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domingo, 12 de julho de 2015

A Grécia em default parcial - III O cavalo de Tróia do euro


Numa reunião entre Tsipras, Merkel, Hollande e Tusk, à margem da Cimeira do Euro, o primeiro-ministro grego e o seu ministro das Finanças foram confrontados com a exigência de implementarem de forma imediata as reformas propostas ou, em alternativa, o país sair da Zona Euro.




Antes de entrar para a Cimeira do Euro deste domingo, Alexis Tsipras telefonou ao secretário de Estado do Tesouro norte-americano, Jack Lew, a quem disse que um acordo viável "tem de respeitar o povo grego e tudo o que suportaram nos últimos cinco anos".

Rapidamente, Lew divulgou um comunicado: "O secretário de Estado está a seguir atentamente as discussões em Bruxelas e ficou esperançado com o relato de que havia progressos, apesar de ainda haver trabalho a fazer.
A Grécia fez movimentações significativas e demonstrou a vontade política para implementar reformas difíceis e essa contínua flexibilidade é necessária de todas as partes.
"

Mas de pouco lhe valeu esta tentativa de pressão sobre os líderes europeus. A cimeira foi interrompida e, numa reunião com Angela Merkel, François Hollande e Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, o primeiro-ministro grego ficou a saber que tinha duas alternativas: ou implementava de forma imediata as reformas que propôs ou a Grécia saía da Zona Euro.

Em Atenas, perante uma manifestação anti-austeridade, a polícia de choque recebeu ordens para ocupar a escadaria do parlamento:




*


O Reino Unido usufrui grande prosperidade com os negócios financeiros da City e do seu império de offshores e não está interessada em aderir ao euro, nem talvez em permanecer na União Europeia.
Por isso não deve surpreender que a comunicação social britânica explore a cisão provocada na Zona Euro pelo governo liderado por Alexis Tsipras, a lembrar a secessão dos Estados Unidos no séc. XIX:

Como estão alinhadas as nações da Zona Euro

Gráfico do jornal britânico The Guardian: a laranja os países que aceitam um grexit, a cinzento os que hesitam mas preferiam que a Grécia ficasse no euro e a azul os que querem evitar a todo o custo um grexit.



Quem não se sente, não é filho de boa gente


Após análise à proposta de reformas do governo grego em troca de um terceiro resgate, um documento elaborado no Ministério das Finanças alemão apontou duas vias: ou condições mais rigorosas a vincularem o governo grego às suas novas promessas ou uma saída temporária do euro.


O ministro das Finanças alemão Wolfgang Schäuble chega à reunião do Eurogrupo de 11 de Julho, em Bruxelas, Bélgica.
Reuters/Francois Lenoir

Após analisarem a proposta de reformas do governo grego, de 9 de Julho, em troca de um empréstimo de três anos, o relatório dos funcionários do Ministério das Finanças alemão conclui que o plano carece de "áreas de reforma importantes e primordiais" e acrescenta: "Precisamos de uma solução melhor e sustentável."

Referido pela primeira vez pelo semanário bávaro Frankfurter Allgemeine Sonntagszeitung e, entretanto, posto a circular nas redes sociais, o documento aponta duas vias: ou condições mais rigorosas a vincularem o governo grego às suas novas promessas ou ter algumas das suas dívidas anuladas e sair do euro durante 5 anos para reestruturar a dívida e fazer reformas estruturais.




O documento cita três coisas que a Grécia poderia fazer para melhorar a sua proposta "rápida e significativamente", com o apoio do parlamento, no sentido de implementarem o terceiro programa com sucesso, garantindo o acesso aos mercados no final:
  • Transferir activos gregos no valor de 50 mil milhões de euros para um fundo externo como a Instituição para o Crescimento no Luxemburgo, para serem privatizados e diminuirem a dívida nacional. Fontes da Zona Euro disseram que Schäuble lançou esta ideia na reunião do Eurogrupo de ontem.
  • Reformar e despolitizar a administração pública, sob a supervisão da Comissão Europeia, para apropriada implementação do programa.
  • Legislar sobre cortes automáticos nos gastos do governo, caso as metas do défice orçamental não sejam alcançadas.
Isto significa que o risco de não concluírem o novo programa do MEE fica com a Grécia, não com os restantes países da Zona Euro.

A alternativa a um plano credível de Atenas, escreveram os autores do documento, era: "Oferecer negociações rápidas à Grécia para uma saída da Zona Euro, com possível reestruturação da dívida, se necessário num formato similar ao Clube de Paris durante, pelo menos, os próximos cinco anos."

O Clube de Paris é um fórum para a reestruturação de dívidas soberanas. O documento nota que isto permitiria aos governos da Zona Euro fazerem writeoffs do valor nominal das dívidas gregas — algo que não é permitido desde que Atenas está também no euro.

Finaliza o documento, dizendo que a Grécia permaneceria na União Europeia e receberia assistência técnica e humanitária, durante o período fora do euro.

Schäuble já havia dito na sexta-feira que a Grécia precisava de um haircut da dívida, mas tais reduções são ilegais dentro da Zona Euro. Nada disse, porém, sobre a solução do enigma.

A ideia de uma saída temporária está em ressonância com as declarações de Hans-Peter Friedrich, vice-líder parlamentar dos conservadores e membro da União Social Cristã (CSU), o partido da Baviera aliado da União Democrática Cristã (CDU) de Angela Merkel.
"O que é necessário é reestruturar e fortalecer a economia grega na sua própria moeda", tinha dito Friedrich ao diário alemão Die Welt.

Os comentários de Friedrich e agora o documento do Ministério das Finanças alemão põem em relevo o dilema da chanceler Angela Merkel.

Fontes do governo de coligação direita/esquerda disseram que o documento foi elaborado após discussões entre Merkel, o vice-chanceler de esquerda Sigmar Gabriel e o ministro das Finanças, Wolfgang Schäuble. Sublinharam que a opção escolhida para a Grécia foi fazer reformas e manter-se no euro.

Mas, para tal, o governo de Tsipras terá de vincular-se mais estreitamente às reformas que propôs na passada quinta-feira e terá sido isso que o ministro das Finanças alemão disse aos seus colegas do Eurogrupo este sábado. Schaeuble não falou de grexit neste Eurogrupo, tendo antes destacado a necessidade de o Governo de Tsipras fazer mais para que possam ser iniciadas as negociações para um terceiro resgate à Grécia.

A chanceler está entalada entre a feroz oposição interna, que a acusa de ser suave com Atenas, e a intensa pressão internacional para conceder a reestruturação da dívida da Grécia num acordo para manter o país no euro, se os gregos entregassem reformas convincentes.

O ministro dos Negócios Estrangeiros luxemburguês, Jean Asselborn, já discordou em entrevista ao jornal alemão Süddeutsche Zeitung, a ser publicada amanhã, segunda-feira:
"Seria fatal para a reputação da Alemanha na UE e no mundo, se Berlim não aproveitar agora a oportunidade que existe com a oferta grega de reformas."
Asselborn já tinha declarado na notícia que antecede essa entrevista: "Se a Alemanha empurra para uma Grexit, vai provocar um conflito profundo com a França. Isso seria uma catástrofe para a Europa."

No entanto, não é a Alemanha que está a adoptar a posição mais dura contra o terceiro resgate à Grécia.

O Governo da Finlândia disse 'não' à proposta grega e pretende que a Grécia saía do euro. O partido Verdadeiros Finlandeses ameaçou desfazer a coligação, se a Finlândia aprovasse um terceiro resgate à Grécia. O parlamento finlandês, que terá de pronunciar-se sobre um novo resgate à Grécia, terá mandatado o Governo para bloquear um acordo com resgate no Eurogrupo.

Mesmo assim, poderá ser alcançado um acordo no Eurogrupo sem o apoio da Finlândia. Os pedidos de resgate ao MEE são decididos por unanimidade entre os ministros das Finanças, mas esta regra pode ser substituída por uma maioria qualificada de 85%, se a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu considerarem que é necessária uma decisão urgente.

A reunião do Eurogrupo terminou ontem à meia-noite sem se obter um acordo, mas prosseguiu na manhã deste domingo.

12 Jul, 2015, 13:40

À saída da reunião de hoje, terminada há pouco, o ministro das Finanças luxemburguês, Pierre Gramegna, declarava: "Todas as opções estão em aberto".

Também o ministro das Finanças belga, Johan Van Overtveldt, opinou que ainda era insuficiente o que se alcançou na reunião dos ministros das Finanças da Zona Euro, apesar de ter-se conseguido acordo em 90% dos assuntos.

Para o ministro das Finanças da Áustria, a decisão final cabe ao parlamento grego que vai votar amanhã, segunda-feira, se aceita o acordo alinhavado no Eurogrupo. Hans Jörg Schelling acrescentou, que apenas "quando todas as condições [acordadas] estiverem cumpridas, será negociado um novo programa de resgate. Nunca antes".

