terça-feira, 17 de outubro de 2017

Declaração do Presidente da República ao País, em Oliveira do Hospital


Os incêndios deste fim-de-semana provocaram, pelo menos, mais 41 mortos aos quais se somam as 64 mortes de Pedrógão, em Junho.

Consternado pelos fogos florestais de 2017 já terem causado mais de uma centena de mortos, Marcelo Rebelo de Sousa proferiu uma declaração ao País, esta noite, nos Paços do Concelho de Oliveira do Hospital, um dos municípios mais afectados pelos incêndios deste mês de Outubro.

Eis a versão integral publicada no sítio da Internet da Presidência da República:



Arquivamos também a versão gravada pela RTP sem ruído de fundo:




"Aqui, em Oliveira do Hospital, o último fim-de-semana conheceu o maior número de vítimas, de desalojados, de desempregados, de pessoas atingidas pelos fogos. Por isso, falo aos portugueses, hoje, daqui.

O presidente da República é, antes de mais, uma pessoa. Uma pessoa que reterá, para sempre, na sua memória imagens como as de Pedrógão. Pedrógão rodeado pelo fogo com um autarca perdido a confessar que só na manhã seguinte descobriria quantos corpos estavam naquelas casas a arder, ali mesmo ao lado.
Umas histórias dos populares a combaterem fogos, em desespero, tantas vezes isolados. Ou a aventura generosa daquelas colunas de bombeiros vindas do outro lado de Portugal para lutarem noite fora em terrenos e condições acabadas de conhecer.
Ou agora, nestas Beiras, como dois irmãos morreram para salvar colmeias sustento e razão de ser da sua vida.
Ou uma aldeia, várias aldeias tocaram o sino a rebate, reuniram os anciãos na igreja e fizeram aquilo que se fazia há cem anos para apagar as chamas.
E o heroísmo de milhares de operacionais, como as corporações de bombeiros que há pouco saudei, e de muitos lugares que sozinhos tiveram de resistir pelas suas terras e pelas suas gentes.
E ainda dezenas e dezenas de testemunhos de perdas de tudo, dos avós aos pais, aos filhos, aos netos, aos maridos, às mulheres.

Mais de 100 pessoas mortas em menos de 4 meses em fogos em Portugal. Por muito que a frieza destes tempos cheios de números e de chavões políticos, económicos e financeiros nos convidem a minimizar ou banalizar, estes mais de 100 mortos não mais sairão do meu pensamento. Como um peso enorme na minha consciência, tal como no meu mandato presidencial.
Também por isso, por ter sentido chegar a tragédia e depois a ter confirmado de perto, estive onde estive, em Junho, e estarei nos próximos dias onde estarei.

Se falei aos portugueses primeiro como pessoa, foi para tornar bem claro que sempre, e mais ainda em tempos como estes, olhar para os dramas de pessoas de carne e osso com a distância das teorias, dos sistemas ou das estruturas, por muito necessário que possa ser, é passar ao lado do fundamental. Na vida como na política. E o fundamental é o que vai na alma de cada uma e de cada um dos portugueses.

Mas mais de 100 mortos em menos de 4 meses, além de ser um peso na consciência, são igualmente uma interpelação política. Uma interpelação política ao Presidente da República que foi eleito para servir incondicionalmente os portugueses. Para cumprir e fazer cumprir uma Constituição que quer garantir a segurança e a confiança dos cidadãos.

Ora, se há realidade que objectivamente ocorreu com estas mortes e estas duas e tão diferentes provações de um Verão interminável, foi a fragilização de muitos portugueses. Não vale a pena negá-lo.

Ficaram fragilizados perante aquilo que se lhes disse ou ouviram sobre a floresta e décadas de desordenamento ou incumprimento da lei.

Ficaram fragilizados perante o que lhes pareceu ser a insuficiência de estruturas ou pessoas em face de condições meteorológicas, dimensão e natureza de fogos, tão diferentes daqueles a que estavam habituados.

Ficaram fragilizados perante leituras dos relatórios sobre Pedrógão, em especial a do relatório da Comissão Parlamentar Independente, que acentuam dúvidas, temores, preocupações.

Ficaram fragilizados perante nova tragédia três dias depois da divulgação do relatório e por isso mesmo antes de acções possíveis por ele recomendadas.

Ficaram fragilizados perante a crescente denúncia de autarcas relativamente à criminalidade impune porventura existente na base dos fogos.

Ficaram sobretudo fragilizados perante a ideia da impotência. Da impotência da sociedade e dos poderes públicos, em face de tamanha confluência de catástrofes no tempo e no espaço.

Claro que uma tal fragilidade foi, ou é, em muitos casos, excessiva ou injusta atendendo à extensão das áreas atingidas, à virulência dos fogos e, em particular, à abnegação, ao heroísmo dos que a pé firme estiveram mobilizados cinco meses seguidos ao serviço da comunidade.

Mas o certo é que a fragilidade existiu e existe e atinge os poderes públicos e exige uma resposta rápida e convincente. E agora? Agora que se junta a interpelação dos que prematuramente partiram à exigência indignada dos que ficaram, o que pode e deve dizer o Presidente da República?

Pode e deve dizer que esta é a última oportunidade para levarmos a sério a floresta e a convertermos em prioridade nacional — com meios para tanto, senão será uma frustração nacional. Se houver margens orçamentais, que se dê prioridade à floresta e à prevenção dos fogos.

Pode e deve dizer que, por conseguinte, deve haver uma convergência alargada, porque os governos passam e é crucial que a prioridade permaneça.

Pode e deve dizer novamente que espera do Governo que retire todas, mas todas, as consequências da tragédia de Pedrógão, à luz das conclusões dos relatórios, em especial do relatório da Comissão Parlamentar Independente. Como, de resto, o Governo se comprometeu publicamente a retirar.

Pode e deve dizer que espera que nessas decisões não se esqueça daquilo que nos últimos dias confirmou ou ampliou as lições de Junho e olhe para estas gentes, para o seu sofrimento, com maior atenção ainda do que aquela que merecem os que têm os poderes de manifestação pública em Lisboa.

Pode e deve dizer que abrir um novo ciclo inevitavelmente obrigará o Governo a ponderar o quê, quem, como e quando melhor serve esse ciclo.

Pode e deve dizer que se na Assembleia da República há quem questione a capacidade do actual Governo para realizar estas mudanças que são indispensáveis e inadiáveis, então, nos termos da Constituição, esperemos que a mesma Assembleia soberanamente clarifique se quer, ou não, manter em funções o Governo. Condição essencial para, em caso de resposta negativa, se evitar um equívoco. E de resposta positiva, reforçar o mandato para as reformas inadiáveis.

Pode e deve dizer que reformar a pensar no médio e longo prazo, não significa termos de conviver com novas tragédias até lá chegarmos.

Pode e deve dizer que estará atento e exercerá todos os seus poderes para garantir que onde existiu ou existe fragilidade, ela terá de deixar de existir. E que não será mais possível ano após ano se garantir segurança, para ter de reconhecer no ano seguinte que ela não é possível confirmar-se.

Pode e deve dizer que é tempo de reconstruir, de iniciar um novo caminho, de acreditar no futuro na base da mudança em relação ao passado.

Pode e deve dizer que é a melhor, se não a única forma, de verdadeiramente pedir desculpa às vítimas de Junho e de Outubro. E, de facto, é justificável que se peça desculpa. É, por um lado, reconhecer com humildade que portugueses houve que não viram os poderes públicos como garante de segurança e confiança. E, por outro lado, romper com o que motivou a fragilidade, ou motiva o desalento, ou a descrença dos portugueses.

Quem não entenda isto — humildade cívica e ruptura com o que não provou ou não convenceu —, não entendeu nada do essencial que se passou no nosso país.

Para mim, como Presidente da República, o mudar de vida neste domínio é um dos testes decisivos ao comprimento do mandato que assumi. E nele me empenharei totalmente até ao fim desse mandato.

Impõem-no milhões de portugueses. Mas impõem-no, sobretudo, os mais de 100 portugueses que tanto esperavam da vida no início do Verão de 2017 e não chegaram ao dia de hoje."


*





Hélio Madeiras


Adriano Miranda


Mais de 100 mortos em menos de 4 meses, reduzido a cinzas o Pinhal de Leiria que os reis D. Afonso III e D. Dinis mandaram plantar há mais de 700 anos e vários relatórios sobre os incêndios de Pedrógão — em especial, o elaborado pela Comissão Independente nomeada pela Assembleia da República que apontou graves falhas na prevenção e combate aos incêndios, desde logo da Protecção Civil, na tutela do Ministério da Administração Interna —, obrigaram o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa a dar um murro na mesa do governo de António Costa.

Agora espera-se que, após o Conselho de Ministros extraordinário do próximo sábado que irá analisar os relatórios sobre Pedrógão, o primeiro-ministro anuncie o pedido de demissão da ministra da Administração Interna.
Só peca por tardia. Aquando dos fogos florestais de Junho, percebeu-se que Constança Urbano de Sousa pouco mais tinha feito além de decapitar as chefias distritais da Protecção Civil para arranjar emprego para a rapaziada socialista.

