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domingo, 26 de julho de 2015

Entrevista de António Vitorino ao Público


O socialista e antigo comissário europeu António Vitorino diz, em entrevista ao jornal Público, que não pode haver união monetária sem convergência económica, nem partilha de risco sem partilha de soberania.
Embora faça algumas críticas à Alemanha e ainda mais à França, reconhece a importância do eixo franco-alemão na construção europeia e espera que o Reino Unido não saia da União. Critica duramente a estratégia do governo do Syriza nas recentes negociações dentro do Eurogrupo. Critica os governos nacionais que não fizeram reformas estruturais na devida época para melhorarem a competitividade e defende a presença de Portugal no núcleo duro europeu que é o euro.

Eis uma entrevista que é obrigatório ler:


"Estive a reler as entrevistas que me deu ao longo desta crise. Numa delas, em Dezembro de 2011, diz o seguinte: “Temos de ajudar a Alemanha a ultrapassar o seu momento unipolar”. E acrescenta: “No fundamental, a Alemanha tem razão, falta-lhe aprender a ter razão.” A Alemanha aprendeu alguma coisa?
Subscrevo essas afirmações mas confesso que cheguei à conclusão de que o processo de aprendizagem da Alemanha é mais lento do que esperava.

O que já se criticava à Alemanha naquela altura ainda se critica hoje?
Exactamente. Por duas razões. Não emergiram contrapesos no contexto europeu, e ajudar a Alemanha a ultrapassar o seu momento unipolar é também encontrar parceiros que contrabalancem o seu peso, sendo que contrabalançar é no sentido de convergir. Há uma segunda razão que continua presente: creio que a Alemanha ainda está prisioneira da narrativa que construiu há quatro anos e da qual ainda não se conseguiu libertar. E é esse o grande salto que vai ter de se pedir à Alemanha: abandonar a ideia de que tudo se resumiu a uns países perdulários que viviam acima das suas posses e centrar a atenção nos desequilíbrios internos da zona euro em termos de competitividade a fim de encontrar as soluções que permitam responder a três questões.

Primeira, relançar o investimento que permita o crescimento económico. Em segundo lugar, definir reformas adaptadas a cada país e não um modelo único, isto é, não se trata de fazer de todos os países pequenas e médias Alemanhas. É preciso compreender que o combate aos desequilíbrios exige reformas estruturais inteligentes, adaptadas aos défices de competitividade de cada país, que são diferentes. Os problemas de competitividade portugueses não são os mesmos da França, mas a França também tem problemas de competitividade, como os tem a Itália. O terceiro elemento é melhorar a qualidade das instituições europeias que são responsáveis pela gestão da moeda única.

Mas justamente as instituições europeias, à excepção do BCE e com particular evidência para a Comissão, têm vindo a enfraquecer, comparadas com o poder do Conselho Europeu e, dentro dele, da Alemanha. Vimos isso agora com a crise grega.
Penso que Jean-Claude Juncker fez um esforço para recentrar o papel da Comissão e isso é positivo. Em segundo lugar, mesmo o tão vilipendiado Tratado Orçamental, que é um tratado intergovernamental exterior à União, atribui às instituições comuns um papel central — à Comissão, ao Tribunal de Justiça e ao Parlamento Europeu. A UEM sempre esteve “a cavalo” entre o pilar comunitário e o pilar intergovernamental e a crise avolumou o pilar intergovernamental. O MEE [Mecanismo Europeu de Estabilidade] e o Tratado Orçamental são tratados intergovernamentais. O que temos de garantir é que essa evolução intergovernamental possa convergir para a plena integração destes mecanismos no quadro da União Europeia e, para isso, as instituições têm de estar preparadas do ponto de vista também da legitimidade democrática, para assumirem novas responsabilidades.

A nova crise grega, com todas as suas reviravoltas, veio demonstrar que a Alemanha — voltamos sempre à Alemanha — não aprendeu grande coisa em matéria de resgates. O terceiro resgate à Grécia, mais uma vez, parece não incluir nada que permita à economia grega respirar.
Diria que a mais recente crise grega — não digo a última porque não será a última — demonstra os limites da gestão em modo de urgência: soluções ad hoc a que já se chama de “lista da lavandaria”, com reformas que envolvem os horários das padarias ou dos centros comerciais. Isso não resolve o problema de fundo nem vai obter os resultados pretendidos. Só vai agravar a recessão e tornar ainda mais difícil a situação da Grécia. Mas isso também é da responsabilidade do Governo grego e da maneira como actuou nas negociações

Aos ziguezagues.
Claramente. Mas o aspecto mais pernicioso desta recente crise grega é que desviou o debate europeu daquilo que é a questão central: as reformas de fundo da UEM. Retrocedemos e passámos outra vez a gerir isto de forma atrabiliária, porque tínhamos um elefante na sala chamado Grécia.

Que, de alguma maneira, também se podia prever.
E que estou a prever que vá voltar. O Grexit não desapareceu. Foi apenas escondido. Quando voltar, voltará sempre com maior gravidade. Falta uma visão a prazo da sustentabilidade da zona euro que tem a ver com a convergência das economias, com a necessidade de dinamizar o investimento e de criar um quadro regulatório europeu que permita apostar nos sectores de crescimento económico futuro, como a energia ou a economia digital. Só com um pacote destes a nível europeu, que implica também reformas estruturais a nível nacional, será possível encontrar uma solução de sustentabilidade duradoura para a zona euro.

Porque é que a Alemanha não consegue ou não quer perceber isso?
Creio que a Alemanha ainda não se fixou num modelo global. Por muito criticável que seja a ultima proposta do Presidente francês — e é muito criticável...

A ideia de que o euro precisa de um núcleo duro composto pelos fundadores e de um governo económico.
A ideia de um governo económico para a zona euro é muito antiga em França. Estava em cima da mesa em Maastricht em 1991. Mas, ao menos, esta iniciativa francesa, que manifestamente não é convergente com Berlim, poderá ter a virtude de levar a Alemanha a clarificar a sua visão de conjunto. Para os que andam sempre dizer que a Alemanha manda em tudo, talvez devessem reflectir sobre o facto de que esta é uma das áreas onde há falta de Alemanha, onde a Alemanha ainda não assumiu a sua responsabilidade.

Mas a falta de Alemanha ou Alemanha a mais acaba por afectar toda a gente.
Acho injusto dizer que a União Europeia só faz o que a Alemanha quer. Não corresponde à realidade, que é mais sofisticada e mais complexa, se quiser. É verdade que iniciativas europeias que não tenham o beneplácito de Berlim têm pouca probabilidade de sobreviver. Mas isso faz parte da dinâmica da negociação. Não há um diktat alemão, isso é uma enorme injustiça. Há um filtro. A Alemanha é um filtro e a ultrapassagem desse filtro exige negociação. Mas isso exige que todos tenham ideias claras do que querem, obrigando a Alemanha a ter as suas e a trazê-las para a mesa, confrontando-as com as dos outros.

E se alguma crítica pode ser feita à Alemanha — e pode — é que a maneira como a Alemanha geriu esta sucessão de crises afectou a sua imagem política como um país capaz de ouvir os outros. Perdeu nessa frente.

Esta crise grega teve duas particularidades que gostava que comentasse. É a primeira vez que um governo é liderado por um partido que não faz parte do mainstream europeu. Mas esse mesmo partido teve de render-se perante uma realidade que descobriu ser incontornável. Esta experiência para o resto da Europa significa o quê?
O Governo grego cometeu um erro colossal de cálculo na estratégia negocial que seguiu. Conseguiu isolar-se, alienar potenciais aliados e seguiu uma estratégia negocial de alto risco, baseada num pressuposto que se verificou errado: esticando a corda, a Europa cede porque ninguém estará disposto a dar o salto no desconhecido que é deixar um país abandonar a zona euro. Algumas ideias do Syriza, à partida, nem eram más. Por exemplo, a questão de indexar o pagamento da dívida ao crescimento do Produto. É uma tese defensável, razoável até. Desapareceu rapidamente do radar da negociação.

Não há a disponibilidade do outro lado?
A política significa também a conjugação de vontades e a probabilidade de haver uma conjugação de vontade para resolver o problema da dívida neste momento era muito pequena. A estratégia seguida foi totalmente errada. E isso não quer dizer que é por ser um governo de extrema-esquerda. Se fosse de extrema-direita ou de centro estaria igualmente destinada ao malogro. Além disso, o Governo grego prestou um mau serviço à causa europeia ao tentar criar a ideia de que podia usar a sua democracia nacional contra a União Europeia. E esse é um erro de princípio, porque a partilha de soberania não é usar as soberanias e as legitimidades democráticas de cada um contra os outros.

Era previsível que um Governo com as características do Syriza assinasse um acordo que nega tudo aquilo que defendeu? Humilhação é um sentimento muito pouco recomendável.
Aquilo que foi manifestamente uma humilhação grega é um erro que levaremos muito anos a apagar. A humilhação não se dilui nem desaparece. Os chineses dizem que só há vitória quando quem perde também tem alguma coisa a ganhar. E uma das razões para que isso acontecesse resulta de se ter mantido a negociação ao nível técnico e não político, entregue aos ministros das Finanças.

Sobretudo o ministro das Finanças alemão, que apresentou pela primeira vez a hipótese concreta de um Grexit.
Que não está prevista nos tratados. O facto de haver, pela primeira vez, uma instância da União, o Eurogrupo, que permite, ainda que entre parêntesis rectos, a saída de um país, é um sinal político extremamente preocupante, com que nós, como os espanhóis ou outros, nos devíamos preocupar.

Conhece Wolfgang Schäuble há muito tempo, era a braço-direito de Kohl. Como interpreta o comportamento intransigente que assumiu?
Não tenho dúvidas de que Schäuble é um europeísta convicto e que até considera que a zona euro deve ser o núcleo de integração aprofundada da União Europeia. O que a sua atitude deixou no ar — e isso é que é preocupante — é até que ponto o compromisso alemão com o euro significa manter a zona euro na sua composição actual ou se há margem de manobra — vou utilizar uma expressão forte que talvez não devesse utilizar — para a purificação do euro.

