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segunda-feira, 16 de junho de 2014

Cenas de Baile de Columbano vai a leilão por meio milhão de euros


Cinco painéis de grande dimensão pintados por Columbano em 1891 para o antigo Palácio do Conde Valenças vão ser leiloados.

Um conjunto de cinco painéis que Columbano Bordalo Pinheiro (1857-1929) pintou por encomenda do Conde de Valenças para o salão de baile do seu palácio, o actual Hotel Olissipo, em Lisboa, vai a leilão pela Veritas no próximo dia 25 de Junho, ficando em exposição a partir de dia 19.

Inicialmente o conjunto era composto por sete painéis com 250 centímetros de altura e uma pintura de tecto, encontrando-se hoje dois dos painéis (um deles assinado) numa colecção particular e a pintura de tecto conservada no antigo Palácio Valenças.




A Belle Époque
O período Império


A época de Luís XV
A época de Luís XIV

Uma quadrilha



O conjunto de painéis é descrito pormenorizadamente na obra Os Gatos de Fialho de Almeida (p.162-172):
20 de Janeiro de 1891

Columbano Bordallo acaba de mostrar a meia dúzia d’intimos, no seu atelier no pateo Martel, trabalhos de decoração executados por encomenda do conde de Valenças, para a sala de baile do mesmo senhor.
(…)
A pintura é a óleo, e consta d’um tecto que não podemos vêr, e foi pintado in situ, e de sete panneaux de cerca de tres metros d’alto e de largura diferente, que serão aplicados ás molduras d’estuque do salão de baile a que se destinam. (…) O primeiro panno é consagrado á dança de hoje: um par adolescente avança com dengosidade fin-de-siècle (…)
O retábulo segundo é a dança no Imperio. Ha um rapaz de perfil, expressão flagrante dos estoiradinhos d’esse tempo, calça colante, meia de seda, casaca de gola altíssima, bicorne, e bofes de renda em grandes folhos. A figurinha da mulher é deliciosa, com o vestido de corpinho curto, os braços descobertos, e o decote quasi horizontal, descobrindo peito e hombros sem provocação. (…)
Terceiro panno, em pleno Luiz XV. É um momento de gavota, surprehendido: o par avança num torneio de corpos gracil... (…)
Quarto retábulo, Luiz XIV. O costume de homem, severo, casaca azul e cabelleira d’anneis, canhões e bofes de renda, tricorne na mão esquerda, e o collete de grandes abas, cahindo, vermelho, té lhe encobrir as coxas de paralta. A figureta da mulher poisa a tres quartos, voltando de leve as costas a quem olha, e é a mesma anemia morena, o mesmo typo afusado e decadente das outras, com frescuras que lhe vem dos poucos anos, e nunca do circular sadio do bom sangue.
(…)
Finalmente o último trabalho da decoração é uma grande tela onde está pintada uma quadrilha, de que o espectador apercebe oito ou nove figuras. (…)

Igor Olho-Azul, leiloeiro da Veritas que vai levar estes cinco painéis à praça num só lote, estima um valor entre os 500 mil a 800 mil euros, o que é alto para o mercado nacional.
O preço mais alto que uma obra de Columbano atingiu em leilão foi em 2001 com os 310 mil euros de O Serão, um óleo sobre madeira de 1880.

Estas pinturas têm um sentido declaradamente decorativo e este foi um trabalho que ocupou bastante o Columbano, que deixou uma ampla obra nesta área”, explica Pedro Lapa, actual director do Museu Colecção Berardo, em Lisboa. No entanto, considera que a obra decorativa de Columbano “não é tão consistente quanto a sua obra de pintor retratista” mas “estamos sempre a falar de um dos nomes maiores do século XIX português”.
O Columbano é um pintor com uma estrutura e uma personalidade própria, inimitável, profundamente idiossincrático, e isso é sempre de valorizar. É sempre um trabalho curioso e isto é importante”, prossegue Lapa, que gostava de ver estas obras “no espaço arquitectónico para o qual foram pensados”. “Idealmente eram boas até para um museu, o Museu Nacional de Arte Contemporânea — Museu do Chiado (MNAC) devia ter meios para chegar à praça e fazer uma aquisição, era o que aconteceria com o Museu d’Orsay, em Paris, ou a Tate, em Londres”.


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

A polémica em torno da colecção Miró


Nos últimos dias os opinantes culturais em o País é fértil têm inundado os jornais e as televisões com artigos e comentários inflamados contra a venda em leilão da colecção Miró pela Parvalorem.

