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terça-feira, 23 de maio de 2017

Terror em Manchester


Ontem à noite, pelas 22:35, ocorreu uma explosão em Manchester no final de um espectáculo da cantora pop norte-americana Ariana Grande que decorreu na Manchester Arena.

A polícia de Manchester apenas quantificou o número de vítimas já na madrugada desta terça-feira — 19 vítimas mortais e cerca de 50 feridos —, informando no tweet que estavam a tratar a situação como um "incidente terrorista" até prova em contrário:



O ataque foi perpetrado no átrio de entrada da Manchester Arena, estando cerca de 21 mil pessoas nas imediações quando ocorreu a explosão que envolveu um dispositivo caseiro cheio de porcas e parafusos. O grupo terrorista Estado Islâmico já reivindicou o ataque.

Várias zonas ficaram interditas, afectando os transportes na cidade. A estação de comboios de Vitória, que comunica com a Arena, foi encerrada.





A polícia de Manchester actualizou o número de vítimas, esta manhã, subindo para 22 mortos e 59 feridos.

"Temos estado a tratar isto como um incidente terrorista e acreditamos, nesta etapa, que o ataque foi conduzido por um homem. A prioridade é estabelecer se actuou sozinho ou como parte de uma rede.

O atacante, podemos confirmar, morreu na arena. Acreditamos que o atacante carregava consigo um dispositivo explosivo improvisado, que detonou, causando esta atrocidade
”, afirma o comunicado da polícia, em que as autoridades pedem às pessoas para não especular.

A nossa prioridade é trabalhar com os serviços secretos britânicos e de contra-terrorismo para encontrar mais detalhes sobre o indivíduo que conduziu este ataque”, acrescentam as autoridades.



Entretanto a comunicação social começou a divulgar a identidade de algumas vítimas, entre as quais uma criança de 8 anos, e do bombista suicida. Chama-se Salman Abedi e tem 22 anos. A polícia de Manchester confirmou, com reticências:



Nascido em Manchester em 1994, Salman Abedi é o segundo mais novo dos quatro filhos de um casal de refugiados líbios que vieram para o Reino Unido para escapar ao regime do coronel Muammar Gaddafi.

Abedi frequentou a escola local e foi para a universidade de Salford, em 2014, onde estudou gestão antes de desistir. Usava vestes islâmicas e costumava rezar numa mesquita local que, no passado, foi acusada de angariação de fundos para os jihadistas.

O irmão mais velho, Ismail Abedi, foi professor na escola do Corão da mesquita de Didsbury. Segundo o imã, Salman havia-lhe mostrado recentemente "o rosto do ódio" quando deu uma palestra alertando para os perigos do chamado Estado Islâmico.

A mãe, Samia Tabbal, de 50 anos, e o pai, Ramadan Abedi, um agente de segurança, nasceram em Trípoli mas terão emigrado, primeiro para Londres e, mais tarde, para a zona de Whalley Range, no sul de Manchester.

Pensa-se que, em 2011, após a derrota de Gaddafi, os pais retornaram para a Líbia, mas as viagens que Salman Abedi fez para o país de origem da família estão agora a ser objecto de investigação.

Alguns dissidentes de Gaddafi que eram membros do Grupo Islâmico Líbio de Combate (LIFG), entretanto ilegalizado, viveram nas proximidades dos Abedi em Whalley Range.

Entre eles, encontrava-se Abd al-Baset Azzouz, pai de quatro filhos, que deixou Manchester para dirigir uma rede terrorista na Líbia supervisionada por Ayman al-Zawahiri, o sucessor de Osama bin Laden na liderança da Al-Qaeda. Azzouz, 48 anos, especialista em bombas, foi acusado de dirigir uma rede da Al-Qaeda no leste da Líbia, em 2014.

Outro membro da comunidade líbia em Manchester, Salah Aboaoba, disse ter angariado fundos para o LIFG, em 2011, justamente na mesquita de Didsbury. Na época, o porta-voz da mesquita negou veementemente a reivindicação: "Esta é a primeira vez que ouço falar do LIFG. Não conheço Salah".

Agora, Mohammed Saeed El-Saeiti, o imã da mesquita de Didsbury, apontou Salman Abedi como um extremista perigoso: "Salman mostrou-me o rosto de ódio depois do meu discurso sobre o Ísis (...) Não é uma surpresa para mim".

A polícia atacou a casa da família às 11:30 desta manhã. De acordo com moradores da rua, 2 helicópteros e pelo menos 30 polícias camuflados, com equipamentos anti-motim e escudos, participaram no ataque.
Removeram a cerca de madeira entre duas propriedades. Colaram uma tira preta na porta e provocaram uma explosão. A porta soltou-se das dobradiças e as janelas tremeram. O ataque durou 90 segundos.

"Não os vi trazer ninguém para fora da casa. Acredito que estava vazia”, disse um vizinho.


*


Depois dos movimentos da Primavera árabe derrubarem os governantes da Tunísia e do Egipto para elegerem regimes islâmicos, começou uma revolta na Líbia, em 17 de Fevereiro de 2011, mas o ditador líbio Muammar Kadhafi resistiu.

Dez dias depois, foi criado um Conselho Nacional de Transição para administrar as áreas da Líbia sob controle dos rebeldes, prontamente reconhecido pela França, em 10 de Março, como o representante legítimo do povo líbio.

As forças pró-Gaddaffi responderam militarmente aos ataques rebeldes na Líbia ocidental — a cidade de Zawiya, a 48 km de Tripoli, foi bombardeada por aviões da força aérea e conquistada por tanques do exército — e lançaram um contra-ataque ao longo da costa na direcção leste, até Benghazi, o centro da rebelião.

Tanto o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, como o Conselho de Direitos Humanos da ONU condenaram estas acções militares, sob a acusação de violarem o direito internacional, tendo este último organismo expulsado a Líbia, atitude incentivada pela própria delegação da Líbia na ONU.

Em 17 de Março, o Conselho de Segurança da ONU aprovou a Resolução 1973 com 10 votos a favor dos membros permanentes Estados Unidos, França e Reino Unido e, ainda, da Bósnia-Herzegovina, Colômbia, Gabão, Líbano, Nigéria, África do Sul e Portugal e 5 abstenções dos restantes membros (Rússia e China, membros permanentes, e ainda Índia, Brasil e Alemanha).
Esta resolução sancionou o estabelecimento de uma zona de exclusão aérea e o uso de "todos os meios necessários" para proteger os civis dentro da Líbia.

Dois dias depois, a NATO começou a destruir as defesas aéreas da Líbia quando jactos militares franceses entraram no espaço aéreo da Líbia e atacaram alvos considerados inimigos.
Em seguida, entraram em acção as forças americanas. Mais de 8000 militares americanos foram destacados para a área em navios de guerra e aviões. A ofensiva aérea americana incluiu vôos de bombardeiros B-2 Stealth, cada bombardeiro armado com dezasseis bombas de 0,9 tonelada, saindo e retornando à base no Missouri, Estados Unidos.

Em 22 de Agosto, os rebeldes entraram em Trípoli e ocuparam a Praça Verde, rebaptizada Praça dos Mártires em homenagem aos seus mortos. Os últimos combates ocorreram na cidade de Syrte, onde Gaddafi foi capturado e morto em 20 de Outubro de 2011. Pelo menos 30 mil líbios morreram na guerra civil.

A seguir começou a segunda guerra civil da Líbia, agora entre as milícias armadas dos diferentes grupos rebeldes, o mais poderoso dos quais é o Estado Islâmico.

Passado algum tempo, formaram-se as máfias líbias que enchem embarcações frágeis com imigrantes, oriundos de países africanos a sul do Saará, e enviam-nos para Itália. Iniciava-se a invasão islâmica da Europa pelo corredor ocidental.

