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quinta-feira, 10 de junho de 2021

Humor Português


Celebrou-se hoje o Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas.

A genialidade de Luís de Camões, o nosso poeta maior falecido em 10 de Junho de 1580, sobrevive à campanha daqueles que, aproveitando o homicídio do afro-americano George Floyd, em Maio de 2020, no Minnesota, Estados Unidos, procuraram denegrir as obras e conspurcar os monumentos erigidos em memória de insignes heróis e prosadores Portugueses.



Público, Bartoon 10-06-2021



quarta-feira, 10 de junho de 2015

Discurso do Presidente da República no 10 de Junho de 2015


O discurso de Cavaco Silva na sua última sessão solene das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, em Lamego, é um elogio aos portugueses que trabalharam para vencer as dificuldades financeiras que o País atravessou e, em especial, aos autarcas.

Neste ano derradeiro, o discurso foi centrado em “Portugal, País com futuro”, se forem cumpridos os quatro objectivos enunciados — o equilíbrio das contas do Estado e a sustentabilidade da dívida pública; o equilíbrio das contas externas e o controlo do endividamento para com o estrangeiro; a competitividade da nossa economia face ao exterior; e finalmente, um nível de carga fiscal em linha com os nossos principais concorrentes —, não tendo esquecido o “emprego dos portugueses”.
Além de ter-se esmerado no panegírico ao poder local, o escriba lamecense arrastou por dois parágrafos do discurso o louvor à sua cidade natal e, mais à frente, ainda criou o ensejo de divulgar a beleza e a gastronomia do Vale do Douro:

10 Jun, 2015, 20:29




"Comemoramos hoje o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

Celebramos Portugal na nobre cidade de Lamego, cujas raízes milenares são bem testemunho da nossa identidade colectiva, forjada durante séculos.

Celebramos Portugal neste ponto de observação privilegiado do que somos como nação europeia e como comunidade de destino dispersa pelas sete partidas do Mundo.

Ao longo da sua História multissecular, Portugal viveu tempos de abundância e de acalmia que alternaram com períodos de escassez e de convulsões profundas.

Mas aqui estamos hoje, neste Dia de Portugal. Aqui estamos, juntos, todos, para comemorar uma Pátria que existe devido a uma razão: a vontade de vencer do nosso povo.

Somos um Estado soberano e independente porque, mesmo nas alturas mais difíceis, em tempos de graves crises, não nos deixámos abater pelo desânimo e pelo pessimismo.

Comemoramos o Dia de Portugal porque nunca perdemos a confiança num futuro melhor.

Alguns têm a tendência para não acreditar no futuro, para duvidar da capacidade e da força do nosso povo. Há mesmo quem faça da crítica inconsequente um modo de vida, um triste modo de vida.

Aos que preferem dizer mal de tudo e de todos, aos que optam pela crítica destrutiva sem apresentar soluções ou alternativas, devemos mostrar o exemplo do nosso povo, que ao longo da História sempre conseguiu vencer adversidades e encontrar caminhos de futuro.

Se os nossos antepassados se tivessem deixado abater pelo pessimismo, teríamos baixado os braços, voltando as costas ao Atlântico e aos mundos que demos ao Mundo.

Se nos tivéssemos resignado, não teríamos resistido aos invasores estrangeiros nem teríamos conquistado a liberdade e a democracia.

Portugueses,

Portugal viveu recentemente tempos muito difíceis. A crise que tivemos de enfrentar deixou sequelas profundas em muitos Portugueses, algumas das quais ainda persistem. Os níveis de desemprego mantêm-se demasiado elevados. Muitas famílias continuam privadas de um nível de vida digno.

Com o esforço e sacrifício de todos, ultrapassámos a situação de quase bancarrota a que o País chegou no início de 2011 e, nos últimos tempos, tem vindo a verificar-se uma recuperação gradual da nossa economia e da criação de emprego.

Os Portugueses foram exemplares na atitude, na coragem e no sentido de responsabilidade.

Portugal tem hoje motivos de esperança num futuro melhor.

Se, para além da estabilidade política e da governabilidade do País, forem asseguradas orientações de política económica que permitam a realização de quatro grandes objectivos, estou certo de que poderemos olhar o nosso futuro colectivo com confiança, independentemente de quem governe. Esses quatro grandes objectivos são: em primeiro lugar, o equilíbrio das contas do Estado e a sustentabilidade da dívida pública; em segundo lugar, o equilíbrio das contas externas e o controlo do endividamento para com o estrangeiro; como terceiro grande objectivo, a competitividade da nossa economia face ao exterior; e finalmente, um nível de carga fiscal em linha com os nossos principais concorrentes.

Só desta forma será possível assegurar o crescimento económico e a criação de emprego.

Pelos meus contactos com os mais diversos sectores da nossa sociedade, posso, neste Dia de Portugal, dar testemunho dos sinais de confiança no futuro que tenho encontrado junto de empresários, trabalhadores e parceiros sociais, jovens empreendedores, cientistas e académicos, autarcas, instituições de solidariedade e comunidades portuguesas dispersas pelo Mundo.

De igual modo, podem colher-se sinais de confiança no futuro do nosso País observando a nova atitude dos nossos parceiros europeus e dos investidores e o comportamento dos mercados financeiros.

Os empresários e os agentes económicos não se acomodaram nem se resignaram. Desde logo, importa sublinhar o aumento de 10 pontos percentuais do peso das exportações na produção nacional, entre 2010 e 2014. Um valor como este atinge-se com trabalho e coragem, e não com descrença ou conformismo.