O lote de 85 obras do artista catalão Joan Miró (1893-1983), composto por óleos, guaches, aguarelas, desenhos, colagens e uma escultura, foi adquirido pelo Banco Português de Negócios (BPN), em 2006, por 34 milhões de euros. José Oliveira e Costa, então presidente do BPN, obteve a colecção através de um empréstimo a Alejandro Agag Longo, genro do antigo primeiro-ministro espanhol Jose Maria Aznar, que se tornou incobrável.
Quando o BPN foi nacionalizado em 2008, a colecção passou para a Parvalorem, a empresa pública criada no âmbito do Ministério das Finanças para recuperar os créditos do BPN.

Cinco anos estiveram as obras guardadas nos cofres da Caixa Geral de Depósitos, em Lisboa. E, exceptuando as entidades que solicitaram o empréstimo de alguns quadros para figurarem em exposições no estrangeiro, ninguém se lembrou da importância cultural da colecção e veio para a comunicação social defender a sua permanência no País.

Em Setembro de 2012, a Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC) sugeriu à Secretaria de Estado da Cultura a “incorporação em museu público da colecção de 85 obras de Joan Miró ou, em alternativa, a aquisição das melhores obras da referida colecção pelo Estado”.
No início do corrente ano, a DGPC pediu pareceres especializados sobre a guarda da colecção em Portugal aos directores do Museu Nacional de Arte Contemporânea, no Chiado, e do Museu Colecção Berardo, no Centro Cultural de Belém. Ambos foram favoráveis à permanência da colecção em Portugal e estavam dispostos a receber a colecção, com o segundo até interessado em adquirir algumas peças.

Agora que a Parvalorem decidiu a venda em leilão, Gabriela Canavilhas e mais quatro deputados do partido socialista (PS) vieram fazer alarido e esgrimir números para a praça pública. Criticavam a leiloeira porque estimou o valor da venda em 36 milhões de euros, mas a mesma Christie’s teria avaliado a colecção em 81 milhões de euros, em 2007, para a contratualização de um seguro. Canavilhas, enquanto ministra da Cultura do segundo governo Sócrates, nunca mexeu um dedo para expor e rentabilizar a colecção.

Na sequência de uma exposição dos cinco deputados do PS à Procuradoria-Geral da República, o Ministério Público avançou na segunda-feira com uma providência cautelar junto do Tribunal Administrativo do Círculo de Lisboa para suspender o leilão.
Mas o pedido de decretamento provisório foi indeferido porque se tratava de "um acto de gestão de uma sociedade anónima alheio ao uso de qualquer poder de autoridade pelo que não pode tal acto ser imputado à primeira entidade requerida, o Ministério das Finanças".

Quanto à Secretaria de Estado da Cultura, a segunda entidade requerida na providência cautelar, o tribunal confirmou que não foi cumprido o prazo de pedido de autorização de expedição das obras para Londres: "O despacho da autoria do senhor secretário de Estado da Cultura de 31/01/2014 que declara extintos os procedimentos administrativos de autorização de expedição das obras é manifestamente ilegal, permitindo a concretização da venda das obras na data anunciada, não obstante a ilicitude da sua expedição (...), ilicitude esta que é reconhecida por este membro do governo". No entanto, o leilão em Londres podia realizar-se.



04/02/2014 - 10:32


Como a colecção saiu ilegalmente do País e o assunto fora parar ao tribunal, a leiloeira decidiu suspender o leilão. As obras vão regressar a Portugal e Passos Coelho já reconheceu a borrada. O Ministério Público avançou, ontem, com uma segunda "providência cautelar com vista à suspensão das deliberações e actos referentes à alienação das obras de arte de Miró", que vai correr em paralelo com a providência que entrou segunda-feira no Tribunal.

Agora é a vez dos defensores da permanência da colecção em Portugal lançarem uma campanha de angariação pública de fundos com o objectivo de aquisição dos 85 Mirós e sua inclusão no património artístico nacional.
É que estas santas alminhas ainda não se lembraram que cada milhão de euros que não seja obtido pela Parvalorem é mais um milhão que alguém vai ter de pagar à CGD através de impostos ou de cortes nos salários e nas pensões.

Se cada defensor da cultura contribuir, em média, com 100 euros, são necessários 360.000 militantes para obter os 36 milhões de euros.
Não é fácil. A petição "Manifesto em Defesa da Língua Portuguesa, contra o Acordo Ortográfico" não recolheu nem metade desse número de assinaturas e era gratuita. Mas seria uma clara prova de coerência entre palavras e actos da elite cultural lusa.


