Mostrar mensagens com a etiqueta crise da zona euro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta crise da zona euro. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 19 de julho de 2011

PIMCO aconselha a insolvência de Portugal, Irlanda e Grécia


"A solução da crise na zona euro exige um pacote com quatro elementos", defendeu Neel Kashkari, em entrevista à CNBC.
"Primeiro, é preciso permitir a insolvência dos países periféricos, Grécia, Irlanda e Portugal.
Segundo, permitir esta insolvência evitando o contágio aos outros países da zona euro.
Terceiro, é preciso criar um plano que teria de ser agradável para os contribuintes alemães.
Quarto, é preciso um elemento de choque e temor com uma força esmagadora para deixar os mercados saberem que, de uma vez por todas, se vai apagar o fogo
[na Europa].
Deixe-me dar um exemplo. Imagine se a Alemanha, França, o BCE e o FMI viessem anunciar um novo e grande pacote de socorro, 1 bilião de euros ou mais, e declararem que está disponível para todos os países da zona euro, excepto a Grécia, Irlanda e Portugal.
Estariam a colocar todo o capital na criação de uma porta corta-fogo para proteger a Espanha e Itália, embora permitindo que os outros três países passassem por uma reestruturação. É muito mais fácil pedir aos contribuintes alemães para criar uma porta corta-fogo do que pedir aos contribuintes alemães para continuarem a financiar a Grécia. Embora seja muito simples descrever o conceito, é muito difícil de coordenar politicamente.
"


Kashkari comparou um plano europeu de "choque e pavor" com o que aconteceu nos EUA durante a crise financeira de 2008, "quando fomos de ajuda em ajuda" antes que o Programa de Alívio de Activos Problemáticos (PAAP) do Departamento do Tesouro fosse finalmente promulgado "para traçar a linha na areia e dizer ao mercado que não se vai mais longe. "

Quanto às negociações da dívida dos EUA, sem plano de compromisso à vista e com um prazo final de 2 de Agosto a aproximar-se, Kashkari destacou que o Dow Jones Industrial Average caiu 777 pontos quando o Congresso rejeitou o PAAP a primeira vez.
"Então [o Congresso] teve a coragem política e a cobertura política para conceder esses votos impopulares. Espero que não se chegue a tanto desta vez."


Neel Kashkari esteve no Departamento do Tesouro entre 2006 e 2009 e actualmente é o director executivo da PIMCO, a maior gestora mundial de fundos de investimento em obrigações.
Podemos começar a tremer.


quarta-feira, 6 de julho de 2011

"Um New Deal para a Europa"


Embora no futuro possam ser pertinentes as razões apresentadas pela Moody's para baixar a notação de Portugal, uma queda de quatro níveis propositadamente para dar uma notação de "lixo" e a sua divulgação no momento em que um novo governo inicia funções mostra, claramente, que o objectivo é contrariar o esforço orçamental que o País está a fazer para cumprir a meta de défice orçamental, piorar a crise da Zona Euro e levar à destruição do euro.
Portanto torna-se imperioso reconhecer que existe uma guerra do dólar contra o euro e divulgar propostas para defender a Europa das agências de rating americanas, como esta de Stuart Holland e Yanis Varoufakis, dois economistas um britânico e outro grego:


"Um New Deal para a Europa

A Europa tem vindo a perder uma guerra travada entre governos eleitos e agências de notação não eleitas. Os governos têm tentado governar, mas as agências de notação dominam. Sabem-no os eleitores e alguns estados-membros, cientes disto, opõem-se a transferências financeiras para outros.

Contudo, alguns, nomeadamente a Alemanha, ganharam com um Euro que está menos valorizado e mais competitivo do que estaria se a Zona Euro fosse constituída por menos países. Situações de incumprimento por parte dos países mais expostos à dívida atingiriam bancos e fundos de pensões do centro da Europa da mesma maneira que os da periferia. Ninguém está imune.

Assim, a resposta não é menos, mas mais Europa. Jean-Claude Juncker e Giulio Tremonti argumentaram que a conversão de uma parte das dívidas públicas nacionais em obrigações europeias (Euro bonds) estabilizaria a actual crise. Estamos de acordo.

Uma decisão sobre esta matéria não precisa de ser unânime. Pode resultar de uma cooperação reforçada, como foi o caso da criação do Euro. Os Estados que quisessem manter as suas próprias obrigações, como é provável que seja o caso da Alemanha, podiam continuar a fazê-lo.


