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domingo, 22 de março de 2020

COVID-19: a justificação das medidas de contenção


A análise seguinte explica pormenorizada e correctamente a perigosidade do coronavírus SARS-CoV-2. Foi escrita por um professor de epidemiologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa mas pode — e deve — ser lida por toda as pessoas, independentemente das suas habilitações académicas, porque apresenta de forma pedagógica a justificação das medidas de contenção em vigor no nosso país.

Como este blogue é sobretudo lido por descendentes de portugueses que enveredaram pela diáspora e, por isso, necessitam da tradução rápida acessível no canto superior direito, tomei a liberdade de copiar integralmente o texto, com as devidas vénias a quem teve a solidariedade de escrever e ao jornal Público que soube avaliar a qualidade desta análise:


O novo coronavírus: factos, respostas e previsões II

A protecção dos idosos e dos doentes crónicos vai ser crucial para o sucesso nos próximos muitos meses. Estou convencido de que iremos ultrapassar esta pandemia”. Análise de Manuel Carmo Gomes, professor de Epidemiologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa

Manuel Carmo Gomes
22 de Março de 2020, 20:45

À data em que escrevo, a covid-19 atingiu em todo o mundo cerca de 280 mil pessoas e causou mais de 11 mil mortes. Olhamos para as curvas da incidência da doença nos nossos vizinhos em Espanha, França, Itália e Alemanha, e não conseguimos dizer com segurança, onde ou quando ocorrerá o pico da epidemia.


No passado dia 19, o Governo português enunciou um conjunto de medidas restritivas que visam limitar o contágio da doença, sendo legítimo que os cidadãos se interroguem. Por que razão chegámos aqui? A ciência ajuda-nos a compreender esta realidade? O que vai acontecer a seguir?

Talvez pareça estranho, mas é possível responder. Não com certezas absolutas, mas com confiança suficiente para poder escrever estas linhas. Tentarei em seguida cruzar conhecimentos científicos com estas preocupações de uma forma que espero compreensível e esclarecedora.

O que tem o novo coronavírus de tão especial para gerar uma pandemia com esta rapidez?

O novo coronavírus tem quatro características que, combinadas, lhe dão essa capacidade:

1. Quando uma pessoa é infectada, passa por um período em que o vírus se multiplica nos nossos órgãos de forma silenciosa e sem causar sintomas (um-dois dias), entrando em seguida num outro período (também um-dois dias) durante o qual a pessoa já é capaz de contagiar as outras. Tudo isto sempre sem sintomas.

2. O tempo geracional (serial interval), isto é, o tempo médio que decorre entre ser infectado e contagiar outrem, é curto — pensa-se que sejam cerca de quatro a sete dias. Isto significa que não leva muito tempo a formar-se uma cadeia de transmissão.

3. Múltiplas vias podem levar ao contágio: gotículas emanadas com a tosse, espirro ou a fala; via aerossol (gotículas tão pequenas que pairam no ar); contacto físico (por exemplo, mão-boca-olhos); e, eventualmente, via fecal-oral. Desconhece-se se a transmissão da grávida para o feto é possível.

4. O vírus causa uma letalidade por doença (percentagem de doentes que morre) baixa a moderada nos menores de 60 anos. Mas a doença tende a ser prolongada e, durante esta, o doente mantém-se contagioso. A maioria das estimativas da letalidade média situa-se entre 2 e 5%, variando com a capacidade do sistema de saúde. Quando esta letalidade é aplicada a um grande número de doentes, traduz-se por um monstruoso número absoluto de mortes.

Quando um vírus com estas características é introduzido numa população que está totalmente desprotegida, sem anticorpos para o vírus, as consequências são aquelas a que assistimos. Isto não é surpresa nem para especialistas em vírus nem para epidemiologistas. Há muito tempo que nos dizem que a questão seria ‘quando’ e não ‘se’ surgiria alguma vez um vírus assim.

Apesar de já termos tido más experiências com a família dos coronavírus (SARS em 2002 e MERS em 2012), a maioria dos cientistas esperava que fosse um vírus da gripe a originar a próxima pandemia. Em termos práticos, acertar na família do vírus não faz grande diferença, as características do vírus é que fazem a diferença.

Há solução? O que vem a seguir?

Sabemos o suficiente para responder a estas perguntas com alguma segurança, recorrendo à epidemiologia matemática, a área da ciência que se ocupa do estudo da dinâmica das epidemias.

O impacto de um vírus com as características acima descritas depende essencialmente de algo que a maioria dos portugueses nunca tinha ouvido falar: o número básico de reprodução da infecção, a que chamarei R₀ (lê-se R-zero).

Trata-se do número de novas infecções provocadas por uma pessoa que está infectada, antes de ser isolada. Evidentemente, há doentes que contagiam cinco ou seis pessoas ou mais, e há doentes que não contagiam ninguém. O valor do R₀ é uma média de tudo isto. No caso do novo coronavírus, tem-se situado entre dois e três, dependendo da região e da fase da epidemia. Por exemplo, se já há um estado de alerta, os doentes são identificados e isolados mais depressa, e o R₀ tende a diminuir. Em meios urbanos de grande densidade populacional, o R₀ tende a ser mais alto do que em meios rurais.

Há dois pontos fundamentais, que resultam do valor do R₀ acima mencionado. É conveniente tê-los em mente para perceber o raciocínio que se segue:

1. Na ausência de qualquer controlo da doença, a covid-19 irá atingir 60% a 80% da população. Quando, há alguns dias, a chanceler Merkel disse que 70% dos alemães podiam ser infectados, houve quem ficasse céptico. Na verdade, estava apenas bem informada.

2. A única forma de travar a propagação da covid-19 é ter, pelo menos, 60% da população imunizada (isto é, mais de 60% dos portugueses têm de ter anticorpos contra o vírus).

O ponto 1 representa o problema e ajuda-nos a compreender por que razão a epidemia cresce tão depressa em tantos países, Portugal incluído. As curvas desta epidemia crescem de forma exponencial, é um crescimento estonteante. É apenas uma manifestação da agressiva dinâmica do vírus em direcção à invasão de 60 a 80% da população. Se nada for feito, atingiremos esta percentagem em pouco tempo, o que teria terríveis consequências, às quais se retorna mais abaixo.

O ponto 2 é a solução para o problema. Existem duas formas de conseguir imunizar uma população: uma é recorrendo a uma vacina; a outra é através de imunização natural, ou seja, ter contacto com o vírus selvagem.

No que respeita à vacina, é improvável dispormos dela em menos de um ano, e isto já é um prazo optimista. Para além do tempo dos ensaios da vacina, vai ser necessário produzir centenas de milhões de doses para todo o planeta. Há poucos fabricantes com esta capacidade e a produção levará o seu tempo. As notícias que têm circulado sobre ensaios, pela primeira vez, de uma vacina em humanos, referem-se à chamada Fase 1. Esta destina-se apenas a testar a segurança da vacina (é preciso garantir que os vacinados não adoecem com a vacina). Falta a Fase 2 (optimização do conteúdo da vacina) e, em especial, a Fase 3 (teste da efectividade e segurança em grande escala), que é a mais demorada. Só depois se iniciará a produção em massa.

Quanto à imunização natural: se deixarmos a epidemia seguir o seu livre curso, sem medidas de controlo, eventualmente 60 a 80% das pessoas serão infectadas e, passado esse ponto, atingimos aquilo a que os epidemiologistas designam por “imunidade de grupo”. Nessa altura, o R₀ toma um valor menor do que 1 (cada infectado contagia menos do que uma outra pessoa) e a epidemia pára. Mesmo que seja importado um novo doente do estrangeiro, este não consegue dar origem a uma cadeia sustentada de novos doentes porque, em geral, contactará com pessoas que estão imunizadas. Podemos considerar que a população está globalmente protegida — é a imunidade de grupo a funcionar.

Mas imunizar a população desta forma tem consequências terríveis para os serviços de saúde e as populações. Nenhum serviço de saúde do mundo tem capacidade para responder ao afluxo de doentes graves que ocorreria em poucas semanas.

Os portugueses são testemunhas de que em menos de três semanas atingimos os mil doentes covid-19 e, sem medidas de contenção, o número de novos doentes aumentará a cada dia que passa. Em Itália, após um mês e meio de epidemia, verificam-se mais de 45 mil doentes e mais de quatro mil mortos, e ainda não se antevê o pico da epidemia. As autoridades italianas estão a fazer tudo o que é humanamente possível para abrandar a epidemia. O problema é a força da dinâmica do vírus em direcção aos 60-80%.

A contenção da epidemia

A China, a Coreia do Sul, Singapura e Macau provaram que é possível travar a epidemia com medidas inéditas de supressão de contactos sociais, as quais requerem uma grande aceitação e disciplina por parte da população.

Todos ouvimos nas notícias a dureza das medidas tomadas e as suas consequências para a economia. O Governo português — a meu ver, bem — deu passos nessa direcção quando, a 13 de Março, optou pelo fecho das escolas e, em especial, com o pacote de medidas emanadas pela resolução do Conselho de Ministros do passado dia 19 de Março. São conhecidas de todos, são todas pertinentes, não as irei enumerar.

