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sexta-feira, 10 de julho de 2015

A Grécia em default parcial - II b. A proposta de reformas


A última proposta do governo grego cede nas taxas do IVA e nas pensões, mas calendariza pouco e quantifica ainda menos. Nas despesas militares, recusa os cortes exigidos pela troika.
Em troca deste pacote de austeridade, pede um novo empréstimo aos parceiros do euro de "pelo menos" 53,5 mil milhões de euros.




Vejamos um resumo da lista de medidas e promessas que o Governo do Syriza/Anel enviou ontem à noite a Bruxelas:

IVA — O Governo de Atenas já havia cedido na intenção inicial de fixar as receitas adicionais do IVA em 0,74% do PIB, subindo até aos 0,93% na proposta de 26 de Junho. Agora diz que aceita implementar uma reforma no IVA que represente receitas adicionais equivalentes a 1% do PIB, o valor pretendido pelos credores.
  • Na taxa mínima de 6% ficam medicamentos, livros e teatro.
  • Os hotéis passam de uma taxa de 6,5% para 13%, já incluída na proposta de 26 de Junho e aceite pelos credores, sendo que nesta taxa intermédia ficarão também os alimentos básicos, energia e água (excluindo esgotos).
  • Para restaurantes, transportes e tratamento de esgotos a taxa de IVA vai subir dos actuais 13% para 23%.
Quanto ao desconto de 30% na taxa de IVA que beneficia as ilhas, será eliminado mas de forma faseada, com as ilhas mais ricas a serem as primeiras a ficar com a taxa do resto do país e as mais remotas a ficarem isentas. No entanto, o agravamento fiscal nas demais será acompanhado de compensações à população local com impacto fiscal neutro.
As novas taxas de IVA nos hotéis e nas ilhas só serão introduzidas em Outubro, depois de terminada a época alta do turismo.

IRC — Aumento da taxa de IRC de 26% para 28% em 2016, como desejava a troika, mas Atenas admite um agravamento para 29%, se a receita fiscal derrapar.

IRS — A proposta mistura todos os impostos e é vaga nas alterações ao IRS. Diz que pretende introduzir mudanças nos impostos que recaem sobre os automóveis, ganhos de capital, agricultores e trabalhadores por conta própria.
Em 2016, terminarão os subsídios ao gasóleo agrícola e, em 2017, será iniciado o processo de eliminação dos benefícios aos agricultores.
Sobre os privilégios fiscais dos armadores, previstos na constituição grega, o documento diz apenas que devem ser abolidos.
Se a receita fiscal derrapar, aumento das taxas de imposto sobre as famílias de 11% para 15%, para rendimentos inferiores a 12 mil euros, e de 33% para 35% acima desse valor.

Outras taxas e impostos — Introdução de taxa sobre a publicidade na televisão e anúncio de concurso público para a atribuição de licenças de televisão. Alargar o âmbito da aplicação da taxa suplementar sobre iates (com mais de 5 metros), que sobe de 10% para 13%. Aumento das taxas sobre o jogo online.

Pensões — A nova proposta de Atenas antecipa em três anos, para 2022, o fim processo de aumento da idade legal da reforma para os 67 anos, aproximando-se da proposta da troika. O governo grego promete legislar nesse sentido ainda neste mês, com o objectivo de poupar até 0,5% do PIB, ainda em 2015, valor que sobe para 1% em 2016. Promete ainda criar "fortes desincentivos" às reformas antecipadas.
Propõe legislar no sentido de eliminar gradualmente o complemento solidário para idosos — na Grécia chama-se EKAS —, iniciando o processo nos 20% de pensionistas do topo. Pretende concluir esse processo em Dezembro de 2019, tal como pretendido pelos credores. No entanto, quer iniciar essa eliminação apenas a partir de Março de 2016, ao contrário da pretensão da troika de que o processo comece de imediato.
Promete subir as contribuições dos pensionistas para o sistema de saúde de 4% para 6%, em média, incidindo também sobre as pensões complementares.

Função Pública — O Executivo de Atenas prevê a criação de um quadro de mobilidade no último trimestre deste ano. Promete reduzir a massa salarial até 2019, ajustando salários e efectivos a uma meta, mas não quantifica.
Promete alinhar os suplementos salariais — acordos de licença, ajudas de custo, subsídios de deslocação e regalias — com as melhores práticas da União Europeia, a partir de Janeiro de 2016.

Defesa — Nas despesas militares, a proposta do Governo grego propõe cortes de 100 milhões de euros em 2015 e de 200 milhões em 2016, recusando ceder aos credores que exigiam poupanças de 400 milhões. Os cortes de custos serão obtidos através da redução do número de efectivos e das compras.

Combate à corrupção — Atenas promete publicar um plano estratégico contra a corrupção até ao final do mês de Julho e alterar a legislação de declaração de rendimentos e financiamentos dos partidos políticos. Promete combater o contrabando de combustíveis e fraudes no IVA e promover os pagamentos electrónicos.

Reformas estruturais — O Governo grego compromete-se a implementar uma série de reformas em diversas áreas com a colaboração da OCDE: reforma do Estado e da sua relação com empresas públicas e fornecedores, aumento da regulação, das auditorias e da transparência.
A saúde e as obras públicas são áreas prioritárias onde o Governo grego promete combater o desperdício e a corrupção.
Também na administração fiscal — um dos maiores problemas da Grécia é a forte fuga aos impostos — o Governo promete implementar reformas, inclusive criar uma agência autónoma para cobrar impostos.

Sector financeiro — Alterações nas leis de insolvência, com o objectivo de incentivar o pagamento de dívidas, e medidas para atrair investidores estrangeiros.

Privatizações — O governo grego admite avançar não só com as privatizações que estão em curso, como também com as que estão previstas, e não mexer nos respectivos cadernos de encargo.
Admitem agora avançar com a privatização da rede eléctrica (ADMIE), como pretende a troika, mas acrescentam que poderão apresentar uma alternativa "com resultados equivalentes em termos de concorrência" até Outubro deste ano.
O Governo grego também promete alienar os activos pertencentes ao fundo de desenvolvimento helénico (HRADF), para onde se prevê que seja transferida a participação estatal no operador de telecomunicações OTE.

Metas orçamentais — A proposta mantém o compromisso de apresentar excedentes orçamentais primários (receitas superiores às despesas, excluindo o serviço da dívida) equivalentes a 1%, 2%, 3% e 3,5% do PIB para os anos compreendidos entre 2015 e 2018.


O que foi já feito para aliviar a dívida grega?

A Grécia obteve em 2012 o maior perdão de dívida detida por privados de que há registo, depois de bancos e casas de investimento terem aceite um corte (hair-cut) de 53,5% no valor nominal das obrigações do tesouro vendidas pelo Estado helénico.

Os Estados-membros da Zona Euro nunca aceitaram perdoar dívida. Contudo, já aliviaram por duas vezes as condições de reembolso dos empréstimos a Atenas e, em Novembro de 2012, admitiram voltar a fazê-lo, de novo, se os governos gregos cumprissem o programa de ajustamento acordado, o que o governo do Syriza recusou fazer a partir do início deste ano.

As taxas de juro cobradas à Grécia são praticamente iguais à taxa a que o FEEF, o fundo de resgate do euro (que tem rating máximo), consegue financiamento nos mercados, tendo sido oferecido um prazo de carência de 10 anos para o pagamento de juros, ou seja, a Grécia só pagará o primeiro euro de juros aos europeus em 2022.

Ao mesmo tempo, os prazos de maturidade dos empréstimos foram prolongados para cerca de 30 anos. Trata-se de condições mais favoráveis do que as aplicadas aos outros países do euro que foram resgatados — Irlanda, Portugal e Chipre.





*


O governo liderado por Alexis Tsipras pretende receber 53,5 mil milhões numa mão enquanto estende a outra mão cheia de promessas para começar a cumprir em 2016, um ano depois de terem sido eleitos.

Mexer nos privilégios fiscais dos armadores gregos? Fica a intenção, sem data marcada.
Reduzir em 400 milhões as despesas militares? Nem pensar, possivelmente metade disso, e só lá para o próximo ano.
Combate à corrupção? Até os partidos recebem empréstimos da banca, que é pública, Syriza incluído, e nada fizeram sobre o maior problema da sociedade grega. Agora vão congeminar um plano estratégico que talvez seja publicado no final de Julho, seis meses depois de terem sido eleitos.
Incompetência, fraqueza e hipocrisia. Cedência em toda a linha aos interesses instalados na Grécia.

Qual vai ser a reacção dos líderes da Zona Euro? Já se sabe que François Hollande aceita a proposta grega e Angela Merkel, entalada entre Obama e Hollande, não tem outro remédio senão condescender.

Depois da insensata revolução democrática conduzida por políticos franceses, ingleses e americanos que levaram à destruição da paz na Síria e da estabilidade social e política nos países do Norte de África, todos percebemos a importância geopolítica da fronteira Sul da Europa.
Merkel foi a primeira a compreender. A Alemanha não colaborou nas operações militares da NATO para derrubar Gaddafi quando este já deixara, há muito tempo, de proteger o terrorismo.