Estamos também de acordo com a posição de Juncker e Tremonti sobre a possibilidade de transaccionar globalmente as emissões de Eurobonds, atraindo deste modo excedentes originários de fundos soberanos e de economias emergentes cujos governos tenham apelado para um sistema monetário internacional mais pluralista. Mais do que transferências financeiras no seu interior seriam afluxos financeiros destinados à União Europeia.

Mas também alvitramos que a conversão de uma parte das dívidas nacionais para a União Europeia não tem de ser transaccionada. Podia ser detida pela própria União. Não transaccionada, estaria protegida das agências de notação. As respectivas taxas de juro poderiam ser decididas de modo sustentável pelos ministros das Finanças do Eurogrupo. Estaria immune à especulação. Seriam os governos e não as agências de notação quem governaria.

Também sugerimos que há lições do New Deal dos EUA da década de 1930 que inspiraram a proposta de Jacques Delors de 1993 sobre a necessidade de sustentar uma moeda comum com obrigaçoes europeias comuns.

A administração Roosevelt não precisava que as obrigações norte-americanas fossem financiadas ou garantidas por estados da União, como a Califórnia ou o Delaware, nem lhes solicitava transferências, nem lhes “comprava” dívida. Do mesmo modo, a Europa, não teria de recorrer a tais medidas agora, se emitisse obrigações próprias.

As obrigações norte-americanas são financiadas pela política orçamental comum. A Europa, contudo, não tem uma política orçamental comum. Mas os estados-membros que tivessem convertido parte da sua dívida em Eurobonds poderiam pagar o serviço desta dívida através de receitas fiscais próprias, sem terem de recorrer a transferências financeiras de outros estados.

Não ter ainda recorrido à emissão de obrigações europeias dá à Europa uma vantagem que tem sido descurada. Ou muitas, para a maioria dos estados-membros que estão altamente endividados após o resgate dos bancos. Mas a União propriamente dita não tem praticamente nenhuma. Mesmo com a “compra” de dívidas nacionais a partir de Maio do ano passado, a dívida própria está abaixo de 1% do seu PIB.

Portanto, menos de um décimo do nível a que os EUA recorreram para emitir as obrigações que financiaram o New Deal, cujo êxito gerou a confiança para financiar o Plano Marshall, que recuperou a Europa da Segunda Guerra Mundial e do qual a Alemanha foi um dos maiores beneficiários.

Tampouco a existência de Eurobonds implicaria a criação de uma nova instituição. Obrigações não vulneráveis poderiam ser detidas pelo Fundo Europeu de Estabilização Financeira (European Financial Stability Facility). A emissão de obrigações para favorecer o crescimento tanto poderia ser feita pelo FEEF como pelo BEI. O serviço destas obrigações poderia ser custeado por rendimentos de projectos co-financiados como é o caso das obrigações do BEI.

O BCE é o guardião da estabilidade dos preços, mas o Grupo do BEI pode salvaguardar o crescimento. O BEI já financia projectos num montante duplo do do Banco Mundial. Ao longo de cinquenta anos tem emitido as suas próprias obrigações sem garantias financeiras ou transferências financeiras. Nenhum dos estados-membros mais significativos da Zona Euro contabiliza esses empréstimos como dívida nacional.

A emissão de obrigações não significa “imprimir” dinheiro. Não é financiada por défices. A emissão de obrigações pela União significaria um afluxo de fundos para uma recuperação em vez de austeridade na Europa. É urgente que o Ecofin e o Conselho Europeu o reconheçam, tanto para salvaguardar a Zona Euro como para obter agora coesão económica e social através de um New Deal para a Europa."


quarta-feira, 29 de junho de 2011

O dia em que a Grécia adiou a bancarrota


Pedro Guerreiro, director do Negócios, analisa neste vídeo, com transparência, a aprovação do programa de austeridade na Grécia, a crise da zona euro, a questão das PPP's portuguesas e outros temas.

A situação portuguesa, embora menos grave que a grega, tem uma "manada" de elefantes brancos por acomodar — as Parcerias Público-Privadas.
São contratos em que empresas privadas realizam obras públicas (auto-estradas, hospitais), os bancos financiam e o Estado se compromete a pagar elevadas rendas aos privados e a responsabilizar-se por todos os riscos de financiamento e de operação.
Estamos a falar de valores que ascendem a 60 mil milhões de euros e acrescem à dívida pública actual.

