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domingo, 18 de janeiro de 2015

Em defesa da liberdade de expressão - II


O massacre no semanário Charlie Hebdo está a estimular a criação de artigos de fino recorte humorístico.
Não consegui resistir à tentação de transcrever esta sátira contundente ao português meias-tintas que vive exclusivamente em função dos seus interesses mesquinhos disfarçados de ideologias progressistas, um covarde incapaz de se reger por um sistema de princípios que defenda com clareza e pelos quais se bata mesmo com prejuízo pessoal:


"PERSONAGENS DE FICÇÃO
Pessoa Que Não Sabe Bem Se é Charlie
SOU CHARLIE MAS CALMA AÍ

RUI CARDOSO MARTINS, 18 de Janeiro de 2015

Eu sou pela liberdade de expressão, mas ai ai ai. Eu defendo o direito ao humor iconoclasta, só que atenção. Isto que aconteceu é intolerável mas temos de ver o contexto. É uma tragédia mas estava-se mesmo a ver. Há limites. E andamos a ser manipulados, a mim não tomam por parvo. Uma nova espécie de ser humano acaba de nascer — ou de se revelar — faladoramente confusa. E com várias cabecinhas nos ombros.

A Pessoa Que Não Sabe Bem Se é Charlie nasceu entre 7 e 8 de Janeiro de 2015, pouco depois dos atentados (17 mortos) cometidos por terroristas fundamentalistas islâmicos, de nacionalidade francesa, contra o jornal satírico Charlie Hebdo, em Paris, e o mercado com produtos judeus Cacher. Desconhece-se a identidade dos progenitores, mas suspeita-se de que o pai, ou a mãe, já em 2001 assistira à queda das Torres Gémeas de Nova Iorque num misto de horror genuíno e secreta satisfação, já que a América andava a pedi-las. Foram os EUA que criaram de propósito o terrorismo islâmico (resultado da pobreza e do imperialismo), se não foi mesmo a América que atirou os aviões contra si própria para depois poder atacar à vontade o resto do mundo, há provas disso.

No entanto, o ADN desta nova criatura é tão complexo que a ordem do seu mapa genético deverá levar muitos anos a sequenciar, sem garantia de sucesso. Suspeita-se de que vários genes muito fortes se deslocaram para as extremidades esquerda e direita da fita de ácido desoxirribonucleico. É uma dupla hélice extremista, mas paradoxalmente disfarçada com fluidos de bom senso e de politicamente correcto. Tem um ADN ora cauteloso e cobarde, ora radicalmente paranóico.

Os bebés costumam nascer com um choro simples (“buááá!”), a Pessoa Que Não Sabe Bem Se é Charlie veio a este duvidoso mundo sibilando “no entanto, por outro lado, eu bem vos disse, e quem são estes agora para se atreverem a falar em liberdade de imprensa, etc.”. É provável que esta pessoa sofra do problema contemporâneo da “amálgama”. Não a de confundir, por exemplo, o islão inteiro com os fanáticos fundamentalistas assassinos, mas a amálgama-papa-azeda dos seus próprios preconceitos e inibições, quando estes colidem com qualquer coisa nova que acontece no mundo. Isto é que não estava previsto, portanto isto não foi nada disto.

A Pessoa Que Não Sabe Bem Se é Charlie ficou baralhada ao ver o impacto provocado pelo assassinato — dentro do local de trabalho — de um grupo de cartoonistas e jornalistas que, há muitos anos, desafiando ameaças, satirizavam em total liberdade autoral os poderes políticos e religiosos, mais a moral sexual burguesa. Espantou-se com o número de franceses que saiu à rua, milhão e meio só em Paris, de todos os credos e cores, na manifestação de 11 de Janeiro. Uma homenagem aos desenhadores mortos em combate pela liberdade, o direito ao humor e ao “mau gosto”, à existência do Estado laico, contra o terrorismo e a ditadura em nome de Deus. Na opinião desta pessoa, uma manifestação tão gigantesca transforma-se automaticamente em carneirada acéfala dirigida por interesses obscuros e hipocrisias. Para não dizer que, afinal de contas, teve pouco significado. Agora são todos Charlie, mas antes nem conheciam o jornal... E ver os flics, a bófia, do lado dos bons, é duro.