Dos quatro países europeus meridionais, a Grécia destaca-se como o paredão de defesa dos países europeus centrais, não só contra a perigosa imigração islâmica africana, mas também asiática através do conturbado médio oriente.
Dos russos, desconfiam Barack Obama, a traumatizada Merkel, que nasceu, cresceu e viveu mais de 40 anos no território alemão situado para além da cortina de ferro, e os países bálticos.

A União Europeia precisa de velar pelos gregos para que não façam demasiadas asneiras e deixem o País derrapar para uma situação caótica que abra brechas na segurança europeia.
No entanto, aceitar chantagens nunca resolveu problemas. É preciso que os gregos entendam que têm de cumprir as regras da Zona Euro e não podem exigir aos parceiros do euro um tratamento privilegiado em detrimento das populações dos países bálticos — Estónia, Letónia e Lituânia —, da Eslováquia e de Portugal que têm salários mínimos e pensões mais baixos.

Nas longas filas para levantar 60 euros nas caixas multibanco, os gregos começavam a entender. Se esta proposta — cheia de promessas que o governo de Tsipras, apoiado na estrondosa vitória do 'não' no referendo, não tem a mínima intenção de cumprir — for aceite na reunião de amanhã dos ministros das Finanças da Zona Euro, o problema grego vai renascer aquando da primeira avaliação da troika ao cumprimento do memorando que posteriormente será assinado.

Que esperança podem ter os povos europeus de deixarem de ser explorados pelas elites privilegiadas que pululam na sociedade helénica?
O peso dos países que têm um nível de vida inferior ao dos gregos não será suficiente, por si só, para refrear as artimanhas gregas.
Todavia há países da Zona Euro que prevêem a necessidade de aprovação parlamentar antes de haver a negociação formal sobre o memorando de entendimento — Alemanha, Áustria, Finlândia, Holanda e Estónia (Eslováquia não requer aprovação parlamentar). Portanto podem contar ainda com a oposição dos políticos finlandeses, holandeses e alemães, sobretudo, do fisicamente deficiente, mas intelectualmente vigoroso ministro das Finanças alemão.

Wolfgang Schäuble tornou-se o paladino dos contribuintes europeus que querem acabar com a exploração helénica e está a enfrentar corajosamente os americanos, assim como Christine Lagarde que se passou para o lado de Obama, apesar deste se ter recusado nos últimos anos a contribuir financeiramente para o FMI.
Tal como a directora do FMI, Schäuble defende a reestruturação da dívida grega mas à custa de um perdão pago... pelos gregos de maiores rendimentos e pela venda dos activos na posse do Estado helénico.

Por este caminho, ainda vamos ver uma manifestação de apoio dos ricos armadores gregos ao Syriza. É algo inacreditável ver a esquerda europeia a defender os contribuintes ricos da Grécia e a direita a pugnar para que os fundos europeus alimentados pelos contribuintes dos restantes 18 países do euro, alguns mais pobres que a Grécia, não caiam dentro dos bolsos das elites gregas. Estamos a assistir a uma completa inversão de valores políticos na Europa.





domingo, 28 de junho de 2015

A Grécia à beira da bancarrota - III e. O esclarecimento de Lagarde


A directora-geral do FMI, Christine Lagarde, afirmou que o referendo na Grécia deixa de fazer sentido com o fim do resgate na terça-feira.

"Não posso falar pelo programa do FMI, porque o programa do FMI continua válido, mas o resgate financeiro europeu expira a 30 de Junho. Portanto, pelo menos do ponto de vista legal, o referendo terá a ver com propostas e acordos que já não são válidos. É uma questão legal", afirmou Lagarde hoje, em entrevista à BBC.

Christine Lagarde acrescentou que a Grécia deixará de ter acesso a qualquer financiamento dos países que constituem o FMI, se não reembolsar os 1,6 mil milhões de euros com vencimento em 30 de Junho até às 18:00 em Washington (23:00 em Lisboa), tendo explicado o motivo:
"É dinheiro que é devido à comunidade internacional, incluindo povos que têm um nível de vida inferior ao dos gregos, e espero que esse pagamento seja feito na terça-feira até às 18:00 (tempo de Washington). Se não for pago, isso significa que a Grécia continua a ser um membro do FMI, a ser representada na administração, a beneficiar de assistência técnica mas não posso continuar a emprestar mais dinheiro em benefício da Grécia."


*

Alexis Tsipras chegou ao poder num País com uma enorme dívida mas com superavit primário, ou seja, as receitas já cobriam as despesas do Estado sem contabilizar os juros. Portanto se os credores perdessem o dinheiro emprestado, os gregos podiam criar nova dívida e regressar ao nível de vida que usufruíam antes do resgate e o Syriza eternizar-se-ia no poder.

Era uma táctica inteligente mas prejudicava gravemente as populações dos países pertencentes ao FMI que contribuíram com verbas para emprestar aos países europeus então sob resgate — Grécia, Irlanda e Portugal. O FMI, como lhe competia, defendeu os interesses dos credores, de modo que a artimanha grega não vai funcionar.

Em Fevereiro, o Governo liderado por Tsipras recebeu um prolongamento por quatro meses do programa de resgate, a terminar no último dia de Junho. Dia em que, recentemente, pediu para juntar os pagamentos ao FMI devidos em diferentes dias desse mês. Teve tempo de sobra para preparar o referendo onde seria perguntado aos gregos se aceitavam a última proposta do Eurogrupo. Esse referendo deveria estar a decorrer hoje. Mas não está.

Na verdade, Tsipras pretende conduzir a Grécia para fora do Euro mas, como a economia grega vive, em larga medida, dos turistas oriundos dos países da Zona Euro, precisava de tempo para conseguir que os gregos aceitem a ideia.
Um referendo sobre uma proposta dos credores que expira em 30 de Junho e, por isso, sem valor legal em 5 de Julho, permitir-lhe-ia esticar o prazo, além de lavar as mãos como Pôncio Pilatos. A maior parte dos eleitores gregos nem vai perceber que se está a pronunciar sobre uma proposta de acordo que já não existe.

É a grande vantagem da democracia: o povo fica com a responsabilidade, embora muitas vezes nem tenha a noção das consequências da escolha que faz com o seu voto, e os políticos livres como passarinhos.
Lembremos as palavras do filósofo francês Jean-Jacques Rousseau, no Contrato Social, sobre esta forma de governo: "Se houvesse um povo de deuses, esse povo se governaria democraticamente. Um governo tão aperfeiçoado não convém aos humanos."
Temos de procurar informação em fontes fidedignas antes de tomarmos decisões para não nos deixarmos manipular por políticos interessados unicamente em usufruir as regalias inerentes ao exercício do poder.

Se, no referendo, os gregos aceitassem o acordo, Tsipras diria que era preciso continuar as negociações porque o acordo já não era válido. Os gregos habituavam-se a não cumprir os prazos de pagamento dos empréstimos e os outros países adaptavam-se aos calotes gregos. Era uma ideia fantástica: com o decorrer do tempo adquiriam o direito de não pagar. Jogaram e perderam. É a vida.

Outras reacções à notícia no Negócios:

a
10:24
A união europeia com isto mostra que lhe falta muito para ser democrata. Só lhes ficava bem dar mais 5 dias pois assim estão a mostrar que isto não é uma negociação mas sim um ultimato encoberto.

Anónimo
11:02
Um referendo de boa fé, devia ter programado para hoje e não dia 5 de Julho. É mais uma manobra!

Anónimo
11:18
O Programa da UE terminava em Fevereiro, foi prolongado até 30 de Junho, exactamente para "dar tempo" aos Gregos e agora este "salto-mortal"? A esquerdalhada funciona assim, viram o texto-ao-contrário e andam permanentemnete em "manobras de esquivar-se" e no fim atacam pelas costas!

litos335
13:34
Com a recusa em aceitar condições, com o fim do actual resgate em 30 deste mês, com a falta de pagamento em Julho ao BCE e entrada em default, resta à Grécia começar desde já a imprimir novos Dracmas para poder pagar vencimentos e pensões.
Ninguém corre com a Grécia. A Grécia sai pelo seu pé, porque não tem condições de permanência e os 18 não estão dispostos a continuar a engordar a Dívida Grega sem esperança de voltar a ver os euros emprestados.


terça-feira, 23 de junho de 2015

A Grécia à beira da bancarrota - III a. Inicia-se a semana final


Na segunda-feira, o Governo grego apresentou uma nova proposta de reformas assente quase exclusivamente em aumentos de impostos e subida das contribuições para a Segurança Social.
As medidas estão discriminadas aqui e o impacto que terão no orçamento grego foi resumido neste quadro:



O aumento das receitas ascendia a cerca de 8 mil milhões de euros e a proposta provocou alvoroço na Zona Euro, tendo recebido rasgados elogios dos seus líderes.
Christine Lagarde foi o único líder mundial que não se deixou impressionar, não tendo embarcado nos encómios.

Sabendo que os gregos com condições para pagar impostos recorrem a todas as artimanhas para não o fazerem e que a máquina fiscal grega é ineficiente e corrupta, esta proposta grega só devia ter merecido um sorriso amarelo. Além de que o aumento da taxa de IRC para 29%, num país exangue pela fuga de capitais — segundo o banco central, desde Outubro foram retirados cerca de 30 mil milhões de euros dos bancos gregos — só vai afastar para bem longe o investimento privado.

