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sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Uma campanha eleitoral lamentável


A campanha eleitoral para as eleições legislativas de 2019, que hoje chega ao fim, decorreu num clima pouco democrático.

O primeiro caso foi a recusa de Mário Centeno, ministro das Finanças, para debater o cenário macroeconómico do programa do PSD com Álvaro Almeida, professor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto e co-autor da parte económico-financeira desse programa, sendo grave ter ocultado os números correspondentes no programa socialista.

Depois, no parlamento, PS, BE e PCP uniram-se para rejeitar que a reunião da comissão permanente pedida pelo PSD para debater o encobrimento do roubo de armamento em Tancos se realizasse antes das eleições.

Finalmente, há a lamentar dois episódios violentos em arruadas. O primeiro ocorreu anteontem quando Assunção Cristas, líder do CDS-PP, foi empurrada por uma mulher numa arruada, no Porto, mas reagiu calmamente:




Atitude bem diferente teve António Costa, hoje, numa arruada em Lisboa. Quando um homem o criticou, lembrando que Costa tinha estado de férias durante os incêndios de Pedrógão Grande, o primeiro-ministro exaltou-se:




Neste vídeo pode assistir-se a toda a conversa, vendo-se António Costa a gritar repetidamente "É mentira":



Depois prossegue a arruada, mas vira-se para trás enfurecido e ainda chama "mentiroso" ao idoso que o questiona, sendo travado pela sua comitiva.

*

Dá a sensação que estamos a reviver o clima de tensão que existiu durante o ano 1975, naquele período que ficou conhecido como o PREC (Processo Revolucionário Em Curso) quando o país esteve à beira de resvalar para uma ditadura de esquerda.


sexta-feira, 26 de julho de 2019

As golas anti-fumo inflamáveis e a irritação do ministro


Os incêndios rurais que ocorreram em Junho e Outubro de 2017 provocaram, pelo menos, 115 mortes.

O ministério da Administração Interna decidiu desenvolver o programa "Aldeia Segura, Pessoas Seguras" para prevenção dos incêndios rurais em que foram distribuídos kits de emergência às populações das aldeias envolvidas nesta actividade.

A contratação da "Foxtrot Aventura" para o fornecimento dos 15 mil kits de auto-protecção foi feita sob orientação do Governo, com o secretário de Estado da Protecção Civil, José Artur Neves, a liderar o processo. À Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil (ANEPC) só coube pagar 328 mil euros pelos kits e distribuí-los por cerca de 1600 povoações.

Entretanto, o Jornal de Notícias descobriu que estes kits de auto-protecção das populações contêm golas anti-fumo fabricadas com material inflamável e sem tratamento anti-carbonização, não tendo a eficácia que deveriam ter — evitar inalações de fumos através de um efeito de filtro.
As 70 mil golas custaram 125 mil euros, mas outros equipamentos, como coletes reflectores, também são compostos por materiais combustíveis.

A Foxtrot, empresa de Fafe dedicada ao turismo de natureza, garantiu ter entendido que o objectivo da Protecção Civil era merchandising e que esta entidade não referiu que os equipamentos "seriam usados em cenários que envolvem fogo".
A própria Protecção Civil concorda que os equipamentos não passam de um "estímulo à implementação local dos programas" e que não são um "equipamento de protecção individual".

Em declarações à RTP, a segunda comandante nacional da Protecção Civil, Patrícia Gaspar, acrescentou que as golas anti-fumo destinam-se apenas a movimentos rápidos de retirada de pessoas em caso de incêndio e que a sua segurança não está em causa:
"Quero passar uma mensagem de tranquilidade junto das aldeias, é que estes equipamentos servem sobretudo para uma protecção temporária, num movimento que se espera que seja rápido e não, nunca, para enfrentar um incêndio florestal".

Quando confrontado com esta notícia, o ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, sublinhou a importância do programa que está em curso, mas assegurou que a distribuição das golas anti-fumo não põe em causa, nem o programa, nem a segurança das pessoas. O ministro classifica a notícia como "verdadeiramente irresponsável e alarmista", acrescentando que revela "desconhecimento de questões técnicas que a Autoridade Nacional de Protecção Civil já esclareceu".

Questionado, então, pelos jornalistas sobre o objectivo da distribuição destas golas anti-fumo com material inflamável, bem como o que as populações devem fazer com elas, Eduardo Cabrita recusou-se a responder e irritou-se:


26.07.2019 às 14h33


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O ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, é um jurista competente mas a preocupação em defender a família socialista impede-o de perceber que o seu secretário de Estado da Protecção Civil, José Artur Neves, cometeu um erro com consequências graves para as pessoas que utilizassem os kits durante um incêndio. Como responsável máximo da Administração Interna, cabia ao ministro ter a humildade de pedir desculpa.

Depois deveria pedir a realização de um inquérito para apurar os responsáveis por este erro crasso de entregar às populações materiais inflamáveis e determinar um processo disciplinar porque no âmbito da Protecção Civil está em causa a segurança e a vida das populações e apenas pessoas muito competentes devem ser escolhidas.

Infelizmente o seu fanatismo ideológico não lhe permite discernir o erro cometido por funcionários do seu ministério e implementar as acções subsequentes que a correcção desse erro exigiria a um político com letra maiúscula.


terça-feira, 16 de abril de 2019

Uma visita à Catedral de Notre-Dame de Paris


Recordemos os tempos áureos da Catedral de Notre-Dame de Paris numa visita gravada em directo por uma equipa do jornal Le Monde, em Março de 2017.

Começamos por identificar algumas partes notáveis da catedral:

Plan.cathedrale.Paris.png
Plano da catedral de Notre-Dame de Paris pelo arquitecto Viollet-le-Duc, 1856.
Da esquerda para a direita, identifica-se a fachada oeste com os três portais, segue a nave principal flanqueada pelas naves laterais duplas, o transepto (nave transversal) com os portais norte e sul e, finalmente, o coro e a abside rodeados pelo duplo deambulatório.


