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quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

Trump e o tratado de Tordesilhas

Numa longa conferência de imprensa convocada para anunciar um investimento de 20 mil milhões de dólares por Hussain Sajwain, empresário dos Emirados Árabes Unidos, para a construção de novos centros de dados visando o desenvolvimento da inteligência artificial, o presidente-eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou (50:10) na sua residência em Mar-a-Lago, na Florida:



"As pessoas não sabem se a Dinamarca tem qualquer direito legal sobre ela [a Groenlândia], mas se tiverem, devem abandoná-lo, porque necessitamos dela para a segurança nacional."

Depois de ter dito que queria que o Canadá fosse o 51º estado dos EUA, Trump recusou (53:10) nessa conferência que os EUA tencionassem anexar o Canadá usando força militar, mas sim força económica, porque perdem anualmente "200 mil milhões de dólares" nas trocas comerciais com o Canadá, sobretudo na importação de automóveis e laticínios.


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Há cerca de 500 anos, o nosso rei João II e os Reis Católicos Fernando e Isabel dividiram o mundo por um meridiano que permitia a Portugal ficar com o Brasil (ainda não descoberto oficialmente) e todo o leste até aos confins da Ásia — tratado de Tordesilhas (1494).

Imaginem que a Terra é uma tangerina com 24 gomos. Reparem no Árctico: Rússia é a casca de 10,5 gomos, o Alasca de 2 gomos.
By Quentin Bernard - Own work, CC BY-SA 4.0

No anterior mandato, Trump já falara na compra da Groenlândia, transformar o Canadá no 51º estado deve ser ideia do inteligente Musk — com estes territórios, os EUA passam a ser a casca de 10,5 gomos. Os restantes 3 gomos (Reino Unido, Noruega) pertencem à NATO, onde mandam os EUA.

Conclusão: Estados Unidos e Rússia dividem as reservas de petróleo do Árctico nos próximos séculos com um novo tratado de Tordesilhas. Entretanto o petróleo acabará, mas o desenvolvimento das energias renováveis — acredito mais que será a fusão nuclear — permitirá substituí-lo.


quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

Putin anuncia operação militar no Donbass


Numa declaração televisiva, o presidente da Federação Russa acaba de anunciar a realização de uma operação militar especial no território das repúblicas do Donbass cuja independência foi reconhecida pelo parlamento russo na passada terça-feira:


"As repúblicas populares de Donbass recorreram à Rússia com um pedido de ajuda. A este respeito, de acordo com o artigo 51, parte VII da Carta da ONU, com a decisão do Conselho da Federação da Rússia e em conformidade com os tratados ratificados pela Assembleia Federal, em 22 de Fevereiro de 2022, de amizade e assistência mútua com as Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk, decidi realizar uma operação militar especial.
O objectivo é proteger as pessoas que foram submetidas a torturas e genocídio pelo regime de Kiev durante 8 anos. Para isso, visaremos a desmilitarização e a desnazificação da Ucrânia e processaremos aqueles que cometeram inúmeros massacres, inclusive contra os cidadãos russos."

Putin sublinhou que a Rússia não planeia ocupar a Ucrânia, mas esclareceu que a resposta de Moscovo seria "instantânea" se alguém tentasse impedir esta operação militar especial.


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O artigo 51 do capítulo VII da Carta da ONU, referido por Putin, prevê o direito dos países de se empenharem na legítima defesa, incluindo legítima defesa colectiva, contra um ataque armado.

Este artigo foi citado pelos Estados Unidos da América para justificar a legalidade da sua intervenção na Guerra do Vietname entre 1959 e 1973: "Os Estados Unidos argumentaram de forma convincente que, embora o Vietname do Sul não seja um Estado soberano independente ou membro das Nações Unidas goza, no entanto, do direito de autodefesa, e os Estados Unidos têm o direito de participar na sua defesa colectiva." (The Charge of Criminal Conduct in Vietnam B.1. §4).

Agora é a Rússia que invoca o artigo 51 para justificar uma operação militar. E numa região onde a população russa é maioritária. No entanto, o artigo 51 é considerado de difícil aplicação com justeza na vida real.

Terminada a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) conseguiu estabelecer regimes socialistas, não só em parte da Alemanha, mas também em todos os países europeus do Leste. Face a esta ameaça, os países europeus ocidentais e os Estados Unidos criaram uma organização militar, a NATO, em Abril de 1949.

Com a integração da Alemanha Ocidental na NATO, em Maio de 1955, foi a vez da URSS e aliados socialistas se sentirem ameaçados e criarem uma aliança militar — o Pacto de Varsóvia.

O decorrer do tempo, porém, veio demonstrar que economias estatizadas acabam por definhar. O Pacto de Varsóvia desfez-se e a União Soviética implodiu em Dezembro de 1991.

Assinatura dos Acordos de Belovezh — que declararam a cessação da URSS e estabeleceram a Comunidade de Estados Independentes (CEI) como sucessora — pelos líderes de três das quatro repúblicas que tinham assinado o Tratado de 1922 que criou a URSS: todos sentados, o presidente ucraniano (segundo à esquerda), o presidente do parlamento bielorrusso (terceiro à esquerda) e o presidente russo Boris Yeltsin (segundo à direita). Bielorrússia, em 8 de Dezembro de 1991.


França, Alemanha e Itália são economias fortes que podiam disponibilizar fundos para financiar o desenvolvimento das economias dos países europeus do bloco de Leste. Não só estes, mas até os países — Estónia, Letónia e Lituânia — que se declararam independentes em relação à União Soviética solicitaram a entrada na União Europeia. Serem os Estados Unidos a arcar com despesas militares desses países foi um aliciante para começarem também a aderir à NATO a partir de 1997.
Em 1997, três países do antigo Pacto de Varsóvia — Polónia, República Checa e Hungria — foram convidados, convertendo-se em membros da NATO em 1999. Eslováquia, Roménia, Bulgária, três repúblicas socialistas soviéticas — Estónia, Letónia e Lituânia — e Eslovénia aderiram na cimeira de Istambul de 2004. Albânia e Croácia em 2009, o Montenegro em 2017 e a Macedónia do Norte em 2020. A NATO passou de 16 para 30 membros.
Repúblicas que pertenciam à URSS: na Europa, Estónia, Letónia, Lituânia (passaram para a NATO), Bielorrússia, Moldávia e Ucrânia; na Ásia, Geórgia, Azerbeijão e Arménia.
(Ver comparação das forças militares da Rússia e dos Estados Unidos actualizada; ver valores das forças militares da maioria dos Estados Membros da NATO actualizados)


A cimeira de Bucareste, em Abril de 2008, foi a cereja em cima do bolo para a NATO, de tal modo que comentou efusivamente na declaração final (§23): "A NATO congratula-se com as aspirações euro-atlânticas da Ucrânia e da Geórgia para a adesão à NATO. Concordámos hoje que esses países se tornarão membros da NATO".

Acontece que, se este desiderato se concretizasse, a Rússia ficava com tropas, tanques e aviões de guerra da NATO em número muito superior ao das suas forças armadas na fronteira europeia, ou seja, excepto na fronteira finlandesa e bielorrussa, ficava sitiada.

Quando a União Soviética instalou mísseis em Cuba, em 1962, os Estados Unidos protestaram, e com razão, apesar de existir mais de 140 km de mar entre os dois países, além de disporem da Base Naval de Guantánamo na ilha. E os soviéticos tiveram de retirar os mísseis.

Em Novembro de 2013, teve início em Kiev, a capital da Ucrânia, uma onda de manifestações e protestos — Euromaidan (praça do Euro) — desencadeados pela decisão do governo de não assinar o acordo de associação Ucrânia-União Europeia e preferir estreitar os laços com a Rússia e a União Económica da Eurásia.
Os confrontos com a polícia deram origem à formação de milícias paramilitares de extrema-direita que preferiam a integração do país na rica União Europeia. Em Fevereiro de 2014, estes grupos ocuparam e ergueram barricadas na Maidan (praça central) de Kiev, efectuaram um golpe de Estado e procederam à eleição de um governo por votação de braço no ar.