Todas estas medidas têm como objectivo principal reduzir a proximidade física entre as pessoas, evitando, assim, o contágio da doença pelas suas múltiplas vias de transmissão. Se tivermos sucesso, o valor do R₀ diminuirá e a rapidez com que a epidemia cresce irá abrandar. A epidemia passará então por um pico que todos desejamos que não seja muito alto (poucos doentes por dia quando chegarmos ao pico). Se nos mantivermos firmes e disciplinados nas medidas de contenção, o valor do R₀ irá tornar-se menor que 1 e o número de novos doentes começará a diminuir todos os dias. Aconteceu na China, iremos conseguir também em Portugal.

Uma consequência importante das medidas de contenção é que o pico da epidemia não será tão alto e estará deslocado para mais tarde no tempo. Este achatamento e atraso na ocorrência do pico é aquilo a que os epidemiologistas designam por “aplanar a curva epidémica”. Quando as previsões vão adiando a ocorrência do pico, isso significa, em geral, que as medidas implementadas estão a surtir efeito.

Ao ultrapassarmos o pico da epidemia, nada está ganho, mas precisamos desesperadamente dessa acalmia para nos reorganizarmos. Os serviços de saúde precisam também de ganhar tempo, criar estruturas organizadas e treinadas, gerir recursos e equipamentos para continuar a ter capacidade de resposta. Há equipas de cientistas portugueses a monitorizar a epidemia que estarão atentos aos sinais do impacto das medidas decretadas pelo Governo ao longo das próximas semanas. Deixo aqui uma palavra de muito apreço aos académicos de várias instituições que nos últimos dias largaram as suas actividades e se disponibilizaram para apoiar os colegas do Instituto Ricardo Jorge a analisar os dados da epidemia, construir modelos, efectuar previsões, discutir soluções. Grande espírito de corpo por parte da Academia.

É de realçar a importância de dois pilares fundamentais na contenção da epidemia de covid-19:

A. É fundamental apoiar e proteger os nossos profissionais de saúde de todas as formas possíveis. Há que assegurar a disponibilidade de material de protecção individual para quem está na linha da frente.

B. É obrigatório proteger os nossos idosos e as numerosas pessoas que são portadoras de doenças crónicas de alto risco para este vírus: hipertensão, doenças cardiovasculares, diabetes. Todos os esforços devem ser feitos para disseminar este apelo.

Estas pessoas, quando são infectadas, têm elevado risco de contrair formas graves da covid-19 e de requerer cuidados hospitalares intensivos prolongados. Quando são internadas, o curso da doença é, em geral, lento, podendo estes doentes estar sob cuidados quatro a seis semanas, ou mais! É muito tempo. Um afluxo de muitos doentes com a covid-19 num espaço de poucas semanas vai obstruir a capacidade de resposta dos serviços de saúde. Vimos assistindo a isso em Itália e as consequências estão a ser devastadoras.

Os netos e os filhos devem manter distanciamento físico em relação aos avós. Os lares de idosos devem ser cautelosamente protegidos de infecção importada por pessoas bem-intencionadas que desconhecem estar a transmitir o vírus. A protecção dos idosos e dos doentes crónicos vai ser crucial para o sucesso nos próximos muitos meses.

O alívio da contenção e a possibilidade da segunda onda epidémica

Ultrapassado o pico da epidemia, se conseguirmos que o número de novos casos por dia continue a descer, haverá uma altura em que será possível, até desejável, o alívio das medidas de contenção.

Mas este assunto é delicado. O vírus continuará a circular no planeta; Portugal continuará por muito tempo a importar pessoas infectadas e, uma vez que estamos longe dos ambicionados 60% de imunizados que nos conferem imunidade de grupo, corremos o sério risco de uma segunda onda epidémica, que pode ser tão agressiva como a que vivemos. A China corre esse risco neste preciso momento. Isto não significa que não devamos tentar, mas o processo vai necessitar de acompanhamento apertado e gestão cautelosa.

Num mundo ideal, os idosos e os doentes crónicos continuariam sempre protegidos, e reiniciaríamos gradualmente as actividades das pessoas com menor risco de doença grave. Estas pessoas passariam a ter maior risco de infecção do que quando estavam confinadas. Nesse mundo ideal, manteríamos a separação entre elas e os idosos, de forma a que as novas cadeias de transmissão se formassem apenas entre as pessoas de menor risco para doença grave.

Sempre mantendo baixa incidência da doença, conseguiríamos, com esta estratégia, ir imunizando naturalmente os sectores da população de menor risco, caminhando em direcção aos 60% de imunizados na população, circunstância que nos aproximaria do desejado estado de imunidade de grupo. Esta estratégia ideal é difícil de implementar na perfeição. Se ficarmos abaixo (por exemplo, ao nível de 20 a 30% da população imunizada naturalmente), a possibilidade da segunda onda não será evitada. Contudo, esta será mais lenta, permitindo maior capacidade de resposta dos serviços de saúde. A razão é simples: quando um doente contactar com uma pessoa que poderia contagiar, existirá uma certa probabilidade de que essa pessoa já esteja imunizada. O valor efectivo do R₀ será, então, mais baixo do que no início da primeira onda.

Várias equipas de investigação, em muitos países, estão neste momento focadas em estudar este problema. Todos concordamos que, quando um país aliviar as medidas de contenção, terá de ter uma máquina bem montada de detecção rápida dos novos doentes, rastreio rápido dos contactos destes doentes, imposição de quarentenas locais aos contactos dos doentes. Mais uma vez, será necessário o extraordinário trabalho dos nossos delegados de saúde e das suas equipas. A existência ou não de uma segunda onda dependerá, em grande parte, do apoio que lhes consigamos prestar.

Temos pela frente muitos meses difíceis, inéditos, durante os quais faremos todo o possível para minimizar os danos causados pela covid-19 enquanto não chega a vacina. Estou convencido de que iremos ultrapassar esta pandemia com muitas histórias para contar, novas competências e uma forma mais humilde de olhar o mundo.

****
*

Sobre a importância do valor do R₀, o leitor interessado pode visualizar o gráfico apresentado no vídeo divulgado aqui.

Os idosos e os doentes crónicos devem prestar muita atenção à possibilidade da segunda onda epidémica, muito bem explicada no final desta excelente análise, devem continuar a lavar as mãos com frequência e usar máscaras cirúrgicas quando receberem visitas ou saírem para a rua.


terça-feira, 19 de maio de 2015

Um domingo violento - II






Carlos Silva
Professor, Óbidos 19/05/2015 15:25
Passámos de 80, no tempo de Salazar, para 8. Hoje, a autoridade pública, é uma propriedade pública, no sentido em que é um ótimo alvo, com garantia que não pode retaliar, pois se esboçar algum gesto de legítima defesa, é logo alvo de inquéritos, suspensões, etc.
Na mesma medida em que há o dever ético de correção para com o público, assim o público deve tratar com respeito a autoridade seja ela quem for, policial, educativa, etc.
Provocação e legítima defesa são causas de exclusão, dirimentes da ilicitude. Injúrias, difamações, ameaças, calúnias e também humilhantes agressões físicas atemorizam hoje polícias e professores que estão expostos à "carne viva" social do ódio, inveja e do motivo fútil. Nenhum profissional deve aceitar ser colocado numa situação em que é quase um toiro numa arena.


sexta-feira, 8 de maio de 2015

Resultados da componente específica da PACC 2015


O Instituto de Avaliação Educativa (IAVE), responsável pela elaboração das provas que compõem a Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades (PACC), divulgou os resultados da componente específica da PACC, que se realizou entre os dias 25 e 27 de Março de 2015. Fica assim concluída a última etapa da PACC do ano escolar 2014-2015 que, como previsto, teve uma componente comum e uma componente específica.

Realizaram a componente específica os candidatos que foram aprovados na componente comum que decorreu a 19 de Dezembro de 2014 e cujos resultados foram divulgados em 26 de Janeiro.

Em nota divulgada no Portal do Governo, o Ministério da Educação e Ciência (MEC) afirma (o negrito é meu):
O domínio de capacidades básicas tais como o raciocínio lógico e a capacidade de comunicação em língua portuguesa são transversais à leccionação de todas as disciplinas. Para garantir a qualidade do ensino dos nossos alunos, é importante que os candidatos a seleccionar e recrutar como professores demonstrem o domínio dessas capacidades básicas. Por outro lado, é fundamental o domínio dos conhecimentos e capacidades específicas e essenciais para a docência em cada grupo de recrutamento e nível de ensino. Como sempre temos dito, não se pode ensinar bem o que não se sabe muito bem.

Sendo a qualidade da docência fundamental para a qualidade do sistema educativo e, por conseguinte, do sucesso na aprendizagem dos alunos, o Ministério da Educação e Ciência tomou uma série de medidas no sentido de garantir que sejam os candidatos melhor preparados a ensinar os nossos alunos. A Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades é parte fundamental de um conjunto de medidas, no qual se enquadra também:

- a obrigatoriedade de realização de exames de Português e de Matemática para admissão aos cursos de licenciatura de Educação Básica;

- o reforço da componente científica nos cursos de formação inicial — através de alterações introduzidas no decreto-lei das habilitações para a docência;

- a formação contínua de professores.

