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terça-feira, 8 de maio de 2012

"Histórias da carochinha para graúdos"


"Os portugueses estão habituados a esperar que alguém, de preferência o Estado, lhes arranje emprego. Falta-lhes capacidade de ir à luta, criar o seu próprio posto de trabalho e produzir riqueza. Vivem demasiado acomodados à sombra de direitos adquiridos. Esperam que alguém lhes resolva os problemas, enfronhados numa atitude resignada e fatalista.

Alguém se atreve a duvidar da justeza deste diagnóstico quotidianamente repetido "ad nauseam" por empresários, professores universitários, consultores e jornalistas?

Ora vamos, por um instante, fazer de conta que a realidade existe — pode ser? Consultando as estatísticas, constata-se que temos já uma brutalidade de gente a trabalhar por conta própria ou em empresas familiares — nada menos que 42% de activos empregados em empresas com 9 ou menos trabalhadores. Por comparação, apenas 19% dos trabalhadores alemães e 11% dos americanos laboram em empresas dessa dimensão. Aparentemente, atitude empreendedora é coisa que não falta por cá.

Nada há de estranho, note-se, neste fenómeno, dado que, ao contrário do que se diz, os níveis mais elevados de iniciativa empresarial são registados nos países mais atrasados. O auto-emprego abrange 67% dos activos no Gana e 75% no Bangladesh, mas apenas 7% na Noruega, 8% nos EUA e 9% na França. Mesmo excluindo os camponeses, a probabilidade de alguém ser empresário é duas vezes maior nos países atrasados do que nos desenvolvidos.

A esmagadora maioria das pessoas dos países ricos emprega-se em organizações que agrupam centenas ou milhares de trabalhadores e jamais sonha criar a sua própria empresa. Isso é excelente, porque pouquíssimos dispõem de vocação ou competência para fazê-lo. Em contrapartida, nos países pobres muitos são forçados a criar o seu próprio negócio para fugirem ao desemprego.

O facto indesmentível é que, entre nós, o sector propriamente capitalista da economia jamais conseguiu criar postos de trabalho em quantidade (e, já agora, em qualidade) capaz de dar ocupação a uma parte substancial da força de trabalho nacional. Seja qual for a explicação, podemos estar certos de que esta proliferação de empresas anãs — que, espantosamente, se acentuou nas últimas décadas e, ainda mais espantosamente, alguns querem consolidar — é uma receita infalível para a improdutividade e a pobreza.

A promoção do empreendedorismo heróico individual é um anacronismo, que serve apenas para culpar os desempregados da sua própria infelicidade. O empreendedorismo relevante, que gera inovações úteis e desenvolvimento, é, no mundo contemporâneo, um fenómeno essencialmente colectivo. Steve Jobs nunca passaria de um amável biscateiro se não beneficiasse das invenções do Centro de Palo Alto da Xerox, se não dispusesse de uma plêiade de engenheiros formados por grandes universidades, se não houvesse um mercado de milhões de pessoas cultas e qualificadas ansiosas por utilizar os seus produtos e se não tivesse acesso a fontes de financiamento adequadas às necessidades de uma "start-up".

Por outras palavras, o que distingue as sociedades progressivas é a sua capacidade de orientar os instintos criativos dos cidadãos para actividades socialmente úteis e economicamente valiosas, pondo ao seu alcance um acervo de recursos humanos, tecnológicos e financeiros de grande nível.

Acresce que o empreendedorismo de maior sucesso tem origem em grandes empresas, usualmente em cooperação com outras. O sistema operativo da Microsoft foi um subproduto de um projecto da IBM. Em Portugal, as mais marcantes inovações das últimas décadas — o telemóvel pré-pago e a portagem electrónica — resultaram de iniciativas de grandes empresas (ainda por cima, públicas).

Não precisamos de exortações ao espírito empreendedor da população, meras histórias da carochinha para adultos. Não precisamos de mais empresas sem escala nem competências. Precisamos de melhores empresas e, sobretudo, de melhor empreendedorismo orientado para o desenvolvimento de actividades inovadoras e geradoras de emprego qualificado.

Padecemos de um excesso de empreendedorismo do tipo errado. Em contrapartida, o empreendedorismo do tipo certo não floresce em Portugal porque as empresas que dispõem dos indispensáveis recursos se dedicam a actividades de extracção de rendas económicas, enquanto as restantes não têm acesso ao financiamento de que necessitam para poderem expandir-se com a necessária rapidez. Cuide-se dessa deformidade, que o empreendedorismo cuidará de si próprio.


