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quarta-feira, 11 de junho de 2014

Laboratórios doaram 28 milhões de euros, profissionais de saúde só declararam 8 milhões


De Janeiro até 9 de Junho, a indústria farmacêutica concedeu apoios e subsídios no valor de mais de 28,6 milhões de euros a profissionais e organizações do sector da saúde, mas estes comunicaram que neste período receberam apenas 8,4 milhões de euros dos laboratórios.

A Interrelate, uma empresa especializada no processamento de dados, analisou a informação disponibilizada na plataforma informática da Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde (Infarmed) criado para divulgar os apoios da indústria farmacêutica a profissionais e organizações do sector, associações de doentes e sociedades médicas incluídas.

No início desta semana, o sistema albergava quase 35.000 declarações de doações, mas apenas pouco mais de 5400 comunicações de recebimentos. A discrepância entre os valores declarados pela indústria farmacêutica e os declarados pelos profissionais e entidades do sector da saúde no portal era já superior a 20 milhões de euros.
Embora haja um prazo de trinta dias para efectuar as declarações, os montantes declarados em mais de cinco meses deveriam ser aproximados.

Em vigor desde Fevereiro de 2013, a lei que tornou obrigatórias as declarações dos apoios superiores a 25 euros concedidos pelos laboratórios farmacêuticos a todos os intervenientes no circuito do medicamento está, obviamente, a ser ignorada pela maioria das entidades e profissionais de saúde.

A Ordem dos Médicos prepara-se para publicar um parecer do seu departamento jurídico que esclarece os clínicos sobre o dever de notificar o Infarmed de tudo o que recebem acima dos 25 euros.
Isto não faz sentido, é uma burocracia”, acrescenta, porém, o bastonário José Manuel Silva, que considera suficiente apenas a indústria farmacêutica declarar os donativos.
A indústria tem um secretariado para tratar disto, agora os médicos por vezes esquecem-se, têm muito que fazer, não é por mal e muitos deixaram de notificar porque pensam que não faz sentido”, alega.

Questionado se tinha conhecimento do desfasamento dos valores concedidos e recebidos, qual a justificação para este diferencial e se tinha havido, entretanto, algum tipo de punição para os eventuais infractores, como está previsto na lei, o Infarmed garantiu apenas que “tem vindo a monitorizar esta ferramenta, prosseguindo com as alterações necessárias com vista à melhoria do seu funcionamento”.

Segundo os investigadores da Interrelate, a plataforma informática é muito rudimentar. Só para consultar os milhares de declarações de 2014 foram necessárias 36,5 horas de trabalho, sendo muito complicado para um leigo efectuar qualquer tipo de pesquisa nesta plataforma. Além disso, a memória é excessiva, impedindo o portal de ser usado em muitos portáteis.
Inquirido sobre a disponibilidade para aperfeiçoar o portal, o Infarmed respondeu que “tomará as medidas que se considerem necessárias ao cumprimento das obrigações previstas na lei”.


Actualização em 9 de Fevereiro de 2015

Em 2014, a indústria farmacêutica concedeu apoios e subsídios de mais de 60 milhões de euros a profissionais e organizações do sector da saúde, mas estes apenas declararam ter recebido cerca de 21 milhões de euros. Agravou-se, assim, o fosso entre os valores notificados pelos laboratórios e os declarados pelos profissionais e sociedades de saúde no portal da “transparência” do Infarmed.


*

Já agora, recordemos a reacção do bastonário, há menos de um mês, ao novo Código de Ética que está a ser preparado pelo Ministério da Saúde:
"O Ministério da Saúde não sabe o que é Ética, não sabe o que é Deontologia, não sabe o que é Democracia, não sabe o que é um Estado de Direito, não sabe o que é uma missão pública, não sabe o que é defender os interesses dos doentes, não sabe o que são verdadeiros conflitos de interesses, não sabe avaliar as consequências e as possibilidades de cumprimento das suas iniciativas legislativas (o que são incentivos institucionais? vai instituir um sistema nacional de recolha de livros, de esferográficas, de galinhas, de ovos e de couves?!)."