Sobre a moção de censura que o CDS vai apresentar no parlamento contra o Governo, e que o PSD deixou antever que apoiará, o Presidente tira as ilações das duas opções possíveis. Se a moção for aprovada, evita-se o "equívoco" de prosseguir com um governo sem suporte parlamentar. Se for chumbada — o que obviamente vai suceder porque os interesses de BE e PCP na administração pública e no sector empresarial do Estado passam pela continuidade do governo socialista —, o actual governo sai "reforçado" para concretizar as "reformas inadiáveis" na floresta portuguesa.

No entanto, não pense António Costa que vai poder continuar a entregar pastas ministeriais a gente incompetente que deixe morrer mais uma centena de portugueses no Verão de 2018. E depois da tragédia vir debitar um discurso solidário iniciado com um leve sorriso e sem assumir culpas e responsabilidades.
É que nesta declaração ao País, no palco do concelho mais fustigado pelos incêndios deste mês de Outubro, Marcelo Rebelo de Sousa deixou claro que vai cumprir a Constituição, estando disposto a usar os poderes que nela lhe são conferidos para garantir que as fragilidades governativas não voltem a colocar em causa a segurança dos portugueses.



segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Resultados do concurso de acesso ao ensino superior 2017


Foram divulgadas pela Direcção-Geral do Ensino Superior (DGES) as listas de alunos colocados na 1.ª fase do concurso de acesso ao ensino superior público:

CANDIDATURA AO ENSINO SUPERIOR PÚBLICO - COLOCAÇÕES 2017

Pode procurar pelo número de identificação (número do bilhete de identidade ou 8 primeiros dígitos do cartão de cidadão).

Também pode procurar pelo tipo de ensino superior:



De acordo com uma nota da DGES, concluída a primeira fase do concurso nacional de acesso, foram colocados 44 914 novos estudantes, o que representa um crescimento de 4,6% em relação à mesma fase do concurso do ano anterior (42 958 em 2016).
Concorreram a esta fase 52 434 estudantes, o que representa um acréscimo de 6,0% em relação ao ano anterior (49 472 em 2016). Foram já colocados 85,7% dos candidatos (86,8% em 2016), sendo 83,4% numa das suas três primeiras opções.


*


A DGES divulgou também uma nota sobre a 2ª fase:

De 11 a 22 de Setembro decorrerá a apresentação da candidatura à 2.ª fase do concurso nacional de acesso ao ensino superior público de 2017.

Podem concorrer à 2.ª fase do concurso:
a) Os candidatos à 1.ª fase não colocados;
b) Os candidatos colocados na 1.ª fase que pretendam concorrer de novo (se estes estudantes forem colocados na 2.ª fase, a colocação na 1.ª fase, bem como a matrícula e inscrição que realizaram, são anuladas);
c) Os candidatos que, embora colocados na 1.ª fase, não procederam à respectiva matrícula e inscrição;
d) Os estudantes que, embora reunindo condições de candidatura no prazo de apresentação das candidaturas à 1.ª fase, não se apresentaram a ela;
e) Os estudantes que só reuniram as condições de candidatura após o fim do prazo de apresentação das candidaturas à 1.ª fase.

Os resultados da 2.ª fase do concurso nacional de acesso são divulgados no dia 27 de Setembro, na mesma hiperligação.

Importante para os alunos que vão concorrer à 2ª fase é a Listagem de Vagas Sobrantes da 1.ª Fase - 2017 com a nota de candidatura do último colocado, em excel.


quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Sobre a primeira greve laboral na Autoeuropa


Depois de 26 anos de paz laboral, a Autoeuropa teve a sua primeira greve por razões laborais, sete meses após a reforma do carismático coordenador da comissão de trabalhadores da fábrica da Volkswagen em Palmela.

De acordo com o novo modelo de horários que deveria ser implementado a partir de Novembro, cada trabalhador iria rodar nos turnos da manhã e da tarde durante seis semanas e faria o turno da madrugada durante três semanas consecutivas, com uma folga fixa ao domingo e uma folga rotativa nos outros dias da semana.

A greve foi marcada após a rejeição de um pré-acordo entre a administração e a nova Comissão de Trabalhadores — que apresentou a demissão e convocou eleições para 3 de Outubro —, devido aos novos horários de laboração contínua retirarem a folga fixa ao sábado.

O conflito laboral na Autoeuropa é uma questão de dinheiro ou de tempo para a família?

A Autoeuropa existe há 26 anos mas o trabalho ao sábado numa base permanente é desconhecido para os trabalhadores da empresa. Até agora, quando a produção assim o exigia, a fábrica trabalhava aos sábados de manhã, o que era remunerado como horas extraordinárias.

Agora, os trabalhadores apontam que os 175 euros mensais extra oferecidos pela administração ficam muito abaixo dos 400 euros mensais a que teriam direito se trabalhassem o sábado em regime de horas extraordinárias. Por outro lado, dizem que trabalhar todos os sábados, e turnos nocturnos, vai ter consequências negativas para a sua vida familiar e também em termos de saúde.

Já a administração da Autoeuropa precisa que a fábrica trabalhe sem parar durante seis dias por semana, em três turnos diários, num total de 18 turnos semanais, para produzir 240 mil automóveis em 2018.

Em entrevista ao Negócios, António Chora, o coordenador da comissão de trabalhadores durante 20 anos, descreve o contexto em que eclodiu o conflito. Primeiro, vejamos, resumidamente, o seu percurso de vida:
António Chora nasceu em Montemor-o-Novo, em 1954. Começou a trabalhar com 12 anos, primeiro na construção civil, de seguida numa empresa de tecidos, em Lisboa.

A partir dos 14 anos começou a estudar à noite no ensino técnico, tendo feito o curso industrial e o comercial. Mais tarde completou o ensino secundário, fazendo o complementar de Mecanotecnia.

Entrou na Siderurgia em 1977 e, como era militante do PCP, foi chamado para a actividade sindical embora não tenha sido delegado sindical a tempo inteiro. Passou para a Autoeuropa, em 1992, e aí trabalhou até à sua reforma, em Janeiro de 2017. Foi o coordenador da comissão de trabalhadores (CT) desta empresa entre 1996 e 2016, um período que é recordado pelo aumento do número de postos de trabalho e por relações laborais estáveis.

Desde o 25 de Abril, tem sido deputado municipal do concelho da Moita, onde reside. Em 1999, nove anos depois da implosão dos regimes socialistas nos países europeus do Leste, pediu a demissão do PCP e, no final desse ano, ligou-se ao Bloco de Esquerda. Entre 2006 e 2007, foi deputado do parlamento, em substituição de Fernando Rosas, durante seis meses.

O coordenador demissionário da CT, Fernando Sequeira, disse que o sindicato SITE Sul, afecto à CGTP, estava a realizar um assalto ao castelo na Autoeuropa. Concorda?
Sim, é claramente o assalto ao castelo e a tentativa do PCP pressionar o Governo para algumas cedências noutros lados. Mas isso tem sido a prática ao longo dos anos.

Este sindicato aproveitou a sua saída para entrar na CT?
Vamos ver se entram. Ainda tem que haver eleições. O sindicato montou-se em cima de quatro ou cinco populistas. É lamentável porque é um sindicato com história.

Está admirado com este conflito laboral?
Estou espantado. Nunca pensei ver tanta verborreia como tenho visto ultimamente, mas o populismo é assim.

Vai haver muita adesão à greve de dia 30 de Agosto?
Penso que sim, é capaz de haver uma adesão significativa porque as pessoas estão demasiado instrumentalizadas e demasiado confiantes nas palavras de pessoas que nunca viram na vida delas.

Mas a administração diz que não negoceia com sindicatos...
Sim, é o que se passa em todas as fábricas da Volkswagen, tirando o caso de Bratislava [Eslováquia] onde há dois sindicatos, mas em que cada dia de greve é pago pelos sindicatos a 50 euros, aqui não se passa nada disso.

Pode haver um acordo até ao final do ano?
Penso que sim, se houver uma nova comissão de trabalhadores com carisma. Gostaria que uma lista independente ganhasse as eleições. Normalmente aparecem quatro ou cinco listas, vai depender da divisão de votos por essas listas.

Tem-se falado em deslocalizar parte da produção do novo modelo T-Roc...
Eu já vi isto acontecer, em 2005 e 2006, na Volkswagen, em Pamplona, e na Seat, em Barcelona. Num caso não foram admitidos trabalhadores, noutro caso foram para a rua. Mas depois desta euforia vamos acompanhar esta situação com muita calma, com muita atenção.

Os 2000 novos postos de trabalho [criados por causa do T-Roc] ficariam em risco com a deslocalização?
Uma parte significativa sim, se calhar 700 ou 800 estão.

Tem-se comparado a Autoeuropa com a Opel na Azambuja [que fechou em 2006]...
Penso que a Volkswagen não trabalhará assim. Quando decidem é a longo prazo. Mas se a Volkswagen não conseguir produzir os automóveis aqui, há-de produzi-los noutro lado. Quanto mais próxima está a produção de um automóvel da produção dos seus motores ou da sua caixa de velocidade, mais barato se torna. Todos sabemos o preço que a logística tem hoje.