Nos encontros que frequentemente mantenho com os nossos empresários, tenho constatado a sua firme determinação em aumentar a produção de bens e serviços de qualidade, capazes de ombrear com os melhores do Mundo e de conquistar novos mercados.

Destaco a aposta no conhecimento e na inovação que tem sido realizada pelas empresas portuguesas, as quais, em alguns sectores, são líderes europeias na produção de bens e de tecnologias. Registo o extraordinário aumento do número de empresas que satisfazem os exigentes critérios de selecção para integrar a rede PME Inovação da COTEC, associação a cuja Assembleia Geral tenho a honra de presidir.

Através da iniciativa «Roteiros para uma Economia Dinâmica», tenho tido contacto com múltiplas empresas industriais de dimensão intermédia, empresas que souberam adaptar a sua produção às exigências dos novos mercados, com um impacto muito positivo na criação de emprego local, na capacidade exportadora do País e no crescimento económico.

Emergem também sinais de esperança da cultura de responsabilidade que impera na generalidade dos parceiros sociais, um activo da maior relevância para a realização das reformas indispensáveis ao reforço da coesão social e de competitividade das empresas portuguesas.

Aqui, junto ao Vale do Douro, onde se reúnem de forma particularmente frutuosa alguns dos melhores vinhos do Mundo, uma gastronomia de excepção e paisagens de ímpar beleza, não posso deixar de sublinhar o sucesso dos operadores turísticos na melhoria e diversificação da oferta, que se tem traduzido em múltiplas distinções internacionais atribuídas ao nosso País e, sobretudo, no número recorde de visitantes que procuram Portugal como destino.

Os empresários e os trabalhadores, verdadeiros heróis a quem Portugal tanto deve na ultrapassagem da recente crise, poderão agora olhar o futuro com melhores perspectivas.

Aumentou significativamente o número de jovens empreendedores que, nas mais diversas áreas, mostram a sua ambição e vontade de vencer. São jovens de coragem que, desafiando o risco, abraçam uma ideia inovadora e procuram transformá-la numa actividade rentável, criadora de emprego. São o fermento de uma classe empresarial mais dinâmica, orientada para o mercado global, que aposta na inovação e que sabe que o sucesso não pode basear-se em subsídios ou privilégios concedidos pelo Estado.

Permitam-me que destaque os jovens agricultores que assumem a gestão de empresas familiares e lhes dão novos rumos, aplicando técnicas inovadoras e conseguindo melhorias significativas da produtividade. Devemos saudar e incentivar este sangue novo que está a chegar às explorações agrícolas e que contribui já, de forma significativa, para o crescimento das exportações do sector e para a redução do nosso défice alimentar.

Noutro domínio, o do ensino superior e da investigação científica, temos assistido a um aumento significativo da quantidade e da qualidade da nossa produção académica. Ainda recentemente, há poucos dias, cem mil engenheiros químicos de toda a Europa elegeram um jovem português como o melhor investigador europeu na sua área de especialização. Não se trata de um caso isolado; exemplos como este ocorrem frequentemente, sendo os cientistas nacionais distinguidos pela excelência do seu trabalho e das suas pesquisas.

Na economia global, onde impera uma forte concorrência, o futuro passa muito pela boa articulação entre a educação, a investigação e a inovação, por um lado, e a actividade das empresas, por outro. A esta prioridade nacional dediquei várias jornadas dos meus “Roteiros” pelo País.

A acção das nossas universidades e institutos politécnicos, a par dos laboratórios e dos centros de investigação, e a qualificação e o talento das novas gerações, dão-nos motivos de confiança no nosso futuro colectivo.

Sinais de confiança resultam também da acção desenvolvida pelos nossos autarcas, a quem é devida uma palavra de reconhecimento pelo trabalho feito.

Pelos meus frequentes contactos com Presidentes de Câmara de todo o País, posso afirmar que o poder local, uma das grandes conquistas do Portugal democrático, dispõe hoje de uma nova geração de autarcas que conhecem os problemas das suas terras e das suas gentes, mas possuem uma perspectiva mais abrangente e integrada dos desafios que emergem no quadro da União Europeia. O País possui actualmente um poder autárquico dinâmico, informado e motivado.

Sou testemunha de que os autarcas são hoje agentes activos do desenvolvimento económico e social do País. Empenhados no fortalecimento da base produtiva dos seus municípios e na criação de emprego, promovem a captação de investimento, o apoio à competitividade das empresas, a difusão da cultura do empreendedorismo e da inovação, o aproveitamento dos recursos das suas regiões, a preservação do ambiente e a recuperação do património histórico e cultural.

Cabe agora às autarquias desempenhar o papel catalisador indispensável ao bom aproveitamento dos recursos disponibilizados pelo programa “Portugal 2020”, contribuindo para a redução das assimetrias territoriais de desenvolvimento.

Vale a pena lembrar, igualmente, o papel essencial que as autarquias tiveram no apoio aos mais atingidos pela crise. O esforço do poder local juntou-se a uma rede imensa de instituições e voluntários que, pela sua acção em prol dos mais vulneráveis da sociedade, conquistaram a admiração dos Portugueses. Posso testemunhar o trabalho verdadeiramente excepcional que foi feito pelas instituições de solidariedade e por milhares de cidadãos, com dedicação e generosidade exemplares.

Destaco ainda, a este propósito, os agentes económicos que, em resposta a um apelo que lhes dirigi, se congregaram em torno da associação “Empresários para a Inclusão Social” no combate ao abandono e ao insucesso escolar.

As nossas comunidades dispersas pelo Mundo, que saúdo com especial afecto, um dos activos estratégicos do País, são uma razão acrescida para termos confiança no futuro.

