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sexta-feira, 3 de julho de 2015

A Grécia em default parcial - I c. A dívida grega


A Grécia pretende negociar com os seus credores da Zona Euro para obter um acordo antes que o governo endividado fique sem dinheiro. Veja nesta página interactiva do Wall Street Journal quanto a Grécia deve e quando.

A unidade dos gráficos é o milhar de milhão de euros.

O FMI concedeu empréstimos à Grécia que ascendem a 21 mil milhões de euros, dos quais 1,6 mil milhões venceram em 30 de Junho e não foram pagos.

O BCE emprestou 27 mil milhões de euros, mas poderá ser preciso adicionar os 89 mil milhões de euros emprestados aos bancos gregos ao abrigo da Assistência de Emergência de Liquidez (ELA) — fixa desde domingo, 28 de Junho, o que obrigou ao encerramento dos bancos — que, por enquanto, são um risco do banco central grego.

A dívida aos investidores privados é apenas 34 mil milhões de euros porque, aquando do segundo resgate à Grécia, assumiram a perda de aproximadamente metade dos empréstimos.
Pior estão os Estados-membros da Zona Euro que emprestaram 53 mil milhões aos gregos no primeiro resgate, em 2010.

Depois do segundo resgate, em 2012, quem ficou a suportar a fatia de leão dos empréstimos foi o Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF), o antigo fundo de resgate do euro, que entrou com 131 mil milhões de euros.

Se o governo liderado por Alexis Tsipras mantiver o encerramento dos bancos e o controle de capitais na Grécia até 20 de Julho, conseguirá aguentar a banca grega com liquidez mas, nessa data, quando Atenas falhar o pagamento de 3,5 mil milhões de euros ao BCE, o país entra em bancarrota.








quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

"As dívidas não são para pagar... gerem-se"





José Sócrates, viajou até ao campus de Poitiers da Sciences Po, onde estuda Ciência Política, e aproveitou uma palestra com colegas da secção latino-americana para lançar um balão de ensaio a ver se o vento já lhe é favorável:
"Para pequenos países como Portugal e Espanha, pagar a dívida é uma ideia de criança. As dívidas dos Estados são por definição eternas. As dívidas gerem-se. Foi assim que eu estudei.
Claro que não devemos deixar crescer a dívida muito, porque isso pesa depois sobre os encargos. Todavia, para um país como Portugal é absolutamente essencial, para a sua modernização e para o seu desenvolvimento, ter financiamento, quer para a modernização das suas infra-estruturas, quer para a modernização das suas políticas, quer para o crescimento da sua economia. É assim que eu vejo as coisas.
"














O campus da Sciences Po na cidade de Poitiers, onde funciona a secção latino-americana











Mas isto de se encontrar uma dívida de 85 mil milhões de euros e meia dúzia de anos depois ir viver para Paris deixando o País a gemer sob um fardo de 160 mil milhões tem que se lhe diga: o gráfico da dívida pública parece o monte Everest.
Claro que, em política financeira, o que interessa é o valor da dívida em percentagem do PIB, mas aí os dados também são de estarrecer: recebeu uma dívida de 57% e deixou-a em 93% do PIB!

A avaliar pelos comentários, os nossos concidadãos andam a informar-se sobre estes assuntos e será sensato que não se aventure a passear nas ruas do Portugal que levou à bancarrota porque se arrisca a levar uma zurzidela nos costados. O português é um indivíduo pacato, de brandos costumes, mas não gosta de ser roubado e ainda menos de ser roubado e... gozado.
Cautela, ‘caro’ estudante de ‘filosofia’, medite nestas palavras:


jalmeida62 07 Dezembro 2011
Grande caloteiro
Então é assim: vou pedir dinheiro ao banco, em vez de pagar vou gerir a dívida, ou seja, fazer mais dívida e nunca pago. Grande caloteiro para não chamar outro nome que bem merecias.

JARANES 07 Dezembro 2011
Este biltre
Este biltre, mesmo depois de ver o que se está a passar com os países submersos pela dívida, ainda se atreve a dizer que a dívida se gere?
É claro que se gere, mas uma coisa é gerir uma dívida passível de ser gerida — porque mantemos condições de nos continuar a financiar — outra é gerir uma dívida ingerível, porque nos fecha a porta a novos financiamentos.
Este imbecil devia ter sido obrigado a continuar a governar para vermos onde é que ele ia buscar o dinheiro para pagá-la e continuar a manter o país em funcionamento.

O que é dramático é que este pulha ainda se permite fazer chacota com as vigarices que fez.
Pergunto ao Procurador Geral da República se lhe não soa estranho que um indivíduo que era teso antes de assumir funções politicas, tenha dinheiro para estudar em Paris.

amom22 07 Dezembro 2011
Um grande homem só é realmente apreciado lá fora!
O que ele diz é perfeitamente correcto, outros Estados têm dívidas bem maiores que a nossa, aliás há Estados que vivem com dívidas astronómicas, como os Estados Unidos e o Japão. Mas lá não têm sido problema porque as agências continuam a dar-lhe os 3 A, com taxas de juros de 1%. Claro que quando Portugal passou a ter taxas de juros acima de 7% a dívida ficou insustentável, mas culpar Sócrates por essas taxas astronómicos é ser mais cego que o PPC.

Homemdoleme 07 Dezembro 2011
Na Suécia é ao contrário
Noutro dia, ouvi o ministro sueco das finanças (considerado o melhor ministro europeu) dizer que procuram reduzir a dívida, para níveis abaixo dos 30% do PIB. Já não estão longe desse valor na Suécia.
Parece-me um povo inteligente este, que não anda a atirar os problemas para as próximas gerações. Também me parece inteligente que na Suécia se leve a sério a qualidade do trabalho, uma coisa que existe em Portugal, mas por falta de mérito dos decisores é esquecida.

JoaoAlberto 07 Dezembro 2011
Como gente grande
Pagar dívidas é ideia de criança, vai daí, rouba como gente grande. Este tipo, ainda goza com os Portugueses e com o país que deixou na banca rota. Para quando ser chamado à justiça e prestar contas do que fez ao país?

Heroidomar 07 Dezembro 2011
Citações
"There is only one good, knowledge, and one evil, ignorance"
Sócrates, o filósofo Grego

jslucas2011 07 Dezembro 2011
O grande líder
José Sócrates está certamente a esta hora a envergonhar os socialistas inteligentes e honestos. Porque também os há, mau grado a ingenuidade que os caracterizou e que levou o seu partido a protagonizar o período mais medíocre da história da governação portuguesa dos últimos trinta anos.
Mas os portugueses não deixarão também de se interrogar sobre a decadência moral e mental que a frase evidencia, a ser verdadeira. Analogamente um empresário diria também que "pagar a dívida é ideia de criança" relativamente às suas dívidas para com o Estado e os fornecedores.
Bem pode Mário Soares gastar o seu latim a defender a classe política. Com socialistas como Sócrates não há regeneração da imagem dos políticos.
João Santos Lucas (Singapura)

dcd4u222 07 Dezembro 2011
@amom22
Claro que o que diz está correcto, o problema é que uma coisa é o que diz, outra é o que faz. É das boas regras da gestão não contrair dívidas quando não são para investimento ou quando esse investimento tem um retorno inferior ao custo do endividamento. Acha que o investimento nos Magalhães têm um retorno superior a 7%? E o TGV? E o aeroporto de Beja?
Se não têm posto travão a este tipo, até os gregos olhavam para nós com um sorriso.
Então o homem com 4% de juros sobre a dívida ainda achava que o caminho estava em mais dívida? E quando chegou aos 5%? E quando chegou aos 6%? E quando chegou aos 7%? O que era necessário era o TGV ou o novo aeroporto de Lisboa? Necessário para quem? Para os amigos e os amigos dos amigos?

rmopf2005 07 Dezembro 2011
@amom22, não fale dos USA
O IVA dos USA, em média dos Estados, é 7% e só paga IRS quem ganha mais de $3000 por mês. Basta eles subirem o IVA para 17% que pagam a dívida num ápice, para Portugal pagar a dívida tínhamos de subir o IVA para 70%, xuxas e comunas palhaços.

josedomingos 07 Dezembro 2011
A cereja que faltava em cima do bolo
Já não te chegava seres aldrabão, mentiroso, vígaro, farsante, escroque, sem carácter, tiranete, golpista e ladrão (do dinheiro dos contribuintes).
Também te assumes agora como caloteiro!

planeta75 07 Dezembro 2011
Animal
Como é que este animal ainda tem lata para abrir a boca? E ainda tem a desfaçatez de dizer que estudou.
Só faltam os boçais do partido começarem a chorar e a mostrar saudades dos tempos idos de gastar à fartazana.
Só lhe noto uma singularidade: deve ser das poucas pessoas que se eu visse na rua lhe ia para o focinho.

jupiter2001 07 Dezembro 2011
Por favor
Por uma questão de higiene mental, não quero ouvir falar mais de um dos indivíduos que destruiu Portugal. Quando penso neste indivíduo lembro-me logo de um pelotão de fuzilamento e não gosto nada deste pensamento.

jose.cobra@netcabo.pt 07 Dezembro 2011
Verdades verdadeiras
Finalmente alguém diz a verdade e desmonta o Gasparzinho do Relvas e o embaixador PC. Uma dívida só é dívida quando não é paga na data prevista. Não serão os capitalistas quem mais deve aos bancos? Aguarda José pois ainda vais voltar mais alto.

hpg 07 Dezembro 2011
Onde estaríamos com este animal à frente do governo?
O que seria do país e da pouca credibilidade que lhe resta se este animal estivesse à frente do governo? Este senhor deve ter estudado como governar uma república das bananas, não um país a sério. Amigos xuxas, ponham os olhinhos sobre o pensamento político do vosso grande líder.

alcateia 07 Dezembro 2011
Que nojo!
Eu só gostaria que me explicassem como foi possível haver 2 000 000 de portugueses (?) a votar nesta alimária!
E convidam-no para dar conferências? Sobre quê? Offshores? Corrupção? Aldrabar meio mundo? Obter diplomas falsos?
"Porqué no te callas"? De vez! Dá vontade de vomitar.

Speeding 07 Dezembro 2011
Muito bem!
Afinal, este é um incompreendido.
Gostaria de saber onde estudou. Quanto ao resultado do que fez, não há dúvida — foi brilhante! Não só assegurou a dívida no imediato mas também para os nossos filhos e netos!
Volta, que a desgraça ainda é pouca...