Quem foram os políticos responsáveis pelo Conselho de Segurança da ONU ter sido favorável à intervenção militar na Líbia que não só desestabilizou este país, como também a União Europeia?
Em 2011, a França era presidida por Nicolas Sarkozy.
No Reino Unido governava o primeiro-ministro David Cameron.
A presidência dos Estados Unidos estava nas mãos de Barack Obama e na Secretaria de Estado alinhava Hillary Clinton.

Quantas mais crianças e jovens vão ter de morrer até conseguirmos perceber que o pior tipo de ditadura é o terror promovido pelo fanatismo islâmico?


domingo, 15 de novembro de 2015

Noite de terror em Paris - III. Obama e Putin conversam sobre a Síria


Presidentes dos Estados Unidos e da Rússia conversaram, à margem da reunião do G20 na Turquia, sobre a guerra na Síria.

Obama e Putin, sentados frente a frente, num canto do hotel Regnum Carya, em Antalya, conversam sobre a guerra na Síria.


O tema da agenda da 10ª cimeira do G20 que vai decorrer este domingo e segunda-feira, em Antalya, na Turquia, era a discussão de medidas para travar a chegada à Europa de centenas de milhares de emigrantes oriundos de países africanos e asiáticos, a maioria em fuga da guerra na Síria mas também da violência no Iraque, Afeganistão, Paquistão e Eritreia.

Os ataques terroristas perpetrados pelo Estado Islâmico (EI) na sexta-feira em Paris acabaram, porém, por dominar as conversações.

De candeias às avessas desde a reintegração da Crimeia na Rússia, há quase dois anos, Barack Obama e Vladimir Putin estiveram a conversar 35 minutos, em privado, num diálogo considerado "construtivo" pelo lado americano.

"O Presidente Obama e o Presidente Putin concordaram com a necessidade de haver uma transição política liderada pelos sírios, que seria antecedida por negociações mediadas pelas Nações Unidas entre a oposição síria e o regime, para além de um cessar-fogo", disse um representante da delegação dos Estados Unidos.
Obama deixou de criticar a intervenção da Rússia na Síria, mas pretende que se cinja ao Estado Islâmico, sem atingir os outros grupos de rebeldes que lutam contra o exército sírio, apesar de poderem existir pontos de contacto entre o EI e outros rebeldes.

Por sua vez, o conselheiro Iuri Ushakov, que foi embaixador da Rússia em Washington entre 1999 e 2008, disse que "os objectivos estratégicos em relação ao combate contra o Estado Islâmico são, numa questão de princípios, muito similares, mas há diferenças na vertente táctica".

Depois dos ataques de Paris, Obama e Putin concordaram que "é ainda mais urgente" encontrar uma solução para a guerra na Síria que, em quatro anos e meio, já fez mais de 250 mil mortos e mais de 4 milhões de refugiados.

A aproximação entre os dois líderes é uma consequência da pressão exercida por Hollande sobre Obama, mas não deverá levar o presidente americano a reforçar o seu envolvimento na Síria para além dos ataques aéreos.

"Não acreditamos que as tropas americanas sejam a resposta para o problema", disse Ben Rhodes, um dos conselheiros de segurança nacional de Obama, referindo-se ao possível envio de soldados norte-americanos para a Síria.
"O envio de mais tropas americanas para entrar num combate em larga escala no Médio Oriente não é a melhor forma de lidar com este desafio", continuou Ben Rhodes, repetindo a política oficial da Casa Branca. Em vez disso, os ataques terroristas em Paris "podem servir para criar um maior sentimento de urgência na comunidade internacional para o apoio aos vários elementos da campanha anti-Estado Islâmico, e para uma solução diplomática no conflito sírio".



15/11/2015 - 21:18


*


A França efectuou hoje um raide aéreo sobre Raqqa, capital do Estado Islâmico no Norte da Síria, em que 10 caças franceses largaram 20 bombas. Contudo, enquanto não houver operações militares no solo para destruir os campos de treino e abater os terroristas, atentados como os de sexta-feira 13 de Novembro, em Paris, poderão repetir-se na Europa.

A conversa entre Obama e Putin à margem da cimeira do G20, em que concordaram na urgência de encontrar uma solução para a guerra na Síria, poderá ser um primeiro passo numa série de etapas que termine na coordenação de operações no solo para enfraquecerem o poder do EI.

Até esse objectivo ser atingido, os povos europeus continuam à mercê dos “safaris” dos terroristas, como diz o general Loureiro dos Santos:

16 Nov, 2015, 13:51

A incompatibilidade entre a mentalidade medieval da autocrática e riquíssima monarquia wahabita, aliada dos EUA, que governa a Arábia Saudita tendo o Corão como constituição e negando à população todos os direitos humanos, inclusive o direito de conduzir às mulheres, o que é caso único no mundo, e a visão ocidental de separação entre política e religião do ditador sírio Bashar al-Assad, aliado de Moscovo, constitui, porém, um obstáculo quase intransponível.


*


O G20 é o Grupo dos Vinte ministros das Finanças e governadores dos Bancos Centrais das maiores economias industrializadas — 19 países e a União Europeia — e foi criado em 1999 para discutir as questões-chave da economia global.


Europa: Alemanha, França, Itália, Reino Unido, Rússia, União Europeia
América: Argentina, Brasil, Canadá, Estados Unidos da América, México
África: África do Sul
Ásia e Oceânia: Arábia Saudita, Austrália, China, Índia, Indonésia, Japão, República da Coreia, Turquia

Os chefes de governo, ou os chefes de Estado, passaram a participar nas cimeiras desde a crise financeira de 2008, sendo a União Europeia representada pelo Presidente do Conselho Europeu e pelo Banco Central Europeu.
As economias do G20 representam mais de 80% do PIB mundial, 80% do comércio mundial (incluindo o comércio dentro da UE) e dois terços da população mundial.


sexta-feira, 10 de julho de 2015

A Grécia em default parcial - II b. A proposta de reformas


A última proposta do governo grego cede nas taxas do IVA e nas pensões, mas calendariza pouco e quantifica ainda menos. Nas despesas militares, recusa os cortes exigidos pela troika.
Em troca deste pacote de austeridade, pede um novo empréstimo aos parceiros do euro de "pelo menos" 53,5 mil milhões de euros.




Vejamos um resumo da lista de medidas e promessas que o Governo do Syriza/Anel enviou ontem à noite a Bruxelas:

IVA — O Governo de Atenas já havia cedido na intenção inicial de fixar as receitas adicionais do IVA em 0,74% do PIB, subindo até aos 0,93% na proposta de 26 de Junho. Agora diz que aceita implementar uma reforma no IVA que represente receitas adicionais equivalentes a 1% do PIB, o valor pretendido pelos credores.
  • Na taxa mínima de 6% ficam medicamentos, livros e teatro.
  • Os hotéis passam de uma taxa de 6,5% para 13%, já incluída na proposta de 26 de Junho e aceite pelos credores, sendo que nesta taxa intermédia ficarão também os alimentos básicos, energia e água (excluindo esgotos).
  • Para restaurantes, transportes e tratamento de esgotos a taxa de IVA vai subir dos actuais 13% para 23%.
Quanto ao desconto de 30% na taxa de IVA que beneficia as ilhas, será eliminado mas de forma faseada, com as ilhas mais ricas a serem as primeiras a ficar com a taxa do resto do país e as mais remotas a ficarem isentas. No entanto, o agravamento fiscal nas demais será acompanhado de compensações à população local com impacto fiscal neutro.
As novas taxas de IVA nos hotéis e nas ilhas só serão introduzidas em Outubro, depois de terminada a época alta do turismo.

IRC — Aumento da taxa de IRC de 26% para 28% em 2016, como desejava a troika, mas Atenas admite um agravamento para 29%, se a receita fiscal derrapar.