Nos encontros que tenho realizado com os Portugueses e Luso-descendentes da diáspora, tenho constatado a sua firme vontade de contribuir para o desenvolvimento do País e para vencermos os desafios que temos à nossa frente.

O Conselho da Diáspora Portuguesa, constituído sob o meu patrocínio e que reúne Portugueses que, nos países onde vivem, se destacam pelo seu mérito nas áreas da ciência, da cultura, da economia e da cidadania, tem vindo a contribuir para a difusão da imagem positiva de Portugal, dando a conhecer ao Mundo as realizações e as potencialidades do nosso País.

Das minhas visitas ao exterior e dos contactos que mantenho com governantes, representantes de instituições internacionais e investidores estrangeiros, posso assegurar como se alterou, em sentido positivo, a atitude em relação a Portugal. Somos vistos como um destino atractivo e, acima de tudo, como um destino em que se pode confiar.

Somos elogiados pela correcção dos graves desequilíbrios económicos e financeiros que quase levaram o País a uma situação de ruptura, pelas reformas levadas a cabo para a melhoria da competitividade das empresas, pelo caminho de crescimento económico e criação de emprego que temos vindo a trilhar, pelo cumprimento das regras de disciplina orçamental que aprovámos no âmbito da União Europeia.

As taxas de juro dos títulos da dívida pública portuguesa desceram muito significativamente. Portugal é reconhecido como um destino competitivo para o investimento estrangeiro e os nossos recursos humanos são procurados e valorizados. A qualidade dos produtos portugueses é apreciada em mercados particularmente exigentes.

Por outro lado, no âmbito da União Europeia, reforçada que foi a capacidade para enfrentar crises financeiras e de supervisão dos Estados-membros, existe agora um claro empenho numa agenda de crescimento económico e de criação de emprego.

São sinais positivos que nos chegam do exterior e que contribuem para reforçar a nossa confiança no futuro de Portugal.

Portugueses,

Num tempo marcado por tantas incertezas, em que de quase todos os pontos do globo afluem notícias de dramas humanitários, alguns dos quais bem perto de nós, Portugal atravessou, sem sobressaltos profundos, um dos mais exigentes períodos da sua História recente.

É certo que, no passado, na primeira década da nossa democracia, o Estado português se vira já, por duas vezes, obrigado a recorrer ao auxílio externo de emergência. Na memória de muitos ainda existe a recordação da pesada factura que tivemos de suportar, quando à crise económica se associou uma crise social com fortes tensões e uma elevada conflitualidade, por vezes muito violenta.

Agora, diferentemente do que ocorreu nas intervenções externas do passado, a crise económica e social surgiu num tempo em que as expectativas de bem-estar são muito mais elevadas do que há trinta ou quarenta anos. A qualidade de vida dos portugueses aumentou de uma forma significativa, os padrões e os hábitos de consumo alteraram-se, as legítimas ambições dos cidadãos tornaram-se mais vastas.

Foi neste contexto que, após uma década de reduzido crescimento económico, Portugal chegou a uma situação que qualifiquei como quase «explosiva». Em Maio de 2011, fomos obrigados a recorrer ao auxílio do exterior para satisfazer as necessidades de financiamento do Estado e da economia. Sem o apoio externo, o País teria entrado numa situação de ruptura, com consequências sociais catastróficas. Aliás, não é por acaso que outros países da zona euro também seguiram o caminho de solicitar o auxílio do exterior. E nem todos conseguiram, como Portugal, Irlanda e Espanha, ultrapassar as dificuldades.

Na aplicação do programa de assistência financeira, fomos obrigados a fazer grandes sacrifícios. A dado passo, foi necessário alertar para a existência de limites aos sacrifícios impostos aos Portugueses. Por outro lado, chegou a existir o risco de o País entrar numa espiral recessiva. Felizmente, conseguimos pôr-lhe cobro.

Nesse tempo, foi necessário dar voz aos que não tinham voz — aos desempregados, aos excluídos, aos reformados e pensionistas.

É certo que ainda temos um longo caminho a percorrer. Mas existem hoje razões fundadas para encararmos o futuro com mais optimismo e mais confiança.

Da mesma forma que nunca vendi ilusões ou promessas falsas aos Portugueses, digo claramente: não contem comigo para semear o desânimo e o pessimismo quanto ao futuro do nosso País. Deixo isso aos profissionais da descrença e aos profetas do miserabilismo.

Se fizermos o que nos compete — e ninguém o fará por nós —, se assegurarmos a estabilidade política e a governabilidade, se definirmos, num horizonte de médio prazo, uma linha de acção favorável ao crescimento económico, à criação de emprego, à sustentabilidade das finanças públicas e à promoção da justiça social, poderemos festejar este dia que é o nosso, o Dia de Portugal e dos Portugueses, com confiança no futuro.

Muito obrigado."






terça-feira, 10 de junho de 2014

Discurso do Presidente da República no 10 de Junho de 2014


No discurso na sessão solene das cerimónias do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, que este ano decorreu no Teatro Municipal da Guarda, o Presidente da República exigiu que as principais forças políticas assumam, até à data de discussão do Orçamento de Estado, um compromisso de médio prazo visando a sustentabilidade das contas públicas.
Menos extenso que a versão publicada, o discurso foi centrado por Cavaco Silva na "esperança do povo" que se sacrificou para que o País recuperasse credibilidade:


10 Jun, 2014, 13:38


"Hoje, na cidade da Guarda, celebramos o Dia de Portugal.

Esta é a festa de todos os Portugueses.