A Autoeuropa já esteve em risco de fechar?
As únicas vezes que a fábrica teve esse risco foi em 1999, quando a Ford desistiu do projecto, e depois em 2005 quando a Volkswagen falou em encerrar uma fábrica na Europa. Na altura falou-se na Autoeuropa por causa das questões logísticas e a outra era a fábrica de Bruxelas por questões salariais, custos de produção. Na altura estive quase três semanas na Alemanha com muitas reuniões com administrações e com comissões de trabalhadores e optou-se "por vender" a fábrica de Bruxelas à Audi. Em Dezembro de 2005 tinha havido também a recusa de um acordo, mas em Janeiro de 2006 foi aprovado por uma esmagadora maioria e tudo isso contribuiu para a manutenção da fábrica até hoje.

Quando se reformou já previa este conflito laboral?
Eu atrasei a minha saída um ano exactamente por causa disto. Eu era para ter saído em Dezembro de 2015, mas tinha assinado um acordo a dizer que até Fevereiro de 2016 tinha que ter os horários prontos por causa do T-Roc, mas a empresa não encetou negociações, e acabei por sair em Janeiro de 2017. Mas poderia ter-se arranjado algum tempo no meio disto tudo para negociar. Não podia estar a prolongar eternamente a minha saída. Não se negociou durante esta altura porque penso que havia a necessidade de defender os postos de trabalho que estavam em risco. A Autoeuropa teve que negociar com a Volkswagen para distribuir pessoas pela Alemanha até à vinda do T-Roc.

Saiu com o sentimento de dever cumprido?
Fui o trabalhador número 144 a entrar na Autoeuropa. Estive na liderança da comissão de trabalhadores de 1996 até 2016. E orgulho-me de ter sido membro de uma CT que começou numa fábrica com 144 pessoas. Saí de lá com 4 mil, contrariamente a muitos sindicatos que entraram com 11 mil trabalhadores e saíram com ninguém, como na Lisnave, CUF ou Quimigal. Tenho muito orgulho no meu trabalho.



T-Roc, o veículo que substituirá o modelo Sharan, cuja produção será descontinuada. Será produzido em Palmela pela Autoeuropa?


A greve teve uma adesão de 41%, mas bastava a ausência de apenas uma equipa da linha de montagem para o sindicato SITE Sul conseguir paralisar a produção de automóveis.

No parque industrial de Palmela existe um total de 13 empresas fornecedoras da Autoeuropa, actualmente com 1600 trabalhadores, metade das quais também foi afectada pela greve.

"Estão fábricas paradas devido à greve da Autoeuropa. Umas seis a sete fábricas foram atingidas pela greve, umas parcialmente, outras totalmente", afirmou Daniel Bernardino, coordenador da comissão de trabalhadores deste parque.

A maioria destas fábricas utilizam um processo de produção industrial conhecido por "just in time", isto é, os componentes não são armazenados, são enviados diariamente para a Autoeuropa.

"Esta paragem afecta-nos, porque como trabalhamos "just in time" é tudo escoado em poucas horas. Não temos espaço para armazenar a produção de um dia inteiro nas nossas empresas. O processo "just in time" obriga a que tenhamos stocks muito reduzidos", explica Daniel Bernardino.

Com o início da produção do T-Roc estas empresas tencionavam recrutar, pelo menos, mais 400 trabalhadores.


*


O pré-acordo previa que o horário de trabalho na Autoeuropa manteria as 40 horas semanais e a redução de folgas em dias consecutivos para 2/6 — teriam dias de folga consecutivos de três em três semanas, quando, a juntar ao dia de folga fixa, domingo, a folga rotativa fosse ao sábado ou à segunda-feira — teria a compensação financeira de 175 euros mensais.

No entanto, Arménio Carlos, secretário-geral da CGTP, explicou claramente o motivo da greve: "A Autoeuropa pura e simplesmente não pode deixar de se reunir com os sindicatos, tem que falar com os sindicatos porque são estes que representam os trabalhadores. Da mesma forma que pode e deve falar com a comissão de trabalhadores".

E fez exigências à administração da Autoeuropa: "Agora o que importa é dar o passo seguinte. Retomar o diálogo, expurgar tudo aquilo que possa gerar problemas na proposta que a empresa apresentou e apresentar alternativas. Depois deste passo, se se concretizar ou não, veremos se temos de dar o terceiro passo [nova greve], ou se porventura não é necessário".

Portanto, mais do que um conflito laboral, é uma guerra de poder político entre o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista Português. Sem quaisquer preocupações com o destino dos trabalhadores, quer da Autoeuropa, quer do parque industrial de Palmela. E, ainda menos, com a economia do país.

Alguns comentários lidos no Negócios:

abelavida
Há 16 horas
Se as condições não interessam aos trabalhadores da Auto Europa, estes só têm de não aceitar. Da mesma forma a VW também está no seu direito de mudar a produção para outro lado.
A questão é que se calhar há muita gente que gostava de trabalhar na fábrica dentro das condições que a mesma oferece.
Se falhar o bom senso de parte a parte quem acaba por perder é o país, ou seja, todos os portugueses.

Anónimo
Há 16 horas
Não vi aqui ninguém a defender 48h de trabalho para os seus colegas: tanto quanto sei, a proposta em causa visa que o pessoal trabalhe aos sábados e faça uma folga semanal rotativa, que também pode ser aos sábados. E por isso recebem 175,00€ extraordinários!

Tentando Perceber
Há 15 horas
As Guerras Políticas são assim, não querem saber do mal que fazem à Economia, a Portugal, daí que, por alguma simpatia que se possa ter pelo BE e pelo PCP, mete receio votar neles, por causa da irresponsabilidade que demonstram numa pequena luta de poder entre BE-Comissão de Trabalhadores e PCP-Sindicatos.

Anónimo
Há 15 horas
Este é o dilema global da globalização.
Aceitar imposições ou ir para o desemprego.
Tudo começou quando comprámos a primeira pechincha numa loja do chinês.
Agora estamos a competir com o chinês que trabalha em regime de cama quente.
Solução difícil, mas nunca com a demagogia sindical.

Anónimo
Há 10 horas
A CGTP só quer protagonismo. Em 26 anos de existência e em situações de redução da produção não houve greves, agora que esta vai aumentar é que fazem greve, realmente dá que pensar.

Ó palermas dos trabalhadores da AE
Há 13 horas
Os sindicatos são sempre contra o patrão mas tal não significa que estejam do vosso lado.
Vocês estão a ser manipulados e usados pelos terroristas económicos.
Abram a pestana e aprendam a negociar sozinhos, sem interferências exteriores, caso contrário os parasitas sociais ganham e vocês perdem.

Leão_da_estrela
Há 11 horas
Não estejam preocupados porque se a VW se chatear e levar a fábrica daqui para fora, o sindicato sustenta os 3500 trabalhadores até arranjarem emprego similar em ordenado e condições. Se não querem trabalhar dêem o lugar a outros. Esquecem-se que querem o fim-de-semana para ir aos centros comerciais e aos supermercados onde estão pessoas a trabalhar porque precisam de ganhar a vida.

Anónimo
Há 1 dia
Coitadinhos (dos empregados da AE, claro) onde eles se estão a meter...
A grande maioria deles são jovens e não conhecem a maneira destes sindicalistas negociarem! Já os da minha idade, ainda se lembram (ontem nos noticiários das televisões às 8 h deu para relembrar) das imagens às portas da LISNAVE, SETENAVE, SIDERURGIA NACIONAL, QUIMIGAL, SOREFAME, e por aí fora, e todos sabemos como acabaram. Resta a LISNAVE (chegou a ser das maiores construtoras/reparadoras navais mundiais) em Setúbal a fazer umas coisitas de nada, com meia dúzia de gatos pingados.
Não sei se já será tarde demais, mas abram a pestana, senão estão fecundados com um F muito grande...

Anónimo
Há 1 dia
A AE deve negociar com os trabalhadores (comissão) e não com sindicatos. A CGTP não deve atirar achas para a fogueira numa altura em que a empresa precisa de se concentrar no arranque da produção do novo modelo, pois é isto que vai dar continuidade e pagar o salário aos trabalhadores.


terça-feira, 22 de agosto de 2017

Depois do acto terrorista em Barcelona, qual será a próxima cidade?


Em 17 e 18 de Agosto de 2017, ocorreram atentados terroristas em La Rambla de Barcelona e no passeio marítimo de Cambrils, cidades situadas na região autónoma da Catalunha, em Espanha, que provocaram 15 mortos e mais do que uma centena de feridos.