Notre-Dame de Paris 2013-07-24
Peter Haas / CC BY-SA 3.0.
Fachada oeste da Catedral de Notre-Dame de Paris em 2013.
Apresenta, de baixo para cima, o piso dos três portais, a galeria dos reis, o piso da rosácea oeste e, no topo, um último piso de colunatas coroado pela galeria das Quimeras (animais nos ângulos da balaustrada), ligando as duas torres.

Notre-Dame de Paris 2009-04-28
Zuffe / CC BY-SA
Fachada sul da Catedral de Notre-Dame de Paris em 2009.
Distingue-se, da esquerda para a direita, os arcobotantes da nave, a rosácea sul do transepto e, finalmente, os arcobotantes do coro. O braço sul do transepto é encimado por um frontão ricamente decorado e perfurado por uma clarabóia que iluminava o seu sótão.

Notre-Dame tsj
Jean-Christophe Windland / CC BY-SA
Fachada norte da Catedral de Notre-Dame de Paris em 2013.
Da esquerda para a direita, vê-se os arcobotantes do coro, o braço norte do transepto e os arcobotantes da nave. A rosácea norte é encimada por um frontão semelhante ao do braço sul do transepto, mas com uma clarabóia diferente, bem como três óculos.

Agora já podemos ver o vídeo da visita:




Num trajecto nunca acessível aos outros visitantes da catedral, Philippe Villeneuve, arquitecto-chefe dos Monuments Historiques, inicia a visita no terraço coroado pela galeria das Quimeras e situado entre os dois campanários (04:00 a 05:00). Estes são os passos seguintes:

  • Travessia do sótão no sentido oeste-leste até chegarem à base da flecha. O corredor transversal seguia, à esquerda, para a clarabóia do braço norte do transepto (19:45 a 20:13). Viram à direita para a clarabóia sul (21:10 a 21:55).
  • Descem a escada para o terraço das janelas altas, sob os arcobotantes do coro, e percorrem-no integralmente no sentido directo. Villeneuve explica como as forças exercidas pela abóbada e pelos arcobotantes se equilibram (25:06 a 26:27).
  • Descem a escada do braço norte do transepto para entrarem na tribuna do coro. Villeneuve chama a atenção para o belo pavimento marmóreo do coro, para uma abóbada sexpartida de ogivas (42:00 a 42:35) e para os vitrais medievos das rosáceas norte e sul do transepto. Percorrem a tribuna no sentido retrógrado e observam a rosácea sul (47:43 a 48:22).
  • Sobem duas escadas do braço sul do transepto para entrar na galeria sob a rosácea sul. Na frente está a magnífica rosácea norte (50:30 a 51:15).

A parte emocionante é o percurso efectuado sobre as abóbadas da nave e sob o tecto da Catedral (9:00 a 22:00), através da sua famosa estrutura em madeira — la charpente — feita de grossos barrotes extraídos de cerca de dois mil carvalhos que cresciam à volta de Paris, por isso considerada, numa visão romântica, “a floresta de Notre-Dame”. Madeiros com mais de 800 anos que no passado dia 15 de Abril foram reduzidos a cinzas.

No entanto, as abelhas (50:00) sobreviveram.


Rozeta Paryż notre-dame chalger.jpg
Krzysztof Mizera / CC BY-SA 4.0
Rosácea norte da catedral de Notre-Dame de Paris, uma obra-prima da arquitectura gótica.


sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Portugal cinzento








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Verdes são os campos
De cor do limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.

Luís de Camões, Verdes são os campos

O Verão deste ano 2017 nasceu quente e seco, propício ao aparecimento de incêndios na floresta.

Políticos com responsabilidade governativa, porém, não só haviam feito contratos no sector das telecomunicações que se vieram a revelar ruinosos, como também tinham substituído recentemente técnicos experientes da Protecção Civil por gente sem formação adequada para gerir os seus recursos humanos e materiais.

Com a logística da Protecção Civil inoperante, os fogos propagaram-se por muitos hectares de pinhal, rodearam povoações e invadiram caminhos e estradas, calcinando árvores, casas e veículos à sua passagem. Até o vetusto pinhal de Leiria, que havia sido plantado no século XIII, foi devorado pelas chamas. E nos escombros das tragédias maiores — ocorridas em 17 de Junho e em 15 de Outubro — foram encontrados os restos mortais de 115 pessoas.





A incompetência, a corrupção da maior parte dos nossos políticos está a asfixiar a sociedade portuguesa e a destruir o nosso belo País. Os nossos campos, os pinhais e os bosques, outrora verdejantes, estão a desaparecer debaixo de uma manta de cinza.








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Cinzentos são os campos
De cor da lama:
Para os políticos serventuários
Que elegemos fazeram a cama.



terça-feira, 17 de outubro de 2017

Declaração do Presidente da República ao País, em Oliveira do Hospital


Os incêndios de 15 de Outubro provocaram, pelo menos, mais 41 mortos aos quais se somam as 64 mortes de Pedrógão Grande, em 17 de Junho.

Consternado pelos fogos florestais de 2017 já terem causado mais de uma centena de mortos, Marcelo Rebelo de Sousa proferiu uma declaração ao País, esta noite, nos Paços do Concelho de Oliveira do Hospital, um dos municípios do distrito de Coimbra mais afectados pelos incêndios deste mês de Outubro.

Caro leitor, pode encontrar a versão integral publicada no sítio da Internet da Presidência da República aqui.

Arquivámos a versão gravada pela RTP sem ruído de fundo (o negrito é meu):




"Aqui, em Oliveira do Hospital, o último fim-de-semana conheceu o maior número de vítimas, de desalojados, de desempregados, de pessoas atingidas pelos fogos. Por isso, falo aos portugueses, hoje, daqui.