O relacionamento com a Rússia deteriorou-se, não obstante ambos os países terem tido origem na Kievan Rus' (Rússia de Kiev) — uma federação de povos eslavos orientais, bálticos e fínicos no leste e norte da Europa, entre 862 e 1240, até à invasão mongol comandada por Batu Khan, neto de Gengis Khan — que teve Kiev como capital.

Kievan Rus' de 1054 a 1132. É o embrião histórico da Rússia, Bielorrússia e Ucrânia que recebeu a capital Kiev.


O pomo da discórdia foi a península da Crimeia. Conquistada pelo Império Russo em 1783, aí foram instaladas as bases navais da Frota do Mar Negro em 1790. Após a Guerra Civil Russa (1917–1921) ficou integrada na república socialista soviética Russa até que, inopinada e ilegalmente, Nikita Khrushchev decidiu transferi-la para a sua congénere Ucraniana, em 1954.

A seguir à implosão da União Soviética, em Maio de 1992, o parlamento da Crimeia adoptou uma declaração de independência (pág.194-195), anulada ao fim de poucos dias pelo parlamento ucraniano por entre ameaças de que a península ou seria ucraniana ou despovoada.
Em 1997, o ambiente político tornou-se mais favorável e foram assinados vários Tratados entre a Ucrânia e a Rússia que garantiam à Rússia o uso das suas Bases Navais na Crimeia. Estes acordos seriam postos em causa se a Ucrânia aderisse à NATO conforme prometido na cimeira de Bucareste de 2008.

Com mais de 75% da população a ocidente dos Montes Urais, a Rússia possui o maior e o mais populoso território do continente europeu, mas tem acesso difícil ao oceano Atlântico: a costa setentrional, banhada pelo oceano Glacial Ártico, está gelada quase todo o ano e a saída pelo mar Báltico é estrangulada entre a Dinamarca e a Suécia. As bases navais do Mar Negro são essenciais.

Cercada por terra e por mar pela NATO, a Rússia terá começado a sentir-se a rã dentro de uma panela com água a aquecer em fogo lento.

Se a Euromaidan criou o problema, então ao eliminar temporariamente a legalidade, permitiu resolver o imbróglio. Em Março de 2014, a Rússia invadiu a Crimeia, criando condições para a realização de um referendo. A população da Crimeia é maioritariamente russa, logo o referendo não só concedeu a independência à Crimeia — num processo que a Rússia considera análogo à independência do Kosovo (2008) em relação à Sérvia, após os ataques aéreos da NATO, em 1999 —, mas também permitiu a sua incorporação na Rússia com o estatuto de República da Crimeia.

Percentagem da população, por oblast (província), que tem o russo como língua materna.
Caro leitor, se dispuser de uma hora, assista a esta excelente palestra do professor John Mearsheimer.

Nas províncias do Donbass, a maioria da população também tem o russo como língua materna e foi esmagada pelo crescimento do nacionalismo ucraniano. Tratados como uma minoria étnica e linguística uma lei de Julho de 2019 obrigou a conversão das escolas de língua russa para língua ucraniana, até Setembro de 2020, mas concedeu mais três anos às minorias polacas, húngaras e romenas ocidentais para se adaptarem ao ucraniano como língua de instrução , revoltaram-se contra as tentativas de discriminação por parte de líderes políticos de extrema-direita e lutam há 8 anos pela independência, numa guerra com 13.000 mortos, contra as forças armadas ucranianas.

Os Acordos de Minsk de 2015, assinados pelo Grupo de Contacto Trilateral sobre a Ucrânia — composto pela Ucrânia, Rússia e a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) —, impuseram um cessar-fogo e previam a realização de eleições locais em Donetsk e Lugansk.
Aquando das eleições locais na Ucrânia, em Outubro de 2015, os líderes dessas regiões separatistas tentaram implementá-las, mas o Grupo aconselhou o seu adiamento para serem adequadamente preparadas, tendo pedido à Rússia para exercer a sua influência. Assim aconteceu, sendo as eleições sucessivamente adiadas até que os líderes locais deram o prazo de 2017 para eleições, ou sob os acordos de Minsk ou de forma independente.
As eleições acabaram por se realizar em Novembro de 2018, saindo vitoriosos os líderes separatistas. Então a Ucrânia declarou que era impossível implementar os acordos de Minsk.

Há cerca de três meses, a Rússia exigiu que a NATO rescindisse o compromisso de 2008 com a Ucrânia e a Geórgia — duas repúblicas da União Soviética até Dezembro de 1991 — de que um dia se tornariam membros e disse que aquela aliança militar devia prometer não implantar armas em países que fazem fronteira com a Rússia que possam ameaçar a sua segurança. A resposta da NATO foi um retumbante não. Obviamente os russos tinham de aventurar-se a saltar da panela antes de ficarem cozidos.



quarta-feira, 4 de novembro de 2020

U.S. eleições 2020

Durante o dia de ontem, 3 de Novembro de 2020, decorreram, nos Estados Unidos, eleições para a presidência, para 35 dos lugares do Senado e para todos os 435 lugares da Casa dos Representantes.

Os Estados Unidos da América são uma república federal constituída por 50 Estados e pelo distrito federal Washington, D.C. (District of Columbia) que é a capital do país.

Os votos estão a ser contados em todos os Estados e, na maior parte deles, as percentagens já obtidas permitem saber quem será o potencial vencedor.
A BBC apresenta os Estados onde o potencial vencedor pertence ao Partido Republicano coloridos a encarnado e, se pertencer ao Partido Democrático, a azul.
Todas as atenções estão focadas nos Estados coloridos num tom mais claro onde há a liderança de um candidato, mas as percentagens ainda são insuficientes para conhecer o potencial vencedor.


Eleição presidencial. Esta é a imagem actual:


Ver próximas actualizações na BBC ou no New York Times.
Eis a imagem actual aumentada:


Até agora, Biden tem 224 votos no colégio eleitoral e Trump tem 213. Para ganhar a presidência são necessários 270 votos.

Estima-se que Donald Trump, o actual presidente dos Estados Unidos, venha a ganhar no Alasca (3 votos eleitorais), Michigan (16 votos eleitorais) e Pensilvânia (20 votos eleitorais), e a perder em Nevada (6 votos eleitorais), Arizona (11 votos eleitorais) e Maine (4 votos eleitorais), o que lhe permitiria obter 213+39=252 votos eleitorais contra 224+21=245 votos eleitorais de Joe Biden.
Há disputas acirradas no Wisconsin (10 votos eleitorais), Carolina do Norte (15 votos eleitorais) e Geórgia (16 votos eleitorais), no total de 41 votos eleitorais, o que prefaz os 252+245+41= 538 membros do colégio eleitoral da república.


Nas eleições para 35 dos lugares do Senado é clara a vitória dos candidatos do Partido Republicano que, assim, reforçam a sua maioria na câmara alta do Congresso:



Nas eleições para todos os 435 lugares da Casa dos Representantes também é clara a vitória dos candidatos do Partido Republicano que, deste modo, recuperam a maioria na câmara baixa do Congresso:



terça-feira, 10 de março de 2020

O que é a COVID-19 (Coronavirus Disease 2019)?


O que já se sabe sobre a doença causada pelo novo coronavírus que surgiu na China e se está a disseminar por todo o mundo?


Plataforma informática dos casos de COVID-19 do Center for Systems Science and Engineering (CSSE) da Johns Hopkins University aqui.


