novembro de 2013, teve início em Kiev, a capital da Ucrânia, uma onda de manifestações e protestos — Euromaidan (praça do Euro) — desencadeados pela decisão do governo de não assinar o acordo de associação Ucrânia-União Europeia e preferir estreitar os laços com a Rússia e a União Económica da Eurásia.
Os confrontos com a polícia deram origem à formação de milícias paramilitares de extrema-direita que preferiam a integração do país na rica União Europeia. Em Fevereiro de 2014, estes grupos ocuparam e ergueram barricadas na Maidan (praça central) de Kiev, efectuaram um golpe de Estado e procederam à eleição de um governo por votação de braço no ar.

O relacionamento com a Rússia deteriorou-se, não obstante ambos os países terem tido origem na Kievan Rus' (Rússia de Kiev) — uma federação de povos eslavos orientais, bálticos e fínicos no leste e norte da Europa, entre 862 e 1240, até à invasão mongol comandada por Batu Khan, neto de Gengis Khan — que teve Kiev como capital.

Kievan Rus' de 1054 a 1132. É o embrião histórico da Rússia, Bielorrússia e Ucrânia que recebeu a capital Kiev.


O pomo da discórdia foi a península da Crimeia. Conquistada pelo Império Russo em 1783, aí foram instaladas as bases navais da Frota do Mar Negro em 1790. Após a Guerra Civil Russa (1917–1921) ficou integrada na república socialista soviética Russa até que, inopinada e ilegalmente, Nikita Khrushchev decidiu transferi-la para a sua congénere Ucraniana, em 1954.

A seguir à implosão da União Soviética, em Maio de 1992, o parlamento da Crimeia adoptou uma declaração de independência (pág.194-195), anulada ao fim de poucos dias pelo parlamento ucraniano por entre ameaças de que a península ou seria ucraniana ou despovoada.
Em 1997, o ambiente político tornou-se mais favorável e foram assinados vários Tratados entre a Ucrânia e a Rússia que garantiam à Rússia o uso das suas Bases Navais na Crimeia. Estes acordos seriam postos em causa se a Ucrânia aderisse à NATO conforme prometido na cimeira de Bucareste de 2008.

Com mais de 75% da população a ocidente dos Montes Urais, a Rússia possui o maior e o mais populoso território do continente europeu, mas tem acesso difícil ao oceano Atlântico: a costa setentrional, banhada pelo oceano Glacial Ártico, está gelada quase todo o ano e a saída pelo mar Báltico é estrangulada entre a Dinamarca e a Suécia. As bases navais do Mar Negro são essenciais.

Cercada por terra e por mar pela NATO, a Rússia terá começado a sentir-se a rã dentro de uma panela com água a aquecer em fogo lento.

Se a Euromaidan criou o problema, então ao eliminar temporariamente a legalidade, permitiu resolver o imbróglio. Em Março de 2014, a Rússia invadiu a Crimeia, criando condições para a realização de um referendo. A população da Crimeia é maioritariamente russa, logo o referendo não só concedeu a independência à Crimeia — num processo que a Rússia considera análogo à independência do Kosovo (2008) em relação à Sérvia, após os ataques aéreos da NATO, em 1999 —, mas também permitiu a sua incorporação na Rússia com o estatuto de República da Crimeia.

Percentagem da população, por oblast (província), que tem o russo como língua materna.
Caro leitor, se dispuser de uma hora, assista a esta excelente palestra do professor John Mearsheimer.

Nas províncias do Donbass, a maioria da população também tem o russo como língua materna e foi esmagada pelo crescimento do nacionalismo ucraniano. Tratados como uma minoria étnica e linguística uma lei de Julho de 2019 obrigou a conversão das escolas de língua russa para língua ucraniana, até Setembro de 2020, mas concedeu mais três anos às minorias polacas, húngaras e romenas ocidentais para se adaptarem ao ucraniano como língua de instrução , revoltaram-se contra as tentativas de discriminação por parte de líderes políticos de extrema-direita e lutam há 8 anos pela independência, numa guerra com 13.000 mortos, contra as forças armadas ucranianas.

Os Acordos de Minsk de 2015, assinados pelo Grupo de Contacto Trilateral sobre a Ucrânia — composto pela Ucrânia, Rússia e a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) —, impuseram um cessar-fogo e previam a realização de eleições locais em Donetsk e Lugansk.
Aquando das eleições locais na Ucrânia, em Outubro de 2015, os líderes dessas regiões separatistas tentaram implementá-las, mas o Grupo aconselhou o seu adiamento para serem adequadamente preparadas, tendo pedido à Rússia para exercer a sua influência. Assim aconteceu, sendo as eleições sucessivamente adiadas até que os líderes locais deram o prazo de 2017 para eleições, ou sob os acordos de Minsk ou de forma independente.
As eleições acabaram por se realizar em Novembro de 2018, saindo vitoriosos os líderes separatistas. Então a Ucrânia declarou que era impossível implementar os acordos de Minsk.

Há cerca de três meses, a Rússia exigiu que a NATO rescindisse o compromisso de 2008 com a Ucrânia e a Geórgia — duas repúblicas da União Soviética até Dezembro de 1991 — de que um dia se tornariam membros e disse que aquela aliança militar devia prometer não implantar armas em países que fazem fronteira com a Rússia que possam ameaçar a sua segurança. A resposta da NATO foi um retumbante não. Obviamente os russos tinham de aventurar-se a saltar da panela antes de ficarem cozidos.



quinta-feira, 19 de agosto de 2021

Jornal português censura artigo de opinião de médico sobre vacinação de crianças


O jornal Público decidiu eliminar da sua plataforma on-line um artigo de opinião escrito por um médico anestesiologista sobre um assunto do domínio da Medicina:


Por se tratar de um acto de censura política, transcreveu-se o referido artigo enquanto ainda não tinham conseguido eliminá-lo da cache do Google (o negrito é da minha responsabilidade):


"OPINIÃO
Uma vacina longe demais
Os argumentos que foram e continuam a ser utilizados publicamente acerca das vacinas em geral, e agora muito concretamente acerca da vacinação de jovens e crianças, são argumentos irracionais, emotivos e políticos.

Pedro Girão
18 de Agosto de 2021, 21:58

Cada ciência tem a suas leis, as suas regras, o seu modo de fazer as coisas. As decisões decorrentes delas devem seguir as regras da ciência, impondo decisões lógicas e transparentes. Quando se trata de construir uma ponte, por exemplo, os detalhes técnicos não se debatem nos jornais, na televisão ou nas redes sociais. Não ouvimos “especialistas” de economia, ou de matemática, ou de sociologia, a defenderem que o betão do primeiro arco pode ou deve secar uma semana em vez das duas habituais. Não importa a urgência, a necessidade ou a bondade da obra: há normas de procedimento, há regras de segurança, há ciência. Fossem quais fossem as pressões, nenhum engenheiro aceitaria diminuir os prazos correndo o risco de que a ponte caia — eventualmente com carros e pessoas a atravessá-la.

Certamente, poderíamos dizer que a Engenharia é uma ciência bastante exacta — e a Medicina não o é. A Medicina é uma ciência aplicada, com graus de risco e de falibilidade que não são em geral bem compreendidos por quem raciocina sob o prisma das ciências exactas. A Medicina não é uma dessas ciências, mas tem igualmente as suas normas de procedimento, as suas regras de segurança. E não é a aparente urgência de tratamentos, exigidos diariamente pela loucura mediática e pelo pânico geral, que deve permitir ultrapassar as regras. No caso das vacinas em geral, antecipadas mais do que a segurança que sempre foi seguida impunha, e muito particularmente no caso da sua aplicação a crianças e jovens, não é isso que está a acontecer: a ciência médica está a ser ignorada, as regras estão a ser quebradas. Os argumentos que foram e continuam a ser utilizados publicamente acerca das vacinas em geral, e agora muito concretamente acerca da vacinação de jovens e crianças, são argumentos irracionais, emotivos e políticos. Isso é o pior que se poderia desejar para uma ciência que se pretende devotada a curar mas também, e antes de tudo, a não causar danos.