Nas actuais circunstâncias pode ser uma ideia muito perigosa.
Sim. Jacques Delors disse há uns meses que o futuro da União Europeia deve ser construído na lógica das cooperações reforçadas, embora não sendo uma cooperação reforçada, onde os países que partilham a moeda única dão um salto na partilha de soberania e na partilha do risco: são os dois elementos fundamentais da UEM. Não há partilha de risco sem partilha de soberania. E isto tudo tem de ter uma forte legitimidade democrática, porque se trata de um salto significativo na integração europeia. Ora bem, a questão é saber entre que partes esta partilha se vai fazer. Delors defende que esse núcleo é a zona euro na sua composição actual. Mas há outra proposta, dos preguiçosos, que é escovar da zona euro os menos desenvolvidos e fazer um euro forte. Há aqui uma parte escondida: esse euro forte só para alguns sofreria uma valorização cambial tal que retirava parte das suas vantagens competitivas. Contra isso, devemos contrapor que estamos dispostos a aceitar novas partilhas de soberania na zona euro, mas também do risco.

Mais uma vez, o problema é que a Alemanha não quer partilhar o risco.
É esse o debate que está em cima da mesa. Somos, por vezes, precipitados nas críticas que fazemos à Alemanha, mas a verdade é que a chanceler disse ao longo destes últimos cinco anos duas coisas muito importantes. Avançou com a proposta dos chamados contractual arranjements para efeito do combate aos desequilíbrios de competitividade em cada país. A sua ideia não foi aceite mas convém não esquecer que foi ela que a fez.

E que pode pôr de novo na mesa.
Com outros contornos, com outra configuração, mas que é a resposta ao problema real dos desequilíbrios de competitividade e dos problemas de divergência, que se agravaram com a moeda única. A segunda coisa que a chanceler disse — e disse-o pela primeira vez — foi que, excluindo um haircut, estava disponível para discutir a dívida a nível europeu. Não é uma questão que se possa tratar caso a caso. Já hoje as condições de financiamento da Grécia são melhores que as de Portugal, da Espanha e da Irlanda. E acho que devem ser melhores. A Grécia sofreu um tremor de terra de grau 10 da escala de Richter, do ponto de vista económico. Mas dito isto, não creio que a solução para o stock da dívida europeia seja a salamização da dívida, caso a caso. Tem de haver uma lógica europeia.

Ainda se lembra do relatório Schauble-Lamers, apresentado em 1994, que já previa uma core Europe, mais integrada do que o resto. A França não quis. Há aqui também uma eterna dificuldade francesa face à integração. Hollande fez tudo para evitar o Grexit, mas agora vem com um núcleo duro de fundadores.
Isso corresponde à posição tradicional da França...

A defesa do governo económico, mas não a ideia dos fundadores.
Sim, mas uma coisa não pode ser lida sem a outra, na minha opinião. Discordo da criação de instituições apenas dedicadas à zona euro. Já há o Eurogrupo. É preciso garantir que a UEM é uma política da União e que as tensões entre zona euro e o grande mercado interno têm de ser geridas por instituições comuns, sob pena de criarmos uma espécie de apartheid. Isso seria inaceitável, porque poria em causa os fundamentos do Mercado Interno, que é o grande elemento aglutinador da integração europeia. Mas esta é a posição tradicional de França. O que é novo na proposta de Hollande é que, mesmo na zona euro, deveria haver um núcleo duro de integração que envolveria apenas os seis países fundadores.

Mas de onde é que vem uma ideia que já não tem nada a ver com a Europa actual?
Sempre achei que, para haver aprofundamento, tinha de haver um motor, que só poderia ser o eixo franco-alemão. Mas o documento apresentado em Maio por Merkel e Hollande para a reforma da zona euro é decepcionante, na medida em que se baseia em menores denominadores comuns. Não é um motor propulsor.

Quanto ao núcleo dos seis fundadores, não só não há um racional económico como cria um problema político para resolver outro. O problema que quer resolver é a fractura Norte-Sul, porque inclui um país do Sul, a Itália. Do ponto de vista político, cria um outro problema: se a questão central da sustentabilidade do euro é o aprofundamento da integração e a resposta à divergência económica, então deixar de fora os países que estão a fazer um trajecto de convergência mais bem-sucedido, é criar um novo problema político. São os casos da Irlanda, que deve crescer a 3,5% para o ano, ou da Espanha que deve crescer a 3 por cento ou da Áustria com uma situação económica bastante confortável, ou a própria Finlândia que, estando hoje em recessão, continua a ser um Triplo A.

Ninguém vai aceitar essa proposta.
Tenho a convicção sincera de que acabará por se desvanecer. Mas como não acredito em bruxas, embora elas existam, então convém deixar já clara a posição de cada um sobre esta matéria. E tenho uma enorme expectativa sobre a maneira como a Alemanha vai reagir.

A lógica da Alemanha não tem sido essa.
Antes pelo contrário, tem sido no sentido de garantir instituições comuns e de ser o mais inclusiva possível. O interesse da Alemanha, fundado ou não — não quero entrar nesse debate —, ao apresentar o caso português ou o irlandês como casos de sucesso, joga contra essa lógica francesa.

O eixo Paris-Berlim continua a ser fundamental mesmo com o desequilíbrio que tem hoje?
Para bem do projecto europeu, tem de ser recuperado. Sempre disse que o motor do projecto europeu era o eixo franco-alemão, mas também sempre recorri à imagem dos três mosqueteiros que eram quatro. Temos o eixo franco-alemão e temos o Reino Unido. E o Reino Unido é parte integrante do eixo franco-alemão, por paradoxal que possa parecer. É o moderador externo, digamos assim, dos equilíbrios internos desse eixo. E como nós vamos estar confrontados com uma questão seriíssima, atinente ao Reino Unido...

Questão muito mais grave do que a Grécia...
É verdade, e espero que não saiam. Mas é manifesto que, tendo de tratar da questão britânica, isso vai ser um enorme desafio ao eixo franco-alemão.

A Alemanha quer o Reino Unido dentro, a França parece querê-lo fora, embora, depois, também queira uma relação especial com ele no que toca à defesa.
A relação franco-britânica é a mais antiga e tensa relação europeia. Mas são os únicos que têm uma concepção global de política externa, que são membros permanentes do Conselho de Segurança, que são as duas potências militares e nucleares europeias. De alguma forma, a repulsa entre eles vem de serem tão parecidos.

A minha ideia é esta: como a questão do Reino Unido vai estar em cima da mesa este ano, uma parte importante da solução não é apenas a concepção franco-alemã sobre o futuro da zona euro, é também sobre o futuro da União Europeia, no seu conjunto e com o Reino Unido a bordo.

Quando o euro nasceu foi olhado como uma forma de amarrar a Alemanha à União. Kohl ofereceu a Mitterrand o que de mais preciso tinha a Alemanha nessa altura, que era o marco. Hoje os resultados não são os que esperaríamos. Muita gente diz que o euro não uniu, antes dividiu.
Há uma mais-valia acrescentada com a moeda única, há. O euro é uma moeda de referência nas trocas internacionais? É. É uma moeda de reserva das economias emergentes? É. É, aliás, um dos poucos domínios em que a Europa dá cartas à escala mundial ou tem, pelo menos, os instrumentos para um protagonismo global. Mas é evidente que, nestes últimos 10 anos, houve países que beneficiaram mais da moeda única do que outros. A Alemanha à cabeça, permitindo-lhe criar um excedente da balança externa de 7%, e isso constitui um mérito da moeda única em benefício da Alemanha. Mas a questão não é tanto Norte-Sul mas centro-periferias. E o risco que existe na Europa é criar a ideia de que há ganhadores permanentes e perdedores permanentes. Essa é que é a verdadeira factura.

Mas isso não é percebido assim pelos alemães.
É verdade. Mas a crise veio pôr a nu que uma união monetária exige que haja convergência económica. Parte dos problemas da divergência resultam de opções tomadas pelos governos nacionais, que não aproveitaram em devido tempo a oportunidade da moeda única para fazerem as reformas necessárias para melhorarem a competitividade. O que está agora em cima da mesa é como é que se acrescenta esse pilar económico, fazendo-o num período de recessão económica e de menor crescimento à escala global, de relativa pujança, por enquanto, das economias emergentes...

Que, elas próprias, já estiveram bem melhores.
Sim. O problema é que a Europa não foi considerada como um refúgio alternativo para a retracção dos investimentos nos mercados emergentes. Esse papel voltou a ser dos Estados Unidos, com a retoma da economia americana. Temos de ser suficientemente humildes para perceber que o papel da Europa no mundo está ameaçado e que exige soluções tanto do ponto de vista económico, como da sustentabilidade da moeda comum, como da garantia da coesão social, afectada por esta crise, como da construção de uma política externa, de segurança e de defesa que reponha a Europa como um player global.

Donald Tusk disse recentemente que o maior risco de contágio não é financeiro, é político. As consequências políticas desta crise podem ser ainda mais devastadoras do que as económicas?
Tem toda a razão e basta olhar para a Grécia. O PASOK desapareceu, a Nova Democracia entrou em crise. Esta crise dividiu o próprio Syriza e, aparentemente, ainda é a partir do Syriza que se poderá construir no futuro alguma coisa — pelo menos com uma facção do Syriza. Mas se o Syriza soçobrar nos braços desta crise, o que resta é a Aurora Dourada. Não é esta a Europa que queremos.

E não é só a Grécia. Olha-se para a maioria dos países do euro e vê-se como os sistemas partidários estão a ser postos à prova. Às vezes a única excepção parece a nossa...
E a Alemanha. Prestem lá essa homenagem à chanceler. Se tivéssemos uma Marine Le Pen alemã...

A Europa acabava...
Ora bem. E mesmo a França é factor de enorme preocupação.

