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segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Como ganhar com o investimento em painéis solares


A partir de três simulações feitas pelo Ministério do Ambiente, o Negócios produziu esta infografia sobre o investimento em energia solar numa habitação ou empresa:





O actual governo deixou de subsidiar as tarifas à microprodução, o que é uma decisão correcta.

No entanto, passou a favorecer a EDP: a empresa vende a energia ao consumidor/produtor a cerca de 0,16 euros por kWh, mas compra a energia injectada na rede a 0,037, ou seja, ganha 0,123 euros. Logo só interessa produzir para autoconsumo.

Mesmo assim, os 1522 kWh originados pelo conjunto de quatro painéis vão ser produzidos maioritariamente no Verão, quando as necessidades energéticas são mínimas. E injectados na rede nos períodos de menor consumo, por exemplo, quando não está ninguém em casa. Portanto é preciso analisar o modo de consumo energético familiar antes de investir.


domingo, 7 de abril de 2013

Salários milionários na EDP - II


06.04.2013 23:59


No ano passado, os lucros da EDP foram superiores a mil milhões de euros, mas menos 10% do que em 2011, e o preço da electricidade subiu para os consumidores.

Contudo a crise não tocou nos rendimentos do Conselho de Administração Executivo da EDP, nem do seu Conselho Geral e de Supervisão.
António Mexia, presidente executivo, recebeu 3,1 milhões de euros de remunerações e prémios, como previsto aqui.
Eduardo Catroga, que preside ao Conselho Geral e de Supervisão, recebeu 430 mil euros.
No total, os membros dos conselhos de administração e supervisão receberam 18 milhões de euros.

Como a EDP é uma empresa privada, são os seus accionistas que aprovam as remunerações dos administradores, que são propostas pela comissão de vencimentos do Conselho Geral e de Supervisão. Este órgão é formado por 23 membros e a China Three Gorges (CTG), o maior accionista da EDP, está representada por 4 elementos, um dos quais, Guangjing Cao, é o vice-presidente.

Recorde-se que a China é um país governado pelo partido comunista chinês e todos os bancos e empresas nacionais pertencem ao Estado.


segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Nos bastidores da privatização da EDP


Nas operações financeiras de nível internacional o lobbying exercido pelas empresas de assessoria financeira e jurídica sobre os gabinetes ministeriais é sempre enorme.

A privatização da EDP, classificada pela consultora PricewaterhouseCoopers como a nona maior transacção mundial no sector da energia, em 2011, vem confirmar essa regra.
Ao escutar um banqueiro do BESI, no perímetro da investigação de uma rede de fuga ao fisco e branqueamento de capitais, o procurador Rosário Teixeira cruzou-se com um telefonema de pressão sobre Passos Coelho no âmbito da privatização da EDP.

O Governo de Passos Coelho esperava que a primeira, e maior privatização do seu mandato, fosse um sucesso. E, em termos de encaixe financeiro, foi: a China Three Gorges Corporation comprou 21,35% do capital da EDP por 2,69 mil milhões de euros.

No entanto, a venda de parte significativa da maior empresa portuguesa do sector da energia a uma empresa chinesa em detrimento de uma europeia, que nada tinha de privada e até pertencia a um Estado não democrático, e nos termos em que foi concretizado o negócio, só podia ser polémica.


Várias empresas mostraram interesse na aquisição da EDP: a alemã E.ON, a China Three Gorges, as brasileiras Eletrobras e Cemig, a EDF e a Gas Natural Fenosa.

O Estado e a EDP contrataram a assessoria jurídica na Morais Leitão, Galvão Teles, Soares da Silva (MLGTS), sendo a equipa liderada pelo advogado Nuno Galvão Teles, e ninguém questionou a escolha.
A E.On teve o apoio do escritório de Lisboa da sociedade internacional de advogados Linklaters, sendo a equipa dirigida pelo advogado Jorge Bleck.
A China Three Gorges escolheu para assessores jurídicos a Serra Lopes e Cortes Martins, em colaboração com a firma norte-americana Skadden Arps, com o advogado Luís Cortes Martins a liderar a equipa.
As brasileiras Eletrobras e Cemig tiveram apoio jurídico da Pereira, Sáragga Leal, Oliveira Martins e Júdice (PLMJ) e da Cuatrecasas, Gonçalves Pereira, respectivamente.
A EDF contratou a Uría Menedez/Proença de Carvalho, conotada com os socialistas, e a Gás Natural Fenosa, a Campos Ferreira e Sá Carneiro, mas desistiram à partida.