Eis um resumo dos atentados (com erros) publicado pelo jornal La Vanguardia:


  1. Explosão de uma moradia com 106 garrafas de gás, em Alcanar, mata 2 terroristas (um deles é o imã Abdelbaki Es Satti) e fere 1, há 6 vizinhos feridos (quarta-feira, 16 de Agosto, 23:30)
  2. Uma carrinha Fiat branca percorre mais de 500 m em La Rambla de Barcelona, atropelando pessoas, 13 mortos e 132 feridos (quinta-feira, 17 de Agosto, 17:00)
  3. Outra carrinha, alugada para a fuga, é localizada em Vic, 18:30
  4. Um Ford Focus fura um controlo policial na av. Diagonal na cidade universitária de Barcelona, 18:30
  5. O automóvel é encontrado em Sant Just Desvern, condutor está morto no banco traseiro, 19:00
  6. São detidos 3 suspeitos em Ripoll, 20:00
  7. Um Audi A3 com 5 terroristas fura um controlo policial, em Cambrils. A polícia abate-os, 1 mulher morta por esfaqueamento e 4 feridos (sexta-feira, 18 de Agosto, 1:00)


Polícia abate Younes Abouyaaqoub, o condutor da carrinha do atentado de La Rambla, em Subirats, a 50 km de Barcelona (segunda-feira, 21 de Agosto)


Os vídeos seguintes mostram o horror sofrido pelas vítimas e vivenciado pelas testemunhas:








Uma descrição pormenorizada dos atentados terroristas na Catalunha e as relações familiares entre os 12 membros da célula terrorista de Ripoll foram publicadas pelo jornal El País:




A explosão em Alcanar, Tarragona (quarta-feira, 16 de Agosto, 23:30)
Uma forte detonação destrói uma moradia numa urbanização de Alcanar. A polícia catalã pensa inicialmente que é um caso de tráfico de drogas.


O atentado em La Rambla, Barcelona (quinta-feira, 17 de Agosto, 16:30)



O atentado em Cambrils, Tarragona (sexta-feira, 18 de Agosto, 1.00)
Um Audi A3 com cinco terroristas fura um controlo da polícia catalã no passeio marítimo de Cambrils, ferindo vários peões e um polícia. Há um tiroteio no qual quatro terroristas morrem. O quinto é morto depois de esfaquear mortalmente uma mulher.


Finalmente um artigo de opinião de um investigador português onde é feita uma análise lúcida destes atentados e suas causas:


Jogando com o fogo: a Catalunha e os jihadistas marroquinos

José Pedro Teixeira Fernandes
22 de Agosto de 2017, 12:14

A Catalunha apostou, para arregimentar votos favoráveis à independência, no grupo de populações árabes-islâmicas. Vejamos melhor esta estratégia e os seus efeitos colaterais.

1. Agora que os contornos do trágico atentado terrorista de 17 de Agosto de 2017 começam a ser mais claros, várias questões delicadas emergem. A resposta policial após a ocorrência foi rápida, corajosa e eficaz. Mas o mesmo não pode ser dito da actuação prévia dos serviços de informações e segurança, seja a responsabilidade política e operacional do governo espanhol, do governo autonómico da Catalunha (Generalitat), ou até de ambos. Importa começar por notar que estamos a falar de um atentado que envolveu uma dúzia de pessoas — e que levou vários meses a preparar — e de uma actuação isolada de um ou dois indivíduos, que seria muito mais difícil de antecipar, ou mesmo impossível. A primeira interrogação é, por isso, a de saber como foi possível que um atentado envolvendo tanta gente não tivesse sido detectado em comunicações entre os participantes, ou por movimentos suspeitos feitos por estes. Isto quando era previamente bem conhecido que a Catalunha, e Barcelona em particular, é uma zona de alto risco pela presença de islamistas-jihadistas.

2. A segunda interrogação é sobre a explosão na casa de Alcanar, em Tarragona, ocorrida na noite antes dos atentados e que derrubou totalmente a casa. É verdade que o tempo para actuar foi bastante escasso — o ataque no centro de Barcelona ocorreu a meio da tarde do dia seguinte —, mas, ainda assim, não poderia ter sido uma pista decisiva para ter evitado o atentado? A casa continha mais de uma centena de garrafas de gás butano, o que se soube logo na altura, e estava apenas ocupada irregularmente nos últimos meses pelos indivíduos de origem magrebina. Tudo apontava para um caso que não era o de uma normal explosão de botijas de gás num edifício de habitação. Sabemos agora que um dos mortos foi o imã da mesquita de Ripoll, em Girona, Abdelbaki Es Satty — o principal mentor do atentado. Note-se ainda que, há alguns meses atrás, a polícia espanhola tinha feito circular internamente informação indicando haver sinais de interesse por esse tipo de material para uso como explosivos.

3. O imã Abdelbaki Es Satty tinha antecedentes criminais. Registava já uma condenação por tráfico de haxixe entre Ceuta e Algeciras. Mais grave ainda, na prisão criou proximidade com um dos perpetradores do atentado terrorista de 11 de Março de 2004 em Madrid, Rachid Aglif. Anteriormente ao atentado de Barcelona, viajou também para a Bélgica. Passou alguns meses em Vilvoorde. Tal como Molenbeek, Vilvoorde ficou bem conhecida pelas piores razões durante o ano passado, quando ocorreram atentados no aeroporto e metro de Bruxelas. Vilvoorde e Molenbeek foram as bases — e onde estiveram as redes de solidariedade e cobertura — dos islamistas-jihadistas com ligações ao atentado de Bruxelas. Há aí presença ex-combatentes do Daesh e outros grupos islamistas radicais na guerra da Síria. Mais: existe uma conexão a Marrocos e em particular a populações oriundas do Rif, onde têm origem muitos dos islamistas-jihadistas — Abdelbaki Es Satty era também marroquino. Tinha, por isso, um perfil óbvio para que as suas actividades fossem seguidas de perto, e com muito cuidado, pelos serviços de informações e segurança. Aparentemente não foram, porquê?

4. Uma outra interrogação é a de saber a razão pela qual o governo da Catalunha, ou a gestão municipal de Barcelona, não colocaram barreiras impeditivas de veículos entrarem em locais com grande concentração de pessoas, como são as Ramblas. Parece uma medida de segurança bastante óbvia e necessária, sobretudo desde os precedentes graves dos atentados do ano passado em Nice, no passeio dos ingleses, e em Berlim, num mercado de Natal. Em ambos os casos — e de forma particularmente trágica no primeiro —, foram usados veículos automóveis para atropelar indiscriminadamente pessoas em locais de grande concentração na via pública. Não se percebe, por isso, o motivo pelo qual não foram colocadas tais barreiras, tanto mais que já existia uma recomendação do governo espanhol nesse sentido. Será por avaliação inadequada da ameaça, achando que bastava ter uma presença policial forte no local, meras razões estéticas, ou para ser diferente do resto de Espanha, numa estranha afirmação de autonomia?

5. Tal como aconteceu nos já referidos atentados de Bruxelas em 2016, fica a sensação de que as autonomias e rivalidades internas criaram alguma descoordenação nas forças de segurança e nos serviços de informações. Independentemente de a responsabilidade ser do governo de Madrid, ou do governo autonómico da Catalunha, ou de ambos, o resultado final foi dificultar uma actuação preventiva. Sob uma unidade de fachada face à tragédia, simbolizada pela presença, no dia seguinte ao atentado, do rei Filipe VI na cerimónia de homenagem às vítimas, nota-se o mal-estar político. O ministro do Interior espanhol, Juan Ignacio Zoido, anunciou o desmantelamento da célula responsável pelos ataques. A declaração foi logo criticada e considerada prematura por Joaquim Forn, Conselheiro do Interior do Governo da Catalunha. Quanto à polícia catalã — os Mossos d’Esquadra —, formalmente enquadrada pelo governo central, teve uma actuação muito corajosa e meritória após o atentado, na perseguição aos culpados. Mas também parece (demasiado) zelosa de uma actuação autónoma.

6. Para além das autonomias e rivalidades internas e do seu efeito negativo sobre a coordenação das forças de segurança e serviços de informações, há um aspecto relevante e que tem passado despercebido. Como já notado, os autores do atentado terrorista eram de origem marroquina (ou de Melilla). É o caso de Younes Abouyaaqoub, o principal executor. É também o caso de Abdelbaki Es Satty, o imã de Ripoll. Será um acaso ser essa a origem dos islamistas-jihadistas? Não é. A questão remete-nos, de alguma forma, para as políticas do governo autonómico da Catalunha e para a sua ambição independentista. Está empenhado em organizar um referendo para a independência, mesmo contra a vontade do governo de Madrid, e em arregimentar, o mais possível, votos favoráveis. Aqui entra o papel dos estrangeiros residentes na Catalunha que não têm origem na União Europeia. A ideia é que possam participar nesse referendo. Numa votação muito próxima, o seu voto poderá ser decisivo. Os dois grupos substanciais de estrangeiros/migrantes são os que têm origem na América Latina e os que provêm do Norte de África. A Catalunha apostou no segundo grupo de populações árabes-islâmicas (as populações latino-americanas já falam espanhol/castelhano e muitos não vêem, por isso, interesse na aprendizagem da língua catalã). Vejamos melhor a estratégia e os seus efeitos colaterais.