É fundamental que, à medida que se renovem os quadros docentes das escolas, o que irá acontecer de forma acelerada na próxima década, se garanta a entrada de uma geração de professores altamente preparada e qualificada. É ambição do Ministério da Educação e Ciência que esta prova seja também um incentivo a uma maior exigência na formação inicial dos candidatos a professores.

Apresentamos a tabela de resultados da PACC, no ano escolar 2014-2015:



O número de candidatos admitidos à realização da componente específica da prova foi 1565, para um total de 2338 inscrições válidas a 24 disciplinas distintas.
E por que existem mais inscrições do que professores inscritos? Porque cada candidato pôde inscrever-se em mais do que uma prova, consoante os grupos de recrutamento para os quais tem habilitação profissional. Por exemplo, se um candidato tem habilitação profissional para leccionar Português (nível 2) e Francês, então podia fazer as provas das duas disciplinas.

As provas específicas, cujos enunciados e critérios de classificação se encontram aqui, realizaram-se em estabelecimentos de ensino da rede pública, em Portugal, e em outros estabelecimentos fora do território nacional.
Foram classificadas 2153 provas, porque houve 176 faltas, 6 desistências e 3 provas anuladas. Estas provas foram classificadas na escala de 0 a 100 pontos, sendo aprovados os candidatos que obtiveram uma classificação igual ou superior a 50 por cento da cotação total.
A reprovação de um candidato impede-o de candidatar-se a um lugar nas escolas no próximo ano lectivo, mas não o impede de realizar novas provas nos anos subsequentes.

Em comunicado de imprensa, o IAVE destaca, numa análise preliminar dos resultados, que as médias globais se situam entre os valores 41,8 da Educação Especial 2 e 88,2 da Educação Especial 3, distribuindo-se da seguinte forma:
  • igual ou superior a 70: Artes Visuais (nível 1 e 2), Educação Especial (1 e 3), Electrotecnia, Informática e Música;
  • entre 60 e 69: Alemão, Educação Pré-Escolar, Espanhol, Filosofia, Geografia, Inglês e Matemática (nível 2);
  • entre 50 e 59: Economia, Educação Física, Francês, História, Matemática (nível 1) e Português (nível 1);
  • entre 40 e 49: Biologia e Geologia, Educação Especial 2, Física e Química e Português (nível 2).

No universo dos candidatos que realizaram as diversas provas específicas registam-se as seguintes taxas de aprovação:
  • superiores a 90%: Artes Visuais (níveis 1 e 2), Educação Especial (1 e 3), Educação Pré-escolar, Electrotecnia, Geografia, Informática e Música;
  • entre 70% e 90%: Alemão, Educação Física, Espanhol, Filosofia, Francês, Inglês, Matemática (nível 2) e Português (nível 1);
  • entre 50% e 70%: Biologia e Geologia, Economia, História e Matemática (nível 1);
  • inferiores a 50%: Educação Especial 2, Física e Química e Português (nível 2).


*


Biologia e Geologia surge em quarto lugar nas disciplinas com pior classificação média, 48,8 numa escala de 0 a 100 pontos, sendo 42,3% os candidatos que reprovaram.

O resultado obtido em Educação Especial 2 (apoio a crianças e jovens com surdez moderada, severa ou profunda, com graves problemas de comunicação, linguagem ou fala), com a média de 41,8 pontos e uma taxa de reprovação de 100%, ainda foi pior, mas só houve um candidato a fazer a prova.

No entanto, o que é grave e necessita de reflexão é o que se passou nas disciplinas Física e Química e Português, ambas do 3º ciclo e ensino secundário.
Mais de metade dos 106 candidatos (60,4%) que fizeram o exame de Português e dos 68 candidatos (63,2%) que fizeram a prova de Física e Química ficaram reprovados. Foi também nestas duas disciplinas que a classificação média das provas foi mais baixa: 46,2 e 44,4, respectivamente.
Física e Química é também a disciplina onde os alunos costumam ter piores resultados nos exames do ensino secundário.

Em 2006, a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa deixou de receber inscrições para a licenciatura em ensino da Física e Química porque a quase totalidade dos alunos, depois de anos de sucessivas reprovações, pedia transferência para universidades privadas tipo Lusófona. Aí licenciavam-se rapidamente e com elevadas classificações, o que lhes permitia passar à frente dos candidatos oriundos de universidades públicas nos concursos do ministério da Educação.
Trata-se de um dos cursos mais difíceis, a par das engenharias, porque para aprender Física tem de ser-se, à partida, um profundo conhecedor de Matemática.

Recordemos que os professores com mais de 5 anos de serviço não são obrigados a fazer a PACC. Mas se fossem obrigados, não seria de esperar por melhores resultados porque o problema já vem de longe.
Ora são estes docentes que na próxima década vão ocupar os lugares nos quadros das escolas, pelo que as expectativas do ministro Nuno Crato de que “à medida que se renovem os quadros docentes das escolas, o que irá acontecer de forma acelerada na próxima década, se garanta a entrada de uma geração de professores altamente preparada e qualificada” vão ser goradas.
Vai levar quatro décadas, tantas quantas houve de declínio na escola pública, para que esta volte a ter a elevada qualidade que desfrutava antes do 25 de Abril.

Arquivamos outras opiniões recolhidas nos comentários à notícia no Público, jornal que sempre se manifestou contra a PACC, e que por acaso, ou talvez não, teve de corrigir o texto que revelava um profundo desconhecimento do conteúdo das provas específicas e dos grupos de recrutamento a que se destinavam. Ei-las:

manuel vieira
lisboa 07/05/2015 20:03
Que rico panorama. Será que Mário Nogueira tem alguma coisa a dizer? Claro que tem, vai defender que estes senhores não deviam ser sujeitos a provas de avaliação de conhecimentos.
  • Jose Antonio Fundo
    Professor e Ilustrador, Porto 08:57
    É pá! Trocar assim alhos com bugalhos é de uma acrobacia intelectual própria de quem percebe zero do assunto. Ainda bem que não lhe fizeram a prova!
  • CARS
    11:23
    Meu caro José,
    Ninguém diria que é professor porque, em interpretação de comentários, deixa um pouco a desejar. Ser professor é muito mais do que dizer "sou professor", é ter conhecimentos necessários para leccionar sem ter receio de ser avaliado nos seus conhecimentos.
  • manuel vieira
    lisboa 11:58
    Resposta para o senhor professor:
    1. Lembro-lhe que eu não sou seu aluno, logo contenha-se.
    2. Percebo alguma coisa, tenho sete netos que são o meu barómetro do estado do ensino.
    3. Tenho duas filhas que são professoras.
    4. Picou-se por eu ter mencionado o inútil Mário Nogueira?
    5. Durante toda a minha vida profissional fui avaliado. Quem não deve, não teme. Fique bem.

Paulo Alexandre
07/05/2015 22:16
Grupo 910 significa "Domínio Cognitivo e Motor"; Grupo 920 - Domínio da Audição e Surdez; Grupo 930 - Domínio da Visão.
Erro grave por parte do Público. Os números atribuídos aos grupos nada têm a ver com o nível de ensino, mas sim com os diferentes domínios.