O centro-esquerda não consegue encontrar o seu espaço, que seria fundamental para criar uma alternativa dentro do consenso europeu.
A alternativa que a social-democracia representava há vinte anos atrás, que era globalização económica, crescimento e redistribuição mais justa, confrontou-se com um problema central que foi subavaliado e que é a desregulação da globalização. O modelo fazia sentido na teoria, mas faltava-lhe esse instrumento fundamental. Isso teve consequências sobre a mobilidade acrescida do capital, a diminuição da capacidade de tributação dos Estados e, consequentemente, da arrecadação do volume de impostos necessário para a redistribuição, acabando por gerar um aumento das desigualdades. Das desigualdades entre países, à escala global, e dentro dos países, incluindo também os países com economias desenvolvidas, o que é uma má novidade. É esse o desafio a que o centro-esquerda tem de responder. Não é fácil.

O seu optimismo é realista?
É. Eu sou defensor de soluções realista. E nada do que lhe disse nesta conversa é impossível. Porque há uma coisa que eu sei: a implosão deste projecto é uma catástrofe global, para todos, a começar pelos europeus e para aqueles que estão hoje na posição mais confortável da integração europeia. Leia-se Alemanha. Seria absurdo do ponto de vista histórico que a Alemanha pudesse suicidar-se através do processo europeu.

Qual é a Europa que nos convém, admitindo que a anterior não voltará.
Não voltará. Temos que aprender a viver numa Europa muito diferente daquela a que estávamos habituados e temos de redefinir duas coisas. O que é o nosso interesse nacional e como é que estribamos o consenso interno para estarmos nessa Europa. Não há modelos alternativos, há modelos complementares, seja o espaço transatlântico, seja o espaço lusófono, que são valores acrescentados para podermos negociar a nossa presença na Europa. Mas essa presença no núcleo duro europeu, que é o euro, continua a ser a ancoragem que melhor nos serve. Mas temos de perceber que, mudando as condições, também temos de redefinir os nossos objectivos. Estas questões têm a ver com as nossas escolhas internas. Em segundo lugar, termos de definir a maneira como gerimos as nossas alianças no plano europeu.

Em que sentido?
Vou dizer algo abstracto. Portugal é um exemplo de que, sempre que soube defender o seu interesse nacional encontrando soluções que potenciavam o interesse europeu, ganhou."


*


Este comentário faz a avaliação perfeita da entrevista e do entrevistado:

Pecas
Político de Bancada, Lisboa 26/07/2015 09:09
1) Excelente entrevista. António Vitorino é um oásis de inteligência no deserto socialista.
2) Para perceber a "rendição" da Grécia é preciso ler o Financial Times e ficar perplexo com a incompetência do governo grego no seu ousado plano para a saída do euro (o Observador tem um bom resumo)


domingo, 12 de julho de 2015

Quem não se sente, não é filho de boa gente


Após análise à proposta de reformas do governo grego em troca de um terceiro resgate, um documento elaborado no Ministério das Finanças alemão apontou duas vias: ou condições mais rigorosas a vincularem o governo grego às suas novas promessas ou uma saída temporária do euro.


O ministro das Finanças alemão Wolfgang Schäuble chega à reunião do Eurogrupo de 11 de Julho, em Bruxelas, Bélgica.
Reuters/Francois Lenoir

Após analisarem a proposta de reformas do governo grego, de 9 de Julho, em troca de um empréstimo de três anos, o relatório dos funcionários do Ministério das Finanças alemão conclui que o plano carece de "áreas de reforma importantes e primordiais" e acrescenta: "Precisamos de uma solução melhor e sustentável."

Referido pela primeira vez pelo semanário bávaro Frankfurter Allgemeine Sonntagszeitung e, entretanto, posto a circular nas redes sociais, o documento aponta duas vias: ou condições mais rigorosas a vincularem o governo grego às suas novas promessas ou ter algumas das suas dívidas anuladas e sair do euro durante 5 anos para reestruturar a dívida e fazer reformas estruturais.




O documento cita três coisas que a Grécia poderia fazer para melhorar a sua proposta "rápida e significativamente", com o apoio do parlamento, no sentido de implementarem o terceiro programa com sucesso, garantindo o acesso aos mercados no final:
  • Transferir activos gregos no valor de 50 mil milhões de euros para um fundo externo como a Instituição para o Crescimento no Luxemburgo, para serem privatizados e diminuirem a dívida nacional. Fontes da Zona Euro disseram que Schäuble lançou esta ideia na reunião do Eurogrupo de ontem.
  • Reformar e despolitizar a administração pública, sob a supervisão da Comissão Europeia, para apropriada implementação do programa.
  • Legislar sobre cortes automáticos nos gastos do governo, caso as metas do défice orçamental não sejam alcançadas.
Isto significa que o risco de não concluírem o novo programa do MEE fica com a Grécia, não com os restantes países da Zona Euro.

A alternativa a um plano credível de Atenas, escreveram os autores do documento, era: "Oferecer negociações rápidas à Grécia para uma saída da Zona Euro, com possível reestruturação da dívida, se necessário num formato similar ao Clube de Paris durante, pelo menos, os próximos cinco anos."

O Clube de Paris é um fórum para a reestruturação de dívidas soberanas. O documento nota que isto permitiria aos governos da Zona Euro fazerem writeoffs do valor nominal das dívidas gregas — algo que não é permitido desde que Atenas está também no euro.

Finaliza o documento, dizendo que a Grécia permaneceria na União Europeia e receberia assistência técnica e humanitária, durante o período fora do euro.

Schäuble já havia dito na sexta-feira que a Grécia precisava de um haircut da dívida, mas tais reduções são ilegais dentro da Zona Euro. Nada disse, porém, sobre a solução do enigma.

A ideia de uma saída temporária está em ressonância com as declarações de Hans-Peter Friedrich, vice-líder parlamentar dos conservadores e membro da União Social Cristã (CSU), o partido da Baviera aliado da União Democrática Cristã (CDU) de Angela Merkel.
"O que é necessário é reestruturar e fortalecer a economia grega na sua própria moeda", tinha dito Friedrich ao diário alemão Die Welt.

Os comentários de Friedrich e agora o documento do Ministério das Finanças alemão põem em relevo o dilema da chanceler Angela Merkel.

Fontes do governo de coligação direita/esquerda disseram que o documento foi elaborado após discussões entre Merkel, o vice-chanceler de esquerda Sigmar Gabriel e o ministro das Finanças, Wolfgang Schäuble. Sublinharam que a opção escolhida para a Grécia foi fazer reformas e manter-se no euro.

Mas, para tal, o governo de Tsipras terá de vincular-se mais estreitamente às reformas que propôs na passada quinta-feira e terá sido isso que o ministro das Finanças alemão disse aos seus colegas do Eurogrupo este sábado. Schaeuble não falou de grexit neste Eurogrupo, tendo antes destacado a necessidade de o Governo de Tsipras fazer mais para que possam ser iniciadas as negociações para um terceiro resgate à Grécia.

A chanceler está entalada entre a feroz oposição interna, que a acusa de ser suave com Atenas, e a intensa pressão internacional para conceder a reestruturação da dívida da Grécia num acordo para manter o país no euro, se os gregos entregassem reformas convincentes.

O ministro dos Negócios Estrangeiros luxemburguês, Jean Asselborn, já discordou em entrevista ao jornal alemão Süddeutsche Zeitung, a ser publicada amanhã, segunda-feira:
"Seria fatal para a reputação da Alemanha na UE e no mundo, se Berlim não aproveitar agora a oportunidade que existe com a oferta grega de reformas."
Asselborn já tinha declarado na notícia que antecede essa entrevista: "Se a Alemanha empurra para uma Grexit, vai provocar um conflito profundo com a França. Isso seria uma catástrofe para a Europa."

No entanto, não é a Alemanha que está a adoptar a posição mais dura contra o terceiro resgate à Grécia.

O Governo da Finlândia disse 'não' à proposta grega e pretende que a Grécia saía do euro. O partido Verdadeiros Finlandeses ameaçou desfazer a coligação, se a Finlândia aprovasse um terceiro resgate à Grécia. O parlamento finlandês, que terá de pronunciar-se sobre um novo resgate à Grécia, terá mandatado o Governo para bloquear um acordo com resgate no Eurogrupo.

Mesmo assim, poderá ser alcançado um acordo no Eurogrupo sem o apoio da Finlândia. Os pedidos de resgate ao MEE são decididos por unanimidade entre os ministros das Finanças, mas esta regra pode ser substituída por uma maioria qualificada de 85%, se a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu considerarem que é necessária uma decisão urgente.

A reunião do Eurogrupo terminou ontem à meia-noite sem se obter um acordo, mas prosseguiu na manhã deste domingo.

12 Jul, 2015, 13:40

À saída da reunião de hoje, terminada há pouco, o ministro das Finanças luxemburguês, Pierre Gramegna, declarava: "Todas as opções estão em aberto".

Também o ministro das Finanças belga, Johan Van Overtveldt, opinou que ainda era insuficiente o que se alcançou na reunião dos ministros das Finanças da Zona Euro, apesar de ter-se conseguido acordo em 90% dos assuntos.

Para o ministro das Finanças da Áustria, a decisão final cabe ao parlamento grego que vai votar amanhã, segunda-feira, se aceita o acordo alinhavado no Eurogrupo. Hans Jörg Schelling acrescentou, que apenas "quando todas as condições [acordadas] estiverem cumpridas, será negociado um novo programa de resgate. Nunca antes".

Consta que nesse esboço de acordo estará um terceiro resgate à Grécia de 86 mil milhões de euros. No texto, sugere-se que, em caso de desacordo, deverá ser oferecida à Grécia a saída temporária do euro e, nesse quadro, a possibilidade de reestruturação da sua dívida.

Agora a discussão do acordo passou para as mãos dos chefes de Estado ou de Governo da Zona Euro, cuja cimeira já está a decorrer.


*


Os dados do problema grego são os seguintes:

  • 61% do eleitorado grego disse ‘não’ a medidas de austeridade no referendo de 5 de Junho;
  • 17 deputados do Syriza/Anel faltaram à votação no parlamento grego, abstiveram-se ou votaram contra as propostas de reformas — a maioria não calendarizada, nem quantificada, sublinhe-se — apresentadas em Bruxelas.

O governo da coligação Syriza/Anel ficou com o apoio parlamentar reduzido a 145 deputados na madrugada de sábado, perdendo por seis votos a maioria absoluta. É óbvio que o governo liderado por Tsipras, mesmo que tivesse intenção de implementar o pacote de austeridade, não tem apoio nem do eleitorado, nem do parlamento grego para cumprir o programa associado a um terceiro resgate.

Fazer um governo de unidade nacional com a Nova Democracia e o Pasok não está nos planos de Tsipras porque teria menos lugares de ministros, ministros suplentes e vice-ministros (mais uma peculiaridade grega) para distribuir pelo Syriza e pelo Anel, os partidos que formam o actual governo helénico.

Se o terceiro resgate à Grécia for aceite na cimeira de hoje dos chefes de Estado ou de Governo da Zona Euro, então há cinco Estados-membros — os três Estados Bálticos, Eslováquia e Portugal — que têm de receber imediatamente chorudos empréstimos do MEE, nas condições que forem concedidas aos gregos.

Para quê? Para estes cinco países poderem subir os respectivos salários mínimos e complementos sociais para idosos, de imediato, de modo a passarem a usufruir valores idênticos aos que forem fixados para os gregos, com os custos inerentes a serem suportados pelos restantes 13 países do euro, obviamente.

Esta medida é da maior justiça social: os salários mínimos da Estónia, Letónia, Lituânia, Eslováquia e Portugal são, respectivamente, € 390, € 360, € 300, € 380 e € 589. O grego é muito superior: € 684.

Além disso, estes países não devem ser obrigados a suportar um provável futuro calote grego. E mais: estes cinco países devem arrogar-se o direito de não pagar esses benévolos empréstimos, se os gregos não pagarem. Quem não se sente, não é filho de boa gente.


A opinião dos outros:

Ana Maria Cerdeira Queiroz @ Facebook

06:26
Claro, como sempre este sr. diz 'não' porque a Grécia agora tem um Governo que não é da sua cor com políticos que não despem as calças por isso têm de sair do euro. Bom era que todos os que estão dependentes destes alemães lhes virassem as costas e os deixassem sozinhos na UE, sempre queria ver o que faziam.

Ó maria queiroz, deves ser das que gosta de viver
10:27
com o guito dos outros. É muito bonito gastar à grande sem pensar em pagar. Além de que a Alemanha já provou a nível mundial ser produtora de grande qualidade em tudo que faz. Se não venderem a gentinha do teu tipo, vendem a pessoas sérias. Paga as tuas dívidas e não critiques quem é melhor que tu.

Criador de Touros
14:45
Schäuble é hoje a única referência europeia, a seguir vem Draghi, mas como é socialista, está submetido às pressões que aí andam da Internacional Socialista. Portanto Schäuble é a única referência de sensatez!
15:04
Quando o socialista francês Hollande diz que fará todos os possíveis para manter a Grécia no Euro, quer dizer — digo eu — que ele quer os gregos na Europa, nem que seja para os gregos darem cabo da Europa, como têm feito até aqui. É tolo o François.


sexta-feira, 10 de julho de 2015

A Grécia em default parcial - II b. A proposta de reformas


A última proposta do governo grego cede nas taxas do IVA e nas pensões, mas calendariza pouco e quantifica ainda menos. Nas despesas militares, recusa os cortes exigidos pela troika.
Em troca deste pacote de austeridade, pede um novo empréstimo aos parceiros do euro de "pelo menos" 53,5 mil milhões de euros.




Vejamos um resumo da lista de medidas e promessas que o Governo do Syriza/Anel enviou ontem à noite a Bruxelas:

IVA — O Governo de Atenas já havia cedido na intenção inicial de fixar as receitas adicionais do IVA em 0,74% do PIB, subindo até aos 0,93% na proposta de 26 de Junho. Agora diz que aceita implementar uma reforma no IVA que represente receitas adicionais equivalentes a 1% do PIB, o valor pretendido pelos credores.
  • Na taxa mínima de 6% ficam medicamentos, livros e teatro.
  • Os hotéis passam de uma taxa de 6,5% para 13%, já incluída na proposta de 26 de Junho e aceite pelos credores, sendo que nesta taxa intermédia ficarão também os alimentos básicos, energia e água (excluindo esgotos).
  • Para restaurantes, transportes e tratamento de esgotos a taxa de IVA vai subir dos actuais 13% para 23%.
Quanto ao desconto de 30% na taxa de IVA que beneficia as ilhas, será eliminado mas de forma faseada, com as ilhas mais ricas a serem as primeiras a ficar com a taxa do resto do país e as mais remotas a ficarem isentas. No entanto, o agravamento fiscal nas demais será acompanhado de compensações à população local com impacto fiscal neutro.
As novas taxas de IVA nos hotéis e nas ilhas só serão introduzidas em Outubro, depois de terminada a época alta do turismo.

IRC — Aumento da taxa de IRC de 26% para 28% em 2016, como desejava a troika, mas Atenas admite um agravamento para 29%, se a receita fiscal derrapar.

IRS — A proposta mistura todos os impostos e é vaga nas alterações ao IRS. Diz que pretende introduzir mudanças nos impostos que recaem sobre os automóveis, ganhos de capital, agricultores e trabalhadores por conta própria.
Em 2016, terminarão os subsídios ao gasóleo agrícola e, em 2017, será iniciado o processo de eliminação dos benefícios aos agricultores.
Sobre os privilégios fiscais dos armadores, previstos na constituição grega, o documento diz apenas que devem ser abolidos.
Se a receita fiscal derrapar, aumento das taxas de imposto sobre as famílias de 11% para 15%, para rendimentos inferiores a 12 mil euros, e de 33% para 35% acima desse valor.

Outras taxas e impostos — Introdução de taxa sobre a publicidade na televisão e anúncio de concurso público para a atribuição de licenças de televisão. Alargar o âmbito da aplicação da taxa suplementar sobre iates (com mais de 5 metros), que sobe de 10% para 13%. Aumento das taxas sobre o jogo online.

Pensões — A nova proposta de Atenas antecipa em três anos, para 2022, o fim processo de aumento da idade legal da reforma para os 67 anos, aproximando-se da proposta da troika. O governo grego promete legislar nesse sentido ainda neste mês, com o objectivo de poupar até 0,5% do PIB, ainda em 2015, valor que sobe para 1% em 2016. Promete ainda criar "fortes desincentivos" às reformas antecipadas.
Propõe legislar no sentido de eliminar gradualmente o complemento solidário para idosos — na Grécia chama-se EKAS —, iniciando o processo nos 20% de pensionistas do topo. Pretende concluir esse processo em Dezembro de 2019, tal como pretendido pelos credores. No entanto, quer iniciar essa eliminação apenas a partir de Março de 2016, ao contrário da pretensão da troika de que o processo comece de imediato.
Promete subir as contribuições dos pensionistas para o sistema de saúde de 4% para 6%, em média, incidindo também sobre as pensões complementares.

Função Pública — O Executivo de Atenas prevê a criação de um quadro de mobilidade no último trimestre deste ano. Promete reduzir a massa salarial até 2019, ajustando salários e efectivos a uma meta, mas não quantifica.
Promete alinhar os suplementos salariais — acordos de licença, ajudas de custo, subsídios de deslocação e regalias — com as melhores práticas da União Europeia, a partir de Janeiro de 2016.

Defesa — Nas despesas militares, a proposta do Governo grego propõe cortes de 100 milhões de euros em 2015 e de 200 milhões em 2016, recusando ceder aos credores que exigiam poupanças de 400 milhões. Os cortes de custos serão obtidos através da redução do número de efectivos e das compras.

Combate à corrupção — Atenas promete publicar um plano estratégico contra a corrupção até ao final do mês de Julho e alterar a legislação de declaração de rendimentos e financiamentos dos partidos políticos. Promete combater o contrabando de combustíveis e fraudes no IVA e promover os pagamentos electrónicos.

Reformas estruturais — O Governo grego compromete-se a implementar uma série de reformas em diversas áreas com a colaboração da OCDE: reforma do Estado e da sua relação com empresas públicas e fornecedores, aumento da regulação, das auditorias e da transparência.
A saúde e as obras públicas são áreas prioritárias onde o Governo grego promete combater o desperdício e a corrupção.
Também na administração fiscal — um dos maiores problemas da Grécia é a forte fuga aos impostos — o Governo promete implementar reformas, inclusive criar uma agência autónoma para cobrar impostos.

Sector financeiro — Alterações nas leis de insolvência, com o objectivo de incentivar o pagamento de dívidas, e medidas para atrair investidores estrangeiros.

Privatizações — O governo grego admite avançar não só com as privatizações que estão em curso, como também com as que estão previstas, e não mexer nos respectivos cadernos de encargo.
Admitem agora avançar com a privatização da rede eléctrica (ADMIE), como pretende a troika, mas acrescentam que poderão apresentar uma alternativa "com resultados equivalentes em termos de concorrência" até Outubro deste ano.
O Governo grego também promete alienar os activos pertencentes ao fundo de desenvolvimento helénico (HRADF), para onde se prevê que seja transferida a participação estatal no operador de telecomunicações OTE.

Metas orçamentais — A proposta mantém o compromisso de apresentar excedentes orçamentais primários (receitas superiores às despesas, excluindo o serviço da dívida) equivalentes a 1%, 2%, 3% e 3,5% do PIB para os anos compreendidos entre 2015 e 2018.


O que foi já feito para aliviar a dívida grega?

A Grécia obteve em 2012 o maior perdão de dívida detida por privados de que há registo, depois de bancos e casas de investimento terem aceite um corte (hair-cut) de 53,5% no valor nominal das obrigações do tesouro vendidas pelo Estado helénico.

Os Estados-membros da Zona Euro nunca aceitaram perdoar dívida. Contudo, já aliviaram por duas vezes as condições de reembolso dos empréstimos a Atenas e, em Novembro de 2012, admitiram voltar a fazê-lo, de novo, se os governos gregos cumprissem o programa de ajustamento acordado, o que o governo do Syriza recusou fazer a partir do início deste ano.

As taxas de juro cobradas à Grécia são praticamente iguais à taxa a que o FEEF, o fundo de resgate do euro (que tem rating máximo), consegue financiamento nos mercados, tendo sido oferecido um prazo de carência de 10 anos para o pagamento de juros, ou seja, a Grécia só pagará o primeiro euro de juros aos europeus em 2022.

Ao mesmo tempo, os prazos de maturidade dos empréstimos foram prolongados para cerca de 30 anos. Trata-se de condições mais favoráveis do que as aplicadas aos outros países do euro que foram resgatados — Irlanda, Portugal e Chipre.





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O governo liderado por Alexis Tsipras pretende receber 53,5 mil milhões numa mão enquanto estende a outra mão cheia de promessas para começar a cumprir em 2016, um ano depois de terem sido eleitos.

Mexer nos privilégios fiscais dos armadores gregos? Fica a intenção, sem data marcada.
Reduzir em 400 milhões as despesas militares? Nem pensar, possivelmente metade disso, e só lá para o próximo ano.
Combate à corrupção? Até os partidos recebem empréstimos da banca, que é pública, Syriza incluído, e nada fizeram sobre o maior problema da sociedade grega. Agora vão congeminar um plano estratégico que talvez seja publicado no final de Julho, seis meses depois de terem sido eleitos.
Incompetência, fraqueza e hipocrisia. Cedência em toda a linha aos interesses instalados na Grécia.

Qual vai ser a reacção dos líderes da Zona Euro? Já se sabe que François Hollande aceita a proposta grega e Angela Merkel, entalada entre Obama e Hollande, não tem outro remédio senão condescender.

Depois da insensata revolução democrática conduzida por políticos franceses, ingleses e americanos que levaram à destruição da paz na Síria e da estabilidade social e política nos países do Norte de África, todos percebemos a importância geopolítica da fronteira Sul da Europa.
Merkel foi a primeira a compreender. A Alemanha não colaborou nas operações militares da NATO para derrubar Gaddafi quando este já deixara, há muito tempo, de proteger o terrorismo.

Dos quatro países europeus meridionais, a Grécia destaca-se como o paredão de defesa dos países europeus centrais, não só contra a perigosa imigração islâmica africana, mas também asiática através do conturbado médio oriente.
Dos russos, desconfiam Barack Obama, a traumatizada Merkel, que nasceu, cresceu e viveu mais de 40 anos no território alemão situado para além da cortina de ferro, e os países bálticos.

A União Europeia precisa de velar pelos gregos para que não façam demasiadas asneiras e deixem o País derrapar para uma situação caótica que abra brechas na segurança europeia.
No entanto, aceitar chantagens nunca resolveu problemas. É preciso que os gregos entendam que têm de cumprir as regras da Zona Euro e não podem exigir aos parceiros do euro um tratamento privilegiado em detrimento das populações dos países bálticos — Estónia, Letónia e Lituânia —, da Eslováquia e de Portugal que têm salários mínimos e pensões mais baixos.

Nas longas filas para levantar 60 euros nas caixas multibanco, os gregos começavam a entender. Se esta proposta — cheia de promessas que o governo de Tsipras, apoiado na estrondosa vitória do 'não' no referendo, não tem a mínima intenção de cumprir — for aceite na reunião de amanhã dos ministros das Finanças da Zona Euro, o problema grego vai renascer aquando da primeira avaliação da troika ao cumprimento do memorando que posteriormente será assinado.

Que esperança podem ter os povos europeus de deixarem de ser explorados pelas elites privilegiadas que pululam na sociedade helénica?
O peso dos países que têm um nível de vida inferior ao dos gregos não será suficiente, por si só, para refrear as artimanhas gregas.
Todavia há países da Zona Euro que prevêem a necessidade de aprovação parlamentar antes de haver a negociação formal sobre o memorando de entendimento — Alemanha, Áustria, Finlândia, Holanda e Estónia (Eslováquia não requer aprovação parlamentar). Portanto podem contar ainda com a oposição dos políticos finlandeses, holandeses e alemães, sobretudo, do fisicamente deficiente, mas intelectualmente vigoroso ministro das Finanças alemão.

Wolfgang Schäuble tornou-se o paladino dos contribuintes europeus que querem acabar com a exploração helénica e está a enfrentar corajosamente os americanos, assim como Christine Lagarde que se passou para o lado de Obama, apesar deste se ter recusado nos últimos anos a contribuir financeiramente para o FMI.
Tal como a directora do FMI, Schäuble defende a reestruturação da dívida grega mas à custa de um perdão pago... pelos gregos de maiores rendimentos e pela venda dos activos na posse do Estado helénico.

Por este caminho, ainda vamos ver uma manifestação de apoio dos ricos armadores gregos ao Syriza. É algo inacreditável ver a esquerda europeia a defender os contribuintes ricos da Grécia e a direita a pugnar para que os fundos europeus alimentados pelos contribuintes dos restantes 18 países do euro, alguns mais pobres que a Grécia, não caiam dentro dos bolsos das elites gregas. Estamos a assistir a uma completa inversão de valores políticos na Europa.





sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Eurogrupo dá mais quatro meses à Grécia


Os ministros das Finanças da zona Euro acordaram, em princípio, estender o programa de resgate da Grécia por quatro meses, para evitar uma crise de liquidez em Março que forçaria o país a sair do euro.

Obtido apenas na terceira reunião do Eurogrupo em dez dias, o acordo exige que, na próxima segunda-feira, o governo grego apresente uma carta ao Eurogrupo listando todas as medidas políticas que pretende tomar durante o restante período do resgate, para garantir que vai cumprir as condições do mesmo.

Se a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o FMI ficarem satisfeitos, os Estados-membros da Zona Euro vão ratificar a prorrogação, quando necessário através dos seus parlamentos, como lembrou o ministro das Finanças irlandês Michael Noonan:
"É um importante primeiro passo que esperamos que venha a conduzir a uma segunda etapa de sucesso na noite de segunda/manhã de terça-feira, mas depois há uma terceira etapa com as ratificações nos parlamentos [da Alemanha, Holanda, Estónia e Eslováquia]."

A firmeza dos outros 18 Estados-membros da zona Euro, que cerraram fileiras contra as pretensões do governo grego em beneficiar de financiamento europeu mas sem contrapartidas, isolou o primeiro-ministro radical Alexis Tsipras e forçou-o a um grande recuo político uma vez que ele havia prometido acabar com o programa de resgate, terminar a cooperação com a troika de credores internacionais e reverter a austeridade.

Todavia terá sido o conselho de governadores do Banco Central Europeu (BCE), que anteontem se reuniu para avaliar novamente a linha de liquidez de emergência (ELA) concedida aos bancos gregos, quem exerceu a pressão decisiva sobre o governo grego. Ao alterar de 65 para 68,3 mil milhões de euros o limite dos fundos disponibilizados, uma subida muito inferior aos 10 mil milhões de euros solicitados pela banca helénica para poder suportar a enorme fuga de depósitos, deixou os bancos na iminência de falirem no curto prazo.
Por sua vez o Mecanismo Único de Supervisão, o regulador para a banca europeia, alertou os bancos gregos para não emprestarem dinheiro às entidades públicas porque os tratados europeus não permitem que o programa ELA seja usado para financiar directamente os Estados-membros.

Confrontado com a exigência de um compromisso claro até ao final da semana, o ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, enviou esta carta ao seu homologo holandês, Jeroen Dijsselbloem, presidente do Eurogrupo, pretendendo que a resposta dos seus colegas fosse apenas "sim", ou "não", e dada em reunião por teleconferência (negrito é meu):

Atenas, 18 de Fevereiro de 2015

Caro Presidente do Eurogrupo,

Ao longo dos últimos cinco anos, o povo da Grécia realizou esforços notáveis de ajustamento económico. O novo Governo está empenhado num processo de reforma mais amplo e profundo que visa melhorar de forma duradoura o crescimento e as perspectivas de emprego, alcançar a sustentabilidade da dívida e a estabilidade financeira, aumentando a equidade social e atenuando o custo social significativo da crise em curso.

As autoridades gregas reconhecem que os procedimentos acordados pelos Governos anteriores foram interrompidos pelas recentes eleições presidenciais e legislativas, e que, em resultado, várias disposições técnicas foram invalidadas. As autoridades gregas honram as obrigações financeiras da Grécia para com todos os seus credores, assim como afirmam a nossa intenção de cooperar com os nossos parceiros, a fim de evitar obstáculos técnicos no âmbito do Acordo-Quadro que reconhecemos como obrigatório no que diz respeito às suas disposições financeiras e processuais.

Neste contexto, as autoridades gregas estão agora a pedir a prorrogação do Acordo-Quadro de Assistência Financeira para um período de seis meses, a contar após a sua conclusão, período durante o qual vamos proceder em conjunto, e fazendo o melhor uso da flexibilidade dada pelo actual plano, com vista à sua conclusão bem-sucedida e avaliação com base nas propostas de, por um lado, o governo grego e, por outro, as instituições.

O objectivo da prorrogação solicitada de seis meses da duração do Acordo é:

a) Chegar a acordo sobre os termos financeiros e administrativos cuja implementação, em colaboração com as instituições, estabilizará a posição orçamental da Grécia, atingindo excedentes primários apropriados, garantindo a estabilidade da dívida e apoiando a realização dos objectivos orçamentais para 2015, tendo em conta a actual situação económica.

b) Assegurar, em estreita colaboração com os nossos parceiros europeus e internacionais, que quaisquer novas medidas serão totalmente financiadas, e ao mesmo tempo abster-se de acções unilaterais que prejudiquem as metas orçamentais, a recuperação económica e a estabilidade financeira.

c) Permitir ao Banco Central Europeu reintroduzir a cláusula de excepção [para as obrigações do tesouro gregas] de acordo com seus procedimentos e regulamentos.

d) Prolongar a disponibilidade das obrigações do FEEF [Fundo Europeu de Estabilização Financeira que financia em nome da zona Euro], que estão na posse do HFSF [Fundo Helénico de Estabilização Financeira], durante a vigência do Acordo.

e) Iniciar as conversações técnicas com vista à assinatura de um novo Contrato para a Recuperação e Crescimento [terceiro resgate] que as autoridades gregas desejam entre a Grécia, a Europa e o FMI, para dar seguimento ao actual Acordo.

f) Chegar a acordo sobre a supervisão no quadro da UE e do BCE e, no mesmo espírito, com o FMI durante o período alargado do Acordo.

g) Discutir o modo de desencadear a decisão do Eurogrupo de Novembro de 2012 relativamente a novas possíveis medidas sobre a dívida e a assistência para a implementação após a conclusão do Acordo prorrogado e enquanto parte do Contrato de acompanhamento [mecanismos de alívio de dívida previstos desde 2012].

Com o acima referido em mente, o governo grego exprime a sua determinação em cooperar estreitamente com as instituições da União Europeia e com o Fundo Monetário Internacional, de modo a: a) atingir a estabilidade orçamental e financeira, e b) permitir ao governo grego introduzir reformas substantivas e de longo alcance que são necessárias para restaurar os padrões de vida de milhões de cidadãos gregos através de um crescimento económico sustentável, emprego produtivo e coesão social.

Atenciosamente,
Yanis Varoufakis
Ministro das Finanças
Grécia


Depois de Atenas ter enviado a Bruxelas este pedido de prorrogação de seis meses, o ministro grego do Trabalho, Panos Skourletis, desvalorizou o pedido, afirmando que apenas estava em jogo o contrato de empréstimo assinado com a zona Euro: "O pedido é referente à extensão do acordo de empréstimo, não é para o programa de assistência em curso."

Vários países do euro ficaram descontentes com as declarações contraditórias das autoridades gregas e mostraram-se dispostos a deixar sair a Grécia da moeda única.

"A zona Euro está, certamente, mais estável e mais forte do que há cinco anos, pelo que a eventualidade hipotética de um dos seus membros sair deverá ter pouco impacto", disse o ministro estónio das Finanças, Maris Lauri, que fez notar que a Grécia não cairia na insolvência, se não quiser uma extensão do resgate europeu, pois obteve um superavit em 2014. Contudo, acrescentou, o país teria de passar a viver por conta própria.

O primeiro-ministro eslovaco Robert Fico, em entrevista ao Finantial Times, também disse que a Eslováquia encarava com "calma" a eventualidade da Grécia sair da zona Euro, se o país se recusasse a honrar os seus compromissos, tendo acrescentado ser "impossível" explicar aos eslovacos que tinham de pagar salários e pensões na Grécia.

Hoje, de manhã, foi a vez do ministro das Finanças de Malta, Edward Scicluna, dizer horas antes da reunião do Eurogrupo: "Penso que chegámos agora a um ponto em que vão dizer à Grécia 'se querem realmente sair, saiam'. E penso que eles vão levar isto a sério, porque a Alemanha, Holanda e outros vão ser duros e vão insistir que a Grécia pague de volta a solidariedade demonstrada pelos Estados-membros ao respeitar as condições."
O ministro de Malta criticou também o método de actuação de Alexis Tsipras e de Yanis Varoufakis: "Infelizmente para a Grécia, eles não sabem as regras e como o Eurogrupo trabalha. Eles são completamente novos e isso é negativo para eles."

Mas o aviso mais forte veio de Berlim, quando porta-voz de Wolfgang Schäuble considerou que a carta de Atenas não verificava os critérios acordados pelo Eurogrupo na segunda-feira, indo noutra direcção: “Na verdade, vai na direcção de um financiamento intercalar sem responder às exigências do programa [de ajustamento].”

Os esclarecimentos necessários exigiram o adiamento da reunião dos ministros das Finanças da zona Euro para as 16h30, em Bruxelas, para se poder realizar um encontro entre o ministro grego, Yanis Varoufakis, o homólogo alemão, Wolfgang Schäuble, o comissário europeu dos Assuntos Económicos, o francês Pierre Moscovici, a directora-geral do Fundo Monetário Internacional, Christine Lagarde, e o presidente do Eurogrupo, Jeroem Dijsselbloem.
O acordo aí delineado foi depois apresentado na reunião do Eurogrupo, tendo merecido a concordância de todos os ministros das Finanças. Pelas 20h começaram as conferências de imprensa e uma hora depois era divulgada a declaração do Eurogrupo (negrito é meu):

O Eurogrupo reitera o seu apreço pelos esforços de ajustamento notáveis realizados pela Grécia e pelo povo grego ao longo dos últimos anos. Durante as últimas semanas, envolvemo-nos, em conjunto com as instituições [Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI], num diálogo intenso e construtivo com as novas autoridades gregas e atingimos hoje uma base comum.

O Eurogrupo toma nota, no âmbito do acordo existente, do pedido das autoridades gregas para uma prorrogação do Acordo-Quadro de Assistência Financeira (MFFA), que é sustentado por um conjunto de compromissos. O objectivo da prorrogação é a conclusão com êxito da avaliação [do programa grego] com base nas condições do actual acordo, fazendo o melhor uso da flexibilidade que será considerada em conjunto com as autoridades gregas e as instituições. Esta extensão também serve de ponte no tempo para discussão de um possível acordo de acompanhamento entre o Eurogrupo, as instituições e a Grécia.

As autoridades gregas vão apresentar uma primeira lista de medidas de reforma, com base no actual acordo, até o final de segunda-feira, 23 de Fevereiro. As instituições vão fazer uma primeira análise sobre se esta é suficientemente abrangente para ser um ponto de partida válido para uma conclusão com êxito da avaliação. Esta lista será melhor especificada, e então alvo de acordo com as instituições, até ao final de Abril.

Apenas a aprovação da avaliação final do acordo prorrogado por parte das instituições, permitirá qualquer desembolso da parcela remanescente [7,2 mil milhões de euros] do actual Programa FEEF e a transferência dos lucros [1,9 mil milhões de euros] de 2014 do SMP [programa de compra de valores mobiliários]. Ambos ficam novamente sujeitos à aprovação pelo Eurogrupo.

Tendo em vista a avaliação das instituições, o Eurogrupo chegou a acordo que os fundos, até agora disponíveis no buffer FHEF [Fundo Helénico de Estabilização Financeira] [11 mil milhões de euros], devem ser confiados ao FEEF [Fundo Europeu de Estabilização Financeira], livres de direitos de terceiros para o período de extensão do MFFA. Os fundos continuam a estar disponíveis para o período de extensão do MFFA e só podem ser usados para custos de recapitalização e resolução da banca. Só serão libertados a pedido do BCE/SSM [Mecanismo Único de Supervisão].

Nesta perspectiva, congratulamo-nos com o compromisso das autoridades gregas de trabalhar em estreita parceria com instituições e parceiros europeus e internacionais. Neste contexto, recordamos a independência do Banco Central Europeu. Também concordámos que o FMI vai continuar a desempenhar a sua função.

As autoridades gregas expressaram o forte compromisso com um processo de reforma estrutural mais ampla e profunda que visa melhorar de forma duradoura o crescimento e as perspectivas de emprego, garantindo a estabilidade e resiliência do sector financeiro, e melhorar a equidade social. As autoridades comprometem-se a implementar reformas há muito necessárias para combater a corrupção e a evasão fiscal e melhorar a eficiência do sector público. Neste contexto, as autoridades gregas comprometem-se a fazer o melhor uso do prosseguimento da prestação de assistência técnica.

As autoridades gregas reiteram o seu compromisso inequívoco de honrarem plena e atempadamente as obrigações financeiras para com todos os seus credores.

As autoridades gregas também se comprometeram a garantir o superavit orçamental primário [saldo positivo sem os juros da dívida] adequado ou os recursos de financiamento necessários para garantir a sustentabilidade da dívida, de acordo com a declaração do Eurogrupo de Novembro de 2012. As instituições, para a meta de superavit primário de 2015, vão tomar em consideração as circunstâncias económicas em 2015.

À luz desses compromissos, congratulamo-nos que, numa série de áreas as prioridades políticas gregas podem contribuir para um reforço e uma melhor aplicação do actual acordo. As autoridades gregas comprometem-se a abster-se de qualquer reversão de medidas e alterações unilaterais de políticas e reformas estruturais que teriam um impacto negativo nas metas orçamentais, na recuperação económica ou na estabilidade financeira, tal como avaliadas pelas instituições.

Com base no pedido, nos compromissos assumidos pelas autoridades gregas, no parecer das instituições, e no acordo de hoje, vamos lançar os procedimentos nacionais com vista a chegar a uma decisão final sobre a extensão do actual Acordo-Quadro de Assistência Financeira do FEEF para quatro meses, pelo Conselho de Administração do FEEF. Também convidamos as instituições e as autoridades gregas a retomarem imediatamente o trabalho que permitiria a conclusão bem-sucedida da avaliação.

Continuamos empenhados em fornecer um apoio adequado à Grécia até que recupere o acesso total ao mercado, desde que respeite os seus compromissos no horizonte acordado.

Friday, February 20, 2015 - 01:48
Excerto das duas conferências de imprensa, a da troika com Christine Lagarde (FMI), Pierre Moscovici (Comissão Europeia) e o representante do Banco Central Europeu, com Jeroem Dijsselbloem (Eurogrupo) entre estes últimos, e a do ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis.

20/02/2015 - 22:07


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Ficam assim adiadas as promessas que permitiram ao Syriza ganhar as eleições legislativas gregas em 25 de Janeiro — em especial, as subidas do salário mínimo grego para 876 euros e do limiar de pagamento de IRS para 12.000 euros —, bem como o recente perdão fiscal (que anularia 90% dos 76 mil milhões de euros que os gregos devem ao fisco e à segurança social) para quando conseguirem derrotar a corrupção e a tradicional evasão fiscal grega.

O governo de Alexis Tsipras vai ficar o fim-de-semana prolongado (segunda-feira é feriado na Grécia) a fazer um trabalho de casa que será avaliado na próxima terça-feira pela Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI, ou seja, pelas equipas técnicas lideradas por Jean-Claude Juncker, Mario Draghi e Christine Lagarde e, se passar neste exame técnico, será aprovado pelos restantes 18 ministros das Finanças da zona Euro na reunião do Eurogrupo.

Não é um trabalho nada fácil: têm de elaborar uma lista de medidas de reforma de modo a manter este ano o superavit primário (saldo positivo, não contabilizando os juros da dívida) alcançado pelo governo de Antonis Samaras em 2014. Se as instituições julgarem que as reformas apresentadas pelo governo grego não cumprem o princípio de se compensarem financeiramente, para não colocar os objectivos orçamentais e de competitividade da economia em causa, “a Grécia estará em apuros e este acordo morto e enterrado”, reconheceu o próprio Yanis Varoufakis.
No entanto, o governo grego pode contar com o apoio técnico da troika CE/BCE/FMI para fazer o trabalho de casa...



Se o governo grego for capaz de passar nos exames técnicos de 24 de Fevereiro e do final de Abril, tem uma terceira etapa para ultrapassar logo a seguir. É que, em vez do prolongamento de seis meses pedido por Varoufakis, foram dados apenas quatro meses, o que coloca o final da vigência do empréstimo antes das amortizações de obrigações do tesouro previstas para Julho e Agosto, num total de cerca de 7 mil milhões de euros. E, ao contrário dos bilhetes do tesouro que podem ser pagos com a emissão de novos bilhetes, as obrigações do tesouro e a dívida ao FMI só podem ser amortizadas com o apoio dos parceiros europeus.

Além disso, ficou decidido que os 11 mil milhões de euros que estavam na posse da Grécia para capitalizar os seus bancos vão regressar ao FEEF, o fundo europeu de estabilização financeira. “É para garantir que não é usado pelo Estado”, explicou o presidente do Eurogrupo, Jeroem Dijsselbloem, com uma sinceridade desarmante.
No caso de Portugal, a parte não usada do montante destinado à banca permaneceu em Lisboa, mesmo depois do fim do programa.

A questão do BCE ter deixado de aceitar as obrigações do tesouro gregas como colateral para ceder liquidez aos bancos não foi abordada por ser uma instituição independente do Eurogrupo. Estas obrigações têm notação de 'lixo' das quatro grandes agências de rating mas beneficiavam de uma cláusula de excepção que foi retirada pelo BCE no início deste ano porque não tinha a garantia de que o programa de assistência grego, supervisionado por uma troika de instituições de que fazia parte, vai terminar com sucesso.

Em Março de 1985, a Grécia exigiu como contrapartida para aceitar a entrada de Portugal e de Espanha na CEE “um auxílio adicional no quadro das verbas para os PIM [ajuda às regiões mais desfavorecidas]: “dois mil milhões de dólares (cerca de 350 milhões de contos)”. Qualquer coisa como 1750 milhões de euros.
Desta vez foi servido aos gregos o prato frio (parece que foi quente) da vingança por Maria Luís Albuquerque que defendeu como uma leoa os 5000 milhões que, entre empréstimos e garantias, devem a Portugal.
Há 30 anos com o socialista PASOK, hoje com o socialista radical Syriza, os gregos lá vão mungindo a vaquinha europeia.


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O drama grego II: sistema financeiro com liquidez de emergência


O primero-ministro grego Alexis Tsipras e o seu ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, terminaram hoje o périplo pela União Europeia.

Varoufakis propôs na segunda-feira, em Londres, durante uma entrevista ao Finantial Times, que os títulos de dívida pública grega detidos pelos estados-membros da Zona Euro e pelo respectivo fundo de resgate fossem trocados por obrigações indexadas ao crescimento da economia grega. E ontem deslocou-se a Frankfurt para propor a Mario Draghi a troca dos títulos gregos detidos pelo Banco Central Europeu (BCE) por obrigações perpétuas.

À saída do encontro com Draghi, o político grego disse à Reuters sentir-se "encorajado" pelo facto do BCE continuar a garantir o apoio ao sistema financeiro helénico: "O BCE é o banco central da Grécia. O BCE vai fazer o que for preciso para apoiar os estados membros da Zona Euro." Já o Finantial Times dizia que Draghi não aceitara a proposta de Varoufakis.
A dúvida desfez-se à noite, após a reunião quinzenal dos governadores do BCE. O comunicado de imprensa subsequente anunciava que o BCE deixou de aceitar obrigações do tesouro gregas como colateral para financiamento do sistema financeiro:


O Conselho de Governadores do Banco Central Europeu (BCE) decidiu hoje levantar a isenção que afecta os instrumentos de dívida transaccionáveis emitidos ou integralmente garantidos pela República Helénica. A isenção permitia que esses instrumentos fossem usados em operações de política monetária do Eurosistema, apesar do facto de que não cumpriam os requisitos mínimos de notação de crédito. A decisão do Conselho de Governadores baseia-se no facto de que, de momento, não é possível assumir uma conclusão bem sucedida da avaliação do programa e está em consonância com as regras do Eurosistema.

Esta decisão não tem consequências sobre a situação de contraparte das instituições financeiras gregas em operações de política monetária. As necessidades de liquidez das contrapartes do Eurosistema, para contrapartes que não tenham suficiente garantia alternativa, pode ser satisfeita pelo banco central nacional competente por meio de assistência de liquidez de emergência (ELA), dentro das regras do Eurosistema.

Os instrumentos em questão deixarão de ser elegíveis como garantia a partir da data de vencimento da operação principal de refinanciamento em curso (11 de Fevereiro de 2015).

Esta decisão afecta todos os bancos, mas vai penalizar sobretudo os bancos gregos pois são estes que têm mais dívida pública grega nos seus balanços: 21 mil milhões de euros segundo os dados mais recentes. Fora do país, as bancas alemã e britânica são as que detêm mais obrigações do tesouro do Estado grego: 10 mil milhões cada uma.

A partir de 2008, as dificuldades de financiamento no mercado interbancário obrigaram os bancos a recorrer ao BCE para conseguirem obter liquidez, mas este banco central tem regras rígidas em relação à qualidade do colateral que pode aceitar: os títulos têm de obter um rating acima de junk (lixo) de uma, pelo menos, das maiores agências de notação financeira — Standard&Poor’s, Moody’s, Fitch e DBRS.

Quando alguns países da Zona Euro pediram ajuda financeira e ficaram sujeitos a programas de ajustamento, o BCE continuou a ceder liquidez aos bancos que usaram títulos de dívida destes países como colateral porque passavam nas avaliações periódicas de uma troika em que participava o próprio BCE. Note-se que as obrigações do tesouro portuguesas nunca foram afectadas por aquelas regras porque a DBRS sempre as classificou num grau de investimento.

Ora o programa de assistência à Grécia foi prolongado por dois meses, em Dezembro, na sequência do impasse entre o governo liderado por Antonis Samaras e a troika por causa das reformas estruturais que deviam ser introduzidas no orçamento do Estado para 2015, e expira no final do corrente mês de Fevereiro. Não só está bloqueada a última tranche do empréstimo, no valor de 7 mil milhões de euros (e 11 mil milhões ainda reservados para a banca), como também não foi negociada nenhuma linha de crédito cautelar que assegure as necessidades de financiamento no período que se segue ao final do resgate financeiro.

Ainda assim, a Grécia não entrou por enquanto num beco sem saída. As necessidades de financiamento dos bancos gregos que não tenham colaterais com qualidade continuarão a ser satisfeitas através do programa de assistência de liquidez de emergência (emergency liquidity assistance — ELA), providenciado pelo banco central grego com recursos do BCE.
Dias antes das eleições de 25 de Janeiro, o Banco da Grécia pediu ao BCE que os bancos gregos acedessem a esta linha de emergência para suportarem uma fuga de capitais do país no valor de 15 mil milhões de euros. O BCE aceitou e, pelo menos, dois bancos já recorreram a esta linha, obtendo financiamento de 2 mil milhões de euros, depois da vitória de uma coligação de partidos da extrema-esquerda, o Syriza, nestas eleições antecipadas.
Hoje o BCE decidiu conceder 60 mil milhões de euros à banca grega para que possa suportar a corrida aos depósitos. A taxa de financiamento do banco central está actualmente nos 0,05%, mas para os bancos gregos a taxa de juro será 1,55%, além de que o Conselho Executivo do BCE tem o poder de retirar este financiamento, bastando para tal obter dois terços dos votos dos seus seis membros.

Já no que respeita a emissão de obrigações do tesouro, a Grécia está bloqueada. No dia 1 de Fevereiro, após o encontro com o seu homólogo francês, Michel Sapin, Varoufakis anunciou que tinha pedido para emitir 10 mil milhões de euros em dívida de curto prazo, garantidos pelos países da Zona Euro. O BCE não aceitou porque a Grécia já tinha atingido o tecto máximo de 15 mil milhões de euros para a emissão de títulos de curto prazo.

Claramente estas decisões do BCE têm o objectivo de pressionar o governo de Tsipras a fazer reformas estruturais e a cumprir os compromissos assumidos pelo Estado grego com as instituições financeiras europeias.

A decisão de ontem teve reflexos imediatos esta manhã, provocando não só a subida das taxas de juro (yields) da dívida no mercado secundário mas também a queda dos mercados bolsistas, em especial dos títulos da banca.
A yield das obrigações do tesouro helénico a três anos disparou 337,6 pontos base para 19,702%, a cinco anos subiu 219,1 pontos para 15,201%, enquanto na maturidade a dez anos avançou 86,9 pontos para 10,547%.
Nos restantes países periféricos, os juros da dívida pública estão a subir em todas as maturidades mas os acréscimos são muito inferiores aos registados na Grécia. Em Portugal, a taxa da dívida a dez anos sobe 4,0 pontos base para 2,527%. Em Espanha a subida é de 3,9 pontos para 1,470% e em Itália é de 2,4 pontos para 1,572%.

O governo de Tsipras reagiu através do porta-voz, afirmando que "não há motivo de preocupação" e que se trata de uma "pressão política" por parte do BCE no âmbito do processo de negociação da Grécia com os seus parceiros. "Não vamos chantagear, nem tão pouco vamos deixar que nos chantageiem".