Para quando o julgamento dos políticos que, por negligência ou cupidez, em benefício próprio ou dos seus partidos, negociaram contratos ruinosos para o Estado?





terça-feira, 14 de junho de 2011

A zona euro avança para a ruptura


Os artigos de Nouriel Roubini merecem reflexão.

Primeiro, porque o autor doutorou-se em Economia Internacional na Harvard University, trabalhou no FMI, na Reserva Federal e no Banco Mundial, sendo actualmente professor de Economia na Stern School of Business, New York University, e presidente executivo da Roubini Global Economics, uma empresa de consultoria económica.

Em segundo lugar porque, em 2005, Roubini avisou que os preços dos imóveis estavam a atravessar uma onda especulativa que em breve afundaria a economia e foi alcunhado de Cassandra. Em Setembro de 2006, alertou um céptico FMI de que "provavelmente os Estados Unidos enfrentariam uma crise imobiliária gravíssima, um choque petrolífero, um declínio acentuado da confiança dos consumidores e, por fim, uma profunda recessão."
Até Paul Krugman, prémio Nobel da Economia, já admitiu que as suas previsões "aparentemente bizarras" foram verificadas "ou mesmo ultrapassadas pela realidade."

Vejamos, então, o que nos diz Nouriel Roubini no artigo 'The eurozone heads for break up' ontem publicado no Finantial Times:

"13 de Junho de 2011

A abordagem da crise da zona euro, pela via da confusão, não foi capaz de resolver os problemas fundamentais da divergência económica e competitiva na União Europeia. Se isto continuar, o euro vai avançar caoticamente para reestruturações da dívida e, eventualmente, para uma ruptura da própria união monetária, enquanto alguns dos membros mais fracos vão falindo.

A União Económica e Monetária nunca satisfez plenamente as condições de uma óptima zona monetária. Em vez disso, os seus dirigentes esperavam que a ausência de políticas monetárias, orçamentais e cambiais, auspiciaria uma aceleração das reformas estruturais. Estas, esperava-se, auspiciariam a convergência das taxas de produtividade e crescimento.

A realidade acabou por ser diferente. Paradoxalmente, o efeito prestígio da convergência precoce das taxas de juro permitiram uma maior divergência das políticas orçamentais. Uma temerária falta de disciplina em países como a Grécia e Portugal foi apenas acompanhada pelo acumular de bolhas de activos em outros, como a Espanha e Irlanda. As reformas estruturais foram atrasadas, enquanto o crescimento dos salários divergiu em relação ao crescimento da produtividade. O resultado foi uma perda de competitividade na periferia.

Todas as uniões monetárias bem sucedidas encontram-se associadas a uma união política e orçamental. Mas os movimentos europeus para a união política estão paralisados, enquanto os movimentos para a união orçamental exigiriam significativos recursos federais e, também, a emissão generalizada de obrigações em euros — onde os impostos dos contribuintes alemães (e outros nucleares) não apoiam apenas a dívida dos seus países, mas também a dívida dos membros da periferia. É improvável que os contribuintes nucleares o aceitem.

A redução ou o "reescalonamento" da dívida da zona euro vai ajudar a resolver o problema do endividamento excessivo de algumas economias insolventes. Mas nada fará para restaurar a convergência económica, que exige a restauração da convergência da competitividade. Sem isso, a periferia vai simplesmente estagnar.

No ponto onde estamos, as opções são limitadas. O euro pode cair drasticamente, em valor, até — digamos — à paridade com o dólar dos EUA, para restaurar a competitividade da periferia; mas uma queda acentuada do euro é pouco provável dada a força do comércio da Alemanha e as políticas de linha dura do Banco Central Europeu.

O método alemão — reformas para aumentar o crescimento da produtividade e manter uma tampa sobre o crescimento dos salários — também não vai funcionar. No curto prazo, tais reformas tendem, na verdade, a reduzir o crescimento e demorou mais de uma década para a Alemanha restaurar a sua competitividade, um horizonte muito longínquo para as economias periféricas que precisam de crescer rapidamente.

A deflação é uma terceira opção, mas está também associada com recessão persistente. A Argentina tentou este caminho mas, após três anos de recessão cada vez mais profunda, desistiu e decidiu sair do seu padrão monetário. Mesmo que a deflação fosse alcançada, o efeito do balanço aumentaria o peso real das dívidas públicas e privadas. Toda a conversa do BCE e da União Europeia em torno de uma desvalorização interna é, portanto, imperfeita, enquanto a austeridade orçamental necessária ainda tem – no curto prazo – um efeito negativo sobre o crescimento.