Os apelos recentes do Presidente da República e do responsável da vacinação (ambos excedendo de forma escandalosa e irresponsável as suas competências) são emotivos e políticos — dando de barato que possam ser “bem intencionados”. O vice-almirante, melhor do que ninguém, deveria saber o que pode acontecer quando se ignora a ciência militar e quando, pressionado por razões ou interesses de ordem política, se ordena uma ponte longe demais. A História lembra-nos como isso pode ser meio caminho andado para a tragédia; e, quer essa tragédia aconteça, quer não, esse tipo de decisão não deixa de ser uma irresponsabilidade. Colocar em risco a vida dos soldados, ou mesmo achar normal a existência de eventuais baixas e de vítimas colaterais, pode ser uma ideia com que as chefias militares convivam tranquilamente. Mas não são aceitáveis. E, convém lembrar, nós não somos soldados; e convém também frisar que recorrer a crianças como soldados não é tolerável.

Pelos mesmos motivos, a posição do Presidente da República nessa matéria é absolutamente escandalosa, parecendo baseada em conhecimentos débeis do assunto, em hipóteses duvidosas, em desvario emocional, ou em possíveis interesses. É pena constatar que ele não é actualmente o defensor dos portugueses, tendo-se progressivamente transformado num risco para os portugueses. E a posição de António Costa, congratulando-se com uma decisão final que ele próprio e as autoridades que ele tutela manobraram de forma palaciana, seria lamentável se não fosse apenas o seu registo habitual, cínico e falso.

Repito, os argumentos usados pelos (ir)responsáveis e pelos especialistas (alguns deles médicos) são emotivos e não-científicos. Deixemos a ciência ser ciência, sem pânicos, emoções ou estados de alma. Ou seja, paremos de fazer o que andamos a fazer há um ano e meio. Vacinar jovens e crianças com a motivação emotiva de que temos de salvar o resto da sociedade é um argumento revoltante. Insistir nessa ideia, quando já percebemos que a eficácia das vacinas é muito relativa, é uma atitude puramente disparatada. Não podemos usar os nossos filhos como escudo para a pretensa defesa da saúde dos adultos; e justificar a administração de uma vacina insuficientemente testada para o bem da saúde mental dos adolescentes é, em si mesma, uma ideia que remete para o questionar da saúde mental de quem a defende.

Pessoalmente, na covid como em qualquer outra doença, tomarei todas as precauções possíveis e farei todos os tratamentos adequados. Mas há limites, e a segurança dos meus filhos é uma deles. Se eu tiver que morrer por causa desse princípio, morrerei tranquilo; mas não submeterei os meus filhos a experiências terapêuticas e a riscos para me salvar. Sobretudo quando tudo indica que essa “solução” seja mais um fracasso e mais uma mentira a somar às anteriores. Sobretudo quando essas experiências se aproveitam do pânico de uma população desinformada e manipulada. Sobretudo quando essas experiências são exigidas e decididas por especialistas cobardes, por médicos cobardes, por políticos cobardes, por militares cobardes. Sim, porque só pode ser cobardia tentar usar crianças como um escudo humano. Deixem-nas crescer. E cresçam.

Médico, especialista em anestesiologia"



Em seguida transcrevemos a justificação apresentada pela direcção editorial do jornal Público para esta censura política que é classificada como "despublicação":

"OPINIÃO
Um erro e um pedido de desculpa

Direcção Editorial
19 de Agosto de 2021, 18:09

Um erro de controlo editorial corrigido nesta quinta-feira às 17h42 permitiu que um artigo de opinião (“Uma vacina longe de mais”) assinado pelo médico anestesiologista Pedro Girão estivesse disponível na nossa edição digital durante horas.

A sua despublicação justifica-se não apenas pelo tom desprimoroso e supérfluo usado pelo autor em relação a várias personalidades da nossa vida pública, como pelo seu teor que, de forma ora mais velada, ora mais explícita, tende a instigar a ideia de que a vacina contra a covid-19 é “uma experiência terapêutica” sem validade científica.

Como é do conhecimento dos nossos leitores, o PÚBLICO é um jornal que cultiva e estimula a diferença de opiniões que alimenta as sociedades democráticas. Mas há padrões e valores que não podem ser cedidos em nome do pluralismo. Numa questão tão sensível como a da pandemia, recusamos em absoluto promover juízos que tendem a negar a importância ou o relativo consenso científico em torno das vacinas.

Por isso errámos ao publicar o texto e por isso agimos com a celeridade possível para corrigir esse erro, despublicando o artigo em questão e pedindo desculpas aos nossos leitores pelo sucedido."


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As experiência terapêuticas (clinical trials) têm validade científica e são a única via para descobrir novos fármacos e testar novas técnicas cirúrgicas em Medicina.

Mas estamos no campo da investigação científica, do desconhecido: os participantes devem ser voluntários, ser informados de todos os riscos conhecidos e assinar um consentimento informado.

Sobretudo, em caso de algo correr mal, deve ser-lhes assegurado todos os tratamentos que forem possíveis para lhes salvar a vida em hospitais bem geridos, de preferência à escolha de cada voluntário, onde sejam tratados como seres humanos mesmo os que já tenham ultrapassado os 65 anos de idade.

Nada disto aconteceu na campanha da vacinação contra a COVID-19 em Portugal, onde se chegou ao ponto de exercer censura política, por via da comunicação social, sobre artigos de opinião de médicos. Não esqueçamos que o governo António Costa prometeu comprar publicidade no valor de 15 milhões de euros aos jornais por causa da pandemia.
Com os media comprados, a campanha de vacinação portuguesa terá sido uma das campanhas mais opacas que ocorreram em países da União Europeia.


sexta-feira, 10 de abril de 2020

COVID-19: A ameaça chinesa


Os políticos europeus andaram distraídos e, só agora, quando o coronavírus entrou no espaço da União Europeia e começou a matar dezenas de milhares de pessoas, em Itália e em Espanha, se aperceberam que estavam completamente dependentes da China para importação de equipamento de protecção individual para os profissionais de saúde e até de medicamentos.
Mesmo Angela Merkel, a mais atenta, só reagiu, alertando políticos de outros países — como, por exemplo, Portugal aquando da OPA da China à EDP — porque o Estado Chinês começou a querer apoderar-se das empresas europeias de energia eléctrica, o que depositaria a economia europeia nas mãos da China.

Este artigo divulgado no Jornal de Negócios é um dos primeiros alertas que aparecem na comunicação social portuguesa sobre a ameaça chinesa:

Brahma Chellaney
23 de Março de 2020 às 14:00

A pandemia covid-19 trouxe a lume os custos do crescente autoritarismo de Xi. Deveria ser uma chamada de atenção para os líderes políticos e empresariais que aceitaram durante demasiado tempo a ampliação da sombra da China sobre as cadeias globais de abastecimento.

O novo coronavírus, covid-19, já se propagou a mais de 100 países — provocando perturbações sociais, prejuízos económicos, enfermidades e mortes — em grande medida devido ao facto de as autoridades na China, país onde surgiu, terem inicialmente ocultado informação sobre o mesmo. E, ainda assim, a China está agora a agir como se a sua decisão de não limitar as exportações de ingredientes farmacêuticos activos (API, na sigla em inglês) e material médico — dos quais é a maior fornecedora mundial — fosse um acto generoso e assente em princípios, merecedor da gratidão do mundo.

Quando tivemos as primeiras evidências clínicas de que tinha surgido em Wuhan um novo vírus mortal, as autoridades chinesas não advertiram, durante semanas, a população, tendo hostilizado, repreendido e detido aqueles que o fizeram. Esta abordagem não constitui qualquer surpresa: a China tem uma longa história de "matar o mensageiro". Os seus líderes ocultaram a SARS (síndrome respiratória aguda grave), que foi outro coronavírus, durante mais de um mês depois de este surgir em 2002, e mantiveram sob custódia militar, durante 45 dias, o médico que denunciou a situação. A SARS acabou por afectar mais de 8.000 pessoas em 26 países.