Tivemos acesso a algumas páginas do diário em que esta personagem complexa, contraditória, tentou ao longo dos últimos dias catalogar e contextualizar a questão “Je Suis Charlie”:

“Soube pela rádio que a redacção do Charlie Hebdo foi atacada por homens armados e que há vários mortos. Os autores do massacre gritaram Allahu Akbar, dizendo que tinham vingado a afronta dos desenhos satíricos de Maomé. Que horror! Como levaram estes pobres rapazes a pegar em armas, fanatizados pela cruel austeridade e racismo da nossa sociedade? É intolerável e temos de agir para evitar tais injustiças. Sinto-me muito culpado com esta falha. A Ana Gomes já enquadrou a situação no Tweeter.”

“Hoje estive a ler umas coisas sobre Voltaire e a questão da defesa da liberdade. Por outro lado, alguém lembrou que o Voltaire escreveu textos anti-semitas...” “Gostei de ver a mobilização dos cidadãos depois da tragédia. Comovedor. Por outro lado, espero que os humoristas tenham, com este apoio maciço, aprendido que há coisas mais importantes do que insultar as convicções dos outros, isso é que é liberdade. Para quê desenhar o Profeta se isso os enerva? Um pouco de respeitinho, ou sujeitam-se a levar com extremistas. Não em meu nome.”

“A quantidade de hipócritas políticos internacionais e criminosos que foi à manifestação! Se lá na terra deles não deixam as pessoas falar… E enganaram-nos porque nem sequer iam na verdadeira manifestação, mas centenas de metros à frente, não se misturaram com o povo. Por outro lado, se se tivessem misturado, é que eu ficava furioso.” “Houve um massacre enorme na Nigéria mas ninguém se manifestou a pedir uma intervenção internacional. Por outro lado, se houvesse uma intervenção internacional contra o Boko Haram era mais um acto de ingerência do imperialismo ocidental em África, não contem comigo.”

“Avolumam-se as provas de que houve marosca. A cabeça do polícia alegadamente morto no chão nem explodiu como é habitual. E porque é que os mataram só porque não se renderam? O que é certo é que levavam roupa verdadeira das tropas de elite francesa! Será que os islâmicos se infiltraram aí? O mais certo: o atentado foi cometido pelos serviços secretos franceses, em conluio com os extremistas de direita da Frente Nacional, para a Le Pen ganhar as presidenciais. Por outro lado, pode ter sido obra da Mossad israelita para mobilizar a Europa contra os árabes. No entanto, também é provável que tenha sido a CIA, que está feita com a Al-Qaeda do Iémen. Mas o mais razoável é ter sido o Presidente Hollande, que assim se aguenta no Eliseu e pode continuar os namoros escandalosos.” “Soube agora que o director do Charlie Hebdo costumava exclamar Allahu Akbar! quando falava com os colegas. Se era uma brincadeira parva, estava a pedi-las. Ou então o Charb era ele próprio um infiltrado do movimento islâmico, que se martirizou para mostrar ao mundo que ninguém brinca com o Profeta. Pista a investigar.”

“Desilusão. A edição feita pelos sobreviventes volta a meter-se com o Profeta na capa. Lá dentro há mulheres despidas, o Papa, fundamentalistas, sátiras contra a Merkel e o Le Pen nas manifestações do Je suis Charlie, e o diabo a sete. Até gozam com as teorias da conspiração. Não aprenderam nada. Andamos a lutar pela liberdade e é assim que nos pagam?”


Um comentário que acertou na mouche:

greg
19/01/2015 12:38
Se deixarmos de poder desenhar o Profeta porque isso os enerva, amanhã vamos deixar de desenhar uma mulher porque isso os enerva também. Vamos deixar de ensinar as meninas a ler e escrever porque isso também os enerva. Vamos deixar de comer porco, para não se enervarem. Amanhã vou andar de saia e até pode ser que encontre algum maluco que fique enervado e para me castigar, até me viole... mas a culpa será minha porque o enervei...


sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Em defesa da liberdade de expressão - I





Muitos artigos de opinião têm sido escritos sobre o massacre no semanário satírico Charlie Hebdo, quase sempre com a argumentação restringida a sentimentos de culpabilidade. Como aconteceu com Boaventura Sousa Santos, professor numa conceituada universidade portuguesa, que se deixou cegar pela sua ideologia de esquerda radical e procurou justificar o totalitarismo islamita aqui.
O artigo que se segue foi o melhor que, até agora, li sobre o assunto — embora pense que o humorista Dieudonné cometeu o crime de apologia do acto terrorista de Coulibaly —, pelo que tomo a liberdade de o transcrever com a devida vénia:


"Charlie Hebdo: calar ou ser morto?