IRS — A proposta mistura todos os impostos e é vaga nas alterações ao IRS. Diz que pretende introduzir mudanças nos impostos que recaem sobre os automóveis, ganhos de capital, agricultores e trabalhadores por conta própria.
Em 2016, terminarão os subsídios ao gasóleo agrícola e, em 2017, será iniciado o processo de eliminação dos benefícios aos agricultores.
Sobre os privilégios fiscais dos armadores, previstos na constituição grega, o documento diz apenas que devem ser abolidos.
Se a receita fiscal derrapar, aumento das taxas de imposto sobre as famílias de 11% para 15%, para rendimentos inferiores a 12 mil euros, e de 33% para 35% acima desse valor.

Outras taxas e impostos — Introdução de taxa sobre a publicidade na televisão e anúncio de concurso público para a atribuição de licenças de televisão. Alargar o âmbito da aplicação da taxa suplementar sobre iates (com mais de 5 metros), que sobe de 10% para 13%. Aumento das taxas sobre o jogo online.

Pensões — A nova proposta de Atenas antecipa em três anos, para 2022, o fim processo de aumento da idade legal da reforma para os 67 anos, aproximando-se da proposta da troika. O governo grego promete legislar nesse sentido ainda neste mês, com o objectivo de poupar até 0,5% do PIB, ainda em 2015, valor que sobe para 1% em 2016. Promete ainda criar "fortes desincentivos" às reformas antecipadas.
Propõe legislar no sentido de eliminar gradualmente o complemento solidário para idosos — na Grécia chama-se EKAS —, iniciando o processo nos 20% de pensionistas do topo. Pretende concluir esse processo em Dezembro de 2019, tal como pretendido pelos credores. No entanto, quer iniciar essa eliminação apenas a partir de Março de 2016, ao contrário da pretensão da troika de que o processo comece de imediato.
Promete subir as contribuições dos pensionistas para o sistema de saúde de 4% para 6%, em média, incidindo também sobre as pensões complementares.

Função Pública — O Executivo de Atenas prevê a criação de um quadro de mobilidade no último trimestre deste ano. Promete reduzir a massa salarial até 2019, ajustando salários e efectivos a uma meta, mas não quantifica.
Promete alinhar os suplementos salariais — acordos de licença, ajudas de custo, subsídios de deslocação e regalias — com as melhores práticas da União Europeia, a partir de Janeiro de 2016.

Defesa — Nas despesas militares, a proposta do Governo grego propõe cortes de 100 milhões de euros em 2015 e de 200 milhões em 2016, recusando ceder aos credores que exigiam poupanças de 400 milhões. Os cortes de custos serão obtidos através da redução do número de efectivos e das compras.

Combate à corrupção — Atenas promete publicar um plano estratégico contra a corrupção até ao final do mês de Julho e alterar a legislação de declaração de rendimentos e financiamentos dos partidos políticos. Promete combater o contrabando de combustíveis e fraudes no IVA e promover os pagamentos electrónicos.

Reformas estruturais — O Governo grego compromete-se a implementar uma série de reformas em diversas áreas com a colaboração da OCDE: reforma do Estado e da sua relação com empresas públicas e fornecedores, aumento da regulação, das auditorias e da transparência.
A saúde e as obras públicas são áreas prioritárias onde o Governo grego promete combater o desperdício e a corrupção.
Também na administração fiscal — um dos maiores problemas da Grécia é a forte fuga aos impostos — o Governo promete implementar reformas, inclusive criar uma agência autónoma para cobrar impostos.

Sector financeiro — Alterações nas leis de insolvência, com o objectivo de incentivar o pagamento de dívidas, e medidas para atrair investidores estrangeiros.

Privatizações — O governo grego admite avançar não só com as privatizações que estão em curso, como também com as que estão previstas, e não mexer nos respectivos cadernos de encargo.
Admitem agora avançar com a privatização da rede eléctrica (ADMIE), como pretende a troika, mas acrescentam que poderão apresentar uma alternativa "com resultados equivalentes em termos de concorrência" até Outubro deste ano.
O Governo grego também promete alienar os activos pertencentes ao fundo de desenvolvimento helénico (HRADF), para onde se prevê que seja transferida a participação estatal no operador de telecomunicações OTE.

Metas orçamentais — A proposta mantém o compromisso de apresentar excedentes orçamentais primários (receitas superiores às despesas, excluindo o serviço da dívida) equivalentes a 1%, 2%, 3% e 3,5% do PIB para os anos compreendidos entre 2015 e 2018.


O que foi já feito para aliviar a dívida grega?

A Grécia obteve em 2012 o maior perdão de dívida detida por privados de que há registo, depois de bancos e casas de investimento terem aceite um corte (hair-cut) de 53,5% no valor nominal das obrigações do tesouro vendidas pelo Estado helénico.

Os Estados-membros da Zona Euro nunca aceitaram perdoar dívida. Contudo, já aliviaram por duas vezes as condições de reembolso dos empréstimos a Atenas e, em Novembro de 2012, admitiram voltar a fazê-lo, de novo, se os governos gregos cumprissem o programa de ajustamento acordado, o que o governo do Syriza recusou fazer a partir do início deste ano.

As taxas de juro cobradas à Grécia são praticamente iguais à taxa a que o FEEF, o fundo de resgate do euro (que tem rating máximo), consegue financiamento nos mercados, tendo sido oferecido um prazo de carência de 10 anos para o pagamento de juros, ou seja, a Grécia só pagará o primeiro euro de juros aos europeus em 2022.

Ao mesmo tempo, os prazos de maturidade dos empréstimos foram prolongados para cerca de 30 anos. Trata-se de condições mais favoráveis do que as aplicadas aos outros países do euro que foram resgatados — Irlanda, Portugal e Chipre.





*


O governo liderado por Alexis Tsipras pretende receber 53,5 mil milhões numa mão enquanto estende a outra mão cheia de promessas para começar a cumprir em 2016, um ano depois de terem sido eleitos.

Mexer nos privilégios fiscais dos armadores gregos? Fica a intenção, sem data marcada.
Reduzir em 400 milhões as despesas militares? Nem pensar, possivelmente metade disso, e só lá para o próximo ano.
Combate à corrupção? Até os partidos recebem empréstimos da banca, que é pública, Syriza incluído, e nada fizeram sobre o maior problema da sociedade grega. Agora vão congeminar um plano estratégico que talvez seja publicado no final de Julho, seis meses depois de terem sido eleitos.
Incompetência, fraqueza e hipocrisia. Cedência em toda a linha aos interesses instalados na Grécia.

Qual vai ser a reacção dos líderes da Zona Euro? Já se sabe que François Hollande aceita a proposta grega e Angela Merkel, entalada entre Obama e Hollande, não tem outro remédio senão condescender.

Depois da insensata revolução democrática conduzida por políticos franceses, ingleses e americanos que levaram à destruição da paz na Síria e da estabilidade social e política nos países do Norte de África, todos percebemos a importância geopolítica da fronteira Sul da Europa.
Merkel foi a primeira a compreender. A Alemanha não colaborou nas operações militares da NATO para derrubar Gaddafi quando este já deixara, há muito tempo, de proteger o terrorismo.

Dos quatro países europeus meridionais, a Grécia destaca-se como o paredão de defesa dos países europeus centrais, não só contra a perigosa imigração islâmica africana, mas também asiática através do conturbado médio oriente.
Dos russos, desconfiam Barack Obama, a traumatizada Merkel, que nasceu, cresceu e viveu mais de 40 anos no território alemão situado para além da cortina de ferro, e os países bálticos.

A União Europeia precisa de velar pelos gregos para que não façam demasiadas asneiras e deixem o País derrapar para uma situação caótica que abra brechas na segurança europeia.
No entanto, aceitar chantagens nunca resolveu problemas. É preciso que os gregos entendam que têm de cumprir as regras da Zona Euro e não podem exigir aos parceiros do euro um tratamento privilegiado em detrimento das populações dos países bálticos — Estónia, Letónia e Lituânia —, da Eslováquia e de Portugal que têm salários mínimos e pensões mais baixos.