Em 30 de Agosto de 2011, Vítor Gaspar anunciou a contratação, por ajuste directo, da Perella Weinberg Partners para assessor financeiro do Estado nas privatizações da EDP (21,35%), da REN (40%) e da Galp (10%). Falta de tempo para lançar um concurso público, foi a justificação do ministro.
Tratava-se de um negócio de 16 milhões de euros e a Perella não estava na lista das instituições que haviam manifestado interesse na operação. Estas melindraram-se e lembraram que tempo não constituía problema: a escolha dos assessores do Estado na privatização da Galp fora feita, no ano anterior, com base num concurso limitado com o vencedor anunciado ao fim de uma semana.
E um jurista, Bacelar Gouveia, levantou a questão da legalidade: "Se a empresa não está pré-qualificada, é óbvio que o contrato é ilegal e qualquer um dos outros interessados pode impugnar a decisão do Governo. E qualquer cidadão pode pedir ao Ministério Público para investigar."
Quando a Procuradoria-Geral da República já se preparava para investigar o assunto, o ministério das Finanças impôs a subcontratação da Perella à Caixa Banco Investimento (BI) o que, por sua vez, desencadeou protestos de Nogueira Leite e Nuno Fernandes Thomaz, administradores da CGD.
Entretanto a E.ON escolheu a assessoria financeira do Deutsche Bank e o ofendido BESI apareceu a assessorar a China Three Gorges.

Outros jogadores também se moveram no tabuleiro do jogo: os comissionistas, intermediários ou lobistas. Quando um deles, António Moura Santos, cunhado de António Guterres e defensor da proposta da E.ON, se deslocou à Alemanha cruzou-se aí com o presidente executivo da EDP, António Mexia...

Nos bastidores do negócio dizia-se que Relvas apoiava a brasileira Eletrobras (2,56 mil milhões) e que Gaspar e Passos eram favoráveis à E.ON (2,54 mil milhões), por ser europeia e ter sido promovida pela chanceler Merkel.
Mas o conselho geral de supervisão da EDP afastou as brasileiras Eletrobras e Cemig e depois o Conselho de Ministros, a quem cabia a decisão final, acabou por escolher a China Three Gorges (2,69 mil milhões).

Seis meses depois do epílogo da privatização da EDP, a Caixa Banco Investimento (BI), o Espírito Santo Investment Bank (BESI) e a Parpública, que gere as participações do Estado, foram alvo de buscas policiais por suspeita de tráfico de influências e abuso de informação. O Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP) pretendia "esclarecer e investigar a intervenção e conduta de alguns dos assessores financeiros do Estado" nas privatizações da EDP e da REN depois do procurador Rosário Teixeira ter tropeçado num telefonema de José Maria Ricciardi a Passos Coelho sobre a privatização da EDP.


Os banqueiros consideram naturais os contactos com o poder político porque numa sociedade livre todos têm o direito de lutar pelos seus interesses. Mas a fronteira entre a legalidade e a ilegalidade é difícil de localizar: onde é que o diálogo normal entre banqueiros, advogados, lobistas e o Estado se transforma em tráfico de influências e corrupção?

O Goldman Sachs é um caso paradigmático. Marc Roche responsabilizou este banco pela actual crise da dívida soberana. E em Março deste ano, na sua carta de demissão publicada no The New York Times, o director do Goldman Sachs para o negócio de derivados na Europa, Médio Oriente e África, Greg Smith, criticou o presidente executivo por ter perdido a cultura da empresa, que descreveu como "o segredo que fez este óptimo lugar e nos permitiu ganhar a confiança de nossos clientes durante 143 anos", criando um ambiente "tóxico e destrutivo" onde "os interesses do cliente continuam a ser marginalizados".
Ora foi da GS que saíram o ex-secretário do Tesouro dos EUA, Henry Paulson (ex-CEO da GS), o presidente do BCE, Mario Draghi, o primeiro-ministro italiano, Mário Monti, e o ex-primeiro-ministro grego Lucas Papademos. António Borges, convidado por Passos Coelho para acompanhar as privatizações, foi um dos vice-presidentes da GS em Londres e director do departamento europeu do FMI.