FRANCISCO TEIXEIRA DA MOTA 16/01/2015 - 03:42

A blasfémia é um direito e não um crime.

A dimensão de que goza a liberdade de expressão numa sociedade é uma excelente forma de aferirmos da sua democraticidade pelo que a definição dos seus limites deve ter sempre em conta que a proibição ou a repressão de qualquer opinião, por mais aberrante que seja, é sempre um prejuízo para a sociedade, ao impedir a livre circulação de ideias.

Há, no entanto, expressões que podem ou devem ser reprimidas, como, por exemplo, a instigação pública à prática de crimes, na medida em que constituam um perigo sério e atual para a integridade física e psíquica dos cidadãos, mas nunca por não concordarmos com as mesmas ou porque sejam aberrantes ou sinistras. Como disse o juiz Oliver Wendell Holmes Jr., do Supremo Tribunal norte-americano, a liberdade de expressão não protege o pensamento dos que concordam connosco, mas sim o pensamento que odiamos.

Muito daquilo que se escrevia e desenhava no Charlie Hebdo — e espera-se que assim continue — era de um profundo mau gosto, por vezes, abjecto e sempre de uma enorme inconveniência, num jornalismo satírico e violento que, à partida, não respeitava nada nem ninguém, testando os limites admissíveis da liberdade de expressão numa cruel apologia de uma humanidade despida de tabus e preconceitos, de moralismos e hierarquias. É por isso mesmo perfeitamente absurdo ver, entre outros, os presidentes da Hungria e da Turquia, países onde a liberdade de expressão é uma miragem, desfilarem em Paris sob a bandeira “Je suis Charlie”.

A matança na redação no Charlie Hebdo é uma manifestação de um fanatismo político-religioso, desesperado, ao qual não podemos responder de forma cordata, mas sim com o radicalismo da palavra: reafirmando a essencialidade de podermos pensar e falar livremente. Não podemos aceitar polícias do pensamento e da palavra, sejam eles fundamentalistas religiosos ou fanáticos moralistas. Muçulmanos, judeus ou cristãos.

Responder com um pretenso “bom senso” ao ataque terrorista à liberdade de expressão em França, com afirmações do tipo “há que ter em conta a sensibilidade dos outros e evitar proferir publicamente palavras que chocam as crenças, nomeadamente religiosas”, seria abdicar da nossa responsabilidade e liberdade enquanto seres humanos e cidadãos de sociedades democráticas. Seria a vitória do terrorismo. No fundo, ceder à chantagem.

A Al-Qaeda da Penísula Arábica já reivindicou a autoria do atentado, nomeadamente a escolha do alvo e o financiamento da operação. Segundo um dirigente desta organização, “a operação foi uma grande satisfação para todos os muçulmanos” e constituiu “uma mensagem forte a todos aqueles que se atrevem a meter-se com o que é sagrado para os muçulmanos”, aproveitando para exortar os ocidentais a “pararem com os seus ataques em nome de uma falsa liberdade”.

Este criminoso fanatismo político-religioso, de uma vanguarda iluminada e autoproclamada representante de toda uma comunidade, que responde às caricaturas do Charlie Hebdo com a execução pública dos cartoonistas não pode prevalecer. Temos de continuar a poder dizer — quem o quiser fazer — e a poder ouvir — quem o quiser, também — todas as inconveniências, políticas, religiosas e culturais, sob pena de um dia não podermos dizer nenhuma, nem mesmo aquelas que já não acharmos inconveniências.