Nas longas filas para levantar 60 euros nas caixas multibanco, os gregos começavam a entender. Se esta proposta — cheia de promessas que o governo de Tsipras, apoiado na estrondosa vitória do 'não' no referendo, não tem a mínima intenção de cumprir — for aceite na reunião de amanhã dos ministros das Finanças da Zona Euro, o problema grego vai renascer aquando da primeira avaliação da troika ao cumprimento do memorando que posteriormente será assinado.

Que esperança podem ter os povos europeus de deixarem de ser explorados pelas elites privilegiadas que pululam na sociedade helénica?
O peso dos países que têm um nível de vida inferior ao dos gregos não será suficiente, por si só, para refrear as artimanhas gregas.
Todavia há países da Zona Euro que prevêem a necessidade de aprovação parlamentar antes de haver a negociação formal sobre o memorando de entendimento — Alemanha, Áustria, Finlândia, Holanda e Estónia (Eslováquia não requer aprovação parlamentar). Portanto podem contar ainda com a oposição dos políticos finlandeses, holandeses e alemães, sobretudo, do fisicamente deficiente, mas intelectualmente vigoroso ministro das Finanças alemão.

Wolfgang Schäuble tornou-se o paladino dos contribuintes europeus que querem acabar com a exploração helénica e está a enfrentar corajosamente os americanos, assim como Christine Lagarde que se passou para o lado de Obama, apesar deste se ter recusado nos últimos anos a contribuir financeiramente para o FMI.
Tal como a directora do FMI, Schäuble defende a reestruturação da dívida grega mas à custa de um perdão pago... pelos gregos de maiores rendimentos e pela venda dos activos na posse do Estado helénico.

Por este caminho, ainda vamos ver uma manifestação de apoio dos ricos armadores gregos ao Syriza. É algo inacreditável ver a esquerda europeia a defender os contribuintes ricos da Grécia e a direita a pugnar para que os fundos europeus alimentados pelos contribuintes dos restantes 18 países do euro, alguns mais pobres que a Grécia, não caiam dentro dos bolsos das elites gregas. Estamos a assistir a uma completa inversão de valores políticos na Europa.





domingo, 11 de janeiro de 2015

Manifestação histórica em França contra o terrorismo islamita


Depois do ataque ao jornal satírico Charlie Hebdo na quarta-feira, do tiroteio contra os polícias em Montrouge, na quinta-feira, e do sequestro num supermercado kosher em Vincennes pelo atirador de Montrouge, na sexta, que provocaram um total de 17 vítimas, a manifestação contra o terrorismo islamita levou, este domingo, cerca de 4 milhões de pessoas para a rua por toda a França.

A marcha em Paris reuniu mais de 1 milhão de pessoas, tornando-se o acontecimento mais importante desde a Libertação em 1944.
Quase cinquenta chefes de Estado e de governo estiveram hoje presentes em Paris para homenagear as vítimas dos atentados no Charlie Hebdo, em Vincennes e Montrouge. Na fila da frente desfilaram Angela Merkel e David Cameron, mas também Mahmoud Abbas e Benjamin Netanyahu.



A estátua alegórica da Praça da República, em Paris, foi o local privilegiado pelos manifestantes desde quarta-feira à noite.
AFP/Loic Venance


Os manifestantes prestaram homenagem às 17 vítimas dos atentados com o lema "Eu sou Charlie".
AFP/Joel Saget


No percurso da Praça da República à Praça da Nação, em Paris, os franceses agitaram as bandeiras tricolores e cantaram a "Marselhesa".
AFP/Jean-François Monier


A manifestação teve início às 15:30, mas uma hora antes já a Praça da República estava cheia.
AFP/Bertrand Guay


O mar de gente da Praça da República visto do céu.
AFP/Kenzo Tribouillard


A manifestação em Paris durou até às 21h.
AFP/Bertrand Guay


François Hollande recebeu cerca de 50 dirigentes mundiais no Palácio do Eliseu que depois incorporaram a marcha de Paris.
AFP/Dominique Faget


Na primeira fila: o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu, o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy, o presidente do Mali, Ibrahim Boubacar Keita, o presidente francês François Hollande, a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas.
AFP/Philippe Wojazer


Imagens aéreas da manifestação republicana
Le Monde.fr | 11.01.2015


Le Monde.fr | 11.01.2015 à 16h47


Outras cidades francesas também se associaram a esta manifestação histórica:



25 mil pessoas desfilaram em Reims.
AFP/François Nascimbeni


60 mil manifestaram-se em Marselha.
AFP/Anne-Christine - Poujoulat


Uma maré humana de 300 mil pessoas desfilou em Lyon.
AFP/Jean-Philippe Ksiazek


100 mil manifestaram-se em Bordéus.
AFP/Nicolas Tucat


Mais de 100 mil manifestantes em Rennes.
AFP/Jean-François Monier


A multidão que se manifestou junto ao mar Mediterrâneo, em Nice.
AFP/Valery Hache


*

Nos últimos tempos houve uma escalada de ataques islamitas em França. Depois do caso ocorrido em Joué-lès-Tours, em que um jovem entrou no comissariado com uma faca na mão a gritar "Allahu Akbar" (Deus é grande), ferindo três polícias antes de ser baleado, o primeiro-ministro Manuel Valls alertou para a singularidade da época actual em França: "Nunca experimentámos um perigo tão grande em matéria de terrorismo."
Valls pediu aos franceses para reagirem ao fenómeno do envolvimento dos jovens com a jihad: "Temos mais de mil pessoas envolvidas na jihad na Síria ou no Iraque, mais de 300 estão lá, 56 ou 57 morreram, isto mostra o grau de envolvimento (...). Muitos foram para lá, muitos querem ir, muitos têm regressado felizmente. Isto deve desafiar a sociedade francesa."

Na Alemanha, os líderes do movimento Pegida pretendem denunciar a islamização da sociedade, a ausência de direitos humanos para as mulheres muçulmanas e a existência de sistemas alternativos de justiça impiedosos como a sharia, mas os políticos alemães têm procurado associar os activistas anti-islão aos neonazis.
Na sua mensagem de Ano Novo, a chanceler Angela Merkel disse que os apointes do Pegida têm “ódio nos seus corações”, mobilizando os alemães contra as manifestações do movimento e fazendo gorar a manifestação de Berlim.

A sede do semanário satírico francês Charlie Hebdo foi atacada em 7 de Janeiro de 2015, no mesmo dia em que Soumission, escrito por Michel Houellebecq, chegou às livrarias. Justamente o escritor que foi satirizado no número do Charlie Hebdo saído nessa quarta-feira trágica, no cartoon publicado na primeira página.


A última edição do Charlie Hebdo, publicada em 7 de Janeiro de 2015.
AFP/Bertrand Guay

Mas por que motivo os cartoonistas assassinados assestaram os seus lápis contra o escritor, transformando-o no mago Houellebecq?
Porque, no livro, o islamismo triunfa e dá um Presidente muçulmano à França. Trata-se de um islamismo suave, chegado ao poder pela via democrática, sem confrontos.
Um islamismo que deriva de uma hipotética incompetência dos dois grandes partidos republicanos da direita e da esquerda que teriam conduzido o País para um pântano onde chafurda uma classe branca, afortunada, educada, dominante, que se submete aos medos que criou no povo e ao inimigo que deixou instalar dentro das fronteiras.
Um islamismo politicamente correcto que cria o partido da Fraternidade Muçulmana oportunisticamente aliado ao Partido Socialista para vencer a extrema-direita. Seria muito natural, descreve Houellebecq, que os muçulmanos em França tivessem um partido que os representasse com os valores tirados do Islão, o que obrigaria à refundação do sistema educativo francês sobre uma base islâmica e reconduziria as mulheres ao seu papel doméstico e procriador.