Assim, dado que estas três opções são improváveis, há realmente apenas uma outra maneira de restaurar a competitividade e o crescimento na periferia: abandonar o euro, voltar para a moeda nacional e atingir uma desvalorização maciça nominal e real. Afinal, em todas as crises financeiras dos mercados emergentes que restauraram o crescimento foi necessário e inevitável um movimento para taxas de câmbio flexíveis, em cima de liquidez oficial, austeridade e reformas e, em alguns casos, a reestruturação e redução da dívida.

Claro que, actualmente, a ideia de abandonar o euro é considerada inconcebível, até mesmo em Atenas e Lisboa. Sair imporia grandes perdas comerciais no resto da zona euro, através da depreciação real e perdas de capital do núcleo credor, sensivelmente como fez a "pesificação" da dívida em dólares da Argentina, durante a sua última crise.

No entanto, os cenários que hoje são tratados como inconcebíveis podem não ser tão inverosímeis daqui a cinco anos, especialmente se algumas das economias periféricas estagnarem. A zona euro foi colada pela convergência de um crescimento sustentado por baixas taxas de juro, a esperança de que as reformas pudessem manter a convergência, e a perspectiva de uma eventual união política e orçamental. Mas, agora, a convergência sumiu, as reformas estão paralisadas, enquanto a união política e orçamental é um sonho distante.

A reestruturação da dívida vai acontecer. A questão é quando (mais cedo ou mais tarde) e como (ordenada ou caoticamente). Mas mesmo a redução da dívida não será suficiente para restaurar a competitividade e o crescimento. No entanto, se isto não puder ser alcançado, a opção de sair da união monetária tornar-se-á dominante: os benefícios de ficar serão menores do que os benefícios de sair, por mais irregular ou desordenada que a saída possa acabar por ser.
"


segunda-feira, 9 de maio de 2011

Portugal e a crise da dívida da zona euro


Num artigo no Finantial Times sobre a crise da dívida soberana na zona euro, Wolfgang Münchau alerta para a incompetência governativa de José Sócrates e defende que a única forma de prevenir tais situações e manter a união monetária é avançar para uma união política:

"Na crise da zona euro, a questão essencial não é o tamanho total da dívida soberana dos países periféricos. Porque é pequena relativamente ao produto interno bruto da união monetária. A razão entre a dívida total da zona euro e o PIB é menor do que a do Reino Unido, EUA ou Japão. Do ponto de vista macroeconómico, trata-se de uma tempestade num copo de água.
O problema é que a zona euro é politicamente incapaz de lidar com uma crise que é contagiosa e tem potencial para causar enormes danos colaterais. A "grande pechincha" — uma série de acordos institucionais sobre a dívida soberana da zona euro firmados pelo Conselho Europeu de Março — não resolve a actual crise. O processo de resolução só agora está a começar. Os responsáveis perceberam que, não importa qual a opção que escolherem para gerir a dívida, vai custar centenas de milhares de milhões aos contribuintes. É altamente improvável que os Estados aceitem fazer transferências fiscais de tal valor, sem impor condições extremas sobre um outro.

A razão política pela qual esta crise vai de mal a pior é um problema de actuação colectiva que continua por resolver. Ambos os lados têm falhado. O deputado avarento e economicamente iletrado do Norte da Europa é tão responsável como o primeiro-ministro do Sul da Europa que só se preocupa com o seu quintal. O governo grego comportou-se com relativa correcção, mas a forma como Portugal tem gerido, e continua a gerir, a crise é assustadora.
O primeiro-ministro José Sócrates decidiu adiar até ao último minuto o pedido de ajuda financeira. A sua comunicação, na semana passada, foi um ponto alto do lado tragicómico da crise. Com o país à beira da bancarrota, foi à televisão nacional orgulhar-se de ter garantido um acordo melhor do que a Grécia e a Irlanda. Além disso, garantiu que o acordo não seria muito doloroso. Passados poucos dias, quando se conheceram os pormenores, percebeu-se que nada disso era verdade. O pacote contém severas reduções de despesas, congela os salários da função pública e as pensões, aumenta os impostos e prevê uma recessão profunda nos próximos dois anos.