João Pinto e Castro
Director Geral da Ology e docente universitário

jpcastro@ology.pt "


sexta-feira, 7 de outubro de 2011

O visionário que mudou a comunicação


Steve Jobs não era, nem um cantor de rock, nem uma celebridade social. Era um empresário. No entanto, a sua morte causou uma emoção global e os depoimentos e vídeos que se seguem ajudam a esclarecer os motivos.


"Steve Jobs, não apenas um geek, mas um deus para designers", explica a Reuters num artigo e em vídeo:






A revista Wired, que ao longo dos últimos anos acompanhou as novidades do mundo das tecnologias, pôs-se de luto com um ecrã a preto e branco e uma fotografia de Steve Jobs ao lado das datas “1955 – 2011”. Um vídeo recorda os momentos em que anunciou os produtos que revolucionaram o modo de comunicar:





Os três astronautas que se encontram na Estação Espacial Internacional, a cerca de 360 quilómetros da Terra, levaram para o espaço iPods para ouvirem música. Mike Fossum, o comandante, descreve Jobs como um visionário:
"Em cada geração, há grandes pensadores e pessoas com a visão do que pode ser o futuro e a energia e as ferramentas para o fazer acontecer. Steve era definitivamente uma dessas pessoas raras no mundo, vamos sentir muito a sua falta."


"Steve, obrigado por seres um mentor e um amigo. Obrigado por mostrares que o que se faz pode mudar o mundo. Sentirei a tua falta", disse o fundador do Facebook, Mark Zuckerberg. 




Sergey Brin, co-fundador do Google, descreveu Jobs num texto publicado no Google+ como uma figura inspiradora:
"Desde os primeiros dias do Google, quando o Larry [Page] e eu procurávamos inspiração para a visão e liderança, não precisávamos de ir mais longe do que Cupertino. Steve, a tua paixão pela excelência é sentida por qualquer pessoa que alguma vez tocou num produto da Apple (incluindo o macbook onde estou a escrever isto agora)."


Bill Gates, o fundador da Microsoft, a empresa que desenvolveu o sistema operativo e as aplicações informáticas que correm na maioria dos computadores pessoais, escreveu no seu blogue pessoal:
"O Steve e eu conhecemo-nos há quase 30 anos, e fomos colegas, concorrentes e amigos durante mais de metade das nossas vidas. O mundo raramente vê alguém que tenha tido um impacto mais profundo que o do Steve, cujos efeitos se vão fazer sentir por muitas gerações."


Para finalizar, as palavras do presidente norte-americano Barack Obama:

"O Steve era um dos maiores inovadores americanos — corajoso o suficiente para pensar de forma diferente, ousado o suficiente para acreditar que podia mudar o mundo e talentoso o suficiente para fazê-lo.

Ao construir uma das empresas com mais sucesso em todo o mundo a partir da sua garagem, ele exemplificou o espírito de engenho americano. Ao tornar os computadores pessoais e ao pôr a Internet nos nossos bolsos, ele tornou a revolução na informação não só possível mas intuitiva e divertida. E ao redireccionar o seu talento para contar histórias, ele trouxe alegria a milhões de crianças e também a adultos. Steve gostava de dizer que vivia cada dia como se fosse o último. Porque o fez, ele transformou as nossas vidas, redefiniu indústrias inteiras e cometeu um dos feitos mais raros na história da humanidade: mudou a forma como cada um de nós vê o mundo.

O mundo perdeu um visionário. E não pode haver maior tributo ao sucesso de Steve que o facto de que grande parte do mundo soube da sua morte por um dispositivo que ele inventou.
"


quinta-feira, 6 de outubro de 2011

O empresário que vendia amor


O avanço tecnológico do hardware e o rigor na criação do software, a simplicidade e a beleza que Steve Jobs exigia às suas máquinas, seduziam e transformavam cada cliente num amigo indefectível.
A morte do empresário que amava os seus produtos emocionou milhões de pessoas.

Chove em Cupertino e chora-se no mundo inteiro:












































































































































Escrito num MacBook Pro.


O mundo ficou mais pobre



Stay Hungry. Stay Foolish.

Steve Jobs






Steve Jobs

1955-2011





In Memoriam Steve Jobs





1. Juventude

Steven Paul Jobs
nasceu em 24 de Fevereiro de 1955 na cidade de São Francisco, na Califórnia e foi adoptado por Paul e Clara Jobs.
Os seus pais biológicos foram Abdulfattah Jandali, um estudante universitário sírio que chegou a ser professor de Ciências Políticas, e Joanne Simpson, estudante universitária americana que mais tarde se tornou terapeuta da linguagem.