Denota lucidez o jornalista que escreveu este artigo de opinião premonitório que transcrevemos com a devida vénia:


"A farsa da Grécia"
23 Junho 2015, 19:50 por João Carlos Barradas

"Actuam como farsantes no meio de uma tragédia os líderes europeus que fingem acreditar nas promessas de última hora chegadas de Atenas para adiar a bancarrota da Grécia.

Para começar, as propostas de Alexis Tsipras só serão aprovadas pelo parlamento de Atenas, nos termos divulgados terça-feira, com apoio da oposição conservadora e socialista à custa de cisões no Syriza e, eventualmente, do fim da coligação com os xenófobos de extrema-direita Gregos Independentes.

Admitindo que o pacote austeritárito de Tsipras sobreviva a uma crise governamental, o calendário do processo legislativo grego impossibilita que Atenas aprove legislação atempadamente para honrar os seus compromissos a 30 de Junho.

Christine Lagarde terá, então, de admitir um período de graça de 30 dias após a Grécia falhar o pagamento de 1,6 mil milhões de euros ao FMI ou os credores estão condenados a adiantar 7,2 mil milhões de euros sem garantias legais.

Recessão e fantasia

As receitas estimadas do aumento de impostos — em especial do IVA, eliminando ainda regimes de excepção em ilhas do Egeu, e do IRC — implicam um acto de fé na administração fiscal grega que se caracteriza pela ineficácia e altos níveis de corrupção.

O acréscimo de contribuições para a segurança social — que com o agravamento da carga fiscal geraria presumivelmente receitas e poupanças (sendo vaga a diferença entre o poupar e o ganho) de 2,7 mil milhões de euros este ano e 5,2 mil milhões de euros em 2016 — redundaria, de facto, em maior incentivo à expansão da economia paralela.

O consequente penar e agravar das condições de subsistência, sobretudo entre mais de um milhão de reformados com pensões inferiores a 665€/mês, alastraria a mancha de pobreza que flagela mais de 30% da população.

A opção pela supressão gradual de reformas antecipadas antes dos 67 anos até 2025 é sinal de óbvia incapacidade política de reforma de um sistema insustentável, por quebra demográfica e redução de rendimentos, em que o pagamento de pensões equivale a 16% do PIB.

Um excedente orçamental primário de 1% em 2015 ou de 2% em 2016 só será possível agravando níveis económica e socialmente incomportáveis de congelamento e redução do investimento e despesa públicas.

Pagam os outros

As excepcionalmente favoráveis taxas de juros e prazos de maturidade (só a partir de 2022 Atenas começará a pagar o grosso da dívida aos parceiros europeus) tornam difícil um perdão que, de uma forma ou doutra, será concretizado à custa dos demais países do euro.

Nos países de rendimentos "per capita" inferiores à Grécia, caso, por exemplo da Eslováquia ou Letónia, é insuportável levar eleitores/contribuintes a sustentar um Estado grego viciado no financiamento externo a fundo perdido de taras clientelistas.

Para Portugal uma exposição de 4,6 mil milhões de euros, segundo estimativa do Barclays Bank, é de ter em conta para efeitos de eventual bancarrota helénica ou reestruturação de dívida.

O pagamento da dívida de 317 mil milhões de euros, equivalente a 180% do PIB, é inviável sem crescimento económico e por baixa competitividade na venda ao exterior de bens e serviços, a Grécia (apesar de reduções nominais e reais de salários) revela não ter condições para subsistir na Zona Euro.

A banca helénica, exangue pelos temores de depositantes, está em vias de esgotar as garantias devidas ao BCE e tão cedo não terá condições de injectar crédito a empresas, autarquias e particulares.

A promessa de financiamentos de 35 mil milhões de euros da Comissão Europeia para investimentos em infra-estruturas e projectos a longo prazo é irrelevante para obviar à contracção da economia grega agravada pela deflação.

Desmanchar a tenda

A farsa começou em 2001 quando a Grécia adoptou o euro graças a uma contabilidade nacional fraudulenta com conhecimento e conivência da Alemanha e França e aquiscência dos demais parceiros.

Agora, expostas as taras políticas e económicas da moeda única numa conjuntura em que voltam à discussão propostas para federalização política de forma a sustentar o euro, tornou-se incontornável o choque entre soberanias nacionais.

A Grécia — arruinada por conservadores, socialistas e extremistas de esquerda e direita — chegou ao fim da linha.

Tentar manter Atenas na moeda única pesa ainda mais do que arrostar com os tremendos custos que vai acarretar a sua queda borda fora da Zona Euro."


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Eurogrupo dá mais quatro meses à Grécia


Os ministros das Finanças da zona Euro acordaram, em princípio, estender o programa de resgate da Grécia por quatro meses, para evitar uma crise de liquidez em Março que forçaria o país a sair do euro.

Obtido apenas na terceira reunião do Eurogrupo em dez dias, o acordo exige que, na próxima segunda-feira, o governo grego apresente uma carta ao Eurogrupo listando todas as medidas políticas que pretende tomar durante o restante período do resgate, para garantir que vai cumprir as condições do mesmo.

Se a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o FMI ficarem satisfeitos, os Estados-membros da Zona Euro vão ratificar a prorrogação, quando necessário através dos seus parlamentos, como lembrou o ministro das Finanças irlandês Michael Noonan:
"É um importante primeiro passo que esperamos que venha a conduzir a uma segunda etapa de sucesso na noite de segunda/manhã de terça-feira, mas depois há uma terceira etapa com as ratificações nos parlamentos [da Alemanha, Holanda, Estónia e Eslováquia]."

A firmeza dos outros 18 Estados-membros da zona Euro, que cerraram fileiras contra as pretensões do governo grego em beneficiar de financiamento europeu mas sem contrapartidas, isolou o primeiro-ministro radical Alexis Tsipras e forçou-o a um grande recuo político uma vez que ele havia prometido acabar com o programa de resgate, terminar a cooperação com a troika de credores internacionais e reverter a austeridade.

Todavia terá sido o conselho de governadores do Banco Central Europeu (BCE), que anteontem se reuniu para avaliar novamente a linha de liquidez de emergência (ELA) concedida aos bancos gregos, quem exerceu a pressão decisiva sobre o governo grego. Ao alterar de 65 para 68,3 mil milhões de euros o limite dos fundos disponibilizados, uma subida muito inferior aos 10 mil milhões de euros solicitados pela banca helénica para poder suportar a enorme fuga de depósitos, deixou os bancos na iminência de falirem no curto prazo.
Por sua vez o Mecanismo Único de Supervisão, o regulador para a banca europeia, alertou os bancos gregos para não emprestarem dinheiro às entidades públicas porque os tratados europeus não permitem que o programa ELA seja usado para financiar directamente os Estados-membros.

Confrontado com a exigência de um compromisso claro até ao final da semana, o ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, enviou esta carta ao seu homologo holandês, Jeroen Dijsselbloem, presidente do Eurogrupo, pretendendo que a resposta dos seus colegas fosse apenas "sim", ou "não", e dada em reunião por teleconferência (negrito é meu):

Atenas, 18 de Fevereiro de 2015

Caro Presidente do Eurogrupo,

Ao longo dos últimos cinco anos, o povo da Grécia realizou esforços notáveis de ajustamento económico. O novo Governo está empenhado num processo de reforma mais amplo e profundo que visa melhorar de forma duradoura o crescimento e as perspectivas de emprego, alcançar a sustentabilidade da dívida e a estabilidade financeira, aumentando a equidade social e atenuando o custo social significativo da crise em curso.

As autoridades gregas reconhecem que os procedimentos acordados pelos Governos anteriores foram interrompidos pelas recentes eleições presidenciais e legislativas, e que, em resultado, várias disposições técnicas foram invalidadas. As autoridades gregas honram as obrigações financeiras da Grécia para com todos os seus credores, assim como afirmam a nossa intenção de cooperar com os nossos parceiros, a fim de evitar obstáculos técnicos no âmbito do Acordo-Quadro que reconhecemos como obrigatório no que diz respeito às suas disposições financeiras e processuais.

Neste contexto, as autoridades gregas estão agora a pedir a prorrogação do Acordo-Quadro de Assistência Financeira para um período de seis meses, a contar após a sua conclusão, período durante o qual vamos proceder em conjunto, e fazendo o melhor uso da flexibilidade dada pelo actual plano, com vista à sua conclusão bem-sucedida e avaliação com base nas propostas de, por um lado, o governo grego e, por outro, as instituições.