Não se pode gerir uma união monetária com governantes como o Sr. Sócrates ou com ministros das Finanças que espalham rumores sobre uma cisão.
As elites políticas da Europa têm medo de dizer uma verdade que os historiadores económicos sabem desde sempre: que uma união monetária sem uma união política não é viável. Não é uma crise da dívida. É uma crise política. A zona euro vai confrontar-se, em breve, com a escolha entre um impensável passo em direcção a uma união política ou um igualmente impensável passo a trás. Sabemos que o Sr. Schäuble
[ministro das Finanças alemão] reflectiu sobre esta última hipótese e rejeitou-a. Sabemos também que prefere a primeira. É tempo de o dizer."


domingo, 17 de abril de 2011

"O tesourinho"


"Pedro Santos Guerreiro - psg@negocios.pt


O salário? Corta. A pensão? Reduz. O contrato? Rasga. O emprego? Despede. A dívida? Adia. O certificado? Já não certifica.

Todas as certezas se estão a relativizar. Afinal, até o ferro se liquidifica, é apenas uma questão de temperatura. E o calor está de estoirar termómetros.

A Europa não perdeu a cabeça porque não se pode perder o que já não se tem. E os portugueses já perceberam que, se querem cumprimentar os seus chefes, têm de começar a aprender nomes alemães. É preciso aprender mais este: Wolfgang Schaeuble. É o ministro das Finanças de Angela Merkel e, ontem, quebrou um tabu: admitiu a necessidade de reestruturar a dívida pública da Grécia. E assim incendiou os mercados.

Reestruturar a dívida é uma maneira educada de dizer que não se consegue pagá-la. Primeiro aumenta-se o prazo de pagamento (tal como muitos portugueses fizeram com o seu crédito à habitação). Depois... bom, depois há várias formas de fazer perdões de dívidas. Eis o tabu para a Grécia, para a Irlanda... e para Portugal: conseguiremos algum dia pagar o que devemos?

O que Schaeuble disse ontem não era impensável, era apenas indizível. As opiniões públicas europeias (como a alemã ou a finlandesa) não estão disponíveis para "hair cuts" (que na prática significam perdões de dívida) ou de empréstimos que subsidiam, pela baixa taxa de juro ou pelo elevado prazo, os países falhados. Mas esse é um cenário que temos pela frente.

Mesmo vendendo "tudo" o que temos, através de privatizações, e reduzindo drasticamente o consumo e o crédito da banca, precisamos de tempo para reduzir o volume de endividamento. Mesmo o empréstimo da missão externa é, ainda assim, um empréstimo. É preciso pagá-lo.

A necessidade eventual de rever as condições de resgate de certificados de Aforro e de Tesouro é, apenas, mais uma das medidas de excepção. O dramatismo actual leva a que tudo o que dávamos por adquirido seja posto em causa. Começou pelos salários no Estado, já se agendaram as pensões mas não se vai ficar apenas pelos que não têm poder de contestar.

Aprendemos no último ano que a austeridade também tem uma cadeia alimentar: primeiro mastigam-se os mais fracos e apenas se rosna aos mais fortes. Os funcionários públicos, os trabalhadores por conta de outrem e os consumidores foram já a carne para canhão. Mas é preciso ir ao osso também dos lobbies e dos grupos de interesse.

Anulou-se meio TGV? A Mota-Engil processa. Anula-se o outro meio? Processa a Soares da Costa. Estão cobertas de razão. Mas os advogados mandam menos que os políticos. E os políticos têm de rever estes contratos com a mesma crueldade com que reviram os dos funcionários do Estado para lhes cortar salários.

O Estado deixa de ser paternalista mas continuará a agir como pai: um pai tirano. Com a mesma necessidade com que pedem ajuda para pagar as dívidas. Ou com a mesma urgência com que vão ter de rever as parcerias público-privadas. Rendibilidades de 12%?! Baixa para metade. Se não gostam, processem.

Os funcionários públicos, os pensionistas e os contribuintes não podem ser os únicos a pagar as facturas. É preciso entrar nos lobbies, económicos e políticos. Nas PPP. Nas empresas do Estado, nos institutos, nas fundações, nas empresas com monopólios protegidos. Sim, vamos chegar aos poisos de "boys" e aos financiadores dos partidos. Afinal, o FMI não é um saco de dinheiro nem um saco de pancada. Também está cá para isto."