Consta que nesse esboço de acordo estará um terceiro resgate à Grécia de 86 mil milhões de euros. No texto, sugere-se que, em caso de desacordo, deverá ser oferecida à Grécia a saída temporária do euro e, nesse quadro, a possibilidade de reestruturação da sua dívida.

Agora a discussão do acordo passou para as mãos dos chefes de Estado ou de Governo da Zona Euro, cuja cimeira já está a decorrer.


*


Os dados do problema grego são os seguintes:

  • 61% do eleitorado grego disse ‘não’ a medidas de austeridade no referendo de 5 de Junho;
  • 17 deputados do Syriza/Anel faltaram à votação no parlamento grego, abstiveram-se ou votaram contra as propostas de reformas — a maioria não calendarizada, nem quantificada, sublinhe-se — apresentadas em Bruxelas.

O governo da coligação Syriza/Anel ficou com o apoio parlamentar reduzido a 145 deputados na madrugada de sábado, perdendo por seis votos a maioria absoluta. É óbvio que o governo liderado por Tsipras, mesmo que tivesse intenção de implementar o pacote de austeridade, não tem apoio nem do eleitorado, nem do parlamento grego para cumprir o programa associado a um terceiro resgate.

Fazer um governo de unidade nacional com a Nova Democracia e o Pasok não está nos planos de Tsipras porque teria menos lugares de ministros, ministros suplentes e vice-ministros (mais uma peculiaridade grega) para distribuir pelo Syriza e pelo Anel, os partidos que formam o actual governo helénico.

Se o terceiro resgate à Grécia for aceite na cimeira de hoje dos chefes de Estado ou de Governo da Zona Euro, então há cinco Estados-membros — os três Estados Bálticos, Eslováquia e Portugal — que têm de receber imediatamente chorudos empréstimos do MEE, nas condições que forem concedidas aos gregos.

Para quê? Para estes cinco países poderem subir os respectivos salários mínimos e complementos sociais para idosos, de imediato, de modo a passarem a usufruir valores idênticos aos que forem fixados para os gregos, com os custos inerentes a serem suportados pelos restantes 13 países do euro, obviamente.

Esta medida é da maior justiça social: os salários mínimos da Estónia, Letónia, Lituânia, Eslováquia e Portugal são, respectivamente, € 390, € 360, € 300, € 380 e € 589. O grego é muito superior: € 684.

Além disso, estes países não devem ser obrigados a suportar um provável futuro calote grego. E mais: estes cinco países devem arrogar-se o direito de não pagar esses benévolos empréstimos, se os gregos não pagarem. Quem não se sente, não é filho de boa gente.


A opinião dos outros:

Ana Maria Cerdeira Queiroz @ Facebook

06:26
Claro, como sempre este sr. diz 'não' porque a Grécia agora tem um Governo que não é da sua cor com políticos que não despem as calças por isso têm de sair do euro. Bom era que todos os que estão dependentes destes alemães lhes virassem as costas e os deixassem sozinhos na UE, sempre queria ver o que faziam.

Ó maria queiroz, deves ser das que gosta de viver
10:27
com o guito dos outros. É muito bonito gastar à grande sem pensar em pagar. Além de que a Alemanha já provou a nível mundial ser produtora de grande qualidade em tudo que faz. Se não venderem a gentinha do teu tipo, vendem a pessoas sérias. Paga as tuas dívidas e não critiques quem é melhor que tu.

Criador de Touros
14:45
Schäuble é hoje a única referência europeia, a seguir vem Draghi, mas como é socialista, está submetido às pressões que aí andam da Internacional Socialista. Portanto Schäuble é a única referência de sensatez!
15:04
Quando o socialista francês Hollande diz que fará todos os possíveis para manter a Grécia no Euro, quer dizer — digo eu — que ele quer os gregos na Europa, nem que seja para os gregos darem cabo da Europa, como têm feito até aqui. É tolo o François.


sexta-feira, 10 de julho de 2015

A Grécia em default parcial - II b. A proposta de reformas


A última proposta do governo grego cede nas taxas do IVA e nas pensões, mas calendariza pouco e quantifica ainda menos. Nas despesas militares, recusa os cortes exigidos pela troika.
Em troca deste pacote de austeridade, pede um novo empréstimo aos parceiros do euro de "pelo menos" 53,5 mil milhões de euros.




Vejamos um resumo da lista de medidas e promessas que o Governo do Syriza/Anel enviou ontem à noite a Bruxelas:

IVA — O Governo de Atenas já havia cedido na intenção inicial de fixar as receitas adicionais do IVA em 0,74% do PIB, subindo até aos 0,93% na proposta de 26 de Junho. Agora diz que aceita implementar uma reforma no IVA que represente receitas adicionais equivalentes a 1% do PIB, o valor pretendido pelos credores.
  • Na taxa mínima de 6% ficam medicamentos, livros e teatro.
  • Os hotéis passam de uma taxa de 6,5% para 13%, já incluída na proposta de 26 de Junho e aceite pelos credores, sendo que nesta taxa intermédia ficarão também os alimentos básicos, energia e água (excluindo esgotos).
  • Para restaurantes, transportes e tratamento de esgotos a taxa de IVA vai subir dos actuais 13% para 23%.
Quanto ao desconto de 30% na taxa de IVA que beneficia as ilhas, será eliminado mas de forma faseada, com as ilhas mais ricas a serem as primeiras a ficar com a taxa do resto do país e as mais remotas a ficarem isentas. No entanto, o agravamento fiscal nas demais será acompanhado de compensações à população local com impacto fiscal neutro.
As novas taxas de IVA nos hotéis e nas ilhas só serão introduzidas em Outubro, depois de terminada a época alta do turismo.

IRC — Aumento da taxa de IRC de 26% para 28% em 2016, como desejava a troika, mas Atenas admite um agravamento para 29%, se a receita fiscal derrapar.

IRS — A proposta mistura todos os impostos e é vaga nas alterações ao IRS. Diz que pretende introduzir mudanças nos impostos que recaem sobre os automóveis, ganhos de capital, agricultores e trabalhadores por conta própria.
Em 2016, terminarão os subsídios ao gasóleo agrícola e, em 2017, será iniciado o processo de eliminação dos benefícios aos agricultores.
Sobre os privilégios fiscais dos armadores, previstos na constituição grega, o documento diz apenas que devem ser abolidos.
Se a receita fiscal derrapar, aumento das taxas de imposto sobre as famílias de 11% para 15%, para rendimentos inferiores a 12 mil euros, e de 33% para 35% acima desse valor.

Outras taxas e impostos — Introdução de taxa sobre a publicidade na televisão e anúncio de concurso público para a atribuição de licenças de televisão. Alargar o âmbito da aplicação da taxa suplementar sobre iates (com mais de 5 metros), que sobe de 10% para 13%. Aumento das taxas sobre o jogo online.

Pensões — A nova proposta de Atenas antecipa em três anos, para 2022, o fim processo de aumento da idade legal da reforma para os 67 anos, aproximando-se da proposta da troika. O governo grego promete legislar nesse sentido ainda neste mês, com o objectivo de poupar até 0,5% do PIB, ainda em 2015, valor que sobe para 1% em 2016. Promete ainda criar "fortes desincentivos" às reformas antecipadas.
Propõe legislar no sentido de eliminar gradualmente o complemento solidário para idosos — na Grécia chama-se EKAS —, iniciando o processo nos 20% de pensionistas do topo. Pretende concluir esse processo em Dezembro de 2019, tal como pretendido pelos credores. No entanto, quer iniciar essa eliminação apenas a partir de Março de 2016, ao contrário da pretensão da troika de que o processo comece de imediato.
Promete subir as contribuições dos pensionistas para o sistema de saúde de 4% para 6%, em média, incidindo também sobre as pensões complementares.

Função Pública — O Executivo de Atenas prevê a criação de um quadro de mobilidade no último trimestre deste ano. Promete reduzir a massa salarial até 2019, ajustando salários e efectivos a uma meta, mas não quantifica.
Promete alinhar os suplementos salariais — acordos de licença, ajudas de custo, subsídios de deslocação e regalias — com as melhores práticas da União Europeia, a partir de Janeiro de 2016.

Defesa — Nas despesas militares, a proposta do Governo grego propõe cortes de 100 milhões de euros em 2015 e de 200 milhões em 2016, recusando ceder aos credores que exigiam poupanças de 400 milhões. Os cortes de custos serão obtidos através da redução do número de efectivos e das compras.

Combate à corrupção — Atenas promete publicar um plano estratégico contra a corrupção até ao final do mês de Julho e alterar a legislação de declaração de rendimentos e financiamentos dos partidos políticos. Promete combater o contrabando de combustíveis e fraudes no IVA e promover os pagamentos electrónicos.