Desta vez, a propensão do Partido Comunista Chinês (PCC) para o secretismo foi reforçada pela avidez do presidente Xi Jinping de ser visto como um homem forte que tem tudo sob controlo, apoiado por um PCC fortificado. No entanto, tal como sucedeu com a epidemia da SARS, os líderes chineses não conseguiriam esconder as coisas durante muito mais tempo. Assim que os casos de covid-19 associados a Wuhan começaram a ser detectados na Tailândia e na Coreia do Sul, eles não tiveram outra alternativa se não reconhecer a epidemia.

Cerca de duas semanas depois de Xi ter rejeitado a recomendação de cientistas para declarar estado de emergência no país, o governo anunciou fortes medidas de contenção, incluindo colocar milhões de pessoas em isolamento. Mas já era demasiado tarde: muitos milhares de chineses já estavam infectados com covid-19 e o vírus rapidamente se disseminou a nível internacional. O conselheiro norte-americano de segurança nacional, Robert O’Brien, disse que a ocultação inicial por parte da China "terá provavelmente custado à comunidade mundial dois meses para reagir", o que exacerbou o surto global.

Além da escalada global da emergência de saúde pública, que já ceifou a vida a milhares de pessoas, a pandemia perturbou o comércio e as viagens, obrigou muitas escolas a encerrarem, agitou o sistema financeiro internacional e afundou as bolsas a nível mundial. Com os preços do petróleo a mergulhar, parece iminente uma recessão global.

Nada disto teria acontecido se a China tivesse reagido rapidamente às evidências do novo vírus mortal, advertindo a população e implementando medidas de contenção. Com efeito, Taiwan e o Vietname mostraram a diferença que uma resposta proactiva pode fazer.

Taiwan, retirando lições da sua experiência com a SARS, instituiu medidas preventivas, incluindo inspecções aos voos, antes de os líderes chineses terem sequer admitido o surto. Da mesma forma, o Vietname suspendeu rapidamente os voos provenientes da China e encerrou todos os estabelecimentos de ensino. Ambas as respostas reconheceram a necessidade de transparência, incluindo actualizações sobre o número e localização das infecções e também conselhos à população sobre como se proteger da covid-19.

Graças às políticas dos seus governos, tanto Taiwan como o Vietname — que recebem normalmente muitos viajantes diários provenientes da China — conseguiram manter o número de casos abaixo de 50. Os países vizinhos que foram mais lentos a implementar medidas similares, como o Japão e a Coreia do Norte, foram afectados mais duramente.

Se qualquer outro país tivesse desencadeado uma crise desta dimensão, tão mortal e sobretudo evitável, seria agora um pária mundial. Mas a China, com a sua enorme influência económica, tem escapado, em grande medida, à censura. Contudo, o regime de Xi terá de se esforçar bastante para recuperar o seu posicionamento a nível nacional e internacional.

Talvez seja por isso que os líderes chineses estão a congratular-se publicamente por não limitarem as exportações de material médico e APIs usados para produzir medicamentos, vitaminas e vacinas. Se a China decidisse banir essas exportações para os Estados Unidos, tal como sublinhou recentemente a agência noticiosa Xinhua, os EUA estariam "mergulhados num gigantesco mar de coronavírus". A China, insinua o artigo, teria justificações para tomar essa decisão. Se o fizesse, estaria muito simplesmente a retaliar contra as medidas "cruéis" dos Estados Unidos tomadas depois do surgimento da covid-19, tais como restringir a entrada no país de chineses e estrangeiros que tivessem visitado a China. É ou não verdade que o mundo tem muita sorte por a China não ser assim tão mesquinha?

Talvez. Mas não há qualquer razão para acreditar que a China não será mesquinha no futuro. Afinal de contas, os líderes chineses têm um historial de suspender outras exportações estratégicas (tais como minerais de terras-raras) para castigarem países que os desafiaram.

Além disso, esta não foi a primeira vez que a China pensou em transformar numa arma a sua dominância no fornecimento global de material médico e APIs. No ano passado, Li Daokui, um proeminente economista chinês, sugeriu que se reduzisse as exportações de ingredientes farmacêuticos activos para os Estados Unidos como contramedida na guerra comercial. "Assim que estas exportações sejam reduzidas, o sistema médico de alguns países desenvolvidos deixará de funcionar", sublinhou Li.

E não era um exagero. Um estudo realizado pelo Departamento norte-americano do Comércio concluiu que 97% de todos os antibióticos vendidos nos EUA provêm da China. "Se vocês forem chineses e quiserem de facto destruir-nos, basta que deixem de nos enviar antibióticos", salientou no ano passado Gary Cohn, que foi o principal conselheiro económico do presidente norte-americano, Donald Trump.

Se o fantasma de a China explorar a sua força farmacêutica para fins estratégicos não for suficiente para levar o mundo a repensar as suas dispendiosas decisões de "outsourcing", então a perturbação não intencional das cadeias de abastecimento globais devido à covid-19 deveria ser. Com efeito, a China registou um declínio involuntário na produção e exportação de APIs desde o surto – e esse facto restringiu o fornecimento mundial e fez disparar os preços de medicamentos vitais.

Isso já forçou a Índia, maior fornecedor mundial de medicamentos genéricos, a restringir as suas próprias exportações de alguns medicamentos mais habitualmente consumidos. Perto de 70% dos APIs para medicamentos fabricados na Índia provêm da China. Se as instalações farmacêuticas da China não regressarem em breve à plena capacidade, o mais provável é que assistamos a uma severa escassez de medicamentos a nível global.

A pandemia covid-19 trouxe a lume os custos do crescente autoritarismo de Xi. Deveria ser uma chamada de atenção para os líderes políticos e empresariais que aceitaram durante demasiado tempo a ampliação da sombra da China sobre as cadeias globais de abastecimento. O mundo só conseguirá manter-se a salvo das patologias políticas da China se afrouxar o poder daquele país sobre as redes globais de fornecimento – a começar pelo sector farmacêutico.


Brahma Chellaney, professor de Estudos Estratégicos no Centro de Investigação Política em Nova Deli e membro da Academia Robert Bosch em Berlim, é autor de nove livros, incluindo Asian Juggernaut, Water: Asia’s New Battleground, e Water, Peace, and War: Confronting the Global Water Crisis.


Direitos de autor: Project Syndicate, 2020.
www.project-syndicate.org

Tradução: Carla Pedro


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A equipa política que delineou a estratégia eleitoral do Partido Republicano nas eleições presidenciais de 2017, e conseguiu fazer eleger Donald Trump, foi o primeiro grupo de políticos ocidentais a aperceber-se do perigo que a China representava para as economias ocidentais e, em especial, para a economia dos Estados Unidos da América.

Os quadros interactivos seguintes discriminam as exportações e as importações da China relativamente aos EUA:


O que a China exporta para os Estados Unidos? (2017)




O que a China importa dos Estados Unidos? (2017)




A primeira conclusão é a existência de um enorme desequilíbrio entre as exportações e as importações que beneficiou a China, em 2017, com um superavit no valor de 344 mil milhões de dólares:

Saldo da balança comercial = Exportações - Importações = 477-133 = 344 mil milhões de dólares

Os valores mais preocupantes para os EUA encontram-se, porém, no domínio da saúde. A China vende, por exemplo, $824 milhões de vitaminas (isolar ícone Chemical Products) aos EUA, mas compra-lhes uma insignificância de $59 milhões. Em relação a antibióticos (ver quadros abaixo), as exportações chinesas sobem até 209 milhões, enquanto as importações não ultrapassam 92 milhões, ou seja, menos de metade.

No entanto, relativamente aos antibióticos a situação torna-se deveras grave nas exportações globais, com as exportações chinesas a atingirem $3,4 mil milhões ao passo que as importações não vão além de $521 milhões. O mundo refém da China:


Para onde a China exporta antibióticos? (2017)



De onde a China importa antibióticos? (2017)




Foi preciso a União Europeia tornar-se no epicentro da epidemia provocada pelo SARS-CoV-2, um vírus que parece ter surgido num mercado de peixe e animais selvagens chinês, para os europeus começarem a olhar para a invasão chinesa com menos benevolência.