Mas os cartoonistas do Charlie Hebdo não morreram em vão. Quase 4 milhões de franceses perderam o medo e, insubmissos, manifestaram-se em defesa dos valores da República.
Dezenas de dirigentes políticos mundiais aliaram-se ao povo, deliberadamente ou para atenuar a revolta libertada e participaram na marcha de Paris contra o terrorismo islamita. Na primeira fila François Hollande e Angela Merkel. Ladeados por Mariano Rajoy (Espanha), David Cameron (Reino Unido), Jean-Claude Juncker (Comissão europeia) e Matteo Renzi (Itália). A Europa Unida com Paris a ser hoje a capital. Ninguém se importou com a ausência de Barack Obama.

Esta manifestação veio reforçar os valores da República Francesa — Liberdade, Igualdade, Fraternidade é o seu lema — e da sociedade europeia, aberta e laica que erradicou a pena de morte e onde tudo é tolerado excepto a prática ou a apologia da violência. Quem escolher a França para viver, não importa qual o país de origem, a cultura ou a religião professada, terá de aprender a respeitá-los. Parafraseando o provérbio “Em Roma, sê romano”, poder-se-á concluir que “Na Arábia Saudita, sê árabe” mas “Na Europa, sê europeu”.


domingo, 21 de dezembro de 2014

Estados Unidos e Cuba anunciam normalização de relações


Barack Obama e Raúl Castro anunciaram, em simultâneo, na passada quarta-feira, o início da normalização de relações entre os Estados Unidos da América e Cuba, cortadas há 53 anos:

17 Dez, 2014, 20:46


O presidente dos Estados Unidos reconheceu que o corte de relações não teve o efeito de defender os interesses americanos em Cuba.
O presidente de Cuba pediu que, depois de reatadas as relações diplomáticas, fosse posto fim ao bloqueio económico e agradeceu a intervenção decisiva do Vaticano dirigida pelo papa Francisco.

Antes dos discursos de reaproximação de Obama e Castro, Havana tinha libertado um espião norte-americano, Alan Gross, que estava em Cuba alegadamente ao serviço de uma agência de desenvolvimento, enquanto os Estados Unidos davam a liberdade aos três espiões cubanos restantes, de um grupo de cinco, que haviam sido condenados em 2001, depois da denúncia de um alto funcionário cubano.

O reatar de relações não significa o levantamento do embargo norte-americano a Cuba. O embargo só pode ser levantado por ordem do Congresso, que actualmente é dominado pela oposição republicana, tanto na Câmara dos Representantes como no Senado. O presidente pode anunciar o restabelecimento de relações diplomáticas e libertar espiões mas não pode sequer nomear o embaixador em Cuba, sem obter o acordo do Congresso.
Para já, vai haver um levantamento parcial do embargo das viagens dos norte-americanos a Cuba, que são proibidas neste momento. Haverá também o restabelecimento de relações bancárias, com a possibilidade de bancos norte-americanos instalarem caixas ATM em Cuba.


O embargo americano enraíza em acontecimentos ocorridos há mais de meio século:

17 Dez, 2014, 20:46

Em Janeiro de 1959, Fidel Castro conquistou o poder em Cuba depois de encabeçar uma guerra de guerrilha, durante dois anos, contra o governo repressivo e corrupto do ditador Fulgencio Batista que, a partir de 1952, estabeleceu relações com a máfia americana a quem entregou os negócios da droga, do jogo e da prostituição.

Depois de se tornar primeiro-ministro, Fidel de Castro visitou os Estados Unidos, procurando manter relações cordiais com a potência vizinha enquanto desenvolvia projectos sociais nos sectores da educação, saúde e infra-estruturas para melhorar o nível de vida da população cubana.

O governo era apoiado pelos camponeses, operários e estudantes, que constituíam a maioria da população do país, enquanto a classe média se deslocava para a oposição, com milhares de médicos, engenheiros e outros profissionais altamente qualificados a emigrarem para a Florida, nos EUA. Em consequência desta fuga de cérebros, a produtividade diminuiu e as reservas financeiras do país ficaram esgotadas em dois anos. A imprensa conservadora tornou-se hostil ao governo de Castro que decidiu prender centenas de opositores apelidados de contra-revolucionários.
Grupos anti-castristas financiados por exilados, pela Agência Central de Inteligência (CIA), dos EUA, e pelo governo da República Dominicana estabeleceram bases de guerrilha nas montanhas de Cuba, donde conduziam ataques contra o governo de Fidel de Castro. As forças castristas envolveram-nos em cercos cada vez mais apertados e fuzilaram sistematicamente os guerrilheiros capturados até à extinção dos grupos.

Em 1960, as duas superpotências — os Estados Unidos, uma democracia capitalista, e a União Soviética, um estado socialista marxista-leninista governado pelo Partido Comunista único — travavam a Guerra Fria. Fidel de Castro afasta-se dos EUA e defende claramente a visão ideológica da URSS, estabelecendo relações com os países marxistas-leninistas da Europa de Leste.

O presidente americano Eisenhower apoiou um plano da CIA para derrubar Castro que culminou, em Abril de 1961, já na época do seu sucessor John F. Kennedy, na invasão da Baia dos Porcos por exilados cubanos. Foram capturados pelas forças de Fidel de Castro 1.189 dos cerca de 1400 rebeldes que participaram na invasão, sendo 14 levados a julgamento, enquanto os outros foram devolvidos aos EUA em troca de 25 milhões de dólares de alimentos e remédios. Foi instituído o embargo económico e financeiro a Cuba.


18 Dez, 2014, 14:12

O anúncio do reatar de relações diplomáticas entre os dois países, nesta quarta-feira, foi comemorado por muitos cubanos que vivem na ilha, que tem uma população de 11 milhões, como o início de uma nova era para Cuba.


18 Dez, 2014, 14:18

Como era expectável, a notícia foi recebida com apreensão em Miami, nos Estados Unidos, onde vive a maior comunidade dos cerca de 2 milhões de exilados cubanos. Embora alguns pensem que vai provocar, primeiro, a abertura do regime comunista, e depois a sua desintegração, grande parte dos exilados considera-se traída pela administração Obama.
A cidade de Miami foi palco de uma manifestação de exilados cubanos que protestaram contra o governo de Raúl Castro e apelaram ao Congresso para impedir o levantamento do embargo a Cuba.

Já para os norte-americanos o fim do embargo representaria a possibilidade de criar negócios em Cuba, principalmente no sector do turismo, e poderia ter um impacto anual de 6 mil milhões de euros em exportações.
Em Washington, há quem considere que o restabelecimento das relações diplomáticas entre os dois países poderá mesmo levar ao desaparecimento de Guantánamo, a base norte-americana localizada em território cubano, para onde os militares americanos levaram os prisioneiros afegãos que nenhum estado americano quis receber.

*

Começou o princípio do fim do embargo norte-americano a Cuba. Começou o enfraquecimento do regime castrista.
Raúl Castro sabe-o, mas reconhece que o socialismo já fez tudo o que era possível para melhorar o nível de vida da população cubana. Para ir mais além precisa de atrair empresas estrangeiras e reconciliar-se com a classe média cubana exilada nos Estados Unidos. Vai procura singrar a via chinesa: um país capitalista — tão ferozmente capitalista que só os empresários gozam do direito de propriedade privada através das suas empresas — governado por um partido comunista.

Mas não é certo que uma solução que funcionou na Ásia, vai funcionar na América latina. Um papa polaco acelerou a implosão dos regimes socialistas marxistas-leninistas da Europa de Leste, um papa latino-americano poderá desencadear a implosão do regime cubano. Não deixa de ser irónico.


sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Desta vez Obama ultrapassou a linha vermelha


Um documento confidencial publicado pelo jornal britânico The Guardien demonstra que a Agência Nacional de Segurança (NSA) dos Estados Unidos pôs sob escuta os telefones de 35 líderes mundiais.





Um memorando confidencial, obtido através do analista informático Edward Snowden que trabalhou para a NSA, revela que esta agência incentiva altos funcionários dos departamentos seus "clientes" — a Casa Branca, o Departamento de Estado e o Pentágono —, a partilhar as "Agendas de telefones" com a agência para que esta possa acrescentar os números de telefone de líderes políticos estrangeiros aos seus sistemas de vigilância.

Eis o teor do memorando:

Os clientes podem ajudar o SID [Direcção de Informação de Sinal] a obter números de telefone alvo

Data: 10 de Outubro de 2006

Num caso recente, um funcionário dos EUA forneceu à NSA 200 números de telefone de 35 líderes mundiais. Os operadores de S2 entregaram imediatamente esta informação aos centros de produção do S2 (PCs). Apesar da maioria, provavelmente, estar disponível em fonte aberta, os PCs anotaram 43 números de telefone previamente desconhecidos. Esses números, além de vários outros, têm sido monitorizados pelo OCTAVE.

Até agora, os PCs anotaram pouca informação reportável a partir destes números específicos, que parece não terem ser usados para discussões sensíveis. No entanto, estes números têm fornecido informações sobre outros números que, posteriormente, foram monitorizados.

Este sucesso leva o S2 a perguntar se existem ligações da NSA cujos clientes podem estar dispostos a partilhar as suas 'Agendas de telefones' ou listas de telefones com a NSA como fontes potenciais de informação. O S2 acolhe com prazer tal informação!


Segundo o jornal Público, a NSA não pretendia com este memorando sugerir uma nova prática, mas relembrar procedimentos enraizados: “De tempo a tempo, é disponibilizado à SID acesso às listas de contactos pessoais de funcionários dos EUA. Tais agendas de telefone podem conter informações sobre os contactos de líderes políticos ou militares estrangeiros, incluindo linha directa, fax, morada e números de telemóveis.

Portanto tal vigilância não foi um acto isolado. A agência não só tem por rotina a função de escutar os líderes mundiais, como também pede a ajuda dos “clientes” para fazê-lo.





Os aliados europeus dos EUA não gostaram de saber que têm os telefones sob escuta. Mesmo que Obama tenha acabado com esta prática da administração Bush quando chegou à Casa Branca em 2009, algo que não está garantido, como actual presidente dos EUA devia ter apresentado desculpas aos líderes dos países aliados que têm ou, pelo menos, tiveram os telefones sob escuta.

A chanceler alemã, Angela Merkel, telefonou a Barack Obama para manifestar o seu desagrado. Para aliviar a tensão, a Casa Branca emitiu um comunicado de imprensa através do seu porta-voz: “O Presidente garantiu que os Estados Unidos não estão a monitorizar, nem vão monitorizar as comunicações [da chanceler]". Mas não conseguiu resolver o assunto, porque os EUA não negaram ter escutado o telefone no passado.

Chegada a Bruxelas para uma reunião cimeira da União Europeia, Merkel acusou os EUA de quebra de confiança. "Precisamos de confiar nos nossos aliados e parceiros, e isso deve ser estabelecido novamente. Repito que a espionagem entre amigos não é de todo aceitável contra qualquer pessoa, o que abrange todos os cidadãos da Alemanha."


REUTERS/Tobias Schwarz


domingo, 5 de maio de 2013

Mais uma tragédia com armas de fogo nos Estados Unidos



03.05.2013 00:51


No Estado do Kentucky, um menino de 5 anos matou a irmã de 2 anos com um tiro no peito enquanto brincavam. O menino tinha recebido a arma como prenda do aniversário dos 4 anos.
Trata-se de uma espingarda Crickett feita de propósito para crianças.

O Presidente Barack Obama tentou passar no Senado uma proposta de controlo da venda de armas nos Estados Unidos da América mas o partido Republicano, cedendo às pretensões do lobby da produção e venda de armas, opôs-se.

A publicidade da Crickett parece que nos enfia numa máquina do tempo, largando-nos no século XIX quando as crianças tinham de caçar para sobreviver. A responsabilidade é dos políticos que acarinham esta mentalidade anacrónica.

O mais cruel é a atitude passiva, resignada e até desumana da comunidade local que, embora lamentando a perda da vida de uma criança, encara a sua morte como um acontecimento inevitável e fatal. Algo como “esta morreu, temos pena, as outras sobrevivem”.
Nenhuma destas pessoas despendeu um minuto a pensar se uma criança de cinco anos entende a noção de que uma arma mata, ou o que significa a morte. Tanta ignorância é chocante num país que detém a tecnologia mais avançada, mesmo que esta tragédia tenha ocorrido numa comunidade rural.


02 Mai, 2013, 20:48


terça-feira, 16 de abril de 2013

O atentado de Boston - I


Um dia depois das duas explosões que abalaram Boylston Street, no final da Maratona de Boston, nada se conhece a respeito dos responsáveis por este atentado que já vitimou 3 pessoas e feriu mais 176, das quais 17 em estado grave.

Sobre as duas bombas que explodiram ontem às 14:50 locais (19:50 em Lisboa), com um intervalo de 12s e a uma distância de 90m, sabe-se que eram artesanais e carregadas de estilhaços metálicos que vão obrigar a amputação das pernas de muitas vítimas.

Mas neste momento o que nos interessa é a reacção das pessoas.

Nas caixas de comentários à notícia do PÚBLICO pululam os escritos por radicais de esquerda sedentos de sangue a dizer que os americanos têm de experimentar em casa o terror que criaram no Iraque.
Como a cimeira entre Bush, Blair e Aznar que precedeu esta guerra decorreu na base das Lajes, será que gostavam de sofrer em Lisboa um atentado como o ocorrido perto da estação de comboios da Atocha, em Madrid, ou o do metro de Londres? Devem pensar que a ideologia os protege como um escudo invisível e que o sofrimento e a morte só acontecem aos outros.
Também aparecem teorias da conspiração: é um pretexto dos EUA para desencadear uma guerra na Coreia ou para retirar a liberdade à população.





Muito pelo contrário, o autor deste vídeo deixa transparecer o seu horror quando começa a ver as vítimas do atentado caídas num lago de sangue, começa a gritar “Oh meu Deus” e inconscientemente eleva o plano de filmagem para preservar o sofrimento dos feridos do seu olhar indiscreto.
São notórios a humanidade, a generosidade e o altruísmo das imensas pessoas que afastam as grades, correm na direcção dos feridos e vão socorrê-los, sem pensar na hipótese de existência de mais bombas.

Finalmente, atente-se na declaração de Obama:


Escolher legendas em português.


Parcimónia (3 minutos);
Sensatez — "Ainda não sabemos quem fez isto ou porquê. As pessoas não devem tirar conclusões precipitadas antes de sabermos todos os factos";
Actuação imediata — "todos os recursos do governo federal vão ficar à disposição do governo estadual";
Firmeza e determinação — "Só quero reiterar que vamos descobrir quem fez isto e vamos responsabilizá-los."

Palavras sóbrias e muitos actos. Harvard forma estadistas.
No Sul da Europa fala-se muito e faz-se pouco.


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

A reforma obscena de Jardim Gonçalves


O Tribunal da Relação de Lisboa confirmou a decisão do tribunal de Sintra que se julgou incompetente para reduzir a reforma e as regalias (viatura, motorista, segurança particular, avião particular) que foram atribuídas a Jardim Gonçalves no momento da sua aposentação.

Desde Dezembro de 2007, Jardim Gonçalves recebe mensalmente 167.650,70 euros através do fundo de pensões do banco e de um contrato de seguros negociado com a seguradora Ocidental do grupo BCP.