Vamos apoiarmo-nos na informação do Centers for Disease Control and Prevention (CDC), o principal instituto nacional de saúde pública dos Estados Unidos.
O CDC é uma agência federal dos Estados Unidos, sob tutela do Departamento de Saúde, focada no controle e prevenção de doenças, especialmente doenças infecciosas. A partir de 2013, os laboratórios de biossegurança de nível 4 do CDC contam-se entre os poucos que existem no mundo, sendo um dos dois únicos repositórios oficiais (o outro situa-se na Rússia) de varíola, uma doença erradicada em 1980 graças a uma campanha mundial de vacinação.



Esta é uma imagem do Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2 (SARS-CoV-2) que causa uma doença chamada Coronavirus Disease 2019 (COVID-19).


Origem e disseminação do vírus

Os coronavírus são uma grande família de vírus comuns em pessoas e em muitas espécies diferentes de animais, incluindo camelos, gado, felinos e morcegos. Os coronavírus dos animais podem, raramente, infectar pessoas e depois disseminar-se entre pessoas como aconteceu com o SARS-CoV na China, em 2003, o MERS-CoV na Arábia Saudita, em 2012, e agora com este novo vírus chamado SARS-CoV-2.

Tal como o SARS-CoV e o MERS-CoV, o vírus SARS-CoV-2 também é um betacoronavírus, um tipo de vírus proveniente de morcegos. As sequências de ARN de pacientes dos EUA são semelhantes às publicadas inicialmente pela China, sugerindo uma provável emersão recente e única deste vírus a partir de um reservatório animal.

O surto iniciou-se em Wuhan, província de Hubei, na China, com o epicentro num grande mercado de marisco e animais vivos, sugerindo a disseminação de animal para pessoa. Em seguida, o número crescente de pacientes sem exposição a mercados de animais pôs em evidência a disseminação de pessoa para pessoa. Esta disseminação de pessoa para pessoa transbordou para fora de Hubei e, posteriormente, para fora da China.
Actualmente, em alguns destinos internacionais, parece ocorrer uma disseminação comunitária, ou seja, não se sabe como, ou onde, algumas pessoas infectadas tiveram contacto com o novo coronavírus.

Gravidade da doença

O quadro clínico completo da COVID-19 não é totalmente conhecido. As doenças relatadas variaram de muito leves (incluindo algumas sem sintomas relatados) a graves, incluindo casos fatais.
Um relatório elaborado na China sugere que as doenças graves ocorrem em 16% dos casos. Pessoas idosas e pessoas de todas as idades com graves problemas de saúde subjacentes — como seja doenças cardíacas, pulmonares e diabetes, por exemplo — parecem estar em maior risco de desenvolver uma COVID-19 grave.

Avaliação de risco

Surtos de novas infecções por vírus entre as pessoas são sempre uma preocupação de saúde pública. O risco destes surtos, para a generalidade das pessoas, depende das seguintes características do vírus:
  • a velocidade de disseminação entre as pessoas;
  • a gravidade da doença resultante e
  • as iniciativas clínicas, ou outras, disponíveis para controlar o impacto do vírus (por exemplo, vacinas ou medicamentos para tratar a doença).
O facto desta doença ter causado enfermidades graves, incluindo enfermidades que resultam em morte, é preocupante, especialmente porque também mostrou uma disseminação sustentada de pessoa para pessoa. São dois dos critérios de uma pandemia. À medida que a disseminação comunitária é detectada em cada vez mais países, aproximamo-nos do cumprimento do terceiro critério de pandemia — disseminação mundial do novo vírus.

Avaliação de risco em 9 de Março de 2020:

  • Para a maioria das pessoas, o risco imediato de ser exposto ao vírus que causa a COVID-19 é baixo. Não há ampla circulação do vírus na maioria das comunidades nos Estados Unidos.
    [Na maioria das comunidades, em Portugal, também não]
  • As pessoas em locais onde foi relatada disseminação comunitária contínua do vírus causador da COVID-19 têm um risco elevado de exposição.
    [Em Portugal, isto sucede nos distritos de Viana do Castelo, Braga, Porto, Vila Real e Bragança e no concelho de Lisboa]
  • Os profissionais de saúde que cuidam de pacientes com a COVID-19 têm um risco elevado de exposição.
  • Contactos próximos com pessoas infectadas com o SARS-CoV-2 também têm um risco elevado de exposição.
  • Os viajantes que regressam de locais internacionais onde a disseminação comunitária está a ocorrer também têm um risco elevado de exposição, com o aumento do risco dependente do país/região.

Orientações de viagem

Os destinos internacionais dividem-se por três níveis de risco:
Aviso - Nível 3, Evite viagens não essenciais
Ampla transmissão comunitária
  • China
  • Irão
  • Itália
  • Coreia do Sul
Alerta - Nível 2, Precauções aprimoradas
Transmissão comunitária sustentada — precauções especiais para viajantes de alto risco
  • Japão
Atenção - Nível 1, Precauções habituais
  • Hong Kong

Viajantes provenientes de países com ampla transmissão comunitária que regressam aos Estados Unidos [Apelamos aos viajantes que regressam a Portugal para que implementem uma quarentena similar]
Fique em casa durante 14 dias a partir do momento em que deixou uma área com ampla disseminação comunitária contínua (Aviso - Nível 3) e pratique o distanciamento social.

Siga estas etapas para monitorizar a saúde e praticar o distanciamento social:
  1. Meça a temperatura com um termómetro duas vezes por dia e monitorize a febre. Observe também tosse ou dificuldade em respirar.
  2. Fique em casa e evite o contacto com outras pessoas. Não vá trabalhar ou à escola durante esse período de 14 dias [período de incubação médio]. Discuta a situação profissional com o seu empregador antes de retornar ao trabalho.
  3. Não use transporte público, táxi ou carro compartilhado durante o tempo em que pratica o distanciamento social.
  4. Evite lugares superlotados (tais como centros comerciais e cinemas) e limite as actividades em público.
  5. Mantenha distância de outras pessoas (cerca de 2 metros).

Destaques da resposta do CDC

Uma parte importante da função do CDC durante uma emergência de saúde pública é desenvolver um teste para o patógeno e equipar os laboratórios de saúde pública estaduais e locais com capacidade de teste.
  • O CDC desenvolveu um teste rRT-PCR para diagnosticar a COVID-19. O teste consiste numa Reacção em Cadeia da Polimerase com transcrição reversa (RT-PCR), em tempo real, que permite detectar pequenas quantidades do ARN viral.
    • Trata-se de uma técnica de laboratório em que ARN é convertido em ADN pela enzima Transcriptase Reversa (RT), e depois o ADN é amplificado por Reacção em Cadeia (desencadeada pela enzima) Polimerase (PCR). A reacção de amplificação é monitorizada por fluorescência durante a PCR (isto é, em tempo real), não no final como na PCR convencional. Daí chamar-se rRT-PCR.
    • Na noite de 8 de Março, 78 laboratórios de saúde pública estaduais e locais nos 50 Estados e no Distrito de Columbia foram verificados com sucesso e estão a usar os testes de diagnóstico da COVID-19.
    • Combinado com outros reagentes que o CDC adquiriu, existem kits de teste suficientes para testar mais de 75.000 pessoas.
    • Além disso, dois laboratórios do CDC estão a realizar testes para o SARS-CoV-2, podendo testar aproximadamente 350 amostras por dia.
  • O CDC também está a desenvolver um teste serológico para a COVID-19. Estes testes medem a concentração de anticorpos no sangue que são proteínas específicas produzidas em resposta às infecções. Esta resposta imunológica vai permitir detectar infectados que tiveram poucos sintomas ou foram assintomáticos.


Esta é uma foto do kit de teste laboratorial do CDC para o SARS-CoV-2. Os testes do CDC são fornecidos aos laboratórios estaduais e locais de saúde pública dos EUA, ao Departamento de Defesa e a laboratórios internacionais seleccionados.