O objectivo da prorrogação solicitada de seis meses da duração do Acordo é:

a) Chegar a acordo sobre os termos financeiros e administrativos cuja implementação, em colaboração com as instituições, estabilizará a posição orçamental da Grécia, atingindo excedentes primários apropriados, garantindo a estabilidade da dívida e apoiando a realização dos objectivos orçamentais para 2015, tendo em conta a actual situação económica.

b) Assegurar, em estreita colaboração com os nossos parceiros europeus e internacionais, que quaisquer novas medidas serão totalmente financiadas, e ao mesmo tempo abster-se de acções unilaterais que prejudiquem as metas orçamentais, a recuperação económica e a estabilidade financeira.

c) Permitir ao Banco Central Europeu reintroduzir a cláusula de excepção [para as obrigações do tesouro gregas] de acordo com seus procedimentos e regulamentos.

d) Prolongar a disponibilidade das obrigações do FEEF [Fundo Europeu de Estabilização Financeira que financia em nome da zona Euro], que estão na posse do HFSF [Fundo Helénico de Estabilização Financeira], durante a vigência do Acordo.

e) Iniciar as conversações técnicas com vista à assinatura de um novo Contrato para a Recuperação e Crescimento [terceiro resgate] que as autoridades gregas desejam entre a Grécia, a Europa e o FMI, para dar seguimento ao actual Acordo.

f) Chegar a acordo sobre a supervisão no quadro da UE e do BCE e, no mesmo espírito, com o FMI durante o período alargado do Acordo.

g) Discutir o modo de desencadear a decisão do Eurogrupo de Novembro de 2012 relativamente a novas possíveis medidas sobre a dívida e a assistência para a implementação após a conclusão do Acordo prorrogado e enquanto parte do Contrato de acompanhamento [mecanismos de alívio de dívida previstos desde 2012].

Com o acima referido em mente, o governo grego exprime a sua determinação em cooperar estreitamente com as instituições da União Europeia e com o Fundo Monetário Internacional, de modo a: a) atingir a estabilidade orçamental e financeira, e b) permitir ao governo grego introduzir reformas substantivas e de longo alcance que são necessárias para restaurar os padrões de vida de milhões de cidadãos gregos através de um crescimento económico sustentável, emprego produtivo e coesão social.

Atenciosamente,
Yanis Varoufakis
Ministro das Finanças
Grécia


Depois de Atenas ter enviado a Bruxelas este pedido de prorrogação de seis meses, o ministro grego do Trabalho, Panos Skourletis, desvalorizou o pedido, afirmando que apenas estava em jogo o contrato de empréstimo assinado com a zona Euro: "O pedido é referente à extensão do acordo de empréstimo, não é para o programa de assistência em curso."

Vários países do euro ficaram descontentes com as declarações contraditórias das autoridades gregas e mostraram-se dispostos a deixar sair a Grécia da moeda única.

"A zona Euro está, certamente, mais estável e mais forte do que há cinco anos, pelo que a eventualidade hipotética de um dos seus membros sair deverá ter pouco impacto", disse o ministro estónio das Finanças, Maris Lauri, que fez notar que a Grécia não cairia na insolvência, se não quiser uma extensão do resgate europeu, pois obteve um superavit em 2014. Contudo, acrescentou, o país teria de passar a viver por conta própria.

O primeiro-ministro eslovaco Robert Fico, em entrevista ao Finantial Times, também disse que a Eslováquia encarava com "calma" a eventualidade da Grécia sair da zona Euro, se o país se recusasse a honrar os seus compromissos, tendo acrescentado ser "impossível" explicar aos eslovacos que tinham de pagar salários e pensões na Grécia.

Hoje, de manhã, foi a vez do ministro das Finanças de Malta, Edward Scicluna, dizer horas antes da reunião do Eurogrupo: "Penso que chegámos agora a um ponto em que vão dizer à Grécia 'se querem realmente sair, saiam'. E penso que eles vão levar isto a sério, porque a Alemanha, Holanda e outros vão ser duros e vão insistir que a Grécia pague de volta a solidariedade demonstrada pelos Estados-membros ao respeitar as condições."
O ministro de Malta criticou também o método de actuação de Alexis Tsipras e de Yanis Varoufakis: "Infelizmente para a Grécia, eles não sabem as regras e como o Eurogrupo trabalha. Eles são completamente novos e isso é negativo para eles."

Mas o aviso mais forte veio de Berlim, quando porta-voz de Wolfgang Schäuble considerou que a carta de Atenas não verificava os critérios acordados pelo Eurogrupo na segunda-feira, indo noutra direcção: “Na verdade, vai na direcção de um financiamento intercalar sem responder às exigências do programa [de ajustamento].”

Os esclarecimentos necessários exigiram o adiamento da reunião dos ministros das Finanças da zona Euro para as 16h30, em Bruxelas, para se poder realizar um encontro entre o ministro grego, Yanis Varoufakis, o homólogo alemão, Wolfgang Schäuble, o comissário europeu dos Assuntos Económicos, o francês Pierre Moscovici, a directora-geral do Fundo Monetário Internacional, Christine Lagarde, e o presidente do Eurogrupo, Jeroem Dijsselbloem.
O acordo aí delineado foi depois apresentado na reunião do Eurogrupo, tendo merecido a concordância de todos os ministros das Finanças. Pelas 20h começaram as conferências de imprensa e uma hora depois era divulgada a declaração do Eurogrupo (negrito é meu):

O Eurogrupo reitera o seu apreço pelos esforços de ajustamento notáveis realizados pela Grécia e pelo povo grego ao longo dos últimos anos. Durante as últimas semanas, envolvemo-nos, em conjunto com as instituições [Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI], num diálogo intenso e construtivo com as novas autoridades gregas e atingimos hoje uma base comum.

O Eurogrupo toma nota, no âmbito do acordo existente, do pedido das autoridades gregas para uma prorrogação do Acordo-Quadro de Assistência Financeira (MFFA), que é sustentado por um conjunto de compromissos. O objectivo da prorrogação é a conclusão com êxito da avaliação [do programa grego] com base nas condições do actual acordo, fazendo o melhor uso da flexibilidade que será considerada em conjunto com as autoridades gregas e as instituições. Esta extensão também serve de ponte no tempo para discussão de um possível acordo de acompanhamento entre o Eurogrupo, as instituições e a Grécia.

As autoridades gregas vão apresentar uma primeira lista de medidas de reforma, com base no actual acordo, até o final de segunda-feira, 23 de Fevereiro. As instituições vão fazer uma primeira análise sobre se esta é suficientemente abrangente para ser um ponto de partida válido para uma conclusão com êxito da avaliação. Esta lista será melhor especificada, e então alvo de acordo com as instituições, até ao final de Abril.

Apenas a aprovação da avaliação final do acordo prorrogado por parte das instituições, permitirá qualquer desembolso da parcela remanescente [7,2 mil milhões de euros] do actual Programa FEEF e a transferência dos lucros [1,9 mil milhões de euros] de 2014 do SMP [programa de compra de valores mobiliários]. Ambos ficam novamente sujeitos à aprovação pelo Eurogrupo.

Tendo em vista a avaliação das instituições, o Eurogrupo chegou a acordo que os fundos, até agora disponíveis no buffer FHEF [Fundo Helénico de Estabilização Financeira] [11 mil milhões de euros], devem ser confiados ao FEEF [Fundo Europeu de Estabilização Financeira], livres de direitos de terceiros para o período de extensão do MFFA. Os fundos continuam a estar disponíveis para o período de extensão do MFFA e só podem ser usados para custos de recapitalização e resolução da banca. Só serão libertados a pedido do BCE/SSM [Mecanismo Único de Supervisão].

Nesta perspectiva, congratulamo-nos com o compromisso das autoridades gregas de trabalhar em estreita parceria com instituições e parceiros europeus e internacionais. Neste contexto, recordamos a independência do Banco Central Europeu. Também concordámos que o FMI vai continuar a desempenhar a sua função.

As autoridades gregas expressaram o forte compromisso com um processo de reforma estrutural mais ampla e profunda que visa melhorar de forma duradoura o crescimento e as perspectivas de emprego, garantindo a estabilidade e resiliência do sector financeiro, e melhorar a equidade social. As autoridades comprometem-se a implementar reformas há muito necessárias para combater a corrupção e a evasão fiscal e melhorar a eficiência do sector público. Neste contexto, as autoridades gregas comprometem-se a fazer o melhor uso do prosseguimento da prestação de assistência técnica.

As autoridades gregas reiteram o seu compromisso inequívoco de honrarem plena e atempadamente as obrigações financeiras para com todos os seus credores.

As autoridades gregas também se comprometeram a garantir o superavit orçamental primário [saldo positivo sem os juros da dívida] adequado ou os recursos de financiamento necessários para garantir a sustentabilidade da dívida, de acordo com a declaração do Eurogrupo de Novembro de 2012. As instituições, para a meta de superavit primário de 2015, vão tomar em consideração as circunstâncias económicas em 2015.

À luz desses compromissos, congratulamo-nos que, numa série de áreas as prioridades políticas gregas podem contribuir para um reforço e uma melhor aplicação do actual acordo. As autoridades gregas comprometem-se a abster-se de qualquer reversão de medidas e alterações unilaterais de políticas e reformas estruturais que teriam um impacto negativo nas metas orçamentais, na recuperação económica ou na estabilidade financeira, tal como avaliadas pelas instituições.

Com base no pedido, nos compromissos assumidos pelas autoridades gregas, no parecer das instituições, e no acordo de hoje, vamos lançar os procedimentos nacionais com vista a chegar a uma decisão final sobre a extensão do actual Acordo-Quadro de Assistência Financeira do FEEF para quatro meses, pelo Conselho de Administração do FEEF. Também convidamos as instituições e as autoridades gregas a retomarem imediatamente o trabalho que permitiria a conclusão bem-sucedida da avaliação.