O novo código prevê que os funcionários do Serviço Nacional de Saúde (SNS) passem a encaminhar qualquer presente que recebam para a Secretaria-Geral do ministério, ofertas que depois serão doadas a instituições de solidariedade.

Afinal são galinhas e ovos de ouro. Palmas para o ministro Paulo Macedo.

Fica-nos apenas uma dúvida. Porquê a investigação ao portal do Infarmed não foi feita por funcionários administrativos do ministério da Saúde? Se são incompetentes por que foram admitidos?
Se queremos dignificar a função pública, temos de questionar tanto a competência dos seus funcionários e os meandros da sua admissão, como os da contratação de empresas privadas para investigações aos intervenientes no circuito do medicamento.


quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Os juízes devem proteger os criminosos?


O bastonário da Ordem dos Advogados, António Marinho e Pinto, acusou hoje, na sessão solene de abertura do ano judicial, os juízes de, por vezes, praticarem actos de terrorismo de Estado. E explica:

Quando um juiz de Direito emite um mandado de busca em branco quanto ao seu objecto, ou seja, uma ordem para apreender todos os documentos e objectos que se encontrem no escritório de um advogado e que possam constituir prova contra os seus clientes, incluindo os computadores pessoais e profissionais do advogado, isto é um acto de terrorismo de Estado”.

E logo a seguir aconselha aos advogados: “Retirem dos vossos escritórios quaisquer documentos ou objectos que possam incriminar os vossos clientes, pois correm o risco de um juiz ir lá apreendê-los para os entregar à acusação. Para alguns juízes o escritório de um advogado não goza, hoje, em Portugal, da imunidade que deveria ter”.

Surge-nos no espírito uma dúvida: não será dever dos juízes procurar fazer justiça, doa a quem doer?


quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Fim de avenças pagas a políticos na RTP e RDP


Num País que, por não conseguir obter financiamento nos mercados financeiros, teve de solicitar um Programa de Assistência Económica e Financeira ao FMI/BCE/CE, é difícil acreditar que os ministros sejam obrigados a dar ordens como esta de Miguel Relvas:

"O Governo deu indicações concretas ao Conselho de Administração da RTP e da RDP para eliminar de imediato as avenças aos titulares de cargos públicos, sejam deputados, juízes, parceiros sociais ou gestores de empresas públicas."

Pormenorizando: há 49 personalidades públicas que recebem avenças semanais na RTP e na RDP para participar em programas ou como comentadores. Entre os quais se encontram:

  • Carvalho da Silva, líder da CGTP, o juiz Rui Rangel e António Mendonça, o último ministro das Obras Públicas do Governo de José Sócrates, recebem 600 euros por semana pela sua participação no programa ‘Mais Valias' que é transmitido todas as quartas-feiras na RTP, ou seja, 2400 euros por mês;
  • Marinho Pinto, bastonário da Ordem dos Advogados, e também o presidente da Câmara de Santarém, Moita Flores, recebem idêntica remuneração pelo programa ‘Justiça Cega', todas as segundas-feiras na RTP Informação;
  • Luís Filipe Menezes, autarca de Gaia;
  • Carlos Magno, dado como o próximo presidente da ERC, recebe uma avença mensal de 1900 euros pelo programa ‘Contraditório' na Antena 1;
  • Paulo Rangel, eurodeputado do PSD, pela sua participação no programa 'Ordem do Dia';
  • Bagão Félix, ministro das Finanças do governo de Santana Lopes, comentador da RTP;
  • Miguel Portas, eurodeputado do BE,
    Elisa Ferreira e Ana Gomes, eurodeputadas eleitas pelo PS,
    Miguel Frasquilho, deputado do PSD e
    Telmo Correia, deputado do CDS, também são remunerados pelas suas intervenções na TV ou nas rádios públicas, com avenças na ordem dos 200 euros por semana.

