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terça-feira, 15 de dezembro de 2015

A situação no Banif - II


A TVI pede desculpas pelas notícias que difundiu na noite de domingo sobre uma intervenção do Estado no Banif esta semana.

Em comunicado, divulgado esta terça-feira, a direcção de informação da TVI, liderada por Sérgio Figueiredo, indica que "não pode deixar de lamentar que a informação que inicialmente foi veiculada (...) não tenha sido totalmente precisa e esclarecedora".
A TVI "envia desculpas aos seus espectadores, mas também aos accionistas, trabalhadores e clientes do Banif, pela difusão de um conjunto de informações que, embora cabalmente esclarecidas no jornal '25ª hora', emitido à meia-noite, poderão ter induzido conclusões erradas e precipitadas sobre os destinos daquela instituição financeira".

O que disse a TVI no domingo em rodapé:

  • "Banif: A TVI apurou que está tudo preparado para o fecho do banco";

  • "A parte boa vai para a Caixa Geral de Depósitos";

  • "Vai haver perdas para os accionistas e depositantes acima dos 100.000 e muitos despedimentos";

  • "Banif poderá ser intervencionado esta semana".

À noite, o primeiro-ministro, António Costa, veio garantir a integridade dos depósitos no Banif, independentemente dos montantes envolvidos. Mas não dá a mesma garantia aos contribuintes.

Interrogado sobre se a solução para o Banif acarretará custos para os contribuintes em geral, António Costa sublinhou que o Estado "tem capitais públicos muito avultados" investidos naquele banco. "Espero que a solução que venha a existir proteja o melhor possível o dinheiro dos contribuintes. Mas a garantia que possa dar aos contribuintes não é a mesma que posso dar aos depositantes", avisou.
Os depositantes "têm todas as razões para estarem plenamente confiantes na integridade dos seus depósitos, independentemente dos seus montantes". "Quanto ao dinheiro público investido no banco, isso dependerá muito da solução final. Não posso dar a mesma garantia", respondeu.


*


Caso a venda do Banif venha a falhar, as perdas directas para o Estado não devem ultrapassar 825 milhões de euros. Como o aumento de capital de 700 milhões já foi registado no défice, fica apenas por debitar a tranche de 125 milhões de euros dos "CoCos".

Se for necessário recapitalizar o banco, aí Costa terá de buscar mais dinheiro aos contribuintes, com o consequente aumento do défice e da dívida. É a vida!

Alguns comentários lidos no Negócios:

Nova Lisboa
17:45
O que é lamentável é que o novíssimo director de informação da tvi Sérgio Figueiredo, ex-director deste jornal, amigo íntimo de Sócrates e ex-colega de carteira de Centeno, tenha sido o causador desta maravilha jornalística que ia dando cabo do sistema financeiro português de uma vez.
Desde que limparam a Manuela e a colega que faziam investigação, a tvi nunca mais foi a mesma e é agora o órgão oficial do partido no poder. O Serginho teve muitos anos a mamar na fundação EDP por indicação do Josézito e já se deve ter esquecido das regras deontológicas do jornalismo. Ou será que nunca as aprendeu? Tanta é a fome de provar trabalho que fez mer Da.

Anónimo
17:52
Pede desculpas? Será que alguém tem noção do impacto que uma notícia destas tem num banco fragilizado? Quantos dos grandes depositantes retiraram o dinheiro do BANIF? Quem paga a conta?

surpreso1
18:06
A TVI trabalha por encomenda. Ainda não perceberam?

Anónimo
18:11
Deviam também dizer quem pagou para publicar essa notícia...

Mitómano
18:16
A TVI não tem que pedir desculpa por avançar em antemão o que irá acontecer brevemente.

a verdade
18:24
Sem desculpar a TVI, não foi por ela que o Banif tem vindo a descer dia após dia. Mais, provavelmente até disseram a verdade, mas devem ter feito alguns "amigos" perder dinheiro por não os avisarem antes.
Não inventem, saiam do Banif enquanto é tempo.