Eis um artigo de opinião do Negócios que deu origem a um fórum espontâneo merecedor de registo, para o qual juntámos mais uma excelente infografia deste jornal sobre as vantagens e desvantagens da saída do país da Zona Euro:


PR1967 16 Abril 2011 - 12:58
A verdade que custa
Nos últimos anos os EUA e a UE, de um modo geral, e Portugal, em particular, têm vivido de forma absolutamente irreal:
  • não produzindo: as fábricas fecham, a agricultura é abandonada, as pescas idem,...
  • consumindo de forma crescente e absolutamente desnecessária
  • criando empregos em áreas sociais
  • construindo imóveis para ficarem desabitados
  • mudando de casa como quem muda de camisa
  • reduzindo horários de trabalho e "inovando nas reivindicações"
  • colocando nos governos pessoas absolutamente incompetentes
    enfim, fugindo à realidade.
E o resultado é a falência total deste modelo de "desenvolvimento". Em 15 anos, Portugal
  • desbaratou vários pacotes de incentivos comunitários
  • destruiu o aparelho produtivo (com o apoio da grande distribuição, i.e., SONAE, J. Martins, ...)
  • tem um sistema de justiça em que ninguém acredita
  • tem um sistema de ensino que atribui graus por simples presença (Como é possível que alguém, que não sabe ler e escrever, conclua o 9º ano?)
  • tem um sistema de saúde que serve essencialmente os profissionais de saúde.
Numa palavra, estamos falidos e hipotecados aos mais diferentes níveis.

Mas para este estado de (des)graça muito contribuíram:
  • os políticos do governo central, em primeiro lugar, porque deveriam dar o exemplo e, na maioria das vezes, o exemplo foi despesismo, corrupção, fraude e incompetência
  • os políticos das autarquias que, por absoluta falta de bom senso, acharam que uma cidade, vila ou região se desenvolve com grandes superfícies e amontoados de betão
  • o sector da justiça que tem feito figuras absolutamente miseráveis
  • a banca que tresloucadamente incentivou ao endividamento
  • os cidadãos que trabalham e pagam os seus impostos que continuam a aceitar este estado de coisas.

E agora:
  • diz-se mal do FMI e da Europa por estarem dispostos a nos emprestar dinheiro, mas também se diz mal se eventualmente não estiverem
  • esgotam-se os mais apetecidos destinos de férias (vamos aproveitar enquanto é tempo...)
  • temos os políticos, de manhã à noite, na TV, a dizerem-nos que as mentiras que nos disseram ontem foi para o nosso bem
  • temos uma rede de centros comerciais lindíssima (se não fosse o Belmiro a criar emprego "rasca" e a fechar mais umas lojas e fábricas, ninguém sobrevivia...)
  • temos passeios aos domingos nos hipermercados, com toda a família
  • temos muitas casas
  • não temos maternidades, mas temos "abortonidades"
  • temos a associação na hora (Tínhamos poucas, “né”?)
  • temos um aeroporto em Beja. (Viva!)
  • vamos ter um bocadinho de TGV (e muitos, muitos estudos)
  • temos o centro das cidades livre para os ratos nidificarem
  • consumimos quase tudo de fora (Somos mais "in"!)
  • temos licenciados em Matemática que mal sabem a tabuada e em Português que não sabem o presente do indicativo do verbo ser
  • já não temos temas fracturantes para iludir o "Zé Povinho"
  • temos uma economia social fortíssima (mas idosos a morrer como moscas e a serem encontrados 9 anos depois!)
  • temos cada vez mais telemóveis
Que bom!


Olisipone 16 Abril 2011 - 13:09
Oportunidade única
A verdadeira crise não é económica nem financeira: é contabilística e política. Reparem:
A UE, ou pelo menos a Zona Euro, não está insolvente. O Euro flutua nos mercados, devido a factores psicológicos, não económicos. A UE no seu todo continua a ser o maior Exportador mundial, acima da China. É também o maior Importador e tem o maior PIB do Mundo (dados do FMI).
O que se passa é que há diferenças muito grandes no seio da UE. Penso, e não sou o único, que o erro foi pensar que o Mercado Único ia trazer um desenvolvimento mais ou menos uniforme através da dissolução das fronteiras internas da UE. Na realidade, pondo em concorrência directa países fortes e fracos, 20 anos de experiência demonstraram que os mais fortes, ficaram mais fortes, e os mais fracos, mais fracos!

Mas, a questão de fundo é a seguinte: se todos devem uns aos outros, ou mesmo uns mais que outros, dentro do mesmo universo económico, na realidade a riqueza dos 16, ou mesmo dos 27, mantém-se a mesma. O problema é a forma como está distribuída e os direitos que foram sendo adquiridos sobre os excedentes e as dívidas.

