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domingo, 22 de março de 2020

COVID-19: a justificação das medidas de contenção


A análise seguinte explica pormenorizada e correctamente a perigosidade do coronavírus SARS-CoV-2. Foi escrita por um professor de epidemiologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa mas pode — e deve — ser lida por toda as pessoas, independentemente das suas habilitações académicas, porque apresenta de forma pedagógica a justificação das medidas de contenção em vigor no nosso país.

Como este blogue é sobretudo lido por descendentes de portugueses que enveredaram pela diáspora e, por isso, necessitam da tradução rápida acessível no canto superior direito, tomei a liberdade de copiar integralmente o texto, com as devidas vénias a quem teve a solidariedade de escrever e ao jornal Público que soube avaliar a qualidade desta análise:


O novo coronavírus: factos, respostas e previsões II

A protecção dos idosos e dos doentes crónicos vai ser crucial para o sucesso nos próximos muitos meses. Estou convencido de que iremos ultrapassar esta pandemia”. Análise de Manuel Carmo Gomes, professor de Epidemiologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa

Manuel Carmo Gomes
22 de Março de 2020, 20:45

À data em que escrevo, a covid-19 atingiu em todo o mundo cerca de 280 mil pessoas e causou mais de 11 mil mortes. Olhamos para as curvas da incidência da doença nos nossos vizinhos em Espanha, França, Itália e Alemanha, e não conseguimos dizer com segurança, onde ou quando ocorrerá o pico da epidemia.


No passado dia 19, o Governo português enunciou um conjunto de medidas restritivas que visam limitar o contágio da doença, sendo legítimo que os cidadãos se interroguem. Por que razão chegámos aqui? A ciência ajuda-nos a compreender esta realidade? O que vai acontecer a seguir?

Talvez pareça estranho, mas é possível responder. Não com certezas absolutas, mas com confiança suficiente para poder escrever estas linhas. Tentarei em seguida cruzar conhecimentos científicos com estas preocupações de uma forma que espero compreensível e esclarecedora.

O que tem o novo coronavírus de tão especial para gerar uma pandemia com esta rapidez?

O novo coronavírus tem quatro características que, combinadas, lhe dão essa capacidade:

1. Quando uma pessoa é infectada, passa por um período em que o vírus se multiplica nos nossos órgãos de forma silenciosa e sem causar sintomas (um-dois dias), entrando em seguida num outro período (também um-dois dias) durante o qual a pessoa já é capaz de contagiar as outras. Tudo isto sempre sem sintomas.

2. O tempo geracional (serial interval), isto é, o tempo médio que decorre entre ser infectado e contagiar outrem, é curto — pensa-se que sejam cerca de quatro a sete dias. Isto significa que não leva muito tempo a formar-se uma cadeia de transmissão.

3. Múltiplas vias podem levar ao contágio: gotículas emanadas com a tosse, espirro ou a fala; via aerossol (gotículas tão pequenas que pairam no ar); contacto físico (por exemplo, mão-boca-olhos); e, eventualmente, via fecal-oral. Desconhece-se se a transmissão da grávida para o feto é possível.

4. O vírus causa uma letalidade por doença (percentagem de doentes que morre) baixa a moderada nos menores de 60 anos. Mas a doença tende a ser prolongada e, durante esta, o doente mantém-se contagioso. A maioria das estimativas da letalidade média situa-se entre 2 e 5%, variando com a capacidade do sistema de saúde. Quando esta letalidade é aplicada a um grande número de doentes, traduz-se por um monstruoso número absoluto de mortes.

Quando um vírus com estas características é introduzido numa população que está totalmente desprotegida, sem anticorpos para o vírus, as consequências são aquelas a que assistimos. Isto não é surpresa nem para especialistas em vírus nem para epidemiologistas. Há muito tempo que nos dizem que a questão seria ‘quando’ e não ‘se’ surgiria alguma vez um vírus assim.

Apesar de já termos tido más experiências com a família dos coronavírus (SARS em 2002 e MERS em 2012), a maioria dos cientistas esperava que fosse um vírus da gripe a originar a próxima pandemia. Em termos práticos, acertar na família do vírus não faz grande diferença, as características do vírus é que fazem a diferença.

Há solução? O que vem a seguir?

Sabemos o suficiente para responder a estas perguntas com alguma segurança, recorrendo à epidemiologia matemática, a área da ciência que se ocupa do estudo da dinâmica das epidemias.

O impacto de um vírus com as características acima descritas depende essencialmente de algo que a maioria dos portugueses nunca tinha ouvido falar: o número básico de reprodução da infecção, a que chamarei R₀ (lê-se R-zero).

Trata-se do número de novas infecções provocadas por uma pessoa que está infectada, antes de ser isolada. Evidentemente, há doentes que contagiam cinco ou seis pessoas ou mais, e há doentes que não contagiam ninguém. O valor do R₀ é uma média de tudo isto. No caso do novo coronavírus, tem-se situado entre dois e três, dependendo da região e da fase da epidemia. Por exemplo, se já há um estado de alerta, os doentes são identificados e isolados mais depressa, e o R₀ tende a diminuir. Em meios urbanos de grande densidade populacional, o R₀ tende a ser mais alto do que em meios rurais.

Há dois pontos fundamentais, que resultam do valor do R₀ acima mencionado. É conveniente tê-los em mente para perceber o raciocínio que se segue:

1. Na ausência de qualquer controlo da doença, a covid-19 irá atingir 60% a 80% da população. Quando, há alguns dias, a chanceler Merkel disse que 70% dos alemães podiam ser infectados, houve quem ficasse céptico. Na verdade, estava apenas bem informada.

2. A única forma de travar a propagação da covid-19 é ter, pelo menos, 60% da população imunizada (isto é, mais de 60% dos portugueses têm de ter anticorpos contra o vírus).

O ponto 1 representa o problema e ajuda-nos a compreender por que razão a epidemia cresce tão depressa em tantos países, Portugal incluído. As curvas desta epidemia crescem de forma exponencial, é um crescimento estonteante. É apenas uma manifestação da agressiva dinâmica do vírus em direcção à invasão de 60 a 80% da população. Se nada for feito, atingiremos esta percentagem em pouco tempo, o que teria terríveis consequências, às quais se retorna mais abaixo.

O ponto 2 é a solução para o problema. Existem duas formas de conseguir imunizar uma população: uma é recorrendo a uma vacina; a outra é através de imunização natural, ou seja, ter contacto com o vírus selvagem.

No que respeita à vacina, é improvável dispormos dela em menos de um ano, e isto já é um prazo optimista. Para além do tempo dos ensaios da vacina, vai ser necessário produzir centenas de milhões de doses para todo o planeta. Há poucos fabricantes com esta capacidade e a produção levará o seu tempo. As notícias que têm circulado sobre ensaios, pela primeira vez, de uma vacina em humanos, referem-se à chamada Fase 1. Esta destina-se apenas a testar a segurança da vacina (é preciso garantir que os vacinados não adoecem com a vacina). Falta a Fase 2 (optimização do conteúdo da vacina) e, em especial, a Fase 3 (teste da efectividade e segurança em grande escala), que é a mais demorada. Só depois se iniciará a produção em massa.

Quanto à imunização natural: se deixarmos a epidemia seguir o seu livre curso, sem medidas de controlo, eventualmente 60 a 80% das pessoas serão infectadas e, passado esse ponto, atingimos aquilo a que os epidemiologistas designam por “imunidade de grupo”. Nessa altura, o R₀ toma um valor menor do que 1 (cada infectado contagia menos do que uma outra pessoa) e a epidemia pára. Mesmo que seja importado um novo doente do estrangeiro, este não consegue dar origem a uma cadeia sustentada de novos doentes porque, em geral, contactará com pessoas que estão imunizadas. Podemos considerar que a população está globalmente protegida — é a imunidade de grupo a funcionar.

Mas imunizar a população desta forma tem consequências terríveis para os serviços de saúde e as populações. Nenhum serviço de saúde do mundo tem capacidade para responder ao afluxo de doentes graves que ocorreria em poucas semanas.

Os portugueses são testemunhas de que em menos de três semanas atingimos os mil doentes covid-19 e, sem medidas de contenção, o número de novos doentes aumentará a cada dia que passa. Em Itália, após um mês e meio de epidemia, verificam-se mais de 45 mil doentes e mais de quatro mil mortos, e ainda não se antevê o pico da epidemia. As autoridades italianas estão a fazer tudo o que é humanamente possível para abrandar a epidemia. O problema é a força da dinâmica do vírus em direcção aos 60-80%.