FAROL DA GUIA

18:32
Sem querer desculpar a TVI, apesar de ser prática corrente o sensacionalismo informativo, quem começou a saga foi o PÚBLICO.
Lendo bem a notícia do jornal, ela tinha um objectivo político, que era culpabilizar a anterior ministra das Finanças e afirmar que o Gabinete do actual ministro estava a trabalhar na resolução com o apoio do PCP e do BE. Exactamente a mesma narrativa do candidato Sampaio da Nóvoa.
É certo que é comum dizer-se para aqueles lados que os fins justificam os meios, mesmo prejudicando pessoas e pondo outras em sobressalto. Pena é que o jornal seja suportado por um grupo empresarial que, como todos, pode ser acusado com meias verdades. As retaliações não qualificam ninguém, mas o jornal segue um rumo que só pode desaguar no Avante ou na Luta Popular.

Anónimo
19:00
A Madeira tem força para segurar o Banif. A Madeira e os Açores precisam de um Banif forte e capitalizado para apoiar a economia local no seu desenvolvimento.

Anónimo
22:06
A notícia foi propositada e a mando do PS!
Costa anda desesperado para encontrar um buraco que justifique a manutenção das medidas de austeridade.
A semana passada foi o défice que ficaria acima dos 3%, o que não resultou...
Esta semana é a história do BANIF, que Bruxelas já veio dizer que tem até Dezembro de 2017 para resolver a sua situação!

Celso
22:43
Acima de tudo, vende-se a ideia que existem compradores que aceitam um banco falido, sem activos estratégicos que valham a pena, e com activos tóxicos, esta última parte é de rir. Que bando de intrujões.


segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

A situação no Banif - I


Uma eventual medida de resolução do Banif, em 2016, não deverá ser igual à do BES. Pode haver divisão em "banco bom" e "banco mau", mas possivelmente serão penalizados os obrigacionistas sénior e os depósitos acima de 100 mil euros.




O Banif foi intervencionado pelo Estado no final de 2012, tendo recebido 700 milhões de euros através de um aumento de capital e mais 400 milhões em capital contingente (designados por "CoCos").
No total, foram 1,1 mil milhões de euros emprestados pela troika, mas o aumento de capital já está incluído no défice e na dívida pública.

O banco conseguiu devolver 275 milhões de euros dos "CoCos" mas falhou o prazo de reembolso (Dezembro de 2014) da última tranche de 125 milhões, o que motivou a abertura de uma investigação na Comissão Europeia, em Julho deste ano, para verificar se a ajuda ao banco cumpriu as regras sobre auxílios estatais.

Agora a equipa liderada por Jorge Tomé está a tentar vender a participação estatal — actualmente 60,53% do capital do Banif — a um investidor privado para evitar que Bruxelas considere ilegal a ajuda pública.

Quando, domingo à noite, a TVI noticiou que, se esse processo não tiver sucesso até ao final desta semana, o Governo de António Costa poderá avançar com uma medida de resolução para o Banif, a reacção do gabinete de Mário Centeno foi célere.
"O plano de reestruturação do Banif, tal como é de conhecimento público, está a ser analisado pela DG Comp. Paralelamente, decorre um processo de venda do banco nos mercados internacionais conduzido pelo seu Conselho de Administração. O Governo acompanha, como lhe compete, a evolução destes processos, garantindo a confiança no sistema financeiro, a plena protecção dos depositantes, as condições de financiamento da economia e a melhor protecção dos contribuintes", garantiu o Ministério das Finanças, já na madrugada desta segunda-feira, 14 de Dezembro, em comunicado enviado às redacções.

O banco liderado por Jorge Tomé também divulgou um comunicado onde dizia que as afirmações "não só não correspondem à verdade como não têm qualquer espécie de fundamento", prometendo que "não deixará de apurar em sede judicial toda a responsabilidade dos autores de tais 'notícias' e dos que contribuíram para a sua propagação, na defesa dos melhores interesses dos seus clientes, colaboradores e accionistas".