A acção judicial foi apresentada pelo BCP durante o mandato de Carlos Santos Ferreira depois de ter acordado um corte de pensões com todos os antigos administradores à excepção de Jardim Gonçalves.

Segundo o acórdão, ao solicitar que o tribunal determine o ajustamento da reforma do antigo banqueiro à “remuneração fixa mais elevada auferida pelos administradores em exercício”, o BCP estava a requerer a nulidade de uma decisão social do banco que só pode ser tomada pelo Tribunal do Comércio. Justamente o que alegou Jardim Gonçalves.
Por sua vez, o BCP havia fundamentado o seu pedido no facto de o Código das Sociedades Comerciais e o Código Civil estipularem “não poder o montante das prestações de reforma ultrapassar a remuneração fixa mais elevada auferida pelos administradores em exercício”.

Ora o salário mais elevado pago ao antigo presidente do BCP, Santos Ferreira, foi 620 mil euros anuais, ou seja, quatorze prestações mensais de 44 mil euros. O salário do actual presidente, Nuno Amado, sofreu um corte de 50% devido ao banco ter recorrido ao apoio do Estado.

*

Não se pretende desmerecer o valor e a competência de alguém que ergueu do nada aquele que foi, durante mais de uma década, o maior banco privado português.
No entanto, um bom carácter deveria reconhecer que esta reforma milionária é um insulto a quem trabalhou toda a vida e agora recebe 418 euros mensais — e graças ao complemento solidário para idosos.

Barack Obama que é o presidente executivo dos EUA, a maior economia mundial, recebeu 394.821 dólares (295.697 euros) no ano 2011, de acordo com a declaração de rendimentos publicada no site da Casa Branca.

Um leque salarial de amplitude obscena deve ser um alerta de que a elite portuguesa perdeu o pudor. E quando a elite perde o pudor os governados desorientam-ae e a sociedade entra em decadência.

É, portanto, de aplaudir a iniciativa da União Europeia em avançar com legislação para limitar as remunerações dos banqueiros, iniciativa liderada pelo Parlamento Europeu com o apoio da França e da Alemanha e a oposição do Reino Unido.
Uma das regras será limitar o valor dos bónus ao valor do salário. Se, no máximo, os prémios e bónus só puderem duplicar o salário, e apenas quando a decisão obtiver o apoio da larga maioria dos accionistas do banco, os banqueiros ficam desincentivados de promover uma gestão arriscada para ganhar prémios de curto prazo.



18.02.2013 21:16


domingo, 19 de agosto de 2012

Julian Assange luta pela liberdade de expressão


Dizem que Julian Assange é um anarquista. Não apoiamos essa causa.
Mas o motivo da perseguição que os governos dos EUA e do Reino Unido lhe estão a mover é outro: a WikiLeaks — a organização fundada por Assange para lutar contra a corrupção — publicou telegramas secretos enviados pelas embaixadas dos EUA para a administração norte-americana.

Dizia-se que a divulgação do conteúdo desses telegramas ia pôr em perigo a segurança das democracias europeias, norte-americana, canadiana, australiana, ... , enfim, do mundo ocidental.
Nada mais falso.

Nos telegramas relativos a Portugal, o que descobrimos foi a mentira e a hipocrisia de políticos e de banqueiros que vinham a público dizer que defendiam o interesse do nosso País mas iam à embaixada dos EUA, em Lisboa, adular, bajular e comprometer-se na defesa de interesses norte-americanos.
Foi o caso de Santos Ferreira, CEO do Millenium BCP, que se dispôs a fornecer informações sobre os negócios dos clientes iranianos propondo-se trair a confiança depositada por estes naquela instituição bancária.
Foi o caso dos aviões militares que cruzaram o espaço aéreo nacional transportando prisioneiros afegãos para a base naval americana de Guantánamo, em Cuba.

A divulgação dos telegramas mostrou que é preciso transparência na vida política e que as relações entre organizações ou entre países devem seguir um código de ética.
Que as empresas se devem afirmar pela competência dos gestores e dos trabalhadores anónimos, e as nações pela credibilidade dos seus políticos, pelo mérito dos cientistas e pelo trabalho dos cidadãos, não por subserviências ou trafulhices combinadas nos corredores escusos do poder político e económico.

Foi prepotente e excessiva a ameaça do Reino Unido de invadir a embaixada do Equador, em Londres, como resposta à concessão de asilo político a Assange por aquele País.


Merece, portanto, uma leitura a declaração do fundador da WikiLeaks proferida na varanda da embaixada do Equador. Muito equilibrada, sem extremismos, demonstrando sem gritaria a perseguição que lhe está a ser movida pelo governo britânico e pedindo — não exigindo, como se tornou habitual entre os radicais de esquerda — ajuda para a luta da WikiLeaks contra a corrupção.

Recorde-se que uma equipa internacional de causídicos chefiada pelo jurista e antigo juiz espanhol Baltasar Garzón, mundialmente conhecido pela sua luta contra a corrupção político-económica, já aceitou defender Julian Assange nos processos que lhe foram movidos.


19 de Agosto de 2012


Segue-se o texto integral da declaração:

Estou aqui porque não posso estar mais perto de vós.

Agradeço-vos por estardes aqui.

Agradeço a vossa determinação e generosidade de espírito.

Na noite de quarta-feira, depois de uma ameaça que foi enviada para esta embaixada e da polícia ocupar o edifício, vós viestes no meio da noite para observar e trouxestes os olhos do mundo convosco.

Dentro da embaixada, depois de escurecer, eu podia ouvir as equipas de polícias que se apinhavam no prédio através da escada de incêndio interior.

Mas sabia que haveria testemunhas.

E isso é por causa de vós.

Se o Reino Unido não deitou fora as Convenções de Viena nessa noite, foi porque o mundo estava a assistir.

E o mundo estava a assistir porque vós estáveis a assistir.

A próxima vez que alguém vos disser que é inútil defender os direitos que nos são caros, lembrai-lhes a vossa vigília no escuro, do lado de fora da Embaixada do Equador, e como, de madrugada, o Sol apareceu num mundo diferente, e uma nação latino-americana corajosa se pôs do lado da justiça.

E portanto, para aquelas pessoas corajosas:

Agradeço ao Presidente Correa a coragem que demonstrou ao considerar e conceder-me asilo político.

E agradeço ao governo e ao ministro dos Negócios Estrangeiros, Ricardo Patiño, que têm defendido a constituição equatoriana e a sua noção de direitos universais na consideração do meu caso.

E ao povo equatoriano por apoiar e defender a sua constituição.

E tenho uma dívida de gratidão para com o pessoal desta embaixada cujas famílias vivem em Londres e que me têm demonstrado hospitalidade e afabilidade, apesar das ameaças que receberam.

Nesta sexta-feira haverá uma reunião de emergência dos ministros dos Negócios Estrangeiros da América Latina em Washington DC para resolver esta situação.

E estou grato ao povo e aos governos da Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, El Salvador, Honduras, Jamaica, México, Nicarágua, Peru, Venezuela e de todos os outros países latino-americanos que vieram defender o direito de asilo.

Às pessoas dos Estados Unidos, Reino Unido, Suécia e Austrália, que me apoiaram em força enquanto os seus governos não. E para aquelas cabeças mais sábias no governo que ainda estão a lutar pela justiça. Um dia será a vossa vez de governar.

À equipa, apoiantes e fontes do WikiLeaks cuja coragem, empenho e lealdade nunca vi nenhuma igual.

À minha família e aos meus filhos a quem tem sido negado o pai: perdoem-me. Reunir-nos-emos em breve.

Tal como a WikiLeaks está sob ameaça, assim está a liberdade de expressão e a saúde das nossas sociedades.