A contenção da epidemia

A China, a Coreia do Sul, Singapura e Macau provaram que é possível travar a epidemia com medidas inéditas de supressão de contactos sociais, as quais requerem uma grande aceitação e disciplina por parte da população.

Todos ouvimos nas notícias a dureza das medidas tomadas e as suas consequências para a economia. O Governo português — a meu ver, bem — deu passos nessa direcção quando, a 13 de Março, optou pelo fecho das escolas e, em especial, com o pacote de medidas emanadas pela resolução do Conselho de Ministros do passado dia 19 de Março. São conhecidas de todos, são todas pertinentes, não as irei enumerar.

Todas estas medidas têm como objectivo principal reduzir a proximidade física entre as pessoas, evitando, assim, o contágio da doença pelas suas múltiplas vias de transmissão. Se tivermos sucesso, o valor do R₀ diminuirá e a rapidez com que a epidemia cresce irá abrandar. A epidemia passará então por um pico que todos desejamos que não seja muito alto (poucos doentes por dia quando chegarmos ao pico). Se nos mantivermos firmes e disciplinados nas medidas de contenção, o valor do R₀ irá tornar-se menor que 1 e o número de novos doentes começará a diminuir todos os dias. Aconteceu na China, iremos conseguir também em Portugal.

Uma consequência importante das medidas de contenção é que o pico da epidemia não será tão alto e estará deslocado para mais tarde no tempo. Este achatamento e atraso na ocorrência do pico é aquilo a que os epidemiologistas designam por “aplanar a curva epidémica”. Quando as previsões vão adiando a ocorrência do pico, isso significa, em geral, que as medidas implementadas estão a surtir efeito.

Ao ultrapassarmos o pico da epidemia, nada está ganho, mas precisamos desesperadamente dessa acalmia para nos reorganizarmos. Os serviços de saúde precisam também de ganhar tempo, criar estruturas organizadas e treinadas, gerir recursos e equipamentos para continuar a ter capacidade de resposta. Há equipas de cientistas portugueses a monitorizar a epidemia que estarão atentos aos sinais do impacto das medidas decretadas pelo Governo ao longo das próximas semanas. Deixo aqui uma palavra de muito apreço aos académicos de várias instituições que nos últimos dias largaram as suas actividades e se disponibilizaram para apoiar os colegas do Instituto Ricardo Jorge a analisar os dados da epidemia, construir modelos, efectuar previsões, discutir soluções. Grande espírito de corpo por parte da Academia.

É de realçar a importância de dois pilares fundamentais na contenção da epidemia de covid-19:

A. É fundamental apoiar e proteger os nossos profissionais de saúde de todas as formas possíveis. Há que assegurar a disponibilidade de material de protecção individual para quem está na linha da frente.

B. É obrigatório proteger os nossos idosos e as numerosas pessoas que são portadoras de doenças crónicas de alto risco para este vírus: hipertensão, doenças cardiovasculares, diabetes. Todos os esforços devem ser feitos para disseminar este apelo.

Estas pessoas, quando são infectadas, têm elevado risco de contrair formas graves da covid-19 e de requerer cuidados hospitalares intensivos prolongados. Quando são internadas, o curso da doença é, em geral, lento, podendo estes doentes estar sob cuidados quatro a seis semanas, ou mais! É muito tempo. Um afluxo de muitos doentes com a covid-19 num espaço de poucas semanas vai obstruir a capacidade de resposta dos serviços de saúde. Vimos assistindo a isso em Itália e as consequências estão a ser devastadoras.

Os netos e os filhos devem manter distanciamento físico em relação aos avós. Os lares de idosos devem ser cautelosamente protegidos de infecção importada por pessoas bem-intencionadas que desconhecem estar a transmitir o vírus. A protecção dos idosos e dos doentes crónicos vai ser crucial para o sucesso nos próximos muitos meses.

O alívio da contenção e a possibilidade da segunda onda epidémica

Ultrapassado o pico da epidemia, se conseguirmos que o número de novos casos por dia continue a descer, haverá uma altura em que será possível, até desejável, o alívio das medidas de contenção.

Mas este assunto é delicado. O vírus continuará a circular no planeta; Portugal continuará por muito tempo a importar pessoas infectadas e, uma vez que estamos longe dos ambicionados 60% de imunizados que nos conferem imunidade de grupo, corremos o sério risco de uma segunda onda epidémica, que pode ser tão agressiva como a que vivemos. A China corre esse risco neste preciso momento. Isto não significa que não devamos tentar, mas o processo vai necessitar de acompanhamento apertado e gestão cautelosa.

Num mundo ideal, os idosos e os doentes crónicos continuariam sempre protegidos, e reiniciaríamos gradualmente as actividades das pessoas com menor risco de doença grave. Estas pessoas passariam a ter maior risco de infecção do que quando estavam confinadas. Nesse mundo ideal, manteríamos a separação entre elas e os idosos, de forma a que as novas cadeias de transmissão se formassem apenas entre as pessoas de menor risco para doença grave.

Sempre mantendo baixa incidência da doença, conseguiríamos, com esta estratégia, ir imunizando naturalmente os sectores da população de menor risco, caminhando em direcção aos 60% de imunizados na população, circunstância que nos aproximaria do desejado estado de imunidade de grupo. Esta estratégia ideal é difícil de implementar na perfeição. Se ficarmos abaixo (por exemplo, ao nível de 20 a 30% da população imunizada naturalmente), a possibilidade da segunda onda não será evitada. Contudo, esta será mais lenta, permitindo maior capacidade de resposta dos serviços de saúde. A razão é simples: quando um doente contactar com uma pessoa que poderia contagiar, existirá uma certa probabilidade de que essa pessoa já esteja imunizada. O valor efectivo do R₀ será, então, mais baixo do que no início da primeira onda.

Várias equipas de investigação, em muitos países, estão neste momento focadas em estudar este problema. Todos concordamos que, quando um país aliviar as medidas de contenção, terá de ter uma máquina bem montada de detecção rápida dos novos doentes, rastreio rápido dos contactos destes doentes, imposição de quarentenas locais aos contactos dos doentes. Mais uma vez, será necessário o extraordinário trabalho dos nossos delegados de saúde e das suas equipas. A existência ou não de uma segunda onda dependerá, em grande parte, do apoio que lhes consigamos prestar.

Temos pela frente muitos meses difíceis, inéditos, durante os quais faremos todo o possível para minimizar os danos causados pela covid-19 enquanto não chega a vacina. Estou convencido de que iremos ultrapassar esta pandemia com muitas histórias para contar, novas competências e uma forma mais humilde de olhar o mundo.

****
*

Sobre a importância do valor do R₀, o leitor interessado pode visualizar o gráfico apresentado no vídeo divulgado aqui.

Os idosos e os doentes crónicos devem prestar muita atenção à possibilidade da segunda onda epidémica, muito bem explicada no final desta excelente análise, devem continuar a lavar as mãos com frequência e usar máscaras cirúrgicas quando receberem visitas ou saírem para a rua.


domingo, 24 de janeiro de 2016

Presidenciais 2016: os discursos finais


O eleitorado português que, em 4 de Outubro, deu apenas uma maioria relativa à coligação formada pelo PSD e pelo CDS, entregou a presidência da República com 52% dos votos validamente expressos (votos em branco e nulos excluídos), passados menos de quatro meses, a Marcelo Rebelo de Sousa, o candidato presidencial oriundo dessa área política.


24 Jan, 2016, 22:55

"Fiz questão de me dirigir ao país, esta noite, a partir da Faculdade de Direito de Lisboa, casa da liberdade, de pluralismo, de abertura de espírito. Não foi uma opção política, foi uma escolha afectiva", começou por explicar o Presidente eleito, no meio de enormes aplausos.

Reconhecendo que esta faculdade lhe deu muito, diz ser um gesto simbólico para com a instituição onde é professor catedrático.

"É o povo quem mais ordena. Foi o povo que quis dar-me a honra e eleger-me Presidente da República de Portugal", afirma Marcelo, garantindo que não abdicará de se reger pelas suas convicções e ideias.