Miguel Relvas afirmou que "o Governo está determinado na reestruturação da RTP e pretende acelerar o processo de alienação de uma licença de emissão de um canal generalista até ao final do último trimestre de 2012", e considera "impraticável, no presente contexto de emergência nacional, custos de radiodifusão da ordem dos 40 milhões de euros".

O estudo preliminar apresentado pelo Conselho de Administração da RTP ao ministério tutelado por Miguel Relvas aponta para a necessidade de cortar 300 postos de trabalho entre cargos dirigentes e não dirigentes, para racionalizar custos operacionais.
Como há chefias e jornalistas que ganham mais que Cavaco Silva, o Governo deverá limitar os vencimentos do grupo de televisão pública à remuneração do Presidente da República — 6500 euros.


Políticos a serem pagos pelos impostos dos contribuintes para difundir as suas ideias e defender interesses seus ou dos grupos de influência a que pertencem ou para quem trabalham? Não, obviamente.
O fim das avenças é, portanto, uma medida digna de elogio.


sábado, 2 de julho de 2011

As toupeiras movem-se na escuridão


"O Estado deve aos advogados portugueses que prestam apoio jurídico mais de 25 milhões de euros. São os honorários correspondentes aos processos que terminaram nos primeiros cinco meses deste ano", revelou o bastonário da Ordem dos Advogados, antes do início das Primeiras Jornadas Nacionais do Instituto de Acesso ao Direito que hoje decorrem na sede da Ordem, em Lisboa. 


Os advogados que defendem cidadãos carenciados foram surpreendidos esta semana com notificações da Direcção-Geral dos Impostos, solicitando que efectuassem os pagamentos do IRS sobre os honorários ainda não recebidos.

Perante tal situação, Marinho Pinto acusou o Estado de ser "caloteiro em relação aos seus credores e impiedoso em relação aos seus devedores", lamentando que "nunca tenha faltado dinheiro ao Governo anterior para pagar milhões e milhões de euros de honorários a grandes sociedades e escritórios de advogados [mas para] pagar parcos euros aos advogados que prestam apoio jurídico já não há dinheiro". 



Sobre as medidas anunciadas para a justiça por Paula Teixeira da Cruz, na apresentação do programa do Governo, o bastonário recusou-se a comentar:
"Eu não quero dizer à senhora ministra da Justiça pela comunicação social aquilo que eu lhe quero dizer pessoalmente, em reunião de trabalho, quando ela entender convocar. Não é cordial da minha parte, como bastonário, estar a emitir opiniões sobre o Governo pela comunicação social, quando o devemos fazer pessoalmente”.


*


Palavras surpreendentes de um bastonário que, contra um governo a quem aponta tantos defeitos, incitou o eleitorado ao não cumprimento de um dever e à cedência de um direito.

Quanto aos directores-gerais, aos directores-regionais, aos chefes de repartição, aos directores dos agrupamentos de escolas, enfim, quanto às chefias da função pública, já havíamos reparado que, em conluio com as toupeiras socialistas dos seus grupos de compadrio, puseram fim ao interregno e começaram a movimentar-se na escuridão.
Descuidem os ministros deste Governo a avaliação rigorosa das chefias que tutelam na Administração Central, enveredem por dar larga autonomia à Administração Local e terão a oportunidade de apreciar como se bloqueia e asfixia um governo em meia dúzia de meses.


domingo, 17 de abril de 2011

Marinho Pinto defende greve à democracia nas eleições


Embalado pelo discurso aos jornalistas deste fim-de-semana, o bastonário da Ordem dos Advogados lançou a ideia peregrina de uma greve à democracia nas eleições legislativas de 5 de Junho.