O leitor interessado poderá encontrar informação actualizada no website da agência federal CDC.

Agora vamos ver um vídeo produzido pela empresa privada que Ryan Haynes e Shiv Gaglani começaram a construir quando eram estudantes de Medicina na Johns Hopkins University.
Fora da sala de aula, eles descobriram que as visualizações eram uma maneira mais eficaz de aprender Medicina. O que começou por ser uma ferramenta para ajudar Shiv, Ryan e os colegas transformou-se na actual Osmosis, uma plataforma abrangente que ajuda pessoas de todo o mundo a entenderem a saúde mais profundamente.

Centenas de milhares de médicos e estudantes de Medicina aprendem por vídeos de animação produzidos por esta empresa. Este narra a história da COVID-19 — causas, sintomas, diagnóstico, tratamento, patologia (seleccione as legendas em português):



  • Em 6:36 mostra-se que a perigosidade do SARS-CoV-2 é uma consequência da sua velocidade de disseminação R₀.
  • 7:40 O teste de diagnóstico consiste numa Reacção em Cadeia da Polimerase com transcrição reversa (RT-PCR), em tempo real, que permite detectar pequenas quantidades do ARN viral.
  • 7:55 O tratamento está focado em cuidados de suporte — fornecimento de líquidos, oxigénio e suporte ventilatório.
    Mas há três medicamentos eficazes em laboratório: cloroquina, um anti-malárico, ritonavir, um anti-viral usado contra o HIV, e remdesivir, um antiviral previamente usado contra o ébola.
    Este último foi administrado ao primeiro doente com COVID-19 nos Estados Unidos no 11º dia da doença, porque o seu estado clínico estava a piorar, e o doente começou a melhorar no dia seguinte. Estão a ser efectuados ensaios clínicos em larga escala na China.
  • 8:37 Como não é possível produzir uma vacina nos próximos meses, a prevenção consiste em evitar a transmissão entre pessoas ou isolar os doentes.
  • 10:37 Breve resumo
  • 11:37 Dedicatória ao Dr. Li Wenliang

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Para os negacionistas fica aqui uma imagem arrepiante dos cuidados intensivos do hospital de Cremona, na Itália, o segundo país com mais mortes por COVID-19, onde os médicos trabalham entre 12 e 14 horas por dia e dizem estar a viver num cenário de guerra:



As imagens foram captadas com câmara oculta pelo programa televisivo Piazzapulita.


quinta-feira, 5 de março de 2020

Recomendações para a COVID-19


O Estado da Califórnia, com 39,5 milhões de habitantes, tem 38 casos confirmados de Coronavirus Disease 2019 (COVID-19) e declarou ontem o estado de emergência.
Portugal, com cerca de 1/4 deste número de habitantes e um sistema nacional de saúde caótico, tem já 9 casos confirmados de pneumonia pelo novo coronavírus que parece ser de rápida propagação (tal como o vírus do sarampo), mas só a directora-geral da Saúde, Maria da Graça Freitas, está preocupada: "Estamos a ver a ponta do icebergue".





Horas antes do governador do Estado da Califórnia declarar uma emergência para todo o Estado, a cidade de Los Angeles declarou uma emergência de saúde devida ao coronavírus, alertando para a possibilidade de transmissão comunitária da doença que já causou 3.347 mortes em todo o mundo (supondo que o partido comunista chinês tem divulgado o número de mortes verídico nas diferentes províncias chinesas).

A medida ocorre depois de Los Angeles County ter confirmado seis novos casos do coronavírus e 7 no total, de acordo com a directora do Departamento de Saúde Pública desse município, Dra. Barbara Ferrer.

"Assinei uma declaração de emergência local para a cidade de Los Angeles", anunciou o prefeito Eric Garcetti, via Facebook. "Embora haja apenas alguns casos activos conhecidos de COVID-19 na região, a declaração ajuda-nos a aceder ao financiamento estadual e federal para fortalecer e apoiar os esforços para preparar a região e manter as nossas comunidades seguras".

A presidente do conselho de supervisores do município, Kathryn Barger, esclareceu que era uma reacção planeada ao vírus: "Esta não é uma resposta enraizada no pânico", disse Barger, tendo acrescentado que a declaração de emergência ajudaria as agências a coordenar a resposta e a conter o vírus num município onde vivem mais de 10 milhões de pessoas, tanto como a população portuguesa.

Por que motivo as autoridades sanitárias e administrativas do Estado da Califórnia estão tão preocupadas com a propagação da COVID-19?
É que num Estado mais a norte, o Estado de Washington, com apenas 7,5 milhões de habitantes, existem 39 casos confirmados de pneumonia pelo coronavírus, dos quais 31 em King County, o município onde está situada Seattle, a maior cidade de Washington.

Nós, portugueses, estamos a importar a doença de Itália, o país do mundo com maior número de mortes pela COVID-19 depois da China, mas os nossas políticos não estão preocupados, apenas a DGS divulga alguma informação. Chegou o momento de começarmos a procurar informação nos Estados que têm políticos competentes e não corruptos para adoptarmos as melhores práticas.

Estas são as recomendações das autoridades sanitárias de Seattle&King County:

  1. Orientação para pessoas com maior risco de doença COVID-19 grave

    A Saúde Pública [Seattle, Washington, EUA] recomenda que as pessoas com maior risco de doença grave fiquem em casa e longe de grandes grupos de pessoas, tanto quanto possível, incluindo locais públicos com muitas pessoas e grandes reuniões onde haverá contacto próximo com outras pessoas. Isto inclui salas de concerto, convenções, eventos desportivos e reuniões sociais superlotadas.

    Pessoas em maior risco incluem pessoas:
    • Acima de 60 anos de idade
    • Com problemas de saúde subjacentes, incluindo doenças cardíacas, pulmonares ou diabetes
    • Com o sistema imunitário enfraquecido
    • Grávidas

    Cuidadores de crianças com problemas de saúde subjacentes devem consultar os profissionais de saúde para saber se os filhos devem ficar em casa. Qualquer pessoa que tenha dúvidas se a sua condição de saúde a coloca em risco pelo novo coronavírus, deve consultar os seus médicos.

  2. Orientação para locais de trabalho e empresas

    Os empresários devem tomar medidas para tornar mais viável que os funcionários trabalhem de maneira a minimizar o contacto próximo com um grande número de pessoas.

    Os empresários devem:
    • Maximizar as opções de teletrabalho para o maior número possível de funcionários.
    • Instar os funcionários a ficar em casa quando estão doentes e maximizar a flexibilidade nos benefícios de baixa médica.
    • Considerar tempos de início e término instáveis para reduzir o número de pessoas que se reúnem ao mesmo tempo.

  3. Considerações sobre eventos e reuniões da comunidade

    Se puder evitar reunir grandes grupos de pessoas, adie eventos e reuniões.

    Se não puder evitar reunir grupos de pessoas:
    • Incentive qualquer pessoa que esteja doente a não comparecer.
    • Incentive aqueles que têm maior risco para o coronavírus a não comparecer.
    • Tente encontrar modos de dar às pessoas mais espaço físico para que elas não estejam em contacto próximo, o tanto quanto possível.
    • Incentive os participantes a manter bons hábitos saudáveis, como lavar as mãos com frequência.
    • Limpe as superfícies com produtos de limpeza.

  4. Orientação para escolas

    A Saúde Pública não está a recomendar o encerramento de escolas no momento, a menos que haja um caso confirmado na escola. A razão pela qual não estamos a recomendar o encerramento de escola é que as crianças não demonstraram ser um grupo de alto risco para doenças graves causadas por este vírus. Além disso, quando algumas escolas fecharam brevemente durante a pandemia de gripe H1N1, descobrimos que muitas crianças ainda se reuniam em grupos e ainda tinham exposição umas às outras. Tanto quanto possível, as crianças devem poder continuar com a educação e actividades normais.