Depois cumprimenta os restantes candidatos, dizendo que não eram seus "adversários" mas seus "oponentes" e sublinhando a coragem de se terem apresentado na corrida presidencial.

Marcelo expôs, de seguida, as marcas da sua presidência:
  1. "Fomentar a unidade nacional". "Unir aquilo que as conjunturas dividam e estreitando a relação entre todos" porque "quanto mais coesos formos mais fortes seremos".

  2. "Reforçar a coesão social, pessoal e territorial por imperativo da Constituição e por convicção pessoal". Marcelo promete ser "politicamente imparcial", mas assevera que "não deixarei de ser socialmente actuante".

  3. "Promover convergências políticas", defendendo que é necessário prmover a cultura de compromisso e de consenso.

  4. "Incentivar o frutuoso relacionamento entre órgão de soberania e os agentes políticos, económicos e sociais"

  5. "Conciliar a justiça social com o crescimento económico e a estabilidade financeira". Portugal precisa de crescer de forma sustentada. O Presidente deve ser "o primeiro a querer que o Governo governe com eficácia e que a oposição cumpra o seu papel". "Crescer de forma sustentada, gerar emprego, corrigir as injustiças sociais que a crise agravou", tudo objectivos a alcançar sem comprometer a necessária estabilidade financeira. Porque no "tempo que aí vem", defende Marcelo, "ou crescemos economicamente de forma sustentada, criando justiça social, combatendo a pobreza e a desigualdade (...) ou só contribuiremos para a agravar as tensões sociais e políticas".

Marcelo Rebelo de Sousa acredita que "os próximos cinco anos não serão um tempo perdido", mas de "recuperação e futuro". Finalizou o discurso de vitória dizendo que "é hora de seguir a história, honrar a memória e arrancar para um futuro à medida dos nossos sonhos".

O Presidente eleito rematou o seu discurso com estas palavras: "É hora de refazer Portugal! Viva Portugal!"

No fim, o hino nacional ecoou na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.


Paulo Portas, Pedro Passos Coelho e António Costa já reagiram à vitória do Professor do Marcelo Rebelo de Sousa.


24 Jan, 2016, 22:23

António Sampaio da Nóvoa, um dos candidatos da área socialista reconhecidos por António Costa, reconheceu a derrota nas eleições presidenciais, tendo defendido que, "pela primeira vez na nossa história, um cidadão independente esteve perto de disputar a segunda volta numas eleições presidenciais (...) Mas, em democracia, as eleições ganham-se por um voto e perdem-se por um voto".

Depois cumprimentou o vencedor, Marcelo Rebelo de Sousa, afirmando que ele é, a partir de agora, o seu Presidente. "Também agora, neste momento, quero contribuir para esta união em torno do novo Presidente da República, sem hesitações, sem reticências, com uma profunda convicção democrática", acrescentou.

O candidato assumiu a "inteira responsabilidade" por não ter chegado à segunda volta, elogiando o trabalho dos seus apoiantes: "Nesta noite, temos de estar orgulhosos do que fizemos, da marca de cidadania que deixamos. Sabemos que não temos dias fáceis pela frente, nem em Portugal, nem na Europa, nem no mundo."
"Temos de estar à altura deste tempo, com a força tranquila de convergências internas para melhor nos afirmarmos no exterior", afirmou.


24 Jan, 2016, 21:48

Marisa Matias, a candidata do Bloco de Esquerda, reconheceu que Marcelo Rebelo de Sousa ganhou as eleições e anunciou que já o felicitou pela vitória, acrescentando:
Em democracia o mais precioso que temos é mesmo a decisão dos portugueses e das portuguesas. Um dos objectivos desta candidatura era conseguir uma segunda volta, e esse objectivo não foi conseguido. No entanto, os resultados também demonstraram uma enorme onda de esperança que está a crescer no nosso país”.

Questionada sobre o que correu mal para que Marcelo tenha vencido à primeira volta, Marisa diz que não terá sido na sua candidatura.


24 Jan, 2016, 21:02

Maria de Belém Roseira, a outra candidata da área socialista reconhecida por António Costa, como assumiu a derrota eleitoral e foi a primeira candidata presidencial a saudar "o candidato eleito, Marcelo Rebelo de Sousa, novo Presidente da República", tendo acrescentado:

"A eleição do Presidente da República é um momento nuclear para a democracia e para a República.

As eleições presidenciais que agora se concluem revelam uma forte e progressiva abstenção que precariza o funcionamento da democracia.
"


24 Jan, 2016, 21:55

Edgar Silva, o candidato do PCP, admite que o resultado obtido fica longe do desejado e agradece aos portugueses e portuguesas que lhe confiaram o voto.


Vitorino Silva também reagiu ao seu resultado.


24 Jan, 2016, 22:36

Paulo Morais, o professor da universidade Lusófona que era candidato presidencial, embora assumindo que o seu resultado ficou aquém do esperado, garante que continuará a defender as causas a que está associado.


24 Jan, 2016, 21:43

Henrique Neto, um candidato presidencial antigo deputado do PS, mas marginalizado, primeiro, por José Sócrates, e agora por António Costa, saudou "o novo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, na esperança de que ele nos surpreenda" e pediu "que ele como presidente da República possa ser um factor positivo das mudanças profundas que o país precisa" porque "o futuro do país nos próximos meses e anos, não vai ser fácil".


Jorge Sequeira reconhece que "os resultados não são satisfatórios".

Cândido Ferreira afirmou que "os partidos políticos deviam funcionar como cerne da democracia", mas lamentou que "persistam em afunilar o sistema democrático".


As declarações dos 10 candidatos no filme completo do dia das eleições aqui.


sábado, 21 de março de 2015

José Tribolet alerta para obsolescência do sistema informático público


O Director do Departamento de Informática do Instituto Superior Técnico revela que o sistema informático da Administração Pública é um sistema obsoleto:

21 Mar, 2015, 09:19


José Tribolet recorda a paragem de mês e meio no Citius do ministério da Justiça que criou o caos nos tribunais. E alerta que também podem ocorrer paragens nos sistemas doutras entidades, como os da Autoridade Tributária ou da Segurança Social, pondo em causa a soberania nacional.


*


O Professor José Tribolet é uma autoridade reputada no domínio dos sistemas informáticos, respeitado nos meios científicos e técnicos.

Mas o Professor Tribolet não frequentou as jotas do PS nem do PSD. Não lambeu botas, nem teceu elogios a Paulo Portas, não foi às manifestações da Fenprof, nem participou nas tertúlias do BE. Nunca lhe passou pela cabeça escrever artigos com personagens delirantes como Lurdes Rodrigues, chafurdar nas pocilgas socialistas geridas por Mário Soares ou penetrar nos dédalos sociais-democratas organizados em torno de Cavaco Silva. Não, nem, nunca. A resposta dos políticos lusos e do Zé povinho só pode ser uma: olhar para o outro lado. Os alertas do Professor Tribolet vão cair no esquecimento.

Quando o sistema informático da Segurança Social colapsar e, em consequência, as pensões não forem pagas durante 2 meses, a deputada Catarina Martins vai enxovalhar o primeiro-ministro, Passos Coelho pedirá desculpa aos portugueses, o candidato a primeiro António Costa vai prometer a criação de um ministério da Informática onde vai dar emprego a 150.000 jovens e o PCP vai organizar uma grande manifestação de pensionistas e pedir pela milionésima vez a demissão do governo. Que a gentinha que entra nos partidos políticos portugueses seja analfabeta informática, e não só, não vai desassossegar ninguém.


terça-feira, 14 de outubro de 2014

Chuva volta a provocar inundações em Lisboa


Três semanas depois das últimas cheias, voltou a chover com intensidade em Lisboa, durante alguns minutos, por volta das 16:00, e a cidade ficou novamente inundada. O Rossio, Alcântara e as Avenidas Novas estiveram entre as zonas mais afectadas.

As estações do Metropolitano do Jardim Zoológico e São Sebastião (Linha Azul) sofreram inundações, bem como a estação do Rossio (Linha Verde). A avenida Dr. Augusto Castro, na zona de Chelas, também ficou inundada e a água acumulada na via entrou para a estação de Chelas (Linha Vermelha).

A Calçada de Carriche e os túneis da Avenida João XXI e do Campo Grande foram cortados ao trânsito devido à acumulação de água.
Na Baixa de Lisboa, entre a Rua da Prata e a Praça do Comércio, apenas circularam viaturas pesadas.


