quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Morreu o economista Ernâni Lopes


Ernâni Lopes (Lisboa 20.02.1942 - Lisboa 02.12.2010), que era actualmente professor do Instituto de Estudos Europeus, Universidade Católica, foi ministro das Finanças no IX Governo Constitucional (bloco central liderado por Mário Soares), entre 1983 e 1985, durante a intervenção do Fundo Monetário Internacional (FMI) motivada pela situação de ruptura financeira do país.

Trabalhou no Banco de Portugal no período 1967-1975, tendo sido seu consultor económico entre 1985 e 1989.
Foi embaixador na República Federal da Alemanha no período 1975-1979 e em Bruxelas chefiou as negociações para adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia (CEE) em 1979-1983.

Licenciou-se em Economia em 1964, no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (actual ISEG), Universidade Técnica de Lisboa, e fez o seu doutoramento em Economia em 1982, na Universidade Católica.

Em 1988 criou uma empresa de consultoria em Geopolítica, Estratégia e Competitividade, a Saer, onde nasceu a ideia do investimento na economia do mar para ajudar o país a sair da estagnação económica.
Encomendado pela Associação Comercial de Lisboa, o estudo "O Hypercluster da Economia do Mar" defende que o imenso conjunto de actividades ligadas ao mar podia ser "simultaneamente, uma força propulsora e um catalisador capaz de organizar e dinamizar um conjunto de sectores com elevado potencial de crescimento e inovação e capacidade para atraírem recursos e investimentos, nomeadamente externos, de qualidade".

Recentemente confessou numa entrevista:
"Devo dizer que em 1985, quando fechei o programa com o FMI, jamais me passou pela cabeça que voltasse a haver uma situação como a de hoje. Considerei que era um assunto que em Portugal não se repetiria. Quem estava errado era eu.
O governo de então resolveu o problema, estabilizou a economia e com a adesão
[à CEE] criou perspectivas de desenvolvimento como não havia há meio século. (...) [Mas, desde então] fez-se o contrário do que se devia fazer. (...)
[A situação do país] não tem a ver com taxa de juro, oferta de moeda nem finanças públicas. Tem a ver com qualquer coisa mais importante. Os problemas resolvem-se com estudo e trabalho e não com facilitismo e aldrabice."

Relembramos uma sua intervenção e arquivamos uma amostra dos comentários do Jornal de Negócios e do Público:


dropdead 02 Dezembro 2010 - 11:40
Um homem bom e íntegro
O Dr. Ernâni Lopes foi o homem certo no momento em que o País mais precisou dele, com determinação, humanismo e também um sentido de humor muito próprio. Uma voz moderada, lúcida, relativizando algumas tiradas mais bombásticas que outros pronunciavam, é para mim o exemplo do político de que Portugal precisa.
Tinha uma grande característica como político: não gritava. Os outros, como os actuais PM e o Ministro das Finanças, devem ir buscar ao nível de ruído a convicção que lhes falta para afirmar o que afirmam.
Portugal perdeu um grande homem, um homem bom que cumpriu a sua missão: foi o melhor que sabia e era capaz de ser.


3D 02 Dezembro 2010 - 12:02
Paz à alma do homem...
e o fim aos disparates que disse nos últimos tempos. Um teórico da treta que nunca trabalhou no duro nem percebeu o que é poupança e confiança.


fpessoal 02 Dezembro 2010 - 14:22
Para o 3D: Desapareceu uma mente lúcida
Nos últimos meses tentou abrir os olhos à sociedade portuguesa mas nunca foi ouvido e foi ignorado pelos governantes. Um homem que deixou uma mensagem clara do caminho que os Portugueses têm que percorrer para poderem dar um futuro melhor às futuras gerações.
É uma grande perda para Portugal. Uma perda que passará ao lado do povo anestesiado com as 1001 novelas e dos muitos 3D ignorantes que nunca souberam dar valor a quem realmente o tem.

A melhor forma de o homenagear será assistir aos dois programas do "Plano inclinado" em que nos dá a sua visão lúcida de Portugal, dos políticos e do povo português. Vale a pena investir 2 horas para aprender algo de útil:

31-5-2010 Portugal em 2014 - Economista Prof. Ernâni Lopes



14-6-2010 Sustentabilidade do Fundo de Pensões




Salvador costa 02 Dezembro 2010 - 14:54
"Ernâni Lopes: A lucidez da sabedoria"
1- Ernâni Lopes não era somente um economista respeitado, um ex-governante que teve a difícil missão da negociação da entrada de Portugal na C.E.E. Ernâni Lopes era um homem de cultura, de uma enorme lucidez na análise da situação económica, política e cultural do país e do mundo.
2- O seu exemplo de professor marcou seguramente gerações de alunos.
3- Tinha a virtude da honestidade intelectual e a frontalidade de quem defende valores e convicções.
4- Morreu um Português de valor e de dedicação a Portugal.


Francisco Melo Albino, Portugal. 02.12.2010 14:00
Prof. Ernâni Lopes
A minha modesta homenagem ao meu Professor do Instituto de Estudos Europeus no XV Curso de Pós-graduação e na 1ª edição do Mestrado em Estudos Europeus, tendo o Professor Ernâni Lopes sido o orientador da minha dissertação, nesse Mestrado.
Com ele aprendi muito do que sei hoje e reaprendi noutra perspectiva algumas coisas que já sabia de outro modo. Um Professor muito exigente, enciclopédico no ensino. Para ele, estudar a Europa e a integração europeia, exigia estudar Economia, História, Geoestratégia, Prospectiva, Planeamento, Gestão, Diplomacia, ... Sem isso tudo, entendia o Professor Ernâni Lopes, não se compreenderia nunca o mundo em que vivemos, porque chegámos aqui e onde estaremos daqui a 20 anos...
Portugal deve-lhe muito e oxalá o nosso país fosse capaz de começar a praticar o que nós chamávamos os "7 mandamentos do Professor Ernâni", a saber: estudar, estudar, estudar, trabalhar, trabalhar, trabalhar, trabalhar, como ele repetia incessantemente nas aulas. Esse é o único segredo que nos pode tirar da má situação em que estamos.
Bem haja Professor e descanse em Paz.


Anónimo, Lisboa. 02.12.2010 18:03
Na sala de espera
Perdi a conta às vezes que me cruzei com ele nas salas de espera do IPO.
Lembro-me como sempre me fazia sentir bem a sua presença. Alguém com a sua dimensão humana e intelectual, ali, ao meu lado, a escassas cadeiras de distância, por vezes menos. Esperava, como eu esperava, sentado num hospital público.
Aguardava pacientemente, acompanhado sempre por alguém que imagino ser a sua esposa, que o seu nome fosse chamado no altifalante, momento em que o anonimato, caso dúvidas ainda houvesse, seria totalmente desfeito.
Embora pudesse certamente, como eu posso, comprar um pouco mais de conforto e privacidade num qualquer hospital privado, desses da moda, em que o dinheiro compra tudo menos a vida.
Nunca falei com ele. Mas vou sentir a sua falta na sala de espera.
Até breve Doutor Ernâni Lopes.


Sem comentários:

Enviar um comentário