Só não temos a certeza sobre qual o regime que a China pretende impor ao mundo: uma ditadura socialista de estilo soviético ou o tipo de capitalismo selvagem que existe na China, com a população menos culta transformada em novos escravos que nem sequer têm direito a usufruir de um sistema nacional de saúde, excepto no caso de epidemias que ponham em perigo a produção de bens e serviços.

Este artigo despoletou toda a espécie de comentários, desde fanáticos que anseiam pelo domínio do Partido Comunista Chinês até a leitores já conscientes da ameaça chinesa:

fcj
Mais um malandro a incendiar o regime que, muito brevemente, vai conduzir o rumo de toda a actividade humana!

helmarques
Este homem não bate bem, dizer isto da mãe China? E ainda mais este jornal publicar leva-me a pensar que anda tudo maluco. Que coragem deste senhor escrever isto, eu aqui na Europa rodeado de sábios e nunca me tinha passado pela cabeça porque nunca li nada sobre isto, "ingredientes farmacêuticos activos (API, na sigla em inglês) e material médico" que a China dominava o mercado mundial e poderão levar os EUA a desgraça, claro que depois terão que sofrer consequências, mas isso será outro assunto. O dragão já despertou e pelos vistos é insaciável, o mundo dominado pelo PPChinês e pelos seus soldados chineses, é o que afirmam dissidentes chineses. Quase passo a crer que o vírus foi feito por humanos.

Ser ingénuo é muito perigoso
Que ninguém tenha dúvidas de que a China está por detrás da actual pandemia, dum modo programado e metódico, com o fim último e principal de destruir a Civilização Ocidental.
Xi Jinping já marcou a meta de 2049 (centenário da criação do PCChinês) para dominar e impor o seu regime a todo o mundo.

Anónimo
O Trump pode ter muitos defeitos mas o Xi é cem vezes pior, é mesmo uma ameaça para o planeta. Durante a epidemia na China o Xi disse que todos os países que fechassem as linhas aéreas à China eram inimigos dos chineses. A UE deixou as portas grandes abertas e o resultado está à vista.

Anónimo
O melhor que os europeus podem fazer é evitar comprar produtos produzidos na China. Não irem às lojas chinesas, comprarem produtos, mesmo mais caros, mas nacionais ou produzidos na Europa. Talvez assim a ditadura chinesa mude de discurso.

Anónimo
Notícia da Antena 1 de hoje, 25/03, "testes rápidos para o coronavírus que a Espanha comprou à China não funcionam".
Será que alguém tem ainda alguma dúvida de que tudo quanto vem daquele sinistro país não presta?
A própria disseminação do vírus da China tem talvez uma história negra por detrás.


sexta-feira, 20 de março de 2020

Mensagem de Angela Merkel sobre a COVID-19


Angela Merkel dirigiu-se aos cidadãos alemães para explicar as restrições e apelar a que cada um se isole e distancie como meio de travar a pandemia do novo coronavírus:




“Caros cidadãos,

O coronavírus está a mudar dramaticamente as nossas vidas, a nossa compreensão da normalidade, da vida pública, da união social — tudo está a ser testado como nunca antes. Milhões de vós não podem ir trabalhar, os vossos filhos não podem ir à escola, ao jardim de infância. Teatros, cinemas e lojas estão fechados e o que é talvez mais difícil: todos sentimos falta dos encontros sociais que, noutras circunstâncias, tomávamos como reconhecidos.

Claro que, cada um de nós tem muitas perguntas e preocupações em tal situação sobre os próximos dias. Dirijo-me hoje a si desta maneira invulgar, porque quero dizer-lhe o que me guia — como chanceler — e a todos os meus colegas do governo federal nesta situação.

Isto faz parte do que é uma democracia aberta: que tomamos decisões políticas transparentes e as explicamos, que nos justificamos e comunicamos as nossas acções da melhor maneira possível para que as pessoas sejam capazes de compreendê-las. Acredito firmemente que passaremos este teste, se realmente todos os cidadãos o virem como tarefa deles.

Deixem-me dizer: Isto é sério, por favor leve a sério também. Desde a reunificação alemã, não, desde a Segunda Guerra Mundial, não houve outro desafio ao nosso país em que a nossa acção solidária seja tão importante. Quero explicar a nossa posição actual na epidemia, o que o governo federal e os governos estaduais estão a fazer para proteger todos na nossa comunidade e para limitar os danos económicos, sociais e culturais. Mas também quero dizer-lhe por que a sua actuação é necessária e o que cada um e todos podem fazer para ajudar.

No que diz respeito à epidemia, as informações baseiam-se em consultas constantes do governo federal ao Instituto Robert Kock e a outros cientistas e virologistas: estão a decorrer pesquisas intensas em todo o mundo mas ainda não há tratamento, nem vacina contra o coronavírus.

Enquanto for este o caso — e esta é a diretriz de toda a nossa actuação — só há uma coisa a fazer: retardar a propagação do vírus, aplanar a curva durante vários meses e ganhar tempo. Tempo para a ciência desenvolver medicamentos e vacinas. Mas, acima de tudo, tempo para que aqueles que adoecerem possam ser tratados da melhor maneira possível.

A Alemanha possui um excelente Sistema Nacional de Saúde, talvez um dos melhores do mundo. Podemos sentir confiança. Mas até os nossos hospitais ficariam completamente sobrecarregados se, em pouco tempo, demasiados pacientes fossem admitidos sofrendo sintomas graves de uma infecção pelo vírus.
Estes não são números abstractos em estatística, mas um pai ou avô, uma mãe ou avó, um parceiro — são pessoas. E nós somos uma comunidade em que toda a vida e todo o ser humano conta.

Nesta oportunidade, quero abordar primeiro aqueles que são médicos, trabalham em enfermagem ou nos hospitais ou em trabalho geral na saúde pública. Nesta batalha vós estais na linha da frente, sois os primeiros a ver os doentes e quão severas são algumas infecções. E todos os dias ides trabalhar de novo e estais lá para as pessoas. O que vos realizais é tremendo e agradeço-vos do fundo do meu coração por isso.

Então o objectivo é diminuir a velocidade do vírus na Alemanha. E com isto — isto é existencial — devemos definir uma coisa: reduzir ao máximo a vida pública. Claro que dentro da razão e com a perspectiva — o país continuará a funcionar — naturalmente os fornecimentos serão garantidos continuamente. E queremos preservar o máximo de actividade económica possível. Mas qualquer coisa que possa ameaçar pessoas, qualquer coisa que possa ameaçar o indivíduo ou a comunidade, isso temos de reduzir agora. Temos que limitar o risco de que uns possam afectar os outros, tanto quanto possível.

Sei quão dramáticas as restrições já são, nenhum evento, nenhuma feira, nenhum espectáculo e, por enquanto, nem escola, nem universidade, nem jardim de infância, nem brincar em recreios.

Sei quanto os encerramentos — com os quais os governos federal e estaduais concordaram — interferem na nossa vida e também na nossa auto-imagem democrática. São restrições como nunca existiram nesta república. Deixe-me garantir-lhe — por alguém para quem a liberdade de viajar e de movimento foram direitos tediosamente lutados —
essas restrições são justificáveis apenas em situação excepcional. Numa democracia nunca deveriam ser descuidados e apenas ser adoptados temporariamente.

Mas agora são indispensáveis para salvar vidas por isso, desde início da semana, verificações nas fronteiras e limitações de entrada estão em vigor. Para a economia, para as grandes empresas e as pequenas empresas, para lojas, restaurantes, freelancers já é muito difícil e as próximas semanas serão ainda mais difíceis.