Não se duvida que conheça bem a advocacia portuguesa.
Agora sobre o Portugal político nada sabe. Ou... talvez esteja a pregar uma rasteira de advogado ao eleitorado do PSD.


sexta-feira, 15 de abril de 2011

O pântano


O bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho Pinto, está no Porto para participar num seminário internacional de advogados e fez declarações deveras espantosas aos jornalistas:

"Os advogados que auxiliem os seus clientes a cometer crimes devem ser punidos mais severamente do que qualquer outro criminoso", porque têm uma responsabilidade acrescida. "Incentivo a justiça e os tribunais a aguarem com severidade sobre os advogados que não cumpram os seus deveres e desvirtuem o sentido da sua profissão, mas também incentivo para outras profissões o mesmo, designadamente os magistrados".
Referindo-se às "maçãs podres" que existem na advocacia, Marinho Pinto defendeu que um causídico "não pode auxiliar, por muita vantagem económica que daí tire, os seus constituintes a cometer crimes" e foi acrescentando que, actualmente, "algum triunfalismo económico tem levado à postergação desses valores irredutíveis [do Estado de Direito].
(...)

"Alguns sectores da advocacia privilegiaram algum valor económico e tendem a mercantilizar a profissão e em transformá-la em mais uma mera actividade económica. É preciso que os próprios advogados combatam essa degenerescência".
(...)
"O contrato de mandato que o advogado estabelece com os seus clientes tem uma dimensão que ultrapassa o mero valor económico, é uma relação de confiança" e esse valor deve ser "reforçado e protegido, porque na sociedade portuguesa o que falta hoje é confiança.
 [Em Portugal] não há confiança em quem governa, em quem faz as leis e em quem as aplica", por isso o advogado seguidor "fiel da matriz fundacional da sua profissão, pode ser um ponto de partida para relançar um clima de confiança" no país.




Isto é o tipo de discurso que um docente faz a uma turma de vândalos, perto da porta de saída da sala de aula para ter hipótese de escapatória se os energúmenos se ofenderem.

No dia em que ouvimos o constitucionalista Jorge Miranda referir que "o sistema de partidos está em estado comatoso", o bastonário da Ordem dos Advogados traça sobre a advocacia um panorama de país do terceiro mundo.
Já só falta ouvir o bastonário da Ordem dos Médicos pedir aos doutores que não matem os doentes...

Guterres bem avisou sobre o pântano.


sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Quem tem medo dos juízes?


Jorge Bleck, entrevistado no programa ”A cor do dinheiro” de 16 de Janeiro, começa por surpreender as lusas mentes com esta revelação:
"Tenho uma limitação profissional porque a sociedade de advogados a que pertenço, a Linklaters, tem um código muito rígido relativamente a investimentos e não me permite investir em acções. Porque somos depositários de muita informação privilegiada. Nunca sabemos qual é a empresa que vamos tratar, o facto de não ser cliente hoje não quer dizer que não seja cliente amanhã."





Questionado se temos advogados a mais em Portugal, respondeu que "temos" e aconteceu devido à "extraordinária inflação da oferta de faculdades e do número de alunos. E houve uma tendência para as pessoas se inscreverem mais nos cursos humanísticos, do que nos de ciências, e a advocacia era um".

Como o ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior aumentou este ano lectivo em 10% as vagas para Direito, naturalmente Camilo Lourenço (CL) quis saber a opinião do entrevistado a respeito desta incongruência e sobre a redução do numerus clausus na área do Direito. Eis a resposta:
"A ligação das faculdades à vida real ainda é muito distante. O nível de apoio do Estado às universidades públicas é feito per capita e portanto quanto mais alunos tiverem [melhor] (...). Há duas teses que se confrontam. Uma tese de mercado pura e dura, a procura é que disciplina a oferta, quem for para lá e ficar desempregado, paciência. Mas, no que respeita às universidades públicas, creio que o dinheiro devia ser melhor gerido. Devíamos ter melhores faculdades, professores melhor remunerados, porventura fazendo menos paracerística.
(...)
Creio que os pareceres são o cancro da faculdade de Direito. Compreende-se que os professores assim façam. O nível intelectual dos professores de Direito é, regra geral, muitíssimo bom e, comparativamente ao mercado da advocacia, a remuneração dos professores está muito abaixo, de modo que o recurso de pessoas daquele calibre é darem pareceres porque são muito acolhidos nos nossos tribunais. No momento em que os pareceres não puderem ser juntos às peças processuais, os professores deixam de ter essa receita.
Há duas soluções. Uma é aumentar substancialmente a remuneração dos professores, exigindo-se-lhes exclusividade, e continuar a ter o mesmo nível de qualidade de professores; outra é, se se continuar com os pareceres, então que os pareceres sejam das instituições. É a própria instituição que dá o parecer e os professores auferirão de uma forma indirecta.
O sistema actual leva a que, muitas vezes, os professores não publiquem, porque quem publica compromete-se e ao comprometerem-se o seu mercado de pareceres reduz-se. E do ponto de vista humano é natural esperar que o professor defenda o seu mercado.
"

