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quinta-feira, 2 de abril de 2015

In Memoriam José da Silva Lopes




(Ourém, Seiça, 10 de Maio de 1932 — Lisboa, 2 de Abril de 2015)


03 Abr, 2015, 14:40


Durante o Estado Novo, José da Silva Lopes teve uma acção relevante no processo negocial da adesão de Portugal à EFTA entre 1956 e 1960, de tanta importância para o fulgurante desenvolvimento económico do País até 1973, e foi administrador da Caixa Geral de Depósitos porque os governantes de então, embora não apreciassem as posições políticas que assumiu, valorizaram a sua competência.

Fez parte do I Governo provisório, liderado por Adelino da Palma Carlos e que tomou posse a 16 de Maio de 1974. Era secretário de Estado das Finanças de Vasco Vieira de Almeida, ministro da Coordenação Económica.
No II Governo Provisório, que toma posse a 18 de Julho já com Vasco Gonçalves no cargo de primeiro-ministro, passa a ser ministro das Finanças e vive dois casos surpreendentes. Quando tenta distribuir por todos um prémio que até aí era dado só a alguns, esses privilegiados revoltam-se; no outro caso teve de sair pelo sótão do edifício do ministério cercado por trabalhadores de uma tinturaria que queria o aval do Estado.
Em Setembro mantém a mesma pasta no III Governo Provisório, integrando, com Vítor Constâncio e Rui Vilar, a equipa que elaborou o que ficou conhecido como "Plano Melo Antunes". Este plano foi deitado para o lixo pelas nacionalizações da banca e das maiores empresas nacionais, em 11 de Março de 1975, e todos acabarão por ser considerados "o ventre mole da revolução".
No IV Governo Provisório, que toma posse em 26 de Março, passa para a pasta do Comércio Externo, saindo em Julho quando o PS abandonou o Executivo. Foi criticado por não criar empresas públicas exportadoras e viveu outro caso caricato quando foi ameaçado por alguns ourives, depois de ter posto uma sobretaxa sobre o ouro.

Ficou na memória como governador do Banco de Portugal, no período de 1975 a 1980, quando teve um papel primordial nas negociações que impediram o colapso financeiro do País, primeiro com o Bundesbank para conseguir um empréstimo para Portugal enquanto decorria o 25 de Novembro de 1975 e, dois anos depois, com o FMI para obter assistência financeira externa em 1978.

Era uma pessoa sem papas na língua, como demonstrou quando convidado pela "Redacção Aberta" do Negócios, em Setembro de 2011:
"Não aceito que a Caixa tenha andado a financiar operações de capitalistas privados para comprar acções."

Numa entrevista ao mesmo jornal em 2013, ano em que a troika estava ainda em Portugal, Silva Lopes asseverou:
"Estamos a ver revoltas, mas não dos que mais sofrem. É dos que podem."

Há um ano afirmou, em entrevista à Lusa, que Portugal é um país "profundamente desigual" e "bastante corrupto":
"Temos um dos níveis de desigualdade maiores da Europa (talvez também um ou dois países à nossa frente) e principalmente não temos organizações nem instituições para combater estes problemas.
(...)
Apesar dos progressos na educação, temos uma população muito pouco educada no sentido formal, e com um grau de instrução muito inferior ao da média europeia, das piores da Europa. Depois também somos um país bastante corrupto, não somos o mais corrupto da Europa (haverá três ou quatro mais corruptos), mas temos um nível de corrupção que é alto.
Vemos a corrupção campear em frente por aí e não se ataca como deve ser. Vemos a fraude do BPN (Banco Português de Negócios), por exemplo. Não há nenhum país da Europa, penso eu, nenhum, em que um indivíduo que causa um prejuízo ao país de 4,5 mil milhões de euros não esteja na prisão.
"

O Nobel da Economia Paul Krugman prestou-lhe homenagem, no seu blogue, publicando o artigo Jose da Silva Lopes RIP onde recorda os momentos que passou no Banco de Portugal, no Verão de 1976, quando integrou uma equipa de cinco estudantes de economia do MIT na sequência da amizade de Silva Lopes com Richard Eckaus.
Krugman recorda as piadas — como aquela no momento em que Portugal, como uma nação de baixos salários na Europa, exportou um monte de roupa: "Nós não somos uma república das bananas, somos uma república dos pijamas" —, assumindo que algumas das ideias de Silva Lopes deram-lhe pistas para os seus primeiros trabalhos académicos. Conclui o artigo, dizendo: "O mundo perdeu um homem grande, bom e incrivelmente simpático".

No ano seguinte chegou uma segunda equipa da qual fazia parte Kenneth Rogoff. A acompanhar a equipa esteve também Rudiger Dorndusch, tendo sido ele quem concebeu o modelo de desvalorização cambial deslizante (crawling peg). Silva Lopes fala do conceito nesta entrevista, concedida à revista Exame em Dezembro de 2004, em que deixou desfilar as suas memórias:


"Quais eram as suas funções no Ministério da Economia e como é que surge nas negociações da EFTA?
Comecei a trabalhar em questões de comércio internacional e de integração europeia. A Comissão de Coordenação Económica era o órgão do Ministério da Economia onde se fazia alguns estudos. Acabei por me ver envolvido nas negociações da EFTA (zona de comércio livre europeia) e do GATT (acordo geral sobre impostos aduaneiros). Era muito novo, mas era uma das poucas pessoas no Ministério da Economia, e em Portugal, que falavam bem inglês.

Como é que Portugal se envolveu?
Inicialmente foram convidados seis países. Portugal, por ser um país pobre e muito atrasado, não foi convidado. O mesmo sucedeu, por idênticas razões, com a Irlanda e a Grécia. Mas Portugal, um bocado à força, conseguiu ser convidado. Graças à habilidade e insistência de José Correia de Oliveira, então ministro encarregado das coisas europeias, e do embaixador Teixeira Guerra, que era director-geral dos Negócios Económicos e já tinha estado na OCDE.

Como foram as negociações para a entrada de Portugal?
Fiz parte de vários comités porque éramos poucos na delegação portuguesa. Portugal tinha duas grandes pretensões a defender. Em primeiro lugar, conseguir que alguns produtos da nossa exportação fossem considerados não agrícolas, porque a EFTA não abrangia os produtos agrícolas. Eram o vinho, as conservas de sardinha e o concentrado de tomate. Não estávamos interessados na liberalização do comércio agrícola porque a nossa agricultura precisava de ser protegida, mas queríamos que estas áreas, onde tínhamos potencialidades, fossem abrangidas. As conservas de peixe entraram facilmente, até porque os noruegueses queriam o mesmo. No caso do concentrado de tomate foi difícil porque os britânicos se opunham. Conseguimos e isso deu um grande empurrão a essa indústria. No caso dos vinhos não foi possível, por oposição britânica e suíça. Mas, depois, negociámos acordos bilaterais e, por exemplo, nos mercados sueco e dinamarquês os nossos vinhos tinham entrada livre.