O presidente da República é, antes de mais, uma pessoa. Uma pessoa que reterá, para sempre, na sua memória imagens como as de Pedrógão. Pedrógão rodeado pelo fogo com um autarca perdido a confessar que só na manhã seguinte descobriria quantos corpos estavam naquelas casas a arder, ali mesmo ao lado.
Umas histórias dos populares a combaterem fogos, em desespero, tantas vezes isolados. Ou a aventura generosa daquelas colunas de bombeiros vindas do outro lado de Portugal para lutarem noite fora em terrenos e condições acabadas de conhecer.
Ou agora, nestas Beiras, como dois irmãos morreram para salvar colmeias sustento e razão de ser da sua vida.
Ou uma aldeia, várias aldeias tocaram o sino a rebate, reuniram os anciãos na igreja e fizeram aquilo que se fazia há cem anos para apagar as chamas.
E o heroísmo de milhares de operacionais, como as corporações de bombeiros que há pouco saudei, e de muitos lugares que sozinhos tiveram de resistir pelas suas terras e pelas suas gentes.
E ainda dezenas e dezenas de testemunhos de perdas de tudo, dos avós aos pais, aos filhos, aos netos, aos maridos, às mulheres.

Mais de 100 pessoas mortas em menos de 4 meses em fogos em Portugal. Por muito que a frieza destes tempos cheios de números e de chavões políticos, económicos e financeiros nos convidem a minimizar ou banalizar, estes mais de 100 mortos não mais sairão do meu pensamento. Como um peso enorme na minha consciência, tal como no meu mandato presidencial.
Também por isso, por ter sentido chegar a tragédia e depois a ter confirmado de perto, estive onde estive, em Junho, e estarei nos próximos dias onde estarei.

Se falei aos portugueses primeiro como pessoa, foi para tornar bem claro que sempre, e mais ainda em tempos como estes, olhar para os dramas de pessoas de carne e osso com a distância das teorias, dos sistemas ou das estruturas, por muito necessário que possa ser, é passar ao lado do fundamental. Na vida como na política. E o fundamental é o que vai na alma de cada uma e de cada um dos portugueses.

Mas mais de 100 mortos em menos de 4 meses, além de ser um peso na consciência, são igualmente uma interpelação política. Uma interpelação política ao Presidente da República que foi eleito para servir incondicionalmente os portugueses. Para cumprir e fazer cumprir uma Constituição que quer garantir a segurança e a confiança dos cidadãos.

Ora, se há realidade que objectivamente ocorreu com estas mortes e estas duas e tão diferentes provações de um Verão interminável, foi a fragilização de muitos portugueses. Não vale a pena negá-lo.

Ficaram fragilizados perante aquilo que se lhes disse ou ouviram sobre a floresta e décadas de desordenamento ou incumprimento da lei.

Ficaram fragilizados perante o que lhes pareceu ser a insuficiência de estruturas ou pessoas em face de condições meteorológicas, dimensão e natureza de fogos, tão diferentes daqueles a que estavam habituados.

Ficaram fragilizados perante leituras dos relatórios sobre Pedrógão, em especial a do relatório da Comissão Parlamentar Independente, que acentuam dúvidas, temores, preocupações.

Ficaram fragilizados perante nova tragédia três dias depois da divulgação do relatório e por isso mesmo antes de acções possíveis por ele recomendadas.

Ficaram fragilizados perante a crescente denúncia de autarcas relativamente à criminalidade impune porventura existente na base dos fogos.

Ficaram sobretudo fragilizados perante a ideia da impotência. Da impotência da sociedade e dos poderes públicos, em face de tamanha confluência de catástrofes no tempo e no espaço.

Claro que uma tal fragilidade foi, ou é, em muitos casos, excessiva ou injusta atendendo à extensão das áreas atingidas, à virulência dos fogos e, em particular, à abnegação, ao heroísmo dos que a pé firme estiveram mobilizados cinco meses seguidos ao serviço da comunidade.

Mas o certo é que a fragilidade existiu e existe e atinge os poderes públicos e exige uma resposta rápida e convincente. E agora? Agora que se junta a interpelação dos que prematuramente partiram à exigência indignada dos que ficaram, o que pode e deve dizer o Presidente da República?

Pode e deve dizer que esta é a última oportunidade para levarmos a sério a floresta e a convertermos em prioridade nacional — com meios para tanto, senão será uma frustração nacional. Se houver margens orçamentais, que se dê prioridade à floresta e à prevenção dos fogos.

Pode e deve dizer que, por conseguinte, deve haver uma convergência alargada, porque os governos passam e é crucial que a prioridade permaneça.

Pode e deve dizer novamente que espera do Governo que retire todas, mas todas, as consequências da tragédia de Pedrógão, à luz das conclusões dos relatórios, em especial do relatório da Comissão Parlamentar Independente. Como, de resto, o Governo se comprometeu publicamente a retirar.

Pode e deve dizer que espera que nessas decisões não se esqueça daquilo que nos últimos dias confirmou ou ampliou as lições de Junho e olhe para estas gentes, para o seu sofrimento, com maior atenção ainda do que aquela que merecem os que têm os poderes de manifestação pública em Lisboa.

Pode e deve dizer que abrir um novo ciclo inevitavelmente obrigará o Governo a ponderar o quê, quem, como e quando melhor serve esse ciclo.

Pode e deve dizer que se na Assembleia da República há quem questione a capacidade do actual Governo para realizar estas mudanças que são indispensáveis e inadiáveis, então, nos termos da Constituição, esperemos que a mesma Assembleia soberanamente clarifique se quer, ou não, manter em funções o Governo. Condição essencial para, em caso de resposta negativa, se evitar um equívoco. E de resposta positiva, reforçar o mandato para as reformas inadiáveis.

Pode e deve dizer que reformar a pensar no médio e longo prazo, não significa termos de conviver com novas tragédias até lá chegarmos.