Asseguro-vos que o governo federal faz tudo ao seu alcance para aliviar as consequências económicas e especialmente preservar empregos. Podemos e vamos utilizar tudo que for preciso para ajudar as nossas empresas e trabalhadores neste teste difícil. E todos podem confiar no fornecimento de alimentos a qualquer momento. Se as prateleiras forem esvaziadas num dia, serão reabastecidas. Para todos os que fazem compras nos supermercados, quero dizer: o armazenamento é sensato — aliás, sempre foi — mas em grau mensurável. Acumular como se nunca mais houvesse de novo, é inútil e completa ausência de solidariedade.

E, neste momento, deixem-me agradecer a pessoas que raramente recebem agradecimentos. Quem hoje em dia está sentado num terminal de caixa ou reabastece as prateleiras, presta um dos trabalhos mais difíceis agora. Obrigada por estarem aí para os vossos concidadãos e literalmente manterem a loja (o espectáculo) a funcionar.

Agora, para o assunto que é mais urgente para mim: todas as medidas governamentais seriam desprovidos de propósito, se não utilizássemos os meios mais eficazes contra a propagação demasiado rápida do vírus. E isso é: nós próprios. Tão indiscriminadamente como cada um de nós pode ser afectado pelo vírus, assim cada um deve ajudar.

Primeiro levando o assunto de hoje sério. Não entre em pânico, mas nem por um momento pense que eles não desempenham um papel. Ninguém é dispensável.

Todos contam. Requer esforço de todos nós. É isso que uma epidemia nos mostra quão vulneráveis todos somos, quão dependente do comportamento atencioso dos outros, mas também como através de acções comuns podemos protegermo-nos e fortalecemo-nos uns aos outros.

Todos contam. Não somos condenados a levar a propagação do vírus passivamente. Temos um remédio contra ele. Temos que — por consideração — manter as distâncias uns dos outros. O conselho dos virologistas não é ambíguo. Nenhum aperto de mão, lavagem cuidadosa e frequente das mãos, pelo menos 1,5 m de distância uns dos outros e contacto idealmente escasso com os mais velhos porque eles estão especialmente em risco.

Sei quantos estes pedidos são difíceis para nós. Especialmente em tempos de angústia queremos estar perto dos outros, sabemos cuidar com proximidade corporal ou toque mas, de momento, infelizmente o oposto é que está certo.
Todos precisamos de entender realmente isto: de momento apenas a distância é expressão de cuidado. A visita bem intencionada, a viagem que não era necessária, tudo iso pode significar infecção e realmente agora não deve ocorrer. Existe uma razão pela qual os especialistas dizem: avós e netos não devem encontrar-se. Aqueles que evitam encontros desnecessários ajudam todos os que, em hospitais, têm de cuidar diariamente mais casos. É assim que salvamos vidas.

Vai ser difícil para muitos e nisso dependerá — para não deixar ninguém sozinho — cuidar daqueles que precisam de conforto e confiança. Como famílias e sociedade encontraremos outras formas de apoiarmo-nos uns aos outros.

Já existem muitas formas criativas que enfrentam o vírus. Já existem netos que gravam um podcast para os avós para que não estejam sozinhos. Todos temos que encontrar maneiras de mostrar carinho e amizade — Skype, telefonemas, e-mails — e talvez escrevendo cartas novamente, o correio está a ser entregue apesar de tudo.
Ouve-se exemplos maravilhosos de ajuda de vizinhos aos idosos que não podem fazer compras por eles próprios. Tenho a certeza de que é possível mais. Vamos mostrar como sociedade que não abandonamos os outros.

Apelo a si: respeite as regras que se aplicam nos tempos mais próximos. Nós, como governo, examinaremos constantemente o que pode ser corrigido mas também o que pode ser necessário em adição. Esta é uma situação dinâmica e continuaremos aptos a aprender, ser capaz de repensar e responder com outras ferramentas a qualquer momento.

Também vamos explicar isso. Por isso, peço-lhe: não acredite em boatos! Mas apenas em mensagens oficiais que também traduzimos em várias línguas. Nós somos uma democracia, não vivemos a ser forçados mas compartilhando conhecimento e colaboração. Esta é uma tarefa histórica que pode ser superada se a enfrentarmos juntos.

Tenho a certeza absoluta que vamos superar esta crise. Mas quantas vítimas exigirá? Quantos entes queridos vamos perder? A resposta, em grande parte, está nas nossas próprias mãos. Agora podemos tomar acções decisivas todos juntos. Podemos aceitar as restrições actuais e apoiarmo-nos uns aos outros.

A situação é grave e o resultado incerto. O nosso sucesso depende também, em larga medida, de quão disciplinados cada um de nós for no cumprimento das regras. Mesmo que isto seja algo quem nunca experimentámos antes, devemos mostrar que podemos actuar calorosa e racionalmente — e assim salvar vidas.

Depende de cada um e de todos nós fazer isto, sem qualquer excepção. Cuide de si e dos seus entes queridos. Obrigada."


****
*


No momento em que se vive a maior crise do século XXI no mundo ocidental, esta mensagem de Angela Merkel aos alemães projecta-a para o topo dos estadistas mundiais. É a líder perfeita não só para a Alemanha, como também a escolha certa para um governo da União Europeia.

Se já existisse um governo Europeu chefiado por esta Política (com letra maiúscula), dezenas de milhares de vidas seriam poupadas pela COVID-19 entre a população europeia. Nas próximas eleições legislativas para um governo europeu, exijo poder votar em Angela Merkel.


Ver outros comentários aqui:

DERRIC News
"at the moment, only distance is expression of care" what a historic sentence.

Steve Penney
I envy Germany, for having this level of compassionate leadership.

Richard Wells
How good it must be to have an intelligent, compassionate leader.

Damiano Benzoni
As a foreigner living in Germany and learning German, thanks a lot. This was a great service for us.

Leonardo Diehl
How about we forget our country's boundaries for a moment, and start looking for ourselves as a whole planet through this fight?
Merkel already has my vote as our leader.

Tradução:

DERRIC News
"no momento, apenas a distância é expressão de cuidado carinhoso", que frase histórica.

Steve Penney
Invejo a Alemanha por ter este nível de liderança compassiva.

Richard Wells
Quão bom deve ser ter um líder inteligente e compassivo.

Damiano Benzoni
Como estrangeiro vivendo na Alemanha e aprendendo alemão, muito obrigado. Este foi um óptimo serviço para nós.

Leonardo Diehl
Que tal esquecermos as fronteiras do nosso país por um momento e começarmos a olhar para nós como um planeta inteiro por via desta luta?
Merkel já tem o meu voto para nossa líder.


sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Catalunha: vitória do Cidadãos não retira maioria aos independentistas



O partido Cidadãos venceu as eleições regionais na Catalunha com 25,4% dos votos e 37 deputados. Pela primeira vez em doze eleições autonómicas, o partido vencedor não é independentista.




.@InesArrimadas "Hoy podemos decir que somos los ganadores de las elecciones en Cataluña; decían que era imposible y juntos lo hemos conseguido"
.@InesArrimadas "Hoy 1.100.000 valientes han apostado por la unión y han demostrado que la mayoría social catalana se siente catalana, española y europea"
.@InesArrimadas "Incluso con esta ley electoral injusta vamos a seguir luchando por la convivencia, el sentido común y una Cataluña de todos los catalanes; y a partir de hoy lo haremos con más escaños y más fuerza"
@Albert_Rivera "Quiero agradecer a ese 1.100.000 de catalanes que han salido hoy a votar, han cogido su papeleta naranja y que forman parte de esa victoria de @CiutadansCs"
@Albert_Rivera "Estoy orgulloso de presidir este partido; no por los escaños ni votos, sino por la gente que forma parte de esto: gente preparada, valiente y capacitada para liderar el futuro de este país"
.@Albert_Rivera "España tiene que derrotar al nacionalismo en las urnas y tener un proyecto de futuro que ilusione a todos los españoles"
.@Albert_Rivera "La victoria de hoy es de Cataluña, de una España unida y de una Europa fuerte; Visca Catalunya! Visca Espanya! Visca Europa!"


Sendo o Cidadãos um partido de direita, se ganhou numa região que vota tradicionalmente na esquerda, foi justamente por apelar à união de todos os catalães e propor a permanência da Catalunha na Espanha e na União Europeia.
No total, o bloco unionista — Cidadãos, PSC, Comum Podemos e PP — reúne 2,21 milhões de votos e 65 mandatos.