Continuamos empenhados em fornecer um apoio adequado à Grécia até que recupere o acesso total ao mercado, desde que respeite os seus compromissos no horizonte acordado.

Friday, February 20, 2015 - 01:48
Excerto das duas conferências de imprensa, a da troika com Christine Lagarde (FMI), Pierre Moscovici (Comissão Europeia) e o representante do Banco Central Europeu, com Jeroem Dijsselbloem (Eurogrupo) entre estes últimos, e a do ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis.

20/02/2015 - 22:07


*


Ficam assim adiadas as promessas que permitiram ao Syriza ganhar as eleições legislativas gregas em 25 de Janeiro — em especial, as subidas do salário mínimo grego para 876 euros e do limiar de pagamento de IRS para 12.000 euros —, bem como o recente perdão fiscal (que anularia 90% dos 76 mil milhões de euros que os gregos devem ao fisco e à segurança social) para quando conseguirem derrotar a corrupção e a tradicional evasão fiscal grega.

O governo de Alexis Tsipras vai ficar o fim-de-semana prolongado (segunda-feira é feriado na Grécia) a fazer um trabalho de casa que será avaliado na próxima terça-feira pela Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI, ou seja, pelas equipas técnicas lideradas por Jean-Claude Juncker, Mario Draghi e Christine Lagarde e, se passar neste exame técnico, será aprovado pelos restantes 18 ministros das Finanças da zona Euro na reunião do Eurogrupo.

Não é um trabalho nada fácil: têm de elaborar uma lista de medidas de reforma de modo a manter este ano o superavit primário (saldo positivo, não contabilizando os juros da dívida) alcançado pelo governo de Antonis Samaras em 2014. Se as instituições julgarem que as reformas apresentadas pelo governo grego não cumprem o princípio de se compensarem financeiramente, para não colocar os objectivos orçamentais e de competitividade da economia em causa, “a Grécia estará em apuros e este acordo morto e enterrado”, reconheceu o próprio Yanis Varoufakis.
No entanto, o governo grego pode contar com o apoio técnico da troika CE/BCE/FMI para fazer o trabalho de casa...



Se o governo grego for capaz de passar nos exames técnicos de 24 de Fevereiro e do final de Abril, tem uma terceira etapa para ultrapassar logo a seguir. É que, em vez do prolongamento de seis meses pedido por Varoufakis, foram dados apenas quatro meses, o que coloca o final da vigência do empréstimo antes das amortizações de obrigações do tesouro previstas para Julho e Agosto, num total de cerca de 7 mil milhões de euros. E, ao contrário dos bilhetes do tesouro que podem ser pagos com a emissão de novos bilhetes, as obrigações do tesouro e a dívida ao FMI só podem ser amortizadas com o apoio dos parceiros europeus.

Além disso, ficou decidido que os 11 mil milhões de euros que estavam na posse da Grécia para capitalizar os seus bancos vão regressar ao FEEF, o fundo europeu de estabilização financeira. “É para garantir que não é usado pelo Estado”, explicou o presidente do Eurogrupo, Jeroem Dijsselbloem, com uma sinceridade desarmante.
No caso de Portugal, a parte não usada do montante destinado à banca permaneceu em Lisboa, mesmo depois do fim do programa.

A questão do BCE ter deixado de aceitar as obrigações do tesouro gregas como colateral para ceder liquidez aos bancos não foi abordada por ser uma instituição independente do Eurogrupo. Estas obrigações têm notação de 'lixo' das quatro grandes agências de rating mas beneficiavam de uma cláusula de excepção que foi retirada pelo BCE no início deste ano porque não tinha a garantia de que o programa de assistência grego, supervisionado por uma troika de instituições de que fazia parte, vai terminar com sucesso.

Em Março de 1985, a Grécia exigiu como contrapartida para aceitar a entrada de Portugal e de Espanha na CEE “um auxílio adicional no quadro das verbas para os PIM [ajuda às regiões mais desfavorecidas]: “dois mil milhões de dólares (cerca de 350 milhões de contos)”. Qualquer coisa como 1750 milhões de euros.
Desta vez foi servido aos gregos o prato frio (parece que foi quente) da vingança por Maria Luís Albuquerque que defendeu como uma leoa os 5000 milhões que, entre empréstimos e garantias, devem a Portugal.
Há 30 anos com o socialista PASOK, hoje com o socialista radical Syriza, os gregos lá vão mungindo a vaquinha europeia.


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

O programa de Governo de Alexis Tsipras


O programa de Governo anunciado pelo primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, foi copiado do programa de Tessalónica que o Syriza apresentou aos eleitores gregos. Grande parte das medidas carece de quantificação realista e é rara a calendarização.

Vejamos um resumo:

  • Restaurar o limiar do IRS de 12.000 euros por ano. Quem ganhar menos fica isento do pagamento de impostos — o tecto de isenção actual é 5000 euros.

  • Substituir o imposto unificado sobre os imóveis (ENFIA) por um novo imposto dirigido aos grandes proprietários (Igreja Ortodoxa também?)

  • Restaurar o salário mínimo universal — valor actual 586 euros (510 euros para menores de vinte e cinco anos) — de 751 euros até 2016.

  • Restituir o subsídio de Natal aos pensionistas que recebem menos de 700 euros por mês: vão receber um 13º cheque mensal.

  • Restaurar as convenções colectivas seguindo recomendações do conselho da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

  • Prolongar a proibição actual de penhoras sobre a primeira habitação.

  • Suspender das privatizações, mas as concessões podem ser alargadas quando forem de interesse nacional.

  • Alterar a legislação para permitir ao Fundo Helénico de Estabilização Financeira (HFSF) exercer o pleno direito de voto, sem restrições, na gestão de bancos recapitalizados.

  • Introduzir um novo sistema fiscal "estável, simples e justo" — em particular, eliminando o imposto especial na electricidade — e combater a evasão fiscal e a corrupção.

  • Introduzir uma reforma global do sector público grego.

  • Vender metade da frota automóvel — 7500 veículos, incluindo um carro de 700 mil euros — e um dos 3 jactos do governo.

  • Reduzir os orçamentos do Parlamento em 30% e o de segurança em 40%.

  • Não aceitar mais empréstimos sem garantia.

  • Criar uma comissão para perceber o que levou a Grécia à beira da falência e para investigar os responsáveis pelo estado do país.

Durante o discurso no parlamento grego, no domingo, Alexis Tsipras prometeu que o Governo irá reabrir a televisão pública ERT (encerrada em 2013 por ser despesista).

Prometeu também eliminar o imposto especial na electricidade que foi criado pela dificuldade do Governo anterior em fazer a colecta fiscal, sempre muito baixa porque os gregos pressupõem alguma flexibilidade ou mudança nas regras, sobretudo em vésperas de eleições, que lhes permita pagar menos.

Prometeu ainda investigar “listas com grandes depósitos”. Referia-se, certamente, a listas como a enviada em 2010 por Christine Lagarde, então ministra das Finanças de França, ao seu homólogo grego, que continha os nomes de mais de 2000 gregos com contas na filial suíça do britânico HSBC, por isso suspeitos de evasão fiscal.
A lista foi perdida, houve nomes que desapareceram na cópia que circulou e o jornalista que a revelou foi duas vezes julgado por esse facto. No final, apenas Giorgios Papaconstantinou, ministro das Finanças do governo socialista (2009-2012), está a ser julgado.


*


Que um partido de um país do Sul da Europa ganhe eleições e pretenda cumprir as promessas feitas, é uma atitude digna de louvor. A questão é se esse partido devia ter feito determinadas promessas que só pode cumprir com o dinheiro dos outros Estados-membros da Zona Euro.

Vamos por partes. Manter a proibição actual de penhoras sobre a primeira habitação, introduzir um novo sistema fiscal "simples e justo", combater a evasão fiscal e a corrupção, cortar o orçamento do parlamento grego em 30%, vender metade de uma frota de 7500 automóveis e um dos 3 jactos do governo, de acordo.
Até se podia melhorar. Por que não diminuir o número de deputados? 300 deputados é obviamente demais. Por que não vender os 3 jactos do governo? Porventura os outros governos da Zona Euro têm jactos privativos?

Claro que a moralização política é uma boa medida. No entanto, há outros problemas de fundo.
A evasão fiscal é um deles e atravessa a sociedade grega de alto a baixo. O imposto especial na electricidade foi criado pelo Governo anterior face à dificuldade em fazer a colecta fiscal, tradicionalmente de valor baixo, mas que atinge níveis reduzidíssimos na época das eleições porque os gregos estão habituados a alguma flexibilidade que lhes permita pagar menos.
Outro problema de fundo é a cleptocracia e não é exclusivo da Grécia. Os países mediterrânicos são especialistas na cunha, no compadrio, no nepotismo e na corrupção. Na Alemanha houve condenações relativas ao negócio de venda de dois submarinos a Portugal, mas no nosso País nem uma até agora. Por cá o mérito não é louvado e há alguma predisposição mental para a corrupção que só é vista como má quando são os outros a fazer, se for o cidadão anónimo é percebida com um direito. Não vale a pena culpar o sistema: o sistema somos nós.