Quando CL indagou por que é que a justiça está tão mal em Portugal, se é uma força de bloqueio, Jorge Bleck, embora recusando falar em bloqueio, explicou que há várias razões:
"Na justiça é onde se sente, de forma mais pesada, a herança do salazarismo, sobretudo naquilo que chamamos o direito adjectivo, o direito processual. Há uma tendência de disciplinar, regulamentar e criar baias aos juízes. Devíamos dar maior liberdade às magistraturas para julgarem, ter códigos mais flexíveis que dessem mais arbítrio aos juízes."

Em relação à produtividade das magistraturas, considera que a produtividade é um problema transversal da sociedade portuguesa e até "a maior parte dos juízes portugueses é incansável no trabalho (...)"
"Temos muitos processos por um acumular de situações, temos muitas minudências que prendem o tempo dos juízes e que seriam melhor julgadas noutro tipo de julgados.
O tribunal é uma instituição muito cara, no que custa da formação dos juízes, dos funcionários judiciais, das instalações e da informatização que devia ser reservada para verdadeiros casos e há muitas minudências na justiça. Para dar uma imagem do hospital, é cura do penso e a cirurgia mais sofisticada.
"

Quanto ao bastonário da ordem, Marinho Pinto, embora considere que "dispara em tantas direcções que às vezes perde a razão", no que diz respeito "à disciplina financeira que quer introduzir na ordem, tem uma substancial razão. É evidente que isso mexe com coisas muito sérias e daí parte da guerra que lhe estão a fazer".


domingo, 19 de dezembro de 2010

Mariano Gago inicia a campanha para as eleições legislativas


Falando nas Jornadas Parlamentares do PS, no Porto, perante os deputados socialistas, Mariano Gago fez um longo discurso sobre o estado da Ciência e do Ensino Superior em que condenou "a tolerância do Parlamento relativamente à criação e funcionamento das ordens profissionais em Portugal"

Disse o ministro:
"Com toda a franqueza, este é um dos fenómenos mais extraordinários que ocorre neste país. A complacência, a cedência corporativa a quem chateia o parlamento com o argumento de que não se pretende fechar o mercado de trabalho — que ideia! — e apenas se quer fazer deontologia, é absolutamente extraordinária."
"[Os representantes dessas ordens profissionais] chegam lá ao gabinete e dizem-me: ‘Senhor ministro, desculpe lá, quer proletarizar esta profissão? Arranje uma maneira de fechar estas entradas, seja como for’.

(...) Conseguir libertar o país da tutela das ordens profissionais na entrada das profissões é um elemento fundamental, sobretudo em período de crise económica (...) O que se está a passar é uma canibalização do mercado de trabalho em torno das profissões qualificadas, em que os que estão instalados criam uma fronteira para ninguém mais entrar. Ou melhor, talvez entre o filho de um deles, pronto
".

Noutro ponto da sua polémica intervenção, Mariano Gago afirmou ainda que "há um perigo eleitoralista que atinge todos os partidos, e este [o PS] também. Na hora da verdade há uma cedência à ideia de transformar os institutos politécnicos em universidades. (...) É a ideia de que os politécnicos são uma espécie de estado, como naquela história em que o girino passava a rã. Ora o politécnico é o girino da universidade, depois passa a rã e a universidade, então, é uma rã completa.