Reformas estruturais — O Governo grego compromete-se a implementar uma série de reformas em diversas áreas com a colaboração da OCDE: reforma do Estado e da sua relação com empresas públicas e fornecedores, aumento da regulação, das auditorias e da transparência.
A saúde e as obras públicas são áreas prioritárias onde o Governo grego promete combater o desperdício e a corrupção.
Também na administração fiscal — um dos maiores problemas da Grécia é a forte fuga aos impostos — o Governo promete implementar reformas, inclusive criar uma agência autónoma para cobrar impostos.

Sector financeiro — Alterações nas leis de insolvência, com o objectivo de incentivar o pagamento de dívidas, e medidas para atrair investidores estrangeiros.

Privatizações — O governo grego admite avançar não só com as privatizações que estão em curso, como também com as que estão previstas, e não mexer nos respectivos cadernos de encargo.
Admitem agora avançar com a privatização da rede eléctrica (ADMIE), como pretende a troika, mas acrescentam que poderão apresentar uma alternativa "com resultados equivalentes em termos de concorrência" até Outubro deste ano.
O Governo grego também promete alienar os activos pertencentes ao fundo de desenvolvimento helénico (HRADF), para onde se prevê que seja transferida a participação estatal no operador de telecomunicações OTE.

Metas orçamentais — A proposta mantém o compromisso de apresentar excedentes orçamentais primários (receitas superiores às despesas, excluindo o serviço da dívida) equivalentes a 1%, 2%, 3% e 3,5% do PIB para os anos compreendidos entre 2015 e 2018.


O que foi já feito para aliviar a dívida grega?

A Grécia obteve em 2012 o maior perdão de dívida detida por privados de que há registo, depois de bancos e casas de investimento terem aceite um corte (hair-cut) de 53,5% no valor nominal das obrigações do tesouro vendidas pelo Estado helénico.

Os Estados-membros da Zona Euro nunca aceitaram perdoar dívida. Contudo, já aliviaram por duas vezes as condições de reembolso dos empréstimos a Atenas e, em Novembro de 2012, admitiram voltar a fazê-lo, de novo, se os governos gregos cumprissem o programa de ajustamento acordado, o que o governo do Syriza recusou fazer a partir do início deste ano.

As taxas de juro cobradas à Grécia são praticamente iguais à taxa a que o FEEF, o fundo de resgate do euro (que tem rating máximo), consegue financiamento nos mercados, tendo sido oferecido um prazo de carência de 10 anos para o pagamento de juros, ou seja, a Grécia só pagará o primeiro euro de juros aos europeus em 2022.

Ao mesmo tempo, os prazos de maturidade dos empréstimos foram prolongados para cerca de 30 anos. Trata-se de condições mais favoráveis do que as aplicadas aos outros países do euro que foram resgatados — Irlanda, Portugal e Chipre.





*


O governo liderado por Alexis Tsipras pretende receber 53,5 mil milhões numa mão enquanto estende a outra mão cheia de promessas para começar a cumprir em 2016, um ano depois de terem sido eleitos.

Mexer nos privilégios fiscais dos armadores gregos? Fica a intenção, sem data marcada.
Reduzir em 400 milhões as despesas militares? Nem pensar, possivelmente metade disso, e só lá para o próximo ano.
Combate à corrupção? Até os partidos recebem empréstimos da banca, que é pública, Syriza incluído, e nada fizeram sobre o maior problema da sociedade grega. Agora vão congeminar um plano estratégico que talvez seja publicado no final de Julho, seis meses depois de terem sido eleitos.
Incompetência, fraqueza e hipocrisia. Cedência em toda a linha aos interesses instalados na Grécia.

Qual vai ser a reacção dos líderes da Zona Euro? Já se sabe que François Hollande aceita a proposta grega e Angela Merkel, entalada entre Obama e Hollande, não tem outro remédio senão condescender.

Depois da insensata revolução democrática conduzida por políticos franceses, ingleses e americanos que levaram à destruição da paz na Síria e da estabilidade social e política nos países do Norte de África, todos percebemos a importância geopolítica da fronteira Sul da Europa.
Merkel foi a primeira a compreender. A Alemanha não colaborou nas operações militares da NATO para derrubar Gaddafi quando este já deixara, há muito tempo, de proteger o terrorismo.

Dos quatro países europeus meridionais, a Grécia destaca-se como o paredão de defesa dos países europeus centrais, não só contra a perigosa imigração islâmica africana, mas também asiática através do conturbado médio oriente.
Dos russos, desconfiam Barack Obama, a traumatizada Merkel, que nasceu, cresceu e viveu mais de 40 anos no território alemão situado para além da cortina de ferro, e os países bálticos.

A União Europeia precisa de velar pelos gregos para que não façam demasiadas asneiras e deixem o País derrapar para uma situação caótica que abra brechas na segurança europeia.
No entanto, aceitar chantagens nunca resolveu problemas. É preciso que os gregos entendam que têm de cumprir as regras da Zona Euro e não podem exigir aos parceiros do euro um tratamento privilegiado em detrimento das populações dos países bálticos — Estónia, Letónia e Lituânia —, da Eslováquia e de Portugal que têm salários mínimos e pensões mais baixos.

Nas longas filas para levantar 60 euros nas caixas multibanco, os gregos começavam a entender. Se esta proposta — cheia de promessas que o governo de Tsipras, apoiado na estrondosa vitória do 'não' no referendo, não tem a mínima intenção de cumprir — for aceite na reunião de amanhã dos ministros das Finanças da Zona Euro, o problema grego vai renascer aquando da primeira avaliação da troika ao cumprimento do memorando que posteriormente será assinado.

Que esperança podem ter os povos europeus de deixarem de ser explorados pelas elites privilegiadas que pululam na sociedade helénica?
O peso dos países que têm um nível de vida inferior ao dos gregos não será suficiente, por si só, para refrear as artimanhas gregas.
Todavia há países da Zona Euro que prevêem a necessidade de aprovação parlamentar antes de haver a negociação formal sobre o memorando de entendimento — Alemanha, Áustria, Finlândia, Holanda e Estónia (Eslováquia não requer aprovação parlamentar). Portanto podem contar ainda com a oposição dos políticos finlandeses, holandeses e alemães, sobretudo, do fisicamente deficiente, mas intelectualmente vigoroso ministro das Finanças alemão.

Wolfgang Schäuble tornou-se o paladino dos contribuintes europeus que querem acabar com a exploração helénica e está a enfrentar corajosamente os americanos, assim como Christine Lagarde que se passou para o lado de Obama, apesar deste se ter recusado nos últimos anos a contribuir financeiramente para o FMI.
Tal como a directora do FMI, Schäuble defende a reestruturação da dívida grega mas à custa de um perdão pago... pelos gregos de maiores rendimentos e pela venda dos activos na posse do Estado helénico.

Por este caminho, ainda vamos ver uma manifestação de apoio dos ricos armadores gregos ao Syriza. É algo inacreditável ver a esquerda europeia a defender os contribuintes ricos da Grécia e a direita a pugnar para que os fundos europeus alimentados pelos contribuintes dos restantes 18 países do euro, alguns mais pobres que a Grécia, não caiam dentro dos bolsos das elites gregas. Estamos a assistir a uma completa inversão de valores políticos na Europa.





quarta-feira, 8 de julho de 2015

A Grécia em default parcial - II a. Foi pedido um terceiro resgate


Já conhecido pela sua educação, cordialidade e por falar inglês com pronúncia britânica impecável — ou não se tivesse licenciado e doutorado em Oxford —, Euclides Tsakalotos era aguardado com expectativa no recomeço das negociações entre o governo grego e os outros 18 governos da Zona Euro para resolver a crise helénica.

O novo ministro das Finanças grego chegou à reunião do Eurogrupo desta terça-feira e pediu um empréstimo urgente de 7 mil milhões de euros para a Grécia, não tendo distribuído aos presentes quaisquer propostas de reformas. Instado pelos colegas, tirou da pasta um papel onde... estavam esboçadas algumas ideias.


Reunião extraordinária do Eurogrupo - 7 de Julho de 2015

07 Jul, 2015, 21:00

Os ministros das Finanças da Eslovénia e da Eslováquia, assim como os dos países bálticos — Estónia, Letónia e Lituânia —, países com salários mínimos mais baixos do que os gregos, ficaram agastados.
A Finlândia já fala em convocar um referendo para saber se os finlandeses estão dispostos a dar mais ajuda financeira à Grécia. Os governos de Portugal e Espanha, com eleições no fim do ano, também se interrogam sobre as reacções dos contribuintes dos seus países. Só a França parece disposta a suportar a farsa grega.

A seguir à reunião do Eurogrupo, decorreu a cimeira dos líderes da Zona Euro.