Por sua vez a Perella, empresa fundada em 2006 e sem experiência no sector da energia, também tem ligações à banca de investimento: entre os sócios, estão ex-quadros de topo da Goldman Sachs e da Merrill Lynch e o parceiro português, Paulo Cartucho Pereira, esteve 20 anos no Morgan Stanley.


sexta-feira, 16 de março de 2012

Salários milionários na EDP - I


As remunerações para o Conselho de Administração Executivo da EDP são propostas pela comissão de vencimentos do Conselho Geral e de Supervisão, presidido por Eduardo Catroga, à assembleia geral de accionistas.

Esta comissão acaba de propor que a remuneração fixa anual do presidente executivo do conselho de administração se mantenha em 600 mil euros, continuando os administradores a ganhar 80% da remuneração atribuída a António Mexia.

A comissão diz que efectuou uma análise à política de remunerações tendo em conta a alteração na estrutura accionista da EDP, e usando como termo de comparação as remunerações fixas atribuídas aos gestores das cotadas que integram os índices PSI-20 e EurostoxxUtilities.
O valor da remuneração fixa a atribuir ao presidente da EDP é o que é praticado desde 2006, pelo que será igual durante nove anos, portanto até 2014. Além disso, assinala a comissão de vencimentos, fica abaixo do universo analisado.

A remuneração variável anual desce do limite máximo de 100% da remuneração fixa para 80%, ou seja, 480 mil euros.

Em contrapartida, a remuneração variável plurianual, que só é atribuída no final do mandato de três anos, sobe. Antes tinha um limite de 100% da remuneração fixa bruta do mandato (1,8 milhões de euros para o caso de Mexia), agora poderá chegar a 120%. Ou seja, o CEO da EDP pode receber uma remuneração variável adicional até 2,16 milhões de euros, no final do mandato.

Resumindo e concluindo, entre remunerações e prémios, António Mexia deverá receber em 2012 cerca de 3 milhões de euros.

Por sua vez, a comissão de vencimentos da EDP propõe as remunerações de outros órgãos sociais, como o Conselho Geral e de Supervisão.


*


Sou mesmo burro 16 Março 2012 - 10:44
É só energia
Juro que não sou invejoso. Tenho milhões de defeitos, mas a inveja não consta da extensa lista. Mas esta estória dos salários milionários praticados em Portugal (País pobre e assistido financeiramente) sempre me suscitou estranheza.
Por um lado, as agências de rating atribuem às empresas notações negativas, pois invocam que as mesmas têm a ver com o contexto em que se encontra o país onde operam. Mas pelos vistos, os custos do contexto, são só para alguns. Há outros, que são CEO's de empresas portuguesas, que operam em Portugal, mas que auferem salários equivalentes ao que recebem os gestores alemães, ingleses, americanos, japoneses e franceses.
Vá lá a gente entender o "raciocínio dos contextos".


Anonimo 16 Março 2012 - 10:49
Hummm
Será que o Mexia também atribui os salários aos seus trabalhadores comparando-os com os trabalhadores das utilities do EurostoxxUtilities?
Então essa comparação é válida para executivos e não para trabalhadores? Bando de parasitas! Só à catanada...


Jorge 16 Março 2012 - 11:49
Economia de rastos
Com a actual política energética praticada em Portugal, a economia portuguesa não tem salvação possível.


quarta-feira, 14 de março de 2012

Secretário de Estado da Energia sai - III


Se não forem eliminadas as rendas excessivas pagas aos produtores de energia eléctrica, detectadas pelo estudo “Rents in the electricity generation sector” da secretaria de Estado da Energia, o preço da electricidade sofrerá uma enorme subida em 2013.