Uma imagem da Praça de Espanha que está a tornar-se habitual


O Rossio


A cidade de Lisboa está a entrar em caos. Duarte Cordeiro, um ex-secretário-geral da Juventude Socialista e licenciado em economia pelo ISEG que é o vereador da Higiene Urbana, nem consegue manter as sarjetas limpas, nem começa a pôr em execução o plano de drenagem da cidade que foi metido na gaveta há sete anos. O presidente António Costa culpabiliza a chuva e diz que não há solução para as cheias em Lisboa.


13 Out, 2014, 20:16
A água e a lama entraram em casas, lojas e carros e obrigaram ao corte de muitas estradas. Várias estações do metro foram também afetadas.


13/10/2014 - 17:44
Homem resgatado do carro em Lisboa

20:37 13.10.2014
As cheias na rua Dona Maria Pia e em Alcântara. Na parte final do vídeo vê-se Algés e Parede, já fora de Lisboa, onde a inundação não fez grandes estragos.

14 Out, 2014, 19:17
António Costa, presidente da câmara municipal de Lisboa, culpabiliza a chuva e diz que não há solução para as cheias nesta cidade



Costa mal na fotografia
Cartoon de Henrique Monteiro


Diferente visão do problema das cheias tem José Manuel Saldanha, professor de engenharia sanitária do Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa. O Professor Saldanha diz que, com um sistema de escoamento com mais de 50 anos, Lisboa terá sempre as chamadas cheias rápidas quando houver chuvadas como a de ontem. Numa pequena viagem pela cidade, o professor fez o diagnóstico, mostrou o que está mal e apresentou soluções para evitar as cheias:


22:09 14.10.2014


sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Universidade de Lisboa entre as 300 melhores do mundo no ranking de Xangai


A Universidade de Lisboa ascendeu ao intervalo das 300 melhores universidades do mundo no Academic Ranking of World Universities 2014, categoria alcançada pela primeira vez por uma universidade portuguesa.

A Universidade do Porto mantém-se no grupo das 301-400 melhores e a Universidade de Coimbra permanece no grupo das 401-500 para onde entrou no ano passado.

Este ranking só discrimina as posições individuais das instituições até ao lugar 100. A partir daí coloca-as por intervalos, 101-150, 151-200, 201-300, 301-400 e 401-500, inscrevendo-as por ordem alfabética dentro de cada intervalo. No entanto, olhando para o gráfico seguinte conclui-se que a Universidade de Lisboa está no topo do seu grupo:









O topo da tabela continua a pertencer às mesmas dez universidades do ano passado, oito instituições dos Estados Unidos da América e duas do Reino Unido: Harvard University, Stanford University, Massachusetts Institute of Technology (MIT), University of California - Berkeley (UCB), University of Cambridge, Princeton University, California Institute of Technology (Caltech), Columbia University, University of Chicago e University of Oxford.


O Academic Ranking of World Universities (ARWU) é vulgarmente conhecido como o ranking de Xangai porque é coligido pela Shanghai Jiao Tong University, China, desde 2003.

O ranking global compara 1200 instituições de ensino superior, em todo o mundo, e escolhe as 500 melhores de acordo com a seguinte metodologia: uma fórmula onde entra o número de ex-alunos vencedores de prémios Nobel e medalhas Fields (10%), professores vencedores de prémios Nobel e medalhas Fields (20%), investigadores classificados entre os mais citados em 21 categorias de assuntos (20%), artigos publicados na Nature e na Science (20%), artigos indexados no Science Citation Index-expanded e Social Sciences Citation Index (20%) e o desempenho académico per capita (nos anteriores indicadores) de cada instituição (10%).
Devido a esta metodologia, é considerado o mais rigoroso e prestigiado ranking universitário internacional.

Entre as 500 melhores universidades, 205 europeias, 177 americanas, 113 situadas na Ásia ou Oceânia e apenas 5 africanas.

Além do ranking global, são divulgadas listas das 200 melhores universidades em determinadas áreas do conhecimento, discriminando as 50 do topo.
Na área Engenharia/Tecnologia e Ciências da Computação, a Universidade de Lisboa surge no grupo 76-100, seguindo-se a Universidade do Porto e a de Aveiro, ambas no grupo 151-200.

São também divulgadas listas das 200 melhores universidades em determinadas disciplinas, discriminando as 50 do topo.
Em Matemática, a Universidade de Lisboa aparece entre os 76.º e 100.º lugares e, em Ciências da Computação, entre os 151.º e 200.º lugares.
Em Física, a Universidade do Minho situa-se entre os 151.º e 200.º lugares.


Eis o resumo do Público do ranking de Xangai 2014:



quinta-feira, 3 de abril de 2014

Físico português distinguido com prémio internacional


Um físico português foi distinguido com o prémio Jovem Cientista em Relatividade Geral e Gravitação de 2014, atribuído pela Sociedade Internacional de Relatividade Geral e Gravitação.



Participantes na conferência New frontiers in dynamical gravity que decorreu no Centro de Ciências Matemáticas da Universidade de Cambridge, em 24-28 Março 2014.
Nesta fotografia Jorge Santos está ao centro, atrás de Stephen Hawking, e usa chachecol. Outros conferencistas portugueses: Oscar Dias (Universidade de Southampton e Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa) e Carlos Herdeiro (Universidade de Aveiro).


Jorge Eduardo Santos tem 32 anos, licenciou-se em Engenharia Física Tecnológica, em 2005, no Instituto Superior Técnico e, entre 2006 e 2010, fez o doutoramento em Física Teórica no Departamento de Matemática Aplicada e Física Teórica da Universidade de Cambridge, famoso devido ao físico britânico Stephen Hawking.
Desde Setembro de 2013 é professor na Universidade de Cambridge (Reino Unido) e investigador na Universidade de Stanford (Califórnia, Estados Unidos).

Este prémio reconhece “contribuições extraordinárias de cientistas em fase inicial das suas carreiras”, no domínio da teoria da relatividade geral de Einstein. A investigação de Jorge Santos sobre os buracos negros, apresentada na conferência New frontiers in dynamical gravity que decorreu na Universidade de Cambridge, entre 24 e 28 de Março de 2014, contribuiu para o prémio agora recebido.

*

Um buraco negro é uma região do espaço da qual nada, nem mesmo objectos que se movam com a velocidade da luz, podem escapar. São criados pela deformação do espaço-tempo causada por uma estrela supergigante que, terminada a sua vida, sofreu um colapso gravitacional, tornando-se extremamente densa. Os buracos negros podem ser detectados por meio da interacção gravítica com a matéria na sua vizinhança.




Depois de um buraco negro se formar, ele pode continuar a crescer, absorvendo massa da vizinhança. Se absorver outras estrelas e se fundir com outros buracos negros, pode transformar-se num buraco negro supermassivo com milhões de massas solares. Parece que existem buracos negros supermassivos no centro da maioria das galáxias.


Simulação de nuvem de gás depois de uma aproximação do buraco negro no centro da Via Láctea
Os restos da nuvem de gás são mostrados em vermelho e amarelo, com a órbita da nuvem a vermelho. As estrelas que orbitam o buraco negro também são apresentadas, juntamente com as linhas azuis das órbitas. Esta visão simula as posições esperadas para as estrelas e para a nuvem de gás no ano de 2021.
ESO/MPE/Marc Schartmann

Buraco negro preso em flagrante num homicídio estelar
Esta simulação de computador mostra uma estrela a ser retalhada pela gravidade de um buraco negro supermassivo. Parte dos destroços estelares cai no buraco negro e outra parte é ejectada para o espaço a altas velocidades. As áreas em branco são as regiões de maior densidade, as cores progressivamente avermelhadas correspondem a áreas de menor densidade. O ponto azul aponta a localização do buraco negro.
O tempo decorrido corresponde ao intervalo de tempo que leva uma estrela semelhante ao Sol a ser rasgada por um buraco negro um milhão de vezes mais massivo que o Sol.
NASA; S. Gezari, da Universidade Johns Hopkins; e J. Guillochon, da Universidade da Califórnia, em Santa Cruz


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Entrevista ao reitor da Universidade de Lisboa


Frontalidade, concisão e clareza nas afirmações proferidas são as qualidades demonstradas nesta entrevista pelo reitor da Universidade de Lisboa.