Cimeira do Euro - 7 de Julho de 2015

08 Jul, 2015, 07:55

Na conferência de imprensa, o presidente do Conselho Europeu, o polaco Donald Tusk, resumiu a posição dos chefes de Estado e primeiros-ministros da Zona Euro em cinco pontos.
No quarto ponto fixa-se um limite temporal para o Governo do Syriza e dos Gregos Independentes formularem o pedido de resgate ao MEE com propostas de reformas: quinta-feira, 9 de Julho.
O quinto anuncia uma cimeira dos chefes de Estado ou Governo no próximo domingo, 12 de Julho.
No fim da declaração acrescentou estas palavras: "A dura realidade é que ficam apenas cinco dias para encontrar o acordo final. Até agora, tenho evitado falar sobre prazos. Mas hoje tenho que dizer alto e bom som que o prazo final termina esta semana. Todos nós somos responsáveis pela crise e todos nós temos a responsabilidade de resolvê-la."

Euro Summit, on 7 July 2015

Na parte da conferência reservada a perguntas e respostas, Donald Tusk esclareceu que, na cimeira extraordinária convocada para decidir o terceiro resgate à Grécia, estarão presentes todos os líderes dos 28 países da União Europeia porque não se pode excluir o cenário negro de saída da Grécia do euro, sendo necessário que todos os Estados-membros se pronunciem.
Um descoroçoado presidente da Comissão Europeia reforçou esta resposta, dizendo que passou a admitir três cenários para o futuro da Grécia. Um deles é o Grexit. E, noutra questão, Jean-Claude Juncker acrescentou que tudo depende das propostas de reformas que o governo grego apresente o mais tardar na sexta-feira de manhã às 8:30.

Esta manhã o governo grego entregou o pedido de terceiro resgate ao Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE) que agora vai ser analisado pelos restantes parceiros e também pelo FMI, Comissão Europeia e Banco Central Europeu. Parece que os gregos já aprenderam que os prazos são para cumprir fora da Grécia. Dentro da Grécia, não são: os bancos não foram reabertos na terça-feira, ao contrário do que fora fixado pelo governo de Alexis Tsipras.

Durante a visita que fez hoje, quarta-feira, ao parlamento europeu, o primeiro-ministro grego prometeu fazer reformas em troca do dinheiro dos contribuintes dos restantes 18 países da Zona Euro, mas foi confrontado por alguns eurodeputados para que apresentasse propostas concretas de reformas. Eis um excerto do debate com o deputado europeu belga Guy Verhofstadt:

domingo, 5 de julho de 2015

O resultado do referendo grego

05 Jul, 2015, 20:58

Três sondagens realizadas pela GPO, Metron Analysis e MRB já mostravam que o 'Não' ia à frente por três pontos. Uma sondagem da Marc estimava que 49,5 a 54,5 por cento dos gregos tinham votado ‘não’.

Mas a vantagem do 'não' é muito mais significativa e observa-se em todos os distritos eleitorais. Os resultados do referendo no sítio da Internet do Ministério do Interior grego:

██ Não 61,31 %
██ Sim 38,69 %




Reuters/Yves Herman

Com a vantagem do ‘não’, o futuro da Grécia está descrito numa entrevista do presidente do parlamento europeu, Martin Schulz, um político pertencente ao Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD), e será fora da Zona Euro.
"A Grécia continua no euro após este referendo? Certamente, mas se disserem ‘não’, vão ter que introduzir outra moeda depois do referendo porque o euro já não estará disponível como forma de pagamento", afirmou Schulz em entrevista à rádio alemã Deutschlandfunk.
"Como vão conseguir pagar salários? Como vão pagar pensões? Assim que introduzirem uma nova moeda vão sair da Zona Euro. Esses são os elementos que me dão alguma esperança de que as pessoas não vão votar ‘não’ hoje".

No sábado, o presidente do Parlamento Europeu tinha avançado que estava a ser avaliada a possibilidade de serem concedidos créditos de emergência à Grécia para evitar uma crise humanitária.
"Vamos ver-nos obrigados a conceder créditos de emergência à Grécia como medida de transição, para que os serviços públicos possam continuar a funcionar e as pessoas necessitadas recebam dinheiro. Para isso haveria dinheiro a curto prazo em Bruxelas", disse Schulz, numa entrevista ao jornal Welt am Sonntag.

Mas hoje os gregos festejam, indiferentes a estes alertas:


REUTERS/Christian Hartmann



AFP/Aris Messinis


*


Os gregos queriam permanecer na Zona Euro, mas votaram para regressar ao dracma. Se não houver um acordo entre a Grécia e os credores sobre um terceiro resgate, o país vai falhar o pagamento de 3,5 mil milhões de euros ao Banco Central Europeu, no dia 20 de Julho, e este banco terá de encerrar a assistência de liquidez de emergência (ELA). Os bancos gregos ficarão insolventes e, em consequência, o governo grego terá de criar moeda.

O caminho de transição do euro para a nova moeda grega está apinhado de dificuldades, como se explica neste artigo que fala da experiência da Alemanha, quando estendeu o marco ao leste alemão, do divórcio checo e eslovaco de 1993 e da criação de uma moeda na Croácia, face à implosão da Jugoslávia.


Notas e moedas do antigo dracma grego
Bloomberg/Kostas Tsironis

No entanto, ao obrigar os gregos a viverem com aquilo que produzem, a saída da Zona Euro vai desencadear as profundas reformas de que a Grécia necessita e que passam pela reestruturação da administração pública grega, bem como da economia e das finanças do País.

Mas nada disto será feito pelo governo liderado por Alexis Tsipras, um demagogo sem estatura política que, em 5 meses, ainda não tomou uma única medida para revitalizar a economia ou para combater a corrupção.

Os tempos mais próximos serão de grande instabilidade. Só depois da maioria dos gregos entender que o dinheiro externo acabou e que foram enganados por extremistas irresponsáveis que prometeram conseguir um acordo com perdão de dívida, se o 'não' vencesse, pode haver espaço para surgir um governo grego com conhecimento e capacidade para implementar as reformas de que a Grécia carece.

O problema grego é que políticos corruptos do PASOK (centro-esquerda) e da Nova Democracia (centro-direita) criaram na população grega, desde 1981, data da adesão do país à então comunidade económica europeia (CEE), uma dependência de dinheiro externo.
Na primeira década, dissiparam as verbas para o desenvolvimento económico vindas da CEE. Depois falsificaram a contabilidade para entrarem na Zona Euro e passarem a receber fundos estruturais que também não usaram para criar riqueza, foram distribuídos.
E como as clientelas, criadas de alto a baixo na sociedade grega, votavam sempre naqueles que prometiam mais, drogaram-se com empréstimos.

A dívida pública cresceu desmesuradamente. Um governo do partido socialista grego liderado por George Papandreou descobriu que o país estava fora dos mercados financeiros e começou a aceitar taxas de juros agiotas até que teve de pedir ajuda financeira ao FMI/CE/BCE, em 2010.

Começava o longo calvário da austeridade que se vai prolongar por muitas décadas. Hoje os gregos escolheram trilhar esse caminho da forma mais dolorosa — sozinhos e pela mão de aventureiros.

O alargamento do leque salarial, colossal, injusto e mundial, que adveio da implosão dos regimes socialistas dos países da Europa de Leste, com favorecimento dos gestores empresariais que se aproveitaram do triunfo das economias de mercado, é um problema que temos de exigir que os líderes europeus também resolvam. Mas não tem nada a ver com a questão grega — aqui é um país que se habituou, e quer continuar, a viver à custa dos outros 18 países da Zona Euro.


sexta-feira, 3 de julho de 2015

A Grécia em default parcial - I c. A dívida grega


A Grécia pretende negociar com os seus credores da Zona Euro para obter um acordo antes que o governo endividado fique sem dinheiro. Veja nesta página interactiva do Wall Street Journal quanto a Grécia deve e quando.

A unidade dos gráficos é o milhar de milhão de euros.

O FMI concedeu empréstimos à Grécia que ascendem a 21 mil milhões de euros, dos quais 1,6 mil milhões venceram em 30 de Junho e não foram pagos.

O BCE emprestou 27 mil milhões de euros, mas poderá ser preciso adicionar os 89 mil milhões de euros emprestados aos bancos gregos ao abrigo da Assistência de Emergência de Liquidez (ELA) — fixa desde domingo, 28 de Junho, o que obrigou ao encerramento dos bancos — que, por enquanto, são um risco do banco central grego.

A dívida aos investidores privados é apenas 34 mil milhões de euros porque, aquando do segundo resgate à Grécia, assumiram a perda de aproximadamente metade dos empréstimos.
Pior estão os Estados-membros da Zona Euro que emprestaram 53 mil milhões aos gregos no primeiro resgate, em 2010.

Depois do segundo resgate, em 2012, quem ficou a suportar a fatia de leão dos empréstimos foi o Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF), o antigo fundo de resgate do euro, que entrou com 131 mil milhões de euros.