O alerta estava no discurso que o ex-secretário de Estado da Energia, Henrique Gomes, preparara para o seminário "Economia da Energia" no ISEG, no passado dia 7 de Março, e que conduziu à sua demissão:
"O crescimento global dos preços de electricidade de 2012 para 2013 não será inferior a 11%."
Mas se os custos da produção em regime especial (PRE) não forem diferidos, como já foi feito nas tarifas de 2012, o crescimento da factura da electricidade poderá ser de 26%, atingindo 30% no caso dos consumidores residenciais.

"Esta captura de recursos pelo sector electroprodutor compromete uma alocação eficiente de recursos e impede a criação de excedentes na economia e nos consumidores em geral", escreveu ainda Henrique Gomes no discurso que foi impedido de proferir na conferência no ISEG.

Recordemos que, nesse mesmo seminário, António Saraiva, presidente da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP), afirmou no seu discurso que "praticamente toda a electricidade é paga aos seus produtores acima do preço médio de mercado", pois há rendas garantidas para as barragens, as eólicas, as centrais a carvão e a gás natural e as co-gerações.
Embora tenha reconhecido que "o tema é delicado, uma vez que se refere a direitos adquiridos (...) para as empresas está a ser penoso os aumentos dos custos energéticos". Disse ainda que se não houver "uma solução de curto prazo" para reduzir os custos da energia, "pagaremos muito caro as lutas de interesses" que estão a impedir o Governo de avançar com medidas no domínio das rendas garantidas do sector eléctrico.
No final deixou claro que reduzir os custos da electricidade é um “imperativo” para melhorar a competitividade das empresas portuguesas.



Daqui a um par de anos, quando o BPN já estiver pago e repago com os impostos dos contribuintes, as rendas exigidas pelo "monstro eléctrico" vão saltar para a ribalta e tornar-se o novo caso nacional.


terça-feira, 13 de março de 2012

Secretário de Estado da Energia sai - II


A demissão do secretário de Estado da Energia provocou a repulsa unânime da opinião pública e da comunicação social.
Na SIC, José Gomes Ferreira diz que Henrique Gomes "perdeu o braço de ferro com uma grande empresa".
Encontrámos um comentário que traduz o sentimento colectivo:


userjmc 13 Março 2012 - 12:11
Acabou o estado de graça deste governo

Atenção PSD e CDS, não é pelo facto de termos sido roubados, espoliados, sugados pelo poder económico em conluio com a organização mais sinistra, corrupta e mafiosa de todos os tempos, e que tem por nome Partido Socialista, que estamos disponíveis para ouvir os governantes dizerem que não têm culpa e que portanto tudo tem que ficar na mesma.
Pela minha parte, digo:

Estou disposto a fazer sacrifícios para que que o País se possa voltar a erguer, mas

se é para os barões corruptores continuarem a sugar, então acho que fica legitimada a revolta popular mesmo que tenha que ser pela força.



sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

"Ni hao, meus senhores"


"22 Dezembro 2011, 23:30 por Pedro Santos Guerreiro

Ontem foi um dia histórico. Menos pela saída do Estado Português do que pela entrada da China na EDP. A Europa está a ficar para tia, falida e pudica, de um mundo que agora gira entre Nova Iorque e Pequim. Portugal tomou uma opção: entrou nesse eixo. E isso abre um novo mar — um mar onde seremos as rémoras dos tubarões.

A privatização foi um "jackpot" para a EDP e para o Estado. Porque traz aquilo de que ambos mais carecem: capital. O capital sem pátria, que preferíamos que fosse nosso, mas nosso não há. Há este, é pegar ou largar. Nós pegámos. A dependência tornou-nos pragmáticos: andamos a aprender com os angolanos. Mas a China é outra coisa: é um potentado. E quanto a proselitismos, basta olhar para a Zona Euro. O dinheiro chinês é o mesmo dinheiro que a União Europeia e o FMI foram mendigar há semanas para alavancar o Fundo de Estabilização da Zona Euro. Foi um vexame: a senhora Lagarde e o senhor Regling levaram tampa. Portugal fechou negócio. A diferença não é o espaço geográfico, é ser capital para investimento em vez de capital para pedinte.