Neste dia, comemoramos um País, festejamos uma Pátria, mas, antes de mais, celebramos um povo, o nosso — o povo português.

O Dia de Portugal é também o Dia das Comunidades Portuguesas, a ocasião festiva em que saudamos a nossa Diáspora.

Um país é mais do que um território. Portugal é, acima de tudo, as pessoas que o integram, os Portugueses que vivem no nosso país ou no estrangeiro, os cidadãos de outros países que decidiram residir e trabalhar entre nós. Esta é a nossa riqueza maior: somos um país uno mas também plural, uma comunidade coesa mas simultaneamente diversa, uma cultura feita de várias culturas.

Portugueses,

Neste ano de 2014, conquistámos o direito a ter esperança.

Portugal cumpriu as obrigações que assumiu em Maio de 2011 perante as entidades internacionais que nos concederam os empréstimos necessários ao financiamento do Estado e da economia. O programa de assistência financeira foi concluído no passado mês de Maio.

Vivemos uma situação de emergência nacional, que exigiu aos Portugueses um extraordinário sentido de responsabilidade.

Foi um caminho duro. Vivemos tempos muito difíceis, mas não perdemos a coragem da esperança e a vontade de triunfar. Como sempre sucedeu ao longo da História, e em particular nestas quatro décadas de democracia, o povo português deu mostras de uma maturidade cívica exemplar.

Entrámos numa nova fase da vida nacional, que designei de «pós-troika», chamando a atenção para a necessidade de estarmos preparados para os novos desafios que temos diante de nós.

Agora, com os sacrifícios que todos tivemos de fazer, será possível olhar o futuro com mais esperança e renovada confiança.

Devemos, no entanto, ter uma noção muito clara de duas realidades que não podem ser iludidas.

Em primeiro lugar, sabemos bem que a fase crítica por que passámos deixou marcas e sequelas profundas. Devemos, pois, permanecer atentos e vigilantes, designadamente em matéria de disciplina das contas públicas e de controlo do endividamento externo, para não cairmos de novo numa «situação explosiva», risco para o qual alguns alertaram os Portugueses em devido tempo.

Os Portugueses desejam que o seu País nunca mais venha a encontrar-se numa situação semelhante àquela a que chegou em Maio de 2011. Há que ter muita prudência. Exige-se, pois, uma conduta esclarecida e responsável de todos os agentes políticos, que vá ao encontro das legítimas aspirações de progresso e de bem-estar do nosso povo.

Em segundo lugar, devemos estar conscientes de que podemos agora olhar o futuro com mais confiança, mas sem triunfalismos ou ilusões. Cumprimos as obrigações que assumimos e evitámos a bancarrota. O cenário de emergência foi afastado do nosso horizonte. Mostrámos ao Mundo que Portugal é um país credível, que os Portugueses são um povo que cumpre a palavra dada.

As incertezas que pairaram sobre a nossa economia estão agora mais atenuadas. Há razões para ter esperança na recuperação do investimento. O relançamento económico da União Europeia, de longe o primeiro mercado das nossas exportações, encontra-se em curso de uma forma sustentada.

Mas não podemos esquecer que Portugal é uma economia aberta, que depende muito do exterior.

Não podemos desperdiçar o capital de credibilidade que conquistámos à custa de tantos sacrifícios, mas temos também o direito de esperar das instituições europeias a solidariedade e o apoio que soubemos merecer graças ao nosso sentido de responsabilidade. De igual modo, conquistámos o direito de exigir que seja atribuída maior prioridade a uma agenda europeia orientada para o crescimento económico e para a criação de emprego.

O futuro reserva-nos, certamente, algumas decisões difíceis, porque não podemos esquecer as regras de disciplina orçamental a que todos os Estados-membros da Zona Euro estão sujeitos. Mas se as forças políticas revelarem o mesmo espírito patriótico demonstrado pelo nosso povo, tais decisões poderão ser tomadas num ambiente de maior serenidade e confiança.

Portugueses,

Em tempos de grandes dificuldades, que atravessámos e continuamos a atravessar, não nos resignámos, não baixámos os braços.

Porque tivemos a coragem da esperança, temos agora de dar razões de esperança aos Portugueses. É uma esperança legítima, porque merecida ao fim de muitos sacrifícios.

Se todos têm direito à esperança, devemos atender em especial àqueles que sentem mais dificuldades em fazer ouvir a sua voz.

Desde logo, os idosos, os reformados e pensionistas, aqueles que chegaram ao fim de uma vida de trabalho e têm o direito a uma existência digna. Portugueses que descontaram para os sistemas de protecção social cumprindo as leis da República e que não têm possibilidade de regressar à vida activa e encontrar fontes alternativas de rendimento.

Temos também de trazer esperança àqueles que perderam os seus postos de trabalho, especialmente aos desempregados de longa duração, aos Portugueses que, pela sua idade ou pelo nível das suas qualificações, enfrentam maiores dificuldades de retorno ao mercado de trabalho. Portugal não pode desperdiçar a experiência de uma geração inteira. O combate ao desemprego através da criação de novos postos de trabalho deve ser assumido como uma prioridade nacional pelos agentes políticos e económicos. A política e a economia existem em função das pessoas, da sua dignidade e da melhoria das suas condições de vida.

Devemos pensar também nos nossos jovens, que têm a audácia da esperança. Investiram na sua formação e qualificação e têm uma enorme vontade de trabalhar e de vencer. Possuem um conhecimento do Mundo como nenhuma geração anterior possuiu. Muitos destacam-se como cientistas de excepção, outros têm talento empreendedor e aspiram pôr em prática as suas ideias inovadoras, contribuindo para a modernização e para o dinamismo da economia portuguesa. Ambicionam colocar as suas capacidades ao serviço do seu próprio País e não querem ter de partir rumo ao estrangeiro.