O bloco independentista formado por Juntos pela Catalunha, ERC e CUP perdeu dois mandatos face às eleições de Setembro de 2015, caindo para 70 deputados, mas mantém a maioria absoluta no parlamento catalão que tem 135 lugares. Obteve 2,06 milhões de votos.

Além disso, apesar de então terem concorrido coligados, Juntos pela Catalunha e ERC obtiveram agora mais quatro mandatos, alcançando 66 deputados. Portanto mais um do que o bloco unionista.
Mesmo assim, precisam do apoio dos 4 deputados que restam à CUP (perdeu seis mandatos) para assegurarem uma maioria absoluta no parlamento. Ora esta força de extrema-esquerda só aceita viabilizar um governo catalão que entre em confronto com o governo de Espanha.

Os conservadores do Partido Popular, ao perderem oito mandatos, obtendo apenas 3 deputados, são os grandes derrotados. Além de que, depois de suspender a autonomia catalã, destituir o governo de Puigdemont e convocar eleições antecipadas, Mariano Rajoy esperava obviamente uma vitória das forças defensoras da ordem constitucional.

Depois de Madrid ter recorrido, pela primeira vez, ao artigo 155 da Constituição de Espanha que permite a suspensão da autonomia de uma região, o eleitorado catalão mobilizou-se e 82% dos 5,5 milhões de eleitores foram às urnas, a mais alta taxa de afluência em eleições regionais na Catalunha.
A deriva do eleitorado para o bloco unionista deu-lhe a maioria dos votos mas não se traduziu na maioria de mandatos que devolveria a paz social à região autónoma.


terça-feira, 23 de maio de 2017

Terror em Manchester


Ontem à noite, pelas 22:35, ocorreu uma explosão em Manchester no final de um espectáculo da cantora pop norte-americana Ariana Grande que decorreu na Manchester Arena.

A polícia de Manchester apenas quantificou o número de vítimas já na madrugada desta terça-feira — 19 vítimas mortais e cerca de 50 feridos —, informando no tweet que estavam a tratar a situação como um "incidente terrorista" até prova em contrário:



O ataque foi perpetrado no átrio de entrada da Manchester Arena, estando cerca de 21 mil pessoas nas imediações quando ocorreu a explosão que envolveu um dispositivo caseiro cheio de porcas e parafusos. O grupo terrorista Estado Islâmico já reivindicou o ataque.

Várias zonas ficaram interditas, afectando os transportes na cidade. A estação de comboios de Vitória, que comunica com a Arena, foi encerrada.





A polícia de Manchester actualizou o número de vítimas, esta manhã, subindo para 22 mortos e 59 feridos.

"Temos estado a tratar isto como um incidente terrorista e acreditamos, nesta etapa, que o ataque foi conduzido por um homem. A prioridade é estabelecer se actuou sozinho ou como parte de uma rede.

O atacante, podemos confirmar, morreu na arena. Acreditamos que o atacante carregava consigo um dispositivo explosivo improvisado, que detonou, causando esta atrocidade
”, afirma o comunicado da polícia, em que as autoridades pedem às pessoas para não especular.

A nossa prioridade é trabalhar com os serviços secretos britânicos e de contra-terrorismo para encontrar mais detalhes sobre o indivíduo que conduziu este ataque”, acrescentam as autoridades.



Entretanto a comunicação social começou a divulgar a identidade de algumas vítimas, entre as quais uma criança de 8 anos, e do bombista suicida. Chama-se Salman Abedi e tem 22 anos. A polícia de Manchester confirmou, com reticências:



Nascido em Manchester em 1994, Salman Abedi é o segundo mais novo dos quatro filhos de um casal de refugiados líbios que vieram para o Reino Unido para escapar ao regime do coronel Muammar Gaddafi.

Abedi frequentou a escola local e foi para a universidade de Salford, em 2014, onde estudou gestão antes de desistir. Usava vestes islâmicas e costumava rezar numa mesquita local que, no passado, foi acusada de angariação de fundos para os jihadistas.

O irmão mais velho, Ismail Abedi, foi professor na escola do Corão da mesquita de Didsbury. Segundo o imã, Salman havia-lhe mostrado recentemente "o rosto do ódio" quando deu uma palestra alertando para os perigos do chamado Estado Islâmico.

A mãe, Samia Tabbal, de 50 anos, e o pai, Ramadan Abedi, um agente de segurança, nasceram em Trípoli mas terão emigrado, primeiro para Londres e, mais tarde, para a zona de Whalley Range, no sul de Manchester.

Pensa-se que, em 2011, após a derrota de Gaddafi, os pais retornaram para a Líbia, mas as viagens que Salman Abedi fez para o país de origem da família estão agora a ser objecto de investigação.

Alguns dissidentes de Gaddafi que eram membros do Grupo Islâmico Líbio de Combate (LIFG), entretanto ilegalizado, viveram nas proximidades dos Abedi em Whalley Range.

Entre eles, encontrava-se Abd al-Baset Azzouz, pai de quatro filhos, que deixou Manchester para dirigir uma rede terrorista na Líbia supervisionada por Ayman al-Zawahiri, o sucessor de Osama bin Laden na liderança da Al-Qaeda. Azzouz, 48 anos, especialista em bombas, foi acusado de dirigir uma rede da Al-Qaeda no leste da Líbia, em 2014.

Outro membro da comunidade líbia em Manchester, Salah Aboaoba, disse ter angariado fundos para o LIFG, em 2011, justamente na mesquita de Didsbury. Na época, o porta-voz da mesquita negou veementemente a reivindicação: "Esta é a primeira vez que ouço falar do LIFG. Não conheço Salah".

Agora, Mohammed Saeed El-Saeiti, o imã da mesquita de Didsbury, apontou Salman Abedi como um extremista perigoso: "Salman mostrou-me o rosto de ódio depois do meu discurso sobre o Ísis (...) Não é uma surpresa para mim".

A polícia atacou a casa da família às 11:30 desta manhã. De acordo com moradores da rua, 2 helicópteros e pelo menos 30 polícias camuflados, com equipamentos anti-motim e escudos, participaram no ataque.
Removeram a cerca de madeira entre duas propriedades. Colaram uma tira preta na porta e provocaram uma explosão. A porta soltou-se das dobradiças e as janelas tremeram. O ataque durou 90 segundos.

"Não os vi trazer ninguém para fora da casa. Acredito que estava vazia”, disse um vizinho.


*


Depois dos movimentos da Primavera árabe derrubarem os governantes da Tunísia e do Egipto para elegerem regimes islâmicos, começou uma revolta na Líbia, em 17 de Fevereiro de 2011, mas o ditador líbio Muammar Kadhafi resistiu.

Dez dias depois, foi criado um Conselho Nacional de Transição para administrar as áreas da Líbia sob controle dos rebeldes, prontamente reconhecido pela França, em 10 de Março, como o representante legítimo do povo líbio.

As forças pró-Gaddaffi responderam militarmente aos ataques rebeldes na Líbia ocidental — a cidade de Zawiya, a 48 km de Tripoli, foi bombardeada por aviões da força aérea e conquistada por tanques do exército — e lançaram um contra-ataque ao longo da costa na direcção leste, até Benghazi, o centro da rebelião.

Tanto o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, como o Conselho de Direitos Humanos da ONU condenaram estas acções militares, sob a acusação de violarem o direito internacional, tendo este último organismo expulsado a Líbia, atitude incentivada pela própria delegação da Líbia na ONU.

Em 17 de Março, o Conselho de Segurança da ONU aprovou a Resolução 1973 com 10 votos a favor dos membros permanentes Estados Unidos, França e Reino Unido e, ainda, da Bósnia-Herzegovina, Colômbia, Gabão, Líbano, Nigéria, África do Sul e Portugal e 5 abstenções dos restantes membros (Rússia e China, membros permanentes, e ainda Índia, Brasil e Alemanha).
Esta resolução sancionou o estabelecimento de uma zona de exclusão aérea e o uso de "todos os meios necessários" para proteger os civis dentro da Líbia.