Temos de usar este momento para estruturar a escolha que se apresenta ao governo dos Estados Unidos da América.

Será que vai regressar às origens e reafirmar os valores sobre os quais foi fundado?

Ou será que se vai balançar no precipício arrastando todos nós para um mundo perigoso e opressivo em que os jornalistas se calam sob o medo de serem processados e os cidadãos têm de sussurrar no escuro?

Declaro que deve voltar.

Apelo ao Presidente Obama para tomar a decisão correcta.

Os Estados Unidos devem renunciar à caça às bruxas contra a WikiLeaks.

Os Estados Unidos devem dissolver esta investigação do FBI.

Os Estados Unidos devem prometer que não vão procurar processar a nossa equipa ou os nossos apoiantes.

Os Estados Unidos devem empenhar-se perante o mundo que não vão perseguir os jornalistas por porem um foco de luz sobre os crimes secretos dos poderosos.

Não deve haver mais conversa insensata sobre processar qualquer organização dos media, seja a WikiLeaks ou o New York Times.

A guerra do governo dos EUA contra os denunciadores deve acabar.

Thomas Drake, William Binney, John Kirakou e os outros heróicos denunciadores norte-americanos devem — devem — ser perdoados e compensados pelas dificuldades que sofreram como funcionários do serviço público.

E o soldado que permanece numa prisão militar em Fort Leavenworth, Kansas, que a ONU descobriu ter sofrido meses de detenção torturante em Quantico, Virgínia, e que ainda está — após dois anos de prisão — à espera de julgamento, deve ser libertado.

E se Bradley Manning realmente se comportou como é acusado, é um herói, um exemplo para todos nós e um dos principais prisioneiros políticos mundiais.

Bradley Manning deve ser libertado.

Na quarta-feira, Bradley Manning passou o 815º dia em detenção sem julgamento. O máximo legal é 120 dias.

Na quinta-feira, o meu amigo Nabeel Rajab foi condenado a 3 anos de prisão por causa de um tweet.

Na sexta-feira, uma banda russa foi condenada a 2 anos de prisão por causa de um espectáculo activista.

Há unidade na opressão.

Deve haver unidade absoluta e determinação na resposta.


*


Actualização em 5 de Fevereiro de 2016

O grupo de trabalho do Alto Comissariado para os Direitos Humanos da ONU considerou esta sexta-feira que a detenção de Julien Assange, em Dezembro de 2010, pela Suécia e Reino Unido, foi "arbitrária" e reclamou uma indemnização para o detido.

"O grupo de trabalho considerou que o Sr. Assange foi submetido a várias formas de privação de liberdade: detenção inicial na prisão de Wandsworth, que foi seguida de [550 dias de] prisão domiciliária e refúgio na embaixada do Equador", afirma o comunicado divulgado por aquele Alto Comissariado, onde se garante também que a decisão é "legalmente vinculativa", ao contrário do que defende o ministro dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido.


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Quanto custa a liberdade da Europa? 300 mil euros por ano


Depois da dramática aprovação do pacote de austeridade no parlamento grego para evitar a bancarrota, no passado domingo 12 de Fevereiro, enquanto manifestantes da extrema esquerda punham Atenas a ferro e fogo incendiando 45 edifícios, pensava-se que a Grécia ia iniciar um período de calma e reconstrução.

Santa ingenuidade!

Primeiro foi a recusa da Nova Democracia em assinar um acordo transparente com a troika sobre as medidas de austeridade. "Dar prioridade à recuperação e a outros objectivos só vai tornar o programa mais eficaz e o esforço de ajustamento mais bem sucedido. Portanto ... algumas modificações políticas poderão ser necessárias para garantir a plena aplicação do programa", escreveu Antonis Samaras, seu líder e futuro primeiro-ministro após as eleições de Abril, a confirmarem-se as sondagens.

Agora foi a vez doutros políticos gregos se comportarem como virgens ofendidas quando o ministro das Finanças alemão lembrou que faltava pormenorizar a forma de poupar 325 milhões de euros em falta, o seu vice comparou a Grécia a um "poço sem fundo" e os ministros das Finanças europeus exigiram um acordo escrito para aprovarem um empréstimo de 130 mil milhões de euros mais um perdão de dívida de 100 mil milhões.
"Não aceito os insultos do Sr. Schäuble ao meu país", disse hoje o Presidente grego Karolos Papoulias, de 82 anos e que lutou na resistência contra os nazis durante a Segunda Guerra Mundial, num discurso no ministério da Defesa. "Não os aceito como grego. Quem é o Sr. Schäuble para ridicularizar a Grécia? Quem são os holandeses? Quem são os finlandeses? Tivemos o orgulho de defender não apenas a nossa liberdade, não apenas o nosso país, mas a liberdade de toda a Europa."


O Presidente grego Karolos Papoulias no Ministério da Defesa Nacional, em Atenas, em 15 de Fevereiro de 2012. Simela Pantzartzi/EPA/Landov


Oriundo do socialista PASOK, Papoulias recebeu o apoio do partido conservador Nova Democracia na eleição para Presidente da República pelo parlamento, em Fevereiro de 2005. Reeleito em Fevereiro de 2010 pelos deputados destes partidos, viu a Grécia pedir um primeiro resgate de 110 mil milhões de euros três meses depois.

Num gesto de solidariedade com a população grega a sofrer uma grave crise económica, Papoulias pediu hoje para deixar de receber o seu salário público. Segundo cálculos da Bloomberg baseados em documentos do governo, Papoulias recebe cerca de 300.000 euros por ano. A assessoria de imprensa do presidente não confirmou nem desmentiu.
Barack Obama que é um presidente executivo e dos EUA, a maior economia mundial, recebeu 395.188 dólares (301.473 euros) em 2010, de acordo com a declaração de rendimentos publicada no site da Casa Branca.


Donde se conclui que estão no bom caminho os cidadãos lusos que andam a bater nos nossos políticos perdulários ou gananciosos, em caixas de comentários e blogues. Rédea curta nesta gente, se não quisermos imitar o descalabro grego.


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Registe-se a unanimidade de opiniões:


J.Silva 15 Fevereiro 2012 - 20:04
Vergonha
O Barack Obama é um presidente executivo eleito por sufrágio universal e representa o maior país do Mundo.
Ter o mesmo vencimento dum presidente cujas funções são essencialmente formais e dum país pequeno, reflecte a falta de vergonha a que se chegou e inclusive o segredo desta situação. Deve haver respeito pela Grécia e não devemos estigmatizá-la fazendo comparações com outros, a todo e qualquer país deve ser reconhecida dignidade, mas este vencimento é uma indignidade de todo o tamanho. O presidente em vez de apelidar o seu acto como solidário, deveria demitir-se e pedir desculpa aos gregos, já que este vencimento deve ser dos maiores senão o maior dos cargos políticos da zona euro.


josedomingos 15 Fevereiro 2012 - 21:34
Por vezes, um pouco de humildade não fica nada mal...
São vergonhas como a deste indivíduo, o Presidente da Grécia, a ganhar a módica quantia de €300.000 (trezentos mil euros!), que explicam como desaparece o dinheiro dos contribuintes europeus que é emprestado à Grécia.

Será que este senhor supõe que faz alguma fineza em prescindir de um ordenado pornográfico como este? Tudo aponta para que sim.
Ainda por cima, o homem fica ofendido quando lhe são ditas as verdades. Na lógica deste senhor, pelos vistos, são os contribuintes europeus que têm a obrigação de sustentar os gregos.
Por amor de Deus!


Nuno 15 Fevereiro 2012 - 23:05
O quê?
Este tipo ocupa um cargo puramente cerimonial (ainda tem menos poderes que o Cavaco) e ganha o mesmo que o Obama, que ocupa um cargo com poderes executivos num país com 30 vezes mais população que a Grécia? Acho que estou a ter alucinações...