Pode e deve dizer que estará atento e exercerá todos os seus poderes para garantir que onde existiu ou existe fragilidade, ela terá de deixar de existir. E que não será mais possível ano após ano se garantir segurança, para ter de reconhecer no ano seguinte que ela não é possível confirmar-se.

Pode e deve dizer que é tempo de reconstruir, de iniciar um novo caminho, de acreditar no futuro na base da mudança em relação ao passado.

Pode e deve dizer que é a melhor, se não a única forma, de verdadeiramente pedir desculpa às vítimas de Junho e de Outubro. E, de facto, é justificável que se peça desculpa. É, por um lado, reconhecer com humildade que portugueses houve que não viram os poderes públicos como garante de segurança e confiança. E, por outro lado, romper com o que motivou a fragilidade, ou motiva o desalento, ou a descrença dos portugueses.

Quem não entenda isto — humildade cívica e ruptura com o que não provou ou não convenceu —, não entendeu nada do essencial que se passou no nosso país.

Para mim, como Presidente da República, o mudar de vida neste domínio é um dos testes decisivos ao comprimento do mandato que assumi. E nele me empenharei totalmente até ao fim desse mandato.

Impõem-no milhões de portugueses. Mas impõem-no, sobretudo, os mais de 100 portugueses que tanto esperavam da vida no início do Verão de 2017 e não chegaram ao dia de hoje."


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Hélio Madeiras


Adriano Miranda


Mais de 100 mortos em menos de 4 meses, reduzido a cinzas o Pinhal de Leiria que os reis D. Afonso III e D. Dinis mandaram plantar há mais de 700 anos e vários relatórios sobre os incêndios de Pedrógão — em especial, o elaborado pela Comissão Independente nomeada pela Assembleia da República que apontou graves falhas na prevenção e combate aos incêndios, desde logo da Protecção Civil, na tutela do Ministério da Administração Interna —, obrigaram o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa a dar um murro na mesa do governo de António Costa.

Agora espera-se que, após o Conselho de Ministros extraordinário do próximo sábado que irá analisar os relatórios sobre Pedrógão, o primeiro-ministro anuncie o pedido de demissão da ministra da Administração Interna.
Só peca por tardia. Aquando dos fogos florestais de Junho, percebeu-se que Constança Urbano de Sousa pouco mais tinha feito além de decapitar as chefias da Protecção Civil para arranjar emprego para a rapaziada socialista.

Sobre a moção de censura que o CDS vai apresentar no parlamento contra o Governo, e que o PSD deixou antever que apoiará, o Presidente tira as ilações das duas opções possíveis. Se a moção for aprovada, evita-se o "equívoco" de prosseguir com um governo sem suporte parlamentar. Se for chumbada — o que obviamente vai suceder porque os interesses de BE e PCP na administração pública e no sector empresarial do Estado passam pela continuidade do governo socialista —, o actual governo sai "reforçado" para concretizar as "reformas inadiáveis" na floresta portuguesa.

No entanto, não pense António Costa que vai poder continuar a entregar pastas ministeriais a gente incompetente que deixe morrer mais uma centena de portugueses no próximo Verão. E um dia depois da tragédia vir debitar um discurso solidário, como o de ontem, iniciado com um leve sorriso e sem assumir culpas e responsabilidades.
É que nesta declaração ao País, no palco do concelho mais fustigado pelos incêndios deste mês de Outubro, Marcelo Rebelo de Sousa deixou claro que vai cumprir a Constituição, estando disposto a usar os poderes que nela lhe são conferidos para garantir que as fragilidades governativas não voltem a colocar em causa a segurança dos portugueses.



quinta-feira, 27 de julho de 2017

Tragédia em Pedrógão Grande - IV. O SIRESP


A “caixa negra” do incêndio do Pedrógão Grande mostra que pedidos de ajuda de várias pessoas não chegaram ao posto de comando devido a falhas nas comunicações.

O Sistema de Apoio à Decisão Operacional (SADO) — a chamada "caixa negra" da Protecção Civil — regista todos os passos dados no combate aos incêndios: data, hora da ocorrência e medidas tomadas como resposta.

De acordo com o registo da "caixa negra", divulgado hoje pela comunicação social, ocorreram várias falhas graves de comunicação nos incêndios em Pedrógão Grande. Este vídeo da SIC transcreve os registos da fita do tempo:




Durante cinco horas não há qualquer comunicação. No entanto, o membro do governo que estava no terreno garantiu, à noite, que as comunicações SIRESP funcionaram "com regularidade".

Às 19.45 de sábado, dia 17, chegou o primeiro pedido de ajuda. O 112 foi alertado para a situação de três pessoas que se encontravam dentro de uma casa cercada pelas chamas, no Casalinho. Mas as comunicações falharam, não sendo possível avisar o posto de comando.

Nesse mesmo dia 17, às 21.47, está registado o pedido de ajuda de um homem de 75 anos com problemas respiratórios, residente em Sarzedas do Vasco. Está sozinho em casa, que já está a arder por baixo, não tem água porque o poço está avariado, mas também não se consegue contactar o posto de comando.

Pelas 22.15 são encontrados 47 mortos na estrada nacional 236-1, mas não há registo na fita do tempo da Protecção Civil.
O CDOS de Leiria contacta o CNOS às 23.15 para alertar que não conseguem contactar o comandante dos bombeiros de Pedrógão nem de Castanheira de Pêra.

Pelas 23.23, o secretário de Estado da Administração Interna Jorge Gomes diz à comunicação social que não está confirmada nenhuma vítima mortal. No entanto, às 21h28 fora encontrada a primeira vítima mortal em Vila Facaia.

O registo da "caixa negra" continua a mostrar falhas no sistema de comunicações até às 3.30 de segunda-feira, dia 19: são "dificuldades de comunicações SIRESP" ou situações como "devido a avaria, o veículo repetidor SIRESP/PSP ficou imobilizado".

A implementação, o funcionamento e a manutenção do Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal (SIRESP) já custou mais 13,6 milhões de euros do que os 485,5 milhões previstos na adjudicação feita em 2006 pelo Ministério da Administração Interna, à data liderado por António Costa.

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Será incompetência, será corrupção, ou ambas as coisas? Os “barões assinalados” do século XVI enaltecidos por Camões transformaram-se em charlatães.

Portugal é Lisboa, Porto, Setúbal e Braga. O resto é paisagem da qual os portugueses só se lembram durante as escassas semanas de férias. Quando acordarmos deste longo sono em que mergulhámos há quase meio século, em vez de cantarmos “Verdes são os campos De cor do limão: Assim são os olhos Do meu coração” diremos que “Cinzentos são os campos De cor da lama: Para os políticos serventuários Que elegemos fazeram a cama”.


domingo, 2 de julho de 2017

Tragédia em Pedrógão Grande - III. O IPMA


O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) fez uma análise exaustiva dos dados obtidos nas suas estações, detectores de descargas eléctricas e radares meteorológicos em 17 de Junho de 2017, dia em que deflagrou o incêndio no concelho de Pedrógão Grande, dados que coligiu nos mapas e tabelas de um relatório hoje publicado.
As conclusões daí resultantes também foram resumidas pelo presidente daquele instituto numa carta onde afirma ser pouco provável que o incêndio, iniciado na aldeia de Escalos Fundeiros às 14:43, tenha sido provocado por uma descarga eléctrica das trovoadas secas que decorreram em Portugal nessa tarde:
Perto deste local [Escalos Fundeiros], apenas se detectaram descargas nuvem-solo às 17:37, 18:53 e 20:54 (horas locais), a distâncias de 12, 7 e 8 km, respectivamente. Uma vez que a eficiência da rede é de cerca de 95% para as descargas nuvem-solo, podemos concluir que existe uma probabilidade baixa (mas não nula) da ocorrência de uma descarga nuvem-solo na proximidade do local de deflagração do incêndio.

Já a velocidade de propagação do fogo poderá ter sido aumentada por algum downburst dos vários que ocorreram na Região Centro e parte do Alto-Alentejo na tarde do dia 17 de Junho.





O relatório do IPMA explica que um downburst é um fenómeno de vento com rajadas rápidas — uma corrente de ar descendente (downdraft) extremamente forte que, ao atingir o solo, cria um escoamento horizontal divergente (outflow convectivo) muito intenso.

Como se origina um downburst?
Uma massa de ar aquecido torna-se menos densa, por isso sobe na atmosfera. Se o ar também estiver seco e contactar nuvens, parte delas evapora-se. A massa de ar arrefece bruscamente, portanto a descida é rápida, criando-se uma célula convectiva onde há rajadas. Eis uma imagem elucidativa:




Estas rajadas de vento, que haviam sido previstas pelo IPMA, podem explicar a propagação veloz do fogo na direcção da estrada nacional 236-1 que não foi cortada ao trânsito, onde sucumbiram 47 dos 64 mortos:
Os modelos de previsão de tempo indicaram existência de instabilidade durante a tarde do dia 17, favorecendo o desenvolvimento de nuvens convectivas e a ocorrência de precipitação e trovoada. Devido às condições de temperatura e humidade, a base das nuvens seria da ordem de 3000m, aumentando a probabilidade de correntes descendentes. (...)

A análise da rede de estações de superfície do IPMA permite identificar a existência de uma série de perturbações de origem convectiva (outflows convectivos) cujas frentes de rajada afectaram a Região Centro e parte do Alto-Alentejo. O valor mais significativo foi observado em Proença-a-Nova, com 85 km/h. Estas perturbação são o reflexo de correntes descendentes extremamente fortes e organizadas (downbursts) que ao atingir o solo criam escoamento horizontal divergente. (...)

O radar meteorológico de Coruche permite identificar às 19:20 (hora local) o padrão da pluma de incêndio, entre os níveis baixos e os 5000m de altitude, abaixo de outro padrão associável à bigorna das células convectivas, entre os 5km e os 11km. O padrão da pluma de incêndio apresenta propagação de leste para oeste. Verificam-se de seguida duas intensificações da pluma. A primeira com inicio às 19:20-19:30 (hora local) tendo atingido o auge pelas 19:50-20:00, período em que alcançou 13 km de extensão vertical, acima do nível da bigorna da nuvem convectiva. A segunda intensificação teve o máximo às 20:40, período em que alcançou 14km de extensão vertical. A análise da altitude do topo dos ecos do radar, e os cortes verticais dos campos da reflectividade e da velocidade apontam para que esta amplificação ser o resultado de escoamento horizontal divergente que se propagou sobre a região do incêndio de Pedrógão Grande.

De uma forma muito sintética (...) podemos concluir que a interacção entre o escoamento divergente gerado pelas células convectivas e o incêndio entretanto iniciado, conduziu a uma grande amplificação da pluma do incêndio, em termos de extensão vertical e velocidade de propagação, não susceptível de previsão por modelos numéricos de previsão do tempo, e criando condições excepcionais de propagação no terreno.

Evolução da reflectividade sobre a área de Pedrógão Grande

Para minorar as dificuldades observacionais, foram utilizados outros tipos de produto radar neste estudo, entre os quais o dos Topos dos Ecos (TOPS). Durante a maior parte do período em análise, os topos não ultrapassaram os 10 km de altitude, em particular sobre a área de referência representada na Fig.1.



Fig.1 Área de referência considerada no presente estudo. Vê-se as principais localidades, vias rodoviárias e orografia.
O segmento AB, a azul, é a secção do plano de corte seleccionado como referência dos cortes verticais efectuados sobre o campo da reflectividade radar.