*

Catálogo da Christie’s, leilão de 4 de Fevereiro de 2014.
Colecção Miró, p.113 a p.201. Principais obras:

La Fornarina (D’après Raphaël) (La Fornarina (Segundo Raphaël)), 1929. Óleo sobre tela. 146,5 x 114 cm.
2,4 a 3,5 milhões de euros

Peinture (Pintura), 1935. Óleo, têmpera, pincel, caneta e tinta e lápis sobre cartão. 76,5 x 65,5 cm.
2,4 a 3,5 milhões de euros

Peinture (Pintura), 1936. Óleo, alcatrão e caseína sobre masonite. 77,8 x 107,8 cm.
1,2 a 1,8 milhões de euros

Le chant des oiseaux en automne (O canto dos pássaros no Outono), 1937. Óleo sobre celotex. 122 x 91 cm.
1,8 a 3 milhões de euros





Painting (Pintura), 1953. Óleo sobre tela. 56,7 x 499 cm.
3 a 4,1 milhões de euros

Femme et oiseau (Mulher e pássaro), 1959. Óleo sobre tela. 115,5 x 88,2 cm.
1,5 a 2,1 milhões de euros

Écriture sur fond rouge (Escrita sobre fundo vermelho), 1960. Óleo sobre tela. 195 x 130 cm.
1,5 a 2,1 milhões de euros

Femmes et oiseaux (Mulheres e pássaros), 1968. Óleo sobre tela. 245,2 X 124,6 cm.
4,8 a 8,3 milhões de euros

Toile brûlée 3 (Tela queimada 3), 1973. Acrílico sobre tela com buracos queimados. 194,8 x 130,1 cm.
1,5 a 2,1 milhões de euros


Compare, caro leitor, com as melhores colecções mundiais:
  1. Museum of Modern Art (MoMA), Nova Iorque, EUA, colecção Miró (155 peças)
  2. The Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque, EUA, colecção Miró (31 peças)
  3. Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía, Madrid, Espanha, colecção Miró (177 peças)
  4. Fundació Joan Miró, Barcelona, Espanha, colecção Miró (cerca de 14.000 peças)
  5. National Gallery of Art, Washington, EUA, colecção Miró (105 peças)
  6. Tate, Reino Unido, colecção Miró (14 peças)
No website de cada museu, clicar em Joan Miró para apreciar toda a colecção.
No website da Fundació Joan Miró, clicar no separador Inici. Sugerimos Obres destacades (32 peças).


segunda-feira, 23 de julho de 2012

A incomparável



Frédéric Chopin, Nocturno n.º 1 em Si bemol menor, op. 9 n.º 1
Belgais, Portugal


Frédéric Chopin, Nocturno n.º 4 em Fá maior, op. 15 n.º 1
Belgais, Portugal


Mozart, Piano Concerto No. 20 in D minor K. 466


Mozart, Piano Concerto No. 20 in D minor K. 466 - Allegro assai (excerto)
Berlin Philharmonic Orchestra
Pierre Boulez, maestro
Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa, 2003

Maria João Pires, piano


sexta-feira, 27 de abril de 2012

Rampa de lançamento naval do séc. XVI descoberta em Lisboa - II


Recentemente os arqueólogos encontraram uma enorme rampa de lançamento de barcos do séc. XVI junto ao mercado da Ribeira, em Lisboa, feita com troncos de madeira sobrepostos.
A rampa estava enterrada no lodo debaixo da Praça D. Luís, a seis metros de profundidade, tem uma área de 300 metros quadrados e está associada a um estaleiro naval.

Agora foi descoberto que a camada mais funda da estrutura de madeira é composta por peças de navio reaproveitadas.

"Nunca encontrámos nada de semelhante em Portugal, e mesmo no resto do mundo não é um achado muito comum desta época", afirma António Bettencourt, o arqueólogo do Centro de História de Além-Mar, Universidade Nova de Lisboa, chamado pela empresa privada que está a fazer as escavações para acompanhar os trabalhos.

Que barco seria este e por que razão foi reciclado? Seria uma nau, uma caravela, um galeão? Pode ser uma embarcação do séc. XVI ou XVII. Se for do séc. XVII, trata-se de uma época em que o desenvolvimento acelerado da construção naval começava a ter nefastas consequências nas florestas europeias.
"O abate das espécies mais procuradas fazia-se a um ritmo superior ao tempo necessário à recuperação da mancha florestal (...) O tempo das caravelas aproximava-se do fim", descreve José Mattoso na História de Portugal. Além da pirataria, foi a escassez de madeira que causou a progressiva decadência das rotas da navegação comercial nas quais se baseava a economia portuguesa da época.