Quanto ao salário mínimo de 751 euros pago 14 vezes por ano — o que dá uma média de 876,17 euros mensais —, há que olhar para os salários mínimos no contexto europeu:



Solidariedade para com a Grécia? Entre empréstimos e garantias, a exposição portuguesa à Grécia é 1100 milhões de euros. E não desembolsámos mais porque Portugal teve de pedir assistência financeira em Maio de 2011.
No que respeita aos países europeus, a minha solidariedade, em primeiro lugar vai para a Lituânia, a Roménia, a Bulgária, o Montenegro, a Sérvia, a Albânia e a Macedónia que têm, em 2015, um salário mínimo nacional inferior a 300 euros. A seguir vai para os meus compatriotas que ganham o salário mínimo nacional que, apesar do aumento deste ano, continua a ser inferior ao grego.



Em 2015, o salário mínimo em Portugal é 505 x 14 / 12 = 589,17 euros. Noutros países europeus: Table


A notícia buliu com os comentadores do Público. Um deles resolveu medir a solidariedade para com a Grécia, tendo inquirido quem estava disposto a pagar mais um imposto para anular a dívida pública grega. A resposta foi... Bem, o melhor é ler:


vinha2100
08/02/2015 22:28
O problema da Grécia é não ter dinheiro para pagar ao merceeiro, e achar que são os vizinhos que lhe devem pagar as contas. Na sua embriaguez, acha que não tem responsabilidades pela sua indigência.
Por que deveria ser a Grécia privilegiada na ajuda, quando há tantos países em África e na Ásia onde as pessoas vivem com menos de um décimo dos rendimentos da Grécia? Se Portugal e a Irlanda puderam ajustar as suas contas, por que não pode a Grécia? Por que são o contribuintes portugueses, alemães ou irlandeses a pagar a prodigalidade da Grécia? Quando se convencerão os gregos que têm responsabilidades na própria desgraça? Quando se convencerão que têm que pagar impostos e reformar aos 65 anos?
  • tripeiro
    08/02/2015 22:33
    Oh meu amigo, porque apareceu com verdades tão inconvenientes para estragar a noite de domingo da nossa brigada vermelha? Isso não se faz!
  • Luis Marques
    IT Consultant, Manchester 08/02/2015 22:36
    Os Gregos estão a jogar o jogo do coitadinho, a esquerda gosta muito dessas vítimas mas para o centro/direito isso não cola. Vamos ver.
  • Marco Oliveira
    08/02/2015 22:46
    E lembrar que foi o único país que votou contra a entrada de Portugal no euro, achando que Portugal não tinha condições para entrar para a moeda única...
  • oliveira
    08/02/2015 23:00
    sempre um coitadinho, se á paises na africa com menos possibilidade de compra não os ajude com dinheiro como fizeram aos países de que se queixa, ajudeos com encomendas para que gerem riqueza e não com empréstimos, quer-lhes fazer o mesmo que á Grécia LOL, quem deu o dinheiro para que os países europeus estejam bem foi a grécia e outros que lhes encomendaram bens ,carros eletrodomésticos etc , e que fizeram com que gerassem superavites , aviam de ir ajudar outros que não lhes deram nada a ganhar porquê ? acha que merecem mais ? a Grécia não se endividou e vendeu tudo o que tinha para que esse dinheiro engordasse as contas dos outros países europeus e os tonasse ricos , comeram-lhes a carne ? comam o resto , não será ? se vires um homem com fome não lhe dez dinheiro , dá-lhe trabalho !
  • jojoratazana
    09/02/2015 00:15
    "Oh meu amigo, porque apareceu com verdades tão inconvenientes para estragar a noite de domingo da nossa brigada vermelha?" Nada dá mais gosto, que ler afirmações de um convencido, futilidades.
  • Manuel Caetano
    09/02/2015 00:33
    Ao alinhar na tese da “culpa dos gregos” o que o vinha2100 faz é ocultar e branquear “alguns gregos” (os gregos do “arco da (des)governação”, os gregos da “economia de casino”, os gregos da especulação financeira, os gregos dos paraísos fiscais, os gregos da fuga aos impostos…), os verdadeiros responsáveis pelo descalabro da Grécia. Desmascarou-se, meu caro. Provavelmente nunca andou mascarado eu, na minha ingenuidade, é que o imaginei uma pessoa diferente. Vivendo e aprendendo - Mea culpa!
  • tripeiro
    09/02/2015 00:43
    Senhor Manuel Caetano, para o exterior não há os gregos da classe A, os gregos da classe B, o povo, o governo ou os oligarcas, há sim o Estado Grego e as suas responsabilidades e compromissos que não desaparecem só porque foi eleito um novo governo com promessas que dependem do dinheiro dos outros! Quem elegeu o governo A ou o governo B foram, pasme-se, os gregos! Se houve gregos que roubaram, outros que especularam e outros que jogaram no casino, se há uma densidade anormal de cegos ou de paralíticos que só existem ou existiam para sacar mais um subsidiozito, se só existem meia dúzia de piscinas declaradas quando elas existem aos milhares, ... , bem, tudo isso é um problema interno dos gregos.
  • Tiago
    09/02/2015 01:15
    Dizer que a Grécia chegou a este ponto (apenas) por culpa própria é ignorar tudo o que é noticia nos últimos 3 ou 4 anos. A Grécia começa a ter bastantes semelhanças com alguns países africanos, asiáticos e latinos no momento em que começou a ser fustigada por uma praga chamada FMI, da qual Bruxelas tem sido um excelente aliado. Será ou não melhor deixar a Grécia levantar-se para reunir condições de devolver "empréstimos" ou é melhor continuar no caminho que levava? Deverá continuar subsídio-dependente com juros impossíveis de manter? Quanto a "brigada vermelha" não sei se merece esse nome, mas ela parece fazer bastante mais sentido do que o extremismo do centro europeu.
  • Manuel Caetano
    09/02/2015 01:27
    Senhor tripeiro, a melhor forma de ocultar verdadeiros culpados é (sempre foi) culpar todos. A técnica é velhinha mas eficaz.
  • MCA
    Cidadã da finis terræ 09/02/2015 08:13
    Estou, desta feita, com Manuel Caetano, não esperava este comentário de vinha2100, até me parecia outro a escrever e não o nosso vinha...
  • tripeiro
    09/02/2015 09:52
    Tem toda a razão, senhor Manuel Caetano, a culpa pelo endividamento do Estado Grego é dos outros e não do Estado Grego. O meu vizinho também tem muitas culpas no cartório por muitas das asneiras que eu eventualmente faça.
    E convenhamos que culpar os outros é um óptimo alivio à nossa consciência, pelo que sim, culparei o meu vizinho com todas as minhas forças.
  • vinha2100
    09/02/2015 10:24
    Caros amigos, obrigado pelo debate independentemente das vossas posições.
    Caros Manuel e MCA, permitam-me sublinhar que eu quero uma solução para a Grécia, que seja justa para todos. Essa solução, porém, começa nos próprios gregos.
    Por ser alguém que trabalhou grande parte da vida em desenvolvimento, acredito que é preciso dar uma cana de pesca para aprender a pescar, e não o peixe. Ora a Grécia está viciada em receber, e quer mais. A pergunta que devemos fazer é o que pode a Grécia fazer por ela própria. E aí podemos ajudar. Se tivermos um amigo alcoólico, o nosso dever é dar-lhe mais dinheiro que saberemos que vai acabar em álcool, ou levá-lo aos AAs e ajudá-lo enquanto recupera?
  • MCA
    Cidadã da finis terræ 09/02/2015 12:08
    "A Grécia viciada em receber e quer mais", pode ser dito o mesmo em relação a Portugal. É a teoria que tem vingado nos países fora dos PIGS mas não sabia que encontrava no caro vinha um adepto. Acha que é esse o problema? Mas as contas mostram que a Grécia já começou até a ter excedentes. A dívida é que rola imparável e todos sabemos que quem tem pouco e quer crescer precisa de se endividar. Quem está em cima pode sempre empurrar os de baixo ainda mais para baixo, e é o que o norte da Europa tem feito ao sul. O mundo é dos que têm tudo, para os outros escravidão!
  • Manuel Caetano
    09/02/2015 13:02
    Senhor tripeiro, as nações criaram os Estados (a super-estrutura organizativa que permite a governança de uma comunidade nacional – o povo) para afirmar a sua autonomia e independência no contexto das nações mas quem gere essa super-estrutura (o Estado) são os governos. Em última análise a responsabilidade por tudo o que acontece de bom e de mau na gestão de um país (o conjunto da nação/povo, estado e governo) é sempre dos governos. Na Grécia, como em qualquer outro país do mundo, essa responsabilidade tem rostos e nomes (não é uma abstracção). Saber quem são os responsáveis nunca é irrelevante, bem pelo contrário. As questões resultantes das interacções entre a Grécia e os outros países do “projecto europeu” já outra questão.
  • vinha2100
    09/02/2015 13:31
    O que diz é verdade, MCA. Mas não deve a Grécia também ajudar-se a ela própria? A evasão fiscal bateu recordes nos últimos dois meses. O salário mínimo aumentado vai apenas mandar mais gente para a economia paralela a receber 300 e 400 euros por mês. Mais acima, eu lancei um desafio: estou disposto a contribuir com mais impostos meus para os nossos amigos gregos, para lhes dar tempo a ajustarem-se. Sei perfeitamente que quer o bem da Grécia. É possível uma solução.

vinha2100
09/02/2015 11:06
Eu, como Português estou disposto a contribuir para a Grécia, que é um País amigo. Estou disposto a pagar mais impostos para isso. Quem mais está?
  • tripeiro
    09/02/2015 11:24
    Enquanto os gregos não se convencerem que nada pode ficar como dantes, tendo, eventualmente, que substituir bifes por latas de conserva, não estou nada disposto a financiá-los.
  • Daniel Blum
    09/02/2015 11:26
    Eu, como Alemão também estou. Só não vai mudar o problema no médio ou longo prazo. A Grécia tem que fazer as reformas estruturais. Eu estou disposto de dar suporte a um governo grego que faz tais reformas.
  • ana cristina
    consultora, Lisboa 09/02/2015 11:37
    O problema em passar a esponja sobre a dívida grega não está em conseguir encher o cestinho das esmolas. Parece-me que está é no facto de ninguém mais querer emprestar dinheiro a ninguém.
  • Luis Martins
    Lisboa 09/02/2015 11:50
    Caro vinha2100, eu sou um Português escravizado por impostos e não estou disposto a pagar mais impostos para alimentar países como Portugal ou Grécia que são governados por gatunos e corruptos. Portanto não estou mais disponível para continuar a ser roubado e em 2016 irei deslocalizar a minha empresa, o meu salário e o pagamento de impostos para longe da zona euro.
  • José
    09/02/2015 12:09
    Caro vinha2100, a questão não deve ser colocada nesses termos. A Grécia deverá resolver os seus problemas com o sistema financeiro. Houve "negócios" entre os bancos e o Estado grego. Esse negócio para ser honesto deveria ter um risco assumido em igualdade pelas partes. Os bancos deveriam estudar e assumir a viabilidade dos seus negócios e o Estado grego as perspectivas de pagamento. Se o negócio correu mal a responsabilidade deve ser repartida, porque houve erros de avaliação, coisa que nunca acontece por parte dos bancos. Não é legítimo fazer as populações pagar os erros de avaliação dos bancos que atualmente nada assumem. A desigualdade de poder das partes perante um negócio não é tolerável.
  • vinha2100
    09/02/2015 13:25
    Caros amigos, muito obrigado. Acho que exprimi mais claramente o que pensava.
  • tripeiro
    09/02/2015 15:23
    Esperava uma romaria da brigada vermelha a este post a atropelarem-se uns aos outros a ver quem ajudava melhor e mais depressa, mas qual quê, nem só um "unzinho". Ah, já percebi, altruísmo só com o dinheiro dos outros.
  • vinha2100
    09/02/2015 19:46
    Caro tripeiro, descobriu-me a careca, eh, eh, eh. Um grande abraço!
  • MCA
    Cidadã da finis terræ 09/02/2015 21:33
    Caro vinha, sim, prefiro pagar mais impostos para os países periféricos ficarem melhor e menos juros para quem já tem a carteira a transbordar.
  • vinha2100
    10/02/2015 08:42
    Absolutamente de acordo, MCA.

DNG - A TAP é Portugal no mundo.
Lisboa. 09/02/2015 11:55
Choca a miséria moral e a intelectualidade monocelular dos que reduzem a questão Grega ao emprestar ou não emprestar dinheiro. Evidência um mundo duro, egoísta, sem condescendência, incapaz de problematizar, de olhar o outro. É um mundo redutor que comprime a realidade a conceitos menores. Desgraçadamente sem complexidade ao sabor de uma moral fascizante sem qualquer dor perante as consequências. Diria selvagem. E quantos desta cor, desta raça, vegetam neste espaço dizendo barbaridades sem coração, sem humanismo, sem a razoabilidade? É o português ressabiado tipo PSD que quer ordem e sossego, refém do seu conforto cobarde, instalado, que não olha aos destroços sociais da crise, desta imensa crise de valores que assola esta Europa perdida.
  • Andrade
    09/02/2015 12:14
    Antes de colar egoísmos a ideologias e espingardar contra quem tem opinião diferente, convinha responder aos seguintes factos. Se é uma questão de coração, existem mais de 150 países a ajudar antes de chegar a vez da Grécia. Acontece que em todos esses países, incluindo a Grécia, existem muitas pessoas a viver melhor do que muitas de quem quer exigir dinheiro, basicamente uma solidariedade dos mais pobres para com os mais ricos. Pode esquecer os países mais pobres e exigir a pessoas mais pobres que ajudem pessoas mais ricas, mas não precisa de insultar quem assim não pensa.
  • DNG - A TAP é Portugal no mundo.
    Lisboa. 09/02/2015 12:25
    Resposta que não passa de uma tentativa de dissolução do problema, relativização para baixo. Quem pensa assim não resolve nada, não se mexe para nada. O que aqui se discute é o problema concreto da Grécia e não, a pretexto do mundo imundo em que se vive, não fazer nada por ela. É o exemplo negativo pantanoso que usa o mal maior para não fazer nada pelo mal menor. É para seu conforto que diz essas vulgaridades. Já desmontadas!
  • ana cristina
    consultora, Lisboa 09/02/2015 12:38
    O Andrade tem razão. Se é caridade, há outras prioridades. Só que não é uma questão de emprestar ou não, perdoar compromissos ou não. A questão é que os gregos, tal como os portugueses, têm de encontrar forma de viver bem sem ter de andar a mendigar.
  • DNG - A TAP é Portugal no mundo.
    Lisboa. 09/02/2015 12:42
    O senhor acha este comentário um insulto? E o insulto encapotado na indiferença daqueles que acham justo 25.000 gregos a dormir nas ruas de Atenas, as centenas de milhar sem luz em casa, aqueles que ficam sem saúde após 2 meses de desemprego e outras variantes de miséria moral que impuseram aos gregos em nome do ajustamento. A Grécia pode não ser um país bombardeado dentro do significado clássico do termo, mas é um país destroçado pela forma geopolítica actual de guerrear os Estados, de os enfraquecer e dominar pela agiotagem internacional dos mercados e dos usurários que com eles colaboram.
  • DNG - A TAP é Portugal no mundo.
    Lisboa. 09/02/2015 12:48
    Sem problemas pensei no Oldvic e no Tripeiro quando escrevi este comentário, e para meu desgosto em si também Cristina. Francamente não a percebo. Todos acham que os Gregos devem ser mais rigorosos mas, o que se esconde atrás desse julgamento é o pretexto menor para justificar uma enorme selvajaria. Quero lá saber se não concorda comigo!
  • Andrade
    09/02/2015 13:22
    Uma opinião solta pode ser resultado de precipitação ou até pensada e sem qualquer razão de suporte, quando as opiniões se dividem alguma razão estará do outro lado. Se o DNG para conseguir ter razão acrescenta ao que os outros dizem o que não está lá e esquece parte do que está, no que me diz respeito, a partir daí conversar é tempo perdido.
  • DNG - A TAP é Portugal no mundo.
    Lisboa. 9/02/2015 13:26
    Obviamente Andrade, tempo perdido...
  • ana cristina
    consultora, lisboa 09/02/2015 13:52
    Discutir ideias nunca é tempo perdido. Se nos sentimos incompreendidos, explicamo-nos melhor.
  • tripeiro
    09/02/2015 15:26
    Se o nosso estimado DNG está certíssimo quando afirma que o cidadão 44 deve ter tratamento privilegiado em relação a qualquer outro cidadão, porque não pode também estar certíssimo sobre qualquer outro assunto?
  • DNG - A TAP é Portugal no mundo.
    Lisboa. 09/02/2015 16:11
    Quem é Tripeiro? Tripeiro é um famoso intelectual das terras do "carágo", popularucho que consagra a famosa e deliciosa dobrada que, reduz subprime, Ninja, derivados tóxicos, dívida soberana, ajustamento, deflação, recessão, Grexit, mercados, democracia, Hedge Funds, imparidades bancárias, à simples relação entre dois vizinhos em que um empresta umas patacas ao outro e é considerado devedor. É complexa a perturbante capacidade de reduzir de Tripeiro...
  • tripeiro
    09/02/2015 16:28
    Sim, DNG, quem diria que o princípio devedor/credor é tão simples e anda o DNG a complicá-lo com a sua habitual profundidade superficial.

José
09/02/2015 13:13
A grande diferença entre este governo Grego e o nosso é que o governo Grego pensa (e bem) que as negociações entre Estados e sistema financeiro devem ser feitas ao mesmo nível. Enquanto o nosso governo pensa que o sistema financeiro se deve colocar num plano superior e o Estado português, que representa, num plano inferior, como mero cumpridor de ordens e regras ditadas pelo primeiro.
  • DNG - A TAP é Portugal no mundo.
    Lisboa. 09/02/2015 13:28
    Por isso o exemplo grego é tão perigoso politicamente para eles... é que a Grécia é governada por patriotas!
  • José
    09/02/2015 13:32
    Ora nem mais, DNG, essa é a grande, enorme, diferença.
  • vinha2100
    09/02/2015 13:36
    A grande diferença é antes que a Grécia vai acabar por sair do euro e Portugal não, se não se põe um pouco de água na fervura.
    O ideal seria encontrar uma solução em que o peso da dívida grega fosse aliviado (aumentar os prazos da dívida, que já são bastante extensos, e reduzir os juros, o que significa na prática uma redução dos encargos com a dívida), e dar algum dinheiro aos gregos para fazerem a ponte, em contrapartida a um efectivo combate à evasão fiscal e à corrupção e um equilíbrio das contas públicos. O último, infelizmente, não é muito compatível com grandes liberalidades, mas uma política de investimentos mais ambiciosa, ajudada pela Europa, poderia criar crescimento e emprego.
  • ana cristina
    consultora, Lisboa 09/02/2015 13:46
    O que está realmente em jogo quando se está numa comunidade de Estados é a competência dos governantes. Um governante português tem uma missão: gerir bem e negociar bem os interesses do seu pais (patriotismo, se quiserem....). só que negociar bem é sempre, como todos sabemos e poucos praticam, pensar no interesse do todo. A Merkel não é boa nisso. Anda a lixar a Europa no curto prazo e vai lixar-se no longo prazo. Os governantes portugueses que abrem mão dos nossos interesses fazem-nos por falta de competência e lixam o país e a coesão da Europa simultaneamente. Neste jogo comunitário cada um tem de saber ganhar e fazer ganhar o todo. Não há alternativa. Enquanto houver burricalhos (portugueses, luxemburgueses, alemães ou o que for) a lixarem-se e/ou a lixarem os outros, só perdemos.
  • José
    09/02/2015 13:55
    Eu não sou capaz de aceitar a subserviência do poder político ao financeiro. Corrijo, e atrevo-me até a dizer, é mais que subserviência é mesmo promiscuidade. Os poderes políticos na UE não estão a defender convenientemente os interesses públicos, estão a subverter o regime democrático, atacando os europeus em benefício dos interesses económicos e financeiros.
  • ana cristina
    consultora, Lisboa 09/02/2015 14:04
    José, ao poder financeiro, não. Mas à aritmética, sim.
  • José
    09/02/2015 14:25
    Cara ana, vou dizer-lhe uma coisa de uma forma muito simplista e que talvez não saiba, como quase ninguém sabe e os políticos escondem. É assim:
    É impossível, repito, impossível, todos os Estados-membros da UE pertencentes ao euro terem em simultâneo as suas contas equilibradas. É uma questão matemática. Logo nunca haverá paz nesta UE. Os grandes vão sempre endividar os pequenos. Antes, tal equilíbrio era conseguido com a ajuda das flutuações cambiais o que agora não é possível. Desta forma dentro da UE o cenário é negro para as economias mais frágeis como a nossa.
  • luamar
    09/02/2015 15:03
    Caro José, estou quase tentado a concordar consigo. Mas ainda sonho com uma Europa solidária: mais federalismo com um orçamento único para os 18 estados do euro e com a criação dos eurobonds. A partir dessa altura e desde que haja controlo sobre os gastos dos países tudo melhorará e o EURO será a moeda principal do mundo.
  • José
    09/02/2015 15:25
    Meu caro os projetos federalistas não me convencem, geram totalitarismos. A força da Europa nunca será a comunidade de Estados. Está precisamente nas diferenças culturais e geográficas, na afirmação e respeito pelas soberanias. A Europa deve caminhar no sentido da cooperação entre Estados independentes e não em criar um super Estado esmagador e triturador da matriz cultural europeia, subjugando os mais pequenos, reduzindo-os a pó. É como misturar peixes grandes e pequenos num mesmo viveiro, os grandes devoram os pequenos, não falha.
  • luamar
    09/02/2015 15:45
    Existem muitos países compostos por Estados federais: Brasil, E.U.A. etc. O que é preciso é saber respeitar as diferenças. Uma Europa grande, em todos os sentidos, seria um Bem para o mundo e para os europeus.

vinha2100
09/02/2015 14:55
Há um cenário que me ocorreu que poucos estão a considerar. Poderá Tsipras, tendo a oposição de mais de 70% dos gregos à saída do euro, estar a dramatizar o conflito com os parceiros europeus, fazendo exigências impossíveis de satisfazer, de forma a que seja precipitada uma crise bancária e financeira que determine a saída do euro e, em última análise, da União Europeia? Poderá isto fazer parte da estratégia de uma corrente radical europeia?
Gostaria de pensar que não. Porque se for o caso, uma saída do euro e da União Europeia acarretará uma argentinização da Grécia. Terá os seus amigos... Nunca vimos ideólogos preocuparem-se muito com a real situação do povo.
  • DNG - A TAP é Portugal no mundo.
    Lisboa. 09/02/2015 15:30
    Uma espécie de chantagem aos contrário... Mas, pense bem e veja se não se trata apenas de um extremo formado pelo outro extremo. Afinal de que forma os gregos podem sem mais humilhados? O Grexit é mau para eles mas é péssimo para a nossa reputação moral. Uma Europa com uma visão mais larga do que os interesses escondidos no Euro enquadra e reforma a Grécia sem a derrotar.
  • Luis Marques
    IT Consultant, Manchester 09/02/2015 16:07
    Os gregos não estão a ser humilhados. Os gregos estão apenas a ter as consequências das suas escolhas do passado. Essas histórias da humilhação, da vitimização, dos pobres gregos não colam...
  • luamar
    09/02/2015 16:48
    Caro Luís Marques, foi por não se ligar às histórias de humilhação dos povos que Hitler chegou ao poder através de eleições. Deixem andar, não façam nada que há outros pequenos Hitler, espalhados pela Europa, à espera da sua oportunidade.



terça-feira, 19 de junho de 2012

Países do G20 reforçam reservas do FMI


No final da Cimeira do G20 em Los Cabos, no México, Christine Lagarde revelou que os compromissos para reforçar as reservas do FMI ascendem já a 456 mil milhões de dólares americanos, superando o valor prometido na cimeira de Abril, apesar de alguns países emergentes se sentirem frustrados por não terem obtido maior poder de voto dentro desta instituição credora mundial.
São recursos disponibilizados através de empréstimo bilateral ou acordo de compra entre cada país credor, ou o seu banco central, e o FMI, comprometendo-se esta instituição a devolver os valores sacados com juros.

Reforçadas as reservas do FMI, estas poderão ser usadas para financiar os seus 188 países-membros, se tiverem dificuldades em obter financiamento nos mercados e se aceitarem a orientação económica do FMI. Mas, num momento em que três países da Zona Euro estão a receber crédito do FMI — Grécia, Irlanda e Portugal — e vai ser preciso intervir na banca espanhola, este reforço destina-se a reduzir a especulação financeira sobre a dívida soberana destes países.

Portanto correu bem a cimeira para os países da Zona Euro porque, apesar da recusa dos Estados Unidos e Canadá, conseguiram captar do resto do mundo uma quantia superior à que vão disponibilizar. O quadro seguinte lista os 37 países que aceitaram contribuir:

Países
_____________________
Zona Euro
• Alemanha
• França
• Itália
• Espanha
• Países Baixos
• Bélgica
• Áustria
• Finlândia
• Luxemburgo
• Eslováquia
• Eslovénia
• Chipre
• Malta
UE não-Zona Euro
• Reino Unido
• Suécia
• Polónia
• Dinamarca
• República Checa
Não-UE
• Japão
• China
• Coreia
• Arábia Saudita
• Brasil
• Rússia
• Índia
• México
• Suíça
• Noruega
• Austrália
• Turquia
• Singapura
• África do Sul
• Colômbia
• Filipinas
• Malásia
• Nova Zelândia
• Tailândia
_____________________
total

______

54,7
41,4
31,0
19,6
18,0
13,2
8,1
5,0
2,7
2,1
1,2
0,6
0,3

15,0
10,0
8,2
7,0
2,0

60,0
43,0
15,0
15,0
10,0
10,0
10,0
10,0
10,0
9,3
7,0
5,0
4,0
2,0
1,5
1,0
1,0
1,0
1,0
______

mil milhões $
_____________
197,9













42,2





215,8



















_____________
455,9




O G20 é o Grupo dos Vinte ministros das Finanças e governadores dos Bancos Centrais das maiores economias industrializadas — 19 países e a União Europeia — e foi criado em 1999 para discutir as questões-chave da economia global.

Europa: Alemanha, França, Itália, Reino Unido, Rússia, União Europeia
América: Argentina, Brasil, Canadá, Estados Unidos da América, México
África: África do Sul
Ásia e Oceânia: Arábia Saudita, Austrália, China, Índia, Indonésia, Japão, República da Coreia, Turquia

Os chefes de governo, ou os chefes de Estado, passaram a participar nas cimeiras desde a crise financeira de 2008, sendo a União Europeia representada pelo Presidente do Conselho Europeu e pelo Banco Central Europeu.
As economias do G20 representam mais de 80% do PIB mundial, 80% do comércio mundial (incluindo o comércio dentro da UE) e dois terços da população mundial.