7. Na Catalunha vive um grupo bastante substancial de população de origem marroquina, na ordem das trezentas mil pessoas. Nos últimos anos, o governo autonómico adoptou uma série de medidas favoráveis à emigração para o seu território e acolhimento dessa população. Entre outras, foi previsto o ensino escolar do árabe e do tamazig (berber) — usado sobretudo nas zonas das montanhas Rif e do Atlas de Marrocos. A questão tem a sua ironia se pensarmos que o governo de Madrid acusa frequentemente a Catalunha de dificultar, ou até impedir, a aprendizagem e uso do espanhol/castelhano. Mais: foi dada às autoridades religiosas de Marrocos um papel fundamental na elaboração de conteúdos sobre o Islão para a maioria dos muçulmanos na Catalunha, bem como para a sua disseminação nas escolas e mesquitas. É arriscado ter colocado esse ensino nas mãos de autoridades religiosas estrangeiras. Claro que tudo isto foi a pensar mais na independência: os emigrantes marroquinos iam assim ter um estímulo para se identificar com a Catalunha e isso dará mais votos num referendo. Foi assim ignorado, ou, pelo menos, subestimado, que o aumento dessa população incrementava a possibilidade, até por probabilidade estatística, de uma presença acrescida de adeptos do islamismo-jihadista no seu território. O atentado terrorista de 17/8 mostrou que essa probabilidade é bem real e da pior maneira.


*


Entre os mortos e os feridos há turistas de 35 países, pelo menos, entre os quais está Portugal. Mais uma vez a opinião pública foi apaziguada com um memorial:

E o que se passa em Lisboa?

Primeiro ouvimos um imigrante do Bangladesh dizer, à saída da mesquita da zona do Martim Moniz, em Lisboa, que gostava de lutar pelo Estado Islâmico.

Depois vem o presidente do município lisboeta anunciar que vai gastar 3 milhões de euros na construção de uma praça na Mouraria com uma mesquita para a comunidade do Bangladesh, projecto que recebe a concordância dos vereadores de todos os partidos políticos.

Paulatina e silenciosamente estamos a ser invadidos por imigrantes muçulmanos que não têm a mínima intenção de abandonar as suas tradições político-religiosas e sociais e aderir a ideais democráticos, à separação entre o Estado e a Religião e a respeitar as mulheres como seres humanos de direitos idênticos aos homens.

Paulatina e silenciosamente esses imigrantes criam comunidades fechadas nos países ocidentais da União Europeia onde os islamistas-jihadistas, que perpetram carnificinas de homens, mulheres e crianças educadas segundo os valores morais europeus, encontram refúgio e protecção.

Paulatinamente essas comunidades islamistas são apoiadas pelos partidos políticos portugueses, em especial pelos partidos da extrema-esquerda que vêem neles o braço armado da revolução que permitirá a sua ascensão ao poder para implantarem o regime socialista que trará bem-estar e felicidade — unicamente aos seus membros, assim a experiência o demonstrou na União Soviética, nos países da Europa de Leste, em Cuba, na Coreia do Norte e agora na Venezuela.

Paulatina e silenciosamente o Islão sunita avança, financiado pela Arábia Saudita e pelos contribuintes portugueses, perante a passividade dos cidadãos anónimos — apenas 7142 assinaram esta petição — anestesiados pela verborreia da propaganda politicamente correcta. Esquecendo que, em Portugal, a diminuição do desemprego e o crescimento do PIB é uma consequência da expansão do turismo fugido dos países flagelados pelo terrorismo.

Outras opiniões:

OldVic - eu sou Barcelona 13:02
Claro que tudo isto foi a pensar mais na independência: os emigrantes marroquinos iam assim ter um estímulo para se identificar com a Catalunha e isso dará mais votos num referendo”: os independentistas catalães devem escrever 100 vezes num quadro “O tribalismo estupidifica”. Os extremistas dos atentados também deviam escrever isso, mas a esses não vale a pena recomendar nada.

Helder Antunes 14:00
As autoridades e o poder político da Catalunha têm uma boa parte do "problema" identificado, assinalado, sob-vigilância, etc. O mesmo se aplica às nossas autoridades e políticos. Idem por essa Europa fora. Em comum, todos, com honrosas excepções a leste, escolheram nada fazer. Não intervir preventivamente.
Optaram, porque em boa parte é uma escolha que fizeram, por deixar as populações que governam, que uns e outros deveriam proteger, sofrer na pele e pagar em vítimas o preço da sua vontade expressa de não intervir preventivamente. São vítimas, um sacrifício, em nome de um bem maior, dirão. São em boa parte escolhas que se fazem. Eu não me sinto representado, por uns, nem protegido, pelos outros, nessas opções.

Juvenal Barbosa 15:37
É sempre assim quando se aposta em imigração descontrolada e não se exige nada aos imigrantes (como eles podem identificar-se com o país de acolhimento quando recebem tanto de mão beijada?). Foi assim na Bélgica durante anos e criou-se Molenbeek, na Catalunha até não foi preciso tanto tempo, agora os turistas vão-se embora e vamos ver como é a vida com uma grande comunidade imigrante não integrada, que tem elementos hostis à infiel sociedade de acolhimento. Talvez devêssemos aprender com isso e modificar as nossas leis.


terça-feira, 4 de julho de 2017

Humor militar


O Exército divulgou na quinta-feira, dia 29 de Junho, que dois paiolins dos Paióis Nacionais de Tancos tinham sido assaltados, havendo o furto de armamento de guerra.
Em entrevista à SIC, o chefe do Estado-Maior do Exército, general Rovisco Duarte, declarou que "estes roubos podem acontecer em qualquer país e em qualquer Exército, desde que haja vontades e capacidades":


01.07.2017 16h07


No entanto, a dimensão e gravidade do furto não era conhecida até que o jornal El Español publicou, na madrugada de 2 de Julho, a lista do material roubado.







A lista dos materiais desaparecidos (pdf) — 1450 munições de 9 milímetros, 18 granadas de gás lacrimogéneo, 150 granadas de mão ofensivas, 44 granadas foguete anti-carro, além de 22 bobinas de fio utilizado para activação por tracção, 102 unidades de carga explosiva, 264 unidades de explosivo plástico, ... — permite concluir que os ladrões entraram nas instalações com um veículo pesado, uma camioneta, pelo menos, pois só os lança-granadas pesam mais de 100 kg. Além do tempo e do pessoal necessário para transportar todos os equipamentos, vigiar e deixar o local sem alarme.

O assalto à base militar de Tancos está a gerar preocupação a nível mundial, com embaixadas de vários países da NATO, como a Espanha e os Estados Unidos da América, e forças anti-terroristas europeias a pedirem informações sobre a localização do armamento roubado e sobre as diligências feitas pelas autoridades portuguesas para encontrar o material.

A Corifa, uma empresa de Ourém, diz que efectuou obras de reparação em dez paióis, um paiolim e em 900 dos 2500 metros da vedação exterior da base de Tancos há um mês, mas... já se sabia que seria necessária nova reparação e foi anunciado novo concurso no Diário da República. Os ladrões anteciparam-se.

A estratégia de António Costa de desvalorizar a gravidade da situação deu azo à criatividade dos humoristas nacionais e estrangeiros:



Bartoon de 3 de Julho de 2017 do jornal Público


O jornal espanhol El País dedicou hoje este artigo ao roubo, donde destacamos:
Como se mostra, as deficiências da base de Tancos não eram segredo. Os assaltantes, mais de uma dúzia, tinham lido no Diário da República de 19 de Junho o anúncio de um concurso para a reparação no lado norte, leste e sul da cerca da base no valor de 316.000 euros. Em caso de dúvida, os ladrões não entraram pelo oeste.

Chegaram num camião, esburacaram a vedação e seguiram em direcção aos vinte paióis, mas só visitaram aqueles que tinham o material que necessitavam (1500 balas, 150 granadas, 40 lança-granadas, explosivos, fusíveis, conectores, ...), deixando tudo o resto. Encontrar iogurtes no frigorífico lá de casa, seguramente, levaria mais tempo.
Levavam uma lista de compras em que tudo era grátis. Carregaram à mão caixas pesadas, andando 500 metros para a frente e para trás e, concluída a tarefa, saíram como haviam chegado. Nem um tiro, nem um "alto", nem um "ai"!

Se depois de conhecer o Exército que toma conta de Tancos, o Índice Global de Paz para 2018 não der o primeiro prémio a Portugal, será uma injustiça a exigir pegar em armas.



Bartoon de 4 de Julho de 2017 do jornal Público



terça-feira, 20 de junho de 2017

Humor trágico





Bartoon de 20 de Junho de 2017 do jornal Público, publicado inicialmente em 10 de Agosto de 2016


A 17 de Junho de 2017 deu-se, no concelho de Pedrógão Grande, um devastador incêndio que matou 64 pessoas e causou um elevado número de feridos. É considerado como a maior tragédia em Portugal desde a queda da ponte Hintze Ribeiro, em Março de 2001, que provocou 59 mortes.

O fogo deflagrou ao início da tarde de sábado numa área florestal em Escalos Fundeiros, uma aldeia portuguesa do município de Pedrógão Grande, tendo alastrado aos municípios vizinhos de Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos, todos no distrito de Leiria.





Hoje, as elevadas temperaturas e o vento que sopra forte estão a provocar o alastramento do incêndio que lavra no concelho de Góis, distrito de Coimbra, o que já obrigou à evacuação de várias aldeias.



*


O XIX Governo Constitucional herdou um défice público de 11% e um país que vendia dívida pública a taxas de juros exorbitantes. Baixou o défice para 3% e conduziu Portugal de regresso aos mercados financeiros.