ZedBull 07 Dezembro 2011
jose.cobra@netcabo.pt
A questão que levanta "Uma dívida só é dívida quando não é paga na data prevista" já aconteceu, caso não se tenha apercebido. Há pouco mais de 6 meses, Portugal teve de pedinchar ajuda externa financeira para conseguir pagar as dívidas e as responsabilidades.
É por este tipo de afirmações, que vemos araras a voar bem alto em Portugal.

Espoliado 07 Dezembro 2011
Se pagar as dívidas é ideia...
... de criança, pagar impostos será ideia de estúpidos e de masoquistas!

JCG 07 Dezembro 2011
Este gajo não tem qualquer competência para debitar doutrina nesta matéria
Em 1º lugar, que dívida? Dívida pública ou dívida externa?
Em 2º lugar, dívida, em termos abstractos, pode ser boa ou má: tudo depende da aplicação dos recursos emprestados que se obteve. Se os recursos obtidos por empréstimo tiverem sido bem aplicados, ou seja, se a aplicação do empréstimo gerar um retorno superior ao custo desse empréstimo (juro), o recurso ao endividamento foi uma boa política, se tal empréstimo tiver sido mal aplicado, isso será a ruína de um País, como está a acontecer com Portugal.

Qual o problema da dívida? É que é preciso trabalhar e produzir adicionalmente para pagar os juros. Quem presta atenção à informação que vai fluindo, deve ter tomado nota de que a dívida pública (a do Estado) vai implicar o gasto de 8 a 9 mil milhões de euros em juros, em 2012. Conforme um jornal destacou em título, os juros da dívida pública vão consumir quase todo o IRS que o Estado vai sacar aos portugueses. É fácil de fazer as contas: uma dívida pública de 170 a 180 mil milhões de euros a uma taxa de juro média de 5%, quanto é que dá em juros?

É claro que a situação piora quando falamos de dívida externa (seja pública ou privada). Os juros são uma espécie de hemorragia de um corpo que tem diversas doenças e que mesmo recebendo uma transfusão, perde mais sangue do que consegue reter. Isto acontece quando a dívida e os juros a pagar ao exterior atingem uma tal dimensão face ao PIB que mesmo que o PIB tenha algum crescimento o mesmo será insuficiente para pagar todos os juros ao exterior e a consequência será o aumento da dívida e ainda mais juros a pagar no período seguinte. Quando se chega a este ponto, só há um desfecho: trajectória de empobrecimento e falência financeira do país ao fim de algum tempo.

Sócrates que, ao que parece, conseguiu um diploma de licenciado por métodos fraudulentos e terá falta de bases para estribar os seus raciocínios nesta matéria, mais valia fechar a cloaca e hibernar.


terça-feira, 15 de novembro de 2011

Novo movimento de cidadãos: a IAC




Nasceu um novo movimento de cidadãos que apoiaremos enquanto cumprir o objectivo enunciado a seguir:


"A Iniciativa de Auditoria Cidadã à Divida Pública é representada legalmente pela Associação Artigo 37, cujo fim é promover o combate à corrupção, fomentando os valores da transparência, integridade e responsabilidade na opinião pública, nos cidadãos e nas instituições e empresas públicas, nomeadamente através da realização de campanhas públicas, projectos de investigação, acções de formação e da cooperação com outras organizações governamentais e não-governamentais.

Na preparação desse encontro aberto, reuniram-se cidadãs e cidadãos de diversas origens cívicas, políticas e sociais, com o objectivo comum de conhecerem e darem a conhecer a dívida pública portuguesa nas suas parcelas; quem as contraiu e quais os seus credores; os seus montantes, prazos e juros; a finalidade que as justificou; o seu destino preciso.

A actividade da Iniciativa de Auditoria Cidadã à Divida Pública consiste em exigir às entidades públicas a informação que é direito dos cidadãos em democracia. Ao mesmo tempo, a Iniciativa de Auditoria Cidadã à Divida Pública pretende realizar um trabalho rigoroso de pesquisa — compilando e interpretando dados já públicos e outros que se tornem públicos a partir de agora — com vista ao esclarecimento urgente da sociedade portuguesa sobre as características de uma dívida que se tornou central na nossa vida colectiva."


sábado, 12 de novembro de 2011

A queda dos políticos europeus


Os investidores mundiais estão a impor o afastamento de primeiros-ministros europeus débeis ou coniventes com a degradação financeira e a corrupção dos agentes económicos dos seus países.
Parece existir um tecto de 7% nas yields da dívida soberana cuja transposição motiva a queda.

No início de Abril de 2010, o primeiro-ministro Papandreou viu os juros das obrigações do tesouro gregas, a dez anos, ultrapassarem os 7%. Quinze dias depois, pediu ajuda à UE e ao FMI.
Desde então a Grécia passou por vários pacotes de austeridade, viveu entre manifestações e greves da função pública, das empresas do Estado e dos beneficiários de subsídios e pensões, nunca tendo conseguido cumprir os défices orçamentais acordados ou avançar nas privatizações. Na passada terça-feira, 8 de Novembro de 2011, o terceiro primeiro-ministro da dinastia Papandreou demitiu-se para provocar a formação de um governo de unidade nacional entre o partido socialista grego e a Nova Democracia, o maior partido da oposição de direita.
Quem vai chefiar este governo? Lucas Papademos, governador do Banco da Grécia, entre 1994 e 2002, época da sua adesão ao euro, e vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE), entre 2002 e 2010. O banco de investimento que assessorou a adesão grega à Zona Euro, colaborando na mistificação das contas públicas gregas, foi o banco norte-americano Goldman Sachs.

A Irlanda foi o segundo país a transpor o tecto dos 7%. Em Fevereiro deste ano, o então primeiro-ministro Brian Cowen, do partido centrista Fianna Fail, perdeu as eleições legislativas para Enda Kenny, do partido de centro-direita Fine Gael que formou uma coligação com o partido trabalhista irlandês.

Em Portugal as yields da dívida soberana furaram o tecto de 7% em Novembro de 2010. Quando o Parlamento rejeitou um quarto programa de austeridade, em Março de 2011, o primeiro-ministro, José Sócrates, pediu a demissão.

Espanha viu os juros das obrigações de dívida soberana, a dez anos, subir acima dos 6% enquanto o movimento dos indignados acampava na Puerta del Sol. Prudentemente, José Luis Rodríguez Zapatero, o primeiro-ministro socialista, antecipou as eleições legislativas para o próximo dia 20 de Novembro. Prevê-se que o Partido Popular, de direita, liderado por Mariano Rajoy, obtenha maioria absoluta.

Também se prevê para breve a queda de Iveta Radicova, a primeira-ministra da Eslováquia, pois o parlamento eslovaco só permitiu o alargamento do Fundo Europeu de Estabilização Financeira depois da convocação de eleições antecipadas para Março de 2012.

Na Itália os juros da dívida chegaram aos 7% esta quarta-feira. Ontem o parlamento italiano aprovou um pacote de austeridade. Hoje Berlusconi, o homem classificado pela revista "Forbes" como a 2ª pessoa mais rica da Itália e o 74.º homem mais rico da Europa, com uma fortuna estimada em 9 mil milhões de dólares, o dono da maior empresa da comunicação social, o político acusado em quase duas dezenas de processos de corrupção, o rei das festas e dos escândalos sexuais mas que ganhou por três vezes o voto do eleitorado, pediu a demissão.
Berlusconi caiu quando os mercados repararam que estavam a investir num País governado por um indivíduo sem credibilidade que criara uma pirâmide de clientelismo. Quando os investidores se afastam, surge a austeridade. Quando lhe diminuem a mesada, o povo retira o apoio aos políticos.

Já não é o povo que elege os deputados, são os investidores.

Nicolas Sarkozy e Angela Merkel estão a lutar denodadamente para salvar o euro, tendo já delineado um plano B: uma Zona Euro mais pequena que vai aprofundar a integração, inclusive em áreas sensíveis como a tributação das empresas e dos trabalhadores e levantar barreiras contra a crise da dívida soberana, enquanto os restantes países da UE vão formar uma ‘confederação’ que, possivelmente, se expandirá de 27 para 35 na próxima década, com o alargamento aos Balcãs e países de leste, noticiou na quarta-feira a Reuters.
Se as populações dos países europeus meridionais não ambicionarem pertencer à Europa culturalmente mais avançada, se não abandonarem a mentalidade da subserviência e da cunha, se não souberem distinguir entre tempo de estudo e trabalho e tempo de lazer, se não começarem a exigir competência, frugalidade, transparência e honestidade aos seus políticos, acabarão por ser afastadas da Zona Euro.

É uma luta difícil: pior que dominar o cavalo de Tróia dos PIGS, é vencer o do ‘amigo’ americano.
E ainda pode haver outros cavalos: Mario Draghi, que assumiu a 1 de Novembro a presidência do BCE, sucedendo a Jean-Claude Trichet, foi vice-presidente do Goldman Sachs International que se suspeita ter sido o banco de investimento que ajudou a Itália a falsear as suas contas para poder entrar na Zona Euro. E o homem que vai substituir Berlusconi e conduzir a Itália em tempo de crise — Mario Monti — fez também parte do banco norte-americano Goldman Sachs.
O que já levou o jornal “National Journal” a publicar uma reflexão sobre o mesmo assunto, num artigo intitulado ’Government Sachs’, Italian Style, onde pergunta:
"É apenas uma coincidência que algumas das figuras-chave da crise europeia sejam ‘Goldman guys’? Não. É provavelmente uma das razões porque estamos metidos nesta confusão."


terça-feira, 1 de novembro de 2011

O homem que fez tremer as bolsas mundiais



A cimeira europeia da semana passada previa um perdão de 50% na dívida pública grega detida por instituições financeiras privadas, bem como um novo empréstimo de 130 mil milhões de euros, com o objectivo de reduzir a dívida pública para 120% do PIB em 2020.
Sondagens recentes mostram que 58% dos gregos consideram o acordo como sendo lesivo dos seus interesses, mas 70% quer permanecer na Zona Euro.

George Papandreou nasceu nos Estados Unidos, numa família em que o pai e o avô foram primeiros-ministros, e foi educado em colégios e universidades estrangeiras entre as quais a London School of Economics e a Harvard University.
Chegou à Grécia depois da restauração da democracia em 1974. Entrou para o partido do pai, o Movimento Socialista Pan-helénico (PASOK), tendo chegado ao Comité Central em 1984.

Foi um ministro dos Negócios Estrangeiros simpático e ganhou eleições com a promessa de conduzir o País para um crescimento sustentável.
Quando se tornou primeiro-ministro em Outubro de 2009, deparou com uma dívida colossal criada por anos de gastos elevados e falsificação dos dados económicos oficiais. Os assessores dizem que ficou chocado com a corrupção profunda e os interesses especiais que dominam a sociedade grega e se sentiu isolado dentro do seu próprio partido, que continua dominado pelas ideias populistas do seu falecido pai, um dissidente socialista.