Inquirida Bruxelas sobre se está a acompanhar o processo de venda e está a par de outras alternativas para a instituição, designadamente uma medida de resolução, o gabinete de imprensa da Direcção-Geral da Concorrência da Comissão Europeia (DGComp) respondia assim ao Negócios:
"A Comissão Europeia está em contacto próximo e construtivo com as autoridades portuguesas" sobre a situação do Banif. Esses contactos estão a decorrer "tanto ao nível técnico como político" mas, "neste momento, não é possível antecipar desfecho ou o calendário de uma decisão" de Bruxelas.
Esta fonte oficial sublinha que "qualquer desfecho [sobre o Banif] estará em linha com as regras da União Europeia e assegurará a total protecção dos depósitos garantidos".

Novas regras de resolução de instituições financeiras

A nova regra de resolução de instituições financeiras, chamada Banking Resolution and Recovery Directive (BRRD), foi aprovada em 2014, teve aplicação facultativa em 2015 e tornar-se-á obrigatória a partir de 2016.

Esta "Directiva de Recuperação e Resolução Bancária" exige um espectro alargado de contribuições para o chamado "bail-in", prevendo que não só os accionistas e os detentores de dívida subordinada (obrigações mais arriscadas), mas também os detentores de dívida sénior e os depósitos acima da 100 mil euros sejam chamados a contribuir para o reforço do capital do banco, antes de ser injectado dinheiro público.

Será um dos factores a considerar na decisão sobre o Banif, caso não se encontrem investidores interessados em ficar com a participação accionista do Estado.

"O ‘bail-in’ irá aplicar-se potencialmente a todas as responsabilidades das instituições que não estejam seguras por activos ou capital" e "não se aplicará aos depósitos protegidos pelos sistema de garantias de depósitos, aos empréstimos interbancários de curto prazo (…), aos activos dos clientes ou a responsabilidades como salários, pensões ou impostos", lê-se na nota explicativa sobre a BRRD disponibilizada pela Comissão Europeia.
"Depois das acções de outros instrumentos similares irá, em primeiro lugar, forçar-se perdas equitativas nos detentores de dívida subordinada e depois, também equitativamente, nos detentores de dívida sénior" e "depósitos das PME e de pessoas, incluindo acima de 100 mil euros, serão preferidos sobre outros credores seniores", ou seja, só serão chamados depois de esgotadas as anteriores possibilidades.

Este novo modelo visa reduzir ao mínimo os encargos dos contribuintes na resolução de bancos, mas exige perdas a credores — obrigacionistas seniores e depositantes com saldos acima de 100 mil euros, em geral, empresas — que, até agora, estavam relativamente protegidos.
No caso do BES todos os depositantes, assim como a dívida sénior, transitaram, sem perdas, para o Novo Banco. A medida de resolução impôs perdas apenas aos accionistas e à dívida subordinada.

As medidas de resolução são negociadas entre os governos e as entidades europeias que têm como missão avaliar se as regras de concorrência e de ajudas de Estado estão a ser cumpridas. Quando está em causa a estabilidade financeira, estão previstas excepções às regras de "bail-in".

No final de Novembro o governo italiano avançou com a resolução de quatro instituições financeiras para, segundo a imprensa internacional, evitar as regras que entram em vigor em Janeiro.
A entrada em vigor da BRRD coincide também com a entrada em vigor de outros mecanismos da União Bancária, como o início do Fundo Europeu de Resolução e o Mecanismo Europeu de Resolução.

*



17:42

Jorge Tomé tem tentado vender a participação estatal — 70 mil milhões de acções adquiridas através de um aumento de capital de 700 milhões de euros e que correspondem actualmente a 60,53% do capital do Banif — a investidores privados chineses. Agora fala-se em fundos de private equity europeus e norte-americanos.