Embora a liberdade de expressão, como garantia do livre pensamento, deva incluir o direito à blasfémia, isto é, às injúrias e desrespeito às divindades e às religiões, não é essa a realidade legal em todos os Estados democráticos. Mas seja um direito ou seja um crime, a blasfémia não é seguramente justificação ou atenuante sequer para a morte dos seus autores.

O terrorismo sempre foi uma realidade extremamente minoritária e nunca conseguiu atingir grandes objectivos ou provocar grandes modificações sociais, antes se consumindo em atos que, embora de grande visibilidade e impacto emocional, são isolados e estéreis. Não podemos, pois, aceitar que o medo nos domine, nem que a Europa mergulhe em qualquer sinistra deriva securitária como aquela a que assistimos nos EUA após o 11 de Setembro, com um crescimento exponencial do Estado com graves prejuízos para os direitos individuais.

Haverá, certamente, explicações para aquilo que sucedeu em Paris, para além do indesmentível fanatismo dos seus autores. Como também as haverá para as crianças armadilhadas “explodidas” em mercados da Nigéria. Ou muitos outros atos terroristas. Certo é que não podemos nunca aceitar abdicar da nossa liberdade pela chantagem terrorista daqueles que desprezam a nossa humanidade.

P.S.— Espera-se que o humorista Dieudonné, que escreveu na sua página de Facebook após ter participado na manifestação do dia 11 de Janeiro que se sentia “Charlie Coulibaly”, seja absolvido do crime de apologia de terrorismo por que foi detido a bem da liberdade de expressão."


domingo, 11 de janeiro de 2015

Manifestação histórica em França contra o terrorismo islamita


Depois do ataque ao jornal satírico Charlie Hebdo na quarta-feira, do tiroteio contra os polícias em Montrouge, na quinta-feira, e do sequestro num supermercado kosher em Vincennes pelo atirador de Montrouge, na sexta, que provocaram um total de 17 vítimas, a manifestação contra o terrorismo islamita levou, este domingo, cerca de 4 milhões de pessoas para a rua por toda a França.

A marcha em Paris reuniu mais de 1 milhão de pessoas, tornando-se o acontecimento mais importante desde a Libertação em 1944.
Quase cinquenta chefes de Estado e de governo estiveram hoje presentes em Paris para homenagear as vítimas dos atentados no Charlie Hebdo, em Vincennes e Montrouge. Na fila da frente desfilaram Angela Merkel e David Cameron, mas também Mahmoud Abbas e Benjamin Netanyahu.



A estátua alegórica da Praça da República, em Paris, foi o local privilegiado pelos manifestantes desde quarta-feira à noite.
AFP/Loic Venance


Os manifestantes prestaram homenagem às 17 vítimas dos atentados com o lema "Eu sou Charlie".
AFP/Joel Saget


No percurso da Praça da República à Praça da Nação, em Paris, os franceses agitaram as bandeiras tricolores e cantaram a "Marselhesa".
AFP/Jean-François Monier


A manifestação teve início às 15:30, mas uma hora antes já a Praça da República estava cheia.
AFP/Bertrand Guay


O mar de gente da Praça da República visto do céu.
AFP/Kenzo Tribouillard


A manifestação em Paris durou até às 21h.
AFP/Bertrand Guay


François Hollande recebeu cerca de 50 dirigentes mundiais no Palácio do Eliseu que depois incorporaram a marcha de Paris.
AFP/Dominique Faget


Na primeira fila: o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu, o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy, o presidente do Mali, Ibrahim Boubacar Keita, o presidente francês François Hollande, a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas.
AFP/Philippe Wojazer


Imagens aéreas da manifestação republicana
Le Monde.fr | 11.01.2015


Le Monde.fr | 11.01.2015 à 16h47


Outras cidades francesas também se associaram a esta manifestação histórica:



25 mil pessoas desfilaram em Reims.
AFP/François Nascimbeni


60 mil manifestaram-se em Marselha.
AFP/Anne-Christine - Poujoulat


Uma maré humana de 300 mil pessoas desfilou em Lyon.
AFP/Jean-Philippe Ksiazek


100 mil manifestaram-se em Bordéus.
AFP/Nicolas Tucat


Mais de 100 mil manifestantes em Rennes.
AFP/Jean-François Monier


A multidão que se manifestou junto ao mar Mediterrâneo, em Nice.
AFP/Valery Hache