Os barrotes de pinho, sobreiro e carvalho vão ser analisados um a um. Depois, alguns serão depositados outra vez em lodo, mas na margem Sul do Tejo, enquanto outros serão conservados nos serviços do Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (Igespar).
O Laboratório de Dendrocronologia do Instituto Superior de Agronomia, Universidade Técnica de Lisboa, também foi chamado para ajudar na avaliação da idade apesar de, em Portugal, ainda não ter sido criado um padrão de tempo de crescimento das árvores baseado nos anéis do tronco. 



Os arqueólogos esperam encontrar mais vestígios debaixo dos pedaços de barco.
Para já, as descobertas da Praça D. Luís vão originar um projecto de investigação e serão o tema de uma palestra no Museu da Cidade, em 17 de Maio, a que se seguirá outra no Padrão dos Descobrimentos em 2 de Junho.



domingo, 18 de março de 2012

Rampa de lançamento naval do séc. XVI descoberta em Lisboa - I


A enorme rampa servia no século XVI para lançar barcos ao rio


Os arqueólogos encontraram uma enorme rampa de lançamento de barcos do séc. XVI junto ao mercado da Ribeira, em Lisboa, feita com troncos de madeira sobrepostos.

A rampa estava enterrada no lodo debaixo da Praça D. Luís, a seis metros de profundidade, tem uma área de 300 metros quadrados e deve estar associada a um estaleiro naval.
Nessa época o País procurava tirar proveito dos Descobrimentos e, para trazer o ouro e o marfim da costa africana e a pimenta da Índia, investia na construção naval, tendo a zona ribeirinha da cidade sido transformada num espaço de estaleiros.
Marta Macedo, uma das responsáveis da escavação efectuada pela empresa de arqueologia 'Era', considera que o achado "é impressionante: é muito difícil encontrar estruturas de madeira em tão bom estado".

Entre os artefactos recolhidos estão uma bala de canhão, restos de cerâmica e uma âncora com cerca de quatro metros de comprimento, além de cordame de barco.
Como a escavação ainda não terminou, os arqueólogos acalentam a esperança de descobrirem, em níveis mais profundos, algum barco submerso no lodo, como já sucedeu no Cais do Sodré e também no Largo do Corpo Santo e na Praça do Município¹, localizados na vizinhança.

Os técnicos do Instituto Português do Património Arquitectónico e Arqueológico foram chamados a acompanhar as escavações que estão a ser feitas no âmbito da construção de um parque de estacionamento subterrâneo.


No séc. XVI a zona entre o mercado da Ribeira e Santos era uma praia fluvial. A História de Portugal coordenada por José Mattoso e Romero Magalhães narra que, poucos anos após a primeira viagem de Vasco da Gama à India, "a zona ribeirinha da cidade é devassada pelos empreendimentos do monarca [D. Manuel I] e dos grandes armadores".
Tendo surgido conflitos com a Câmara de Lisboa, em 1515 o rei retirou ao município a liberdade de dispor das áreas ribeirinhas para outros fins que não os relacionados com o apetrecho e reparação das naus. São as chamadas tercenas, locais dedicados à função naval e representados em vários mapas da época.

Um relatório preliminar dos trabalhos arqueológicos, que decorrem na actual freguesia de S. Paulo, descreve a transformação de um aglomerado de pescadores, fora dos limites da cidade de Lisboa, num espaço importante para a diáspora:
"A expansão ultramarina contribuiu para uma reestruturação do espaço urbano de Lisboa, que se organiza desde então a partir de um novo centro: a Ribeira". Em redor do Paço Real reúnem-se os edifícios administrativos. "É na zona ocidental da Ribeira que a partir das doações de D. Manuel se irão instalar os grandes mercadores e a nobreza ligada aos altos funcionários de Estado, que irão auxiliar o rei (...) na expansão ultramarina e na centralização do poder."
A escavação detectou ainda restos de outras estruturas mais recentes: uma escadaria e um paredão do Forte de S. Paulo, um baluarte da artilharia costeira construído no âmbito das lutas da Restauração, no séc. XVII; vestígios do cais da Casa da Moeda, local onde se cunhava o metal usado nas transacções; e fornalhas da Fundição do Arsenal Real, uma unidade industrial da segunda metade do séc. XIX.

Alexandre Sarrazola, outro responsável pelos trabalhos, salienta que "esta escavação vai permitir conhecer três séculos de história portuária", acreditando que algumas das peças encontradas poderão vir a ser salvaguardadas e integradas no projecto do estacionamento, como já sucedeu com os vestígios do parque de estacionamento subterrâneo do Largo Camões.
"Face ao desconhecimento do que ainda pode vir a ser encontrado por baixo da estrutura de madeira do séc. XVI está tudo em aberto", acrescenta, mas a decisão final caberá ao Instituto do Património Arquitectónico e Arqueológico.

No entanto, a subdirectora do instituto, Catarina de Sousa, diz que as estruturas encontradas são muito interessantes, mas perecíveis, pelo que a sua conservação e musealização na Praça D. Luís é "praticamente inviável".


Impõe-se esta pergunta: Quantas rampas navais do séc. XVI existem no mundo?

Continua aqui.


¹ In BLOT, Maria Luísa B. H. Pinheiro, Os portos na origem dos centros urbanos — Contributo para a arqueologia das cidades marítimas e flúvio-marítimas em Portugal, págs. 240 e 241.


sexta-feira, 29 de julho de 2011

"Intoxicações de poder"


"29 Julho 2011 | 11:55
Miguel Pina e Cunha


A detenção de Dominique Strauss-Kahn, a 14 de Maio, foi um dos acontecimentos do ano nos planos da política e da sociedade.

O caso foi um "évènement" político não apenas porque DSK era presidente do FMI mas porque constituía o principal adversário de Sarkozy na próxima eleição presidencial francesa. Tratou-se também de um acontecimento de sociedade, dado o estilo de vida de DSK, um socialista com gostos de luxo, ou na linguagem gaulesa, um socialista champanhe.

Para lá das suas características próprias, o "affaire" DSK ajuda a compreender algo mais vasto e interessante: o efeito intoxicante do poder sobre o comportamento humano. O fenómeno é conhecido nos seus traços gerais, tal como reflectido na famosa citação de Lord Acton: o poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente. Henry Kissinger disse também algo que importa para o episódio que aqui se trata: "o poder é o derradeiro afrodisíaco". Analisando o episódio DSK, a "Time" colocou na capa da sua edição de 30 de Maio um porco para ilustrar o título: "Sex. Lies. Arrogance. What makes powerful men act like pigs". (...) Independentemente das reviravoltas do caso, das passadas e das futuras, algumas notas merecem atenção:
  1. O poder intoxica. Deve por isso ser usado com cautela. Trabalho experimental realizado em várias partes do mundo tem confirmado este efeito. Evidência recente mostra por exemplo que os mais poderosos têm maior dificuldade em colocar-se no ponto de vista dos outros. O mundo é diferente, por outras palavras, quando visto a partir do alto. O poder diminui as inibições. Como resultado, influencia o comportamento sexual. Homens e mulheres mais poderosos adoptam comportamentos de abordagem sexual mais desinibidos e os homens adoptam comportamentos mais desinibidos do que as mulheres.

  2. Como consequência, os poderosos actuam mais facilmente de uma forma que desafia as convenções e a moral e que desconta as consequências do comportamento sobre os outros. A explicação é simples: os poderosos têm uma capacidade de influência que os desinibe e os leva a pensar em oportunidades; os pouco poderosos receiam sobretudo ameaças e inibem comportamentos potencialmente sancionados. À medida que o tempo passa e os padrões se acentuam, os muito poderosos habituam-se a viver num mundo com fracas barreiras à sua vontade.

  3. Estes padrões podem todavia ser temperados. Indivíduos mais auto-conscientes podem tentar auto-limitar os seus comportamentos. Ou, mais eficazmente, o sistema pode criar pesos e contrapesos que estabelecem os limites do poder de actores individuais. O poder é distribuído. Por exemplo, quando a mesma pessoa é CEO e "chairman", o sistema não desconcentra poderes e tenta os líderes com a "hubris", a eterna síndrome da presunção.

  4. Não por acaso, os antigos romanos criaram uma série de mecanismos que visavam lembrar ao comandante vitorioso, na hora da consagração, a sua condição humana.

  5. Os fenómenos anteriores são mais gravosos em culturas de forte distância de poder — como a portuguesa. Nestas, o poderoso é constantemente lembrado da sua condição especial. Nas outras, todos são iguais perante a lei. Donde a guerra cultural entre França e EUA. Merece DSK ser tratado como foi? Para os americanos sim, porque se trata de alguém igual aos outros; para os franceses não, porque DSK não é um comum mortal (Bernard Henry-Levy dixit).

  6. Pelas razões anteriores foi uma grata surpresa escutar o novo ministro da economia Álvaro Santos Pereira dizer que prefere ser chamado Álvaro em vez de Ministro — ou, acrescento eu, Sr. Ministro ou mesmo Excelência. Obrigado, caro Álvaro, continue a desempoeirar mentalidades.
(...)"