É claro que os chineses são um problema, mesmo para quem não tem consciência. Não são uma democracia. Não respeitam direitos humanos. Nem ambientais. Mas a Europa hipotecou a consciência quando se tornou frágil. Olhai para Espanha: prepara-se para vender 10% da Repsol a chineses, a russos ou ao Qatar. Pois é: o país dos "campeões nacionais" está de rastos, com construtoras como a Sacyr a vender-se para pagar dívidas e bancos como o Santander a precisarem de aumentos de capital gigantes para tapar os buracos abertos pelos seus apregoados sucessos.

Sempre esperámos a ascensão dos BRIC. Nunca esperámos que ela acontecesse em simultâneo com o declínio acelerado da Europa e a erosão lenta dos Estados Unidos: a quebra do mundo ocidental. E agora, por muito que nos custe, e custa, vamos pedir dinheiro a países pobres onde há muitos ricos. Países de petróleo, da abundância de recursos naturais, países como a China. Que não é uma democracia. Que emergirá como nova potência mundial para uma nova bipolaridade. Sem disparar um único tiro.

A Three Gorges capitaliza e financia a EDP, salvando-a de uma dívida preocupante em tempo de maus "ratings". Mais: a China traz fábricas, financia bancos, anuncia participar na solução do BCP. Mas nós, sobretudo, selámos uma aliança. Não com o Diabo. Não com qualquer anjo. Passos Coelho foi corajoso — e temerário.

É preciso garantir que tudo o que foi anunciado será cumprido — há razões para ser céptico em relação aos chineses. Se for, seguiremos no lastro. Para África, inclusive. E para o Brasil. É esse o nosso "interesse": o "mercado de língua portuguesa", de que falava o primeiro-ministro há dias. A PT vale pelo Brasil, a EDP vale pelo Brasil e pelas renováveis, a TAP vale pelo Brasil e África, a Galp vale pelo Brasil e Moçambique, o BPI vale por Angola. É o nosso factor competitivo, foi o nosso destino, a solução de escape enquanto falidos.

Os chineses investem em ciclos longos e actuam em rede. Percebemo-los mal e vamos ter de aprender a dialogar com eles, ou seremos enganados. Mas agora, numa galeria longínqua em Pequim, já nos olham como chinesinhos, seus aliados.

Angela Merkel deve ter aprendido ontem uma lição. Isto não está a acontecer a Portugal, está a acontecer à Europa, paralisada nas suas pequenas ordenanças. E nós? Nós estamos a ver se nos salvamos, desesperadamente procurando fora da Europa o que a Europa não nos consegue providenciar. Portugal não se vendeu porque não se vende o que não se tem. Bem-vindos ao mundo novo, ele é pouco admirável mas segue em lentas translações. Correr riscos é melhor do que morrer devagar."


Nota:
Ni hao = Olá


Uma oferta irrecusável - II


A entrada da China Three Gorges (CTG) no capital da EDP vai permitir à eléctrica duplicar a sua liquidez, que actualmente se situa em 4 mil milhões de euros, quando a empresa chinesa concluir os seus investimentos.

A CTG vai investir 800 milhões de euros na aquisição de participações minoritárias nas empresas da EDP e garantiu uma linha de 2 mil milhões de euros do China Development Bank para financiar a EDP.
Além destes 2,8 mil milhões de euros de investimentos em 2012, a CTG comprometeu-se a investir mais 1,2 mil milhões de euros, entre 2013 e 2015, na compra de posições minoritárias (34% a 49%) em projectos de renováveis da EDP.

Este reforço de liquidez vai cobrir as necessidades de financiamento da empresa até finais de 2015. E servirá também para reduzir o nível de endividamento da EDP, que passará do rácio actual superior a quatro vezes o EBITDA, para menos de três vezes.

O conflito de interesses na parceria é “mínimo”, uma vez que a empresa chinesa não está presente nos mercados da EDP.
Nos principais mercados (Europa, Estados Unidos e América Latina) a EDP poderá continuar a investir sozinha, tendo a CTG o direito de preferência se a empresa portuguesa pretender um parceiro. Já no mercado asiático, onde a CTG está presente, as posições invertem-se.