*

Nos últimos tempos houve uma escalada de ataques islamitas em França. Depois do caso ocorrido em Joué-lès-Tours, em que um jovem entrou no comissariado com uma faca na mão a gritar "Allahu Akbar" (Deus é grande), ferindo três polícias antes de ser baleado, o primeiro-ministro Manuel Valls alertou para a singularidade da época actual em França: "Nunca experimentámos um perigo tão grande em matéria de terrorismo."
Valls pediu aos franceses para reagirem ao fenómeno do envolvimento dos jovens com a jihad: "Temos mais de mil pessoas envolvidas na jihad na Síria ou no Iraque, mais de 300 estão lá, 56 ou 57 morreram, isto mostra o grau de envolvimento (...). Muitos foram para lá, muitos querem ir, muitos têm regressado felizmente. Isto deve desafiar a sociedade francesa."

Na Alemanha, os líderes do movimento Pegida pretendem denunciar a islamização da sociedade, a ausência de direitos humanos para as mulheres muçulmanas e a existência de sistemas alternativos de justiça impiedosos como a sharia, mas os políticos alemães têm procurado associar os activistas anti-islão aos neonazis.
Na sua mensagem de Ano Novo, a chanceler Angela Merkel disse que os apointes do Pegida têm “ódio nos seus corações”, mobilizando os alemães contra as manifestações do movimento e fazendo gorar a manifestação de Berlim.

A sede do semanário satírico francês Charlie Hebdo foi atacada em 7 de Janeiro de 2015, no mesmo dia em que Soumission, escrito por Michel Houellebecq, chegou às livrarias. Justamente o escritor que foi satirizado no número do Charlie Hebdo saído nessa quarta-feira trágica, no cartoon publicado na primeira página.


A última edição do Charlie Hebdo, publicada em 7 de Janeiro de 2015.
AFP/Bertrand Guay

Mas por que motivo os cartoonistas assassinados assestaram os seus lápis contra o escritor, transformando-o no mago Houellebecq?
Porque, no livro, o islamismo triunfa e dá um Presidente muçulmano à França. Trata-se de um islamismo suave, chegado ao poder pela via democrática, sem confrontos.
Um islamismo que deriva de uma hipotética incompetência dos dois grandes partidos republicanos da direita e da esquerda que teriam conduzido o País para um pântano onde chafurda uma classe branca, afortunada, educada, dominante, que se submete aos medos que criou no povo e ao inimigo que deixou instalar dentro das fronteiras.
Um islamismo politicamente correcto que cria o partido da Fraternidade Muçulmana oportunisticamente aliado ao Partido Socialista para vencer a extrema-direita. Seria muito natural, descreve Houellebecq, que os muçulmanos em França tivessem um partido que os representasse com os valores tirados do Islão, o que obrigaria à refundação do sistema educativo francês sobre uma base islâmica e reconduziria as mulheres ao seu papel doméstico e procriador.

Mas os cartoonistas do Charlie Hebdo não morreram em vão. Quase 4 milhões de franceses perderam o medo e, insubmissos, manifestaram-se em defesa dos valores da República.
Dezenas de dirigentes políticos mundiais aliaram-se ao povo, deliberadamente ou para atenuar a revolta libertada e participaram na marcha de Paris contra o terrorismo islamita. Na primeira fila François Hollande e Angela Merkel. Ladeados por Mariano Rajoy (Espanha), David Cameron (Reino Unido), Jean-Claude Juncker (Comissão europeia) e Matteo Renzi (Itália). A Europa Unida com Paris a ser hoje a capital. Ninguém se importou com a ausência de Barack Obama.

Esta manifestação veio reforçar os valores da República Francesa — Liberdade, Igualdade, Fraternidade é o seu lema — e da sociedade europeia, aberta e laica que erradicou a pena de morte e onde tudo é tolerado excepto a prática ou a apologia da violência. Quem escolher a França para viver, não importa qual o país de origem, a cultura ou a religião professada, terá de aprender a respeitá-los. Parafraseando o provérbio “Em Roma, sê romano”, poder-se-á concluir que “Na Arábia Saudita, sê árabe” mas “Na Europa, sê europeu”.


quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

O ataque ao jornal francês Charlie Hebdo


A sede do semanário satírico Charlie Hebdo, em Paris, foi alvo de um ataque terrorista, havendo 12 mortos, entre os quais se contam o director e caricaturista Charb e outros jornalistas do grupo de fundadores, e dois polícias.