Nesta nova fase da vida nacional, os reformados e os pensionistas e os jovens têm direito à esperança.

A coragem da esperança estende-se, no entanto, a muitos outros grupos da nossa sociedade.

Aos empresários, para quem o reforço do clima de confiança é decisivo nas suas decisões de investimento e de criação de emprego.

Aos trabalhadores, que esperam uma melhoria das suas condições de vida e de bem-estar.

Às populações que vivem no interior do País, que têm a esperança de que o próximo programa de financiamento europeu implique um novo olhar às assimetrias de desenvolvimento e ao problema do despovoamento.

Portugueses,

Portugal enfrentou, nos últimos três anos, a maior crise da sua História recente. Porque tivemos a coragem da esperança, soubemos vencer as adversidades de um tempo muito difícil.

É fundamental evitarmos os erros do passado. Não podemos voltar a uma situação como aquela que vivemos quando fomos obrigados a recorrer ao auxílio externo. Repito: devemos estar atentos.

Da mesma forma que estiveram conscientes das exigências da crise, os Portugueses sabem bem que só através de um crescimento económico sustentado conseguiremos resolver os nossos problemas de forma estável e consistente, numa perspectiva de médio prazo.

Importa igualmente lutar para que os valores da justiça social sejam concretizados através de uma distribuição mais equitativa dos rendimentos e de políticas públicas orientadas para o combate à pobreza e à exclusão e para a promoção da mobilidade social.

Assistimos hoje em todo o mundo, mas também em Portugal, ao nascimento de novas formas de desigualdade. A escola e a excelência do ensino, aliadas à dignificação da actividade docente, constituem elementos fundamentais para a construção de um Portugal mais justo.

Na promoção da justiça social e do bem-estar, a prestação de cuidados de saúde de qualidade afigura-se igualmente como uma prioridade. Os Portugueses revêem-se e têm apreço pelo seu Serviço Nacional de Saúde e desejam que este modelo seja preservado e melhorado.

Os Portugueses têm direito a esperar que as principais forças políticas e as suas lideranças adoptem uma atitude e uma cultura em que o superior interesse nacional seja colocado acima dos interesses partidários. Que sejam capazes de ultrapassar as divergências do tempo curto dos ciclos políticos e eleitorais e compreendam que Portugal enfrenta desafios que nos remetem para um tempo longo, para um horizonte alargado que ultrapassa os mandatos dos governantes.

Os desafios que temos diante de nós, de todos nós, só podem ser vencidos através de uma cultura de compromisso. Adiar por mais tempo um entendimento partidário de médio prazo sobre uma trajectória de sustentabilidade da dívida pública e sobre as reformas indispensáveis ao reforço da competitividade da economia é um risco pelo qual os Portugueses poderão vir a pagar um preço muito elevado.

O tempo de diálogo que se estende agora até à discussão do próximo Orçamento do Estado será o mais indicado para que as forças políticas caminhem no sentido da concretização do direito à esperança dos Portugueses, numa perspectiva temporal mais ampla, situada para além de vicissitudes partidárias ou de calendários eleitorais. É essa a responsabilidade das forças partidárias.

Portugueses,

Este ano de 2014 abre um caminho de esperança. Mas, para ter esperança no futuro, devemos continuar a trabalhar no presente. Não podemos ficar à espera, passivamente, que a situação se altere por si mesma. Ambicionamos viver num país melhor e para isso temos que juntar esforços e unir vontades. Cada um tem de contribuir para que a esperança de todos se realize.

Ao longo destes anos difíceis, os Portugueses deram prova de um notável sentido patriótico de responsabilidade. Têm agora o direito de exigir que os agentes políticos actuem de modo idêntico. Sabemos que ainda há um longo caminho a percorrer para alcançarmos a sociedade mais justa e desenvolvida com que sonhámos há 40 anos.

O povo português tem a coragem do sonho e a força da esperança. A História mostra-nos que não somos melhores nem piores do que os outros. Somos diferentes, somos Portugueses. É essa singularidade que nos distingue dos outros povos do mundo. É essa singularidade, esse modo único de ser português, que celebramos no dia de hoje, o Dia de Portugal.

Viva Portugal!"





O discurso de Cavaco Silva às Forças Armadas no 10 de Junho de 2014


No seu discurso às Forças Armadas, durante a cerimónia militar no Parque Urbano do Rio Diz, na Guarda, o Presidente da República começou por prestar homenagem aos soldados portugueses que foram enviados para a primeira guerra mundial, sem preparação nem equipamento, para combater e morrer.
A seguir alertou para a necessidade de salvaguardar a capacidade operacional das Forças Armadas e defendeu que devem ter um estatuto especial e privilégios de classe.

Discurso que ficou marcado por uma indisposição de Cavaco Silva, num momento em que se ouvia o ruído dos protestos de uma centena de sindicalistas, o que obrigou a interromper a cerimónia durante 25 minutos. Depois de assistido nas traseiras da tribuna, o Presidente retomou a sua intervenção, recebendo uma salva de palmas dos guardenses que assistiam às cerimónias:

10 Jun, 2014, 12:02

"Este ano, evocamos o centenário do início da Primeira Grande Guerra. Importa recordar todos aqueles que sucumbiram e se sacrificaram ao serviço da Nação nos campos de Batalha da Flandres, de Angola e de Moçambique, mas cabe também reflectir sobre as circunstâncias que rodearam a nossa participação no conflito.