Se o governo liderado por Alexis Tsipras mantiver o encerramento dos bancos e o controle de capitais na Grécia até 20 de Julho, conseguirá aguentar a banca grega com liquidez mas, nessa data, quando Atenas falhar o pagamento de 3,5 mil milhões de euros ao BCE, o país entra em bancarrota.








quinta-feira, 2 de julho de 2015

A Grécia em default parcial - I b. Quem paga um terceiro resgate?


A Grécia pediu aos seus credores da Zona Euro para negociar um terceiro resgate estimado em, pelo menos, 36 mil milhões de euros.

Imediatamente os contribuintes dos países da Zona Euro começaram a fazer contas para saber com quanto terão de contribuir. Veja um conjunto de perguntas e respostas sobre o processo e qual o impacto para Portugal.


Como o fundo de resgate do euro obtém capital e financiamento?
O fundo que tem actualmente a responsabilidade de financiar novos resgates ou outros apoios a Estados-membros da Zona Euro que enfrentem dificuldades — Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE) — tem o capital de 80 mil milhões de euros que já foi subscrito pelos vários Estados-membros, incluindo Portugal.

Este dinheiro serve como garantia para os investidores aceitarem comprar obrigações emitidas pelo MEE, permitindo-lhe endividar-se nos mercados financeiros até 500 mil milhões de euros, dos quais 47 mil milhões foram aplicados. No final de 2014 restavam 453 mil milhões de euros.

Depois o MEE usa este financiamento para emprestar a Estados-membros que precisem de ajuda financeira, cobrando uma taxa de juro igual ao custo de financiamento mais um spread.

Portugal terá de gastar mais dinheiro num terceiro resgate à Grécia?
Em princípio, não. O MEE tem um capital de 80 mil milhões de euros já subscrito pelos Estados-membros da Zona Euro, dos quais 2 mil milhões de euros saíram de Portugal, de acordo com a nossa participação no capital do BCE que é 2,5%.

No entanto, além dos 80 mil milhões de euros já subscritos, os Estados-membros da Zona Euro comprometeram-se a reforçar o capital do MEE até mais 625 mil milhões de euros, em caso de necessidade. Isto obrigaria Portugal a contribuir com mais 15,6 mil milhões de euros.

Qual o valor do terceiro resgate?
Na carta que dirigiu a MEE a pedir um novo programa de financiamento, o primeiro-ministro grego disse que esse financiamento seria somente para cumprir o pagamento de dívida e custos associados, tendo indicado que o montante de dívida (excluído títulos de curto prazo como bilhetes do Tesouro) que chega à maturidade até ao final de 2017 ascende a 29,1 mil milhões de euros.

No entanto, o programa anterior — que expirou a 30 de Junho sem que o governo liderado por Alexis Tsipras e os credores tenham chegado a acordo —, além de dinheiro para financiar dívida que chegava à maturidade, tinha disponíveis 10,9 mil milhões para financiar a recapitalização de bancos. Dinheiro que provavelmente será incluído num terceiro resgate.

O terceiro resgate vai mesmo acontecer?
O que houve até agora foi apenas um pedido formal da Grécia ao MEE a solicitar este programa com duração de dois anos (sem intervenção do FMI).

Os ministros das Finanças do Euro, na reunião de 30 de Junho, mostraram abertura para o negociar, mas um financiamento estará sempre associado a um programa de reformas que dêem a garantia de que será reembolsado.

Os outros líderes europeus já salientaram que não haverá negociações sobre um terceiro resgate antes do referendo de 5 de Julho, no qual os gregos vão ser chamados a pronunciar-se sobre a proposta dos credores que o Governo grego recusou.
Esta quarta-feira, 1 de Julho, foi notícia a carta que o primeiro-ministro grego enviou ao BCE, Comissão Europeia e FMI, disponibilizando-se para aceitar esta última proposta, embora com alterações.

Mas há risco para Portugal num terceiro resgate à Grécia?
Sim, como em todos os empréstimos, há juros e risco.

Se, no futuro, a Grécia não pagar os empréstimos ao MEE, este fundo europeu de resgate terá de abater as perdas no capital já subscrito.

Depois terá de solicitar aos Estados-membros que reforcem esse capital para garantir que a relação entre capital subscrito (actualmente 80 mil milhões de euros) e a capacidade de financiamento (os actuais 500 mil milhões de euros) é de, pelo menos, 15%.

Quando dinheiro é que Portugal já emprestou à Grécia?
Em 2012, Portugal estava sob um programa de resgate e, por isso, não teve de participar no empréstimo feito pelo Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF) que financiou o segundo resgate grego com 141,9 mil milhões de euros.

Ao abrigo do primeiro programa de resgate grego que foi financiado por empréstimos bilaterais, num total de 52,9 mil milhões de euros, o nosso País entrou com 1,1 mil milhões de euros.

A este montante junta-se uma exposição indirecta via BCE com duas componentes:
  • cerca de 0,7 mil milhões de euros das obrigações gregas compradas pelo banco central no pico da crise europeia ao abrigo do programa SMP (2,5% dos 27 mil milhões que estão no balanço do BCE)
  • e ainda 2,8 mil milhões de euros dos empréstimos do BCE aos bancos gregos através das operações regulares de liquidez (2,5% dos 110 mil milhões de euros).
    Este valor só estará em risco, se a Grécia sair da Zona Euro, tendo o BCE a possibilidade de descontar o colateral com valor em sua posse (dívida grega terá reduzido valor).


*

Um comentário certeiro lido no Negócios:

Anónimo
02 Julho 2015 - 17:49
Eu acho que agora todos os países do euro deviam fazer um referendo para saber se os europeus aceitam fazer um terceiro resgate à Grécia.
Se eles podem escolher estar ou sair, nós devíamos escolher se queremos continuar a ajudar um país que é um saco sem fundo.


quarta-feira, 1 de julho de 2015

A Grécia em default parcial - I a. A estratégia de Tsipras


Novo artigo sobre a Grécia do jornalista João Carlos Barradas onde o autor desmonta a estratégia do líder do governo grego que envolve graves riscos para a economia e para a sociedade, altamente subestimados por Alexis Tsipras:


"A renúncia da Grécia"
01 Julho 2015, 00:01 por João Carlos Barradas

"A lógica leninista de Alexis Tsipras iludiu os parceiros do euro e arrastou-os para um universo fantasmagórico em que um referendo sobre coisa nenhuma é transfigurado em acto político da maior relevância.

O líder grego apostou numa estratégia de ruptura exigindo que os credores aceitassem as suas responsabilidades pelo endividamento helénico para os obrigar a admitir perdões de dívida e financiamentos a fundo perdido.

Na frente doméstica o Syriza denunciou, por seu turno, a cumplicidade da oligarquia capitalista, de conservadores e socialistas, em políticas impostas pela troika que redundaram em pauperização sem prover a solvência do Estado.

A convocação de um referendo sobre propostas caducas e de nulas consequências na ordem jurídica interna e europeia foi dos últimos artifícios para legitimar politicamente a ruptura.

O dia seguinte

No abstruso referendo, Tsipras triunfa se o eleitorado votar contra a aceitação de dois documentos sem validade jurídica e ganha caso haja assentimento quanto às propostas da troika datadas de 25 de Junho e, entretanto, prescritas.

A manobra passa por atemorizar os parceiros europeus com as consequências gravosas de uma saída da Grécia do euro, a "bomba atómica" com que Tsipras sempre ameaçou.

O governo de Atenas anunciou, ao mesmo tempo, que contestaria no Tribunal de Justiça da UE actos que impliquem a exclusão de Atenas da Zona Euro e o fim de financiamentos da parte do BCE.

O pedido de um terceiro resgate às instituições europeias — via Mecanismo Europeu de Estabilidade, excluindo o FMI e sem contrapartidas vinculativas legais de reforma do Estado — visou demonstrar empenhamento negocial e condicionar politicamente o BCE.

Sustentar a liquidez da banca grega até 20 de Julho não seria impossível, a manterem-se até lá as restrições a movimentos de capitais na Grécia, mas, nessa data, quando Atenas falhar o pagamento de 3,5 mil milhões de euros ao BCE, não haverá alternativa estatutária em Frankfurt ao corte de financiamento.

Caras e coroas

Tsipras só tem a ganhar com a creditação política (carente de valor legal) para negociações a curtíssimo prazo, defendida por Jean-Claude Juncker e Angela Merkel, de um referendo (sem implicações jurídicas) que, alegadamente, oporia um sim/não à manutenção da Grécia no euro.

Ante um eleitorado que rejeita mais cortes orçamentais ou aumentos da carga fiscal e recusa, simultaneamente, perder o euro, Tsipras apresenta-se como defensor da soberania nacional e do vínculo europeu e, salvo evento catastrófico que acarrete uma vitória esmagadora do "sim", mantém a iniciativa política.

Remodelação governamental ou convocação de eleições antecipadas são opções que lhe quedam sempre em aberto independentemente do resultado do referendo.