O XXI Governo Constitucional tomou posse no dia 26 de Novembro de 2015 numa cerimónia presidida pelo presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, e pelo presidente da assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues no Palácio da Ajuda, em Lisboa.
Faz hoje 1 ano, 6 meses e 25 dias.

Lavra um incêndio em Pedrógão Grande que provocou 64 mortos numa tarde. O Verão de 2017 começa amanhã.



sábado, 17 de junho de 2017

Fogo destrói bloco de apartamentos em Londres


A torre Grenfell, um bloco de apartamentos de habitação social com 24 andares situado em North Kensington, Londres, foi engolido pelas chamas depois da eclosão de um incêndio pouco antes da 01:00 de quarta-feira.




Wednesday 14 June 2017 15.20 BST


Os socorros chegaram seis minutos depois das inúmeras chamadas telefónicas. Estiveram a combater o incêndio 200 bombeiros com 40 carros.
Em incêndios de edifícios altos, plataformas aéreas podem ser usadas para permitir que os bombeiros trabalhem fora do prédio. Mas os veículos da plataforma aérea da Brigada dos Bombeiros de Londres só podem atingir alturas de cerca de 32 m, limitando o combate aos incêndios a apenas uma dezena de andares.




Construída em 1974, a torre Grenfell tinha 120 apartamentos com um ou dois quartos a partir do 4º andar.
Fora alvo de uma remodelação, em 2016, que lhe acrescentou mais 7 apartamentos com três ou quatro quartos nos pisos inferiores, onde também estavam localizados um infantário e um clube de boxe. Sobre o betão das fachadas foi aplicado um revestimento que tornava o edifício mais ecológico.
Poderiam estar entre 400 e 600 pessoas dentro do edifício quando o incêndio eclodiu.







A torre Grenfell fazia parte do Lancaster West Estate, um complexo de habitação social de quase 1000 casas no burgo (freguesia) real de Kensington e Chelsea que é onde ocorre o maior intervalo de salários da população residente:





O incêndio começou num apartamento do 4º andar, sendo notória a rapidez com que as chamas se propagaram ao longo das quatro fachadas da torre, bem ilustrada nestas imagens:




Tanta rapidez levantou suspeitas sobre se o revestimento em alumínio colocado nas fachadas, para melhorar a eficiência energética do edifício aquando da remodelação, teria um núcleo de polietileno, um plástico altamente inflamável. Suspeita-se também que a cavidade entre a parede e o revestimento provocou o efeito chaminé, incentivando a propagação do fogo.




Surgiu, então, à superfície uma litania de falhas do Conselho de Kensington e Chelsea, o proprietário dos apartamentos, e a Kensington and Chelsea Tenant Management Organisation (KCTMO), a organização de gestão de inquilinos de Kensington e Chelsea que era paga para gerir a propriedade.

Imediatamente o sub-empreiteiro da remodelação veio lamentar o trágico incêndio e lembrar que a KCTMO havia adjudicado a obra à Rydon Maintenance em nome do conselho.

Por sua vez, a empresa contratada para realizar a remodelação de 10 milhões de libras mudou a sua declaração sobre a tragédia. Primeiro, a Rydon divulgou uma declaração dizendo que cumpriu todos os "regulamentos de incêndio e padrões de segurança e saúde" durante a remodelação de 2016. No entanto, numa declaração posterior omitiu esta linha e simplesmente disse que a empresa "cumpriu todos os regulamentos de construção necessários".

Impotentes, as pessoas que observavam o incêndio foram gravando vídeos que documentam a tragédia:




Já foram identificadas algumas vítimas mortais, existindo, obviamente, inúmeros desaparecidos, diariamente actualizados. Estima-se, pelo menos, 58 mortos.

Há outras causas para o elevado número de vítimas além da alta velocidade de propagação das chamas pelo revestimento das fachadas. A construção do bloco de apartamentos não cumpria as actuais normas de segurança e a remodelação nada corrigiu: não existiam aspersores, nem escapatórias de incêndio, e duvida-se que as portas corta-fogo funcionassem pois não foi realizada qualquer inspecção.

A difusão de fumos para a única escada do edifício não só impediu completamente o contacto visual entre os membros das famílias que tentaram sair dos seus apartamentos, levando-os a perderem-se, como provocou o desmaio dos mais frágeis.
Entre os desaparecidos está Rania Ibrahim que vivia com as duas filhas de três e cinco anos de idade num apartamento no 23º andar. Neste vídeo angustiante que enviou à melhor amiga, pode ser vista a pedir ajuda no patamar cheio de fumo antes de voltar para casa. Depois olha para a rua, começa a rezar e, no final, diz em árabe: "Peço perdão a todos, adeus":



14 June 2017 • 9:30pm


As regras de segurança em caso de fogo impostas pela empresa gestora KCTMO, incitando os inquilinos a permanecerem nos respectivos apartamentos, também contribuíram para a morte dos mais respeitadores.


Quando algumas pessoas receberam ordem de evacuação dos bombeiros já era demasiado tarde, estavam prestes a desmaiar por inalação de monóxido de carbono. Tudo o que se encontrava dentro dos apartamentos, inclusive os tabiques que separavam as divisões, foi carbonizado (excepto os metais). Como se vê neste vídeo que mostra o resto de um apartamento T1 e outro T2:



18 June 2017 • 8:56pm






terça-feira, 23 de maio de 2017

Terror em Manchester


Ontem à noite, pelas 22:35, ocorreu uma explosão em Manchester no final de um espectáculo da cantora pop norte-americana Ariana Grande que decorreu na Manchester Arena.

A polícia de Manchester apenas quantificou o número de vítimas já na madrugada desta terça-feira — 19 vítimas mortais e cerca de 50 feridos —, informando no tweet que estavam a tratar a situação como um "incidente terrorista" até prova em contrário:



O ataque foi perpetrado no átrio de entrada da Manchester Arena, estando cerca de 21 mil pessoas nas imediações quando ocorreu a explosão que envolveu um dispositivo caseiro cheio de porcas e parafusos. O grupo terrorista Estado Islâmico já reivindicou o ataque.

Várias zonas ficaram interditas, afectando os transportes na cidade. A estação de comboios de Vitória, que comunica com a Arena, foi encerrada.





A polícia de Manchester actualizou o número de vítimas, esta manhã, subindo para 22 mortos e 59 feridos.

"Temos estado a tratar isto como um incidente terrorista e acreditamos, nesta etapa, que o ataque foi conduzido por um homem. A prioridade é estabelecer se actuou sozinho ou como parte de uma rede.

O atacante, podemos confirmar, morreu na arena. Acreditamos que o atacante carregava consigo um dispositivo explosivo improvisado, que detonou, causando esta atrocidade
”, afirma o comunicado da polícia, em que as autoridades pedem às pessoas para não especular.

A nossa prioridade é trabalhar com os serviços secretos britânicos e de contra-terrorismo para encontrar mais detalhes sobre o indivíduo que conduziu este ataque”, acrescentam as autoridades.



Entretanto a comunicação social começou a divulgar a identidade de algumas vítimas, entre as quais uma criança de 8 anos, e do bombista suicida. Chama-se Salman Abedi e tem 22 anos. A polícia de Manchester confirmou, com reticências:



Nascido em Manchester em 1994, Salman Abedi é o segundo mais novo dos quatro filhos de um casal de refugiados líbios que vieram para o Reino Unido para escapar ao regime do coronel Muammar Gaddafi.

Abedi frequentou a escola local e foi para a universidade de Salford, em 2014, onde estudou gestão antes de desistir. Usava vestes islâmicas e costumava rezar numa mesquita local que, no passado, foi acusada de angariação de fundos para os jihadistas.

O irmão mais velho, Ismail Abedi, foi professor na escola do Corão da mesquita de Didsbury. Segundo o imã, Salman havia-lhe mostrado recentemente "o rosto do ódio" quando deu uma palestra alertando para os perigos do chamado Estado Islâmico.

A mãe, Samia Tabbal, de 50 anos, e o pai, Ramadan Abedi, um agente de segurança, nasceram em Trípoli mas terão emigrado, primeiro para Londres e, mais tarde, para a zona de Whalley Range, no sul de Manchester.

Pensa-se que, em 2011, após a derrota de Gaddafi, os pais retornaram para a Líbia, mas as viagens que Salman Abedi fez para o país de origem da família estão agora a ser objecto de investigação.

Alguns dissidentes de Gaddafi que eram membros do Grupo Islâmico Líbio de Combate (LIFG), entretanto ilegalizado, viveram nas proximidades dos Abedi em Whalley Range.

Entre eles, encontrava-se Abd al-Baset Azzouz, pai de quatro filhos, que deixou Manchester para dirigir uma rede terrorista na Líbia supervisionada por Ayman al-Zawahiri, o sucessor de Osama bin Laden na liderança da Al-Qaeda. Azzouz, 48 anos, especialista em bombas, foi acusado de dirigir uma rede da Al-Qaeda no leste da Líbia, em 2014.

Outro membro da comunidade líbia em Manchester, Salah Aboaoba, disse ter angariado fundos para o LIFG, em 2011, justamente na mesquita de Didsbury. Na época, o porta-voz da mesquita negou veementemente a reivindicação: "Esta é a primeira vez que ouço falar do LIFG. Não conheço Salah".