    Saúde pública — a Seattle&King County também respeita as decisões de cada escola individual sobre o encerramento ou adiamento de actividades, pois cada escola conhece melhor as necessidades da comunidade.

    Algumas crianças têm problemas de saúde subjacentes, como sejam sistemas imunitários debilitados, que as colocam em maior risco. Cuidadores de crianças com problemas de saúde subjacentes devem consultar os profissionais de saúde para saber se os filhos devem ficar em casa.

  5. Para pessoas doentes

    Fique em casa quando estiver doente. Não saia em público quando estiver doente.

    Evite cenários médicos em geral, a menos que seja necessário. Se estiver doente, ligue para o consultório médico antes de entrar.

  6. Para o público em geral

    • Mesmo se não estiver doente, evite visitar hospitais, instituições de cuidados continuados ou asilos, na medida do possível. Se precisar visitar uma dessas instalações, limite o tempo e mantenha-se a 1,8 metros de distância dos pacientes.

    • Não vá à urgência, a menos que seja essencial. As salas de urgência precisam de ser capazes de atender as pessoas com necessidades mais críticas. Se tiver sintomas como tosse, febre ou outros problemas respiratórios, entre em contacto primeiro com o seu médico.

    • Fique em casa quando estiver doente.

    • Pratique excelentes hábitos de higiene pessoal, incluindo lavar as mãos com água e sabão com frequência, tossir num lenço de papel ou cotovelo e evite tocar nos olhos, nariz ou boca.

    • Fique longe de pessoas doentes, especialmente se estiver em maior risco para o coronavírus.

    • Limpe superfícies e objectos tocados com frequência (como maçanetas e interruptores de luz). Produtos de limpeza doméstica habituais são eficazes.

    • Evite tocar nos olhos, nariz e boca, a não ser depois de lavar as mãos.

    • Descanse bastante, beba bastantes líquidos, coma alimentos saudáveis ​​e domine o stress para manter a imunidade forte.

    • Mantenha-se informado. As informações estão a mudar com frequência.


terça-feira, 31 de outubro de 2017

Terror em Manhattan


O motorista de um camião alugado esmagou peões e ciclistas na ciclovia do rio Hudson nesta terça-feira.

No cenário da ciclovia foram declaradas mortas 6 pessoas. Posteriormente morreram mais 2. Os bombeiros transportaram para os hospitais pelo menos 12 feridos, incluindo o suspeito e dois adultos e duas crianças que se encontravam no autocarro escolar esmagado.




Pode ver esta imagem a três dimensões aqui. O quadrado preto assinala a posição final do camião alugado pelo suspeito Sayfullo Saipov numa loja da Home Depot em New Jersey.


terça-feira, 23 de maio de 2017

Terror em Manchester


Ontem à noite, pelas 22:35, ocorreu uma explosão em Manchester no final de um espectáculo da cantora pop norte-americana Ariana Grande que decorreu na Manchester Arena.

A polícia de Manchester apenas quantificou o número de vítimas já na madrugada desta terça-feira — 19 vítimas mortais e cerca de 50 feridos —, informando no tweet que estavam a tratar a situação como um "incidente terrorista" até prova em contrário:



O ataque foi perpetrado no átrio de entrada da Manchester Arena, estando cerca de 21 mil pessoas nas imediações quando ocorreu a explosão que envolveu um dispositivo caseiro cheio de porcas e parafusos. O grupo terrorista Estado Islâmico já reivindicou o ataque.

Várias zonas ficaram interditas, afectando os transportes na cidade. A estação de comboios de Vitória, que comunica com a Arena, foi encerrada.





A polícia de Manchester actualizou o número de vítimas, esta manhã, subindo para 22 mortos e 59 feridos.

"Temos estado a tratar isto como um incidente terrorista e acreditamos, nesta etapa, que o ataque foi conduzido por um homem. A prioridade é estabelecer se actuou sozinho ou como parte de uma rede.

O atacante, podemos confirmar, morreu na arena. Acreditamos que o atacante carregava consigo um dispositivo explosivo improvisado, que detonou, causando esta atrocidade
”, afirma o comunicado da polícia, em que as autoridades pedem às pessoas para não especular.

A nossa prioridade é trabalhar com os serviços secretos britânicos e de contra-terrorismo para encontrar mais detalhes sobre o indivíduo que conduziu este ataque”, acrescentam as autoridades.



Entretanto a comunicação social começou a divulgar a identidade de algumas vítimas, entre as quais uma criança de 8 anos, e do bombista suicida. Chama-se Salman Abedi e tem 22 anos. A polícia de Manchester confirmou, com reticências:



Nascido em Manchester em 1994, Salman Abedi é o segundo mais novo dos quatro filhos de um casal de refugiados líbios que vieram para o Reino Unido para escapar ao regime do coronel Muammar Gaddafi.

Abedi frequentou a escola local e foi para a universidade de Salford, em 2014, onde estudou gestão antes de desistir. Usava vestes islâmicas e costumava rezar numa mesquita local que, no passado, foi acusada de angariação de fundos para os jihadistas.

O irmão mais velho, Ismail Abedi, foi professor na escola do Corão da mesquita de Didsbury. Segundo o imã, Salman havia-lhe mostrado recentemente "o rosto do ódio" quando deu uma palestra alertando para os perigos do chamado Estado Islâmico.

A mãe, Samia Tabbal, de 50 anos, e o pai, Ramadan Abedi, um agente de segurança, nasceram em Trípoli mas terão emigrado, primeiro para Londres e, mais tarde, para a zona de Whalley Range, no sul de Manchester.

Pensa-se que, em 2011, após a derrota de Gaddafi, os pais retornaram para a Líbia, mas as viagens que Salman Abedi fez para o país de origem da família estão agora a ser objecto de investigação.

Alguns dissidentes de Gaddafi que eram membros do Grupo Islâmico Líbio de Combate (LIFG), entretanto ilegalizado, viveram nas proximidades dos Abedi em Whalley Range.

Entre eles, encontrava-se Abd al-Baset Azzouz, pai de quatro filhos, que deixou Manchester para dirigir uma rede terrorista na Líbia supervisionada por Ayman al-Zawahiri, o sucessor de Osama bin Laden na liderança da Al-Qaeda. Azzouz, 48 anos, especialista em bombas, foi acusado de dirigir uma rede da Al-Qaeda no leste da Líbia, em 2014.

Outro membro da comunidade líbia em Manchester, Salah Aboaoba, disse ter angariado fundos para o LIFG, em 2011, justamente na mesquita de Didsbury. Na época, o porta-voz da mesquita negou veementemente a reivindicação: "Esta é a primeira vez que ouço falar do LIFG. Não conheço Salah".

Agora, Mohammed Saeed El-Saeiti, o imã da mesquita de Didsbury, apontou Salman Abedi como um extremista perigoso: "Salman mostrou-me o rosto de ódio depois do meu discurso sobre o Ísis (...) Não é uma surpresa para mim".

A polícia atacou a casa da família às 11:30 desta manhã. De acordo com moradores da rua, 2 helicópteros e pelo menos 30 polícias camuflados, com equipamentos anti-motim e escudos, participaram no ataque.
Removeram a cerca de madeira entre duas propriedades. Colaram uma tira preta na porta e provocaram uma explosão. A porta soltou-se das dobradiças e as janelas tremeram. O ataque durou 90 segundos.

"Não os vi trazer ninguém para fora da casa. Acredito que estava vazia”, disse um vizinho.


*


Depois dos movimentos da Primavera árabe derrubarem os governantes da Tunísia e do Egipto para elegerem regimes islâmicos, começou uma revolta na Líbia, em 17 de Fevereiro de 2011, mas o ditador líbio Muammar Kadhafi resistiu.