A radicalização política e o colapso do bipartidarismo conservador-socialista impedem a formação, por via eleitoral, de coligações minimamente consistentes para reformas de uma economia sem capacidade competitiva no âmbito do euro e de um Estado viciado no financiamento externo a fundo perdido de clientelas enquadradas por sistemas de patrocínio.

Os parceiros europeus não terão interlocutores do lado grego para obviar à bancarrota de Atenas.

Lenin explica

Muito leninista, apostado na subversão anticapitalista de etapa em etapa até à estocada final, esticou demasiado a corda e acabou mal.

Presume o leninista de Atenas que a ruptura com a Zona Euro e a ampla margem de manobra que sobrará para subverter o funcionamento da UE e, eventualmente, alguma chantagem na NATO, serão politicamente viáveis através da mobilização nacionalista.
Tsipras sabe tocar as teclas da tradição e do sentimento.

Exalta o popular poema de 1901 de Konstandinos Kavafis "A algumas pessoas um dia cai/em que o grande Sim ou o grande Não sobrevém/dizer".

Glorifica a "grande renúncia", evocando o mitificado "Não" do general Ioannis Metaxas ao ultimato de Mussolini de 28 de Outubro de 1940 (dia celebrado por todas as comunidades helénicas) que levou ao ataque fascista à Grécia.

Tsipras subestima, contudo, a dimensão da implosão económica e social que advirá da bancarrota, primeiro pelo incumprimento ante o FMI e, depois, pelo colapso da banca com o fim do financiamento do BCE.

A corda

Lenin desprezava capitalistas estúpidos a ponto de lhe venderem a corda com que os iria enforcar.

Tsipras quer atemorizar capitalistas ainda mais estúpidos para que lhe ofereçam a corda para enforcar oligarcas e burocratas no altar do euro.

Nesta coisa de forcas e matanças muito gente padeceu, feneceu e morreu.


P.S.: a versão portuguesa de "Che fece .... il gran rifiuto" pode ler-se em "Os Poemas", Konstandinos Kavafis, tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis, "Relógio D' Água", Lisboa, 2005."


*


Este poema do poeta grego Konstantínos Kaváfis adopta como título um verso (Canto III, v. 60) da "Divina Comédia – Inferno" de Dante,

che fece per viltade il gran rifiuto (que fez por cobardia a grande recusa)

mas substitui duas palavras essenciais — per viltade — por quatro pontos para metamorfosear o significado da palavra "recusa", retirando-lhe a carga negativa conferida por Dante ao associá-la a "cobardia" e arrastar a alma de quem disse "Não" para a danação eterna no Inferno.
Depois o poema dá-lhe um sentido positivo, enaltecendo aqueles que têm a coragem de dizer “Não”. Justamente o sentido que convém a Tsipras para condicionar o voto do eleitorado grego no referendo do próximo domingo.

Ao contrário das traduções inglesas do poema (ver este interessante artigo), a tradução portuguesa vai ainda mais longe e denigre aquele que diz “Sim” como alguém que se desonra e mente a si próprio:


Che fece .... il gran rifiuto

A algumas pessoas um dia cai
em que o grande Sim e o grande Não sobrevém
dizer. Logo surge ao de cima a que tem
pronto dentro de si o Sim e ao dizê-lo vai

além da sua honra e do que está convencida.
A que negou não se arrepende. De novo interrogada
voltaria a dizer não. Mas tem-na derrotada
aquele não — o correcto — toda a sua vida.



terça-feira, 30 de junho de 2015

Humor grego - I


Um britânico de 29 anos propõe pagar a dívida grega de 1,6 mil milhões de euros ao FMI, que venceu hoje, com recurso ao crowfunding. Em dois dias recolheu cerca de 466 mil euros.

Os presentes em troca de cada contribuição:
Por três euros recebe-se um postal de Alex Tsipras. Com seis euros obtém-se uma salada de queijo feta e azeite. Dez euros serão recompensados com uma garrafa de Ouzo e 25 euros com uma garrafa de vinho grego. Quem doar 160 euros, recebe um cesto com todos estes produtos gregos. Cinco mil euros dão direito a uma semana de férias para dois em Atenas. E os corações generosos que oferecerem 1 milhão de euros ganham a gratidão do povo grego.

A iniciativa termina dentro de seis dias e já serviu para uma alfinetada lusa:

nemo
30 Junho 2015 - 22:27
Agradeço que me informem com quanto é que já contribuíram estes generosos portugueses:

- António Luís Santos da Costa
- Catarina Soares Martins
- Jerónimo Carvalho de Sousa

Obrigado.


A Grécia à beira da bancarrota - III i. O default no empréstimo do FMI


A Grécia não pagou a dívida de 1,6 mil milhões de euros ao Fundo Monetário internacional (FMI) que vencia esta terça-feira, 30 de Junho. O FMI comunicou que o Governo de Atenas solicitou o adiamento da amortização do empréstimo e que a instituição declarou o pagamento em atraso.

O ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, já tinha confirmado esta manhã que a Grécia não ia pagar as quatro parcelas que deveriam ser reembolsadas hoje ao FMI.

À noite, em entrevista à estação de televisão pública ERT, Yannis Dragasakis, vice-primeiro-ministro grego, avançou que a Grécia tinha apresentado um pedido ao FMI para que o pagamento das quatro parcelas de Junho, que deveriam ter sido reembolsadas hoje, fosse adiado para o fim de Novembro.

O comunicado de Gerry Rice, director de comunicação do FMI, é lacónico e fala apenas em atraso:
Confirmo que o reembolso de DES [Direitos Especiais de Saque, a unidade de conta do FMI] 1,2 mil milhões (cerca de EUR 1,5 mil milhões) devidos hoje pela Grécia ao FMI não foram recebidos. Informámos o nosso Conselho de Administração que a Grécia está agora em atraso e só poderá receber financiamento do FMI quando cumprir o pagamento em atraso.

Também posso confirmar que o FMI recebeu hoje um pedido das autoridades gregas de prorrogação da obrigação de reembolso da Grécia que vencia hoje, que irá para o Conselho de Administração do FMI em devido tempo.

Dentro de 15 meses, o FMI emite uma “declaração de não-cooperação” (até Setembro de 2016), podendo ser suspensa a assistência técnica à Grécia. As restrições prosseguem, com a suspensão dos poderes de voto do país no FMI ao fim de 18 meses. Se, ao fim de dois anos, a Grécia continuar sem pagar o empréstimo, pode ser expulsa da instituição.


*

As reacções à notícia vão desde comentários circunspectos a outros bem-humorados. Dois exemplos nos antípodas:

Anónimo:
30 Junho 2015 - 22:41
Está lá, é do FMI? Olhe, a gente não conseguiu SACAR o dinheiro aos UE, por isso tenham paciência, aguentem mais um tempinho que a gente vai continuar a bater nos bolsos deles a ver se saltam alguns Euros.

00SEVEN
30 Junho 2015 - 23:25
Uma garotada a espatifar o país!
Mas quem escolheu foram os gregos.
O default consumou-se há 25 minutos!
Só se alterarem os Bye-Laws do FMI, mas para isso precisam que os 188 países-membros deliberem sobre esta façanha grega!


A Grécia à beira da bancarrota - III h. O fim do resgate europeu


O governo grego solicitou ao Eurogrupo a extensão do actual programa de resgate. Ao fim da tarde, o fundo de resgate do euro declarou que o programa de assistência à Grécia termina hoje, terça-feira, 30 de Junho.

O fundo de resgate do euro — Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE) — emitiu esta tarde um comunicado oficial a alertar que o programa de assistência financeira à Grécia expira à meia-noite de hoje, terça-feira, 30 de Junho.

A instituição presidida por Klaus Regling alerta que, com o fim do programa do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF), que antecedeu o MEE, a Grécia perde o acesso à última tranche de 1,8 mil milhões de euros do empréstimo concedido. A Grécia vê também cancelado o acesso aos 10,9 mil milhões de euros destinados à recapitalização da banca que estavam previstos no programa.

Regling afirma ser "de lamentar que o programa do FEEF termine hoje sem que haja qualquer acordo e que os resultados positivos do programa sejam colocados em risco", acrescentando que "devido às políticas económicas adoptadas no âmbito do programa do FEEF, o país estava num bom caminho para um forte crescimento até ao segundo semestre de 2014". Realça que "os grandes sacrifícios exigidos ao povo grego estavam a dar resultado" e havia "perspectivas encorajadoras de crescimento".

O programa do FEEF começou em 21 de Fevereiro de 2012. Previsto para terminar a 31 de Dezembro de 2014, foi estendido por dois meses a pedido do governo de Antonis Samaras e, em Fevereiro deste ano, já com o governo de Alexis Tsipras, foi prolongado por mais quatro meses.
O montante do empréstimo em dívida ascende a 130,9 mil milhões de euros, o que torna o FEEF, de longe, o maior credor da Grécia.