As Fig.2 e Fig.3 mostram a evolução da reflectividade e a extensão vertical dos ecos durante o período 18:20-20:00 UTC, segundo a secção de corte explicitada na Fig.1.
No corte vertical das 18:20 UTC observa-se o padrão de pluma de incêndio, entre os níveis mais baixos e os 5000 m de altitude, situado por debaixo de um outro padrão de reflectividade, associável à bigorna das células convectivas, situado a níveis entre os 5 e os 11 km. Estas células propagavam-se de leste para oeste (sentido de A para B, na secção de corte). Durante este período, observou-se uma evolução muito significativa da reflectividade e, particularmente, da extensão vertical do padrão associável a pluma de incêndio (ou pluma de incêndio misturada com hidrometeoros).
A primeira de duas intensificações observadas no padrão de pluma iniciou-se pelas 18:20-18:30 UTC, tendo atingido o auge pelas 18:50-19:00 UTC, período em que alcançou cerca de 13 km de extensão vertical, situando-se portanto acima do nível da bigorna. Pelas 19:10 UTC a reflectividade do padrão de pluma, nos seus níveis mais baixos, decresceu um pouco, assim como a respectiva altitude (Fig.2).
A segunda intensificação iniciou-se pelas 19:20-19:30 UTC, tendo atingido o auge pelas 19:40 UTC, instante em que o topo do padrão de pluma (ou pluma misturada com hidrometeoros) se situava a cerca de 14 km de altitude (Fig.3).



Fig.2 Imagem dos TOPS do radar de Coruche/Cruz de Leão, 17 junho 2017.
Cortes verticais sobre o campo da reflectividade radar (dBZ) efectuados na área de referência, para o período 18:20-19:10 UTC. Escalas horizontal e vertical em km.
Estão assinalados os extremos da secção AB (com extensão aproximada de 30 km), Vila Facaia (V.F.) e a estrada N236-1 (E.N.). A seta vermelha assinala axóide da pluma (nuvem de partículas de fumo oriundo do incêndio) a baixa altitude.
Não foi objectivamente possível identificar a frente de rajada de um outflow convectivo, escoamento tipicamente em camada a baixa altitude, que possa ter afectado a área. Este facto pode ter ficado a dever-se à orientação desfavorável, face ao feixe radar, dos rumos do vento envolvidos e, possivelmente, ao facto de as observações radar não detectarem circulações abaixo de 900-950m de altitude, na elevação mais baixa, sobre a região. No entanto, este facto objectivo não exclui a possibilidade de que um fenómeno deste tipo possa ter-se propagado sobre a área e ter tido impacto na evolução da pluma, anteriormente referida.

O relatório termina com estas considerações:
No dia 17 de Junho de 2017, com a rede de estações de superfície do IPMA, foi possível identificar uma série de perturbações de origem convectiva (outflows convectivos), cujas frentes de rajada afectaram diversos locais de parte do centro do território do continente e parte do Alto-Alentejo. Na estação de Proença-a-Nova foi observada uma rajada de 85 km/h, que se destaca entre os demais valores significativos observados noutros locais. Essas perturbações foram o reflexo de downbursts, fenómenos em que correntes descendentes extremamente fortes e organizadas, ao atingir o solo, criam um escoamento horizontal divergente.

Foi efectuada uma primeira análise observacional baseada no campo da reflectividade observado pelo radar de C/CL [Coruche/Cruz do Leão]. Esta análise permitiu a elaboração de um mapa de isócronas representativas de diversos outflows convectivos cuja frente de rajada foi possível identificar. Posteriormente, foi efectuado um outro tipo de análise, essencialmente fundamentado na identificação e interpretação de padrões de velocidade Doppler, tendo em vista a identificação de downbursts, especialmente na área de referência apresentada, região onde esta foi uma ferramenta essencial, dada a ausência de uma suficiente distribuição de retrodifusores. Pelas 18:36 UTC, sobre uma região situada um pouco a sul de Cardigos/Mação, foi identificada uma assinatura de downburst em que foi observado o valor mais elevado da velocidade do vento instantâneo estimado por radar (aproximadamente 117 km/h a cerca de 650 m da altitude) em associação a um aglomerado convectivo. Não obstante esta constatação, não foi possível identificar outras assinaturas relevantes noutros sectores do aglomerado convectivo, circunstância que será explicável pelo facto de nas outras áreas o rumo dos ventos em níveis baixos ser presumivelmente praticamente perpendicular ao feixe radar.

Ainda assim, com o recurso a produtos de altitude do topo dos ecos, à execução de cortes verticais sobre o campo da reflectividade e ao do campo da velocidade Doppler, é de admitir a possibilidade de que um outflow convectivo se tenha propagado sobre a região do incêndio de Pedrógão Grande.

*

Estamos perante um relatório cientifico-técnico pormenorizado que conclui que "é de admitir" a possibilidade de ter ocorrido um downburst responsável pela propagação de um outflow convectivo sobre a região do incêndio de Pedrógão Grande.

Conclusão corroborada pelo presidente do IPMA quando refere que alguns dados de radar "apontam" para que certa amplificação observada na pluma do incêndio possa ser o resultado de um escoamento horizontal divergente.

Está encontrado o bode expiatório ideal para carregar 64 mortos no dorso, limpando a incompetência do jurista António Costa quando assinou o contrato do SIRESP, uma rede de emergência e segurança, aceitando uma cláusula que alija os custos das falhas, justamente em caso de emergência, em cima do Estado. Branqueando também a irresponsabilidade da ministra da Administração Interna quando permitiu o assalto aos cargos cimeiros da Protecção Civil escassos meses antes do começo da época de incêndios florestais de 2017.

Os vivos votam consoante o dinheiro que, no momento, têm no bolso. E os mortos não votam. Está tudo bem.