Dois dias depois, a NATO começou a destruir as defesas aéreas da Líbia quando jactos militares franceses entraram no espaço aéreo da Líbia e atacaram alvos considerados inimigos.
Em seguida, entraram em acção as forças americanas. Mais de 8000 militares americanos foram destacados para a área em navios de guerra e aviões. A ofensiva aérea americana incluiu vôos de bombardeiros B-2 Stealth, cada bombardeiro armado com dezasseis bombas de 0,9 tonelada, saindo e retornando à base no Missouri, Estados Unidos.

Em 22 de Agosto, os rebeldes entraram em Trípoli e ocuparam a Praça Verde, rebaptizada Praça dos Mártires em homenagem aos seus mortos. Os últimos combates ocorreram na cidade de Syrte, onde Gaddafi foi capturado e morto em 20 de Outubro de 2011. Pelo menos 30 mil líbios morreram na guerra civil.

A seguir começou a segunda guerra civil da Líbia, agora entre as milícias armadas dos diferentes grupos rebeldes, o mais poderoso dos quais é o Estado Islâmico.

Passado algum tempo, formaram-se as máfias líbias que enchem embarcações frágeis com imigrantes, oriundos de países africanos a sul do Saará, e enviam-nos para Itália. Iniciava-se a invasão islâmica da Europa pelo corredor ocidental.

Quem foram os políticos responsáveis pelo Conselho de Segurança da ONU ter sido favorável à intervenção militar na Líbia que não só desestabilizou este país, como também a União Europeia?
Em 2011, a França era presidida por Nicolas Sarkozy.
No Reino Unido governava o primeiro-ministro David Cameron.
A presidência dos Estados Unidos estava nas mãos de Barack Obama e na Secretaria de Estado alinhava Hillary Clinton.

Quantas mais crianças e jovens vão ter de morrer até conseguirmos perceber que o pior tipo de ditadura é o terror promovido pelo fanatismo islâmico?


terça-feira, 12 de julho de 2016

A nova opção de carreira de Durão Barroso


José Manuel Durão Barroso, antigo presidente da Comissão Europeia, vai assumir o cargo de presidente do Conselho de Administração do Goldman Sachs International.

O Goldman Sachs International (GSI) anunciou a nomeação de José Manuel Durão Barroso para chairman desta instituição financeira que é a unidade do banco norte-americano em Londres.

"José Manuel [Durão Barroso] traz imensos conhecimentos e experiência para o Goldman Sachs, incluindo uma compreensão profunda da Europa. Estamos ansiosos por trabalhar com ele, ao mesmo tempo que continuamos a ajudar os nossos clientes a navegar no ambiente económico e de mercado desafiador e incerto", afirmaram Michael Sherwood e Richard Gnodde, os dois presidentes executivos do GSI, ao comentarem que o ex-primeiro-ministro iria ser o presidente do Conselho de Administração desta instituição financeira.

"Para além desta posição, será também consultor da Goldman Sachs", pode ler-se no comunicado da Goldman Sachs que é a casa mãe do GSI.


*


Indispensável ler este artigo de opinião sobre a escolha de carreira de Durão Barroso no Goldman Sachs, que republicamos com a devida vénia, para que saibamos desviar-nos de duas vias igualmente perigosas — a queda no abismo da ausência de ética ou a senda obscurantista do fanatismo político:


'A última traição de Durão Barroso

João Miguel Tavares 12/07/2016 - 00:15

A nova opção de carreira de Durão Barroso encaixa como uma luva na narrativa da extrema-direita e da extrema-esquerda.

Pode ir? Pode. Devia ir? Obviamente que não. A entrada de Durão Barroso na Goldman Sachs, 21 meses após ter deixado a presidência da Comissão Europeia, mostra ainda menos sentido de Estado do que a sua ida para a presidência da Comissão Europeia, dois anos após ter sido eleito primeiro-ministro de Portugal. E prova mais uma vez aquilo que todos já sabíamos desde 2004: a única coisa que realmente preocupa Durão Barroso é o bem-estar de Durão Barroso.

Sem Durão não teria havido Santana, e sem Santana não teria havido Sócrates — não daquela maneira, pelo menos —, pelo que a dívida que o homem já tinha para com Portugal não há ordenado da Goldman Sachs que possa pagar. Agora fica a acumular dívida portuguesa com dívida europeia: o impacto político da sua ida para chairman da empresa em Londres é enorme, e a UE não merecia ter de lidar com mais isto neste momento. Veja-se o que se disse da sua contratação por essa Europa fora, com Marine Le Pen à cabeça, via Twitter: “Barroso na Goldman Sachs: nenhuma surpresa para quem sabe que a UE não serve os povos, mas a alta finança.” É isto que vai ser dito e repetido até à náusea. A nova opção de carreira de Durão Barroso encaixa como uma luva na narrativa da extrema-direita e da extrema-esquerda. Em boa verdade, nem é preciso ir aos extremos. Ana Catarina Mendes mostrou no sábado o que o PS pensa do assunto: “Durão Barroso foi presidente da Comissão Europeia nos piores anos do projeto europeu. E que prémio podia ele ter? Ficar naquela que foi a principal causadora da destruição dos direitos sociais na União Europeia.”

É claro que definir a Goldman Sachs como “a principal causadora da destruição dos direitos sociais na União Europeia” é absolutamente patético e demonstra como hoje em dia a esquerda do PS e o Bloco de Esquerda diferem tanto entre si quanto Dupond e Dupont. Aliás, se o mundo “neoliberal” fosse tão a preto e branco como o pintam, e a Goldman Sachs o Big Brother do capitalismo planetário, certamente que não teria ficado a arder, como ficou, com 834 milhões de dólares no BES. Ninguém passa a perna à Goldman? Pelos vistos, Ricardo Salgado passou. Mas este não é tempo para discutir subtilezas. Bem ou mal, com argumentos exagerados ou não, a verdade é que a Goldman Sachs se tornou numa sinédoque da selvajaria do mercado de capitais, tanto em Portugal como na China. O seu nome é tóxico, e certamente que Durão Barroso lê suficientes jornais para saber isso.

Assim sendo, por que é que aceitou o convite, quando ainda há dois meses apareceu todo pintalegrete no Expresso a exibir o seu magnífico estatuto na Universidade de Princeton? A justificação que desta vez apresentou ao semanário não é menos patética do que as declarações de Ana Catarina Mendes: “É-se criticado por ter cão e por não ter. Se se fica na vida política é porque se vive à conta do Estado, se se vai para a vida privada é porque se está a aproveitar a experiência adquirida na política.” Uma resposta tão medíocre quanto esta é indigna da sua inteligência — e da nossa. Durão Barroso tem consciência das implicações da sua decisão, mas está-se simplesmente nas tintas. Já Passos Coelho, quando se trata de proteger os da sua tribo, parece não ter consciência de coisa alguma: em vez de fazer como António Costa, que se limitou a um desejo irónico de felicidades, optou por uma longa e palavrosa defesa do ex-presidente da Comissão Europeia. Perdeu uma óptima oportunidade para ficar calado.'


*

Algumas das opiniões relevantes lidas no Público e na sua página no Facebook:

Aníbal Silva
Crítica acutilante e extremamente pertinente. É interessante como a um crítico assumido deste governo e vítima constante de acusações de parcialidade (por artigos de opinião, o que ainda é mais risível) não custa criticar a atual oposição. Pensemos agora quantos dos que se escudam no desempenho do anterior governo para defender o atual seriam capazes de algo semelhante. Pois.

José P.
09:21
Faltou dizer o que vai barroso para lá fazer. Vai para abrir portas, segundo dizem. E portas importantes, portas de presidentes, de primeiros-ministros, de chanceleres e por aí fora. Para entregar de mão beijada os desígnios do projeto europeu aos pés da pior finança. Um ato de virar costas aos cidadãos e abraçar o pior poder, o mais "canalha". Bravo, dr. barroso. JMT tem razão quando diz que para durão não existe mais que o interesse de durão. E ainda um elogio à atitude de Costa. Parabéns, faça mais destes.
  • incorporeo
    Portugal 12:21
    Barroso fica bem a abrir portas. O papel de mordomo assenta-lhe que nem uma luva. E então a farda, nem se fala!