Comunismo? Não! A UE estava disposta a partilhar os lucros, mas não as perdas! Isto é absurdo.

A solução está na UE assumir em conjunto as dívidas, emitindo, se necessário, títulos de dívida conjunta. Em funcionar, na realidade, como um só País com regiões mais rentáveis do que outras. Para isso seria necessário, obviamente, ter uma fiscalidade e uma economia únicas e acabar com as soberanias.

Porém, se verificarmos que ninguém está disposto a abdicar dos juros, ou a emprestar mais dinheiro, ou mesmo a anular as dívidas internas no seio da UE através de uma solução contabilística, nesse caso, o que temos é uma crise política no seio da UE que põe em causa a sua própria sobrevivência.

E nesse caso, qual é o nosso papel? Não vejo vantagem absolutamente nenhuma em continuarmos reféns de uma moeda que não controlamos, metidos num universo sem fronteiras onde não temos competitividade e a pagar dívidas em que incorremos, largamente, pelas condições que nos foram impostas.

Devíamos, pois, aproveitar a oportunidade única que temos até Maio e declarar-nos insolventes. Sair do euro e negociar apenas com o FMI! Aliás, decorre neste momento uma luta entre a UE, que nos quer penalizar, e o FMI, que nos quer dar uma taxa de juro mais baixa.

Esta é a última oportunidade que temos de nos vermos livres de uma UE que nos estrangula e nos arrasta para o abismo!


PR1967 16 Abril 2011 - 15:25
Comentário a olisipone "Oportunidade única"

Caro amigo(a) "Olisipone" do fórum,

Peço desculpa por discordar do seu comentário, pois no meu entender a realidade é diferente daquela que apresenta.

A Europa não é o bloco mais importante do mundo e está a perder competitividade para as novas potências (China, Índia, Brasil, ...) sendo, politicamente, um saco de gatos...
A Europa tem, aliás, meia dúzia de países, com a Alemanha à cabeça, que ainda têm um aparelho produtivo dinâmico e competitivo, mas aos quais estão ancorados países — entre os quais Portugal — sem uma estratégia, sem rumo e, pior que tudo, sem valores. Mas todos os europeus acham que devem ter os mesmos direitos embora o menor número de deveres possível.
A realidade é que, na Europa, os povos que menos produzem e mais gastam devem aos países que mais produzem (ex: Portugal deve à Alemanha) e no mundo acontece a mesma coisa (ex: os EUA devem à China).
Por isso aquilo que irá acontecer, quer nós queiramos quer não, é que, não por vontade própria e inteligência mas por não ser possível contornar a realidade eternamente (embora isso parecesse possível nos últimos anos), vamos ser obrigados a mudar de vida, gastando, não mais (como até agora), mas menos do que aquilo que ganhamos (pois teremos que pagar dívidas).
O que eu quero dizer é que, por mais conversa "mole" que tenhamos para ludibriar a realidade e culpas que possamos atribuir aos outros — mercados, FMI, UE, Globalização —, ninguém vai trabalhar e criar riqueza por nós e isso é o que todos devíamos assumir.
O único grande problema é que aqueles que nos transportaram para o abismo (políticos principalmente) e os que usufruíram deste regabofe (sector empresarial do estado, alguns funcionários públicos, responsáveis por fundações e institutos que para nada servem, grande distribuição, alguma banca, corruptos de quaisquer sectores, boys dos partidos, filhos e enteados de gestores de sei lá o quê e, também, pessoas que se endividaram para passar férias, ter iates, mudar de carro anualmente, ...) não sejam os únicos a pagar, pois se assim fosse a única coisa que existia era justiça.
P.S.: Em todas as classes existem pessoas competentes e incompetentes, contudo há sectores onde o desperdício é clamoroso.


Olisipone 17 Abril 2011 - 08:51
Resposta A PR1967
Uma coisa que nunca deixará de me espantar, é a capacidade dos portugueses para transformarem os seus desejos em realidades.

Uma coisa é uma hipótese como a que eu apresento e que me parece correcta. Pode, evidentemente, ser debatida. Foi para isso que a publiquei.
Outra coisa é negar as bases de um raciocínio em vez de debater o conteúdo.

"No seu entender" a realidade é diferente. Pois olhe, "no entender" do FMI, nas últimas projecções até 2016, o PIB nominal estimado da UE este ano será de 17,452.406 biliões de dólares, o da China 6,515.861 e o do Brasil 2,421.637. Em 2016, de acordo com o mesmo documento, estes números serão 20,791.880, 11,220.173 e 3,302.858, respectivamente.


JMGPI 18 Abril 2011 - 09:47
Olisipone - Portugal sair do Euro?
Portugal sair do Euro?
Certamente terá vantagens e desvantagens, como tudo na vida...

Eu não sou economista, mas interesso-me por estes assuntos e tento, na medida do possível, manter-me informado.
Se Portugal saísse da zona Euro, não iríamos ficar com uma moeda fraquíssima, desvalorizada e, mais preocupante que isso, extremamente volátil, desprotegida e que levaria muito, muito tempo até voltarmos a ter (se é que alguma vez tivemos) poder de compra no estrangeiro?


PR1967 18 Abril 2011 - 10:26
Sobre a última oportunidade (novamente)
Caro(a) Olisipone,

A sua visão para a discussão é, de facto, válida embora me pareça em alguns aspectos (saída da UE) algo radical.
As estatísticas que refere evidenciam a tendência que eu refiro, i.e., a perda da Europa e dos EUA, face aos países emergentes.
Agora o que seria importante em reflectir, também, era sobre o endividamento dos países e, se quiser verificar essas estatísticas, constatará que são assustadoras.
Mas há mais índices sobre os quais a nossa sociedade está em perda:
  • envelhecimento da população
  • qualificação da sociedade (Imagina quantos engenheiros são formados anualmente na China ou na Índia? Em contrapartida, Portugal forma advogados, sociólogos, psicólogos, comunicólogos, especialistas em acção social, ...)
  • qualidade do ensino (preocupante, excepto nas línguas e informática em que evoluímos imenso)
  • justiça (a falta de um sistema credível é, de facto, penoso)
  • valores (vivemos numa sociedade em que, para uma grande parte das pessoas, os valores são os do consumo)
E é por isso que, no meu entender, nós temos que encarar a realidade! Sendo certo que ainda temos uma qualidade de vida muitíssimo superior aos chineses, indianos, ... Mas os gregos na antiguidade também tiveram um grande império!

P.S.: Não se deduza do que escrevo que as profissões da área social não são úteis, simplesmente não são o motor da criação de riqueza, mas sim da distribuição da riqueza já gerada.


Olisipone 18 Abril 2011 - 11:56
Mais uma achega...
Na minha opinião, que sou historiador e não economista, parece-me que:
a) era melhor assumir o default agora, e não depois de assinado o pacto com a Tróica e
b) anteciparmo-nos, trar-nos-ia muito maior credibilidade

Claro que estamos em recessão. Mas seja de que modo for, Portugal encontrou-se com o seu destino e tem mesmo de reinventar a sua economia.

Não podemos continuar a ter um desequilíbrio de -35,7% na Balança Comercial (ou seja, a importar mais 20 mil milhões do que exportamos), importando 6950 milhões de bebidas e refrigerantes, quando importámos 8027 milhões de lubrificantes e combustíveis em 2010, por exemplo!

É preciso um controlo das fronteiras e produzir essencialmente para o mercado nacional e para exportação, em vez de importarmos 80% do que comemos, e de termos à venda por todo o lado produtos importados que só cá deixam as margens de lucro dos comerciantes e eventualmente o IVA, se for declarado...

Em política, (quase) tudo é possível. E a melhor estratégia é sempre surpreender o adversário.

Se Portugal optasse por tomar a dianteira neste processo, com uma moeda desvalorizada, o investimento estrangeiro iria vir de todo o lado. Sobretudo se soubéssemos gerir as nossas parcerias, não de acordo com os interesses da UE, mas com os nossos! Vocês dão-se conta de que o comércio com a UE nos é extremamente deficitário? Dos 56 mil milhões importados em 2010, 43 mil vieram da UE! E só exportámos para a UE 27 mil milhões, dos 36 mil que exportámos.

Claro que não podemos deixar de exportar para a UE. Mas devemos fazê-lo como todos os outros países de fora da UE e não numa situação de dependência como aquela em que nos encontramos.

E quanto à "honorabilidade" do nosso default, pergunto-vos: Qual é a moral de uma UE que se serve de nós para escoar os seus produtos há 25 anos, que compra os nossos ainda assim bastante baratos e nos vai emprestar dinheiro a um juro mais alto, e a um prazo mais curto, do que o FMI?


(actualizado)