Ao vencer a privatização da EDP, após um investimento de 2,7 mil milhões de euros, a CTG passa a deter 23,15% da eléctrica portuguesa, tornando-se na sua maior accionista.





quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Uma oferta irrecusável - I


A privatização da EDP teve hoje o epílogo:

"O Conselho de Ministros seleccionou a proposta da China Three Gorges Corporation como vencedora para a aquisição de 21,35% das acções do capital social da EDP — Energias de Portugal, S.A., objecto de venda directa de referência."


Qualquer dos quatro concorrentes seleccionados tinha financiamento garantido.
A alemã E.ON, a única empresa privada no concurso, dispunha de uma liquidez de sete mil milhões de euros.
As brasileiras Eletrobras e Cemig, ambas empresas estatais, tinham o suporte financeiro de um banco também estatal, o Banco Nacional de Desenvolvimento Económico Social (BNDES), que tem disponibilizado linhas de financiamento para diversos sectores da economia brasileira.
E a China Three Gorges tinha por detrás o poder financeiro do China Development Bank (CDB).
A E.ON ofereceu 2,537 mil milhões de euros por 21,35% da EDP. A China Three Gorges vai pagar 2,693 mil milhões.

Mas não foi apenas uma centena e meia de milhões entre as duas propostas que ditou o vencedor.
No âmbito da privatização da EDP, o CDB não só emitiu uma carta de "compromisso incondicional" de financiamento à China Three Gorges, como também estava disponível para financiar a própria EDP: "Oferecemos um montante elevado, a longo prazo e com uma taxa muito competitiva", assegurou Hengyue Wu, líder da representação do CDB em Portugal. E acrescentou:
"Além da entrada da China Three Gorges na EDP, também podemos financiar as empresas chinesas que queiram entrar nas outras privatizações em Portugal. E não só podemos financiar as aquisições como também os investimentos e as linhas de crédito para resolver os problemas de liquidez.
Acreditamos que o sucesso da aquisição da EDP pela China Three Gorges possa influenciar o interesse de outras empresas chinesas noutras empresas que serão privatizadas. Actualmente temos empréstimos em curso nos países europeus de 11 mil milhões de euros, em sectores como o petrolífero, a indústria química, aeronáutica, transporte marítimo, telecomunicações e energias renováveis. Portanto temos uma base de sucesso para financiar a EDP.

São 10 mil milhões de dólares (7,5 mil milhões de euros) que o CDB se comprometeu disponibilizar à economia portuguesa, cerca de 10% do programa de assistência da troika a Portugal.
O banco, aliás, já abriu linhas de financiamentos a outros países de língua portuguesa — 6 mil milhões de dólares a Angola e 10 mil milhões de dólares ao Brasil.





*

Mas que não restem dúvidas, a transformação que a China vai operar em Portugal estender-se-á muito para lá do impacto económico desta colossal linha de financiamento.
Na China estuda-se e trabalha-se. Não há Estado social. A defesa dos direitos humanos dá direito a prisão. A corrupção é punida com a pena de morte.
Não vai ocorrer apenas uma entrada impressionante de meios financeiros. É a penetração de empresários chineses no tecido empresarial português. É a organização chinesa do trabalho que vai ser imposta às empresas financiadas. É a exigência de mão-de-obra qualificada.

Quando chegam ao mundo ocidental, as nossas línguas de tipo fonético constituem um obstáculo terrível para as crianças chinesas porque o chinês é uma linguagem de tipo simbólico como a da Matemática. As famílias chinesas, porém, valorizam o ensino e a cultura e incentivam as suas crianças a vencer essa dificuldade. Não só não há indisciplina nem abandono escolar, como também aparecem sempre alunos chineses nos quadros de honra das escolas portuguesas.
Por isso, não deixa de ser irónico que a degradação da qualidade do ensino português promovida por sindicatos ligados ao PCP vá ser combatida justamente pela maior ditadura comunista mundial.
E convém não esquecer que o salário mínimo da província de Pequim — o maior salário mínimo da China — subiu este ano para... 150 euros.