Jose Antonio Fundo
Professor e Ilustrador, Porto 08:56
Como é evidente, tais diferenças demonstram desadequações e diferenças nos graus de dificuldade das provas. Dificilmente se pode julgar um grupo de professores num tão alargado conjunto de conhecimentos por um teste escrito. Os testes escritos são um processo muito pouco exacto de avaliação. São populares porque são fáceis de aplicar. Estas provas provam pouco. Quem duvidar disso percebe pouco de educação. O professor é muito mais do que a ciência que ensina. Ser professor é uma ciência em si mesmo e sobre isso houve zero perguntas.
  • tripeiro
    Alguém informe a Princesa44 sobre os horários de visita em Évora 09:43
    Foi pena ter-se limitado a dizer que os testes não são adequados para avaliar o domínio das matérias e não ter dito qual é a alternativa.
  • Miguel S.
    Trondheim 10:27
    Concordo José, em certa medida. E, como refere o tripeiro, não sei como tornar as provas mais representativas do que pretendem avaliar. No entanto, procurar desvalorizar o básico — um professor deve dominar os conteúdos científicos que vai ensinar — serve apenas para perpetuar a mediocridade do sistema.
  • No Mercy
    11:12
    Pois, é extremamente difícil avaliar "setôres" através de testes escritos. Mas os "setôres" têm imensa facilidade em avaliar alunos através de testes escritos, o que não deixa de ser curioso...
    Pois, o "setôr" "é muito mais do que a ciência que ensina". E o aluno? E, já agora, se mal pergunte, o que é que a classe de "setôres" fez para que os testes não fossem apenas escritos e houvesse uma bateria de testes que avaliassem as múltiplas competências necessárias ao ensino?
  • Sousa da Ponte
    12:01
    @ Tripeiro: Um licenciado num curso de ensino foi submetido a mais de uma centena de provas e testes, onde teve positiva a todos. Esta prova vale mais do que isso tudo junto? A alternativa existe: é a avaliação aos professores em exercício.
    @ Miguel: Tem toda a razão. Mas se um professor não sabe os conteúdos científicos que vai ensinar, a culpa não é dele: é de que o certificou sabendo que ele não sabia. E a mediocridade do sistema continua a ser perpetuada nas universidades e ESEs de onde saíram estes professores.
    @ No Mercy: Está a deitar para o lixo 4 ou 5 anos de estudos superiores quando pergunta "(...) houvesse uma bateria de testes que avaliassem as múltiplas competências necessárias ao ensino?" Essa bateria de testes existe e os professores superaram-nas. Vale a PAAC mais do que as provas todas prestadas em 4 ou 5 anos?
    Relativamente aos testes que os professores fazem aos alunos, esses só valem ~70% da avaliação e os alunos não condensam um ciclo de ensino numa única prova. Fazem vários testes apropriados a cada disciplina.
    Dito isto, pergunto: Há professores mal preparados, medíocres ou que não deviam sequer ser professores? Há, sim, senhor! E há-os porquê? Porque há instituições que os formam assim. O que faz o Nuno Crato quanto a isso? Nada! É forte com os fracos e fraco com os fortes!
  • tripeiro
    Alguém informe a Princesa44 sobre os horários de visita em Évora 12:19
    Sousa da Ponte,
    Eu não estou aqui a defender o sistema de avaliação de professores — com o qual não concordo, a avaliação nestes moldes é para ser feita nas universidades, e se alguma coisa está a falhar, é aí, e o ministério da Educação não pode descartar as suas responsabilidades na matéria —, mas tão somente a pôr em causa a afirmação do José de que os testes não são adequados para avaliar (penso que ele não se está a referir a este caso em concreto da avaliação de professores, mas à avaliação em geral).
    E quanto a mim, o problema na qualidade do ensino não está ao nível cientifico, mas sim pedagógico. Penso que todos nós tivemos professores que eram autênticas nódoas e não era por causa dos conhecimentos científicos.
  • José Cid Adão
    12:32
    Caro Sousa da Ponte,
    Infelizmente a verdade é que, em muitos casos, ter sido aprovado a centenas de exames durante 5 anos pouco valor tem.
    De quem será a culpa? Dos estabelecimentos de ensino que facilitam para assim conseguirem mais alunos/clientes? Ou dos próprios professores que, na altura, conscientemente fizeram a escolha de estudar numa universidade de fraca qualidade, mas com boas notas garantidas?
    Sinceramente não sei, mas a culpa não é de certeza dos alunos de agora. Dou mais valor a um exame, por mau que seja, se for igual para todos, do que a uma avaliação feita durante 5 anos mas que foi diferente de professor para professor. Acho por isso que todos os professores deviam ser sujeitos aos exames.
  • No Mercy
    12:39
    1. O Sousa da Ponte tem razão numa coisa, quando faz as perguntas e dá as respostas: "Há professores mal preparados, medíocres ou que não deviam sequer ser professores? Há, sim, senhor. E há-os porquê? Porque há instituições que os formam assim. O que faz o Nuno Crato quanto a isso? Nada! É forte com os fracos e fraco com os fortes!"
    2. O Sousa da Ponte não tem razão noutras. Precisamente porque muitos dos tais testes que os "setôres" fazem, terem sido feitos por instituições medíocres, é que contam pouco. Acresce que lá por se fazerem testes em inicio de carreira não devia obstar, nem obsta nos países que têm uma Educação a sério, que eles se façam ao longo da vida profissional. Nos EUA, os professores estão em constante avaliação. Faça o mesmo cá e vai ver a resposta das corporações...

No Mercy
11:08
Eu só não compreendo é porque é que estas avaliações não são feitas a todos os "setôres". Não compreendo a discriminação que é feita em relação à avaliação. Ou será que alguém tem dúvida que se estas avaliações fossem feitas a todos os "setôres" os resultados seriam, em percentagem, semelhantes?
Será que esta gente não percebe que, se querem ter uma Educação Pública competente, têm que ter Professores, e não "setôres"? Mas esta gente acha que se melhora a qualificação dos alunos com a medíocre qualificação que existe entre a classe que "ensina"? Podem criar as políticas que quiserem, enquanto a mediocridade da matéria-prima for a que é, jamais passaremos da cepa torta!

Hugo
12:44
Acho este governo corrupto e ignóbil, mas esta é das poucas coisas que acertou e deveria fazer regra para todo o serviço público, que deveria reger-se pela qualidade e não pela complacência e mediocridade. Aliás deveria fazer provas obrigatórias de x em x anos para confirmar que os professores têm capacidade e competência para continuar com as responsabilidades atribuídas, com eventual progressão ou regressão na carreira a verificar-se na folha salarial.
A administração pública não pode, nem deve, ser comparada com o privado, porque no privado as consequências estão limitadas à respetiva organização e na administração pública afeta-nos a todos. A avaliação por prova escrita deveria ser regra, além de que deveria ser evitada qualquer avaliação subjetiva.

Aliocha
13:04
Depois do facilitismo progressivo que reinava há anos na Educação e que culminou no ex-governo socrático (o ex-primeiro-ministro era um exemplo vivo disso!), era preciso um novo rumo. Alguma coisa tinha que ser feita.
Custa sempre mais endireitar o que muito entortou ao longo do tempo. Criaram-se hábitos arreigados de "laissez-faire, laissez-passer". Com todos os seus defeitos e podendo ser melhorados, estes testes, doa a quem doer, são um crivo.
A melhor forma de melhorar a qualidade no ensino é ter bons professores e exigir mais dos alunos, a começar na disciplina e passando pela diversificação de escolas.
  • Maria Manuela Granés Gonçalves
    15:49
    Muito Bem!


sábado, 18 de abril de 2015

Nasceu uma nova associação de professores de Português


Foi criada uma nova associação de professores de Português que preconiza o fim da confusão actual na ortografia da língua portuguesa que adveio do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90) e pretende alargar os conhecimentos literários dos alunos.
A defesa da possibilidade de os estudantes utilizarem ambas as grafias nas provas nacionais, este ano, é a sua primeira iniciativa.




Fernando Nabais, presidente de nova associação de professores de Português


A Associação Nacional de Professores de Português (Anproport) fez, este sábado, a sua apresentação pública na Biblioteca da Escola Secundária Pedro Nunes, em Lisboa, e já apresentou a primeira iniciativa: reclamar junto do Ministério da Educação e Ciência (MEC) que seja permitido o uso da grafia de 1945 aos estudantes que este ano fazem exames nacionais de Português.

O presidente, Fernando Nabais, argumenta que o calendário de aplicação do AO90 à avaliação externa foi estabelecido “na expectativa de que a nova grafia estaria, nesta altura, consolidada, o que está muito longe de se verificar”.
A Anproport não foi criada contra o AO90 nem se afirma contra ele. Mas defende que o acordo deve ser debatido e avaliado e que, se se concluir que é prejudicial, deverá ser revogado”, esclareceu Fernando Nabais. Sublinhava, assim, um dos pontos de divergência entre a Anproport e a velha Associação de Professores de Português (APP), criada em 1977, cuja presidente, Edviges Ferreira, afirmou, recentemente, que “se o MEC determina que o AO90 é para cumprir, [os professores] só têm de obedecer”.

A perspectiva da nova associação, explica Fernando Nabais, é que “nada passa a ser positivo pelo único facto de estar legislado”. No que respeita à ortografia, “o que actualmente se verifica é o caos, que resulta da utilização simultânea de ambas as grafias e do que não é uma coisa nem outra” e “Não é invulgar depararmos com palavras que não existem na publicidade, nas legendas da televisão e até em documentos oficiais”, observa.
Ora esta situação é especialmente grave em relação aos alunos do 12.º ano porque podem perder até 4 valores (em 20) devido a erros ortográficos, justamente aqueles para quem uma centésima a menos ou a mais pode determinar a entrada, ou não, num curso do ensino superior público.

Outro dos motivos para que parte dos docentes de Português não se reveja na associação profissional de 1977, é a oposição desta “ao regresso dos clássicos e à revalorização da história da literatura e da própria literatura” no novo programa do ensino secundário, que será aplicado pela primeira vez no ano lectivo 2015-2016.
Ouvimos a presidente da APP defender que do programa deviam constar autores mais recentes e mais próximos da realidade dos alunos, que de contrário passarão a detestar a disciplina. Já nós consideramos inaceitável que um aluno possa fazer 12 anos de escolaridade sem saber que D. Dinis ou Fernão Lopes escreveram uma linha. Quando se toma este tipo de decisões, o critério não pode ser se os alunos se identificam ou não imediatamente com as obras”, disse Fernando Nabais, mas “o rigor e a exigência”.