Há, porém, um problema de preço. O Estado comprou os títulos a 0,01 euro (Prospecto do aumento de capital de 2014, p.45). A cotação do Banif tem vindo a cair e o fecho de hoje foi 0,0008 euro. Portanto a participação do Estado, que não pediu a admissão das acções à bolsa, tem hoje o valor de mercado de 56 milhões de euros.

No caso do Novo Banco é o fundo de resolução suportado pelos bancos que arcará com os prejuízos. O contribuinte só será chamado a pagar a fatia que couber à Caixa Geral de Depósitos.

Agora, no Banif, o Estado é detentor de acções, até da maioria do capital do banco. Dado que o património do banco está muito desvalorizado, o banco tem de pagar ao Estado 125 milhões dos “Cocos” e ainda precisa de uns 150 milhões de capitalização, tudo isto soma muitas centenas de milhões de euros que nenhum investidor privado aceitará injectar no banco. Vai ser o contribuinte a pagar tudo.

Estamos perante um problema muito grave para ser resolvido por um governo minoritário suportado por uma maioria parlamentar onde se inclui num partido apóstolo da cartilha marxista que impõe a nacionalização da banca.

Outras opiniões:

JoaoTVale
13:46
Qualquer solução que seja encontrada para o Banif terá sempre uma perda/prejuízo para os actuais accionistas. Um Banco com intervenção do Estado ao nível da do Banif não é nunca uma boa opção de investimento, a não ser para quem queira ver a bolsa como um jogo de roleta. Ou muito me engano ou vamos assistir a uma solução tipo BES, com algumas pequenas diferenças, em que os actuais accionistas (pequenos ou grandes) irão perder todo o seu investimento.
A Banca (mundial, europeia ou portuguesa), em geral, está carregada de problemas (crédito malparado, crédito incobrável, obrigações de Estados quase falidos, etc.), os quais desde 2007/2008 têm vindo a ser assumidos gradualmente pelo sistema, de forma a que o mesmo não estoire. A Banca portuguesa, como é lógico, não foge à regra e a prova disso foram as ajudas que o Estado teve de fazer ao BPI, BCP, CGD e Banif que, tirando o caso do BPI (já devolveu toda a ajuda), ainda não conseguiram devolver grande parte dessas ajudas. E porquê? Porque os problemas são muitos e o dinheiro não estica. Banif já era.

micael
17:12
Eu, se fosse administrador de uma empresa ou um particular com depósitos superiores a 100.000 euros no Banif, tirava o dinheiro de lá. Better safe than sorrow.


quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Entrevista de Passos Coelho à TSF e à TVI


Esta noite, na quinta entrevista do primeiro-ministro a um canal de televisão, Passos Coelho, abordou a hipótese de haver um programa cautelar de um ano, no final do programa de assistência financeira externa. A entrevista na íntegra:



2013-12-12 22:00:55

Sobre o programa cautelar:

"Estou em condições de dizer aos portugueses que ao longo dos últimos dois anos e meio conseguimos um resultado que dispensa um segundo programa [de resgate]. Podemos sair desse programa sem qualquer tipo de ajuda, ou com algum tipo de ajuda. As duas coisas são possíveis e não vou eliminar nenhuma delas hoje. Mas o que quero dizer é que, qualquer que seja a solução, deverá corresponder a uma avaliação rigorosa do que pode ser melhor para o interesse do País.

Um programa cautelar, se vier a ser adoptado, tem a duração de um ano, portanto cabe perfeitamente naquilo que é o mandato deste Governo e da maioria que o suporta, que vigorará até às próximas eleições legislativas, que ocorrerão, dentro das circunstâncias normais, que eu espero que se verifiquem, em Setembro de 2015. Ora, não há nenhuma razão para que um programa que cabe dentro da execução do mandato do Governo tenha de ter como exigência o apoio do principal partido da oposição.

É um cenário muito diferente de 2011, quando o programa negociado para três anos ia além do mandato do Governo [de José Sócrates].