Ricardo Simão
Soure, Coimbra, Portugal - Leiria 09:52
Como alguém dizia a alguns dias atrás, Barroso finalmente sai do armário, nada mais, e demonstra para quem ainda pudesse ter dúvidas do seu carácter como politico. Fica cabalmente demonstrado que para alguns ou para a maioria, fica a questão, a politica é uma ramificação da prostituição.
  • incorporeo
    Portugal 12:18
    Há prostitutas mais dignas, apesar de tudo.

incorporeo
Portugal 12:44
A esquerda trauliteira é ressentida e guarda rancor. Para os seus acólitos, o supremo exercício da sua triste existência é fazer o ataque ao homem, mesmo que, a certas alturas, até diga umas verdades de senso comum, consensuais entre gente minimamente honesta e com alguma noção de ética e de vergonha na cara. Para essa esquerda trauliteira, não importa o que o homem diz. Para a esquerda trauliteira, o que interessa, em primeiro lugar, e único, é aferir os matizes da sua cor política. É, no fim de contas, uma questão de cor. Portanto, a cor é o motivo supremo para engendrar os mais artificiosos argumentos contra o que o homem diz. E quer esta gente governar um povo?
  • Jose
    13:00
    Caro incorporeo tanta verborreia nesta altura do campeonato não lhe parece já um exagero? Que tal responder à pergunta seguinte: ainda queremos uma democracia pluralista cujos eleitos mandam ou rendemo-nos ao fim da democracia pluralista e à obediência a poderes privados?
  • incorporeo
    Portugal 13:01
    Há um episódio dramático da História da África do Sul, no qual o exército inglês menosprezou a capacidade de organização bélica do povo Zulu. Foi dos mais vergonhosos momentos do exército britânico, pois foi dizimado e teve de bater em retirada. Os Zulus identificavam os combatentes ingleses pelo seu uniforme vermelho vivo, e todos o que o usavam foram massacrados. O irónico é que também haviam oficiais ingleses, mas com uniforme castanho escuro. Esses foram poupados, apenas por sorte. Na debandada inglesa, tais sortudos viam os Zulus passar por eles sem lhes fazer nada. São estas as vicissitudes da Cor. A que certos peões da extrema-esquerda se condicionam. É uma limitação algo triste... e caricata! É para levar a sério?
  • incorporeo
    Portugal 13:18
    A Democracia Pluralista não existe em Portugal. Aquela que se diz "democracia pluralista" está tomada pela extrema-esquerda intolerante e tendencialmente totalitária. E esse défice democrático constata-se pela dialéctica da extrema-esquerda contra partidos mais à direita, como o PSD e CDS. Não venha com essa tanga do pluralismo da treta que só legitima as esquerdas. A Social-Democracia está mal representada em Portugal. Mas há muito mais na Social-Democracia que os seus tristes representantes, como Passos, Relvas, Barroso e a clique de oportunistas que também abunda no PS. Portanto, antes de tecer loas à democracia pluralista, há que fazer uma limpeza geral ao nosso regime, que de democrático não tem nada!
  • José P.
    13:27
    Para quem fala tanto convinha informar-se um pouco sobre as palavras que usa. Passos, Relvas e Barroso representantes da social-democracia? Extraordinário, parabéns!
  • Jose
    13:40
    A minha questão não se restringe a Portugal. Temos de responder à questão de saber se os eleitos mandam ou obedecem aos poderes privados. Observamos que os poderes eleitos pela democracia pluralista obedecem aos poderes privados que acumulam as riquezas que os Estados cobram aos contribuintes. Se queremos que a democracia pluralista sirva apenas para cobrar impostos e obedecer aos poderes privados está tudo a correr nesse sentido. Se, ao contrário, queremos que o poder da democracia decida as regras e se faça obedecer então tem de mudar quase tudo ou acaba a democracia pluralista de sufrágio universal, voto secreto, livre e justo.
  • incorporeo
    Portugal 13:41
    José P. Não convém ler os comentários na diagonal. Se ler bem o que escrevi, julgo que dá para perceber que não considero nenhuma dessas criaturas representantes legítimos da Social-Democracia. Nem tão-pouco certas outras criaturas ditas Socialistas que mais não fazem que dar uma péssima imagem do próprio Socialismo. E falo de Portugal, este país de trepadores sem escrúpulos.
  • António Lourenço
    Algures nos pólderes da ordem de Orange! 13:42
    José, eu gosto das democracias em que os eleitos mandam e têm poder. Já decidimos lá em casa, de forma democrática, que vamos jantar todos os dias a sua casa. Somos 7!
  • incorporeo
    Portugal 13:50
    José: Subscrevo tudo o que diz, pois identifico-me com essa utopia. Infelizmente, temo bem que para restaurar a Democracia Pluralista terão de se partir muitos pratos, pois o Sistema em que vivemos está todo armadilhado. Temo bem que está na hora de começar a definir objectivamente um Sistema alternativo, para substituir o que vigora actualmente. Há demasiados Poderes ocultos que sabem muito bem o que querem e também sabem quais os meios a usar para atingir os seus fins. O Povo é sempre a vítima, e irão haver vítimas. Faltam elites credíveis e líderes carismáticos e incorruptíveis. Arregimentar um Corpo com este perfil é difícil.
  • Jose
    14:37
    Caro incorporeo. Obrigado por recentrar o debate em termos sinceros. Permita-me que lembre que essa utopia vem de Aristóteles e Platão, nesse tempo só Aristóteles considerava os escravos seres humanos e explicava a sua condição com o argumento subtil de que é de sua natureza serem escravos. Assim os excluía da sua democracia. Passaram muitos séculos e estamos tão próximo. A antropologia marcha, mas muito lentamente. Neste momento só proponho um debate sobre o âmbito de influência do poder democrático e sobre a hierarquia dos poderes. Sabemos que a práxis reduz a democracia a um poder capturado pelos diferentes poderes privados legitimados pelo poder público. E, se não explicamos como Aristóteles os excluídos sociais fazemo-lo com a sofisticação da sociologia. A democracia manda ou serve?
  • joao
    14:48
    As “casacas vermelhas” usadas pelos militares ingleses para aterrorizar as linhas dos adversários ao lhes trazer à memória as anteriores chacinas e massacres perpetrados sem piedade ou clemência por esses “casacas vermelhas”, só começaram a ser sistematicamente abandonadas após a guerra Boers 1881(?) pois nela os ingleses revelaram-se alvos visíveis em terreno aberto e a longas distâncias, ao alcance das espingardas de longo alcance dos agricultores e caçadores Boer, curiosamente de desenho do oficial português Castro Guedes. O khaki já era utilizado há poucos anos na Índia, mas só após o Sudão 1885(?), onde ainda atacaram as “casacas vermelhas”, foi o khaki adoptado em todos os teatros de guerra dos ingleses. São só curiosidades para acrescentar ao exemplo que usou no seu comentário.
  • joao
    15:02
    Quanto ao conteúdo acho que tem razão, para os direitotes belicistas e "para a esquerda trauliteira, o que interessa... é aferir os matizes da sua cor política." Infelizmente a grande, grande maioria ou totalidade dos argumentos são criados para dar corpo a posições anteriormente tomadas, e não para encontrar a decisão mais adequada.
  • José P.
    15:04
    Ah, percebi mal de facto. As minhas desculpas, caro incorporeo.
  • jmbmarte
    22:29
    Não sei se é acto falhado, mas o encarnado dá um excelente alvo, com um senão: é difícil distinguir uma mancha de sangue sobre ele, como naqueles quadros das vanguardas russas tipo 'branco sobre branco'. Pois o encarnado é uma cor que a mim me dá logo vontade de ser zulu.