Recordar para entender as gerações que nos precederam, as razões das suas lutas, os caminhos que trilharam e as opções que fizeram. Recordar para aprender com os nossos feitos e os nossos erros, porque o País que ignora a História, que não recorda e não aprende com o seu passado, tende a repetir os mesmos erros no futuro.

A Grande Guerra foi antecedida, na Europa, por um período marcado pelo progresso tecnológico e pela inovação artística e cultural. Alguns chamaram-lhe a “idade dourada da segurança”. Em pouco tempo, esta situação alterou-se, com o desencadear de um conflito mundial que surpreendeu pela sua brutalidade e destruição, dilacerando povos e países.

A eclosão deste conflito encontrou Portugal extremamente fragilizado. Internamente, via-se a braços com uma profunda crise política, económica e social e, externamente, defrontava-se com ameaças aos seus territórios ultramarinos e com a necessidade de reconhecimento e legitimação internacional do novo regime republicano.

A decisão de participar na Guerra foi tomada sem os indispensáveis consensos e sem ter em conta a débil capacidade militar existente.

Um combatente de então retrata bem a realidade da época: “lançado, inesperadamente, numa Guerra que estava longe de prever, o país viu-se em dificuldades, com um exército desprovido de organização apropriada, sem uniformes, sem armamento, sem munições, sem transportes e sem dinheiro”.

A falta de preparação do País para assumir tão importante compromisso reflectiu-se, por um lado, no aprontamento apressado do Corpo Expedicionário Português, que ficou conhecido, sugestivamente, como o “Milagre de Tancos”, e, por outro lado, na incapacidade de projectar e apoiar as Tropas portuguesas em França e em África, remetendo-as ao total abandono.

Houve incúria na preparação, alheamento na execução e esquecimento no regresso. As decisões tomadas nos corredores de Lisboa não se revelaram ajustadas, ignoraram os avisados pareceres militares, interferindo abusivamente na acção de comando.

Pode dizer-se que os militares que foram para a Flandres e para África nada tinham senão a coragem.

E foi somente a coragem, a valentia demonstrada pelos soldados no Campo de Batalha que permitiu honrar Portugal com o desfile do seu contingente, ao lado dos aliados, na parada da Vitória sob o Arco do Triunfo e que permitiu a salvaguarda das possessões ultramarinas.

(...)

Este centenário deve, também, constituir-se para a Europa e para o Mundo como um momento de reflexão sobre os rumos e as opções que diariamente se assumem.

Assiste-se hoje a uma perigosa indiferença perante importantes questões de segurança, negligenciando-se as causas geradoras de conflitos, nomeadamente o recrudescimento dos nacionalismos e a irrupção das tendências separatistas.

Os recentes acontecimentos no Mundo e, em particular, na Europa aí estão para o comprovar.

A reflexão que nos merece esta página da nossa História é que a segurança e a paz não são dados adquiridos. Dependem da vontade e das decisões de terceiros e da confluência de circunstâncias várias.

Em termos nacionais, é essencial a existência de Forças Armadas prontas e preparadas para servir o País, com uma capacidade de resposta adequada e assente na eficácia da organização, na qualidade dos equipamentos e na motivação dos seus quadros e tropas.

A complexidade do processo obriga a uma preparação rigorosa e demorada. Os Exércitos não se improvisam. Preparam-se.

(...)

Neste quadro, e como afirmei recentemente, identificam-se duas importantes áreas de actuação.

Uma, a salvaguarda da capacidade operacional. Portugal precisa de umas Forças Armadas credíveis, coesas e treinadas, capazes de assegurar o cumprimento das suas missões dentro e fora do território nacional.

A outra, as pessoas. Porque é nelas que reside a força, a determinação e o culto dos valores nacionais das Forças Armadas. É sobre elas que recai a responsabilidade do exercício da função e que se fazem sentir as maiores dificuldades. É por isso que a acção de comando deve ser centrada nas pessoas, dando especial atenção aos problemas concretos dos militares.

Pela sua importância e pelos reflexos na coesão, no moral e na disciplina, é legítima a expectativa dos militares quanto ao processo de instalação do Hospital das Forças Armadas e, também, quanto ao resultado do trabalho conjunto, entre os Chefes Militares e a tutela, em relação à proposta de revisão do seu Estatuto."





10/06/2014 - 10:38


*

Hoje não foi Cavaco Silva quem foi desrespeitado durante o discurso que proferia às forças armadas no âmbito das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.
Foi o Presidente da República no cumprimento do dever de honrar o povo que o elegeu.

Pouca cultura terá aquele que não perceber a diferença. As gentes da Guarda perceberam. Vexados ficaram os professores que obedecem acéfala e caninamente ao indivíduo boçal que comandou uma manifestação no dia da festa de todos os portugueses. Além de ensinar, um professor também tem a missão de educar os alunos, empenhando-se em ser uma referência na sociedade. Doravante os intervenientes neste deplorável episódio não mais poderão lamentar-se quando forem desrespeitados dentro de uma sala de aula.

Que este acontecimento, porém, possa induzir a uma reflexão por parte de políticos arrogantes.
Quando aqueles que sempre respeitaram os seus concidadãos, se orientaram pelo princípio do mérito e trabalharam uma vida inteira no ensino com brio são abandonados aos insultos da populaça e ao arbítrio de gente torpe que atingiu cargos de chefia pelos tortuosos caminhos desta peculiar democracia, e por esta gente são destruídos, a barreira que protege os políticos vai-se dissolvendo nas brumas da memória.