Dez dias depois, foi criado um Conselho Nacional de Transição para administrar as áreas da Líbia sob controle dos rebeldes, prontamente reconhecido pela França, em 10 de Março, como o representante legítimo do povo líbio.

As forças pró-Gaddaffi responderam militarmente aos ataques rebeldes na Líbia ocidental — a cidade de Zawiya, a 48 km de Tripoli, foi bombardeada por aviões da força aérea e conquistada por tanques do exército — e lançaram um contra-ataque ao longo da costa na direcção leste, até Benghazi, o centro da rebelião.

Tanto o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, como o Conselho de Direitos Humanos da ONU condenaram estas acções militares, sob a acusação de violarem o direito internacional, tendo este último organismo expulsado a Líbia, atitude incentivada pela própria delegação da Líbia na ONU.

Em 17 de Março, o Conselho de Segurança da ONU aprovou a Resolução 1973 com 10 votos a favor dos membros permanentes Estados Unidos, França e Reino Unido e, ainda, da Bósnia-Herzegovina, Colômbia, Gabão, Líbano, Nigéria, África do Sul e Portugal e 5 abstenções dos restantes membros (Rússia e China, membros permanentes, e ainda Índia, Brasil e Alemanha).
Esta resolução sancionou o estabelecimento de uma zona de exclusão aérea e o uso de "todos os meios necessários" para proteger os civis dentro da Líbia.

Dois dias depois, a NATO começou a destruir as defesas aéreas da Líbia quando jactos militares franceses entraram no espaço aéreo da Líbia e atacaram alvos considerados inimigos.
Em seguida, entraram em acção as forças americanas. Mais de 8000 militares americanos foram destacados para a área em navios de guerra e aviões. A ofensiva aérea americana incluiu vôos de bombardeiros B-2 Stealth, cada bombardeiro armado com dezasseis bombas de 0,9 tonelada, saindo e retornando à base no Missouri, Estados Unidos.

Em 22 de Agosto, os rebeldes entraram em Trípoli e ocuparam a Praça Verde, rebaptizada Praça dos Mártires em homenagem aos seus mortos. Os últimos combates ocorreram na cidade de Syrte, onde Gaddafi foi capturado e morto em 20 de Outubro de 2011. Pelo menos 30 mil líbios morreram na guerra civil.

A seguir começou a segunda guerra civil da Líbia, agora entre as milícias armadas dos diferentes grupos rebeldes, o mais poderoso dos quais é o Estado Islâmico.

Passado algum tempo, formaram-se as máfias líbias que enchem embarcações frágeis com imigrantes, oriundos de países africanos a sul do Saará, e enviam-nos para Itália. Iniciava-se a invasão islâmica da Europa pelo corredor ocidental.

Quem foram os políticos responsáveis pelo Conselho de Segurança da ONU ter sido favorável à intervenção militar na Líbia que não só desestabilizou este país, como também a União Europeia?
Em 2011, a França era presidida por Nicolas Sarkozy.
No Reino Unido governava o primeiro-ministro David Cameron.
A presidência dos Estados Unidos estava nas mãos de Barack Obama e na Secretaria de Estado alinhava Hillary Clinton.

Quantas mais crianças e jovens vão ter de morrer até conseguirmos perceber que o pior tipo de ditadura é o terror promovido pelo fanatismo islâmico?


sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Esmagadora vitória de Donald Trump nas presidenciais dos EUA


Este artigo de opinião foi publicado no Washington Post por uma jornalista que não se revê em todas as propostas políticas de Donald Trump mas detesta a hipocrisia política de Hillary Clinton e a sua tibieza face ao apoio financeiro proporcionado pela Arábia Saudita e pelo Qatar ao terrorismo islâmico que está a provocar carnificinas pelo mundo.
Leitura imprescindível para compreender a vitória de Trump nas presidenciais norte-americanas de 2016:


"Sou mulher, muçulmana e imigrante. Votei em Donald Trump

Asra Q. Nomani 11/11/2016 - 18:28

Esta é a minha confissão e explicação. Sou uma mulher de 51 anos, muçulmana, imigrante e “de cor”. Sou uma das eleitoras silenciosas que votaram em Donald Trump. Não sou “intolerante”, “racista”, “chauvinista” ou “supremacista branca”, como os que votaram em Donald Trump estão a ser apelidados, nem faço parte da “reacção negativa dos brancos”.

No Inverno de 2008, eu era uma liberal de longa data e uma filha orgulhosa da Virgínia Ocidental, um estado que nasceu do lado certo da história da escravatura. Mudei-me para o estado conservador da Virgínia apenas porque este estado tinha ajudado a eleger Barack Obama como o primeiro Presidente afro-americano dos Estados Unidos.

Mas durante o último ano mantive a minha preferência eleitoral em segredo: o meu voto iria para Donald Trump. Na terça-feira à noite, momentos antes do fecho das urnas na Escola Primária de Florestville, no maioritariamente democrata Fairfax County, entrei na cabine de votação, com uma caneta entre os dedos, para assinalar a minha escolha para Presidente, preenchendo o círculo ao lado do nome de Donald Trump e do seu candidato a vice-Presidente, Mike Pence.

Após Hillary Clinton telefonar a Donald Trump, concedendo-lhe a vitória, e tornando-o o Presidente eleito dos Estados Unidos, uma amiga minha escreveu um pedido de desculpas ao mundo no Twitter, afirmando que há milhões de norte-americanos que não partilham do “ódio, discórdia e ignorância” de Donald Trump. E terminou assim: “Sinto-me envergonhada pelos milhões que partilham desses sentimentos.”

Provavelmente estaria incluída nesse grupo. Mas não estou, e Hillary Clinton foi derrotada por não abordar as preocupações dos eleitores. Rejeito abertamente o “ódio, discórdia e ignorância”. Apoio a posição do Partido Democrata em relação ao aborto, ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e às alterações climáticas.

No entanto, sou uma mãe solteira que não se pode dar ao luxo de ter um seguro de saúde ao abrigo do Obamacare. O programa de modificação de empréstimo de hipotecas, “HOPE NOW” [esperança já], não me ajudou. Na terça-feira, saí da minha cidade natal, Morgantown na Virgínia Ocidental — onde vejo cidadãos norte-americanos comuns, de meios rurais, como eu, ainda em dificuldades, após oito anos de administração Obama — em direcção à Virgínia.

E por fim, enquanto muçulmana que sentiu, em primeira mão, o extremismo islâmico que há neste mundo, opus-me à decisão do Presidente Barack Obama e do Partido Democrata em andar à volta do “Islão” do Daesh. É claro que a retórica de Donald Trump tem sido muito mais do que indelicada e todos podemos ter diferenças políticas em relação às suas recomendações mas, para mim, esta tem sido exagerada e demonizada pelos governos do Qatar e da Arábia Saudita, pelos seus meios de comunicação, tais como a Al Jazeera, e pelos seus representantes no Ocidente, apresentando uma distracção conveniente da questão que mais me preocupa enquanto ser humano neste planeta: o islamismo extremista que tem feito derramar sangue em corredores do hotel Taj Mahal em Bombaim e na pista de dança da discoteca Pulse em Orlando, na Flórida.

Em Junho, após o trágico tiroteio no Pulse, Trump escreveu uma mensagem no Twitter com o seu estilo característico e subtil: “Será que o Presidente Barack Obama irá finalmente mencionar o terrorismo islâmico radical? Se não o fizer deve imediatamente sair do cargo que ocupa!”