Por sua vez, o ministério das Finanças grego frisou que o sistema bancário vai manter-se adequadamente capitalizado e completamente protegido através do programa de assistência de liquidez de emergência, tendo declarado que o Eurogrupo ficou pressionado no sentido de aceitar um acordo que contemple as exigências do governo grego:
"Esta decisão coloca pressão sobre o Eurogrupo, para proceder rapidamente à conclusão de um novo acordo em benefício mútuo para a Grécia e os seus parceiros", informou o ministério em comunicado.
O Ministério das Finanças acrescentou que o Governo "aumenta diariamente" o círculo de parceiros e instituições com os quais mantém consultas e "permanece firme na sua meta de aplicar o programa de salvação social, aprovado pelo voto do povo grego".


Feb 5, 2015 3:46pm EST
Conferência de imprensa aqui.

No entanto, a realidade é diferente. Depois de conversações contundentes entre os dois ministros das Finanças, esta manhã, em Berlim, última paragem do périplo, seguiu-se uma conferência de imprensa conjunta.
O ministro alemão, Wolfgang Schäuble, declarou que as mudanças mais relevantes têm de ser feitas dentro da própria Grécia, não pelo resto da Europa, que não era realista fazer promessas eleitorais que sobrecarregassem os outros países da Zona Euro e que não tinha havido acordo mas "concordámos em discordar".
Yanis Varoufakis foi mais longe: "Nós nem sequer concordámos em discordar." Depois pediu a cooperação da Alemanha para derrotar a ameaça nazi na Grécia [onde o neonazi Aurora Dourada é o terceiro maior partido no novo parlamento em Atenas], por poder compreender o drama de uma depressão como a que nos anos 30 foi seguida pela ascensão de Hitler: "A Alemanha pode estar orgulhosa por ter erradicado o nazismo aqui, mas não na Grécia. (...) Precisamos da Alemanha do nosso lado."
Sobre as promessas feitas pelo Syriza durante a campanha eleitoral, Varoufakis reconheceu: "Temos o direito de implementar tudo o que prometemos? Não, mas temos de ter a oportunidade de apresentar o nosso mandato, e os nossos parceiros os seus, e desejavelmente chegaremos a um acordo final." Para isso é preciso tempo e dinheiro: "Um empréstimo-ponte, até ao fim de Maio, dar-nos-ia espaço para gerar um novo contrato com a Europa. (...) faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para evitar um default."


Ao chegar a Roma, o primeiro-ministro grego Alexis Tsipras recebeu uma gravata como prenda do seu homólogo italiano Matteo Renzi.

Confrontado com o apoio dos dois líderes de centro-esquerda europeus, o presidente francês, François Hollande e o primeiro-ministro italiano Matteo Renzi, à decisão do BCE e por eles aconselhado a chegar rapidamente a um acordo com a troika, o primeiro-ministro grego regressou a Atenas de mãos vazias.
Valeu a Tsipras o gesto de apoio do presidente russo, Vladimir Putin, em litígio com o Ocidente por causa da Ucrânia, que convidou o líder grego a visitar Moscovo no dia 9 de Maio, durante um telefonema em que discutiram a cooperação na energia e no desenvolvimento das economias russa e grega.


*

Propor que os títulos de dívida pública grega detidos pelos estados-membros da Zona Euro sejam trocados por obrigações indexadas ao crescimento da economia grega, permitindo que a Grécia não pague quaisquer juros nos anos em que a economia tenha um mau desempenho, e que os títulos detidos pelo BCE sejam trocados por obrigações perpétuas, ou seja, sem data de vencimento, é acreditar que os outros Estados-membros da Zona Euro são o Pai Natal.
Proferir declarações delirantes e chamar chantagistas aos outros países, quando não se consegue convencer os interlocutores, é perder as estribeiras.

O sistema financeiro grego está preso ao euro por um fio chamado ELA. Se Tsipras deixar quebrar esse fio, os bancos gregos entram em falência e a Grécia irá regressar ao dracma cujo valor cambial ficará associado à força que a economia grega for capaz de evidenciar. O ajustamento será rápido, brutal e doloroso.

O regresso a uma moeda fraca poderá incrementar as exportações gregas (se aumentarem a produção de bens transaccionáveis), mas reduzirá drasticamente as importações e todo o bem-estar associado (medicamentos, automóveis, electrodomésticos, electrónica, ...).
A população grega ficará dividida em duas classes: os que conseguiram enviar as poupanças (eventualmente derivadas da evasão fiscal ou da corrupção) para o estrangeiro, que vão poder importar bens do exterior pagos com euros e, portanto, desfrutar de um nível de vida razoável; os mal-afortunados que não conseguiram vão ver as suas poupanças reduzidas a uma insignificância, ficar sujeitos a racionamentos e conhecer a diferença entre austeridade e fome. Medidas que aumentem ainda mais a desigualdade na sociedade grega serão profundamente injustas.


quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Há jornais que andam a precisar de aumentar a tiragem


Numa entrevista ao semanário Expresso publicada no sábado passado, José Sócrates recorda o período que culminou com o pedido de resgate em Abril de 2011, referindo-se ao então e ainda responsável pelas Finanças na Alemanha como "aquele estupor das Finanças, o Schäuble" e acusando-o de ter atentado contra os interesses de Portugal à revelia da própria chanceler Merkel:

"A Merkel está do outro lado com aquele estupor das Finanças, o Schäuble, que foi agora corrido. Todos os dias esse filho da mãe punha notícias contra nós. E ligávamos para o gabinete da Merkel e ela, com quem me dava bem, dizia que vinha do gabinete do ministro das Finanças. No jantar, ela pô-lo ao lado para o comprometer. Disse: 'Devo ser a única na Alemanha que acha que vocês não precisam de ajuda'."

Após um pedido de reacção da comunicação social portuguesa, a declaração da Embaixada da Alemanha em Lisboa surgiu clara e seca:

A Alemanha sempre foi um parceiro fiável e tem apoiado Portugal na superação da crise financeira. Assegurar a estabilidade da moeda comum, bem como emergir desta crise de forma fortalecida, com maior crescimento e emprego, foram e continuam a formar o interesse comum de ambos países.

O Governo federal da Alemanha tem sempre apoiado o seu parceiro português nas necessárias e frequentemente difíceis medidas adoptadas. Para tal, a Alemanha deu desde o início — e de forma resoluta — o seu grande contributo aos fundos de resgate europeus e aos fundos estruturais da União Europeia.

Também no futuro Portugal poderá continuar a contar com a Alemanha.





Recordemos alguns factos daquele período negro da nossa história recente:

O presidente executivo do BPI, Fernando Ulrich, já tinha avisado em Maio de 2010:
"O dia em que batermos na parede não está muito longe. Talvez por semanas. E bater na parede significa, por exemplo, a intervenção do FMI. Lamento mas o país tem que saber.
(...)
Tirem já o C do PEC, o c é para esquecer. O principal problema de Portugal não é apenas de tesouraria, mas sim o facto de não nos conseguirmos financiar.

Não se trata de um problema de preço, mas sim de acesso ao crédito. Um problema que não sabemos hoje quando se vai resolver. Por isso mesmo, sugiro ao Governo que não publique cenários macroeconómicos sem explicar como estes se vão financiar.

Portugal tem dificuldade em financiar-se e não sabemos quando vai deixar de ter, ou se vai deixar de ter, só saberemos se conseguirmos financiamento quando o BCE deixar de comprar.
"

Em Janeiro de 2011, a consagrada revista britânica The Economist noticiava sob o título This little piggy went to the market:
"PORTUGAL atingiu a meta de vender um total de 1,25 mil milhões de euros em obrigações com maturidade em 2014 e 2020, em 12 de Janeiro, e ambas as ofertas tiveram excesso de procura. Mas Portugal pagou um alto preço para torná-los tão atraentes, o rendimento dos títulos de Junho de 2020 foi um enorme 6,7%."

Nesse funesto dia 12 de Janeiro, Paul Krugman, prémio Nobel da Economia, comentou esta emissão de obrigações do tesouro (OT) no seu blogue sob o sugestivo título "Leilões de obrigações de Pirro".

Fundos internacionais, como o PIMCO, gabavam-se que lhes eram oferecidas OTs portuguesas, mas recusavam comprá-las.

Na viagem aos Emiratos Árabes Unidos, disfarçada de viagem à procura de investimento económico, Sócrates teve de pagar a estadia principesca mas não conseguiu vender nem uma única OT.

Técnicos de Bruxelas vieram a Portugal observar a contabilidade do Estado, em Fevereiro de 2011, e aperceberam-se que havia muita dívida escondida debaixo do tapete. Daí as alterações aos défices de anos anteriores que o governo de José Sócrates foi obrigado a fazer sob a capa de alteração de forma na contabilidade europeia para salvar a face.

No início de Abril de 2011, os banqueiros portugueses recusaram-se peremptoriamente e em bloco a comprar mais OT’s. Foi o fim.

Nem Merkel, nem nenhum chefe de governo dos países da União Europeia confiava em José Sócrates.




Foi o ministro das Finanças Teixeira dos Santos quem pôs fim à agonia ao declarar que Portugal tinha de pedir ajuda financeira ao FMI porque estava à beira da bancarrota. Sócrates vingou-se do ministro, que até então lhe havia feito todas as vontades prejudicando o País, dando ordem ao ministro da Economia Vieira da Silva, que se comportava como um mero comissário político, para o eliminar das listas de deputados para as eleições legislativas de Junho de 2011.

O PEC4 não ia adiantar nada. Apenas filões de ouro ou jazidas de petróleo teriam salvado o País do resgate. Sócrates só vai conseguir enganar os portugueses distraídos ou os analfabetos.

Sem este trapaceiro vingativo, os portugueses escusavam de ser lembrados pela Alemanha do “seu grande contributo aos fundos de resgate europeus e aos fundos estruturais”, ou seja, que grande parte do empréstimo a Portugal vem dos bolsos dos contribuintes alemães a uma taxa de juro média de 3,2%.

Sócrates arrecadou muito dinheiro através de familiares, mas ficou sem o poder. E indivíduos desta espécie precisam de poder, precisam de andar todos os dias na primeira página dos jornais.
Pôr um microfone à frente deste indivíduo só vai dar asneira. Mas parece que há jornais que andam a precisar de aumentar a tiragem, nem que para isso seja preciso descredibilizar o País.