A presidente da APP, Edviges Ferreira, recordou o parecer da associação feito na altura da apresentação do programa do ensino secundário. Nessa ocasião, criticou o elevado número de obras literárias incluído no programa, o facto de aquele ser excessivamente extenso e prescritivo (com a indicação de capítulos específicos de cada obra e até de excertos e de poemas) que considera desadequado, por exemplo, ao 10.º de escolaridade, “um ano crítico, marcado por altos níveis de insucesso, por corresponder a uma fase de transição e por as turmas serem muito heterogéneas”.
Na medida em que tem nos seus órgãos sociais os autores das metas e dos novos programas de Português, é muito natural que as pessoas que integram a nova associação não se revejam nas posições da APP, que os tem contestado publicamente. Mas isso não tem mal nenhum, tornará o debate mais interessante, pelo que fazemos questão de estar presentes e de desejar as maiores felicidades aos nossos colegas”, acrescenta.
Sobre o AO90, Edviges Ferreira diz que “a APP nunca tomou uma posição favorável ou desfavorável” porque “existindo professores de Português que concordam com a aplicação do AO90 e outros que discordam”, “a única posição possível da associação é colocar isso em segundo plano e proteger alunos, cumprindo a lei e os despachos que determinam que este ano o AO90 é aplicado na avaliação externa”.

O presidente da nova associação confirmou que Helena Buescu, presidente da comissão científica responsável pelas metas curriculares e pelo programa de Português do ensino secundário, é presidente da mesa da assembleia geral da nova Anproport. E esclarece: “Não excluímos pessoas por serem autoras de programas ou de manuais ou por serem de esquerda ou de direita. As pessoas juntam-se por terem visões comuns.

Durante a próxima semana a Anproport divulgará o seu sítio na internet e a forma como os professores se podem tornar associados. O objectivo é reunir docentes de todos os níveis de ensino, do pré-escolar ao superior.


*


Definidas as fronteiras em 1297, Dinis de Portugal concebeu um novo projecto para o País — a criação da identidade nacional — que pôs em prática ao instituir a língua Portuguesa como língua oficial da corte e criar a primeira Universidade portuguesa.
Dom Dinis não só apreciava a literatura, como foi ele próprio um poeta, facto reconhecido no seu cognome de Rei-Poeta. Pelos vistos a presidente da APP não se importa de fazer tábua rasa de mais de oitocentos anos de cultura portuguesa e quer reduzir os conhecimentos literários dos alunos aos escritores contemporâneos.

Quanto à sua afirmação de que “a única posição possível da associação é colocar isso [a discussão sobre o AO90] em segundo plano e proteger alunos, cumprindo a lei e os despachos que determinam que este ano o AO90 é aplicado na avaliação externa”, faz-me recordar a argumentação do partido comunista aos seus militantes ao exigir-lhes para se absterem de pensar e limitarem-se a cumprir as directrizes do comité central que existe para pensar por eles. Pelos vistos o horror à liberdade de pensamento não é domínio exclusivo deste partido.

Sobre a questão da heterogeneidade das turmas, o ministro Nuno Crato tem repetido sucessivas vezes que é favorável a turmas mais homogéneas porque facilita o trabalho dos docentes e favorece a aprendizagem dos alunos. Se as turmas são heterogéneas é porque os professores assim decidem por razões ideológicas — o socialismo exige que se misture os alunos para torná-los iguais, mas o que se consegue é nivelar todos pela mediocridade. No entanto, o facciosismo ideológico cega muitos docentes.

O objectivo de reunir docentes de todos os níveis de ensino, do pré-escolar ao Superior, só pode merecer a minha concordância. Actualmente observa-se uma partição do ensino em básico e secundário, por um lado, e superior, por outro, com os docentes de costas viradas entre si e muitas vezes hostilizando-se — é habitual os docentes do ensino não superior depreciarem os conhecimentos pedagógicos dos seus colegas do superior, e estes, a fragilidade dos conhecimentos científicos dos primeiros.
A criação de pontes entre todos os professores só beneficiará todos pois contribuirá para aumentar o rigor e a exigência no ensino não superior e enriquecer pedagogicamente a prática lectiva dos docentes do superior.

Nasceu uma nova associação de professores de português. Nos bancos da escola está agora a geração que um dia irá substituir a minha. Renasce a esperança de que a cultura portuguesa não afundará no esquecimento, vai criar raízes nessa nova geração e florescer em novos cultores à altura de um Fernão Lopes, um Gil Vicente, um Camões, um Padre António Vieira, um Garrett ou um Eça.


Outras opiniões:

Jalopes
17/04/2015 21:29
A escrita implica regras para fixar a língua. Mas a língua é sobretudo o que se fala e como se fala. Desde o séc. XII tem havido mudanças ortográficas na língua portuguesa. A partir de 1904, por exemplo, deixou de escrever-se "pharmacia". Fernando Pessoa nunca aderiu ao acordo ortográfico do seu tempo e escreveu sempre como havia aprendido na escola. E veio daí algum mal ao mundo? Há sempre gente imobilista e pouco atreita a mudanças. Há que respeitar a sua opinião... e a dos outros!
  • MC
    Lisboa 17/04/2015 22:07
    "A partir de 1904, por exemplo, deixou de escrever-se pharmacia" — essa informação não tem pés nem cabeça e é errada. Erro que vai a par com o considerar que Fernando Pessoa é "gente imobilista e pouco atreita a mudanças". Enfim, de tolices está o mundo cheio. Fica a notícia da constituição da nova associação que pretende proteger professores e alunos e bater-se pelo ensino da Literatura e Cultura portuguesas na disciplina de língua portuguesa.
  • José Papalvo
    18/04/2015 00:27
    O Novo Diccionário da Língua Portuguesa de Cândido de Figueiredo de 1913 tem grafia dupla para “farmácia” e “pharmacia” provenientes do grego “pharmakeia”. Também apresenta grafia dupla para centenas de termos provenientes do grego onde a letra f não existia e o som da mesma era representado por ph. Como por exemplo “fotografia” e “photographia”. Mas isto será uma evolução.
    Substituir o AO45 assinado pelos dois países pelo Vocabulário Ortográfico de 1943 (agora AO90), criado unilateralmente no Brasil para resolver o grave problema do analfabetismo, é uma involução.
  • MC
    Lisboa 18/04/2015 04:15
    Substituir ph por f não é evolução nenhuma, caro José Papalvo. É uma escolha, que hoje se verifica não ter qualquer sentido ou utilidade. Na altura ainda poderia ter algum cabimento pensar numa "ortografia fonética". Mas "pharmacia" e "farmácia" não se pronunciam exactamente do mesmo modo — como referia Victor Guerreiro a propósito de "filosofia" —, não se podendo falar, sequer, de "aproximação à oralidade"? E hoje, à luz das descobertas das ciências neurocognitivas, sabe-se que é totalmente indiferente para a aprendizagem.
    A etimologia tem a vantagem de permitir o mais fácil reconhecimento das palavras da mesma família: é mais fácil perceber que "estupefacto" e "estupefacção" estão proximamente relacionadas do que "estupefacto" e "estupefação". São uns bits de informação que ajudam na leitura.
  • MC
    Lisboa 18/04/2015 04:17
    O estado português nunca legislou sobre ortografia até 1911, por isso é um erro fáctico a afirmação de que houve mudanças em 1904. A única curiosidade é que tal data é referida em propaganda brasileira do acordo.

José Papalvo
17/04/2015 23:38
O Acordo Ortográfico de 1945 foi assinado em Lisboa a 10 de Agosto de 1945, por uma Comissão composta de membros da Academia das Ciências de Lisboa e Academia Brasileira de Letras. Esse Acordo, por motivos que devem ser investigados, não substituiu, no Brasil, o Formulário Ortográfico de 1943 oportunamente criado pelos editores brasileiros que pressionaram o Congresso Nacional Brasileiro para não aceitar o AO45, considerado, pasme-se, demasiado lusitano.
Da terra dos “mensalões” e “lava-jatos” saíram depois embaixadas para a terra dos BPN, BES, etc, para substituir o AO45 pelo AO43 em Portugal e nos outros seis países lusófonos. Essa fraude monumental chama-se AO90. Até hoje ainda ninguém percebeu porque têm de ser os outros sete países a escrever brasileiro e não o Brasil a escrever português.

Aliás não existe nenhum AO43 discutido pelos países lusófonos (na altura só Portugal e Brasil eram independentes). O que existe sim é o Formulário Ortográfico de 1943, ou Vocabulário Ortográfico de 1943, criado pelos editores brasileiros atendendo à mistura dos vários idiomas de imigrantes brasileiros, nomeadamente os italianos. É este FO43, ou VO43, que nos é imposto em 1990 sem qualquer discussão e ao arrepio da opinião dos linguistas portugueses e... brasileiros. Obviamente os que estavam nas negociatas das editoras, lá e cá, consideram a grande fraude AO90 como a obra prima da coprocultura.

Hendrik
18/04/2015 16:30
Tem todo o meu apoio. Malaca Casteleiro, um obscuro e malvisto professor da Faculdade de Letras de Lisboa, não pode impor uma revisão incoerente do ponto de vista ortográfico e que não resolve nada em termos de acordo, antes complica a inteligência das palavras e nos afasta da etimologia.


quarta-feira, 1 de abril de 2015

Miguel Albuquerque vence eleições da Madeira. Com maioria absoluta? - I

01 Abr, 2015, 20:22


O PSD tinha obtido o 24.º deputado — que garantia a maioria absoluta — apenas por poucos votos. A Assembleia de Apuramento Geral analisou as actas das mesas de voto, tendo detectado discrepâncias entre os números de votos contados e inscritos em actas da freguesia da Camacha, concelho de Santa Cruz. Daí resultou a afixação de um edital, ontem pelas 20:15, em que o PSD passou de 56.690 para 56.574 votos, com a atribuição do 47.º e último deputado à CDU.