O comunicado sublinha a singularidade do programa que hoje termina:
O programa de assistência financeira da Grécia foi único em muitos aspectos. Devido à gravidade das deficiências estruturais do país e das necessidades de ajustamento, foi o maior programa do FEEF ou do MEE de sempre. Também tinha, de longe, as condições de crédito mais favoráveis jamais concedidas a um programa do FEEF ou do MEE de um país. Incluiu o envolvimento do sector privado, com perdas consideráveis para os investidores privados. A Grécia beneficia de um empréstimo com a maturidade média de mais de 30 anos. O país não paga, nem taxas de juros, nem de resgate, sobre parte esmagadora dos empréstimos do FEEF até 2023.

O governo grego também solicitou um terceiro programa de resgate e reestruturação da dívida ao fundo de resgate do euro.
Os ministros das Finanças da Zona Euro já fizeram uma primeira avaliação negativa da proposta da Grécia, em reunião por teleconferência nesta terça-feira, mas pediram a Atenas para aprofundar e pormenorizar a sua proposta.


*


A Grécia gastava 17,5% do PIB com os pagamentos de pensões, mais do que qualquer outro país da União Europeia, de acordo com os dados de 2012, os últimos disponíveis no Eurostat. Os cortes efectuados pelo Governo de Samaras baixaram este valor para 16%, mas Tsipras recusa fazer mais cortes de pensões porque a taxa de desemprego é elevadíssima, mais de 25% da população activa, e os pensionistas estão a sustentar as famílias dos filhos desempregados.

De 2010 a 2014, as pensões foram cortados 27%, em média, e 50% para os mais ricos. A idade média de reforma subiu dois anos em 2013. Mesmo assim, agora os homens gregos aposentam-se, em média, aos 63 e as mulheres aos 59 anos.

Actualmente as pensões gregas rondam 833 euros por mês, em média. Mas baixaram de 1350 euros, que era a média em 2009, segundo o instituto do maior sindicato do país, o INE-GSEE. Além disso, o governo de Tsipras fixou a linha de pobreza em 665 euros mensais e 45% dos pensionistas recebem pagamentos mensais abaixo desse valor.

A título de comparação, recorde-se que, em 2015, o Complemento Solidário para Idosos (CSI) dos pensionistas portugueses, com mais de 66 anos de idade, é 4909 euros por ano, ou seja, 409 euros mensais.

Se aos gastos com as pensões juntarmos os salários, obtém-se 80% dos gastos primários do Estado, ou seja, antes dos custos do serviço da dívida. "Os 20% restantes já foram cortados até o osso, de facto foi longe demais", disse uma fonte ligada às negociações. "Os funcionários públicos não têm lápis para escrever, os edifícios que necessitam de manutenção estão a desmoronar-se. Não é possível tornar sustentáveis as finanças públicas sem trabalhar sobre os salários e pensões."

Agora a Grécia perde tranches que totalizam 12,7 mil milhões de euros, a taxas de juro quase nulas, por recusar fazer as reformas profundas que a economia grega precisa e insistir numa nova reestruturação da dívida pública grega que iria penalizar os restantes 18 países da Zona Euro.


segunda-feira, 29 de junho de 2015

A Grécia à beira da bancarrota - III g. Os pensionistas esquecidos


Os gregos encontraram hoje os bancos com as grades descidas e as máquinas automáticas fechadas durante a manhã para se proceder ao controlo dos levantamentos de dinheiro.
Os pensionistas que não têm cartões bancários para levantamento de dinheiro não conseguiram receber as suas pensões.


No seguimento do colapso nas negociações entre o governo de Alexis Tsipras e os credores, o Banco Central Europeu (BCE) decidiu não reforçar os valores da linha de financiamento de emergência (ELA) para a banca grega, mantendo o anterior limite de 89 mil milhões de euros.

Alertado pelo governador do banco central grego de que a banca não conseguiria suportar o ritmo crescente dos levantamentos de depósitos das últimas semanas, o primeiro-ministro grego anunciou ontem o encerramento dos bancos gregos e a imposição de controlo de capitais. Tsipras fez questão de dizer aos gregos para permanecerem "calmos", assegurando que os "depósitos estão salvaguardados" e que o pagamento de salários e pensões não estava em perigo.
A seguir o Ministério das Finanças informou que os bancos vão permanecer fechados até 7 de Julho e que o controlo de capitais ia limitar a 60 euros o montante máximo diário de levantamentos de dinheiro nas caixas automáticas.

Os pensionistas que não têm cartões bancários dirigiram-se hoje aos bancos na esperança de levantarem dinheiro das suas pensões, mas não conseguiram porque não se confirmou os rumores de que os bancos poderiam abrir para os pensionistas.


Pensionistas fazem fila fora de uma sucursal do Banco Nacional da Grécia na esperança de obterem as suas pensões, em Atenas, Grécia, em 29 de Junho de 2015.
REUTERS/Yannis Behrakis


Os pensionistas que esperam fora de uma sucursal fechada do Banco Nacional da Grécia na esperança de obterem as suas pensões, discutem com um funcionário do banco (E) em Heraklion, na ilha de Creta, Grécia, em 29 de Junho de 2015.
REUTERS/Stefanos Rapanis

REUTERS/Stefanos Rapanis


Um gerente bancário explica a situação aos pensionistas que esperam fora de uma sucursal do Banco Nacional da Grécia na esperança de obterem as suas pensões, em Tessalónica, Grécia, em 29 de Junho de 2015.
REUTERS/Alexandros Avramidis


Pessoas sentadas fora de uma agência fechada do Banco Nacional da Grécia, em Atenas, em 29 de Junho de 2015.
REUTERS/Marko Djurica


Pessoas, na sua maioria pensionistas, discutem com um membro do pessoal (C) de uma agência fechada do Banco Nacional da Grécia, na sede do banco em Atenas, em 29 de Junho de 2015.
REUTERS/Marko Djurica

REUTERS/Marko Djurica


As pessoas, na sua maioria pensionistas, discutem entre si fora de uma agência fechada do Banco Nacional da Grécia, na sede do banco em Atenas, em 29 de Junho de 2015.
REUTERS/Marko Djurica

Perante o drama destas pessoas, um funcionário do governo grego veio dizer que é expectável que abram 850 sucursais bancárias para o pagamento de pensões: "As sucursais dos bancos vão abrir antes de segunda-feira. Há um esforço para que abram na quinta-feira."


*


Os bancos recebem o dinheiro depositado pelos clientes e fazem empréstimos às empresas e aos particulares. Para satisfazerem os levantamentos de dinheiro por parte dos seus clientes, os bancos socorrem-se de financiamento do BCE. Se houver algum motivo que leve este banco central a recusar, vão à falência.
Por exemplo, o Banco Espírito Santo sofreu uma medida de resolução no ano passado quando, depois de apresentar prejuízos elevadíssimos nas contas do primeiro semestre, o BCE recusou manter o financiamento ao banco.

Depois dos levantamentos de dinheiro da última semana, concomitantes com o arrastar das negociações do ministro das Finanças grego com os seus parceiros dos restantes 18 países da Zona Euro, a banca grega pediu mais um reforço do financiamento de emergência ELA.

Com a manutenção do ELA em 89 mil milhões de euros, o colapso das negociações no sábado e a corrida às caixas multibanco do fim-de-semana, a banca grega estava na iminência de falir. Nada mais restava ao primeiro-ministro grego e ao seu ministro das Finanças senão imporem o encerramento dos bancos e o controlo de capitais.

A questão é que nem Tsipras, nem Varoufakis, nem ninguém no governo grego se lembrou das dezenas de milhar de pensionistas que não dispõem de cartão de débito bancário e que iam ficar mais de uma semana, em desespero, sem dinheiro para comer.

Este infeliz incidente revela a inexperiência dos actuais governantes gregos e a irresponsabilidade com que tomam decisões, sem acautelar as consequências sobre os gregos mais desprotegidos que, ideologicamente, dizem defender. Mas pode abrir os olhos aos eleitores gregos que confiaram o seu voto a Tsipras e que, depois deste episódio dramático, irão reflectir e eventualmente votar "Ναί" ("Sim", em grego) no referendo de 5 de Julho.



Actualização em 1 de Julho

Cerca de um terço das sucursais dos bancos gregos abriram hoje mas apenas para o pagamento de pensões. Os pensionistas sem cartões multibanco podem levantar até 120 euros por semana.

Cerca de um terço das sucursais dos bancos gregos, ou seja, aproximadamente mil balcões abriram esta quarta-feira, 1 de Julho, para permitir que os pensionistas sem cartão multibanco fizessem levantamentos de dinheiro. Mas só podem descontar até 120 euros, por semana, dos cheques das pensões, muito menos do que os outros clientes dos bancos.