É importante que possa existir sobre o futuro, sobre o médio e o longo prazo, um entendimento o mais alargado possível entre as principais forças políticas que têm vocação de Governo. Nessa medida, nós nunca deixaremos de procurar o envolvimento do PS, de modo a garantir que qualquer programa, se vier a ser realizado, resulte de um entendimento tão alargado quanto possível."


Sobre a dívida pública:

"[Mesmo depois de fechado o programa de ajustamento, Portugal terá] um longo caminho ainda para percorrer para reduzir a dívida pública.

Isso é um encargo que demorará 10 ou 15 anos a concretizar até atingirmos níveis que nos retirem de uma linha de maior volatilidade dos mercados. Esses anos vão ter de exigir crescimento da economia e entendimentos que nos permitam ter excedentes orçamentais.

Os próximos governos, ao longo de 15 ou 20 anos, poderão escolher as políticas que vão desenvolver, mas não podem deixar de manter a despesa dentro de níveis controlados.

É muito importante que isto possa ser um objectivo comungado com o PS, porque ajuda na confiança dos investidores em Portugal."


Sobre os erros admitidos por Christine Lagarde:

"É um bocadinho estranho, não é?. Não é só o português em média [que acha estranho]. Nós, no Governo, também estranhámos.
(...) a estrutura de topo do Fundo Monetário Internacional não é coerente com aquilo que o seu nível técnico dispõe quando faz negociações ao nível da troika.
(...) É uma inconsistência que torna mais difícil perceber a perspectiva do FMI nesta altura.

O aspecto que é importante, nesta altura, sublinhar é o seguinte: houve um erro, de facto, no programa que foi desenhado para Portugal. Não havia a perspectiva de que, quer o défice de 2010, quer a previsão de défice de 2011, se afastassem tanto das previsões feitas pelo Governo e por essas entidades internacionais.
(...)
[O PEC IV apontava para um défice inferior a 6% para 2010 que, na realidade, terminou próximo de 10%. Para 2011, a meta de 4,5% também era] totalmente irrealista."

"[A troika aceitou reajustar as metas em 2012 mas, nesse reajustamento], poderia ter havido mais realismo, quer para 2012, quer para 2013. É pena que o FMI não tivesse tido na altura, essa perspectiva que hoje é afirmada pela sua directora-geral."


Sobre uma coligação com o CDS nas próximas legislativas de 2015:

"Pode acontecer, não é uma decisão que esteja tomada. As eleições serão objecto de atenção partidária a seu tempo, mas não seria um facto que causasse estranheza. Seria natural que assim acontecesse. Mas não estou a dizer que isso vá acontecer. Não vejo necessidade de estar a criar problemas ao dr. Portas, assim como não vejo necessidade de o dr. Paulo Portas criar problemas ao PSD."


Sobre Rui Rio:

"É um activo importante para o PSD que tem qualidades suficientes para poder desenvolver vários projectos importantes. No que depende da minha escolha, Rui Rio não será desaproveitado, nem dentro nem fora do PSD.


Sobre as eleições europeias de 25 de Maio de 2014:

"É possível e até compreensível que o PSD e o CDS saiam penalizados da votação por causa das medidas de austeridade que tomaram. Espero que isso não aconteça, esforçar-me-ei por mostrar aos portugueses que temos feito tudo ao nosso alcance para que as perspectivas de futuro melhorem."


Sobre a contestação social nas ruas e sobre as críticas de Mário Soares e de antigos líderes PSD:

"Encaro com muita naturalidade, vivemos num país democrático. Percebo que os portugueses vivam estes anos com angústia, nós no Governo também temos vivido estes anos com muita ansiedade e muita angústia. Temos a noção clara dos sacrifícios das pessoas e do esforço tremendo do país, mas penso que as pessoas começam a ter a percepção de que a resposta é positiva."


Fotografias e um vídeo invulgar dos bastidores de uma entrevista no palácio de São Bento:

Passos Coelho em entrevista à TVI/TSF (Lusa)

Entrevista de Passos Coelho à TVI/TSF (Lusa)


13/12/2013 - 00:24



quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Entrevista de Passos Coelho à TVI


Um dia após a aprovação do Orçamento do Estado para 2013, Pedro Passos Coelho procura explicar aos seus concidadãos as medidas tomadas:


2012-11-28 21:59:41


"José Alberto de Carvalho: [Com este orçamento] o senhor acredita que Portugal será mais pobre ou mais forte?

Primeiro-ministro: Este orçamento é uma espécie de garantia que continuaremos a executar bem o nosso programa de ajustamento e portanto conseguiremos concluir esse programa de forma satisfatória até 2014, regressando a mercado durante o ano de 2013. Isto é muito importante porque é aquilo por que estamos a lutar em todo o País e a razão por que as pessoas estão a fazer sacrifícios.

JAC: Chegaremos lá mais pobres.

PM: Não poderemos chegar mais ricos porque o País tem um excesso de dívida e acumulou um défice grande, quer do lado do orçamento de Estado, quer do lado do nosso desequilíbrio externo. Durante muitos anos endividámo-nos à razão de quase 10% da riqueza que geramos em cada ano e sofremos o embate com a realidade em 2011. De repente, descobrimos que uma parte da riqueza que julgávamos que tínhamos era fictícia, era uma riqueza que corresponde a uma dívida que, afinal, vamos ter de pagar.

(...)

PM: Se os nossos credores acreditam no trabalho que estamos a fazer e entendem que estamos a cumprir o programa correctamente para lhes pagar o que devemos, tenho de pensar que eles têm interesse em ver isso com muito cuidado.

JAC: Portanto é a troika, o senhor primeiro-ministro e o ministro das Finanças.

PM: Não, é o Governo. Essa ideia de se querer isolar o ministro das Finanças e o primeiro-ministro seria muito elogiosa no sentido de dar ao ministro das Finanças e ao primeiro-ministro uma convicção que os outros não têm, mas é falsa.

JAC: Mas quem é o “número dois” do Governo?

PM: É o ministro das Finanças, evidentemente. E o terceiro é o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros.

Judite de Sousa: E acredita que o Dr. Paulo Portas está de corpo e alma com este orçamento? Confronto-o com a declaração de voto do porta-voz do CDS que tem sido muito activo nas críticas ao Governo e a este orçamento, que diz: “Não é um bom orçamento, vai criar dificuldades às pessoas, desproporção entre o esforço do Estado e o esforço pedido às famílias”. Acha que Paulo Portas pensa o mesmo?

PM: Isso a senhora terá de perguntar ao Dr. Paulo Portas e à pessoa que cita, não falo em nome de outras pessoas. O que lhe posso dizer, porque estou a falar para os portugueses através da sua pergunta, é que o Governo está coeso, apresentou este Orçamento, que não é do primeiro-ministro, nem do ministro das Finanças, é do Governo e os deputados da maioria aprovaram-no, nomeadamente, o deputado que a senhora citou.

JS: Mas contrariado.

PM: Todos nós gostaríamos de ter um mundo melhor do que temos. Há uma diferença entre a maioria que suporta este Governo e os outros: é que, apesar do incómodo que todos sentimos com a situação que estamos a viver, esses deputados põem o interesse do País à frente e sabem que uma crise política, uma ausência de orçamento seria muito mais grave para Portugal do que ter um orçamento duro e difícil. Temos um orçamento muito difícil porque estamos a enfrentar dificuldades, porque as queremos vencer.
Se quisesse ficar na posição demagógica e populista de dizer ao País que tinha muito boas notícias para lhe dar, que não precisávamos destes impostos, que não precisávamos de apertar o cinto, que não precisávamos de olhar para as dificuldades, então o País deveria ficar muito preocupado porque teria um primeiro-ministro mais preocupado com as eleições do que em resolver os problemas. Temos uma situação muito difícil que exige um Governo muito determinado. Se o governo não estiver muito determinado, ninguém estará.