(...) [Sem haver separação entre politécnicos e universidades] com missões completamente distintas, não é possível continuar com o alargamento da base social do Ensino Superior. (...) Provavelmente, nem sequer será possível fazer-se o enraizamento do conhecimento e da tecnologia no tecido empresarial."

O bastonário da Ordem dos Médicos, Pedro Nunes, já reagiu, considerando "lamentáveis" as críticas do ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior às ordens profissionais que defendem o interesse público e a qualidade da formação. E acrescentou:

"Nunca lhe pedi para fechar entradas coisíssima nenhuma, o que lhe disse sempre foi que ele tinha que ter respeito pela saúde dos portugueses e não podia colocar indivíduos sem conhecimento, ignorantes, com uma bata branca como se fosse médicos.
O país não vai longe se desvalorizarmos a qualidade dos profissionais e os portugueses não vão longe se, em vez de médicos a sério formados pelas universidades portuguesas, tivermos sucedâneos de formação rápida que permitem aos ministros apresentar estatísticas enquanto portugueses morrem nas urgências.


É evidente que as ordens chateiam o senhor ministro porque não permitem que estas coisas aconteçam
."


*


O fórum do Público permite perceber melhor o problema:

Nuno, Santarém. 18.12.2010 15:10
O avanço da mediocridade
Eu posso falar no caso dos engenheiros. Acho que Mariano Gago, um dos melhores ministros do governo, não tem razão absolutamente nenhuma. A Ordem dos Engenheiros é que tem vindo a impedir que a mediocridade e a falta de qualidade reinem no sector da engenharia em Portugal. E o efeito do processo de Bolonha neste campo foi devastador...
O acesso à profissão não tem de ser controlado? Claro que tem! Pelo menos enquanto existirem para aí cursos ditos superiores, onde impera o facilitismo. Basta ver a quantidade de cursos de engenharia que grassam nos politécnicos e nalgumas faculdades, sem qualquer controlo por parte do ministério. É óbvio que a ordem tem de actuar.
Mas vejam os bons exemplos internacionais. Acham que nos liberais EUA e Reino Unido, por exemplo, o acesso à actividade de engenheiro é livre? Claro que não é! Só em Portugal é que caminhamos cada vez mais para o facilitismo e para a mediocridade. Agora até o superior está a ser atingido.

Anónimo, lx, portugal (?). 18.12.2010 16:52
Opinião inquinada
Esta posição do Gago está inquinada.
Se é verdade que algumas ordens controlam desenfreadamente o acesso à profissão, há as que delegam noutras instituições esse papel que por direito e dever lhes cabia.
Por outro lado também existe um incompreensível laxismo do governo em aprovar tudo o que é curso sem previamente verificar da sua coerência interna e do seu interesse para a sociedade.
É certo que estas decisões são políticas mas têm que se basear em algo, projecções ou trabalho de análise.
E para finalizar, o que está a acontecer nas universidades é o que foi denunciado pelo Fernando Ulrich do BPI há dias: "Fico com a sensação que as Universidades portuguesas vivem demasiado fechadas na sua missão de "fábricas" de licenciados e doutores e não incentivam os seus membros — alunos, professores, investigadores — a serem mais pro-activos na sociedade em que vivem". A qualidade que estas universidades anseiam, talvez para responder ao governo, é a quantidade de formados e nunca da sua qualidade.
Em resumo, o que se está a verificar no ensino superior, politécnico versus universidade, é que uns querem ganhar mais e outros querem trabalhar menos.
  • Rantaplan. 18.12.2010 Via PÚBLICO
    RE: opinião inquinada
    Para rematar só queria dizer que Portugal não tem uma universidade entre as 400 melhores do mundo. Confrangedor e revelador da qualidade que sai das nossas instituições "superiores".
    Infelizmente os alunos universitários preocupam-se mais com álcool e propinas do que com a pseudoqualidade que lhes estão a impingir. Para quando um ranking português de universidades e politécnicos à semelhança do que existe no ensino básico e secundário?