Afasta responsabilidades da tutela sobre os cortes nas universidades públicas mas critica desfavoravelmente o Ministério das Finanças na preparação do Orçamento do Estado para 2014.
Compara o custo de cada aluno ao Estado na Universidade de Lisboa e nos colégios privados com contrato de associação. Podia ter acrescentado as verbas transferidas pelo Estado para as associações de pais, e muitas vezes dissipadas por estas em conluio com os directores das escolas, sob o pretexto de dar actividades de enriquecimento curricular aos alunos do 1º ciclo.
Outras transferências inadmissíveis são os subsídios dados pelo Estado a universidades privadas do tipo Lusófona através de fundações.

Considera que o Governo vai ser incapaz de fazer a anunciada reorganização do ensino superior porque a partidocracia não vai permitir: “Não tem condições políticas”.
Ataca as praxes e fica surpreendido que haja instituições do ensino superior onde os alunos não tenham que estudar e andem nessas práticas até Janeiro. Diz frontalmente que as universidades não podem acabar com a coacção sobre os alunos, apontando subtilmente o dedo aos pais que não sabem educar os filhos a resistir às praxes. Aliás os próprios pais nem sempre sabem resistir à vaidade mundana de ver os filhos trajados.

António Manuel da Cruz Serra nasceu em Coimbra em 1956. Licenciou‐se em Engenharia Electrotécnica na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, em 1978. Concluiu o Mestrado em Engenharia Electrotécnica e de Computadores no Instituto Superior Técnico (IST) da Universidade Técnica de Lisboa (UTL), em 1985. Doutorou‐se em Engenharia Electrotécnica e de Computadores no IST, em 1992.
Foi Presidente do IST desde Julho de 2009 e eleito reitor da Universidade de Lisboa em Julho de 2013.




Os reitores disseram que as universidades iam ser alvo de um corte, este ano, de cerca de 30 milhões. O presidente do Conselho de Reitores chegou a anunciar a decisão de “suspender a participação em reuniões com o Governo”. Depois, em Novembro houve uma reunião com o primeiro-ministro e pareceu ter havido um sinal de esperança...
Pareceu? Só se foi a si.

Quais foram, afinal, os compromissos assumidos pelo primeiro-ministro?
O único compromisso, que ainda não foi cumprido, foi este: já que não iria ser reforçado o orçamento das universidades, seria feita uma proposta de lei à Assembleia da República de alteração do regime jurídico das instituições de ensino superior. O primeiro-ministro prometeu-nos uma proposta de lei até 31 de Dezembro. Obviamente, a promessa não foi cumprida. Espero que seja rapidamente e que permita gerir as universidades mais eficientemente e que o Ministério das Finanças ceda na sua oposição ao aumento da autonomia e da agilidade administrativa das universidades.

Já disse que gastam 4% do orçamento com burocracias...
É a minha estimativa. Nas escolas onde há muitos projectos de investigação, prestações de serviço, o esforço na resposta à máquina do Estado é brutal.

Exemplos concretos?
Muita da nossa melhor gente, funcionários não docentes, está a fazer trabalho de reporte: seja à Direcção-Geral do Orçamento; ao ministério; seja a garantir que cumprimos as regras impostas pelo código dos contratos públicos; seja pela necessidade de respondermos à Agência Nacional de Compras Públicas; seja pelo controlo de todas as disposições que vêm no Orçamento [do Estado] sobre controlo de massa salarial; sobre a garantia de execução financeira de projectos (nos projectos que são financiados com dinheiro de fundos estruturais, as entidades nacionais de controlo não só têm de garantir as regras que nos são impostas a partir de Bruxelas como inventam as coisas mais alucinantes).
Também perdemos muita eficiência na gestão por não podermos tomar medidas como, por exemplo, termos acordos-quadro nacionais, que nos permitam fazer e controlar as aquisições. Recorrerei sempre aos acordos-quadros de limpeza, de segurança, de compra de energia eléctrica. Estão de acordo com as necessidades e defendem o interesse público. Mas não gosto que sejamos obrigados a recorrer sempre à agência de compras públicas. Por exemplo: temos um acordo-quadro para a concessão das cantinas universitárias muito mau, que não nos permite uma gestão racional, tirarmos mais vantagem da exploração das cantinas e que não nos permite controlar a qualidade da comida.

E como é que isso é possível?
Porque há uma lei que diz que somos entidades vinculadas do sistema nacional de compras públicas. No caderno de encargos das cantinas, a universidade tem de suportar o custo da energia eléctrica que o concessionário gasta, o custo da água e a manutenção dos equipamentos que são nossos e que o concessionário opera. Isto é péssimo.

Porquê?
Porque perco o controlo dos gastos no utilizador. O que eu gostava era de facturar aos concessionários a energia eléctrica que consomem. Corro o risco de numa das nossas cantinas estarem a ser gastos os kilowatts que pago para fazer bolinhos para serem vendidos nas pastelarias de Lisboa. Isso não acontece, mas exige o quê? Que mais gente nossa ande a fazer o controlo. E lá chegamos, rapidamente, aos 4% [de gastos com burocracia].
Gosto de dizer a frase do Presidente da República: “Deixem-nos trabalhar.” Porque estamos constrangidos e não merecemos. Não há universidades públicas em ruptura financeira, mesmo depois de nos terem cortado metade do financiamento público de 2006 até agora. Estamos com níveis de financiamento equivalentes aos dos anos 90. E com um número de bolseiros na investigação também equivalente ao dos anos 90. O país não está a seguir um bom caminho.

Mas também há quem defenda que as universidades têm de encontrar cada vez mais fontes de financiamento.
A única coisa em que os governos têm sido bem-sucedidos é em obrigarem-nos a encontrar recursos. Mas ultrapassámos o limite. Qualquer gestor de uma grande universidade europeia diz: “Vocês têm demasiadas receitas próprias.”

E qual é o risco?
Que as receitas próprias, nomeadamente as encomendas das empresas, caiam a pique numa crise como a actual. Não estamos aqui sentados no banquete do Orçamento de Estado. E é isso que faz a diferença entre o trabalho das universidades e o trabalho do resto do sistema. Aliás, é muito fácil perceber que estamos a ser subfinanciados. Basta ver quanto é que o Estado gasta com cada aluno do secundário e com cada aluno do superior.

Na Universidade de Lisboa quanto custa cada aluno ao Estado?
Em média, menos de 3000 euros por ano. Ouviu-se há pouco tempo que o Estado paga cerca de 5000 euros aos colégios privados com contrato de associação. Isto não existe em mais lado nenhum do mundo. E tem acontecido porquê? Há muitas escolas que fazem uma quantidade de receitas próprias per capita muito alta. E de cada vez que fazemos um milhão de euros de contratos, há 250 mil que são deslocados para o funcionamento normal da universidade, que vão servir para pagar salários a professores, energia eléctrica, água. Mas quero ainda dizer uma coisa que tem de ser dita: é que durante a preparação do Orçamento de Estado de 2014 aconteceram coisas que nunca tinham acontecido antes e que são inaceitáveis.

Como assim?
Na reunião do Conselho de Ministros que aprovou o orçamento foi decidido um corte, relativamente a 2013, que rondava os 3% ou 3,5% líquidos. O que significa praticamente uma descida de quase 30 milhões de euros para as universidades. Mas aquilo que aconteceu, desde esse momento, é que o Ministério das Finanças, sem nenhuma decisão do Conselho de Ministros, nos tirou mais 30 milhões.

A acrescentar aos outros 30.
Exactamente. O único ofício que tenho do Governo a dizer qual é a dotação do Orçamento de Estado para 2014 é de Agosto e não corresponde, de maneira nenhuma, àquilo que foi aprovado pela Assembleia da República. Eu esperava receber um novo ofício que dissesse qual é a dotação e não ter de descobrir qual é olhando para o sistema informático das Finanças...

E foi o que aconteceu?
Foi. Ainda ninguém nos disse exactamente qual a dotação para o ensino superior em 2014. Há tabelas na lei do Orçamento de Estado aprovado que misturam dotação orçamental com as nossas receitas próprias.

Mas é sempre assim?
É sempre assim que é para enganar as pessoas. Porque os governos sempre devem ter tido vergonha do valor que põem no orçamento para o ensino superior.