Por volta da mesma altura, no programa New Day da CNN, Hillary Clinton parecia estar em sintonia com Barack Obama, afirmando: “Da minha perspectiva, importa mais o que fazemos do que o que dizemos. E importa que tenhamos capturado Bin Laden, não o nome que lhe demos. Já afirmei explicitamente que não interessa se lhe chamamos jihadismo radical ou islamismo radical, é-me indiferente. Na minha opinião, ambas as expressões têm o mesmo significado.”

Em Outubro, foi um e-mail de 17 de Agosto de 2014, divulgado pela WikiLeaks, que me fez virar as costas a Hillary Clinton. Nesse e-mail, Hillary Clinton dizia ao seu assistente John Podesta: “Temos de usar os nossos activos diplomáticos e mais tradicionais para pressionar os governos do Qatar e da Arábia Saudita, que estão a providenciar apoio financeiro e logístico ilegais ao Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL),” — o nome politicamente correcto do Estado Islâmico — “e a outros grupos sunitas radicais da região.”

As revelações de contribuições multimilionárias do Qatar e da Arábia Saudita para a Fundação Clinton ditaram o fim do meu apoio a Hillary Clinton. Sim, quero igualdade de remuneração para as mulheres. Não, rejeito a “conversa de balneário” de Donald Trump, a ideia de um “muro” entre os Estados Unidos e o México e um plano para “banir” todos os muçulmanos. Mas tenho confiança de que os Estados Unidos não se convencem com esta hipérbole política — uma política identitária com uma agenda — que demonizou Donald Trump e os seus apoiantes.

Tentei, delicadamente, expressar as minhas opiniões no Twitter mas a “revolução das mulheres de fato” esmagava qualquer discurso ponderado. Quem apoia Donald Trump tem de ser um provinciano. Dias antes das eleições, um jornalista da Índia enviou-me um e-mail a perguntar: “Quais são os seus pensamentos enquanto muçulmana nos Estados Unidos de Donald Trump?”

Respondi que enquanto pessoa que nasceu na Índia, e tendo chegado aos Estados Unidos com 4 anos no Verão de 1969, não tenho qualquer medo sendo muçulmana nos “Estados Unidos de Donald Trump”. A separação e equilíbrio de poderes deste país e o nosso passado rico em justiça social e direitos civis nunca permitirão que a incitação ao medo associada à retórica de Donald Trump se concretize.

O que mais me preocupou foi a minha apreensão sobre a influência de ditaduras teocráticas muçulmanas, incluindo o Qatar e a Arábia Saudita, nos Estados Unidos de Hillary Clinton. Estas ditaduras não representam exemplos notáveis de sociedades progressivas, não conseguindo oferecer direitos humanos e esperança para a cidadania de imigrantes da Índia, refugiados da Síria e dos escravos que vivem nessas ditaduras.

Temos de nos erguer com coragem moral perante o ódio contra os muçulmanos, mas também perante o ódio dos muçulmanos, para que possamos viver com sukhun, ou paz de espírito. E assim terminei a minha reflexão perante o jornalista da Índia. Ele não recebeu o e-mail. Não o reenviei, com medo da indignação que pudesse receber de volta. Mas fui votar.

Exclusivo PÚBLICO/Washington Post"



*

A opinião dos outros:


joao
Abdullah Issa, 11 anos, decapitado pelos "rebeldes" apoiados pelas americanos e aliados
11/11/2016 23:07
Fui tentar perceber quem é esta mulher “inculta” “estúpida” “ignorante” “submissa” “machista”, etc, que votou no Trump. Pois encontrei que é uma mulher com instrução de mais alto nível, com longa carreira jornalística, escritora, activista de longa data de várias causas, activista activa dos direitos das mulheres no mundo muçulmano, e por aí fora, mulher e mãe, ... curriculum avassalador. Curriculum que indicia enorme riqueza cultural, inteligência e valores morais, até fiquei na dúvida se seria ela que tinha votado no traste do Trump. Reverifiquei e parece que é ela mesmo.

Como é que uma mulher tão inteligente, tão instruída, cidadã tão activa, tão ciente da condição feminina e da condição da mulher muçulmana, em particular, como não votou na Clinton? Saliento dois dos seus argumentos. Um argumento é a constatação das guerras e dos crimes e do sofrimento sem fim que a aliança saudita/americana tem trazido às pessoas e ao mundo. Ela refere o conteúdo duns leaks de mails mas esta aliança já existe pelo menos desde 1979 com o envio de terroristas extremistas para o Afeganistão, e espalhou-se desde o Mali às Filipinas, passando pela Síria e Yemen. Pelos vistos essa aliança e os seus crimes causam-lhe repugnância e ela sabe que a Clinton faz parte dessa aliança.

Outro argumento é o incómodo e a saturação que ela sente pelos “jornalistas” gulosos que procuram satisfazer as suas quotas de produção de artigos manhosos, mesquinhos e manipuladores. Generalidade de “jornalistas” que ela sabe que nunca publicariam o que ela respondesse à pergunta “preparada” porque a resposta não corresponderia à narrativa agendada, que omitem os crimes do sistema politicamente correcto instalado e procuram e inventam o que possa beatificar o sistema, que não informam mas são, sim, o principal motor das campanhas partidárias e do sistema. São argumentos de repulsa, mesmo os outros que ela enumera, mais de repulsa pela Clinton e o que ela representa, do que de atracção pelo Trump e o que ele pode (se alguém souber) representar. Penso, é a minha leitura, a triste situação.


sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Noite de terror em Paris - IV. A identidade dos terroristas


Uma semana depois dos ataques que mataram 130 pessoas em Paris e Saint-Denis, a investigação continua, revelando importantes vulnerabilidades de segurança.


16/11/2015 - 22:33

Le Monde.fr avec AFP | 20.11.2015 à 05h39

Dos sete bombistas suicidas:

  • Quatro são franceses: Ibrahim Abdeslam (31 anos) e Bilal Hadfi (20 anos) que se fizeram explodir no Comptoir Voltaire e no Estádio de França, respectivamente, Amimour Samy (28 anos) e Ismaël Omar Mostefai (29 anos), filho de mãe portuguesa, ambos no Bataclan.
  • Dois entraram na Europa, em Outubro, através da Grécia. Trata-se daquele terrorista que detonou o cinto de explosivos perto do Estádio de França e junto do qual foi encontrado um passaporte sírio de autenticidade duvidosa, porém, havendo uma correspondência entre as suas impressões digitais e as encontradas aquando de uma fiscalização na Grécia; e de um segundo formalmente identificado nesta sexta-feira.
  • Permanece por identificar um bombista suicida, o terceiro que estava no Bataclan.

A polícia continua na peugada de Salah Abdeslam, suspeito de pertencer ao comando terrorista que alvejou as esplanadas dos cafés e dos restaurantes em Paris com o seu irmão Ibrahim que, depois, se fez explodir no boulevard Voltaire. Ele terá sido ajudado a sair de Paris na manhã seguinte. Dois supostos cúmplices da fuga foram presos em Bruxelas na segunda-feira e indiciados por ataque terrorista. Também na Bélgica, um terceiro homem foi indiciado nesta sexta-feira por terrorismo.

Abdelhamid Abaaoud, o presumível instigador dos ataques, está morto: o seu corpo "crivado de projécteis" foi identificado pelos investigadores, na sequência do ataque policial a um apartamento em Seine-Saint-Denis na quarta-feira. A formação e como chegou a França permanecem desconhecidos.
Terão sido encontrados vestígios que lhe pertenciam numa das três Kalashnikovs descobertas no Seat abandonado em Montreuil, o que sugere que fazia parte do comando responsável pelos tiroteios nas esplanadas. Além disso, foi filmado pelas 22:00 de 13 de Novembro, por uma câmara no metro de Montreuil, perto do lugar onde o carro foi abandonado.