E um dia chega a vez deles serem injuriados, vilipendiados e perseguidos. Hoje foi esse dia.


domingo, 10 de junho de 2012

10 de Junho


Discurso do Presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, Professor Doutor António Sampaio da Nóvoa:





"Senhor Presidente da República,
Senhor Presidente da República de Cabo Verde,
Altas Individualidades presentes nesta cerimónia,
Minhas Senhoras e Meus Senhores,

As palavras infelizmente não mudam a realidade. Mas ajudam-nos a pensar, a conversar, a tomar consciência. E a consciência, essa sim, pode mudar a realidade.

As minhas primeiras palavras são, por inteiro, para os portugueses que vivem situações de dificuldade e de pobreza, de desemprego, que vivem hoje pior do que viviam ontem.

É neles que penso neste 10 de Junho.

Porque a regra de ouro de qualquer contrato social é a defesa dos mais desprotegidos. "Penso nos outros, logo existo" (José Gomes Ferreira). É o compromisso com os outros, com o bem de todos, que nos torna humanos.

Portugal, o nosso País, conseguiu sair de um longo ciclo de pobreza, marcado pelo atraso e pela sobrevivência. Quando pensávamos que este passado não voltaria mais, eis que a pobreza regressa, e agora sem as redes das sociedades tradicionais.

Começa a haver demasiados “portugais” dentro de Portugal. Começa a haver demasiadas desigualdades. E uma sociedade fragmentada é facilmente vencida pelo medo e pela radicalização.
Façamos, pois, um armistício connosco, um armistício com o país. Mas não façamos, uma vez mais, o erro de pensar que a tempestade é passageira e que logo virá a bonança. Não virá. Tudo está a mudar à nossa volta. E nós também.

Afinal, afinal a História ainda não tinha acabado. E hoje, mais do que nunca, precisamos de ideias novas que nos dêem um horizonte de futuro. Precisamos de alternativas. E há sempre alternativas.

A arrogância do pensamento inevitável é o contrário da liberdade. E nestes estranhos dias, duros e difíceis, podemos prescindir de tudo, mas não podemos prescindir nem da Liberdade nem do Futuro.

O futuro, Minhas Senhoras e Meus Senhores, está no reforço da sociedade e na valorização do conhecimento, está numa sociedade que se organiza com base no conhecimento.

"Há a liberdade de falar e há a liberdade de viver, mas esta só existe quando se dá às pessoas a sua irreversível dignidade social" (Miguel Torga).

Gostaria de recordar perante vós o célebre discurso de Franklin D. Roosevelt, proferido num tempo ainda mais difícil do que o nosso, em 1941. Diz Roosevelt: "A democracia funda-se em coisas básicas e simples: igualdade de oportunidades; emprego para os que podem trabalhar; segurança para os que dela necessitam; fim dos privilégios para poucos; preservação das liberdades para todos".

Numa situação de guerra, Roosevelt sabia que os sacrifícios têm de basear-se numa forte consciência do social, do interesse colectivo, uma consciência que fomos perdendo na vertigem do económico; pior ainda, que fomos perdendo para interesses e grupos, sem controlo, que concentram a riqueza no mundo e tomam decisões à margem de qualquer princípio ético ou democrático. É uma realidade inaceitável.

Neste mar de águas revoltas, é preciso manter o rumo, ter a sabedoria de separar o acessório do fundamental. A Europa não é uma opção, é a nossa condição. Uma Europa com uma nova divisa: liberdade, diversidade, solidariedade.

A Europa é o nosso futuro, mas não nos iludamos. "Ou nos salvamos a nós, ou ninguém nos salva" (Manuel Laranjeira). Falemos, pois, de Portugal e dos portugueses.

Pelo Tejo fomos para o mundo… mas quantas vezes estivemos ausentes dentro de nós? "Preferimos a Índia remota, incerta, além dos mares, ao bocado de terra em que nascemos" (Teixeira de Pascoaes).

A Terra ou o Mar? Portugal ou o Mundo? A pergunta foi feita por todos aqueles que pensaram Portugal.

No final do século XIX, um homem da Geração de 70, Alberto Sampaio, explica que "as nossas faculdades se atrofiaram para tudo que não fosse viajar e mercadejar. Nunca nos preocupámos com a agricultura, nem com a indústria, nem com a ciência, nem com as belas-artes". As riquezas que fomos tendo “mal aportavam, escoavam-se rapidamente, porque faltava uma indústria que as fixasse”, e o património da comunidade, esse, “em vez de enriquecer, empobrecia”.

"Nos momentos de prosperidade não tratámos das duas questões fundamentais: o trabalho e o ensino. Nos momentos de crise é tarde: fundas economias na administração aumentariam os desempregados, e para a reorganização do trabalho falta o capital; falta o tempo, porque a fome bate à porta do pobre. Então a emigração é o único expediente: silenciosa e resignadamente cada um vai partindo, sem talvez uma palavra de amargura."

Este texto foi escrito há 120 anos. O meu discurso poderia acabar aqui. Em silêncio.


Senhor Presidente da República,
Minhas Senhoras e Meus Senhores,

É esta fragilidade endémica que devemos superar. O heroísmo a que somos chamados é, hoje, o heroísmo das coisas básicas e simples — oportunidades, emprego, segurança, liberdade. O heroísmo de um país normal, assente no trabalho e no ensino.

Parece pouco, mas é muito, o muito que nos tem faltado ao longo da história.

Porque Portugal tem um problema de organização dentro de si:
  • Num sistema político cada vez mais bloqueado;
  • Numa sociedade com instituições enfraquecidas, sem independência, tomadas por uma burocracia e por uma promiscuidade que são fonte de corrupção e desperdício;
  • Numa economia frágil e sem uma verdadeira cultura empresarial.