Contudo, estarem a ver, desde sábado, as pessoas a formarem longas filas diante das caixas multibanco para levantarem dinheiro e ficarem impedidos de aceder às pensões, durante dois dias, deixou marcas nos pensionistas e houve tensão à porta dos bancos gregos:






domingo, 28 de junho de 2015

A Grécia à beira da bancarrota - III f. O encerramento dos bancos


Após a decisão do Banco Central Europeu de não reforçar os valores da linha de financiamento de emergência (ELA) para a banca grega, o governo de Alexis Tsipras decretou o encerramentos dos bancos e o controlo de capitais.

Em declaração televisiva feita ao povo grego este domingo, por volta das 19:00 em Lisboa, o primeiro-ministro da Grécia anunciou o encerramento dos bancos gregos e impôs o controlo de capitais.
Tsipras disse ter aceite uma recomendação do banco central grego ao seu Governo depois do bloqueio das negociações no sábado.
E fez questão de avisar os gregos para permanecerem "calmos", assegurando que os "depósitos estão salvaguardados" e o pagamento de salários e pensões não está em perigo.

Entretanto a comunicação social revelou que o Ministério das Finanças anunciou que os bancos vão permanecer fechados até 7 de Julho e o controlo de capitais imposto limita a 60 euros o montante máximo de levantamentos por dia.

Recordemos que, durante a crise do sistema financeiro cipriota em 2013, foram impostas medidas de controlo de capitais que apenas impediam o levantamento de quantias superiores a 300 euros diários e proibiam as transferências de dinheiro, ou a posse em saída para o estrangeiro, de quantias superiores a 3 mil euros.


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A resposta dos gregos foi uma corrida aos levantamentos de dinheiro, formando-se longas filas defronte das caixas multibanco, com muito mais gente do que no sábado, quando foi divulgado o bloqueio das negociações dentro do Eurogrupo.








Os comentários dos outros:

Grexit
28 Junho 2015 - 21:24
O Tsipras é o maior, limita o levantamento a 60 euros diários. Ora toma e embrulha povo Grego! Começou a austeridade à Syriza!

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28 Junho 2015 - 22:06
A Catarina e o Louçã emudeceram? Não falam da reestruturação da dívida?
E o Costa já não aplaude o Syriza? Esse oportunista e traidor vai ficar mais 4 anos na oposição. Quem se está a mijar de tanto rir é o Seguro!

Paulo Paiva Santos @ Facebook
28 Junho 2015 - 22:45
Tsipras toma uma das primeiras medidas de austeridade, levantamento de Eur. 60,00 diários e Banca encerrada até próximo dia 7 Julho.
Faz-me lembrar de experiências vividas pós-25 de Abril, em que o Governo Socialista de Mário Soares impôs, como forma de controle de capitais (evasão de capitais) que os portugueses que se deslocassem ao estrangeiro não podiam gastar mais que Escudos 12.500 por ano, com registo e averbamento no passaporte.
Inédito não é, original, verdade! Pois é, assim foi na altura. É o mesmo que dizer que durante esse período os portugueses tinham um passaporte, mas poucas ou nenhumas condições para viajar.
Quanto a Mário Soares... "Oh Sr. Polícia deixe-nos em paz", óbvio, as medidas que tomava, eram destinadas aos outros, a Ele nunca lhe tocaram à porta. Os Traidores gozam de certas regalias...

PF
28 Junho 2015 - 22:49
Parabéns Tsipras. Acabou de condenar toda a esquerda radical da Europa.

Miguel Bél @ Facebook
28 Junho 2015 - 23:40
Não era melhor fazerem um referendo para ver se o povo aceita que se encerrem os bancos, tal como querem fazer para não pagar os calotes?


A Grécia à beira da bancarrota - III e. O esclarecimento de Lagarde


A directora-geral do FMI, Christine Lagarde, afirmou que o referendo na Grécia deixa de fazer sentido com o fim do resgate na terça-feira.

"Não posso falar pelo programa do FMI, porque o programa do FMI continua válido, mas o resgate financeiro europeu expira a 30 de Junho. Portanto, pelo menos do ponto de vista legal, o referendo terá a ver com propostas e acordos que já não são válidos. É uma questão legal", afirmou Lagarde hoje, em entrevista à BBC.

Christine Lagarde acrescentou que a Grécia deixará de ter acesso a qualquer financiamento dos países que constituem o FMI, se não reembolsar os 1,6 mil milhões de euros com vencimento em 30 de Junho até às 18:00 em Washington (23:00 em Lisboa), tendo explicado o motivo:
"É dinheiro que é devido à comunidade internacional, incluindo povos que têm um nível de vida inferior ao dos gregos, e espero que esse pagamento seja feito na terça-feira até às 18:00 (tempo de Washington). Se não for pago, isso significa que a Grécia continua a ser um membro do FMI, a ser representada na administração, a beneficiar de assistência técnica mas não posso continuar a emprestar mais dinheiro em benefício da Grécia."


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Alexis Tsipras chegou ao poder num País com uma enorme dívida mas com superavit primário, ou seja, as receitas já cobriam as despesas do Estado sem contabilizar os juros. Portanto se os credores perdessem o dinheiro emprestado, os gregos podiam criar nova dívida e regressar ao nível de vida que usufruíam antes do resgate e o Syriza eternizar-se-ia no poder.

Era uma táctica inteligente mas prejudicava gravemente as populações dos países pertencentes ao FMI que contribuíram com verbas para emprestar aos países europeus então sob resgate — Grécia, Irlanda e Portugal. O FMI, como lhe competia, defendeu os interesses dos credores, de modo que a artimanha grega não vai funcionar.

Em Fevereiro, o Governo liderado por Tsipras recebeu um prolongamento por quatro meses do programa de resgate, a terminar no último dia de Junho. Dia em que, recentemente, pediu para juntar os pagamentos ao FMI devidos em diferentes dias desse mês. Teve tempo de sobra para preparar o referendo onde seria perguntado aos gregos se aceitavam a última proposta do Eurogrupo. Esse referendo deveria estar a decorrer hoje. Mas não está.

Na verdade, Tsipras pretende conduzir a Grécia para fora do Euro mas, como a economia grega vive, em larga medida, dos turistas oriundos dos países da Zona Euro, precisava de tempo para conseguir que os gregos aceitem a ideia.
Um referendo sobre uma proposta dos credores que expira em 30 de Junho e, por isso, sem valor legal em 5 de Julho, permitir-lhe-ia esticar o prazo, além de lavar as mãos como Pôncio Pilatos. A maior parte dos eleitores gregos nem vai perceber que se está a pronunciar sobre uma proposta de acordo que já não existe.

É a grande vantagem da democracia: o povo fica com a responsabilidade, embora muitas vezes nem tenha a noção das consequências da escolha que faz com o seu voto, e os políticos livres como passarinhos.
Lembremos as palavras do filósofo francês Jean-Jacques Rousseau, no Contrato Social, sobre esta forma de governo: "Se houvesse um povo de deuses, esse povo se governaria democraticamente. Um governo tão aperfeiçoado não convém aos humanos."
Temos de procurar informação em fontes fidedignas antes de tomarmos decisões para não nos deixarmos manipular por políticos interessados unicamente em usufruir as regalias inerentes ao exercício do poder.

Se, no referendo, os gregos aceitassem o acordo, Tsipras diria que era preciso continuar as negociações porque o acordo já não era válido. Os gregos habituavam-se a não cumprir os prazos de pagamento dos empréstimos e os outros países adaptavam-se aos calotes gregos. Era uma ideia fantástica: com o decorrer do tempo adquiriam o direito de não pagar. Jogaram e perderam. É a vida.

Outras reacções à notícia no Negócios:

a
10:24
A união europeia com isto mostra que lhe falta muito para ser democrata. Só lhes ficava bem dar mais 5 dias pois assim estão a mostrar que isto não é uma negociação mas sim um ultimato encoberto.

Anónimo
11:02
Um referendo de boa fé, devia ter programado para hoje e não dia 5 de Julho. É mais uma manobra!

Anónimo
11:18
O Programa da UE terminava em Fevereiro, foi prolongado até 30 de Junho, exactamente para "dar tempo" aos Gregos e agora este "salto-mortal"? A esquerdalhada funciona assim, viram o texto-ao-contrário e andam permanentemnete em "manobras de esquivar-se" e no fim atacam pelas costas!

litos335
13:34
Com a recusa em aceitar condições, com o fim do actual resgate em 30 deste mês, com a falta de pagamento em Julho ao BCE e entrada em default, resta à Grécia começar desde já a imprimir novos Dracmas para poder pagar vencimentos e pensões.
Ninguém corre com a Grécia. A Grécia sai pelo seu pé, porque não tem condições de permanência e os 18 não estão dispostos a continuar a engordar a Dívida Grega sem esperança de voltar a ver os euros emprestados.