Agora, Mohammed Saeed El-Saeiti, o imã da mesquita de Didsbury, apontou Salman Abedi como um extremista perigoso: "Salman mostrou-me o rosto de ódio depois do meu discurso sobre o Ísis (...) Não é uma surpresa para mim".

A polícia atacou a casa da família às 11:30 desta manhã. De acordo com moradores da rua, 2 helicópteros e pelo menos 30 polícias camuflados, com equipamentos anti-motim e escudos, participaram no ataque.
Removeram a cerca de madeira entre duas propriedades. Colaram uma tira preta na porta e provocaram uma explosão. A porta soltou-se das dobradiças e as janelas tremeram. O ataque durou 90 segundos.

"Não os vi trazer ninguém para fora da casa. Acredito que estava vazia”, disse um vizinho.


*


Depois dos movimentos da Primavera árabe derrubarem os governantes da Tunísia e do Egipto para elegerem regimes islâmicos, começou uma revolta na Líbia, em 17 de Fevereiro de 2011, mas o ditador líbio Muammar Kadhafi resistiu.

Dez dias depois, foi criado um Conselho Nacional de Transição para administrar as áreas da Líbia sob controle dos rebeldes, prontamente reconhecido pela França, em 10 de Março, como o representante legítimo do povo líbio.

As forças pró-Gaddaffi responderam militarmente aos ataques rebeldes na Líbia ocidental — a cidade de Zawiya, a 48 km de Tripoli, foi bombardeada por aviões da força aérea e conquistada por tanques do exército — e lançaram um contra-ataque ao longo da costa na direcção leste, até Benghazi, o centro da rebelião.

Tanto o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, como o Conselho de Direitos Humanos da ONU condenaram estas acções militares, sob a acusação de violarem o direito internacional, tendo este último organismo expulsado a Líbia, atitude incentivada pela própria delegação da Líbia na ONU.

Em 17 de Março, o Conselho de Segurança da ONU aprovou a Resolução 1973 com 10 votos a favor dos membros permanentes Estados Unidos, França e Reino Unido e, ainda, da Bósnia-Herzegovina, Colômbia, Gabão, Líbano, Nigéria, África do Sul e Portugal e 5 abstenções dos restantes membros (Rússia e China, membros permanentes, e ainda Índia, Brasil e Alemanha).
Esta resolução sancionou o estabelecimento de uma zona de exclusão aérea e o uso de "todos os meios necessários" para proteger os civis dentro da Líbia.

Dois dias depois, a NATO começou a destruir as defesas aéreas da Líbia quando jactos militares franceses entraram no espaço aéreo da Líbia e atacaram alvos considerados inimigos.
Em seguida, entraram em acção as forças americanas. Mais de 8000 militares americanos foram destacados para a área em navios de guerra e aviões. A ofensiva aérea americana incluiu vôos de bombardeiros B-2 Stealth, cada bombardeiro armado com dezasseis bombas de 0,9 tonelada, saindo e retornando à base no Missouri, Estados Unidos.

Em 22 de Agosto, os rebeldes entraram em Trípoli e ocuparam a Praça Verde, rebaptizada Praça dos Mártires em homenagem aos seus mortos. Os últimos combates ocorreram na cidade de Syrte, onde Gaddafi foi capturado e morto em 20 de Outubro de 2011. Pelo menos 30 mil líbios morreram na guerra civil.

A seguir começou a segunda guerra civil da Líbia, agora entre as milícias armadas dos diferentes grupos rebeldes, o mais poderoso dos quais é o Estado Islâmico.

Passado algum tempo, formaram-se as máfias líbias que enchem embarcações frágeis com imigrantes, oriundos de países africanos a sul do Saará, e enviam-nos para Itália. Iniciava-se a invasão islâmica da Europa pelo corredor ocidental.

Quem foram os políticos responsáveis pelo Conselho de Segurança da ONU ter sido favorável à intervenção militar na Líbia que não só desestabilizou este país, como também a União Europeia?
Em 2011, a França era presidida por Nicolas Sarkozy.
No Reino Unido governava o primeiro-ministro David Cameron.
A presidência dos Estados Unidos estava nas mãos de Barack Obama e na Secretaria de Estado alinhava Hillary Clinton.

Quantas mais crianças e jovens vão ter de morrer até conseguirmos perceber que o pior tipo de ditadura é o terror promovido pelo fanatismo islâmico?


domingo, 9 de abril de 2017

Humor alcoólico


Peça em três actos

Acto I

Cenário: algures na Europa do Norte

Época: início da Primavera de 2017, pouco antes de 19 de Março

Personagem: Jeroen Dijsselbloem, presidente do Eurogrupo (conselho dos ministros das Finanças da zona euro)

"Na crise do euro, os países do norte da zona euro mostraram-se solidários para com os países em crise. Como social-democrata, considero a solidariedade da maior importância. Mas quem a exige [solidariedade] também tem obrigações. Eu não posso gastar o meu dinheiro todo em álcool e mulheres e pedir-lhe, de seguida, a sua ajuda. Este princípio é válido a nível pessoal, local, nacional e até a nível europeu", diz Dijsselbloem.

Acto II

Cenário: Washington/Lisboa

Época: pouco depois de 19 de Março de 2017

Personagem: ministro dos Negócios Estrangeiros/primeiro-ministro

"São declarações muito infelizes e, do ponto de vista português, absolutamente inaceitáveis", diz o ministro dos Negócios Estrangeiros Augusto Santos Silva.

"Pelos vistos, o presidente do Eurogrupo continua, passados estes anos todos, sem compreender o que verdadeiramente se passou. O que se passou com países como Portugal, Espanha ou Irlanda não foi termos gasto dinheiro a mais. O que aconteceu foi que nós, como outros países vulneráveis, sofremos os efeitos negativos da maior crise mundial desde os tempos da grande depressão e as consequências da Europa e a sua união económica e monetária não estar suficientemente habilitada com os instrumentos que nos permitissem responder a todos aos choques que enfrentamos", explicou.

"Está manifesto que o senhor Djisselbloem não tem nenhumas condições para permanecer à frente do Eurogrupo", acrescentou.

"Numa Europa a sério, o senhor Dijsselbloem já estava demitido neste momento. Não é possível que quem tem uma visão xenófoba, racista e sexista possa exercer funções de presidência de um organismo como o Eurogrupo", reforçou o primeiro-ministro António Costa, acrescentando: "[Portugal] não tem lições a receber do senhor Dijsselbloem em coisa nenhuma".

"A Europa faz-se com aqueles que acreditam na igualdade dos povos, aqueles que se respeitam uns aos outros, aqueles que admiram um esforço extraordinário de países do norte da Europa que tiveram depois da guerra e que também respeitam o esforço dos países do sul da Europa, que têm feito nos últimos anos para conseguirem corrigir as situações das suas finanças públicas", rematou António Costa.

Acto III



Cenário: Hotel Pueblo Camino Real, Los Álamos, Torremolinos

Época: Páscoa de 2017, pouco antes de 8 de Abril

Personagens: cerca de 800 estudantes portugueses finalistas do 12º ano de escolaridade, polícias espanhóis, dois agentes da PSP destacados para Torremolinos, dono do hotel, secretário de Estado das Comunidades.

Os estudantes portugueses pagaram cerca de 650 euros pela viagem com estadia de 7 noites. Deitam-se às 6h, passam a manhã a dormir e não deixam limpar os quartos. Depois de dois dias de bebedeira, encontram o bar fechado. Alguns começam a cometer actos de vandalismo no hotel. A polícia é chamada repetidas vezes para controlar os distúrbios. Os estudantes acabam por ser expulsos do hotel horas antes do fim da estadia.

Os jovens destruíram azulejos, lançaram colchões pelas janelas, esvaziaram extintores nos corredores do hotel e até atiraram um televisor para uma banheira”, narra o jornal espanhol El País, citando a polícia local.

Os desacatos no hotel provocaram danos de milhares de euros”, diz a polícia espanhola.
O comportamento [dos estudantes expulsos] extrapolou o aceitável”, reconhece fonte da direcção nacional da PSP.

"Nunca havíamos passado por nada igual", desabafa o dono do hotel que avalia os prejuízos em 50 mil euros.

A agência que organizou a viagem tinha seguro, mas o hotel entende que o seguro não é suficiente para cobrir os danos”, diz o secretário de Estado das Comunidades José Luís Carneiro.

"O Diretor é uma pessoa super arrogante, fomos mal servidos no que toca a refeições, estivemos lá 6 noites e não mudaram as toalhas de banho, não limparam quartos nem mudaram as camas. As funcionárias eram mal humoradas, foi prometido bar aberto e cortaram o álcool no 3º dia. Fomos mal tratados e insultados.", diz a estudante Sofia Marinho.

"Este hotel aproveitou o facto de sermos jovens e estarmos numa viagem de finalistas para nos tratar como animais. Não nos mudavam as toalhas de banho nem os lençóis, entravam no nosso quarto de manhã cedo a gritar para nos levantarmos porque queriam limpar e se não nos levantássemos acabavam por não limpar nesse dia, a comida era extremamente repetitiva, principalmente à base de fritos. Não me senti de maneira nenhuma num hotel de quatro estrelas e apesar de termos pago, o bar aberto foi-nos retirado e os horários não cumpridos", acrescenta a estudante Inês Sousa.

"O hotel não cumpriu com o que estava acordado. O bar aberto estava incluído nas condições da estadia e foi cancelado durante um dia inteiro e depois durante alguns dias após as 20h”, reclama um estudante não identificado, especificando:
No segundo dia não foi permitida a venda de bebidas alcoólicas e foi também a partir desse dia que foi colocado um segurança à entrada do hotel para revistar qualquer finalista que entrasse com bebidas".

Cai o pano.


Bartoon, jornal Público


Entrevista de Francisco Veloso, futuro director da Imperial College Business School


Há duas escolas portuguesas de economia e gestão de nível internacional — a Nova School of Business & Economics, da Universidade Nova de Lisboa, e a Católica Lisbon School of Business & Economics, da Universidade Católica Portuguesa.

O director da segunda, Francisco Veloso, vai dirigir a Imperial College Business School, em Londres, Reino Unido, a partir do próximo ano lectivo.
Nesta entrevista ao Negócios, mostra preocupação com o corte do investimento público, o crescimento da dívida pública, bem como o impacto que a retirada dos estímulos do Banco Central Europeu terá numa economia como a portuguesa, ainda com problemas estruturais. Receia que o Governo de António Costa tenha de tomar medidas que vão pôr em causa a actual solução governativa.

O que é para si, neste momento, capital em Portugal?
Não posso deixar de responder alinhado com os meus próprios interesses — mas não só, porque é algo em que acredito muito —, que é a continuada aposta no empreendedorismo e nas novas empresas como instrumento de transformação da nossa economia. É absolutamente crítico para levarmos Portugal de onde está para onde todos gostaríamos que estivesse. Esta é uma dinâmica que já existe, mas tem de continuar e ser amplificada, para ter ainda mais impacto no país.

Como é que avalia a evolução de Portugal em termos económicos e financeiros, considerando a execução orçamental de 2016 e as perspectivas para 2017?
Estamos a evoluir lentamente e com algumas dificuldades. Aquilo que eu sinto, e talvez em função do arranjo de forças que suporta este Governo, é alguma quase esquizofrenia em algumas situações. Este Governo tem feito imenso por esta questão do empreendedorismo e da capitalização das empresas que são dois aspectos fundamentais, como eu referi. É algo meritório, têm existido medidas, instrumentos e actividade nesse sentido.

No entanto...
No entanto, quando olhamos para os 2,1% do défice, e de facto é um bom resultado, mas ele foi feito à custa de um enorme corte no investimento público, que é algo que é preocupante a nível das perspectivas de crescimento a médio prazo. E foi feito a um nível que não está a resolver a montanha de dívida que nós temos aí para resolver. Ou seja, é uma evolução que resulta destes equilíbrios de forças associados à estrutura política que suporta o Governo.
Mas acho que nós temos uma série de reformas estruturais e de evolução nas próprias funções do Estado que não está a acontecer, nem vai acontecer provavelmente nos próximos tempos, e que limita o nosso potencial de resolução dos problemas. Não houve grande evolução no défice estrutural. Essencialmente as coisas ficaram iguais, ou seja, a nossa capacidade de estruturalmente resolvermos os problemas do Estado não evoluiu significativamente. Nesse sentido estamos num compasso de espera, à espera que o crescimento evolua, mas o crescimento dificilmente irá evoluir com pouca capacidade de financiamento e muita dívida. E isso significa que vamos continuar num ritmo de evolução, e os indicadores para o futuro assim o indicam, relativamente lento. E isso não é bom para o desenvolvimento a médio prazo do país, que precisava de uma dinâmica e de uma robustez de crescimento bastante maior do que aquela a que temos conseguido chegar até agora.

Concorda com a visão do ministro das Finanças de que as agências de rating estão a ser injustas com Portugal?
Não consigo perfilhar dessa perspectiva. Se nós tivéssemos reduzido de uma forma visível, em alguns pontos percentuais, a nossa dívida, acho que as agências de rating teriam olhado já de uma forma possivelmente diferente. E isso tem exactamente a ver com as decisões que são feitas. E eles próprios também sabem fazer contas. Porque uma coisa é nós obtermos um determinado tipo de objectivo, e isso tem mérito. Até porque tem implicações claras, por exemplo, nos procedimentos por défices excessivos, na possibilidade de aplicação de coimas da União europeia. Tem, de facto, relevância real obtermos esse tipo de resultados.
Mas basta falar com qualquer pessoa que esteja no mercado financeiro, eles também fazem as contas e sabem como é que se chegou a este tipo de resultado e portanto sabem que há factores estruturais que não estão a ser solucionados com o nível de afinco que talvez fosse necessário para mudar o outlook destes investidores internacionais.
E depois há aqui uma questão a pairar sobre tudo isto, e também sobre as agências de rating — e eu acho que só nessa altura é que as coisas vão começar a dissipar-se um bocadinho — que é: quando o BCE começar a retirar os estímulos e começar-se a ver o que é que vai acontecer ao nosso mercado de dívida secundária. Está toda a gente à espera disso. Não são só as agências de rating. Se nós olharmos para a evolução das taxas de juro do mercado secundário da nossa dívida, têm crescido alegremente ao longo deste último ano e não sentiram de todo um alívio naquela semana da confirmação do défice de 2,1%.

A prova de fogo vai ser a retirada dos estímulos do BCE?
Vai ser muito importante. Não quero dizer com isto que esteja aqui a vaticinar cataclismos, mas certamente vai ter algum impacto e a questão é vermos até onde é que esse impacto vai. É diferente os juros subirem para 4,5% ou de repente passarem os 5%.

Mas com os dados que existem actualmente, considera que é possível Portugal aguentar esse impacto?
Vai ser uma das provas de fogo deste Governo. Acho que as taxas de juro vão subir um valor importante e vai ser necessário tomar algumas medidas em termos de contenção de despesa, que vão pôr à prova a estrutura deste Governo. Começa a haver pressões especulativas no sentido de dizer "não vão conseguir", todos os fundos especuladores vão começar a entrar sobre essa perspectiva. Vai começar a haver pressão para que o Governo demonstre que mesmo que isso aconteça será capaz de contrapor com algumas medidas, nomeadamente criar uma almofada. Isso vai criar uma prova de fogo ao actual Governo e à actual solução governativa. A capacidade ou incapacidade que exista por parte do Governo de dar uma resposta firme e convincente a essa situação é que, quanto a mim, vai ter um impacto mais significativo a médio prazo sobre o que vai acontecer à nossa situação económica, e a possibilidade ou não de virmos a ter um problema maior. E um problema maior significa a possibilidade de um novo resgate ou algo como isso.


Breve biografia
Francisco Veloso licenciou-se em Engenharia Física no Instituto Superior Técnico em 1992, fez um mestrado em Gestão no ISEG e o doutoramento no MIT (EUA).
Entrou na Universidade Católica como professor associado em 2001. Aí leccionou Inovação e Empreendedorismo, que é a sua paixão académica, e foi subindo os degraus da hierarquia, sendo o director da Católica Lisbon School of Busines & Economics, desde 2012. Percurso que fez também na Universidade Carnegie Mellon, na Pensilvânia (EUA), onde exerceu o cargo de full professor do departamento de Engenharia até 2013. A partir de Agosto vai ser o director da escola de negócios do Imperial College.
É casado e tem três filhos.


Respostas rápidas

Instituto Superior Técnico
É a minha alma mater onde eu tenho ainda muitas ligações e uma escola excelente que muito tem feito pela ciência e pela inovação em Portugal e no mundo.

Bicicleta
BTT em particular, um dos meus hóbis favoritos e algo a que dedico uma parte do meu tempo fora das minhas responsabilidades profissionais e de que muito gosto.

Açores
Um dos destinos de férias que acaba por se tornar favorito de uma forma quase orgânica. Desenvolvi uma afinidade e apreciação dos Açores como destino de férias e relaxamento para toda a família, porque é um contexto que tem agradado a toda a família de muitas idades diferentes. Gosto muito das ilhas, das paisagens, das pessoas e do ambiente.

Silicon Valley
Continua a ser a Meca do empreendedorismo, da inovação e da tecnologia. Foi também, durante muito tempo, um assunto que estudei com muita precisão para aprender muito sobre algo que é fundamental para estes processos de empreendedorismo, que são os spin-off. Esta ideia de que de boas empresas saem outras boas empresas com enorme resultado económico. Foi assim que Silicon Valley se fez.

Donald Trump
Uma grande preocupação para a América, para as universidades americanas, já tenho sentido isso, mas também um pouco por todo o mundo, porque é uma pessoa imprevisível com uma perspectiva sobre a vida e as pessoas da qual eu não partilho.

Mário Centeno

Conheci-o pela primeira quando nos cruzámos em Boston. Ele estava a acabar o seu doutoramento em Harvard, eu estava a começar o meu no MIT. É uma pessoa por quem tenho muito respeito técnico e científico e que está a procurar fazer navegar as nossas finanças num momento de equilíbrio difícil, do ponto de vista daquilo que é o arranjo parlamentar de apoio ao Governo.