Jobs frequentou a escola secundária de Cupertino e depois das aulas assistia a palestras na empresa de produtos electrónicos Hewlet-Packard em Palo Alto, na Califórnia, onde obteve um contrato de trabalho de Verão. Aí conheceu Stephen Wozniak, um engenheiro que saíra recentemente da Universidade da Califórnia em Berkeley. Wozniak, que era um prodígio da engenharia com uma paixão por aparelhos electrónicos, andava naquela época a aperfeiçoar a sua 'caixa azul', um acessório ilegal para telefone que cabia num bolso e permitia fazer chamadas gratuitas de longa distância.
Em 1972 terminou o ensino secundário e matriculou-se no Reed College em Portland, no Oregon. Preocupado com os sacrifícios que os pais faziam para pagar as propinas, afastou-se ao fim do semestre do Outono, mas continuou a frequentar aulas em Reed durante um ano, enquanto dormia no chão em casa de amigos, recolhia garrafas de Coke para ganhar algum dinheiro e almoçava gratuitamente no templo de Hare Krishna da cidade.
Mais tarde responsabilizou um desses cursos — Caligrafia — pela existência de fontes nas aplicações informáticas:
"Se nunca tivesse frequentado este curso, o Mac nunca teria os múltiplos tipos de letra ou as fontes proporcionalmente espaçadas que depois a Microsoft copiou".

No início de 1974 começou a trabalhar na Atari, uma empresa produtora de jogos de vídeo, onde ganhou o dinheiro suficiente para viajar até à Índia, país em que se converteu ao budismo e adquiriu profundas raízes culturais.

Regressado à Califórnia no Outono de 1974, Jobs começou a frequentar as reuniões do 'Homebrew Computer Club' de Wozniak, cujos membros eram aficionados na criação de aparelhos electrónicos. Jobs não era tão bom engenheiro como Wozniak mas estava interessado na comercialização de produtos electrónicos e convenceu Wozniak a trabalhar com ele na construção de um computador pessoal.


2. Apple Computer

Wozniak e Jobs desenharam o computador Apple I no quarto de Jobs e construíram o protótipo na garagem dos pais de Jobs. Quando apresentou o aparelho a um comerciante local de equipamentos electrónicos, recebeu uma encomenda de 25 computadores. Nessa altura Jobs aconselhou-se com um engenheiro electrotécnico da University of Southern California que fora CEO da Intel, A. C. Markkula, e ele ajudou-os nas estratégias de marketing para vender o novo produto. Foi assim que Jobs e Wozniak conceberam a ideia de criar uma empresa de informática para produzir e vender computadores.

Para financiarem a empresa venderam os seus bens mais valiosos. Jobs vendeu a sua carrinha Volkswagen e Wozniak a sua calculadora científica Hewlett-Packard, tendo arrecadado US $ 1.300 para começarem a sua nova empresa. Com este capital e algum crédito pedido a fornecedores locais de dispositivos electrónicos, montaram a primeira linha de produção.
Jobs incentivou Wozniak a largar o emprego na Hewlett-Packard para se tornar no vice-presidente responsável pela investigação e desenvolvimento da nova empresa para a qual propôs o nome de Apple, em memória de um Verão feliz que tinha passado como trabalhador num pomar em Oregon.

De 1978 a 1983, a taxa de crescimento foi superior a 150% ao ano. Então a IBM entrou no negócio de computadores pessoais. Para competir com a IBM, Jobs teria que fazer a Apple compatível com os computadores IBM para poderem ser comercializados no mundo dos negócios que a IBM controlava. Para ajudá-lo a comercializar esses novos computadores Jobs recrutou John Sculley de Pepsi-Cola para o cargo de presidente da Apple.

Os pontos fortes deste projecto Macintosh não eram a memória, a potência ou a capacidade de manipulação, mas simpatia, flexibilidade e adaptabilidade para realizar um trabalho criativo. O Macintosh dava a possibilidade da informática poder evoluir para além da trituração irracional dos números por legiões de empresas contadoras de feijões. Aqueles que assistiram à memorável demonstração de Janeiro de 1984 aplaudiram:





Jobs criou uma estratégia radical para introduzir o Macintosh: apresentou a sua aparente vulnerabilidade como um acto revolucionário infundido de altruísmo, uma bomba tecnológica. Quando o aparelho foi apresentado ao público no domingo da Super Bowl, Steve Jobs chamou-lhe "o gladiador a entrar na arena, dizendo: Aqui está!".





As vendas, porém, diminuíram e os outros administradores, liderados por Sculley, marginalizaram-no.


3. NeXT Computer

Uma conversa com Paul Berg, bioquímico da Stanford University e prémio Nobel da Química, levou Steve Jobs a virar-se para projectos educativos ligados a meios universitários.
Em Setembro de 1985, pede a demissão da Apple levando consigo os cinco melhores trabalhadores da Apple. Funda a NeXT Computer mas os computadores são tão caros que apenas foram produzidas 50 000 máquinas. Acaba por fechar a divisão de hardware em 1993 e a partir de então vira-se para a indústria do software.

No entanto, alguns dos computadores ficaram célebres.
Foi neste computador NeXT do CERN (Conseil Européenne pour la Recherche Nucléaire) que Berners-Lee criou dois softwares essenciais: o editor-navegador para produzir, e ler, o hipertexto que permitia navegar pelos documentos HTML (Hypertext Markup Language) guardados nos computadores da Internet e o programa para enviar a informação, chamado servidor.
O editor-navegador foi chamado WorldWideWeb e este computador histórico concebido pela NeXT tornou-se, em 25 de Dezembro de 1990, no primeiro servidor web mundial.


4. Pixar & Disney

Em 1986, Jobs comprou o Graphics Group da divisão de computação gráfica da Lucasfilm, mais tarde renomeado Pixar. Depois de anos de vendas reduzidas, firmou um contrato com a Disney para produzir filmes animados em computador que esta empresa se encarrega de financiar e distribuir.

O primeiro filme produzido pela parceria, Toy Story, trouxe a fama e o aplauso da crítica ao estúdio quando foi lançado em 1995. Nos dez anos seguintes, sob a orientação criativa de John Lasseter, o criativo chefe da Pixar, a empresa produziu grandes sucessos de bilheteira: A Bug's Life (1998), Toy Story 2 (1999), Monsters, Inc. (2001), À procura de Nemo (2003), The Incredibles (2004), Cars (2006), Ratatouille (2007), WALL-E (2008), Up (2009) e Toy Story 3 (2010).
À procura de Nemo, The Incredibles, Ratatouille, WALL-E e Toy Story 3 receberam o Óscar para o Melhor Filme de Animação, um prémio introduzido em 2001.










5. Regresso à Apple

Em 1996 a Apple decidiu comprar a NeXT Computer e Jobs regressou à empresa que tinha co-fundado. Em breve tornou-se o CEO interino depois dos directores terem perdido confiança no CEO dessa altura.
Muita da tecnologia da NeXT foi aplicada nos produtos da Apple, especialmente o sistema operativo NeXT Step que evoluiu para o Mac OS (1998) e, posteriormente, para o Mac OS X.





Nos últimos anos a companhia criou novos produtos como o iPod (2001), um dispositivo do tamanho de um bolso que permite guardar e tocar música, e entrou no ramo dos smartphones com o iPhone (2007).





O mais recente dispositivo é o iPad (2010), um tablet que permite ler livros, jornais, correr jogos, ver filmes e navegar na Internet. Em 2 de Março deste ano Steve Jobs apresentou uma nova versão do aparelho, o iPad 2:



Vimo-lo ainda na Worldwide Developers Conference 2011, em 6 de Junho, na apresentação das versões mais recentes do sistema operativo Mac OS X (10.7 ou Lion) e do sistema operativo móvel, o iOS 5, bem como do serviço iCloud.


6. O legado

Em 12 de Junho de 2005, convidado pela Stanford University para pronunciar o 114º discurso de formatura, Steve Job decidiu descrever os três momentos cruciais da sua vida: o nascimento, o despedimento da Apple e a morte.





Todos tocantes, para terminar esta breve biografia escolhemos, do segundo momento, as seguintes palavras:


Tenho a certeza que nada disso [a criação da NeXT e da Pixar] teria acontecido se eu não tivesse sido demitido da Apple. Foi um remédio amargo, mas penso que o paciente precisava dele. Por vezes a vida atirar-vos-á com um tijolo à cabeça. Não percam a fé.
Estou convencido de que a única coisa que me motivou foi amar o que fazia. Têm que encontrar aquilo que amam. E isso é tão verdade para o trabalho como para os amores.
O trabalho vai preencher uma grande parte da vossa vida, e a única maneira de ficarem realmente satisfeitos é fazer o que acreditarem ser um excelente trabalho. E a única maneira de fazerem um excelente trabalho é amar aquilo que fazem. Se ainda não encontraram, continuem a procurar. Não se acomodem. Como em todos os assuntos do coração, saberão quando o encontrarem. E, como qualquer grande relacionamento, só melhora e melhora à medida que os anos passam. Portanto continuem a procurar até encontrá-lo. Não se acomodem.