A coisa mais importante na negociação da EFTA foi o chamado anexo G, que dava a Portugal um período mais longo de protecção das suas indústrias. Esse período era de 20 anos e depois ainda foi prolongado. E permitia novas protecções para indústrias recém-criadas. Foi um impulso extraordinário à industrialização portuguesa e à abertura de Portugal ao exterior.

Na sequência da adesão à EFTA, Portugal adere ao GATT, em 1961. Foram negociações complicadas?
Portugal era o único país da EFTA que não fazia parte do GATT. Mas a EFTA devia ser reconhecida pelo GATT e, por isso, Portugal teve de se tornar membro. As negociações foram complicadas, porque tinham começado as guerras coloniais. Ora, vários países africanos independentes tinham entrado no GATT. Havia contra nós o voto destes países, de alguns do Leste e de Cuba. Também houve alguma dificuldade do ponto de vista comercial. Tínhamos um regime de proteccionismo agrícola muito fechado, e países como a Nova Zelândia e a Austrália opunham-se muito. Mas o embaixador Guerra, mais uma vez chefiava a delegação portuguesa, tinha um bom entendimento com o secretário-geral do GATT. Além disso, tínhamos o apoio dos parceiros da EFTA, e mesmo da Europa Ocidental.

Em 1961-1962 acaba por sair do Ministério da Economia...
Não possuía um vínculo ao quadro do Ministério da Economia. E não possuía vínculo à Caixa Geral de Aposentações. Ora, foi nessa altura que me casei e achei que era necessário começar a pensar no futuro. Nessa altura a AIP convidou-me para chefiar o gabinete de relações económicas internacionais e aceitei. Mas passado pouco tempo Correia de Oliveira pediu-me para voltar a trabalhar para o Ministério da Economia. Penso que a AIP até via alguma vantagem nisso. E trabalhava nos dois sítios simultaneamente. Até porque o que o assunto era o mesmo: integração europeia.

Como são os anos até 1969, quando é que se torna administrador da CGD?
Continuei a acompanhar os problemas da integração europeia. Inclusive as tentativas de adesão ao Mercado Comum. Depois, o Correia de Oliveira saiu do governo, já no tempo de Marcelo Caetano, e foi para o Banco Fonsecas & Burnay. Quem o substituiu foi o Dias Rosas, que eu conhecia, e me pediu para ser o director do gabinete de estudos do Ministério das Finanças e Economia. Aceitei o convite. Passados poucos dias o Correia de Oliveira convidou-me para administrador do Banco Fonsecas & Burnay, em que ganharia dez vezes mais do que ganhava. Mas, como já me comprometera, não aceitei.

O que é que acontece depois?
O Correia de Oliveira falou com o Dias Rosas e este ofereceu-me o lugar de administrador da CGD, em que a remuneração não era dez, mas quatro vezes maior do que no ministério. Naquela altura um administrador da CGD ganhava um pouco mais do que um ministro. Trabalhava a maior parte do dia na CGD, mas também várias horas diárias no Ministério das Finanças como director do gabinete de estudos. E quando havia negociações internacionais, ia eu.

Acontecem então as negociações para o acordo de comércio livre com a CEE...
Mais uma vez trabalhei com o embaixador Guerra. As negociações deram-se por causa da entrada do Reino Unido na CEE. Logo a seguir todos os países da EFTA pediram para fazer um acordo comercial preferencial com a CEE. Portugal fez o mesmo. As negociações foram complicadas porque Portugal estava no meio da Guerra Colonial. Não contávamos com a boa vontade política de muitos países europeus. As suas opiniões públicas manifestavam alguma hostilidade. Lembro-me, por exemplo, dos suecos; na fase final já faziam manifestações contra nós.

A negociação foi complicada na parte agrícola. Mais uma vez. O acordo era muito parecido com o da EFTA, mas perdemos algumas coisas, nomeadamente, as conservas de peixe. Depois havia a cláusula dos produtos sensíveis, que lhes permitia ter quotas para algumas exportações portuguesas, como os têxteis. O que nos causava problemas, porque era a área mais importante da nossa exportação. Fizemos o acordo, mas não funcionou muito tempo porque veio o 25 de Abril.

Na altura das negociações para o acordo com a CEE fez um discurso que foi recebido com hostilidade pelo regime...
Penso, aliás, que foi por causa disso que depois me convidaram para ser secretário de Estado das Finanças, após o 25 de Abril. Não tive uma actividade política muito clara, mas era sabido que não era adepto do regime. Correia de Oliveira chegou a convidar-me para um lugar governamental, não aceitei. Também fui convidado uma vez para ser secretário provincial de Economia em Angola, e também não aceitei. Porque eram lugares políticos. Depois, em 1969, participei em sessões da CDE (movimento da oposição) durante a campanha eleitoral, apesar de ser administrador da CGD.

Após o nosso acordo com a Comunidade Europeia participei numa reunião organizada pela Sedes. Aí perguntaram-me por que é que não tínhamos feito antes um acordo de associação. Expliquei que Portugal não reunia condições porque não era democrático e tinha uma política colonial, que os países europeus não aceitavam. Isto não foi bem recebido pelo regime. Pior ainda foi outra sugestão que fiz. Mal eu sabia o que estava para acontecer! O escudo forte era considerado intocável e, nessa reunião, disse: "Se tivermos muitas dificuldades de competição com a Comunidade Europeia, é fácil: desvalorizamos o escudo". Vários jornais publicaram isto no dia seguinte e fui ameaçado com a demissão. Mas isso não aconteceu. Suponho que por não ser fácil encontrar pessoas para me substituir.

Dá-se o 25 de Abril. Onde estava?
Estava em Paris, num comité, juntamente com o embaixador Guerra. Quando estávamos para regressar a Lisboa disseram-me que se dera a revolução. Fiquei bastante emocionado, quis logo voltar, mas não havia aviões. Com o embaixador Guerra meti-me num avião para Madrid, onde alugámos um táxi para Lisboa.

Logo após a revolução o professor é convidado para secretário de Estado das Finanças. Como é que isso aconteceu?
Era administrador da CGD. Estava provavelmente para ser saneado! Foi o que aconteceu aos outros administradores da CGD poucos dias depois. Mas entretanto recebi um telefonema da Junta de Salvação Nacional a convidar-me para ser secretário de Estado das Finanças. Era ministro Vasco Vieira de Almeida. Aceitei. Era o primeiro Governo Provisório. Funcionava com o Ministério da Coordenação Económica e nove secretários de Estado. Foi uma forma de despromoção do Ministério das Finanças que nunca acontecera na história portuguesa, e espero que nunca mais volte a acontecer.

Logo no segundo Governo o professor passa a ministro das Finanças...
Exactamente. Já com o general Vasco Gonçalves naquela altura coronel, penso, como primeiro-ministro. Dos nove secretários de Estado do Ministério de Economia e Finanças ele convidou todos para ficarem. Dois deles foram a ministros. Rui Vilar passou a ministro da Economia e eu tornei-me ministro das Finanças. Foi comigo que se deu o primeiro défice orçamental em 50 anos. Fiquei com essa glória! Mas era um défice pequenino, comparado com o que veio depois.

Nessa altura convida professores do MIT a virem a Portugal...
Os primeiros vieram em Novembro de 1974. Eu tinha relações no MIT (Massachussets Institute of Technology), nomeadamente com o professor Eckaus. E ele trouxe cá um conjunto de professores ilustres, entre os quais estava Robert Solow, futuro Prémio Nobel, naquela altura ainda não era. Disseram-me: "Não tenhas medo do défice. Faz um défice ainda maior. Vocês precisam de um défice para estimular a economia." Vieram cá reforçar a tese keynesiana de que nós fazíamos bem em ter um défice. De facto o défice que se fez naquela altura não foi muito grande, até podia ter sido maior.

E quanto à política monetária?
A política monetária que estava a ser aplicada, também por orientação do Ministério das Finanças, era relativamente expansionista. Mas só relativamente. Havia muita gente a levantar depósitos dos bancos, a convertê-los em notas, e isto gerava um efeito contraccionista sobre a oferta monetária. Por outro lado, nós estávamos a aumentar o crédito do Banco Central ao sistema bancário. Estas duas tendências equilibravam-se, e posso dizer que a política monetária e fiscal do tempo em que fui ministro das Finanças, se alguma crítica se lhe pode fazer, é que talvez pudesse e devesse ter sido mais expansionista do que foi.

Mas havia o problema das reservas do Banco de Portugal...
Esgotámos rapidamente as reservas de divisas. As de ouro eram bastante grandes por causa das remessas dos emigrantes e porque Salazar, à semelhança do general De Gaulle, resolvera que uma boa parte das reservas deviam estar em ouro. Acho que foi uma inspiração divina, porque se tivéssemos mais divisas tinha-se ido tudo ainda mais depressa. O ouro é mais difícil de vender. Ficou 1 bilião em divisas, e esse bilião ao fim de um ano já estava gasto.

Regra geral atribui-se a crise económica à revolução, mas vai muito além disso...
Exactamente. O primeiro choque petrolífero, em finais de 1973, já estava a provocar dificuldades enormes na economia portuguesa no primeiro trimestre de 1974. A inflação estava a disparar; o défice da Balança de Pagamentos estava a reaparecer, coisa que não sucedera nos anos anteriores; a Bolsa, que estivera num boom, já estava a descer; o défice orçamental estava a engrossar por causa do apoio que se dava aos preços fixados através do Fundo de Abastecimento. Ora, veio o 25 de Abril na pior ocasião da economia mundial, e passa uma espécie de véu sobre as dificuldades anteriores.

Dá-se a revolução e a situação económica complica-se ainda mais...
O 25 de Abril agravou as dificuldades, nomeadamente por causa da subida disparatada dos salários. Dispararam quase 50% naqueles dois anos. Os preços foram congelados. Foi, no meu entender, uma das medidas mais nocivas dos primeiros governos provisórios. As rendas de casa também foram congeladas, e ainda hoje estamos a pagar esse erro. Isto introduziu na economia uma distorção tal que a maioria das empresas, mesmo que fossem eficientes e fizessem o melhor possível, não conseguiam aguentar. Claro que aumentou muito a procura. Com estes aumentos de salários as pessoas passaram a consumir muito mais. As empresas que produziam para exportação e bens de investimento estavam em dificuldades. E as que vendiam bens de consumo tinham muita procura, mas como os preços estavam congelados, quanto mais vendiam mais perdiam.

Naquela altura acusava-se logo as empresas de sabotagem económica. Na maior parte dos casos não era nada disso. Depois houve intervenções. E ainda bem, senão as empresas tinham ido mesmo todas à falência. O Ministério das Finanças e o Ministério da Economia fizeram os primeiros decretos sobre as intervenções e assim se manteve a economia a funcionar com o Banco de Portugal a produzir crédito para essas empresas. Quando vieram os retornados, a mesma coisa. Mais uma vez a expansão do crédito para aguentar a economia. Saí a 15 de Março de 1975. Estive naquela sessão nocturna que decidiu a nacionalização da banca. Este episódio está relatado em muitos sítios, mas às vezes de forma incorrecta. Quando se dá o 11 de Março, de certo modo, o sindicato dos bancários toma conta da banca. A única maneira de abrir os bancos era preparar uma forma qualquer que afastasse as antigas administrações. Chamei Jacinto Nunes, que era governador do Banco de Portugal, e Medina Carreira e preparámos um projecto de decreto para a intervenção do Estado em todos os bancos. Suspendíamos as administrações e nomeávamos administradores por parte do Estado por um período transitório. Depois se veria.

Na altura vivia-se muito o presente...
Sim. Acho que o prazo que definimos era seis meses ou um ano. Levámos o projecto ao Conselho da Revolução, que se reuniu só por causa disto, e o rejeitou liminarmente. E apareceu logo o projecto da nacionalização da banca. Quando o projecto foi discutido não me pronunciei contra. Disse: "Se acham que é esse o caminho, pode ser esse o caminho; a única coisa que não podem fazer é nacionalizar os bancos estrangeiros, porque isso levanta dificuldades muito sérias." Queriam nacionalizar o Montepio, e eu disse que não fazia sentido. Até houve uma pessoa muito conhecida, não vale a pena dizer o nome, que queria nacionalizar a CGD! Disse-lhe que a CGD já estava nacionalizada.

A ideia da nacionalização da banca não partiu de mim, não era o meu projecto, mas tenho de reconhecer que acabei por apoiá-la. Só que, para nomear administradores para os bancos nacionalizados, fiz uma reunião com os gestores da banca pública Caixa Geral de Depósitos, o Banco Nacional Ultramarino, o Banco de Angola e o Banco de Portugal para me darem sugestões de nomes. Mas quando apresentei a lista numa reunião em que também estava gente dos sindicatos, percebi que quem mandava eram os sindicatos e os meus nomes não interessavam. Dirigi-me ao primeiro-ministro e demiti-me.

Mas permanece no governo...
O general Vasco Gonçalves tentou convencer-me a ficar, disse que não, mas ele insistiu muito. Um dos argumentos que usei foi de que a minha especialidade não era a parte financeira, mas o comércio externo, embora nessa altura já fosse, possuía seis anos de actividade no sector financeiro. "O senhor vai para Ministro do Comércio", disse-me ele. "Não", respondi. "Eu sou perito é em comércio externo." E ele criou o Ministério do Comércio Externo. Mas fui sempre marginalizado. O IV Governo funcionava em sistema de politburo: só alguns ministros iam ao conselho de ministros. Quando levava lá algum projecto esperava cá fora. Embora fosse ministro, era menos do que secretário de Estado. Como estava a ser muito atacado por não ter nacionalizado o comércio externo, assim que o PS declarou que ia sair do governo, saí no mesmo dia.

O que é que acontece depois?
Estive desempregado durante o V Governo Provisório. E quando veio o VI Governo Provisório, do almirante Pinheiro de Azevedo, Salgado Zenha, que era ministro das Finanças, convidou-me para governador do Banco de Portugal.

Como é que encontrou o Banco?
Tive logo as dificuldades de não haver divisas. A única hipótese que tínhamos era vender ou hipotecar ouro junto dos bancos privados, em condições bastante desfavoráveis. Felizmente Mário Soares e Salgado Zenha foram à Alemanha, falaram com o chanceler Helmut Schmidt e este persuadiu o Deutsch Bundesbank a emprestar-nos dinheiro, contra ouro. Foi isso que acabou por nos salvar.

Também se deslocou à Alemanha?
Fui a Frankfurt, ao Deutsch Bundesbank. No dia 25 de Novembro estava a explicar tudo sobre a situação portuguesa, numa reunião com todo o conselho do Bundesbank. Ora, as informações que apresentei coincidiam com as que eles já haviam recolhido junto da embaixada alemã em Portugal, como depois me disseram. Mas eu não sabia disso durante a minha exposição! Como expusera a situação real, depois do almoço assinaram um acordo e emprestaram-nos dinheiro contra ouro. Atrás deles vieram outros bancos europeus, como o BRI, que já nos fizera um empréstimo no tempo em que o professor Jacinto Nunes era governador do Banco de Portugal. Passámos a ter vários empréstimos contra ouro, e vivemos com eles durante um ano. Mas depois começaram a dizer-nos que não.

Como é que isso se resolveu?
Começámos a tentar empréstimos junto dos americanos, até que o embaixador Carlucci convenceu o governo americano a fazer o Grande Empréstimo: 750 milhões de dólares. Era sem garantia ouro, mas com uma condição: precisávamos de negociar um acordo com o FMI. Em Portugal havia uma grande resistência, mas ficámos obrigados a isso. O Grande Empréstimo, além do dinheiro, trouxe um grande aumento da confiança da banca internacional em Portugal. A partir desse momento os bancos internacionais privados, que não nos emprestavam um tostão, abriram-nos as portas.

Como é que acontece a desvalorização do escudo?
A primeira foi em 1976, graças ao Michel Rocard, que veio cá a pedido de Mário Soares. Usei a definição do FMI. Dessa maneira a desvalorização foi de 15%, mas da outra forma dava cerca de 16%. Os tais ministros que nos queriam controlar começaram logo a fazer barulho. Entretanto a situação continuou a piorar, porque uma desvalorização de 15% não era suficiente. E no Verão de 1977 estávamos numa situação extremamente difícil. Já se acabara o dinheiro dos empréstimos contra ouro, o Grande Empréstimo ainda não estava concluído. Chegámos a ter reservas que davam para pagar só um dia de défice! Em desespero, ainda consegui mais um empréstimo do BRI, de 100 milhões de dólares. Foi o que nos valeu.

Veio de novo uma equipa do MIT...
Vieram cá várias equipas. Nessa altura estavam cá o Rudiger Dornbusch e o Paul Krugman; este ainda era um jovem estudante. O Dornbush trouxe a ideia do crawling peg do escudo, que foi uma ideia brilhante, e mudou isto tudo! O crawling peg foi um dos milagres da economia portuguesa. Todas as vezes que o meu pessimismo histórico não funcionou foi por causa de um milagre qualquer!

Como era o crawling peg?
Nós desvalorizávamos 1% ao mês e garantíamos que se nos afastássemos disso reembolsávamos os investidores que tivessem contraído empréstimos a prazo. No fundo fazíamos uma espécie de seguro cambial.

Foi uma das grandes contribuições do Dornbusch e do Lance Taylor, professores do MIT. Funcionou e, em conjunto com o Grande Empréstimo, levou a que, a partir de meados de 1977, deixássemos de ter dificuldades na Balança Cambial.

Entretanto Portugal fez também um acordo com o FMI. Como é que foi?
Correu muito bem. A delegação do FMI e o director do departamento europeu do FMI eram pessoas inteligentes. Mais tarde fui consultor do FMI e estudei os acordos que fizeram com vários países. Acho que o acordo com Portugal foi dos mais inteligentes que eles fizeram. Tudo porque o FMI não nos obrigava a baixar a inflação de forma absurda. Este era um objectivo secundário. Os objectivos principais eram resolver o problema da Balança de Pagamentos e conseguir crescimento económico. Agora seria impossível. Toda a gente tem a mania de que é preciso baixar a inflação. Já nessa altura havia no Fundo quem pensasse assim. Felizmente, no nosso caso, ninguém pensava dessa maneira. Foi óptimo. Poucas vezes o FMI fez acordos com sucesso como com Portugal.

A equipa do MIT ajudou...
Uma vez, no FMI, quando era governador do Banco de Portugal, um inglês disse-me: "Vocês são o Banco Central do mundo com melhor equipa de research, excepto talvez o Banco de Inglaterra." Com o MIT tínhamos o melhor que podia haver em matéria de aconselhamento económico. Entre as coisas que fiz no Banco de Portugal, com algum valor, estão as equipas do MIT e a introdução do crawling peg. Outra, foi a criação do gabinete de estudos económicos do Banco. Nessa altura entraram os professores Cavaco Silva e Miguel Beleza, entre outros. Hoje o gabinete de estudos do Banco de Portugal é uma referência.

Que balanço faz de todos estes anos de evolução da economia portuguesa?
Tenho de reconhecer que se me pusesse agora na década de 50, a pensar o que pensava naquela altura, nunca conseguiria imaginar o que de facto aconteceu. Se considerarmos o período 1950 a 2004, penso até que o crescimento português foi superior ao da Irlanda. Portugal é um dos países do mundo que cresceram mais. Talvez haja uns dez ou quinze que cresceram mais. Tivemos um grande sucesso entre 1960 e 1973, como outros países europeus. Foi uma época dourada de crescimento económico. Depois, a seguir ao 25 de Abril, o nosso comportamento não foi tão mau como isso. Foi muito mais variável do que era anteriormente, mais lento, mas o país modernizou-se e transformou-se.

Como vê o futuro da nossa economia?
A situação tem-se degradado nos últimos dez anos. E aqui já entra o meu pessimismo. O nosso crescimento económico tornou-se progressivamente mais fraco. E desde 2001 está abaixo da média europeia. Estamos a divergir da Europa. Pode dizer-se que é uma flutuação cíclica, que vamos sair da crise. Mas acho que é mais do que isso.

À escala europeia as perspectivas também não são brilhantes. O mundo tem um fenómeno novo: a China e a Índia. Os europeus avançados podem refugiar-se em indústrias de ponta ou em produtos e marcas reconhecidas mundialmente. Os chineses ainda vão demorar algum tempo a chegar lá. Mas já chegaram a onde nós estamos: vestuário, calçado, plásticos.

Acresce que as nossas condições estruturais para crescer são assustadoras. Com destaque para o problema da educação. Apenas 20% da população activa tem o 12.º ano de escolaridade. O normal na Europa é 80%. Temos um abandono escolar até ao 12.º ano superior a 40%. Mesmo que se faça alguma coisa, que não se está a fazer, daqui a 30 anos estaremos com uma qualificação da mão-de-obra inferior à média europeia de agora. Assim não podemos pensar em ter o mesmo crescimento económico que o resto da Europa. É completamente impossível. E o que mais me revolta, quando falo de educação perco a serenidade, é que as pessoas em Portugal sabem isto e não há capacidade para fazer seja o que for. Anda-se a fingir que se faz reformas educativas. Temos também o problema da justiça. Talvez custe 2% ou 3% do PIB em custos de ineficiência.

O professor está muito pessimista...
A verdade é que vejo o futuro com muito pessimismo. Mas, no passado, sempre que achei que não havia forma de as coisas se resolverem na economia portuguesa, acabou por acontecer sempre um milagre. Pode ser que desta vez também aconteça algum. Mas milagre para a educação não estou a ver como."


quarta-feira, 1 de agosto de 2012

"Alvíssaras, estamos despedidos!"


"01 Agosto 2012 | 00:01
Pedro Santos Guerreiro - psg@negocios.pt


Hoje realiza-se o sonho de milhares de gestores e empresários. Hoje é um dia de libertação, dia em que eles podem entrar pelas empresas, fábricas e escritórios e bradar uma nova mensagem aos trabalhadores: "Senhoras e senhores, de hoje em diante seremos finalmente mais competitivos: estão todos despedidos!".

O brado é exagero, mas sintetiza a ironia demissionária de quem não conseguia demitir. As empresas não são competitivas? A culpa era da lei. Falta produtividade? Com despedimentos não seria assim. Mas hoje mata-se o bode expiatório: entra em vigor a nova legislação laboral.

O despedimento individual era um tabu. Era quase impossível de conseguir sem ser por mútuo acordo. Sem pagar compensações suficientemente elevadas. Isso pode acabar hoje. Pode... Depende do entendimento que os tribunais dêem aos conceitos agora alargados de justa causa. Os juristas têm desvalorizado este impacto, mas são suspeitos na matéria. O efeito psicológico está conseguido. E muitos despedimentos não chegam a tribunal. O primeiro impacto da lei está garantido: milhares de despedimentos. O resultado final será depois avaliado: milhares de contratações? Eis uma reforma estrutural, assinado: Álvaro Santos Pereira. Mas também Pedro Mota Soares. E João Proença.

Os despedimentos são um ponto focal na legislação que entra hoje em vigor: concentra atenções. Mas o maior impacto está assegurado através de outras medidas. Medidas que garantem que vamos todos trabalhar mais tempo e, indirectamente, ganhar menos dinheiro.

Vamos trabalhar mais sete dias por ano a partir de 2013: acabam três dias de férias e quatro feriados. As empresas vão pagar menos pelas horas extraordinárias, com quebras que, no caso das contratações colectivas mais extremas, ultrapassam os 50% face aos valores actuais.

Estas duas medidas não estavam no memorando com a "troika", mas parecem querer compensar o fim da descida da taxa social única. Segundo um estudo do Governo divulgado ontem pelo Negócios, o impacto destas quatro medidas (menos feriados, menos dias de férias, horas extras mais baratas e compensações mais baixas em caso de rescisão) resulta numa redução de 5,23% no custo por hora trabalhada.

Agora começamos a entender-nos. Não estamos a falar de aumentar a produtividade, mas sim a produção. E estamos a falar da queda dos custos de trabalho para ser mais competitivo, indicador em que, segundo a OCDE, Portugal já acumula a maior queda de sempre, em termos reais.

"Desvalorização interna" é isto. Quando se ouve economistas, como Paul Krugman, dizerem que os salários dos portugueses têm de cair 20 a 30% face aos dos alemães, é isto. Já está a acontecer. Os salários líquidos já estão a descer, quando se aceitam novos empregos por menor remuneração do que aqueles que se perderam. E os custos médios do trabalho para as empresas já estão e vão descer, por redução das horas extras e indemnizações, e por diluição em mais horas de trabalho.

A economia está a ajustar-se do lado dos trabalhadores. Não chega. É preciso reduzir o tamanho do Estado e pagar dívidas para reduzir impostos. E é preciso ser justo, seja com rendas monopolistas, para baixar os outros custos além dos laborais, seja com situações de favor e nomeações políticas. Por exemplo, hoje é também o dia em que centenas de chefias do IEFP deixam de o ser. Para serem substituídas, renovadas ou extintas? O IEFP, que é um viveiro de "boys" (como o é a Segurança Social, o Fisco e outras direcções) vai manter o número de chefias, para distribuição de salários, ou reduzi-los?

A nova lei laboral é feita a pensar nas empresas. Baixa-lhes os custos. Promete libertação. Agiliza o mercado e, segundo os mesmos dados do Governo, terá um impacto positivo no emprego de 2,54% a curto prazo e 10,55% a longo prazo. E revelará a qualidade dos gestores em Portugal. Porque muita gente detesta despedir, está embrenhada com os trabalhadores na prosperidade ou salvação das suas empresas. Mas mais gente ainda detesta outra coisa: perder dinheiro. Ou o seu próprio emprego. Mas com esta lei laboral, ninguém nos agarra!"


segunda-feira, 14 de maio de 2012

"O Crepúsculo do Euro"


"Paul Krugman

13 de Maio de 2012, 13:11

s


Alguns de nós temos falado sobre isto, e aqui está o que pensamos que poderá ser o fim do jogo:

1. Saída grega do euro, muito possivelmente no próximo mês.

2. Levantamentos massivos dos bancos espanhóis e italianos, à medida que os depositantes tentarem transferir o seu dinheiro para a Alemanha.

3a. Talvez, apenas talvez, controles de facto, com os bancos proibidos de transferir depósitos para fora do país e limites para levantamentos em dinheiro.

3b. Em alternância, ou talvez em sequência, massivos levantamentos de crédito do BCE para impedir os bancos de colapsar.

4a. A Alemanha tem uma escolha. Aceitar injectar massivos créditos públicos, indirectamente, em Itália e Espanha, além de uma revisão drástica de estratégia — basicamente, para dar alguma esperança a Espanha, em particular, tanto são precisas garantias sobre a dívida para baixar os custos dos empréstimos, como um valor de inflação mais elevado na zona euro para permitir o ajustamento relativo dos preços, ou:

4b. Fim do euro.

E estamos a falar de meses, não anos, para isto acontecer."


*

A imolação de Angela, no Crepúsculo do Euro, segundo Krugman.
Não vai acontecer.
Siegfried traiu Brünnhilde. E depois foi morto.
Wolfgang não vai trair Angela. E não vai morrer no próximo ano.
E um ano é tudo o que Gaspar, Monti, Papademos e o maestro Schäuble precisam para afinar os défices públicos meridionais enquanto os gregos amadurecem.


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Paul Krugman em Lisboa


Paul Krugman, prémio Nobel da Economia 2008, que está em Lisboa para receber o doutoramento honoris causa pela Universidade de Lisboa, Universidade Técnica de Lisboa e Universidade Nova de Lisboa, é um keynesiano, ou seja, um economista que preconiza políticas de investimento para ultrapassar situações de depressão económica, condenando medidas de austeridade. É considerado um homem de esquerda.
Ouçamos, portanto, o que disse hoje numa conferência de imprensa na Universidade de Lisboa:



"A Irlanda não é um sucesso. É o primeiro ponto. As pessoas dizem que a Irlanda é um sucesso mas até agora não teve um crescimento especial e não regressou aos mercados. Não queiram ser a Irlanda.
A minha visão de Portugal é que está em muito melhor forma que a Grécia, mas é um fraco elogio. Não penso que parecerá uma catástrofe mas, na melhor das hipóteses, será um muito longo e doloroso ajustamento. Não será uma história feliz, mas talvez não seja um desastre."

"A situação não é tão má como a da Grécia, mas a verdade é que, nos mercados, Portugal é visto como o segundo país mais arriscado, portanto há muita pressão. A Grécia vai obviamente entrar em default e provavelmente sair do euro. Veremos em relação a Portugal. Espero que não, mas é a pressão. Se se fizer um ranking Portugal está na posição seguinte, não está na mesma categoria mas a situação não é boa.
Quanto à Zona Euro, é muito pouco o que o Governo de cada país pode fazer, não há muito espaço de manobra. A única coisa que o governo de Portugal, Espanha ou Irlanda podem fazer é microajustamentos ou a extrema opção de sair do euro. Já a Alemanha e o BCE podem fazer uma grande diferença. A Alemanha pode deixar de seguir uma política de austeridade ao mesmo tempo que os países da Europa do Sul estão a tentar seguir uma política de austeridade. A Alemanha devia mudar para uma política orçamental expansionista, acompanhada de uma política de 'dinheiro fácil' por parte do BCE. Isso poderia possibilitar o ajustamento. O que é preciso é uma política expansionista, mesmo inflaccionista, no núcleo europeu para permitir aos países da periferia europeia sobreviverem."

"[Em Portugal] era necessária alguma austeridade. Não poderiam continuar como se não houvesse restrições. Há alguns ajustamentos a serem feitos na frente de custos. Há algumas boas notícias no comércio [externo]. Portugal está a fazer tudo o que lhe pediram em termos de ajustamentos.
Questões como "O que acontece se as políticas funcionarem menos bem?", especialmente se o crescimento for menor que as projecções e o défice orçamental for maior. Esse é um ponto em que apelo a todos os intervenientes para não pedirem mais austeridade, o que não melhoraria o que é fundamental e aumentaria o sofrimento, portanto, é um ponto em que é preciso dizer: "Muito bem... temos um trilho, vai funcionar ou não". Mais austeridade não ajuda."

"[Sobre a permanência de Portugal no euro] diria 75%, penso eu... É uma questão de probabilidades, ninguém sabe ao certo. Prevejo, com alguma certeza, que a Grécia vai deixar o Euro neste momento. Acredito que Portugal talvez consiga manter-se, mas não tenho 100% de certeza. Depende muito como as coisas se coadunem nos próximos dois ou três anos. O governo não pode fazer nada radical, mas é preciso recusar os pedidos de mais austeridade. Percebo que têm de fazer o que estão a fazer. A austeridade é necessária mas não se deve ir mais longe."

"Não é agradável, mas é o que tem de acontecer. Portugal tem de descer os salários em relação ao núcleo da Zona Euro. Muitas pessoas questionam porque é que insisto nos salários. Infelizmente, Portugal tem um défice externo muito elevado e tem de aumentar a competitividade, o que passa por baixar os salários."
Seria preferível subir os salários dos alemães — de modo a estimular o consumo no país e, consequentemente, as outras economias do euro — do que descer os vencimentos nacionais. “Mas, em última instância vai ter de ser à custa dos salários dos portugueses”.

Questionado porque é que tomava a Alemanha como referência, uma vez que a maior economia europeia não é um dos concorrentes directos de Portugal no mercado internacional, Krugman defendeu que a referência deve ser o “núcleo da Zona Euro” e não a China. "Portugal não precisa de baixar os salários para o nível dos chineses".



No discurso da sessão solene:

"Ficámos mais estúpidos (...) Fomos menos que úteis (durante a crise). Foi difícil aceitar o falhanço da profissão".

Para Krugman, a crise mostrou que grande parte do conhecimento acumulado pela profissão desde a Grande Depressão tinha sido esquecido por uma grande franja da academia. E deu como exemplos as contribuições de Irving Fisher, que explicou o impacto da deflação numa crise, e de John Maynard Keynes, que mostrou como uma economia pode permanecer muito tempo a funcionar abaixo do seu potencial.

"Claramente, ninguém poderia ter previsto uma crise financeira em 2008. Mas a profissão devia estar preparada para dar uma resposta à crise. Tínhamos os instrumentos e muito conhecimento acumulado. Devíamos ter falado a uma só voz. Não o fizemos".

Por causa disto várias economias sofreram "consequências muito negativas" de políticas de austeridade e preocupações exageradas com a subida da inflação. Quem tinha "estudado macroeconomia e história económica", sabia que a inflação e juros não iriam subir como temiam muitos analistas.

"E era nesta situação que o mundo mais precisava de economistas. Foi para estes momentos que a profissão de economista foi criada. Não estivemos à altura".

"Não há alternativa a pelo menos alguma austeridade. O papel da austeridade é dar um sinal aos credores que o dinheiro que está a ser emprestado não é usado para 'dar festas'".

No entanto, cortes de despesa profundos podem reduzir a actividade económica, arrastando consigo os impostos, a um ponto tal que o rácio défice/PIB acabe mesmo por ficar pior.

"É difícil aos Governos da periferia lutarem contra esta pressão (de responder com mais austeridade a derrapagens), mas esse argumento deve ser levado aos credores. Eles (credores) não estão a ajudar."

É o caso dos médicos medievais que "sangravam os doentes e quando eles ficavam piores, faziam-nos sangrar ainda mais". "Mais pedidos de austeridade são destrutivos".



Na entrevista ao Negócios e à RTP:



Acredita que esta receita de austeridade vai recuperar a economia portuguesa?
"Penso que a minha previsão optimista é que após quatro ou cinco anos de sofrimento, Portugal voltará ao rumo certo. Se tudo correr bem. (...) Não posso aconselhar a esquecerem a austeridade, mas por outro lado, não será decerto uma via rápida de regresso a uma economia decente."

Se o primeiro-ministro português lhe pedisse alguns conselhos para impulsionar a economia o que lhe diria?
"Há muito pouco espaço de manobra. O primeiro-ministro de Portugal pode tentar... Penso que mais austeridade não será produtivo. Mas ele não pode abdicar simplesmente da austeridade, não há receitas mágicas para estimular a economia, excepto abandonar o Euro e essa é uma opção nuclear. Não se faz, a não ser que não haja alternativa. E Portugal não está nesse ponto. É, sobretudo, uma questão de persistência. Odeio dizer, mas dada a realidade da situação, não sei que boas opções há."

E a Sra. Merkel que opções tem?
"A nação alemã tem muitas opções. Não sei se a Sra. Merkel terá opções face á política interna. A Alemanha adoptou políticas de austeridade, juntamente com as políticas de austeridade da Europa do Sul. Isso é uma catástrofe. A Alemanha não devia estar a adoptar políticas de austeridade. A Alemanha devia dar ao Banco Central Europeu luz verde para uma expansão monetária muito mais agressiva. Se tivéssemos políticas muito mais expansionistas na Europa do Norte, tanto a nível orçamental como monetário, então a situação de países como Portugal seria muito mais fácil."

(...)

Temos de reduzir os salários para aumentar a competitividade?
"É aqui que as pessoas me perguntam como posso defender os cortes salariais — sou visto como um amigo dos trabalhadores e espero sê-lo — mas Portugal tem de ser mais competitivo em relação ao resto da Zona Euro. Se conseguirem tirar ganhos de produtividade de um chapéu, seria óptimo. Mas, na prática, significa que, no mínimo, os salários portugueses têm de crescer mais lentamente que os salários no resto da Europa, será necessário algum abrandamento. De uma forma ou de outra, terá de haver um ajuste substancial."

Teremos de renegociar a dívida?
"Penso que acabará por ter de haver algum perdão da dívida. Não tenho a certeza disso, não é um caso tão esmagador como o da Grécia. Mas a dívida é muito elevada e irá aumentar, em parte porque a economia vai crescer lentamente numa dinâmica deflacionária. Penso, pois, que terá de haver perdão... (...) Teremos muito mais informação dentro de um ou dois anos quando virmos a que ponto o crescimento das exportações que houve no ano passado, irá continuar. Mas poderá acontecer algo. Penso que os mercados estão a subvalorizar Portugal. As taxas de juro a dez anos parecem elevadas se levarmos em conta os dados económicos. Portugal não está pior que a Irlanda a nível desses dados."

Confia na recuperação da Irlanda?
"Ouvimos todos a dizer que a Irlanda está a recuperar. (...) A Irlanda está numa profunda depressão, com um desemprego muito elevado. Fez alguns progressos na redução de salários, mas não tanto como seria desejável."

(...)

Vamos precisar de um segundo resgate?
"A troika diz que Portugal volta aos mercados em 2013 o que me parece absolutamente optimista. Mas não sei se resgate é o termo certo. Usamo-lo, mas neste caso referimo-nos essencialmente a um programa de empréstimos. Portugal terá, provavelmente, de confiar em fontes oficiais para empréstimos para muito tempo."

A que ponto será importante o incumprimento português?
"Não é de todo improvável. Apostaria muito mais numa redução da dívida. Talvez possa ser estruturada como um acordo voluntário. Nesse caso, talvez possam evitar o incumprimento técnico. Mas tudo aponta para que Portugal não consiga pagar a totalidade do valor da dívida."

O Sr. Draghi diz que a Europa está a dividir-se em duas partes. É uma ameaça para a Europa. Concorda com isso?
"(...) Temos uma situação em que cerca de 1/3 da Europa vive uma depressão com elevado desemprego, economias em retracção, um cenário muito mau. A solução seria uma forte recuperação europeia para toda a zona. De certo modo, poderemos dizer que se isso perturbar Mario Draghi, ele deverá fazer um enorme programa de quantitative easing, colocar a Europa na recuperação e conseguir uma situação em que países como Portugal consigam ajustar os seus custos e preços, não através da deflação, mas simplesmente tendo aumentos mais lentos que o núcleo. Penso que Draghi, tal como Merkel, opere num ambiente político. Não pode pressionar demais o seu governo. É essa a solução. Se não querem que se concretize essa divisão da Europa, então precisam de uma expansão nos países nucleares. E, infelizmente, parece não ser isso que estão a fazer."

O euro sobreviverá?
"Todos os líderes europeus percebem a catástrofe política que seria, se o euro fracassasse. (...) As pressões económicas são muito fortes, há grandes pressões sobre o euro. Por outro lado, têm de pensar que os lideres europeus tudo farão para o salvar. Quem vencerá? Não sei. (...) É uma situação em que Europa criou uma armadilha para si própria. A questão é saber se encontra a vontade política e a disponibilidade de fazer algo pouco ortodoxo para sair dessa armadilha."

Pensa que devemos sair do euro?
"Não aconselharia o actual governo a fazê-lo, embora pense que pode vir a acontecer. Mas não podemos fazê-lo sem tentarmos alternativas primeiro. A alternativa é, essencialmente, a desvalorização interna. Uma queda gradual nos custos relativos, tornar os custos mais competitivos para uma suficiente retoma das exportações que permita a recuperação económica mesmo sem essa bolha de crédito. É uma coisa terrível, mas o problema é que abandonar o euro é algo incrivelmente desestabilizador. Ao tentarmos fazê-lo, teremos uma crise bancária imediata, uma crise jurídica com todas estas dívidas sem que ninguém saiba o que fazer com elas, é algo profundamente desestabilizador. De certo modo, sou um pouco fatalista nisto. Há que fazer este jogo, pelo menos durante algum tempo."

O euro é o problema para a economia portuguesa?
"Em larga medida, o euro é o problema. Estão numa armadilha de que é difícil escaparem. A melhor solução é os maiores países fazerem com que o euro funcione melhor, com uma política muito mais expansionista. Se Portugal nunca tivesse entrado no euro, se pudessem voltar atrás e não fazer nada disto, desvalorizaríamos o escudo e os problemas seriam muito mais fáceis. Mas, infelizmente, isso não é opção. Não temos uma máquina do tempo, não podemos voltar atrás e não o fazer, o que torna tudo muito mais difícil. Veja-se que o grande caso de sucesso nesta história é a Islândia. Houve muitas coisas que correram bem na Islândia mas a melhor é nunca ter entrado no euro, o que permitiu que, em termos relativos, se baixassem os salários em 25% num dia apenas deixando cair a coroa."

(...)

Apoia políticas expansionistas para melhorar a economia, mas para tal precisamos de dinheiro que não temos. Que outras opções podemos pôr em cima da mesa?
"Muito poucas. As pessoas com opções estão em Berlim e em Frankfurt. Não estão cá. De certa forma, a nível da capacidade concreta de afectar o destino, o primeiro-ministro é um pouco como o governador de Nova Jérsia, nos EUA. Não tem assim tanta influência. Sem moeda própria, não há assim tanto espaço de manobra neste país."

(...)

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

"Mamma Mia"


Nove meses depois desta profecia, Paul Krugman clama:


"31 de Outubro de 2011, 10:06
O plano europeu para salvar o euro está a desmoronar-se mais rapidamente do que eu esperava.

Uma maneira de pensar é dizer que se a Itália fosse olhada como segura, sem qualquer hipótese de um resgate futuro, seria capaz de pedir emprestado a longo prazo a uma taxa comparável à da Alemanha. As taxas alemãs estão actualmente abaixo de 2 por cento mas, em parte, porque os medos da zona euro estão a pressionar o 'outlook'; ainda é uma boa aposta enquanto a taxa da Itália estiver na faixa de 3-4 por cento.

Mas se a dívida rolar para taxas > 6%, dado o valor da dívida da Itália, isso vai aumentar amplamente o excedente orçamental primário (sem juros) que a Itália precisa para estabilizar esse valor. E essa diferença é, muito plausivelmente, a diferença entre pagar as dívidas ou entrar em insolvência.

Então entramos profundamente em território que auto-alimenta o pessimismo. Ou o BCE avança com grandes compras [de dívida no mercado secundário], ou o euro vira 'crostini' [fina tosta italiana de pão grelhado]."


quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Enquanto a orquestra toca, o Titanic afunda-se


A China comprou mil milhões de dívida a Portugal, pelo prazo de 18 meses, numa operação de venda directa em 5 de Janeiro. Embora o governo não confirme, consta que a dívida foi colocada à taxa de juro de 4,75%, portanto superior à que os mercados estão a cobrar nas emissões de Obrigações do Tesouro para prazos mais alargados. Por exemplo, a taxa das obrigações a três anos é cerca de 4,59%.
Trata-se de um péssimo precedente porque Portugal precisa este ano de 20 mil milhões de euros para financiar o défice orçamental de 2010 e a antiga dívida.

Parece que a China também licitou parte dos 599 milhões de euros de obrigações do tesouro a dez anos colocadas ontem, ajudando a descer a taxa de juro para 6,716%.
Este leilão foi considerado um sucesso por José Sócrates e Teixeira dos Santos porque na última emissão de 2010 a taxa atingiu 6,806%.
Na maturidade a quatro anos, foram colocados 650 milhões à taxa de juro 5,396%.



Paul Krugman, prémio Nobel da Economia, comentou no seu blogue:

"12 de Janeiro de 2011, 12:21

Concordo com Calculated Risk aqui: considerar um sucesso a capacidade de Portugal colocar obrigações a dez anos a uma taxa de juro de 'apenas' 6,7% diz alguma coisa do profundo desespero da situação europeia.
Se se pensar na dinâmica da dívida — os encargos dos juros crescentes sobre uma economia que provavelmente vai enfrentar anos de deflação para abater dívida — uma taxa de juro tão alta é pouco menos que ruinosa. Mas não é, de facto, tão má como as pessoas estavam à espera na semana passada; daí o sucesso.

Mais alguns sucessos e a periferia europeia estará destruída."


*


A opinião dos outros:

Oespanhol 13 Janeiro 2011
Sabem muito
Este fretista de Wall Street, que tem muitos iludidos europeus como seguidores, segue a voz do coração americano face ao aumento da influência chinesa.
Estavam a fazer o dente e como um carneirinho da manada não caiu já, como aconteceu com a Irlanda e a Grécia, ficaram fulos e usam estes submarinos supostamente keynesianos para fazer fretes. Os nossos "amigos", que nos têm ajudado muito, queriam continuar sozinhos a festa com os Borges, Cavacos e Coelhos à cabeça em Portugal, e como ainda não foi desta, vão buscar os Krugman e Soros ao baú.
A aliança da Nova Ordem, disfarçada de fingida boa vontade, quer continuar a ter o monopólio do roubo dos periféricos.

naolivre 13 Janeiro 2011
Este não entende ...
... nada de economia. Sócrates, sim: enquanto houver possibilidade de 'engordar os boys' tudo está bem. Mas há outro país na Europa que tenha tantos deputados à esquerda da social-democracia? O povo está a pagar as consequências do esquerdismo fora de moda. Somos os mais pobres, mais desiguais e mais endividados. Conseguimos!

piroc 13 Janeiro 2011
Não é preciso ser Nobel ...
... para chegar a esta conclusão mas, por cá, Sócrates gaba-se de ter conseguido um grande feito, ao endividar-se a 6,7%. E o resto da manada (salvo poucas excepções) segue-lhe o raciocínio... Todos em direcção ao abismo!

danny1williams 13 Janeiro 2011
Não é preciso ser Nobel ...
... mas este senhor é, com mérito.
Não é como muitos economistas portugueses da treta, em posições de destaque, algumas até lá no estrangeiro.
E se agora critica Portugal como economista, sendo americano, também o fez e faz para as políticas americanas. Mas critica com fundamento. Certo ou errado, mas fundamentado.
E quando é assim, deve-se ouvir e tentar perceber o que ele diz, acho eu... É uma questão de racionalidade.

jpgjpg 13 Janeiro 2011
Do the markets believe Portuguese leaders? Not really.

Dr_House 13 Janeiro 2011
Ruinosas não são as taxas de juro, ruinoso é o sistema
Este Nobel até parece que descobriu a pólvora! Parece que não sabe, que os EUA e a maioria dos países europeus estão falidos. Só há 2 alternativas, ou continuamos na dança das dívidas e dos créditos ou rebentamos com o sistema e abrem todos falência. Mas já que este Senhor é um Nobel, eu gostaria é que ele apresentasse uma solução concreta para reformar o Sistema actual.

anti 13 Janeiro 2011 - 13:42
Claro que sim, pois a taxa de juro do euro está em 1% ...
... e com juros a 6.7%, que serão pagos a prazo, não há investimento suficiente. Sem investimento, porque estamos a pagar dívida e juros da dívida, não há crescimento e portanto cresce a dívida.
A taxa compromete o investimento necessário. Tudo para investimento e não para eliminar passivos e juros. Senão ainda será mais difícil sair do buraco!

nmcaf2000 13 Janeiro 2011 - 15:41
Krugman
Quem acompanha os escritos deste senhor há mais de 24h (o que deve ser o caso de apenas 1% dos comentadores e jornalistas) sabe que este comentário não é uma crítica à actuação do Estado Português, o qual seguiu exactamente as medidas de intervencionismo que o Paul Krugman defende, mas sim à falta de uma estratégia integrada de combate à especulação nos mercados de dívida soberana e políticas orçamentais/fiscais integradas ao nível da zona Euro.
6,7% é uma taxa insustentável no longo prazo, não é preciso ter um prémio Nobel para o perceber.
Já o aproveitamento ridículo que a imprensa faz de supostas "más notícias" é permanente. Ora vejam lá o destaque que se deu às opiniões do Paul Krugman sobre qual o método de combate mais eficaz à crise económica, num contexto de recessão internacional generalizada.
Para quem tiver tempo, vale a pena ler o blogue de Krugman.
Aconselho os jornalistas do Negócios a fazer o mesmo. E já agora, que deixem de ser parciais nas análises que fazem, o jornalismo é suposto ser isento.

JDMT2010 13 Janeiro 2011 - 15:53
É espantoso!
Ainda há quem duvide da causa do estado de desgraça e descrédito que sofre este pobre país... Ponham na cabeça que os Alemães fizeram ao longo dos últimos anos o seu trabalho de casa, vivendo com modéstia. Nós Portugueses andámos a alimentar ilusões, vivendo à grande e votando em governos irresponsáveis e corruptos. Veja-se o nosso parque automóvel, Mercedes, BMW's, Porsches, etc, tudo com gente nova rica, feia, pequena e peneirenta lá dentro.

10011949 13 Janeiro 2011 - 20:43
nmcaf2000
Partilho a sua opinião e felicito-o pelo comentário.
O nosso governo já nem quer saber se o juro é 6,7 ou 6,9 ou até 7,5%, quer é o financiamento, esquecendo-se que os juros são para pagar. Ora Krugman tem toda a razão.
Agora os portugueses deviam questionar-se: Portugal fazendo parte da União Europeia, porque é que para se financiar paga juros de 6,7% e outros pagam 3 ou 4%, sendo todos parceiros?