Anónimo, Algures. 18.12.2010 16:57
Dou também 20 valores
Foi a melhor intervenção do governo em muitos meses! Os crânios das ordens estão com medo dos novos, bem mais capazes e com outro tipo de visão, vejam o que fazem lá fora, vejam! Muitos portugueses tornam-se os melhores na sua área.
É o problema das corporações que só acaba, se calhar, com violência ou quando os velhos derem o badagaio. Parabéns Sr. Ministro.
  • Rantaplan. 18.12.2010 Via PÚBLICO
    RE: Dou também 20 valores!
    Se os novos são todos tão bons, porque queria o teu partido socialista fazer exames de entrada na profissão a professores?

gisela, gaia. 18.12.2010 17:56
Bravo!
Se os membros do governo tivessem a iniciativa deste Ministro de afrontar, ou pelo menos lançar na discussão pública, a hipocrisia dos poderosos corporativistas/cartelistas, alguns deles, certamente, "vira-casacas" doutros tempos, este Governo tinha maioria absoluta!
O povo está cansado dos poderes parasitas sem rosto que nos sugam. Falta coragem, falta mais espírito de Abril naquele que hoje se diz partido socialista. É o meu partido, quero-o revigorado! O alerta contra os reaccionários está hoje cada vez mais vivo.
Passo Coelho é um liberal assumido, ao lado dele gravitam liberais frustrados e confesso que me assusta quando alguém quer, não o melhor para o país, mas o melhor para os interesses do partido — uma maioria, um primeiro-ministro e um presidente — só falta mesmo um quadro do Sá Carneiro na parede...
Acho que os portugueses ainda não perceberam o que são os liberais. Os estudantes Ingleses estão agora a perceber: o triplo das propinas e outras coisas virão. Alternância pela alternância é burrice!

Helder, Porto. 18.12.2010 19:59
Sr. Ministro,
Quer então V. Exa. dizer que sistemas de acreditação profissional como o dos Estados Unidos, com exame obrigatório à saída da Universidade (independentemente de o candidato a profissional sair de Harvard ou de uma qualquer universidade da comunidade local), outro exame após 4 a 6 anos de experiência profissional e obrigatoriedade de Educação Contínua durante toda a carreira são apenas barreiras ao acesso à profissão para novos membros? Não me parece.
As ordens deviam, sim, implementar mais provas de aptidão, aplicadas a todos de igual modo, ao longo da carreira, em lugar de aplicar a prestação de provas a alguns apenas. Quanto aos "Abrileiros" que por cá andam, nada a fazer. Há que aguentar até que morram.

João Borges, Lisboa. 18.12.2010 22:06
O problema
Sou estudante do 3º ano na Faculdade de Medicina de Lisboa, com base no Hospital de Santa Maria e tenho que concordar com o Bastonário da Ordem dos Médicos, Pedro Nunes.
Hoje vive-se na nossa faculdade uma situação em que não há capacidade para incorporar todos os alunos. Chegou-se ao ponto em que é preciso alterar despachos relativos a avaliações para não haver retenção de demasiados alunos, que no ano seguinte «entupiriam» todo o sistema. Nos serviços de pediatria (e não esquecendo que estamos a falar de um dos maiores hospitais do país) estão presentes 6 ou 7 alunos por doente. Será que estas são condições para formar médicos competentes? Não me parece.
Eu acredito que esta situação pareça muito mal à maior parte das pessoas, mas a verdade é que o Bastonário tem razão no que diz: neste momento não há condições para aumentar o número de alunos nas faculdades existentes, porque não se pode aumentar o número de camas dos hospitais de um dia para o outro. Que se criem novos hospitais e novas faculdades, estou completamente de acordo, e acredito que o Bastonário também esteja. Ambos têm culpa numa coisa: a falta de planeamento a longo prazo, o verdadeiro problema de Portugal.