Um comentário relevante lido na notícia do Público:

joaquim alberto pinto vieira 03.07.2017 05:14

Sou um ex observador meteorológico com o curso do Estado e especialista no lançamento de balões meteo e análise dos seus dados com elaboração da sua carta. A explicação técnica está correcta. O IPMA tinha condições, dentro de um sistema organizado e centralizado, de ir prestando informações aos coordenadores do incêndio sobre a direcção dos ventos e o seu teórico provável caminho. Face às notícias já confirmadas, porém, não houve coordenação quase nenhuma, não houve SIRESP, não houve nada de jeito excepto ordens desconexas face ao desconhecimento da progressão possível teórica do incêndio. Depois actuaram com meios desadequados. Tudo isto no meio de total descoordenação. Se ao menos servir este caso para de imediato se corrigirem e evitar futuros casos...


sábado, 1 de julho de 2017

Tragédia em Pedrógão Grande - II. A Protecção Civil


Desde que o governo António Costa tomou posse, a estrutura de topo da Autoridade Nacional da Protecção Civil (ANPC) sofreu uma transformação radical, sendo substituídos quase todos os membros (seis em sete), desde o presidente ao comandante nacional e adjuntos.

Seguiram-se as mudanças na cadeia descendente que afectaram 20 dos 36 comandantes distritais (CODIS), ocorrendo alterações em 17 desses cargos nos dois meses anteriores aos incêndios, ou com a entrada de novos elementos ou com a mudança de posição de alguns membros da ANPC mais experientes.





Desconhece-se quem comandou as operações a cada hora do incêndio de Pedrógão Grande. Contudo, o PÚBLICO avança que o primeiro homem a assumir o cargo de comandante das operações de socorro (COS) foi o comandante dos bombeiros de Pedrógão Grande, Augusto Arnaut, logo que recebeu o alerta pelas 14:43.

Às 17:08, foi substituído pelo 2.º comandante operacional distrital (CODIS) de Leiria, Mário Cerol, um homem novo no comando, advogado, comandante dos bombeiros de Alcobaça, porque o 1.º CODIS Sérgio Gomes estava hospitalizado.
No entanto, Cerol fora escolhido para substituir Luís Lopes, afastado pelo CONAC, apenas em Fevereiro deste ano. Além disso tem ligações ao PS como mandatário da candidatura autárquica do partido em 2009.

A partir daqui, há um vazio na fita do tempo do comando de operações. Por volta das 22:00 é o 2º comandante nacional (CONAC), Albino Tavares, a assumir o comando. Na nomeação em Diário da República deste militar da GNR, que só desde Janeiro faz parte da estrutura da ANPC, apenas consta que Albino Tavares tem um "Curso de Primeira Intervenção em Incêndios Florestais" e "vários cursos do Mecanismo Comunitário de Protecção Civil".

Os comandantes dos bombeiros da zona queixam-se de que não conheciam o homem no comando das operações e que este não conhecia a zona, além de que em situações complexas era o comandante nacional quem assumia o comando nos anos anteriores. Desta vez tal não sucedeu: Rui Esteves seguiu para a sede da ANPC, em Carnaxide, no dia 17 Junho, só voltando dias depois ao teatro de operações.

*

De toda esta narração, sobressai a irresponsabilidade da ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, por ter permitido o assalto aos cargos cimeiros da Protecção Civil escassos meses antes do começo da época de incêndios florestais de 2017.


sexta-feira, 23 de junho de 2017

Tragédia em Pedrógão Grande - I. A estrada N236-1


O incêndio no concelho de Pedrógão Grande, distrito de Leiria, deflagrou no sábado 17 de Junho, pouco antes das 14h43, na aldeia de Escalos Fundeiros, tendo provocado 64 mortos e mais de 200 feridos. Só foi dado como extinto uma semana depois, porém, todas as fatalidades ocorreram sábado à tarde.



O sinal de pré-sinalização no IC8 que indica a intersecção com a fatídica estrada N236-1, entre Castanheira de Pera (10 km) e Figueiró dos Vinhos (5 km), para onde a GNR encaminhou o trânsito quando encerrou o IC8 pelas 19h de sábado 17 de Junho.
Ao fundo vê-se o viaduto da N236-1 sobre o IC8 que permite virar para Castanheira de Pera. Percorrido o viaduto entra-se no troço onde morreram 47 pessoas.








Foi na estrada nacional 236-1, no troço entre os entroncamentos de Vila Facaia e Pobrais, no concelho de Pedrógão Grande, que o fogo consumiu quinze veículos causando 47 mortos, dos quais 30 foram carbonizados dentro dos automóveis e 17 encontrados junto das viaturas.



  1. chegada dos reboques à N236-1 no sentido IC8-Castanheira de Pera********* 4:13-4:56
  2. reboques fazem inversão de marcha para posicionarem os estrados ******* 3:16-4:13
  3. reboques começam a remover as cinco carcaças que obstruíam a N236-1. Pode ver-se catorze das quinze viaturas carbonizadas *******************************0:00-3:16



  1. estrada N236-1 percorrida no sentido IC8-Castanheira de Pera *************0:00-5:30
  2. estrada N236-1 percorrida no sentido contrário, restando ainda onze das quinze viaturas carbonizadas ****************************************************5:30-13:03


O relato de Maria de Fátima Nunes, uma das sobreviventes que conseguiu atravessar os 400m do troço da morte e, posteriormente, chegar ao quartel dos bombeiros de Castanheira de Pera:






terça-feira, 20 de junho de 2017

Humor trágico





Bartoon de 20 de Junho de 2017 do jornal Público, publicado inicialmente em 10 de Agosto de 2016


A 17 de Junho de 2017 deu-se, no concelho de Pedrógão Grande, um devastador incêndio que matou 64 pessoas e causou um elevado número de feridos. É considerado como a maior tragédia em Portugal desde a queda da ponte Hintze Ribeiro, em Março de 2001, que provocou 59 mortes.

O fogo deflagrou ao início da tarde de sábado numa área florestal em Escalos Fundeiros, uma aldeia portuguesa do município de Pedrógão Grande, tendo alastrado aos municípios vizinhos de Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos, todos no distrito de Leiria.