A Grécia tem vivido entre manifestações e greves e o governo tem sido forçado a criar cada vez mais medidas de austeridade para cumprir as metas orçamentais.
Gozando de popularidade mesmo depois do seu partido começar a declinar nas sondagens, Papandreou está a aceitar com dificuldade a recente animosidade pública. Isolou-se, trabalhando com um grupo cada vez menor de assessores.

Em Junho, depois de ter sido vaiado na rua, propunha-se renunciar se a oposição conservadora concordasse com um governo de coligação.
As convulsões sociais têm recrescido, com os manifestantes a entraram em confronto violento com a polícia, e os próprios deputados do PASOK ameaçaram não aprovar mais medidas de austeridade.
No mês passado, Papandreou foi forçado a expulsar do partido um ex-ministro e amigo da família por votar contra parte do projecto de austeridade, reduzindo a sua maioria parlamentar para 153 num parlamento de 300 lugares.

Nas cimeiras europeias que tentaram solucionar a crise grega, parecia cada vez mais sombrio. Após a última cimeira, no discurso de quinta-feira à nação tentou exortar os gregos com estas palavras:
"Devemos continuar a trabalhar intensamente para mudar tudo o que nos ofende.
A crise dá-nos a oportunidade e o acordo dá-nos o tempo para decidir o que é importante para a Grécia.
"

Com diplomas importantes para aprovar, como a reforma tributária e o orçamento para 2012, Papandreou está determinado a obrigar os gregos a enfrentar as suas responsabilidades e as falhas crónicas do seu sistema político e social. Para isso decidiu levar a referendo o novo programa de ajuda financeira delineado na cimeira europeia da passada quinta-feira.

"Ninguém sabia que ele ia fazer isso", disse um alto funcionário do governo à Reuters. "Ele tomou a decisão por conta própria e apenas um par de assessores próximos foram informados."

Logo após o longo discurso proferido perante o grupo parlamentar na noite de ontem, Evangelos Venizelos, professor de direito constitucional e ministro das Finanças, apoiou a decisão, procurando dar a impressão de que havia sido informado.
Venizelos defendeu que os parceiros europeus que forjaram o segundo acordo de resgate deveriam ter sido informados de antemão e, apressadamente, o ministério das Finanças redigiu uma carta na madrugada de hoje.
Submetido, de seguida, a um internamento hospitalar de urgência, logo pela manhã falou do leito do hospital com o colega alemão das Finanças Wolfgang Schäuble, o comissário europeu dos Assuntos Económicos Olli Rehn e o chefe da missão do FMI para a Grécia (e Portugal) Poul Thomsen.
Um "não" no referendo grego seria um golpe sério para o edifício político construído na Europa para evitar uma nova guerra, poderia derrubar a moeda única e teria consequências catastróficas na economia mundial.

Entretanto outro deputado do PASOK renunciou, por discordância com o referendo, outros dois pediram eleições antecipadas e a reunião do conselho de ministros hoje à tarde podia ter levado ao fim do seu governo.
"[Papandreou] está motivado pelo sentido do dever e vai lutar para ficar quanto tempo puder", disse um dos assessores próximos. "Esta é a estratégia da batalha."

Ao anunciar o referendo, Papandreou disse: "A democracia está viva e de boa saúde, e os gregos vão ser chamados a ascender a um dever nacional para além dos processos eleitorais regulares."





Temendo, porém, que os gregos escolham a via da bancarrota, os mercados preparam-se para a perda da totalidade da dívida soberana grega detida pelos bancos e as ondas de choque do anúncio do referendo percorreram hoje as bolsas mundiais.

Na bolsa portuguesa as acções do BES desceram 9,55% para 1,42 euros e a sua capitalização bolsista para apenas 1,656 mil milhões de euros.
As acções do BCP declinaram 13,55% para 0,134 euros, um novo mínimo histórico, saldando-se a capitalização bolsista do banco em 965,76 milhões de euros.
O Banco BPI desceu 10% para 0,45 euros, fixando um novo mínimo histórico nos 0,417 euros e o Banif desceu 9,40% para 0,289 euros, também atingindo um novo mínimo histórico nos 0,279 euros.


quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Recapitalização do sistema bancário europeu


No Conselho Europeu de 26 de Outubro de 2011 foi aprovado o alargamento do Fundo Europeu de Establidade Financeira (FEEF) de 440 mil milhões de euros para 1 bilião de euros, o perdão de 50% da dívida soberana grega detida por instituições financeiras privadas e a recapitalização da banca dos países da Zona Euro para anular os prejuízos da exposição à dívida soberana e reforçar a estabilidade dos respectivos sistemas financeiros.

Sobre a recapitalização dos bancos diz o comunicado da cimeira do euro:

"4. Objectivo de capital: Existe um amplo consenso quanto à exigência de um rácio de capital significativamente mais elevado de 9% de capital de muito boa qualidade e após a tomada em consideração do valor de mercado das exposições à dívida soberana, a partir de 30 de Setembro de 2011, a fim de criar margens de reserva temporárias, que se justificam pelas circunstâncias excepcionais. (...)

5. Financiamento do aumento de capital: Os bancos devem, em primeiro lugar, utilizar fontes de capital privadas, nomeadamente através da restruturação e conversão da dívida em títulos de capital. Até ser atingido o objectivo, os bancos devem ficar sujeitos a restrições no que respeita à distribuição de dividendos e ao pagamento de bónus. Se necessário, os governos nacionais devem facultar apoio e, se este não estiver disponível, a recapitalização deve ser financiada através de um empréstimo do FEEF no caso dos países da área do euro.
"

A Autoridade Bancária Europeia (EBA) já apresentou estimativas para restaurar a confiança no sector bancário europeu. São 106.447 milhões de euros que terão de ser injectados na banca, até 30 de Junho de 2012, para anular as perdas com dívida soberana e, simultaneamente, aumentar os rácios de capital para 9%, assim repartidos:


Repartição por país do reforço de capital


_______________

Países

_______________
Áustria (1)
Bélgica (2)
Chipre
Alemanha
Dinamarca
Espanha
Finlândia
França
Bulgária
Grécia (3)
Hungria
Irlanda
Itália
Luxemburgo
Malta
Países Baixos
Noruega (4)
Portugal
Suécia
Eslovénia
_______________
Total


_______________
Reforço de capital
estimado

_______________
2.938
4.143
3.587
5.184
47
26.161
0
8.844
0
30.000
0
0
14.771
0
0
0
1.312
7.804
1.359
297
_______________
106.447

milhões €
_______________
Reforço de capital
por exposição a
dívida soberana
_______________
224
5.634
3.085
7.687
35
6.290
3
3.550
0
/
43
25
9.491
0
0
99
0
4.432
4
20
_______________

Notas:
(1) Uma parte substancial desse montante é atribuível ao Grupo Volksbank e deve ser considerado como pró-forma. Este grupo está em profunda reestruturação e vai transformar-se num banco regional.
(2) Este montante, que é atribuível ao Grupo Dexia, deve ser considerado como pró-forma. Após 30 de Setembro, este grupo foi reestruturado através da venda de Banco Dexia Bélgica ao Estado belga por 4 mil milhões de euros.
(3) O pacote de capital para a Grécia foi definido de forma a não entrar em conflito com os acordos do programa UE / FMI. Este programa de ajuda já define um conjunto de metas para os bancos em questão, incluindo o rácio Core Tier 1.
(4) Como Estado EFTA, qualquer exigência de capital em bancos noruegueses é da competência das autoridades norueguesas.


Através dos comunicados divulgados, ontem pelo Banco de Portugal, hoje pela banca, a situação portuguesa começa a clarificar-se:


BCP precisa de 1.750 milhões de euros

"A) O Banco Comercial Português, S.A. (BCP) informa que recebeu do Banco de Portugal a seguinte informação para divulgação:
1. Face ao aumento do risco sistémico gerado pela crise da dívida soberana na área do Euro, foi decidido que os grupos bancários sujeitos ao exercício de "stress-test" da Autoridade Bancária Europeia (EBA) deveriam reforçar os respectivos níveis de capitalização de forma a atingir, até 30 de Junho de 2012, um rácio Core Tier 1 de 9%, depois de uma avaliação prudente, a valores de mercado, das exposições a dívida soberana detidas em 30 de Setembro de 2011.
2. O montante global das necessidades de capital identificadas para o grupo BCP é de 2.361 Milhões de euros, correspondendo 1.299 milhões de euros ao valor resultante da avaliação a preços de mercado das exposições a dívida soberana.
3. O montante remanescente encontra-se contemplado, na sua quase totalidade, nos planos de capitalização apresentados ao Banco de Portugal, no âmbito do Programa de Assistência Financeira, que permitem uma monitorização regular dos rácios prudenciais relevantes.
4. Esta estimativa tem carácter preliminar e indicativo, sendo susceptível de ser alterada com base nos dados referentes ao final de Setembro.


B) O BCP adicionalmente informa que:
1. De 30 de Junho de 2011 até à presente data foram realizadas um conjunto de iniciativas que proporcionaram um aumento dos fundos próprios (Core Tier I) em mais de 600 milhões de euros, nomeadamente através da concretização da operação de troca sobre as acções preferenciais e Lower Tier II Notes, pelo que o reforço referido em A) 2. deverá ser deduzido para cerca de 1.750 milhões de euros.
2. O BCP continuará a desenvolver as iniciativas já programadas para reforço do seu capital, nomeadamente a redução de activos (“deleveraging”) e a reestruturação do seu portfolio internacional, bem como estudará outras oportunidades disponíveis, incluindo a linha de recapitalização de 12.000 milhões disponíveis para os bancos portugueses."


BES não vai recorrer à linha de recapitalização da troika

"2. O montante global das necessidades de capital identificadas para o Banco Espírito Santo, aplicando a metodologia utilizada pela EBA, é de 687 Milhões de euros, correspondendo 44 milhões de euros ao valor resultante da avaliação a preços de mercado das exposições a dívida soberana.
(...)
5. No dia 11 de Novembro de 2011 irá realizar-se uma assembleia geral extraordinária do BES que deliberará sobre uma proposta do Conselho de Administração para aumentar o capital social por novas entradas em espécie até 790,7 milhões de euros, através do lançamento de ofertas de troca sobre valores mobiliários emitidos pelo BES, BES Investimento e BES Finance, que deverá permitir reforçar o rácio de Core Tier 1.
No âmbito das medidas de reforço dos seus rácios de capital, o Banco Espírito Santo continuará o seu processo de desalavancagem do balanço e considerará, se necessário, outras opções no âmbito do mercado de capitais."


BPI precisa de 1 717 milhões de euros

"4. No caso do Banco BPI, que já cumpre o rácio mínimo de 9%, o reforço de capital necessário para tomar em consideração os cálculos acima referidos, com base nos números preliminares divulgados pela Autoridade Bancária Europeia, será de 1 717 milhões de euros a realizar até 30 de Junho de 2012. Deste montante, 1 640 milhões de euros correspondem ao valor resultante da avaliação a preços de mercado das exposições a dívida soberana.
5. O Banco BPI vai analisar todas as opções de que dispõe para concretizar este reforço de capital, incluindo a utilização da linha de recapitalização de 12 mil milhões de euros, disponível para os bancos portugueses no âmbito do programa de ajustamento acordado com a União Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional.
Oportunamente o Conselho de Administração do Banco BPI divulgará o programa de actuação que submeterá à consideração dos Accionistas."


CGD precisa de 2239 milhões de euros

"2. O montante global das necessidades de capital identificadas para o grupo CGD é de 2.239 Milhões de euros, correspondendo 1.462 milhões de euros ao valor resultante da avaliação a preços de mercado das exposições a dívida soberana."


segunda-feira, 8 de agosto de 2011

"Missão impossível: parar uma nova recessão"


Ontem à tarde, Nouriel Roubini escreveu este artigo no Finantial Times, sob o título "Mission impossible: stop another recession":

7 de Agosto de 2011 18:19


"O primeiro semestre de 2011 mostrou uma desaceleração do crescimento — se não mesmo uma contracção — nas economias mais avançadas. Os optimistas disseram que era uma correcção temporária. Uma ilusão frustrada. Mesmo antes do pânico da semana passada, os EUA e outras economias avançadas estavam a caminho de uma segunda recessão grave.

Os dados recentes da América foram ruins: houve reduzida criação de emprego, fraco crescimento e estagnação do consumo e da produção industrial. A habitação permanece deprimida. Caiu a confiança de consumidores, empresários e investidores e, agora, vai cair ainda mais.

Do outro lado do Atlântico a periferia da Zona Euro está agora em contracção ou, na melhor das hipóteses, a crescer fracamente. O risco de que a Itália ou a Espanha — e talvez ambos — venham a perder o acesso aos mercados de dívida é, agora, muito alto. Ao contrário da Grécia, Portugal e Irlanda, estes dois países são demasiado grandes para serem resgatados.

Entretanto, o Reino Unido viu o crescimento a aplanar à medida que a austeridade vai ferroando e o Japão, estruturalmente estagnado, vai recuperar durante alguns trimestres — após a dupla recessão a seguir ao terramoto — apenas para estagnar de novo quando os estímulos fracassarem. Pior ainda, os principais indicadores da produção global estão a diminuir drasticamente — quer nas economias emergentes, como a China, Índia e Brasil, quer nos países orientados para a exportação ou ricos em matérias-primas, como a Alemanha e Austrália.

Até ao ano passado os políticos podiam tirar um coelho da cartola para accionar a deflação dos activos e a recuperação económica. Taxas de juro zero, QE1, QE2, crédito facilitado, estímulos orçamentais, delimitação, provisão de liquidez no montante de biliões de dólares e resgate a bancos e instituições financeiras — tudo foi tentado. Mas agora esgotámos os coelhos.

A decisão desacertada da Standard & Poor’s de descer a notação dos EUA num momento de turbulência do mercado e fraqueza económica tão graves só aumenta a probabilidade de uma recessão em W e ainda maiores défices orçamentais. Paradoxalmente, porém, o Tesouro dos EUA provavelmente continuará a ser o activo seguro menos desagradável: a aversão ao risco, o declínio de capital e uma crise iminente podem até mesmo fazer a taxa das obrigações do Tesouro cair em vez de subir.

Agora, tanto na Zona Euro como no Reino Unido, a política orçamental é contraccionista. Mesmo nos EUA a questão é apenas o montante da redução, à medida que as autoridades estatais e locais, e agora o governo federal, cortarem despesas, reduzirem as transferências e (em breve) aumentarem os impostos. Outra rodada de resgates a bancos é politicamente inaceitável. Mas mesmo se não fosse, a maioria dos países, especialmente na Europa, estão tão enfraquecidos que o risco soberano está a gerar risco bancário — porque os bancos estão carregados de dívida pública.

A esperança numa flexibilização quantitativa [quantitative easing (QE), vulgo 'imprimir dinheiro'] será limitada pela inflação que está bem acima dos níveis-alvo no mundo ocidental. A Reserva Federal vai começar, provavelmente, uma terceira rodada de QE, mas será um pouco tarde demais. No ano passado, um QE2 de 600 mil milhões de dólares (juntamente com 1 bilião de dólares de cortes de impostos e transferências) produziu uma taxa de crescimento de apenas 3%, durante um trimestre. Um QE3 será muito menor e vai fazer muito menos.

Nem as exportações ajudam. Todos os países desenvolvidos precisam de uma moeda mais fraca, mas nem todos podem tê-la — se um é mais fraco, outro tem de ser mais forte. É um jogo de soma zero que tem o risco de reacender guerras monetárias. Estão a começar as escaramuças iniciais com o Japão e a Suíça a tentarem enfraquecer as taxas de câmbio. Em breve outros vão seguir-se.

Assim, podemos evitar uma nova recessão grave? Pode ser uma missão impossível. A melhor aposta para aqueles países que não perderam o acesso ao mercado — os EUA, Reino Unido, Japão e Alemanha — é introduzirem um novo estímulo orçamental no curto prazo, enquanto se comprometem com uma austeridade orçamental a médio prazo. A descida da notação dos EUA irá acelerar os pedidos de redução orçamental mas a América, em particular, deve comprometer-se com cortes significativos no médio prazo, não um corte orçamental imediato que vai piorar o crescimento e os défices.

A maioria dos bancos centrais ocidentais deve apresentar ainda mais QE, apesar do efeito ser limitado. O Banco Central Europeu não deve parar a caminhada das taxas: deve reduzir as taxas a zero e fazer grandes compras de obrigações soberanas para evitar que a Itália ou a Espanha percam o acesso ao mercado — o que teria como resultado uma crise verdadeiramente colossal, a exigir o dobro (ou o triplo) dos recursos para resgates, ou insolvências e a implosão da Zona Euro.

Finalmente, uma vez que esta é uma crise de solvência, assim como de liquidez, deve começar uma reestruturação ordenada da dívida. Isto significa uma redução da dívida hipotecária para a metade das famílias dos Estados Unidos que estão debaixo de água, e bail-ins para os credores dos bancos em perigo. Devem ser concedidas extensões de maturidade coercivas nas taxas livres, ao estilo grego, também para Portugal e Irlanda, com a Itália e Espanha a seguir, se perderem o acesso ao mercado. Pode não ser possível prevenir outra recessão. Mas a política pode parar uma segunda depressão. Isso é um motivo suficiente para uma acção rápida e bem localizada."




sábado, 6 de agosto de 2011

S&P corta rating dos Estados Unidos


Sabia-se que o défice público dos Estados Unidos era colossal.

Sabia-se que a sua dívida soberana ascendia a 14,3 biliões de dólares.

Sabia-se que a China, a segunda maior economia mundial, detinha 1,16 biliões de dólares dessa dívida, sendo o maior detentor de títulos de dívida do Tesouro americano.

Sabia-se que a agência chinesa de rating Dagong anunciara que ia baixar a notação dos EUA, actualmente A+, devido à capacidade "insuficiente" do país de criar riqueza real.

Sabia-se as dificuldades que Obama enfrentou para conseguir que democratas e republicanos chegassem a acordo no Senado e na Câmara dos Representantes para subirem o tecto da dívida pública e evitarem in extremis que o País entrasse em incumprimento.

Sabia-se tudo isso. No entanto, esta notícia consegue surpreender:

A Standard & Poor’s reduziu o rating atribuído à dívida dos Estados Unidos de AAA para AA+.

Ler o documento da S&P aqui.




quarta-feira, 20 de julho de 2011

"Itália tem mais dívida que todos os periféricos"


Mais uma infografia do Negócios interessante para explorar numa aula de aplicação dos conceitos de proporção e área do círculo, ao mesmo tempo que as pessoas se vão compenetrando das consequências de uma política orçamental desequilibrada nos Estados e nas famílias.





quarta-feira, 6 de julho de 2011

"Um New Deal para a Europa"


Embora no futuro possam ser pertinentes as razões apresentadas pela Moody's para baixar a notação de Portugal, uma queda de quatro níveis propositadamente para dar uma notação de "lixo" e a sua divulgação no momento em que um novo governo inicia funções mostra, claramente, que o objectivo é contrariar o esforço orçamental que o País está a fazer para cumprir a meta de défice orçamental, piorar a crise da Zona Euro e levar à destruição do euro.
Portanto torna-se imperioso reconhecer que existe uma guerra do dólar contra o euro e divulgar propostas para defender a Europa das agências de rating americanas, como esta de Stuart Holland e Yanis Varoufakis, dois economistas um britânico e outro grego:


"Um New Deal para a Europa

A Europa tem vindo a perder uma guerra travada entre governos eleitos e agências de notação não eleitas. Os governos têm tentado governar, mas as agências de notação dominam. Sabem-no os eleitores e alguns estados-membros, cientes disto, opõem-se a transferências financeiras para outros.

Contudo, alguns, nomeadamente a Alemanha, ganharam com um Euro que está menos valorizado e mais competitivo do que estaria se a Zona Euro fosse constituída por menos países. Situações de incumprimento por parte dos países mais expostos à dívida atingiriam bancos e fundos de pensões do centro da Europa da mesma maneira que os da periferia. Ninguém está imune.

Assim, a resposta não é menos, mas mais Europa. Jean-Claude Juncker e Giulio Tremonti argumentaram que a conversão de uma parte das dívidas públicas nacionais em obrigações europeias (Euro bonds) estabilizaria a actual crise. Estamos de acordo.

Uma decisão sobre esta matéria não precisa de ser unânime. Pode resultar de uma cooperação reforçada, como foi o caso da criação do Euro. Os Estados que quisessem manter as suas próprias obrigações, como é provável que seja o caso da Alemanha, podiam continuar a fazê-lo.


Estamos também de acordo com a posição de Juncker e Tremonti sobre a possibilidade de transaccionar globalmente as emissões de Eurobonds, atraindo deste modo excedentes originários de fundos soberanos e de economias emergentes cujos governos tenham apelado para um sistema monetário internacional mais pluralista. Mais do que transferências financeiras no seu interior seriam afluxos financeiros destinados à União Europeia.

Mas também alvitramos que a conversão de uma parte das dívidas nacionais para a União Europeia não tem de ser transaccionada. Podia ser detida pela própria União. Não transaccionada, estaria protegida das agências de notação. As respectivas taxas de juro poderiam ser decididas de modo sustentável pelos ministros das Finanças do Eurogrupo. Estaria immune à especulação. Seriam os governos e não as agências de notação quem governaria.

Também sugerimos que há lições do New Deal dos EUA da década de 1930 que inspiraram a proposta de Jacques Delors de 1993 sobre a necessidade de sustentar uma moeda comum com obrigaçoes europeias comuns.

A administração Roosevelt não precisava que as obrigações norte-americanas fossem financiadas ou garantidas por estados da União, como a Califórnia ou o Delaware, nem lhes solicitava transferências, nem lhes “comprava” dívida. Do mesmo modo, a Europa, não teria de recorrer a tais medidas agora, se emitisse obrigações próprias.

As obrigações norte-americanas são financiadas pela política orçamental comum. A Europa, contudo, não tem uma política orçamental comum. Mas os estados-membros que tivessem convertido parte da sua dívida em Eurobonds poderiam pagar o serviço desta dívida através de receitas fiscais próprias, sem terem de recorrer a transferências financeiras de outros estados.

Não ter ainda recorrido à emissão de obrigações europeias dá à Europa uma vantagem que tem sido descurada. Ou muitas, para a maioria dos estados-membros que estão altamente endividados após o resgate dos bancos. Mas a União propriamente dita não tem praticamente nenhuma. Mesmo com a “compra” de dívidas nacionais a partir de Maio do ano passado, a dívida própria está abaixo de 1% do seu PIB.

Portanto, menos de um décimo do nível a que os EUA recorreram para emitir as obrigações que financiaram o New Deal, cujo êxito gerou a confiança para financiar o Plano Marshall, que recuperou a Europa da Segunda Guerra Mundial e do qual a Alemanha foi um dos maiores beneficiários.

Tampouco a existência de Eurobonds implicaria a criação de uma nova instituição. Obrigações não vulneráveis poderiam ser detidas pelo Fundo Europeu de Estabilização Financeira (European Financial Stability Facility). A emissão de obrigações para favorecer o crescimento tanto poderia ser feita pelo FEEF como pelo BEI. O serviço destas obrigações poderia ser custeado por rendimentos de projectos co-financiados como é o caso das obrigações do BEI.

O BCE é o guardião da estabilidade dos preços, mas o Grupo do BEI pode salvaguardar o crescimento. O BEI já financia projectos num montante duplo do do Banco Mundial. Ao longo de cinquenta anos tem emitido as suas próprias obrigações sem garantias financeiras ou transferências financeiras. Nenhum dos estados-membros mais significativos da Zona Euro contabiliza esses empréstimos como dívida nacional.

A emissão de obrigações não significa “imprimir” dinheiro. Não é financiada por défices. A emissão de obrigações pela União significaria um afluxo de fundos para uma recuperação em vez de austeridade na Europa. É urgente que o Ecofin e o Conselho Europeu o reconheçam, tanto para salvaguardar a Zona Euro como para obter agora coesão económica e social através de um New Deal para a Europa."


terça-feira, 5 de julho de 2011

A Moody´s baixou o rating de Portugal para "lixo"


"Londres, 05 de julho de 2011 — O Moody's Investors Service baixou hoje a notação das obrigações de longo prazo do governo de Portugal, de Baa1 para Ba2, e atribuiu um outlook negativo. Ao mesmo tempo, a Moody’s também baixou a notação da dívida de curto prazo de (P) Prime-2 para (P) Não-Prime. A acção de hoje conclui a revisão dos ratings de Portugal iniciado em 5 de Abril de 2011.

As seguintes directrizes comandaram a decisão da Moody para baixar as notações e atribuir uma perspectiva negativa:

1. O risco crescente de que Portugal vai precisar de um segundo plano de financiamento antes de regressar aos mercados privados, e a possibilidade crescente de que será exigida como pré-condição a participação dos credores privados.

2. A crescente preocupação de que Portugal não será capaz de atingir plenamente as metas de redução do défice e estabilização da dívida do acordo de empréstimo com a União Europeia (UE) e o Fundo Monetário Internacional (FMI), devido aos enormes desafios que o país enfrenta para reduzir despesas, aumentar o cumprimento das obrigações fiscais, alcançar o crescimento económico e apoiar o sistema bancário.

FUNDAMENTAÇÃO DAS NOTAÇÕES

A primeira directriz da descida de hoje do rating soberano de Portugal é a probabilidade crescente de que Portugal não vai ser capaz de se financiar a taxas sustentáveis no mercado de capitais no segundo semestre de 2013, nem depois por algum tempo. Tal cenário exigiria mais pacotes de financiamento oficial e isso pode exigir a participação dos actuais investidores na proporção do montante das suas aplicações em dívida a vencer.

A Moody’s nota que os responsáveis políticos europeus estão cada vez mais preocupados com a transferência da dívida grega detida por investidores privados para os balanços do sector público. A tornar-se necessária uma reestruturação grega, uma transformação do financiamento privado em público implicaria que uma parcela cada vez maior do custo teria de ser suportado pelos credores do sector público. Para compensar este risco, alguns políticos propuseram que a participação do sector privado deve ser uma condição prévia em pacotes adicionais de empréstimos à Grécia.

Embora a notação Ba2 de Portugal indique um risco muito menor de reestruturação que a notação Caa1 da Grécia, a evolução do apoio da UE é um factor importante para Portugal porque implica um risco crescente de que a participação do sector privado poderia se tornar uma condição prévia também em pacotes adicionais de empréstimos a Portugal. Esta evolução é significativa, não só porque aumenta os riscos económicos que enfrentam os investidores actuais, mas também porque pode desencorajar novos empréstimos ao sector privado e reduzir a probabilidade de que Portugal será capaz de recuperar, em breve, o acesso ao mercado em termos sustentáveis.

A segunda directriz da notação de hoje é a preocupação da Moody’s de que Portugal não vai atingir a meta de redução do défice — de 9,1% no ano passado a 3% até 2013, como previsto no programa UE-FMI — devido aos desafios colossais que o país enfrenta em reduzir despesas, aumentar o cumprimento das obrigações fiscais, impulsionar o crescimento económico e apoiar o sistema bancário. Como resultado, o país pode não ser capaz de estabilizar a razão dívida/PIB em 2013. Em particular, a Moody’s está preocupada com as seguintes fontes de risco para as projecções do défice orçamental:

1) Os planos do governo para conter as despesas podem ser difíceis de implementar na íntegra em sectores como a saúde, as empresas do Estado e as administrações regional e local.

2) Os planos do governo para melhorar o cumprimento das obrigações fiscais (e, portanto, gerar as receitas projectadas) dentro do prazo do programa de empréstimo e, em combinação com o factor acima, pode prejudicar a capacidade das autoridades em reduzir o défice orçamental para o valor pretendido.

3) O crescimento económico pode ser mais fraco do que o esperado, o que poderia comprometer as metas de redução do défice do governo. Além disso, a antecipada consolidação fiscal e a desalavancagem bancária ainda agravaria mais a situação. As previsões de crescimento para o país têm sido revistas em baixa após o acordo do empréstimo UE/FMI. Mesmo após estas revisões em baixa, a Moody’s acredita que os riscos relativos ao crescimento económico inclinam-se para o lado negativo.

4) Existe uma possibilidade não negligenciável do sistema bancário de Portugal necessitar de mais apoio do que está actualmente previsto no acordo do empréstimo UE/FMI. Qualquer infusão de capital público no sistema bancário acrescentaria dívida ao balanço.

A Moody’s reconhece que as suas anteriores preocupações sobre a incerteza política em Portugal foram largamente resolvidas. As eleições nacionais de 05 de Junho levaram à formação de um governo viável, com ambos os componentes a apoiarem na campanha o acordo de empréstimo com a UE-FMI negociado pelo governo anterior. A Moody’s também reconhece que as iniciativas políticas anunciadas no final de Junho demonstram o compromisso do novo governo Português com o programa. No entanto, os riscos (como detalhado acima) são tais que a Moody’s considera que a notação Ba2 é mais adequada para as obrigações de longo prazo do governo. A perspectiva negativa reflecte os riscos associados com a implementação dos planos ambiciosos do governo.

O QUE PODERIA ALTERAR A NOTAÇÃO PARA CIMA/BAIXO

Os desenvolvimentos que poderiam estabilizar o outlook ou levar a uma subida seriam uma redução na probabilidade de que seja exigida como pré-condição a participação do sector privado em futuros planos de apoio ou a evidência de que Portugal vai atingir ou ultrapassar as metas de redução do défice.

Uma descida adicional poderia ser desencadeada por uma derrapagem significativa na execução do programa de consolidação orçamental do governo, uma nova revisão em baixa das perspectivas de crescimento económico do país ou um aumento do risco de que o suporte exija a participação do sector privado."


quarta-feira, 22 de junho de 2011

Medina Carreira e o "Fim da ilusão"


Na apresentação do seu livro "O fim da ilusão", Medina Carreira, ex-ministro das Finanças, afirmou que Portugal vai ter que "renegociar a dívida e arrumar a casa para atrair investimento".





Defendeu medidas de proteccionismo face aos países emergentes como a China, pois caso contrário "as indústrias manufactureiras desaparecem todas" da Zona Euro onde o desemprego "foi de 8 ou 9%, o que é uma brutalidade" e concluiu que "a Europa está a perder tudo e não dá trabalho aos da casa".


segunda-feira, 16 de maio de 2011

Aprovado o empréstimo externo a Portugal


"Comunicado do Eurogrupo e dos Ministros do ECOFIN

Hoje, os ministros aprovaram por unanimidade a concessão de assistência financeira, em resposta ao pedido de 7 de Abril de 2011 das autoridades Portuguesas. Concordam os ministros com a Comissão e o BCE que o fornecimento de um empréstimo a Portugal garante a preservação da estabilidade financeira na zona euro e da integridade da UE.

O apoio financeiro da zona euro e da UE será prestado nos termos de um programa negociado com as autoridades Portuguesas pela Comissão, em colaboração com o BCE e o FMI. Os ministros subscreveram o acordo sobre um programa de assistência financeira conjunto UE/FMI com a duração de três anos que é ambicioso, embora salvaguardando os grupos mais vulneráveis da sociedade. Baseia-se em três pilares:
  • Um ajuste orçamental ambicioso, mas credível, para assegurar a sustentabilidade orçamental, nomeadamente através da correcção do défice excessivo até 2013, respeitando o prazo original estabelecido pelo Conselho. A sustentabilidade orçamental será apoiada por (i) uma rigorosa execução orçamental, que inclui vigilância e relatórios reforçados, uma administração fiscal mais eficiente e um melhor controle das Parcerias Público-Privadas e das Empresas Estatais, (ii) reformas do sistema de saúde e da administração pública, (iii) um ambicioso programa de privatizações.
  • Reformas, promotoras do crescimento e aumento da competitividade, no mercado laboral, sistema judicial, indústrias de rede e sectores de habitação e serviços, para promover o crescimento sustentável e equilibrado e diminuir os desequilíbrios macroeconómicos internos e externos.
  • Medidas para garantir um processo de desalavancagem equilibrada e ordenada do sector financeiro e fortalecer o capital dos bancos, incluindo fundos de apoio adequados.
O programa foi anunciado pelas autoridades Portuguesas em 5 de Maio. Os ministros congratularam-se com o apoio manifestado pelos partidos da oposição e apelam a todos os partidos políticos para garantirem uma aplicação rigorosa e rápida do programa.

O pacote financeiro do programa vai cobrir as necessidades de financiamento até 78 mil milhões de euros, que serão repartidos equitativamente (26 mil milhões de euros, cada), entre: (i) o Mecanismo Europeu de Estabilização Financeira (MEEF), (ii) o Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF) e (iii) o FMI. Em simultâneo, as autoridades Portuguesas comprometem-se a encorajar os investidores privados a manterem voluntariamente o seu nível de exposição.

Os Ministros do Eurogrupo e do ECOFIN confiam que o programa de ajuste económico e financeiro vai responder de forma decisiva aos desafios orçamentais, financeiros e estruturais que a economia Portuguesa enfrenta. Assim, vai também ajudar a restaurar a confiança e a preservar a estabilidade financeira na zona euro.
"


Depois dos sobressaltos que antecederam esta aprovação pelos 27 ministros das Finanças da UE, será a vez do FMI, dirigido interinamente por John Lipsky, aprovar na próxima sexta-feira a sua participação na ajuda financeira a Portugal.

Recordemos os elevadíssimos fundos europeus enviados para Portugal entre 1985 e 1995 e que sumiram como água na areia.
Recordemos que em 1995 a dívida pública ascendia a 52 mil milhões de euros e correspondia a 59.2% do PIB.
Recordemos que em 2004 subira para 86 mil milhões, mas correspondia a 57,6% do PIB, e no fim de 2010 atingiu a enormidade de 160 mil milhões de euros, abraçando 94,2% do PIB, mas o autor desta proeza vai candidatar-se às eleições de 5 de Junho.

Que destino será dado pelos futuros governantes a este empréstimo de 78 mil milhões de euros que vai vigorar ao longo de sete anos e meio e acrescer à dívida pública?
Valha-nos os técnicos do FMI para vigiar esta gente.


segunda-feira, 9 de maio de 2011

Portugal e a crise da dívida da zona euro


Num artigo no Finantial Times sobre a crise da dívida soberana na zona euro, Wolfgang Münchau alerta para a incompetência governativa de José Sócrates e defende que a única forma de prevenir tais situações e manter a união monetária é avançar para uma união política:

"Na crise da zona euro, a questão essencial não é o tamanho total da dívida soberana dos países periféricos. Porque é pequena relativamente ao produto interno bruto da união monetária. A razão entre a dívida total da zona euro e o PIB é menor do que a do Reino Unido, EUA ou Japão. Do ponto de vista macroeconómico, trata-se de uma tempestade num copo de água.
O problema é que a zona euro é politicamente incapaz de lidar com uma crise que é contagiosa e tem potencial para causar enormes danos colaterais. A "grande pechincha" — uma série de acordos institucionais sobre a dívida soberana da zona euro firmados pelo Conselho Europeu de Março — não resolve a actual crise. O processo de resolução só agora está a começar. Os responsáveis perceberam que, não importa qual a opção que escolherem para gerir a dívida, vai custar centenas de milhares de milhões aos contribuintes. É altamente improvável que os Estados aceitem fazer transferências fiscais de tal valor, sem impor condições extremas sobre um outro.

A razão política pela qual esta crise vai de mal a pior é um problema de actuação colectiva que continua por resolver. Ambos os lados têm falhado. O deputado avarento e economicamente iletrado do Norte da Europa é tão responsável como o primeiro-ministro do Sul da Europa que só se preocupa com o seu quintal. O governo grego comportou-se com relativa correcção, mas a forma como Portugal tem gerido, e continua a gerir, a crise é assustadora.
O primeiro-ministro José Sócrates decidiu adiar até ao último minuto o pedido de ajuda financeira. A sua comunicação, na semana passada, foi um ponto alto do lado tragicómico da crise. Com o país à beira da bancarrota, foi à televisão nacional orgulhar-se de ter garantido um acordo melhor do que a Grécia e a Irlanda. Além disso, garantiu que o acordo não seria muito doloroso. Passados poucos dias, quando se conheceram os pormenores, percebeu-se que nada disso era verdade. O pacote contém severas reduções de despesas, congela os salários da função pública e as pensões, aumenta os impostos e prevê uma recessão profunda nos próximos dois anos.

Não se pode gerir uma união monetária com governantes como o Sr. Sócrates ou com ministros das Finanças que espalham rumores sobre uma cisão.
As elites políticas da Europa têm medo de dizer uma verdade que os historiadores económicos sabem desde sempre: que uma união monetária sem uma união política não é viável. Não é uma crise da dívida. É uma crise política. A zona euro vai confrontar-se, em breve, com a escolha entre um impensável passo em direcção a uma união política ou um igualmente impensável passo a trás. Sabemos que o Sr. Schäuble
[ministro das Finanças alemão] reflectiu sobre esta última hipótese e rejeitou-a. Sabemos também que prefere a primeira. É tempo de o dizer."


domingo, 17 de abril de 2011

"O tesourinho"


"Pedro Santos Guerreiro - psg@negocios.pt


O salário? Corta. A pensão? Reduz. O contrato? Rasga. O emprego? Despede. A dívida? Adia. O certificado? Já não certifica.

Todas as certezas se estão a relativizar. Afinal, até o ferro se liquidifica, é apenas uma questão de temperatura. E o calor está de estoirar termómetros.

A Europa não perdeu a cabeça porque não se pode perder o que já não se tem. E os portugueses já perceberam que, se querem cumprimentar os seus chefes, têm de começar a aprender nomes alemães. É preciso aprender mais este: Wolfgang Schaeuble. É o ministro das Finanças de Angela Merkel e, ontem, quebrou um tabu: admitiu a necessidade de reestruturar a dívida pública da Grécia. E assim incendiou os mercados.

Reestruturar a dívida é uma maneira educada de dizer que não se consegue pagá-la. Primeiro aumenta-se o prazo de pagamento (tal como muitos portugueses fizeram com o seu crédito à habitação). Depois... bom, depois há várias formas de fazer perdões de dívidas. Eis o tabu para a Grécia, para a Irlanda... e para Portugal: conseguiremos algum dia pagar o que devemos?

O que Schaeuble disse ontem não era impensável, era apenas indizível. As opiniões públicas europeias (como a alemã ou a finlandesa) não estão disponíveis para "hair cuts" (que na prática significam perdões de dívida) ou de empréstimos que subsidiam, pela baixa taxa de juro ou pelo elevado prazo, os países falhados. Mas esse é um cenário que temos pela frente.

Mesmo vendendo "tudo" o que temos, através de privatizações, e reduzindo drasticamente o consumo e o crédito da banca, precisamos de tempo para reduzir o volume de endividamento. Mesmo o empréstimo da missão externa é, ainda assim, um empréstimo. É preciso pagá-lo.

A necessidade eventual de rever as condições de resgate de certificados de Aforro e de Tesouro é, apenas, mais uma das medidas de excepção. O dramatismo actual leva a que tudo o que dávamos por adquirido seja posto em causa. Começou pelos salários no Estado, já se agendaram as pensões mas não se vai ficar apenas pelos que não têm poder de contestar.

Aprendemos no último ano que a austeridade também tem uma cadeia alimentar: primeiro mastigam-se os mais fracos e apenas se rosna aos mais fortes. Os funcionários públicos, os trabalhadores por conta de outrem e os consumidores foram já a carne para canhão. Mas é preciso ir ao osso também dos lobbies e dos grupos de interesse.

Anulou-se meio TGV? A Mota-Engil processa. Anula-se o outro meio? Processa a Soares da Costa. Estão cobertas de razão. Mas os advogados mandam menos que os políticos. E os políticos têm de rever estes contratos com a mesma crueldade com que reviram os dos funcionários do Estado para lhes cortar salários.

O Estado deixa de ser paternalista mas continuará a agir como pai: um pai tirano. Com a mesma necessidade com que pedem ajuda para pagar as dívidas. Ou com a mesma urgência com que vão ter de rever as parcerias público-privadas. Rendibilidades de 12%?! Baixa para metade. Se não gostam, processem.

Os funcionários públicos, os pensionistas e os contribuintes não podem ser os únicos a pagar as facturas. É preciso entrar nos lobbies, económicos e políticos. Nas PPP. Nas empresas do Estado, nos institutos, nas fundações, nas empresas com monopólios protegidos. Sim, vamos chegar aos poisos de "boys" e aos financiadores dos partidos. Afinal, o FMI não é um saco de dinheiro nem um saco de pancada. Também está cá para isto."






Eis um artigo de opinião do Negócios que deu origem a um fórum espontâneo merecedor de registo, para o qual juntámos mais uma excelente infografia deste jornal sobre as vantagens e desvantagens da saída do país da Zona Euro:


PR1967 16 Abril 2011 - 12:58
A verdade que custa
Nos últimos anos os EUA e a UE, de um modo geral, e Portugal, em particular, têm vivido de forma absolutamente irreal:
  • não produzindo: as fábricas fecham, a agricultura é abandonada, as pescas idem,...
  • consumindo de forma crescente e absolutamente desnecessária
  • criando empregos em áreas sociais
  • construindo imóveis para ficarem desabitados
  • mudando de casa como quem muda de camisa
  • reduzindo horários de trabalho e "inovando nas reivindicações"
  • colocando nos governos pessoas absolutamente incompetentes
    enfim, fugindo à realidade.
E o resultado é a falência total deste modelo de "desenvolvimento". Em 15 anos, Portugal
  • desbaratou vários pacotes de incentivos comunitários
  • destruiu o aparelho produtivo (com o apoio da grande distribuição, i.e., SONAE, J. Martins, ...)
  • tem um sistema de justiça em que ninguém acredita
  • tem um sistema de ensino que atribui graus por simples presença (Como é possível que alguém, que não sabe ler e escrever, conclua o 9º ano?)
  • tem um sistema de saúde que serve essencialmente os profissionais de saúde.
Numa palavra, estamos falidos e hipotecados aos mais diferentes níveis.

Mas para este estado de (des)graça muito contribuíram:
  • os políticos do governo central, em primeiro lugar, porque deveriam dar o exemplo e, na maioria das vezes, o exemplo foi despesismo, corrupção, fraude e incompetência
  • os políticos das autarquias que, por absoluta falta de bom senso, acharam que uma cidade, vila ou região se desenvolve com grandes superfícies e amontoados de betão
  • o sector da justiça que tem feito figuras absolutamente miseráveis
  • a banca que tresloucadamente incentivou ao endividamento
  • os cidadãos que trabalham e pagam os seus impostos que continuam a aceitar este estado de coisas.

E agora:
  • diz-se mal do FMI e da Europa por estarem dispostos a nos emprestar dinheiro, mas também se diz mal se eventualmente não estiverem
  • esgotam-se os mais apetecidos destinos de férias (vamos aproveitar enquanto é tempo...)
  • temos os políticos, de manhã à noite, na TV, a dizerem-nos que as mentiras que nos disseram ontem foi para o nosso bem
  • temos uma rede de centros comerciais lindíssima (se não fosse o Belmiro a criar emprego "rasca" e a fechar mais umas lojas e fábricas, ninguém sobrevivia...)
  • temos passeios aos domingos nos hipermercados, com toda a família
  • temos muitas casas
  • não temos maternidades, mas temos "abortonidades"
  • temos a associação na hora (Tínhamos poucas, “né”?)
  • temos um aeroporto em Beja. (Viva!)
  • vamos ter um bocadinho de TGV (e muitos, muitos estudos)
  • temos o centro das cidades livre para os ratos nidificarem
  • consumimos quase tudo de fora (Somos mais "in"!)
  • temos licenciados em Matemática que mal sabem a tabuada e em Português que não sabem o presente do indicativo do verbo ser
  • já não temos temas fracturantes para iludir o "Zé Povinho"
  • temos uma economia social fortíssima (mas idosos a morrer como moscas e a serem encontrados 9 anos depois!)
  • temos cada vez mais telemóveis
Que bom!


Olisipone 16 Abril 2011 - 13:09
Oportunidade única
A verdadeira crise não é económica nem financeira: é contabilística e política. Reparem:
A UE, ou pelo menos a Zona Euro, não está insolvente. O Euro flutua nos mercados, devido a factores psicológicos, não económicos. A UE no seu todo continua a ser o maior Exportador mundial, acima da China. É também o maior Importador e tem o maior PIB do Mundo (dados do FMI).
O que se passa é que há diferenças muito grandes no seio da UE. Penso, e não sou o único, que o erro foi pensar que o Mercado Único ia trazer um desenvolvimento mais ou menos uniforme através da dissolução das fronteiras internas da UE. Na realidade, pondo em concorrência directa países fortes e fracos, 20 anos de experiência demonstraram que os mais fortes, ficaram mais fortes, e os mais fracos, mais fracos!

Mas, a questão de fundo é a seguinte: se todos devem uns aos outros, ou mesmo uns mais que outros, dentro do mesmo universo económico, na realidade a riqueza dos 16, ou mesmo dos 27, mantém-se a mesma. O problema é a forma como está distribuída e os direitos que foram sendo adquiridos sobre os excedentes e as dívidas.

Comunismo? Não! A UE estava disposta a partilhar os lucros, mas não as perdas! Isto é absurdo.

A solução está na UE assumir em conjunto as dívidas, emitindo, se necessário, títulos de dívida conjunta. Em funcionar, na realidade, como um só País com regiões mais rentáveis do que outras. Para isso seria necessário, obviamente, ter uma fiscalidade e uma economia únicas e acabar com as soberanias.

Porém, se verificarmos que ninguém está disposto a abdicar dos juros, ou a emprestar mais dinheiro, ou mesmo a anular as dívidas internas no seio da UE através de uma solução contabilística, nesse caso, o que temos é uma crise política no seio da UE que põe em causa a sua própria sobrevivência.

E nesse caso, qual é o nosso papel? Não vejo vantagem absolutamente nenhuma em continuarmos reféns de uma moeda que não controlamos, metidos num universo sem fronteiras onde não temos competitividade e a pagar dívidas em que incorremos, largamente, pelas condições que nos foram impostas.

Devíamos, pois, aproveitar a oportunidade única que temos até Maio e declarar-nos insolventes. Sair do euro e negociar apenas com o FMI! Aliás, decorre neste momento uma luta entre a UE, que nos quer penalizar, e o FMI, que nos quer dar uma taxa de juro mais baixa.

Esta é a última oportunidade que temos de nos vermos livres de uma UE que nos estrangula e nos arrasta para o abismo!


PR1967 16 Abril 2011 - 15:25
Comentário a olisipone "Oportunidade única"

Caro amigo(a) "Olisipone" do fórum,

Peço desculpa por discordar do seu comentário, pois no meu entender a realidade é diferente daquela que apresenta.

A Europa não é o bloco mais importante do mundo e está a perder competitividade para as novas potências (China, Índia, Brasil, ...) sendo, politicamente, um saco de gatos...
A Europa tem, aliás, meia dúzia de países, com a Alemanha à cabeça, que ainda têm um aparelho produtivo dinâmico e competitivo, mas aos quais estão ancorados países — entre os quais Portugal — sem uma estratégia, sem rumo e, pior que tudo, sem valores. Mas todos os europeus acham que devem ter os mesmos direitos embora o menor número de deveres possível.
A realidade é que, na Europa, os povos que menos produzem e mais gastam devem aos países que mais produzem (ex: Portugal deve à Alemanha) e no mundo acontece a mesma coisa (ex: os EUA devem à China).
Por isso aquilo que irá acontecer, quer nós queiramos quer não, é que, não por vontade própria e inteligência mas por não ser possível contornar a realidade eternamente (embora isso parecesse possível nos últimos anos), vamos ser obrigados a mudar de vida, gastando, não mais (como até agora), mas menos do que aquilo que ganhamos (pois teremos que pagar dívidas).
O que eu quero dizer é que, por mais conversa "mole" que tenhamos para ludibriar a realidade e culpas que possamos atribuir aos outros — mercados, FMI, UE, Globalização —, ninguém vai trabalhar e criar riqueza por nós e isso é o que todos devíamos assumir.
O único grande problema é que aqueles que nos transportaram para o abismo (políticos principalmente) e os que usufruíram deste regabofe (sector empresarial do estado, alguns funcionários públicos, responsáveis por fundações e institutos que para nada servem, grande distribuição, alguma banca, corruptos de quaisquer sectores, boys dos partidos, filhos e enteados de gestores de sei lá o quê e, também, pessoas que se endividaram para passar férias, ter iates, mudar de carro anualmente, ...) não sejam os únicos a pagar, pois se assim fosse a única coisa que existia era justiça.
P.S.: Em todas as classes existem pessoas competentes e incompetentes, contudo há sectores onde o desperdício é clamoroso.


Olisipone 17 Abril 2011 - 08:51
Resposta A PR1967
Uma coisa que nunca deixará de me espantar, é a capacidade dos portugueses para transformarem os seus desejos em realidades.

Uma coisa é uma hipótese como a que eu apresento e que me parece correcta. Pode, evidentemente, ser debatida. Foi para isso que a publiquei.
Outra coisa é negar as bases de um raciocínio em vez de debater o conteúdo.

"No seu entender" a realidade é diferente. Pois olhe, "no entender" do FMI, nas últimas projecções até 2016, o PIB nominal estimado da UE este ano será de 17,452.406 biliões de dólares, o da China 6,515.861 e o do Brasil 2,421.637. Em 2016, de acordo com o mesmo documento, estes números serão 20,791.880, 11,220.173 e 3,302.858, respectivamente.


JMGPI 18 Abril 2011 - 09:47
Olisipone - Portugal sair do Euro?
Portugal sair do Euro?
Certamente terá vantagens e desvantagens, como tudo na vida...

Eu não sou economista, mas interesso-me por estes assuntos e tento, na medida do possível, manter-me informado.
Se Portugal saísse da zona Euro, não iríamos ficar com uma moeda fraquíssima, desvalorizada e, mais preocupante que isso, extremamente volátil, desprotegida e que levaria muito, muito tempo até voltarmos a ter (se é que alguma vez tivemos) poder de compra no estrangeiro?


PR1967 18 Abril 2011 - 10:26
Sobre a última oportunidade (novamente)
Caro(a) Olisipone,

A sua visão para a discussão é, de facto, válida embora me pareça em alguns aspectos (saída da UE) algo radical.
As estatísticas que refere evidenciam a tendência que eu refiro, i.e., a perda da Europa e dos EUA, face aos países emergentes.
Agora o que seria importante em reflectir, também, era sobre o endividamento dos países e, se quiser verificar essas estatísticas, constatará que são assustadoras.
Mas há mais índices sobre os quais a nossa sociedade está em perda:
  • envelhecimento da população
  • qualificação da sociedade (Imagina quantos engenheiros são formados anualmente na China ou na Índia? Em contrapartida, Portugal forma advogados, sociólogos, psicólogos, comunicólogos, especialistas em acção social, ...)
  • qualidade do ensino (preocupante, excepto nas línguas e informática em que evoluímos imenso)
  • justiça (a falta de um sistema credível é, de facto, penoso)
  • valores (vivemos numa sociedade em que, para uma grande parte das pessoas, os valores são os do consumo)
E é por isso que, no meu entender, nós temos que encarar a realidade! Sendo certo que ainda temos uma qualidade de vida muitíssimo superior aos chineses, indianos, ... Mas os gregos na antiguidade também tiveram um grande império!

P.S.: Não se deduza do que escrevo que as profissões da área social não são úteis, simplesmente não são o motor da criação de riqueza, mas sim da distribuição da riqueza já gerada.


Olisipone 18 Abril 2011 - 11:56
Mais uma achega...
Na minha opinião, que sou historiador e não economista, parece-me que:
a) era melhor assumir o default agora, e não depois de assinado o pacto com a Tróica e
b) anteciparmo-nos, trar-nos-ia muito maior credibilidade

Claro que estamos em recessão. Mas seja de que modo for, Portugal encontrou-se com o seu destino e tem mesmo de reinventar a sua economia.

Não podemos continuar a ter um desequilíbrio de -35,7% na Balança Comercial (ou seja, a importar mais 20 mil milhões do que exportamos), importando 6950 milhões de bebidas e refrigerantes, quando importámos 8027 milhões de lubrificantes e combustíveis em 2010, por exemplo!

É preciso um controlo das fronteiras e produzir essencialmente para o mercado nacional e para exportação, em vez de importarmos 80% do que comemos, e de termos à venda por todo o lado produtos importados que só cá deixam as margens de lucro dos comerciantes e eventualmente o IVA, se for declarado...

Em política, (quase) tudo é possível. E a melhor estratégia é sempre surpreender o adversário.

Se Portugal optasse por tomar a dianteira neste processo, com uma moeda desvalorizada, o investimento estrangeiro iria vir de todo o lado. Sobretudo se soubéssemos gerir as nossas parcerias, não de acordo com os interesses da UE, mas com os nossos! Vocês dão-se conta de que o comércio com a UE nos é extremamente deficitário? Dos 56 mil milhões importados em 2010, 43 mil vieram da UE! E só exportámos para a UE 27 mil milhões, dos 36 mil que exportámos.

Claro que não podemos deixar de exportar para a UE. Mas devemos fazê-lo como todos os outros países de fora da UE e não numa situação de dependência como aquela em que nos encontramos.

E quanto à "honorabilidade" do nosso default, pergunto-vos: Qual é a moral de uma UE que se serve de nós para escoar os seus produtos há 25 anos, que compra os nossos ainda assim bastante baratos e nos vai emprestar dinheiro a um juro mais alto, e a um prazo mais curto, do que o FMI?


(actualizado)


sexta-feira, 1 de abril de 2011

Leilão de dívida combinado com compradores do Brasil e China


O IGCP colocou esta manhã 1,645 mil milhões de euros à taxa de juro de 5,793% num leilão extraordinário de dívida que se vence daqui a 15 meses.





Duarte Caldas, analista da IG Markets, considera que a operação "correu bem", mas já estaria combinada a priori com compradores do Brasil e da China. E acrescenta:
"Se Portugal for ao mercado, poderemos estar a brincar com o fogo, e pode acontecer uma coisa muito má, que é o País não conseguir colocar a dívida".

A indefinição sobre os mecanismos de auxílio financeiro na Zona Euro após 2013, que ainda estão a ser ponderados na UE, determina que a única opção para Portugal seja emitir dívida que atinja a maturidade antes desse ano. Os investidores receiam incorrer em perdas nos títulos que se vençam depois de 2013, se for decidido haver reestruturação da dívida soberana de países em dificuldades financeiras.



2011-04-01 20:33:54
Como decorre um leilão da dívida pública


terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

A brincar se dizem coisas sérias


Desde que os mercados financeiros souberam que, ao contrário dos 5,9% anunciados, o défice orçamental de 2009 ascendia a 9,4%, o país perdeu toda a credibilidade e as taxas de juro das Obrigações do Tesouro a dez anos dispararam:



Neste gráfico interactivo, onde podemos ver as yields máxima, mínima, de abertura e fecho, escolha-se a opção 5Y: no ano 2010 começámos a subir o monte Everest.


Vamos sublimar: Quando o sujeito parar, depois de muitas contorções e cambalhotas, pegue-lhe e recomece a queda. Aprecie aquele riso característico dos alunos cábulas!





quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Enquanto a orquestra toca, o Titanic afunda-se


A China comprou mil milhões de dívida a Portugal, pelo prazo de 18 meses, numa operação de venda directa em 5 de Janeiro. Embora o governo não confirme, consta que a dívida foi colocada à taxa de juro de 4,75%, portanto superior à que os mercados estão a cobrar nas emissões de Obrigações do Tesouro para prazos mais alargados. Por exemplo, a taxa das obrigações a três anos é cerca de 4,59%.
Trata-se de um péssimo precedente porque Portugal precisa este ano de 20 mil milhões de euros para financiar o défice orçamental de 2010 e a antiga dívida.

Parece que a China também licitou parte dos 599 milhões de euros de obrigações do tesouro a dez anos colocadas ontem, ajudando a descer a taxa de juro para 6,716%.
Este leilão foi considerado um sucesso por José Sócrates e Teixeira dos Santos porque na última emissão de 2010 a taxa atingiu 6,806%.
Na maturidade a quatro anos, foram colocados 650 milhões à taxa de juro 5,396%.



Paul Krugman, prémio Nobel da Economia, comentou no seu blogue:

"12 de Janeiro de 2011, 12:21

Concordo com Calculated Risk aqui: considerar um sucesso a capacidade de Portugal colocar obrigações a dez anos a uma taxa de juro de 'apenas' 6,7% diz alguma coisa do profundo desespero da situação europeia.
Se se pensar na dinâmica da dívida — os encargos dos juros crescentes sobre uma economia que provavelmente vai enfrentar anos de deflação para abater dívida — uma taxa de juro tão alta é pouco menos que ruinosa. Mas não é, de facto, tão má como as pessoas estavam à espera na semana passada; daí o sucesso.

Mais alguns sucessos e a periferia europeia estará destruída."


*


A opinião dos outros:

Oespanhol 13 Janeiro 2011
Sabem muito
Este fretista de Wall Street, que tem muitos iludidos europeus como seguidores, segue a voz do coração americano face ao aumento da influência chinesa.
Estavam a fazer o dente e como um carneirinho da manada não caiu já, como aconteceu com a Irlanda e a Grécia, ficaram fulos e usam estes submarinos supostamente keynesianos para fazer fretes. Os nossos "amigos", que nos têm ajudado muito, queriam continuar sozinhos a festa com os Borges, Cavacos e Coelhos à cabeça em Portugal, e como ainda não foi desta, vão buscar os Krugman e Soros ao baú.
A aliança da Nova Ordem, disfarçada de fingida boa vontade, quer continuar a ter o monopólio do roubo dos periféricos.

naolivre 13 Janeiro 2011
Este não entende ...
... nada de economia. Sócrates, sim: enquanto houver possibilidade de 'engordar os boys' tudo está bem. Mas há outro país na Europa que tenha tantos deputados à esquerda da social-democracia? O povo está a pagar as consequências do esquerdismo fora de moda. Somos os mais pobres, mais desiguais e mais endividados. Conseguimos!

piroc 13 Janeiro 2011
Não é preciso ser Nobel ...
... para chegar a esta conclusão mas, por cá, Sócrates gaba-se de ter conseguido um grande feito, ao endividar-se a 6,7%. E o resto da manada (salvo poucas excepções) segue-lhe o raciocínio... Todos em direcção ao abismo!

danny1williams 13 Janeiro 2011
Não é preciso ser Nobel ...
... mas este senhor é, com mérito.
Não é como muitos economistas portugueses da treta, em posições de destaque, algumas até lá no estrangeiro.
E se agora critica Portugal como economista, sendo americano, também o fez e faz para as políticas americanas. Mas critica com fundamento. Certo ou errado, mas fundamentado.
E quando é assim, deve-se ouvir e tentar perceber o que ele diz, acho eu... É uma questão de racionalidade.

jpgjpg 13 Janeiro 2011
Do the markets believe Portuguese leaders? Not really.

Dr_House 13 Janeiro 2011
Ruinosas não são as taxas de juro, ruinoso é o sistema
Este Nobel até parece que descobriu a pólvora! Parece que não sabe, que os EUA e a maioria dos países europeus estão falidos. Só há 2 alternativas, ou continuamos na dança das dívidas e dos créditos ou rebentamos com o sistema e abrem todos falência. Mas já que este Senhor é um Nobel, eu gostaria é que ele apresentasse uma solução concreta para reformar o Sistema actual.

anti 13 Janeiro 2011 - 13:42
Claro que sim, pois a taxa de juro do euro está em 1% ...
... e com juros a 6.7%, que serão pagos a prazo, não há investimento suficiente. Sem investimento, porque estamos a pagar dívida e juros da dívida, não há crescimento e portanto cresce a dívida.
A taxa compromete o investimento necessário. Tudo para investimento e não para eliminar passivos e juros. Senão ainda será mais difícil sair do buraco!

nmcaf2000 13 Janeiro 2011 - 15:41
Krugman
Quem acompanha os escritos deste senhor há mais de 24h (o que deve ser o caso de apenas 1% dos comentadores e jornalistas) sabe que este comentário não é uma crítica à actuação do Estado Português, o qual seguiu exactamente as medidas de intervencionismo que o Paul Krugman defende, mas sim à falta de uma estratégia integrada de combate à especulação nos mercados de dívida soberana e políticas orçamentais/fiscais integradas ao nível da zona Euro.
6,7% é uma taxa insustentável no longo prazo, não é preciso ter um prémio Nobel para o perceber.
Já o aproveitamento ridículo que a imprensa faz de supostas "más notícias" é permanente. Ora vejam lá o destaque que se deu às opiniões do Paul Krugman sobre qual o método de combate mais eficaz à crise económica, num contexto de recessão internacional generalizada.
Para quem tiver tempo, vale a pena ler o blogue de Krugman.
Aconselho os jornalistas do Negócios a fazer o mesmo. E já agora, que deixem de ser parciais nas análises que fazem, o jornalismo é suposto ser isento.

JDMT2010 13 Janeiro 2011 - 15:53
É espantoso!
Ainda há quem duvide da causa do estado de desgraça e descrédito que sofre este pobre país... Ponham na cabeça que os Alemães fizeram ao longo dos últimos anos o seu trabalho de casa, vivendo com modéstia. Nós Portugueses andámos a alimentar ilusões, vivendo à grande e votando em governos irresponsáveis e corruptos. Veja-se o nosso parque automóvel, Mercedes, BMW's, Porsches, etc, tudo com gente nova rica, feia, pequena e peneirenta lá dentro.

10011949 13 Janeiro 2011 - 20:43
nmcaf2000
Partilho a sua opinião e felicito-o pelo comentário.
O nosso governo já nem quer saber se o juro é 6,7 ou 6,9 ou até 7,5%, quer é o financiamento, esquecendo-se que os juros são para pagar. Ora Krugman tem toda a razão.
Agora os portugueses deviam questionar-se: Portugal fazendo parte da União Europeia, porque é que para se financiar paga juros de 6,7% e outros pagam 3 ou 4%, sendo todos parceiros?