JAC: Vê alguma possibilidade, até ao fim da legislatura, de diminuir a carga fiscal sobre os salários e as pensões?

PM: Tenho evitado fazer promessas dessa natureza, porque temos de consolidar primeiro os nossos resultados. Seria fácil dizer uma trivialidade: gostaria de baixar os impostos, logo que possível, porque ninguém pode construir uma sociedade justa e progressista com o nível de carga fiscal como nós temos previsto para 2013.

JAC: A sobretaxa de 3,5% é para vigorar apenas em 2013?

PM: Tudo o que está neste orçamento é para vigorar em 2013. Quando chegarmos a Outubro de 2013, apresentaremos a proposta de orçamento para 2014. Temos uma previsão de médio prazo para a evolução da despesa pública e, dentro dessa previsão, propusemos cortar mais 4 mil milhões em 2014 na despesa pública permanente. Porquê? Porque sem esse exercício não conseguimos atingir o objectivo que consta do memorando de entendimento que é fazer o esforço de consolidação orçamental predominantemente do lado da despesa e não do lado dos impostos.

JAC: Até agora tem sido do lado dos impostos.

PM: Peço desculpa, mas não é verdade. Até esta data, o exercício tem sido feito predominantemente do lado da despesa. Em 2013 vamos inverter esse equilíbrio e haverá cerca de 70% do esforço do lado dos impostos e apenas 30% do lado da despesa. Mas com a correcção que vamos introduzir entre 2013 e 2014, concluiremos, de 2011 até 2014, com um exercício que é feito dois terços do lado da despesa e um terço do lado da receita, que é aquilo que nos interessa. Precisamos de deixar um nível de despesa pública que seja suportável pelos impostos dos cidadãos.

JS: Estes aumentos de impostos previstos no orçamento e também os cortes nas pensões mantêm-se apenas em 2013 ou encara a possibilidade de se tornarem definitivos?

PM: A minha convicção é que não podem ser definitivos porque não são sustentáveis. O ajustamento é para permitir que o País possa respirar do lado fiscal. Não podemos perpetuar este nível de fiscalidade senão o País não consegue desenvolver-se. Não estou a dizer que não vai vigorar também em 2014. Temos de corrigir o défice sem asfixiar a economia.
Estamos a fazer um exercício arriscado, não há nenhuma magia que possa garantir que dá tudo certo até ao milímetro, em processos como o que estamos a viver o nível de incerteza é grande. Mas se falhássemos desde já as nossas obrigações, teríamos a certeza que isso iria corresponder a um nível de austeridade e de fiscalidade muito superior.

(...)

PM: O Governo vai apresentar, em Fevereiro, propostas para cortes de 4 mil milhões de euros na despesa, mas nada está definido. Serão cortes permanentes. Não é um apertar do cinto naquele ano é para ficar. São cortes para fazer corresponder ao que os contribuintes podem pagar.
Temos em Portugal uma despesa que, se excluirmos juros, metade são prestações sociais, ou seja, segurança social, saúde e educação e cerca de 20% são salários ou despesas com pessoal. Ou seja 70% da despesa é com pessoal e prestações sociais. É muito difícil reduzir a despesa sem rever a forma como esta despesa é feita.
Não é possível não ir às despesas sociais e de pessoal.
Entre 2000 e 2012, o peso das pensões passou de 9% do PIB para cerca de 13,5%. Cerca de 30% deste aumento resulta de factores de demografia. 70% resulta de outros factores porque decidimos dar mais.

(...)

PM: o aumento [dos gastos com] pensões não teve a ver com o aumento do envelhecimento.
Temos de mexer nas pensões, na saúde, na educação, e noutras que não estas e, claro, nas despesas de soberania, como está previsto na reforma das forças armadas ou no processo que está a decorrer nos serviços de segurança.

(...)

PM: Temos uma Constituição que trata o esforço do lado da educação de forma diferente da saúde. Dá-nos margem para ter um sistema de financiamento mais repartido entre os cidadãos e o Estado.

(...)”