Hoje, as elevadas temperaturas e o vento que sopra forte estão a provocar o alastramento do incêndio que lavra no concelho de Góis, distrito de Coimbra, o que já obrigou à evacuação de várias aldeias.



*


O XIX Governo Constitucional herdou um défice público de 11% e um país que vendia dívida pública a taxas de juros exorbitantes. Baixou o défice para 3% e conduziu Portugal de regresso aos mercados financeiros.

O XXI Governo Constitucional tomou posse no dia 26 de Novembro de 2015 numa cerimónia presidida pelo presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, e pelo presidente da assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues no Palácio da Ajuda, em Lisboa.
Faz hoje 1 ano, 6 meses e 25 dias.

Lavra um incêndio em Pedrógão Grande que provocou 64 mortos numa tarde. O Verão de 2017 começa amanhã.



sábado, 17 de junho de 2017

Fogo destrói bloco de apartamentos em Londres


A torre Grenfell, um bloco de apartamentos de habitação social com 24 andares situado em North Kensington, Londres, foi engolido pelas chamas depois da eclosão de um incêndio pouco antes da 01:00 de quarta-feira.




Wednesday 14 June 2017 15.20 BST


Os socorros chegaram seis minutos depois das inúmeras chamadas telefónicas. Estiveram a combater o incêndio 200 bombeiros com 40 carros.
Em incêndios de edifícios altos, plataformas aéreas podem ser usadas para permitir que os bombeiros trabalhem fora do prédio. Mas os veículos da plataforma aérea da Brigada dos Bombeiros de Londres só podem atingir alturas de cerca de 32 m, limitando o combate aos incêndios a apenas uma dezena de andares.




Construída em 1974, a torre Grenfell tinha 120 apartamentos com um ou dois quartos a partir do 4º andar.
Fora alvo de uma remodelação, em 2016, que lhe acrescentou mais 7 apartamentos com três ou quatro quartos nos pisos inferiores, onde também estavam localizados um infantário e um clube de boxe. Sobre o betão das fachadas foi aplicado um revestimento que tornava o edifício mais ecológico.
Poderiam estar entre 400 e 600 pessoas dentro do edifício quando o incêndio eclodiu.







A torre Grenfell fazia parte do Lancaster West Estate, um complexo de habitação social de quase 1000 casas no burgo (freguesia) real de Kensington e Chelsea que é onde ocorre o maior intervalo de salários da população residente:





O incêndio começou num apartamento do 4º andar, sendo notória a rapidez com que as chamas se propagaram ao longo das quatro fachadas da torre, bem ilustrada nestas imagens:




Tanta rapidez levantou suspeitas sobre se o revestimento em alumínio colocado nas fachadas, para melhorar a eficiência energética do edifício aquando da remodelação, teria um núcleo de polietileno, um plástico altamente inflamável. Suspeita-se também que a cavidade entre a parede e o revestimento provocou o efeito chaminé, incentivando a propagação do fogo.




Surgiu, então, à superfície uma litania de falhas do Conselho de Kensington e Chelsea, o proprietário dos apartamentos, e a Kensington and Chelsea Tenant Management Organisation (KCTMO), a organização de gestão de inquilinos de Kensington e Chelsea que era paga para gerir a propriedade.

Imediatamente o sub-empreiteiro da remodelação veio lamentar o trágico incêndio e lembrar que a KCTMO havia adjudicado a obra à Rydon Maintenance em nome do conselho.

Por sua vez, a empresa contratada para realizar a remodelação de 10 milhões de libras mudou a sua declaração sobre a tragédia. Primeiro, a Rydon divulgou uma declaração dizendo que cumpriu todos os "regulamentos de incêndio e padrões de segurança e saúde" durante a remodelação de 2016. No entanto, numa declaração posterior omitiu esta linha e simplesmente disse que a empresa "cumpriu todos os regulamentos de construção necessários".

Impotentes, as pessoas que observavam o incêndio foram gravando vídeos que documentam a tragédia:




Já foram identificadas algumas vítimas mortais, existindo, obviamente, inúmeros desaparecidos, diariamente actualizados. Estima-se, pelo menos, 58 mortos.

Há outras causas para o elevado número de vítimas além da alta velocidade de propagação das chamas pelo revestimento das fachadas. A construção do bloco de apartamentos não cumpria as actuais normas de segurança e a remodelação nada corrigiu: não existiam aspersores, nem escapatórias de incêndio, e duvida-se que as portas corta-fogo funcionassem pois não foi realizada qualquer inspecção.

A difusão de fumos para a única escada do edifício não só impediu completamente o contacto visual entre os membros das famílias que tentaram sair dos seus apartamentos, levando-os a perderem-se, como provocou o desmaio dos mais frágeis.
Entre os desaparecidos está Rania Ibrahim que vivia com as duas filhas de três e cinco anos de idade num apartamento no 23º andar. Neste vídeo angustiante que enviou à melhor amiga, pode ser vista a pedir ajuda no patamar cheio de fumo antes de voltar para casa. Depois olha para a rua, começa a rezar e, no final, diz em árabe: "Peço perdão a todos, adeus":



14 June 2017 • 9:30pm


As regras de segurança em caso de fogo impostas pela empresa gestora KCTMO, incitando os inquilinos a permanecerem nos respectivos apartamentos, também contribuíram para a morte dos mais respeitadores.


Quando algumas pessoas receberam ordem de evacuação dos bombeiros já era demasiado tarde, estavam prestes a desmaiar por inalação de monóxido de carbono. Tudo o que se encontrava dentro dos apartamentos, inclusive os tabiques que separavam as divisões, foi carbonizado (excepto os metais). Como se vê neste vídeo que mostra o resto de um apartamento T1 e outro T2:



18 June 2017 • 8:56pm