Estava a dizer que todos os anos recebia uma carta com a sua dotação...
E este ano tenho uma de Agosto, feita antes da redução dos salários da função pública, e antes de nos virem tirar mais 30 milhões. E gostava que ficasse claro: houve 30 milhões, 8 dos quais da Universidade de Lisboa, que foram tirados do sistema por livre arbítrio das Finanças, sem intervenção da tutela e sem nenhuma decisão, que se saiba, de mais ninguém no Governo.

Mas então a decisão foi de quem?
Não sei se foi da pessoa que digita teclas no lançamento do orçamento no sistema informático. Nem quero acreditar que tal seja possível. Mas é que não tem rosto! Há um sistema de gestão financeira das instituições públicas onde são feitos os lançamentos, onde é introduzida a dotação. E foi assim que, acho eu, se percebeu, no Governo, que se tiraram 30 milhões às universidades. Nessa altura perguntámos o que se passava.

E o que é que se passa?
Quando se decidiu que à dotação ia ser subtraído o valor correspondente à descida da massa salarial, por força dos cortes dos salários dos funcionários, em vez de se retirar o valor efectivo dessa redução, que é cerca de 3%, retirou-se 6,5%. O primeiro-ministro disse na reunião com os reitores que as Finanças não eram capazes, em tempo útil, de fazer contas subsector a subsector; e como achavam que, em média, os cortes salariais valiam 6,5% da massa salarial da função pública tinham-nos cortado 6,5% a todos. Acho isto insólito.
Se não conseguiram fazer as contas subsector a subsector tenho um problema enquanto português. É que, só por sorte — e a sorte não anda atrás de nós —, é que a descida vai de ser de 6,5% no conjunto da administração pública. E, portanto, temos um problema no Orçamento de Estado, porque o corte não dá 6,5% porque os políticos decidem que dá. Não é impossível que dê 6,5%, mas acho muito estranho que não se tenham feito as contas subsector a subsector. Verdadeiramente, não acredito.

As Finanças passaram por cima do Conselho de Ministros?
As Finanças decidiram enviar para a Assembleia da República uma dotação para o ensino superior que não aquela aprovada em Conselho de Ministros. Não é possível gerir a universidade desta maneira. Na semana passada, fui confrontado com o lançamento de uma cativação adicional em cima do orçamento da reitoria de mais um milhão de euros. Ou seja, há menos um milhão. O que significa que a Universidade de Lisboa não vai conseguir manter nenhuma das patentes que eram suportadas pela reitoria. Nem pagar a licença de Microsoft Campus para toda a gente...

Qual é o risco de não pagar patentes?
Há uma patente de uns antibióticos novos que, se correr bem, pode ter um valor comercial grande no futuro. Mas não posso pagar 140 mil euros para manter patentes e portanto tenho de tomar decisões.
Não vou tomar nenhuma iniciativa de gastar dinheiro por razões políticas,. O dinheiro que vai ser gasto é o que corresponder à receita, nem mais um euro. Não sei se a expectativa que há é de que nós façamos mais despesa do que receita, porque é o que vejo nos institutos públicos, em muito sítios. Por isso é que o país está como está.

Tinha a ideia de criar colégios. Qual era o objectivo?
Muita investigação na área da Saúde tem a ver com tecnologia, com instrumentação electrónica, com software. Precisávamos de ter a nossa gente da Medicina, da Farmácia, da Medicina Dentária a trabalhar com Ciências, com o Técnico, com Gestão. E precisávamos de um instrumento que permitisse financiar a constituição de colégios, que teriam de ter, no mínimo, duas escolas, onde se fizesse uma proposta de trabalho para atingir determinados objectivos. Já tenho o regulamento. Mas não vou ter dinheiro. Era um dos objectivos da fusão: potenciar a investigação em áreas de fronteira.
O que estamos a fazer é a pôr em jogo a nossa capacidade de trabalhar. Estamos permanentemente a diminuir o número de professores.

Quais são os números?
Temos na Universidade de Lisboa menos 500 professores do que devíamos, de acordo com o rácio padrão estabelecido da última vez pelo ministério, para aí em 2005 ou 2006. Temos um corpo docente envelhecido (a média etária está acima dos 50 anos). Com a grande falta de confiança que há nos governos toda a gente que consegue reformar-se vai-se embora. A consequência é aulas com mais alunos por professor, menos disciplinas de opção, menos oferta formativa.

A qualidade do ensino está a baixar?
Tem de baixar. Se em vez de 50 alunos numa aula teórica tivermos 200 seguramente a qualidade baixa.

Tem dito que este ano não vai ter dinheiro para pagar salários.
A dotação orçamental tal como está não permite pagar os salários todos até ao final do ano sem recorrer a saldos.

E quando é que acha que isso vai começar a acontecer?
Estamos a falar dos últimos meses do ano.

Que impacto é que os cortes estão a ter na investigação científica?
O impacto é mais pela via na redução de bolsas, dos projectos financiados. O número de investigadores que tínhamos contratado no âmbito do Programa Ciência [1000 investigadores contratados pela Fundação para a Ciência e Tecnologia entre 2006 e 2009] era significativo e o actual é muito baixo. Havendo menos investigadores, especialmente investigadores jovens, haverá muito menos produção. Esta saída de investigadores é a saída de gente que é o futuro da universidade portuguesa.

O Governo diz que está a apostar em projectos de investigação, nas unidades de investigação, nos programas doutorais em detrimento, por exemplo, das bolsas individuais de investigação.
Eu não ouvi falar de nenhum euro. Isso é tudo retórica.

Dizem que houve um aumento de financiamento das unidades de investigação de 43% desde 2011.
Não se notou em lado nenhum. Não sei onde é que o dinheiro está a ir parar. Ninguém sabe, está toda a gente estupefacta.
Os recursos têm vindo a cair consistentemente, aliás basta ver o número de bolsas atribuídas neste ano. O facto de não termos um programa nacional em que todos os alunos estejam em igualdade de circunstâncias faz com que sejam preteridos os melhores em função dos que vão estudar com as pessoas que tiveram um programa aprovado, que podem ser boas ou não.

Este concurso tem tido muitas críticas.
Já disse o que tinha a dizer. O número de bolsas desceu para além do valor admissível. É preciso perceber que precisamos de gente que se doutore e que faça investigação. Não é a universidade, o país precisa.

As universidades tinham até Dezembro para fazer chegar ao ministério o seu parecer sobre a reforma do ensino superior. O que é que a Universidade de Lisboa fez chegar?
Falei com a tutela e falei com os grupos parlamentares que me quiseram ouvir. Tenho muito trabalho, não tenho muito tempo para fazer nenhum documento que vai ter consequência nula.

O Governo está a pedir pareceres que depois não tem em conta na reforma?
O Governo não tem condições políticas para fazer a reforma do sistema do ensino superior. Aposto com quem quiser que não vai acontecer nada.

Porquê?
A reorganização da rede implica mexer com interesses instalados por parte das autarquias, das comissões políticas distritais e de todos os partidos, que não são afrontadas pelo Governo como não o serão quando mudar o Governo. O nosso sistema político está refém de interesses regionais e portanto isto não vai ter consequência.

Está a falar da dispersão de instituições que existem. Mas o próprio Conselho de Reitores diz que se deve ter em conta o papel de algumas instituições no desenvolvimento do interior.
Não vou, jamais, comentar alguma coisa do Conselho de Reitores. Mas é possível reorganizar a rede sem fechar os pólos de desenvolvimento regional. Essa parte é fácil. O que não se pode é ter instituições sem massa crítica para fazer a gestão, sem massa crítica a nível de alunos. E os consórcios [de instituições de ensino, uma das medidas previstas na reforma para além das fusões] vão ser uma grande conversa que vai funcionar para a comunicação social, durante três ou quatro anos. O poder tem de estar num sítio onde se decida qual o caminho a seguir. Se não, vamos continuar a ter cursos de Engenharia Civil no sítio x, y e z, todos eles distantes uns dos outros 30 quilómetros a recrutar cinco alunos por ano.

Quem deve ter o poder?
O Governo tem que reorganizar a rede.

Dizer fecha aqui, fecha ali?
Não é fecha aqui. É dizer: ali reorganiza-se desta maneira. Há várias maneiras e pode-se fazer sem dor.

Sem despedimentos?
Sem despedimentos e sem fechar pólos. Tem que se especializar pólos.

Em Lisboa continua a haver mais de uma universidade. Faz sentido?
Há mais duas, há a Nova e o ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa. Faz sentido haver competição em Lisboa. A Universidade de Lisboa tem 50 mil estudantes. Está no ponto onde não devemos crescer. Acho normal numa cidade onde há mais 30 mil, 40 mil estudantes haver mais universidades. Não estou a dizer que a solução em todo o lado é fazer fusões. Uma coisa que se pode fazer é reorganizar a oferta formativa. Porque as universidades andaram mal no exercício da autonomia relativamente à oferta formativa, basta olhar para o número de designações de cursos e para o número de cursos repetidos em sítios muito próximos. Aí acredito que o Governo consiga tomar medidas, mas é preciso ter coragem.

Na Universidade de Lisboa vai haver alguma fusão de departamentos, de unidades de investigação, de escolas?
Há iniciativas nalgumas escolas e unidades de investigação no sentido de associação. Temos unidades de investigação a mais, temos oferta formativa [a mais] nomeadamente no doutoramento.

Só nos doutoramentos?
O resto é muito pouco. A sobreposição é tão pequena que não é um verdadeiro problema. A minha prioridade neste momento não é essa. Inevitavelmente, a universidade encontrará novas formas de organização. O processo de fusão foi tão suave que devemos seguir essa via. Na semana passada, no conselho geral da universidade, foi aprovada a extinção [e a integração] em faculdades de três institutos que existiam dependentes da reitoria: o Instituto Dom Luís, que foi integrado na Faculdade de Ciências, o Instituto de Orientação Profissional, integrado na Faculdade de Psicologia, e o Instituto Confúcio, que passará a operar na Faculdade de Letras.

Vai-se poupar dinheiro com a fusão?
A massa salarial da reitoria diminuiu em 2014 dois milhões de euros em relação a 2013.

Há estudantes a abandonar a universidade por questões económicas?
Não. Achei que ia acontecer, já não tenho a certeza que vá acontecer.



No seu tempo foi praxado e praxou? Como olha para este debate sobre a praxe?
Fui praxado mas nunca praxei ninguém. Nos últimos dias tenho recusado ir à televisão falar de praxes porque parece quase uma manobra de diversão.

Não é um tema?
É um tema. Aquilo que aconteceu no Meco é algo que nos deve fazer pensar. E é uma grande notícia que está a servir para não falarmos mais nada.

Mas deve falar-se do assunto?
Acho que sim. Mas o tema é muito simples. Temos um código penal que penaliza quem se porta mal. A única coisa que as universidades podem fazer é actuar sobre os acontecimentos que ocorram dentro do campus. Há uma coisa que eu garanto, se houver alguma denúncia no âmbito da praxe, serão instaurados inquéritos disciplinares imediatamente.
As praxes duram mais tempo e são mais violentas quanto pior for a escola e a universidade.

Porque é que tem essa ideia?
É só verem onde é que as coisas acontecem. Nos sítios em que eles não têm tempo para mais a não ser para estudar não têm tempo para a festa permanente. Fico estupefacto por haver praxes em Janeiro e Fevereiro. Uma semaninha de praxe ou um dia não me parece mal. Não quero dizer que não possa haver um problema de praxes violentas numa das nossas melhores escolas...

Já leu algum código de praxes das escolas da Universidade de Lisboa?
Não li nem vou ler porque não tenho tempo para idiotices.

Mas é com base nele que os alunos são recebidos.
Essa coisa de que está a falar não foi aprovado por nenhum órgão da universidade, as associações [de estudantes] têm-se desvinculado disso.

Não há necessidade de se aproveitar esta onda para um debate?
As escolas organizam recepções aos alunos. Muitas vezes vai o director, o presidente, que fala com os alunos, são organizadas actividades de recepção. Não passa pela nossa obrigação organizar formas que deformam a função da universidade, que é educar as pessoas civicamente. Acho inaceitável que haja qualquer comportamento de qualquer membro da comunidade no sentido de coagir os estudantes a participar em actividades por simples medo de exclusão.

Como é que se pode evitar a coacção?
E como é que se acabam com as claques de futebol?

Aqui estamos a falar de instituições públicas.
Há dois anos, o presidente do Instituto Superior de Economia e Gestão proibiu as praxes. Sabe onde são as praxes do ISEG? No jardim entre a Assembleia da República e o ISEG. E agora, como é que resolve o problema?

A proibição não é uma solução?
Pode proibir-se o que se quiser, não sei é se conseguimos aplicar uma coisa dessas.

Aqui não vai acontecer?
Temos de pensar. Estou expectante para saber o que o Governo vai fazer. Estarei disponível para tudo o que for para acabar com estas práticas.



Orçamento da Universidade de Lisboa

2013
Verbas do Orçamento do Estado para funcionamento: 173.861.080€ (não inclui o estádio universitário)
Verbas do Orçamento do Estado para Serviços de Acção Social Escolar: 6.254.569€
Receitas próprias para ensino, investigação, prestações de serviços, etc) 146.472.337 € (não inclui o estádio universitário)
Receitas próprias para Serviços de Acção Social Escolar: 3.998.877 €

2014
Verbas do Orçamento do Estado para funcionamento comunicadas em Agosto: 182.327.752 € (inclui: 6.186.196 € para acção social escolar; 1.069.000 € para o estádio universitário e 6.383.245 € para o Instituto de Tecnologia Nuclear)
Verbas de facto atribuídas: 166.748.255 € (inclui: 5.902.479 € para acção social escolar; 1.023.883 € para o estádio universitário e 6.383.245 € para o Instituto de Tecnologia Nuclear)

Fonte: Universidade de Lisboa


quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Uma tempestade com ondas de longo período


Anteontem, uma enorme onda galgou os muros da marginal na foz do Douro, no Porto, varrendo duas dezenas de automóveis e derrubando pessoas que aí se encontravam.




06.01.2014 23:33
Foz do Douro, no Porto


Forte ondulação ocorreu em toda a orla costeira portuguesa, do Norte ao Algarve, sendo registadas outras ondas massivas em vídeos amadores.
Bombeiros e Polícia Marítima não tiveram mãos a medir. A Autoridade Nacional de Protecção Civil emitiu na tarde desse dia novo aviso à população para precipitação, vento forte, neve e agitação marítima, nomeadamente para a ondulação de noroeste, que poderia atingir 16 metros na costa da região Norte e Centro e de 14 a 15 metros na região Sul.
Toda a costa de Portugal continental foi posta sob alerta vermelho — o mais grave da escala do Instituto Português e da Atmosfera (IPMA) — devido à agitação marítima.


08 Jan, 2014, 14:09
Leça da Palmeira

07/01/2014 - 15:19


Era a chegada a Portugal da tempestade Hércules que está a provocar um frio glacial nos Estados Unidos e forte agitação marítima na Grã-Bretanha, França e Espanha:



08/01/2014 - 09:28


No entanto, o que confere a estas ondas um potencial altamente destrutivo não é apenas a altura. Na segunda-feira, os ondógrafos de Leixões e Sines mediram a passagem de ondas de 13,5 e 15 metros, respectivamente. Nada que não tenha acontecido noutros anos.

Segundo Fernando Veloso Gomes, professor da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e especialista em Hidráulica Costeira, estas ondas têm um período muito mais longo do que noutros temporais de Inverno.
Num temporal “normal” de Inverno, a duração de uma onda ronda os 10 a 12 segundos. Anteontem, algumas tinham períodos superiores a 25 segundos.
Vimos pessoas nos vídeos online a falar em tsnunami e, embora não seja comparável, há aqui um paralelo com as ondas de longos períodos que caracterizam esses fenómenos”, explica o investigador, lembrando que estas avançam costa adentro, não em altura, mas em comprimento, como se viu no Porto ou na Póvoa de Varzim, onde o mar venceu o longo areal e inundou a marginal, cumprindo esta, literalmente, o nome de Avenida dos Banhos.

O tenente Quaresma dos Santos, da Divisão de Oceanografia do Instituto Hidrográfico, concorda com esta fundamentação. O efeito foi potenciado também pelo “empilhamento da massa de água junto à costa”, por força dos ventos de sudoeste dos últimos dias que criaram uma maré meteorológica, fazendo subir o nível do mar de 1 a 1,5 m acima do expectável. Assim explica que as ondas se estendam praia acima e sejam capazes de galgar quebra-mares e outras estruturas, como os muros nas marginais, com os efeitos visíveis um pouco por toda a orla costeira do país.