Barragem de Three Gorges na cidade de Yichang, província de Hubei.

O Three Gorges Project (TGP) na bacia hidrográfica do rio Yangtze é um projecto estratégico da China Three Gorges para controle de inundações, geração de energia e melhoria de navegação. É o projecto de construção do maior complexo hidroeléctrico do mundo.
Com o nível normal da albufeira em 175 m, a capacidade total de armazenamento do reservatório de 39,3 mil milhões m3 e capacidade de armazenamento de controle da inundação do reservatório de 22,15 mil milhões m3, a barragem irá aumentar a eficácia do dique Jingjiang do valor actual de uma vez em 10 anos para uma vez em 100 anos.
A capacidade total instalada do TGP é 18,2 GW, com a produção média anual de 84,7 TWh.


quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

"E.On, porque não?"


Salvador Costa 14 Dezembro 2011 - 10:16
E.On, porque não?
  1. O processo de privatização da posição do Estado português na EDP não é isento de considerações políticas.
  2. Por um lado, a E.On é um parceiro comercial estratégico num quadro alargado de aprofundamento do mercado único e da Zona Euro. Para além das complementaridades que existem entre as duas empresas no sector das energias renováveis em termos de tecnologia e conhecimento dos mercados.
  3. A entrada da E.On na EDP abre bastantes perspectivas de expansão à empresa nos seus mercados alvo na Europa e nos Estados Unidos.
  4. A EDP detém uma posição importante no Brasil, mas nunca deixará de ser um parceiro menor em relação à Iberdrola.
  5. Por último, qual o interesse de uma empresa chinesa da dimensão da CTG na EDP, cujo volume de produção e de negócios será equivalente a uma das mais pequenas províncias da China? É o consumo de electricidade de dez milhões de portugueses empobrecidos?.
  6. A EDP detém um activo estratégico para a CTG que é o seu importante portefólio de energia eólica nos EUA. O que seria uma janela de oportunidade para a China entrar e ampliar a sua influência neste mercado.
  7. Ora a escolha da CTG será muito mal vista pelas autoridades dos EUA, pouco dadas à presença e influência das empresas chinesas no seu território, ainda para mais num sector vital como o da energia. O que levaria a um forte condicionalismo da expansão da EDP no mercado energético norte-americano.
  8. Portanto, o negócio da privatização da EDP será acima de tudo uma avaliação de ganhos políticos mais do que a mais-valia financeira das propostas apresentadas.


terça-feira, 22 de novembro de 2011

Cinco escritórios de advogados na privatização da EDP


Sendo a privatização da EDP, a venda de participações do Estado de maior valor financeiro acordada com a troika, os principais escritórios de advogados de Lisboa já estão posicionados no tabuleiro do jogo.

A Morais Leitão, Galvão Teles, Soares da Silva (MLGTS) vai prestar serviços jurídicos ao Estado e à sua cliente EDP, com uma equipa liderada pelo advogado Nuno Galvão Teles.


As quatro empresas estrangeiras candidatas à compra seleccionadas pelo Estado português para a fase final do concurso são a alemã E.On, as brasileiras Eletrobras e Cemig e a China Three Gorges.

O escritório de Lisboa da sociedade de advogados Linklaters, multinacional de origem britânica, assessora a E.On, sendo a equipa dirigida pelo advogado Jorge Bleck.

A Pereira, Sáragga Leal, Oliveira Martins e Júdice (PLMJ) vai prestar serviços jurídicos à brasileira Eletrobras, estando o sócio Jorge de Brito Pereira à frente da equipa.

A Cuatrecasas, Gonçalves Pereira, através do sócio Diogo Leónidas, vai assessorar a Cemig, a outra empresa brasileira candidata ao capital público da EDP.

A Serra Lopes e Cortes Martins, em colaboração com a firma norte-americana Skadden Arps, é o quinto jogador: vai dar apoio jurídico à China Three Gorges, a empresa que está a construir o mega projecto hidroeléctrico chinês que inclui, entre outras, a barragem das Três Gargantas. O advogado Luís Cortes Martins, sócio do escritório português, lidera a equipa que assessora a empresa chinesa.