A reconstituição dos acontecimentos deste dia trágico, passo a passo, com base numa infografia do BFMTV, testemunhos e vídeos (actualizados):

Pelas 11:20, um Citroën C3 preto com vidros fumados parou junto da sede do jornal satírico Charlie Hebdo, localizado na Rue Nicolas Appert, no 11.º bairro de Paris. Dois homens com a cara coberta saíram do carro e entraram no número 6 do edifício, onde estão os arquivos do jornal.

Apercebendo-se do engano, seguiram para o número 10. Ameaçada, uma jornalista que ia a entrar digitou o código de acesso. De imediato iniciaram o massacre, matando o recepcionista. Depois subiram ao primeiro andar, entraram na sala onde decorria a reunião semanal da equipa do jornal, e mataram oito jornalistas — entre os quais os quatro caricaturistas famosos Wolinski, Cabu, Charb, Tignous —, o polícia encarregado da protecção do director Charb e um visitante.
Testemunhas dizem que os dois encapuzados saíram do jornal a gritar "Allahu Akbar! Le prophète est vengé!" (Deus é grande! Vingámos o profeta!). Já na rua ainda dispararam alguns tiros. Depois recarregaram as Kalashnikov, entraram no carro e viraram à direita para a Allée Verte.

07/01/2015 - 12:24


13/01/2015 - 19:14


Sede do semanário satírico Charlie Hebdo na Rue Nicolas Appert, em Paris, onde ocorreu o massacre.
AFP/Philippe Dupeyrat


REUTERS/Philippe Wojazer

Na Allée Verte, que é um beco estreito, depararam com uma patrulha da polícia. Saíram do carro e abriram fogo. O carro patrulha recuou.


AFP/Anne Gelbard

Chegados finalmente ao Boulevard Richard Lenoir, saíram novamente do carro e alvejaram o carro patrulha, tendo ferido um dos polícias que depois mataram a sangue frio, indiferentes ao seu pedido de clemência. No momento da fuga gritaram: "Eh! On a vengé le prophète Mohammed! On a tué le Charlie Hebdo!" (Eh! Vingámos o profeta Maomé! Matámos o Charlie Hebdo!) Este confronto ficou registado em imagens que chocaram o mundo:


AFP


REUTERS


BFMTV 07/01/2015 - 13:38
Foi cortado o instante da execução do polícia Ahmed Merabet. Video integral aqui.

Na Rue de Meaux, no 9.º bairro, os dois homens abandonaram o carro em que seguiam e roubaram um Renault Clio cinzento. Antes de fugirem, informaram o condutor: "Se os jornalistas te fizerem perguntas, só tens de dizer que é a Al-Qaeda do Iémen."
A polícia perdeu-lhes o rasto em Pantin, um subúrbio no nordeste de Paris. Atrás deles deixaram 12 mortos.

Algumas horas mais tarde, a polícia difundiu o nome de três suspeitos: os irmãos Cherif e Saïd Kouachi, de 32 e 34 anos, e Hamyd Mourad de 18 anos.


*

Os caricaturistas mais conhecidos...


Wolinski
REUTERS/Vincent Kessler


Cabu
AFP/Joel Saget


Tignous
AFP/Alexander Klein


Charb, caricaturista e director
AFP/Francois Guillot


...e os seus últimos cartoons:








O cartoon de Charb foi premonitório.


Após o massacre ser conhecido, caricaturistas de todo o mundo sentaram-se a uma mesa com uma caneta, lápis ou pincel na mão, para prestar homenagem aos seus ídolos perdidos:



A liberdade no lápis
Na!


O nosso 11 de Setembro
Ruben L.


Covardes
Xavier Gorce


Obsoleta
Anónimo


Nunca vencidos
Lucille Clerc

Ver outros cartoons aqui.