Duas horas depois de detectado aquele erro, a Assembleia de Apuramento Geral disse ter reparado que a aplicação informática só havia considerado os votos da ilha da Madeira, ficando de fora os da ilha do Porto Santo. Feita nova distribuição dos mandatos, terá concluído que, afinal, o PSD Madeira conquistara o 24.º deputado, vencendo com maioria absoluta.

A Comissão Nacional de Eleições (CNE) lamentou esta quarta-feira o "pequeno, mas significativo, lapso [informático]" que gerou confusão na opinião pública sobre os resultados da eleições madeirenses, rejeitando responsabilidades dos membros da assembleia de apuramento.
Numa nota oficial, a CNE explicou que os resultados eleitorais foram validados por "uma assembleia presidida por um juiz de direito e que, na sua composição, integra dois juristas, dois professores de matemática, nove presidentes de mesas de secções de voto e um secretário de justiça sem direito a voto".


*

Os resultados provisórios para a região da Madeira, para cada concelho e cada freguesia foram divulgados, no domingo à noite, no site do Ministério da Administração Interna. Registamos os que estão a ser alvo de dúvidas:








Se na freguesia da Camacha houve uma discrepância significativa entre o número de votos contabilizados na acta da mesa de voto e o número transmitido ao Ministério da Administração Interna, o PSD pode não ter assegurado o 24.º deputado.

Quanto ao erro informático, adicionámos os votos obtidos pelo PSD em cada um dos onze concelhos da região da Madeira e obtivemos 56.690 votos, justamente o total que aparece na região. A aplicação informática do Ministério da Administração Interna funciona bem.
Aliás, se não tivessem sido contabilizados os votos do concelho do Porto Santo, o número de votantes seria 125.105, o número de votos no PSD seria 55.158 e, em consequência, a percentagem anunciada no domingo seria

56.690 - 1.532
—————————
127.893 - 2.788

=

55.158
—————
125.105

=

44,09%

44,09%, em vez dos 44,33%.

A distribuição dos mandatos calcula-se pelo método de Hondt a partir dos votos da região da Madeira. Vamos usar o simulador do blogger Ricardo Campelo de Magalhães.
Muito sucintamente, na coluna de cada partido estão os quocientes dos votos desse partido pelos divisores 1, 2, 3, 4, ... A penúltima coluna regista os 47 maiores quocientes (têm cor castanha), pois pretende-se eleger 47 deputados regionais, e na última coluna encontram-se os partidos que elegeram esses deputados:




O problema surgiu porque o 47.º e último deputado foi eleito pelo quociente 2362,08 (PSD) e o quociente imediatamente inferior era 2360,67 (PCP), quocientes que diferem uns insignificantes 1,41. Como estes quocientes se obtiveram com os divisores 24 e 3, respectivamente, correspondem a 1,41 X 24 = 33,84 votos e 1,41 X 3 = 4,23 votos.
Portanto basta fazer desaparecer 34 votos do PSD ou converter 5 votos nulos em votos do PCP para que os comunistas possam tirar o mandato ao 24.º deputado social-democrata e obter o seu 3.º deputado o que, além disso, levaria o PSD a perder a maioria absoluta.

Para que a sombra da dúvida não ficasse a pairar sobre estas eleições, teria sido uma atitude sensata fazer a recontagem dos votos com competência e integridade, algo que não existe na classe política portuguesa. Agora o assunto vai parar ao Tribunal Constitucional.


terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Resultados da componente comum da PACC 2015


O Instituto de Avaliação Educativa (IAVE) divulgou ontem em comunicado de imprensa os resultados da componente comum da Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades (PACC) realizada no dia 19 de Dezembro de 2014.

A componente comum da PACC tem 32 perguntas de resposta múltipla e pede a construção de um texto sobre um tema dado — este ano foi a qualidade e utilidade da informação que circula na Internet e nas redes sociais que aí cresceram. O leitor interessado pode ler um enunciado da prova (o outro altera apenas a ordem das respostas) e consultar as respostas correctas e os critérios de classificação.

A lista de candidatos aprovados pode ser consultada aqui. O resultado individual de cada candidato só pode ser consultado pelo próprio.

A nota introdutória do comunicado do IAVE esclarece de imediato o objectivo desta prova e o modelo onde se inspira (o negrito é meu):
Reitera-se a informação veiculada aquando da publicação de resultados da aplicação do ano escolar transato, realçando que a PACC não visa substituir o valor probatório da formação inicial dos candidatos, não pretende avaliar conhecimentos específicos no domínio pedagógico, nem compete, do ponto de vista dos resultados que apresenta, com quaisquer outros mecanismos de formação e avaliação dos candidatos eventualmente desenvolvidos ou a desenvolver em contexto profissional.

Como se encontra expresso na legislação que enquadra a PACC, a componente comum visa avaliar a capacidade para mobilizar o raciocínio lógico e crítico, bem como a preparação para resolver problemas em domínios não disciplinares. Neste contexto, está implícita a capacidade para consultar e interpretar informação disponibilizada em diferentes suportes, textos, tabelas, gráficos ou outros. Considera-se ainda essencial avaliar a capacidade de comunicar corretamente em língua portuguesa, que é transversal a todos os grupos de docência.

A componente comum da PACC replica um modelo validado internacionalmente e está ancorado em provas similares, desenvolvidas pelo Australian Council for Educational Research (ACER), organização com larga experiência no desenvolvimento de provas para fins de certificação profissional, e parceira da OCDE no estudo PISA, durante mais de uma década.

A componente comum da PACC visa avaliar conhecimentos e capacidades transversais a diversas dimensões profissionais, também relevantes para a docência, e que se consideram essenciais para o exercício da profissão. Com a aplicação desta prova, o Ministério da Educação e Ciência pretende valorizar a profissão docente e, do mesmo modo, a escola pública, que passa a dispor de critérios de seleção que valorizam os docentes que evidenciam os conhecimentos e as capacidades que agora se avaliam.

A tabela seguinte contém as estatísticas da realização da prova:



Resultados globais

A prova foi classificada na escala de 0 a 100 pontos, sendo aprovados os candidatos que obtiveram uma classificação igual ou superior a 50 pontos.
A cotação atribuída aos 32 itens de escolha múltipla corresponde a 80% da cotação total, sendo os restantes 20% atribuídos ao item de produção de um texto com um número de palavras entre 250 e 350.

No conjunto das 2490 provas classificadas foram aprovados 1636 candidatos (65,7% do total). Portanto ficaram reprovados os restantes 854 candidatos (34,3%), ou seja, mais de um terço dos candidatos avaliados reprovou na PACC.

A média das classificações foi 56,2 pontos e a mediana da distribuição dos resultados foi 56,5 pontos, o que significa que metade dos candidatos obteve uma classificação superior a este valor.


A distribuição dos resultados por classes de pontuação mostra que os resultados negativos concentram-se no intervalo 30-9,9 pontos (10,9%) e no seguinte, 40-49,9 pontos (18,6%).
Os resultados iguais ou superiores a 50 pontos evidenciam uma concentração na classe 50-59,9 pontos (classe com maior número de candidatos: 23,1% do total) e na classe seguinte, 60-69,9 (com 21,9%). A percentagem de candidatos na classe 80-89,9 pontos é inexpressiva (5,9%) e raros (0,8%) são os candidatos que alcançam ou ultrapassam os 90 pontos.

Resultados por item

No que se refere à classificação do item de produção de um texto, cuja cotação é 20 pontos, a pontuação média obtida pelos candidatos foi 10,2 pontos.


Verificou-se que 22,4% dos candidatos, quase um quarto, não ultrapassaram os 5 pontos, dos quais 21,9% foram classificados com zero pontos. A principal razão para a atribuição da pontuação nula foi o não cumprimento do limite mínimo de 150 palavras (77%), a segunda razão foram respostas em branco (18%).
Com uma classificação entre 10 e 14,9 pontos registaram-se 40,4% dos textos e com uma classificação igual ou superior a 15 pontos ficaram 24,8%.

Finalmente consideramos os parâmetros «ortografia», «pontuação» e «sintaxe». No que se refere à ortografia, apenas em 34,7% das respostas não se registaram erros; na «pontuação», a percentagem de respostas sem erros sobe para 36,4%. O parâmetro «sintaxe», à semelhança de aplicações anteriores da PACC, é o que evidencia melhor desempenho, sendo 49,1% a percentagem de respostas sem erros.


*

O IAVE identificou dois subgrupos de candidatos que conseguiram resultados substancialmente diferentes: os 1946 candidatos que realizaram a prova pela primeira vez (78,2% do total) e os 544 que já tinham realizado uma das duas aplicações anteriores (21,8% do total).