Contudo estes especialistas alertam que tempestades como esta sempre existiram, embora com uma periodicidade média larga. O que nos impressiona são os estragos cada vez maiores que causam.
Mas isso, notam ambos, resulta da ocupação de cada vez mais espaço junto ao mar com estruturas de lazer e restauração que acabam por ser muito danificadas ou destruídas por estes temporais.

No caso dos bares e restaurantes, Veloso Gomes é peremptório: “Se os queremos lá, que as vistas são bonitas, que estejam — desde que não seja o contribuinte a pagar a sua reposição”.
O professor da Universidade do Porto acrescenta que não se podem pôr fitas a impedir o acesso das pessoas a todo o lado onde haja risco, mas acentua a necessidade de as educar para o risco que o mar representa: “Felizmente, não tivemos mortos”, ao contrário do que aconteceu na Galiza (três vítimas) e em França (uma).

As pessoas têm de ter a noção que estamos numa costa atlântica, que pode ser muito energética”, corrobora o especialista do Instituto Hidrográfico, procurando também educar a população.


Carlos Antunes, professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, calcula que a massa de uma destas ondas, com apenas 8 m de altura, atinge 80 000 toneladas:

"A razão do potencial destruidor das ondas deste último temporal é o facto, pouco habitual, de terem sido ondas de longo período, na ordem dos 20 s (atípico), correspondendo a um comprimento de onda de cerca de 600 m. Estas ondas são ondas de fortíssima energia que atingem a costa a uma velocidade de 30 m/s. Feitas as contas, para uma altura de 8 m, estas ondas correspondiam a uma massa de água de cerca de 80 000 m³ numa extensão de 100 m de onda. Uma autêntica parede de água demolidora. Devido à sua forte energia, e ao facto de as praias terem no inverno uma configuração dissipativa, estas ondas têm um longo espraio, sobre-elevando (ou empolando) a superfície do mar (apenas localmente junto à costa), com grande alcance de galgamento.
Ao contrário do que o IH diz, não houve sobre-elevação meteorológica. O Marégrafo de Cascais registou sobre-elevações muito baixas da ordem de apenas alguns cm, pelo simples facto de não termos tido uma depressão barométrica (ao contrário de outras tempestades). Se isso tivesse acontecido em conjugação (acompanhado de uma depressão), os impactos e estragos seriam muito maiores.
Um outro facto, que terá confundido os que afirmaram ter havido uma sobre-elevação, é o de ter acontecido em marés ainda vivas com 3,5 m de altura.
"

E prevê:

"Já esta nova tempestade no Atlântico Norte, prevista para a próxima semana (dia 13) terá um impacto menor que a desta semana, pois estas ondas virão com períodos menores, os típicos 14-15 s. (...) Outra razão, para o menor impacto, é chegar num dia de marés intermédias, 3,2 m de altura em PM (preia-mar) e a altura das ondas também será ligeiramente menor.
Também não haverá sobre-elevação meteorológica, pois a PA
(pressão atmosférica) estará nos 1020 hPa.
Com períodos de 14 s, terão comprimentos de onda de 300 m e uma velocidade de 22 m/s, correspondendo a metade do volume de água, comparativamente às ondas do passado de dia 7. Ou seja, estas ondas terão metade da energia potencial e menos 1/3 da velocidade das ondas de dia 7.
Contudo há que ter muita atenção e cuidado junto das praias, pois, como estas perderam grandes quantidades de areia, haverá menos resistência à rebentação e ao espraio das ondas, prevendo-se naturalmente algum galgamento e destruição das estruturas mais expostas.
"


Propagação das ondas (a azul) em águas profundas. A animação demora 3 períodos e mede 1 comprimento de onda.
A trajectória de seis das partículas de água (a azul claro) mostra que há transporte de matéria. A velocidade de propagação das ondas é muito maior que a velocidade do fluxo de partículas de água.


Uma onda é uma perturbação que viaja através da matéria, ou do espaço, com transferência de energia. As ondas transferem energia de um ponto para outro, muitas vezes sem deslocamento permanente das partículas do meio, ou seja, muitas vezes não há transporte de massa.

A expressão matemática da propagação das ondas — função de onda — é

ψ(x,t) = a sen (2
π x/λ - 2π t/T)

onde
____________________
ψ = função de onda
x = espaço
t = tempo


________________________
a = amplitude (metade da altura da onda)
λ = comprimento da onda
T = período da onda (tempo ao fim do qual o fenómeno se repete)

Portanto, no caso das ondas desta tempestade

ψ(x,t) = 4 sen (2
π x/600 - 2π t/20)

Infelizmente muitos docentes de Matemática e de Física dos ensinos básico e secundário têm esquecido a função de transmitir estes conhecimentos aos seus alunos e aos encarregados de educação: é preciso voltar a ensinar.



A Storm is Coming, Miguel Oliveira, Porto, Portugal


quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Quatro universidades portuguesas entre as melhores do mundo


A Universidade de Lisboa ascendeu ao intervalo das 400 melhores universidades do mundo no Academic Ranking of World Universities 2013, condição alcançada pela Universidade do Porto desde 2011.

A Universidade de Coimbra consegue entrar pela primeira vez neste ranking, ficando entre as 401.ª e 500.ª posições e juntando-se à Universidade Técnica de Lisboa que já entrou para esse nível no ano passado.

Este ranking só discrimina as posições individuais das instituições até ao lugar 100. A partir daí coloca-as por intervalos, 101-150, 150-200, 200-300, 300-400 e 400-500, inscrevendo-as por ordem alfabética dentro de cada intervalo.

António Cruz Serra, recém-eleito reitor da Universidade de Lisboa, congratula-se com a melhoria do desempenho desta universidade e diz esperar que "o orçamento de Estado acompanhe esta melhoria".
Espera também que a Universidade de Lisboa, em resultado da sua fusão com a Técnica, irá subir mais de cem lugares em 2014 e "deverá ficar acima da melhor universidade espanhola".

O reitor da Universidade de Coimbra, João Gabriel Silva, lembra que a entrada de Coimbra na lista e a melhoria de Lisboa são ainda mais de realçar quando o país atravessa “tantas dificuldades”.
No entanto, alerta: “Os efeitos dos cortes orçamentais impostos às universidades ainda não se reflectem aqui.” Sendo dois dos indicadores deste ranking o número de artigos científicos publicados pelos investigadores das universidades e o número de citações que recebem, com a redução de financiamento que se tem imposto ao ensino superior, há o sério risco de se fazer menos investigação.
Em Coimbra, nos últimos três anos, o corte no financiamento público foi de cerca de 30%, diz o reitor, “e todas as instituições são tratadas por igual, independentemente dos resultados que têm. Se toda a administração pública tivesse sofrido cortes desta ordem já estávamos a pagar a dívida pública e não a aumentá-la”.
Na verdade, acrescenta o reitor, os cortes começaram em 2005, só que não eram tão “violentos” e nessa altura ainda era possível encontrar fontes de receita nos contratos com empresas. Hoje, muitas empresas estão mais preocupadas em sobreviver do que em financiar projectos.



ARWU 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013
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O topo da tabela continua a pertencer aos Estados Unidos da América, com oito instituições nas dez primeiras posições, e ao Reino Unido: Harvard University, Stanford University, University of California Berkeley (UCB), Massachusetts Institute of Technology (MIT), University of Cambridge, California Institute of Technology, Princeton University, Columbia University, University of Chicago e University of Oxford.


O Academic Ranking of World Universities (ARWU), vulgarmente conhecido como o ranking de Xangai, é coligido pela Shanghai Jiao Tong University, China, desde 2003.

Este ranking compara 1200 instituições de ensino superior, em todo o mundo, e escolhe as 500 melhores de acordo com a seguinte metodologia: uma fórmula onde entra o número de ex-alunos vencedores de prémios Nobel e medalhas Fields (10%), professores vencedores de prémios Nobel e medalhas Fields (20%), investigadores classificados entre os mais citados em 21 categorias de assuntos (20%), artigos publicados nas revistas Nature e Science (20%), no Science Citation Index e Social Sciences Citation Index (20%) e o desempenho académico per capita (nos anteriores indicadores) de cada instituição (10%).

O ARWU é considerado um dos três mais influentes rankings universitários internacionais, em conjunto com o Times Higher Education World University Ranking (THE) e o QS World University Ranking.