Estão a surgir, é certo, sinais de uma capacidade de adaptação e de resposta, de baixo para cima. Precisamos de transformar estes movimentos numa acção sobre o país, numa acção de reinvenção e de reforço da sociedade.

Chegou o tempo de dar um rumo novo à nossa história.

Portugal tem de se organizar dentro de si, não para se fechar, mas para se abrir, para alcançar uma presença forte fora de si.

Não conseguiremos ser alguém na Europa e no mundo, se formos ninguém em nós.

Não é por sermos um país pequeno que devem ser pequenas as nossas ambições. O tamanho não conta; o que conta, e muito, é o conhecimento e a ciência.


Senhor Presidente de República,

O convite de V. Ex.ª, que muito agradeço, é um gesto de reconhecimento das universidades e do seu papel no futuro de Portugal.

Em Lisboa, na célebre Conferência do Casino (1871), Antero disse o essencial: "A Europa culta engrandeceu-se, nobilitou-se, subiu sobretudo pela ciência: foi sobretudo pela falta de ciência que nós descemos, que nos degradámos, que nos anulámos."

Antero tinha razão e o século XX ainda mais razão lhe veio dar. O drama de Portugal, do nosso atraso e da nossa dependência, tem sido sempre o afastamento de sociedades que evoluíram graças ao conhecimento e à ciência.

Nas últimas décadas, realizámos um esforço notável no campo da educação (da escola pública), das universidades e da ciência.

Pela primeira vez na nossa história, começamos a ter a base necessária para um novo modelo de desenvolvimento, para um novo modelo de organização da sociedade.

É uma base necessária, mas não é ainda uma base suficiente.

Existe conhecimento. Existe ciência. Existe tecnologia. Mas não estamos a conseguir aproveitar este potencial para reorganizar a nossa estrutura social e produtiva, para transformar as nossas instituições e empresas, para integrar uma geração qualificada que, assim, se vê empurrada para a precariedade e para o desemprego.

É este o nosso problema: a ligação entre a universidade e a sociedade. É esta a questão central do país: uma organização da sociedade com base na valorização do conhecimento.

Insisto. Apesar de todos os contratempos, Portugal tem hoje uma capacidade instalada, nas universidades e na ciência, que nos permite sair de uma posição menor, periférica, e superar o fosso tecnológico que se cavou entre nós e a Europa.

Não temos tempo para hesitações. As universidades vivem de liberdade, precisam de ser livres para estarem à altura do que a sociedade lhes pede.

É por aqui que passa o nosso futuro, pela forma como conseguirmos ligar as universidades e a sociedade, pela forma como conseguirmos que o conhecimento esteja ao serviço da transformação das nossas instituições e das nossas empresas.

É por aqui que passa o nosso futuro, um outro futuro para Portugal.


Minhas Senhoras e Meus Senhores,

Também Lisboa se está a transformar graças à criação, à energia da cultura e da ciência, graças aos estudantes que aqui chegam de todas as partes do mundo.

Lisboa é dos poetas. Em Abril, a poesia esteve na rua e fez-nos emergir da noite e do silêncio. A poesia volta sempre à rua, através desta língua que é a nossa mátria, desta língua que nos permite estar connosco e com os outros, nas comunidades que nos multiplicaram pelo mundo e nos países que são parte de nós.

25 anos depois, não esqueço José Afonso: "Enquanto há força, cantai rapazes, dançai raparigas, seremos muitos, seremos alguém, cantai também".

Cantemos todos. Por um país solidário. Por um país que assegura o direito às coisas básicas e simples. Por um país que se transforma a partir do conhecimento.

Não podemos ser ingénuos. "Mas denunciar as ingenuidades não significa pôr de lado as ilusões, não significa renunciar à busca de um país liberto, de uma vida limpa e de um tempo justo" (Sophia).

Foi esta busca que me trouxe ao Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas."


sexta-feira, 10 de junho de 2011

Va Pensiero, Nabucco, Verdi


Va Pensiero da ópera Nabucco de Verdi, interpretado pelo Coro da Metropolitan Opera House, New York, em 2002.



Va, pensiero, sull'ali dorate,
Va, ti posa sui clivi, sui colli
Ove olezzano tepide e molli
L'aure dolci del suolo natal!
Del Giordano le rive saluta,
Di Sionne le torri atterrate...
Oh mia patria, sì bella e perduta!
Oh membranza sì cara e fatal!
Arpa d'or dei fatidici vati
Perché muta dal salice pendi?
Le memorie nel petto riaccendi,
Ci favella del tempo che fu!
O simile di Solima ai fati,
Traggi un suono di crudo lamento,
O t'ispiri il Signore un concento
Che ne infonda al patire virtù,
che ne infonda al patire virtù,
che ne infonda al patire virtù, al patire virtù!
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Vai, pensamento, sobre asas douradas,
Vai, pousa nas encostas, nas colinas
Onde exala tépida e suave
A doce brisa da terra natal!
Saúda as margens do Jordão
E as destruídas torres do Sião...
Oh minha pátria, tão bela e perdida!
Oh recordação tão grata e fatal!
Harpa de ouro dos profetas fatídicos,
Por que pendes silenciosa do salgueiro?
Reacende a memória no coração,
Fala-nos dos tempos idos!
Similar ao destino de Solima,
Traz um som de cruel lamento,
Ou te inspire o Senhor uma melodia
Que nos infunda ânimo no sofrimento,
que nos infunda ânimo no sofrimento,
que nos infunda ânimo no sofrimento, ânimo no sofrimento!
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