No subconjunto de candidatos que fizeram a prova pela segunda vez, os resultados são piores, por exemplo, a taxa de reprovação foi 53,1%. Apesar de constituírem um pequeno grupo, são os responsáveis pelo empobrecimento dos resultados globais, como pode observar-se nesta tabela do IAVE:

Resultados globais e por tipologia de candidato


Donde se conclui que a sua reprovação no ano passado não terá sido causada pelo ambiente de contestação criado em 18 de Dezembro de 2013, e repetido em 22 de Julho de 2014, pelo sindicato afecto ao PCP — a Fenprof —, mas por uma deficiente formação académica.

A componente comum da PACC é uma prova de cultura geral, portanto igual para todos os candidatos. Em Fevereiro será realizada a componente específica da PACC que difere consoante a disciplina que o candidato a professor pretende leccionar e o respectivo grupo de docência.

Agora já são pais de alunos e cidadãos descomprometidos que vêm defender a PACC para as caixas de comentários dos jornais on-line, como sucedeu no Público:

Bruno
26/01/2015 21:37
É triste de pensar que estes profissionais poderiam um dia vir a ser professores dos meus filhos. Que o desemprego os mantenha bem longe do ensino. Se tivessem vergonha na cara (que não têm) nem falariam mais da palavra greve. Agora entende-se porque não queriam ser avaliados...

JP
27/01/2015 11:46
É de uma tremenda hipocrisia que, perante estes números (e os do ano passado), as organizações sindicais e o tal Conselho Científico do IAVE (que mais parece um Conselho Acrítico) continuem a afirmar que a prova não tem qualquer utilidade prática. Uma prova elementar, em que são necessárias apenas algumas capacidades de interpretação/compreensão, análise e cálculo simples (somar, subtrair, multiplicar e dividir) para passar, ter esta taxa de reprovação, é um indicador claro de que muitos candidatos a professores não têm competência para estar à frente de uma sala de aula.
É preciso actuar ao nível da formação, sim. Mas negar que é preciso actuar ao nível em que esta prova actua, é completamente desonesto.

jorge
Groningen 27/01/2015 12:24
Avante com esta avaliação! Quem não tem competência: Requalificação ou rua. Abaixo os sindicatos, acredito que quem tem dois dedos de testa percebe as suas reais motivações.
NB: Eu sou professor.
  • JJ
    27/01/2015 13:10
    E com certeza estará no top 10 dos melhores professores da atualidade!!!
  • jorge
    Groningen 27/01/2015 14:07
    Caro JJ: Pelo menos não tenho receio de ser posto à prova. Mais: Exigo ser posto à prova. Aqui onde lecciono sou regularmente posto à prova, tanto em termos de actividades lectivas como em termos de investigação. E é assim que deve ser. Para quem se queixa desta prova em particular: A prova por si não justifica o nível de iliteracia gritante do nosso corpo docente.

Jan Wolf
27/01/2015 14:45
A questão de fundo: a qualificação dos professores deveria ser garantida através da certificação dos cursos na A3ES. Uma avaliação rigorosa dos cursos que dão acesso à carreira docente levaria, seguramente, ao encerramento da sua maioria, em particular no ensino privado e politécnico.
Como isto é, na prática, impossível de fazer, resta criar avaliações adicionais que permitam perceber a qualificação dos professores para exercer o cargo. O que fica claro desta avaliação é que, ao contrário da ideia que querem fazer passar os professores e as suas associações e sindicatos, esta qualificação não está a ser garantida e os filtros são necessários.


segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Resultados da Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades 2014


O Instituto de Avaliação Educativa (IAVE) divulgou esta segunda-feira, 4 de Agosto, os resultados da Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades (PACC) que estão registados no quadro seguinte:




O leitor pode consultar os enunciados e os critérios de classificação das provas aqui.

Esta prova, instituída pelo DReg 3/2008, integra, de acordo com a última redação dada pelo DReg 7/2013, uma componente comum e uma componente específica.

A PACC destina-se aos candidatos detentores de uma qualificação profissional para a docência, ainda não integrados na carreira, que pretendam concorrer a concursos de selecção e recrutamento de pessoal docente da educação pré-escolar e dos ensinos básico e secundário.

No ano escolar em curso apenas foi aplicada a componente comum em dois momentos: no dia 18 Dezembro de 2013 e no dia 22 de Julho de 2014.

No primeiro momento a prova foi inviabilizada em algumas escolas devido a desordens e contestada pela Fenprof nos tribunais. Só depois de ter ganho as providências cautelares nas instâncias superiores, o ministério pode marcar um segundo momento de avaliação em Julho que também deu azo a protestos violentos da Fenprof. Por isso, não foi possível realizar a componente específica de cada grupo de recrutamento.

Para rebater alguns argumentos esgrimidos pelos contestatários, o IAVE escreve na nota introdutória (o negrito é meu):

Como nota prévia, convirá realçar que a PACC não visa substituir o valor probatório da formação inicial dos candidatos, não visa avaliar conhecimentos específicos no domínio pedagógico nem compete, de um ponto de vista dos resultados que apresenta, com quaisquer outros mecanismos de formação e avaliação dos candidatos eventualmente desenvolvidos ou a desenvolver em contexto profissional.

Como expresso na legislação que enquadra a PACC, a sua componente comum visa avaliar a capacidade para mobilizar o raciocínio lógico e crítico, bem como a preparação para resolver problemas em domínios não disciplinares. Neste contexto, está implícita a capacidade para consultar e interpretar informação disponibilizada em diferentes suportes, textos, tabelas, gráficos, entre outros, considerando-se ainda como essencial avaliar a capacidade, transversal a todos os grupos de docência, de comunicar corretamente em língua portuguesa.

A componente comum da PACC replica um modelo validado internacionalmente e está ancorado em provas similares desenvolvidas pelo Australian Council for Educational Research (ACER), organização com larga experiência no desenvolvimento de provas para fins de certificação profissional e parceira da OCDE no estudo PISA desde 2000.

Os conhecimentos e as capacidades que a componente comum da prova visa avaliar são transversais a muitas profissões, designadamente técnicas, especializadas e altamente qualificadas, tal como é o caso da docência. A inclusão de um item que visa avaliar a capacidade de comunicação sob a forma de produção escrita (item 33), dimensão também transversal a muitos domínios profissionais, assume, na área da docência, uma relevância incontornável.

Com a aplicação desta prova, o Ministério da Educação e Ciência pretende valorizar a profissão docente e, do mesmo modo, a escola pública, que passa a dispor de critérios de seleção que valorizem os docentes que evidenciam os conhecimentos e as capacidades que agora se avaliam.

A prova foi classificada na escala de 0 a 100 pontos, ficando aprovados os candidatos que obtiveram uma classificação igual ou superior a 50% da cotação total.




A prova tinha 32 itens de escolha múltipla correspondentes a 80% da cotação total, sendo os restantes 20% atribuídos à produção de um texto com um número de palavras compreendido entre 250 e 350.

No que se refere à produção do texto, a pontuação média obtida pelos candidatos foi 10,8 pontos (em 20 pontos).
Na classificação deste texto, foram considerados vários parâmetros entre os quais a ortografia, a pontuação e a sintaxe. Verificou-se que 62,8% das provas apresentaram um ou mais erros ortográficos, 66,6% um ou mais erros de pontuação e 52,9% um ou mais erros de sintaxe.




A lista de candidatos aprovados pode ser consultada aqui, mas não são divulgadas as classificações individuais.
Apenas os candidatos aprovados nesta prova poderão concorrer ao concurso de selecção e recrutamento de pessoal docente para o ano lectivo 2014/2015.




Actualização em 7 de Agosto

O resultado relativo aos erros ortográficos apresentados nas provas deu origem a uma polémica pelo facto de ser obrigatório usar o novo Acordo Ortográfico. Hoje o IAVE respondeu:

Na sequência das últimas notícias produzidas acerca dos erros ortográficos identificados no processo de classificação da Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades, o IAVE procedeu a um estudo detalhado dos resultados correspondentes ao item de resposta extensa orientada [o texto que era preciso escrever], a partir de uma amostra significativa dos textos cujas classificações apresentavam descontos por erros ortográficos.

Feita esta análise, o IAVE concluiu “que 90% dos erros estão relacionados com os seguintes aspectos da ortografia: uso incorrecto da acentuação (cerca de metade do valor total), troca de vogais, troca de consoantes ou uso incorrecto de consoantes, aplicação incorrecta do plural e registo incorrecto de formas e de conjugações verbais”.

Apenas “os restantes 10% dos erros ortográficos registados” decorrem do incumprimento do Acordo Ortográfico. “Desta feita, o IAVE considera, a partir da comparação com os restantes erros identificados, nomeadamente com os de acentuação, que o valor obtido representa uma percentagem residual e sem expressividade na totalidade das ocorrências de erros ortográficos registados.


quarta-feira, 25 de junho de 2014

A revolução da educação em Portugal, já - II


O objectivo geral dos relatórios TALIS (Teaching And Learning International Survey) é fornecer indicadores internacionais robustos e análises politicamente relevantes sobre o professorado e o ensino, de forma atempada e económica.


1. TALIS 2013

Publicado hoje pela OCDE, o TALIS 2013 está focado no 3º ciclo de ensino (ISCED nível 2) e tem por base dados recolhidos em 34 países — 24 dos países membros da OCDE e 10 países parceiros.

2. Professores e suas escolas

Em Portugal, o professor do 3º ciclo típico é uma mulher de 45 anos, com 19 anos de experiência em ensinar e com formação em ensino. Aliás 73,2% desses docentes são mulheres, enquanto a média no conjunto dos países analisados é 68,1%.

Segundo o relatório — quadro 2.18 —, a média de alunos em Portugal por escola do 3º ciclo ronda 1152, mais do dobro da média (546) no conjunto de países analisados. Em contrapartida temos apenas 22,6 alunos por turma (a média é 24,1), há 10,5 alunos por professor (muito inferior à média que é 12,4) e numerosos elementos com funções de apoio pedagógico — a razão entre o número de docentes e de pessoal de apoio pedagógico é 7,5 (contra a média de 14,4).

Entre as situações problemáticas apontadas — quadro 2.20 — temos 58% a falar dos atrasos dos alunos, um valor também acima da média que se situa nos 51,8%. Aos atrasos juntam-se o vandalismo e os roubos, enquanto situações que acontecem semanalmente, com a percentagem de 7,4% (a média é 4,4%). O uso e posse de drogas e álcool corresponde a 3,6% (contra 1,2% de média). As lesões físicas provocadas por violência entre os alunos correspondem a 5% (a média é 2,3%) e a intimidação ou agressões verbais a professores ou funcionários é de 5,5% (contra uma média de 3,4%).

3. Liderança escolar

Na maioria dos países, os directores frequentam um curso de administração escolar antes de assumirem o cargo, mas em Portugal 25.2% dos directores nunca o fez (contra a média de 15.2%). E 35.5% nunca teve formação para a liderança (a média é 22.2%).

4. Desenvolver e apoiar os professores

5. Melhorar o ensino pela avaliação e feedback

6. Prática docente e ambiente da aula

Comecemos por observar o número de horas de trabalho dos professores — quadro 6.12. Os professores portugueses do 3º ciclo têm uma componente lectiva que ronda as 20,8 horas por semana (média é 19,3 horas) e dizem que passam mais tempo a preparar e planear aulas, justamente 8,5 horas por semana (a média é 7,1), e 9,6 horas semanais a marcar e corrigir trabalhos, o dobro da média.
Portugal é ainda um dos cinco países em que os docentes que dizem ter mais horas de trabalho são também aqueles que tendem a ter níveis mais baixos de satisfação.

Sobre a gestão do tempo de aula — quadro 6.20 —, estes docentes dizem que 75,8% do tempo é gasto de facto a ensinar (contra a média de 78,7%). Do tempo restante, 8,2% é gasto em tarefas administrativas (média é 8%) e 15,7% a manter a ordem na sala de aula (média é 12,7%).

No quadro 6.21 o relatório também avalia a disciplina na sala de aula: 39,9% dos docentes dizem ter de esperar bastante tempo para os alunos se acalmarem no início da aula (contra 28,8% na média), 40,4% perde muito tempo por causa de estudantes que interrompem a aula (contra a média de 29,5%) e 31,1% considera haver muito ruído perturbador na sala (média de 25,6%).

7. Auto-eficácia docente e satisfação profissional

Neste capítulo há alguns resultados incompatíveis com os obtidos no Programa Internacional de Avaliação de Aluno (PISA) no conjunto dos 65 países participantes — os 34 países membros da OCDE e 31 países parceiros.

Comecemos pelo quadro 7.1 onde os professores do 3º ciclo auto-avaliam o seu desempenho. São 97,5% os docentes que acreditam que ajudam os alunos a pensar criticamente, o máximo entre todos os países analisados (a média é 80,3%), 98,3% crêem que usam uma variedade de estratégias de avaliação, outro máximo (a média é 81,9%), são 99,2% os que pensam que são capazes de fornecer uma explicação alternativa para um exemplo quando os alunos estão confusos (média é 92%) e 95,9% acreditam que implementam estratégias de ensino alternativas na sala de aula, mais um máximo entre todos os países analisados (média é 77,4%).
Será que os alunos portugueses de 15 anos também evidenciaram desempenhos tão espectaculares em Matemática, Ciência e Leitura, no PISA? Nada disso. Ficaram abaixo da média em 2009 e 2012.

Finalmente passemos à satisfação profissional dos professores do 3º ciclo — quadro 7.2.
A esmagadora maioria dos professores considera que a profissão é desvalorizada pela sociedade portuguesa: só 10,5% dos inquiridos portugueses é que acha que a sociedade valoriza quem ensina, quando a média nos 34 países analisados se situa nos 30,9%.
Há mesmo 44,5% que se interroga se teria sido melhor escolher outra profissão, (contra uma média de 31,6%).
Questionados sobre se pudessem voltar a decidir, escolheriam ser professores, 71,6% respondeu afirmativamente (mas a média é 77,6%), havendo 16,2% que se arrepende de ter feito esta opção (a média é 9,5%).

No entanto, 70,5% dos docentes portugueses considera que as vantagens de ser professor claramente ultrapassam as desvantagens (a média é 77,4%).
E estão mais satisfeitos com a profissão que têm do que a maioria dos colegas estrangeiros: 94,1% dos docentes portugueses daquele nível de ensino dizem que estão satisfeitos com a profissão (média é 91,2%).





Para este relatório, foi seleccionada, em cada país, uma amostra representativa com um mínimo de 200 escolas com respostas de um mínimo de 20 professores. Assim, a amostra internacional tinha um mínimo de 4000 professores para cada nível ISCED em que esse país participou. A maior parte dos países participou apenas no ISCED 2, o nível que corresponde ao 3º ciclo em Portugal.

*

Pais e professores portugueses têm de olhar para estes resultados e debatê-los. Não adianta procurar tapar o Sol com uma peneira.

Os pais que andam a educar os filhos para príncipes, mas sem a concomitante preparação e sentido de responsabilidade; os professores que andam a inventar sucesso nas reuniões de avaliação, mas fogem da prova de avaliação de conhecimentos e capacidades; os políticos que andam a clamar por investimento na economia, mas só defendem os seus interesses pessoais ou partidários, e a sociedade que anda a exigir mais bem-estar, mas recusa mudar do sistema da cunha para o princípio do mérito e substituir o insulto pelo trabalho, todos têm de acordar para a realidade dos números. Não há inocentes.

Um começo será ler estes comentários à notícia no Público e reflectir sobre o conteúdo:


Sergio Simões Lopes
25/06/2014 10:14
Nada é fortuito, nada é casual. No Universo tudo é acção e reacção. O primeiro passo é a reflexão e a identificação de posturas e responsabilidades.
Professor que rejeita a avaliação externa, rejeita o mérito. Professor que defende a auto-avaliação como elemento único de prova de competência e actualização dos conhecimentos, desvaloriza parte do seu próprio papel como educador e avaliador.
Professor que só enche ruas em protestos na defesa dos seus interesses pessoais e cala-se ao curso de um ataque ao sistema público de ensino, desvaloriza-se como profissional da educação e como cidadão.
Professor que revela desleixo na aparência e desrespeito por horários e compromissos, iguala-se à parcela da sociedade que é vista com desconfiança. Reformulem-se e recuperarão prestígio perdido.

Vidal Prudencio
25/06/2014 14:02
O professorado é uma profissão digna e sempre muito considerada pelos portugueses. Infelizmente um dos Sindicatos, comandado por um agente verrinoso, tem agido de uma maneira radicalizada e partidária o que leva a que grande parte da população condene alguns procedimentos e daí a imagem menos boa que passa para os professores...

coelho.ja
25/06/2014 15:08
Obviamente que uma classe que se deixou instrumentalizar pelos agentes do PCP (Mário Nogueira e afins), não pode esperar reconhecimento da sociedade... Quem quer ser respeitado tem que se dar ao respeito e isso foi tudo o que os professores não fizeram...
O expoente máximo dessas atitudes irresponsáveis foi a 'guerra' contra a avaliação (qualquer avaliação), nos tempos da Maria de Lurdes Rodrigues. Perderam uma oportunidade histórica de se afirmarem pela positiva — e poderem serem vistos pela sociedade como alguém que privilegia a melhoria da qualidade do ensino, em detrimento do basismo da FRENPROF. Infelizmente, como sucede (quase) sempre em Portugal, o corporativismo atávico dos comunistas (e afins) prevaleceu...

Ana Cristina Fontes
25/06/2014 17:27
Sou professora desde 1986. Os dados apresentados, na minha opinião, correspondem à realidade.
Queria apenas destacar a percentagem de tempo que é gasta, em média, para manter, ou tentar manter, a disciplina na sala de aula. Creio que este é um dos principais problemas do ensino atual, um problema que se tem vindo a agravar ao longo dos últimos anos com evidente prejuízo para os alunos. Enquanto o problema da disciplina não for encarado seriamente e os alunos penalizados pelos comportamentos que manifestam, os resultados escolares dos nossos estudantes não melhorarão.
A sala de aula deve ser encarada como um local de trabalho onde é necessário ler, escrever e interpretar. Enfim, trabalhar! É preciso reconhecer o mérito! É preciso que os encarregados de educação sejam, eles mesmos, disciplinadores.