*



Países com mais de 5% de população muçulmana
sunitas ████████ xiitas ████████


O Estado Islâmico do Iraque e da Síria (ISIS, no acrónimo inglês, ou Daesh, no acrónimo árabe) é uma entidade que defende o regresso aos primórdios do Islão, no séc. XVII, quando o profeta Maomé conquistava territórios, tomava os vencidos como escravos e ordenava decapitações. Praticam a versão mais fundamentalista do Islão, o Wahhabismo.

Origem

Tudo começou com a invasão do Iraque pelos EUA e aliados em 2003. Afastada do poder pelos xiitas, a minoria sunita a que pertencia Saddam Hussein gerou uma guerrilha baseada no noroeste iraquiano onde era dominante. O líder do grupo era Abu Musab al-Zarqawi e obedecia à al-Qaeda.
Em 2006, al-Zarqawi foi morto num ataque americano. O grupo reforçou-se com alianças entre tribos sunitas e o novo chefe, Abu Omar al-Baghdadi, proclamou o Estado Islâmico do Iraque (ISI). No entanto, ofensivas conjuntas das forças armadas iraquianas e americanas, foram dizimando a guerrilha e, em 2010, foi anunciada a morte ou captura de 80% dos líderes do ISI, incluindo al-Baghdadi, bem como de recrutadores e financiadores. A ligação com a al-Qaeda do Paquistão ficou cortada.
Abu Bakr al-Baghdadi, o novo líder, foi recrutar ex-militares e ex-funcionários dos serviços de informações do antigo partido Baath que tinham servido durante o governo de Saddam Hussein, quase todos saídos de prisões militares americanas, para promover o renascimento do ISI.

Em 2011, a monarquia wahhabita que governa a sunita Arábia Saudita decidiu desestabilizar a Síria governada pelo alauita (um ramo do xiismo) Bashar al-Assad, com o apoio do aliado americano e a anuência tácita de ingleses e franceses.
Em poucos meses, os protestos civis deram lugar à guerra. Em Agosto, al-Baghdadi começou a enviar elementos iraquianos e sírios do ISI para a Síria para aí estabelecerem uma organização. Liderados pelo sírio Abu Muhammad al-Julani, este grupo recrutou combatentes e estabeleceu células em todo o país. No início de 2012, o grupo anunciou a formação da Frente al-Nusra, uma força de combate que contou com o apoio da oposição ao governo de Assad, bem como de muitos muçulmanos radicalizados na Europa que foram atraídos para a Síria por uma "jihad" onde descobriam uma identidade estimulante.
Em Abril de 2013, al-Baghdadi anunciou a fusão entre o ISI e a Frente al-Nusra sob o nome "Estado Islâmico do Iraque e Levante", mais conhecido por "Estado Islâmico do Iraque e da Síria". O anúncio provocou-lhe divergências com al-Julani e o líder da al-Qaeda, al-Zawahiri, mas este último mandou cessar os ataques da Frente al-Nusra ao ISIS.

Em Junho de 2014, além do oeste iraquiano, o ISIS já controlava a maior parte do território sírio. Depois de conquistar a cidade iraquiana de Mossul, al-Baghdadi proclamou o califado e declarou-se califa, transformando-se no guia espiritual dos muçulmanos de todo o mundo.

Os Governos ocidentais, obcecados pela "Primavera árabe" e pelo derrube de ditadores, como Mubarak, Kadhafi ou Assad, permitiram ao Estado Islâmico o controle de partes do Iraque, da Síria, da Líbia e da África central. A capacidade de atracção de novos voluntários para as suas forças nos países ocidentais permite-lhe criar raízes para o futuro. O Estado Islâmico descreve a sua estratégia militar como a capacidade de se mover como uma serpente entre as rochas, ou seja, usa forças militares flexíveis que atacam alvos fáceis, nunca entrando em conflitos prolongados.

Financiamento

Para a guerra o EI precisa de dinheiro. Uma das fontes é o petróleo das refinarias que é vendido no mercado negro. As mais recentes estimativas dizem que o EI recebe mensalmente 40 milhões de dólares pela venda do petróleo dos campos que controla na Síria e Iraque.

Outra fonte de receitas são os donativos de milionários árabes que defendem a guerra santa contra os xiitas e o Ocidente. Além disso o EI apropriou-se do dinheiro dos bancos das zonas controladas, vendendo também muitas das obras de arte que saqueou em cidades históricas.

Nos últimos tempos, o EI conseguiu obter duas novas fontes de receitas: a circulação de refugiados, que têm de pagar uma taxa para emigrarem para a Europa, e os raptos de sírios ricos ou de ocidentais.
No caso dos refugiados que emigram para a Europa as receitas do EI terão ascendido a cerca de 100 milhões de euros. No regresso, os camiões que levam os refugiados voltam com contrabando que é vendido no mercado negro das áreas controladas.
Os reféns podem render politicamente, como sucedeu com os decapitados, ou economicamente, quando os Estados estrangeiros pagam o resgate. Sabe-se que os negociadores europeus pagam entre um e seis milhões de dólares pela libertação de cada refém. São perto de 70 milhões de dólares que entram nos cofres do EI que apresenta relatórios das suas actividades como se fosse uma empresa.

Em 2014, as receitas totais do EI terão rondado os 1,2 mil milhões de dólares. É com elas que pagam o armamento e também os salários dos "jihaddistas" europeus recrutados, sobretudo, através da Internet.




domingo, 12 de julho de 2015

A Grécia em default parcial - III O cavalo de Tróia do euro


Numa reunião entre Tsipras, Merkel, Hollande e Tusk, à margem da Cimeira do Euro, o primeiro-ministro grego e o seu ministro das Finanças foram confrontados com a exigência de implementarem de forma imediata as reformas propostas ou, em alternativa, o país sair da Zona Euro.




Antes de entrar para a Cimeira do Euro deste domingo, Alexis Tsipras telefonou ao secretário de Estado do Tesouro norte-americano, Jack Lew, a quem disse que um acordo viável "tem de respeitar o povo grego e tudo o que suportaram nos últimos cinco anos".

Rapidamente, Lew divulgou um comunicado: "O secretário de Estado está a seguir atentamente as discussões em Bruxelas e ficou esperançado com o relato de que havia progressos, apesar de ainda haver trabalho a fazer.
A Grécia fez movimentações significativas e demonstrou a vontade política para implementar reformas difíceis e essa contínua flexibilidade é necessária de todas as partes.
"

Mas de pouco lhe valeu esta tentativa de pressão sobre os líderes europeus. A cimeira foi interrompida e, numa reunião com Angela Merkel, François Hollande e Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, o primeiro-ministro grego ficou a saber que tinha duas alternativas: ou implementava de forma imediata as reformas que propôs ou a Grécia saía da Zona Euro.

Em Atenas, perante uma manifestação anti-austeridade, a polícia de choque recebeu ordens para ocupar a escadaria do parlamento:




*


O Reino Unido usufrui grande prosperidade com os negócios financeiros da City e do seu império de offshores e não está interessada em aderir ao euro, nem talvez em permanecer na União Europeia.
Por isso não deve surpreender que a comunicação social britânica explore a cisão provocada na Zona Euro pelo governo liderado por Alexis Tsipras, a lembrar a secessão dos Estados Unidos no séc. XIX:

Como estão alinhadas as nações da Zona Euro

Gráfico do jornal britânico The Guardian: a laranja os países que aceitam um grexit, a cinzento os que hesitam mas preferiam que a Grécia ficasse no euro e a azul os que querem evitar a todo o custo um grexit.



sábado, 30 de maio de 2015

11 anos de construção do One World Trade Center em 2 minutos


É sempre um prazer observar a construção de um belo arranha-céus de 104 andares e 417 m de altura.

Entre Outubro de 2004 e Maio de 2015, centenas de milhares de imagens de alta definição foram capturadas durante a preparação do local e construção do One World Trade Center que agora foram usadas na produção deste filme em time-lapse: