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sábado, 25 de abril de 2020

Resposta do editor-chefe do BILD a Xi Jinping


O editor-chefe do BILD, o maior jornal tabloide alemão, publicou um artigo, em 17 de Abril, em que perguntava se a China deveria pagar pelos enormes danos económicos que o coronavírus está a causar no mundo inteiro.

Pouco habituado a ser posto em causa, o regime chinês incumbiu a sua embaixada em Berlim de dirigir uma carta aberta ao jornal em que acusava o editor-chefe Julian Reichelt de não estar a viver a "amizade tradicional dos povos" alemão e chinês.

Agora chegou a vez de Julian Reichelt responder ao presidente chinês Xi Jinping (o leitor pode seleccionar a tradução para português do Brasil):




Eis a tradução:


Caro Presidente Xi Jinping,

A sua embaixada em Berlim dirigiu-me uma carta aberta porque perguntámos no nosso jornal BILD se a China deveria pagar pelos enormes danos económicos que o coronavírus está a causar no mundo inteiro.

Permita-me responder:

1. O senhor governa pela vigilância. Não seria presidente sem vigilância. Monitoriza tudo, todos os cidadãos, mas recusa-se a monitorizar os mercados húmidos doentios do seu país.

Fecha qualquer jornal e website que seja crítico do seu regime, mas não as bancas onde a sopa de morcego é vendida. Não está apenas a monitorizar o seu povo, está a colocá-los em perigo — e com eles, o resto do mundo.

2. Vigilância é uma negação da liberdade. E uma nação que não é livre, não é criativa. Uma nação que não é inovadora, não inventa nada. É por isso que fez do seu país o campeão mundial em roubo de propriedade intelectual.

A China enriquece-se com as invenções de outros, em vez de inventar por conta própria. A razão pela qual a China não inova e inventa é que o senhor não deixa os jovens do seu país pensarem livremente. O maior sucesso de exportação da China (que ninguém queria ter, mas que já percorreu o mundo) é o Corona.

3. O senhor, o seu governo e os seus cientistas sabiam há muito tempo que o Corona é altamente infeccioso, mas deixaram o mundo na escuridão sobre isso. Os seus principais especialistas não responderam quando os pesquisadores ocidentais pediram para saber o que estava a acontecer em Wuhan.

Foi demasiado orgulhoso e demasiado nacionalista para dizer a verdade, que sentiu como uma desgraça nacional e que se tornou agora um desastre global.

4. O "Washington Post" relata que os laboratórios em Wuhan estão a pesquisar o coronavírus em morcegos, mas sem manter os mais altos padrões de segurança. Porquê os seus laboratórios tóxicos não são tão seguros quanto as suas prisões para presos políticos?

Pode explicar isto para as viúvas, filhas, filhos, maridos, pais de vítimas do Corona em todo o mundo?

5. No seu país, o povo está a sussurrar sobre si. O seu poder está a desmoronar-se. Criou uma China inescrutável e não transparente. Antes do Corona, a China era conhecida como um estado de vigilância. Agora, a China é conhecida como um estado de vigilância que infectou o mundo com uma doença mortal.

Esse é o seu legado político.

A sua embaixada diz-me que não estou a viver a "amizade tradicional dos nossos povos". Suponho que considera uma grande "amizade" quando agora envia máscaras generosamente ao redor do mundo. Isto não é amizade, eu chamar-lhe-ia imperialismo escondido atrás de um sorriso — um cavalo de Tróia.

Planeia fortalecer a China através de uma praga que exportou. Não terá sucesso. O Corona será o seu fim político, mais cedo ou mais tarde.

Com os melhores cumprimentos,

Julian Reichelt


****
*


Desde 12 de Fevereiro, todos os empreendimentos residenciais em Wuhan, capital da província chinesa de Hubei, foram encerrados, impedindo a maioria dos moradores de deixar as suas casas para comprar alimentos.
Comissões de bairro formadas por elementos da confiança do regime comunista chinês, ficaram encarregadas de cuidar dos moradores em quarentena por causa do coronavírus, mas falharam no desempenho dessas funções.

Quando, há cerca de um mês, a vice-primeira-ministra Sun Chunlan visitou uma comunidade residencial, no distrito Qingshan de Wuhan, para inspeccionar o trabalho da respectiva comissão, foi recebida com protestos.
Insatisfeitos com as ineficiências demonstradas pela administração pública local, os moradores ganharam coragem para assomar às janelas dos seus apartamentos e gritar "falso, falso","é tudo falso" e "protestamos":





Pouco a pouco, a população chinesa começa a aperceber-se do sofrimento a que foi sujeita, devido ao silenciamento imposto pelas autoridades ao médico que alertou, em 30 de Dezembro de 2019, para os primeiros casos de infecção pelo SARS-CoV-2, e procura ganhar alguma liberdade de expressão.


domingo, 18 de janeiro de 2015

Em defesa da liberdade de expressão - II


O massacre no semanário Charlie Hebdo está a estimular a criação de artigos de fino recorte humorístico.
Não consegui resistir à tentação de transcrever esta sátira contundente ao português meias-tintas que vive exclusivamente em função dos seus interesses mesquinhos disfarçados de ideologias progressistas, um covarde incapaz de se reger por um sistema de princípios que defenda com clareza e pelos quais se bata mesmo com prejuízo pessoal:


"PERSONAGENS DE FICÇÃO
Pessoa Que Não Sabe Bem Se é Charlie
SOU CHARLIE MAS CALMA AÍ

RUI CARDOSO MARTINS, 18 de Janeiro de 2015

Eu sou pela liberdade de expressão, mas ai ai ai. Eu defendo o direito ao humor iconoclasta, só que atenção. Isto que aconteceu é intolerável mas temos de ver o contexto. É uma tragédia mas estava-se mesmo a ver. Há limites. E andamos a ser manipulados, a mim não tomam por parvo. Uma nova espécie de ser humano acaba de nascer — ou de se revelar — faladoramente confusa. E com várias cabecinhas nos ombros.

A Pessoa Que Não Sabe Bem Se é Charlie nasceu entre 7 e 8 de Janeiro de 2015, pouco depois dos atentados (17 mortos) cometidos por terroristas fundamentalistas islâmicos, de nacionalidade francesa, contra o jornal satírico Charlie Hebdo, em Paris, e o mercado com produtos judeus Cacher. Desconhece-se a identidade dos progenitores, mas suspeita-se de que o pai, ou a mãe, já em 2001 assistira à queda das Torres Gémeas de Nova Iorque num misto de horror genuíno e secreta satisfação, já que a América andava a pedi-las. Foram os EUA que criaram de propósito o terrorismo islâmico (resultado da pobreza e do imperialismo), se não foi mesmo a América que atirou os aviões contra si própria para depois poder atacar à vontade o resto do mundo, há provas disso.

No entanto, o ADN desta nova criatura é tão complexo que a ordem do seu mapa genético deverá levar muitos anos a sequenciar, sem garantia de sucesso. Suspeita-se de que vários genes muito fortes se deslocaram para as extremidades esquerda e direita da fita de ácido desoxirribonucleico. É uma dupla hélice extremista, mas paradoxalmente disfarçada com fluidos de bom senso e de politicamente correcto. Tem um ADN ora cauteloso e cobarde, ora radicalmente paranóico.

Os bebés costumam nascer com um choro simples (“buááá!”), a Pessoa Que Não Sabe Bem Se é Charlie veio a este duvidoso mundo sibilando “no entanto, por outro lado, eu bem vos disse, e quem são estes agora para se atreverem a falar em liberdade de imprensa, etc.”. É provável que esta pessoa sofra do problema contemporâneo da “amálgama”. Não a de confundir, por exemplo, o islão inteiro com os fanáticos fundamentalistas assassinos, mas a amálgama-papa-azeda dos seus próprios preconceitos e inibições, quando estes colidem com qualquer coisa nova que acontece no mundo. Isto é que não estava previsto, portanto isto não foi nada disto.

A Pessoa Que Não Sabe Bem Se é Charlie ficou baralhada ao ver o impacto provocado pelo assassinato — dentro do local de trabalho — de um grupo de cartoonistas e jornalistas que, há muitos anos, desafiando ameaças, satirizavam em total liberdade autoral os poderes políticos e religiosos, mais a moral sexual burguesa. Espantou-se com o número de franceses que saiu à rua, milhão e meio só em Paris, de todos os credos e cores, na manifestação de 11 de Janeiro. Uma homenagem aos desenhadores mortos em combate pela liberdade, o direito ao humor e ao “mau gosto”, à existência do Estado laico, contra o terrorismo e a ditadura em nome de Deus. Na opinião desta pessoa, uma manifestação tão gigantesca transforma-se automaticamente em carneirada acéfala dirigida por interesses obscuros e hipocrisias. Para não dizer que, afinal de contas, teve pouco significado. Agora são todos Charlie, mas antes nem conheciam o jornal... E ver os flics, a bófia, do lado dos bons, é duro.

Tivemos acesso a algumas páginas do diário em que esta personagem complexa, contraditória, tentou ao longo dos últimos dias catalogar e contextualizar a questão “Je Suis Charlie”:

“Soube pela rádio que a redacção do Charlie Hebdo foi atacada por homens armados e que há vários mortos. Os autores do massacre gritaram Allahu Akbar, dizendo que tinham vingado a afronta dos desenhos satíricos de Maomé. Que horror! Como levaram estes pobres rapazes a pegar em armas, fanatizados pela cruel austeridade e racismo da nossa sociedade? É intolerável e temos de agir para evitar tais injustiças. Sinto-me muito culpado com esta falha. A Ana Gomes já enquadrou a situação no Tweeter.”

“Hoje estive a ler umas coisas sobre Voltaire e a questão da defesa da liberdade. Por outro lado, alguém lembrou que o Voltaire escreveu textos anti-semitas...” “Gostei de ver a mobilização dos cidadãos depois da tragédia. Comovedor. Por outro lado, espero que os humoristas tenham, com este apoio maciço, aprendido que há coisas mais importantes do que insultar as convicções dos outros, isso é que é liberdade. Para quê desenhar o Profeta se isso os enerva? Um pouco de respeitinho, ou sujeitam-se a levar com extremistas. Não em meu nome.”

“A quantidade de hipócritas políticos internacionais e criminosos que foi à manifestação! Se lá na terra deles não deixam as pessoas falar… E enganaram-nos porque nem sequer iam na verdadeira manifestação, mas centenas de metros à frente, não se misturaram com o povo. Por outro lado, se se tivessem misturado, é que eu ficava furioso.” “Houve um massacre enorme na Nigéria mas ninguém se manifestou a pedir uma intervenção internacional. Por outro lado, se houvesse uma intervenção internacional contra o Boko Haram era mais um acto de ingerência do imperialismo ocidental em África, não contem comigo.”

“Avolumam-se as provas de que houve marosca. A cabeça do polícia alegadamente morto no chão nem explodiu como é habitual. E porque é que os mataram só porque não se renderam? O que é certo é que levavam roupa verdadeira das tropas de elite francesa! Será que os islâmicos se infiltraram aí? O mais certo: o atentado foi cometido pelos serviços secretos franceses, em conluio com os extremistas de direita da Frente Nacional, para a Le Pen ganhar as presidenciais. Por outro lado, pode ter sido obra da Mossad israelita para mobilizar a Europa contra os árabes. No entanto, também é provável que tenha sido a CIA, que está feita com a Al-Qaeda do Iémen. Mas o mais razoável é ter sido o Presidente Hollande, que assim se aguenta no Eliseu e pode continuar os namoros escandalosos.” “Soube agora que o director do Charlie Hebdo costumava exclamar Allahu Akbar! quando falava com os colegas. Se era uma brincadeira parva, estava a pedi-las. Ou então o Charb era ele próprio um infiltrado do movimento islâmico, que se martirizou para mostrar ao mundo que ninguém brinca com o Profeta. Pista a investigar.”

“Desilusão. A edição feita pelos sobreviventes volta a meter-se com o Profeta na capa. Lá dentro há mulheres despidas, o Papa, fundamentalistas, sátiras contra a Merkel e o Le Pen nas manifestações do Je suis Charlie, e o diabo a sete. Até gozam com as teorias da conspiração. Não aprenderam nada. Andamos a lutar pela liberdade e é assim que nos pagam?”


Um comentário que acertou na mouche:

greg
19/01/2015 12:38
Se deixarmos de poder desenhar o Profeta porque isso os enerva, amanhã vamos deixar de desenhar uma mulher porque isso os enerva também. Vamos deixar de ensinar as meninas a ler e escrever porque isso também os enerva. Vamos deixar de comer porco, para não se enervarem. Amanhã vou andar de saia e até pode ser que encontre algum maluco que fique enervado e para me castigar, até me viole... mas a culpa será minha porque o enervei...


sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Em defesa da liberdade de expressão - I





Muitos artigos de opinião têm sido escritos sobre o massacre no semanário satírico Charlie Hebdo, quase sempre com a argumentação restringida a sentimentos de culpabilidade. Como aconteceu com Boaventura Sousa Santos, professor numa conceituada universidade portuguesa, que se deixou cegar pela sua ideologia de esquerda radical e procurou justificar o totalitarismo islamita aqui.
O artigo que se segue foi o melhor que, até agora, li sobre o assunto — embora pense que o humorista Dieudonné cometeu o crime de apologia do acto terrorista de Coulibaly —, pelo que tomo a liberdade de o transcrever com a devida vénia:


"Charlie Hebdo: calar ou ser morto?

FRANCISCO TEIXEIRA DA MOTA 16/01/2015 - 03:42

A blasfémia é um direito e não um crime.

A dimensão de que goza a liberdade de expressão numa sociedade é uma excelente forma de aferirmos da sua democraticidade pelo que a definição dos seus limites deve ter sempre em conta que a proibição ou a repressão de qualquer opinião, por mais aberrante que seja, é sempre um prejuízo para a sociedade, ao impedir a livre circulação de ideias.

Há, no entanto, expressões que podem ou devem ser reprimidas, como, por exemplo, a instigação pública à prática de crimes, na medida em que constituam um perigo sério e atual para a integridade física e psíquica dos cidadãos, mas nunca por não concordarmos com as mesmas ou porque sejam aberrantes ou sinistras. Como disse o juiz Oliver Wendell Holmes Jr., do Supremo Tribunal norte-americano, a liberdade de expressão não protege o pensamento dos que concordam connosco, mas sim o pensamento que odiamos.

Muito daquilo que se escrevia e desenhava no Charlie Hebdo — e espera-se que assim continue — era de um profundo mau gosto, por vezes, abjecto e sempre de uma enorme inconveniência, num jornalismo satírico e violento que, à partida, não respeitava nada nem ninguém, testando os limites admissíveis da liberdade de expressão numa cruel apologia de uma humanidade despida de tabus e preconceitos, de moralismos e hierarquias. É por isso mesmo perfeitamente absurdo ver, entre outros, os presidentes da Hungria e da Turquia, países onde a liberdade de expressão é uma miragem, desfilarem em Paris sob a bandeira “Je suis Charlie”.

A matança na redação no Charlie Hebdo é uma manifestação de um fanatismo político-religioso, desesperado, ao qual não podemos responder de forma cordata, mas sim com o radicalismo da palavra: reafirmando a essencialidade de podermos pensar e falar livremente. Não podemos aceitar polícias do pensamento e da palavra, sejam eles fundamentalistas religiosos ou fanáticos moralistas. Muçulmanos, judeus ou cristãos.

Responder com um pretenso “bom senso” ao ataque terrorista à liberdade de expressão em França, com afirmações do tipo “há que ter em conta a sensibilidade dos outros e evitar proferir publicamente palavras que chocam as crenças, nomeadamente religiosas”, seria abdicar da nossa responsabilidade e liberdade enquanto seres humanos e cidadãos de sociedades democráticas. Seria a vitória do terrorismo. No fundo, ceder à chantagem.

A Al-Qaeda da Penísula Arábica já reivindicou a autoria do atentado, nomeadamente a escolha do alvo e o financiamento da operação. Segundo um dirigente desta organização, “a operação foi uma grande satisfação para todos os muçulmanos” e constituiu “uma mensagem forte a todos aqueles que se atrevem a meter-se com o que é sagrado para os muçulmanos”, aproveitando para exortar os ocidentais a “pararem com os seus ataques em nome de uma falsa liberdade”.

Este criminoso fanatismo político-religioso, de uma vanguarda iluminada e autoproclamada representante de toda uma comunidade, que responde às caricaturas do Charlie Hebdo com a execução pública dos cartoonistas não pode prevalecer. Temos de continuar a poder dizer — quem o quiser fazer — e a poder ouvir — quem o quiser, também — todas as inconveniências, políticas, religiosas e culturais, sob pena de um dia não podermos dizer nenhuma, nem mesmo aquelas que já não acharmos inconveniências.

Embora a liberdade de expressão, como garantia do livre pensamento, deva incluir o direito à blasfémia, isto é, às injúrias e desrespeito às divindades e às religiões, não é essa a realidade legal em todos os Estados democráticos. Mas seja um direito ou seja um crime, a blasfémia não é seguramente justificação ou atenuante sequer para a morte dos seus autores.

O terrorismo sempre foi uma realidade extremamente minoritária e nunca conseguiu atingir grandes objectivos ou provocar grandes modificações sociais, antes se consumindo em atos que, embora de grande visibilidade e impacto emocional, são isolados e estéreis. Não podemos, pois, aceitar que o medo nos domine, nem que a Europa mergulhe em qualquer sinistra deriva securitária como aquela a que assistimos nos EUA após o 11 de Setembro, com um crescimento exponencial do Estado com graves prejuízos para os direitos individuais.

Haverá, certamente, explicações para aquilo que sucedeu em Paris, para além do indesmentível fanatismo dos seus autores. Como também as haverá para as crianças armadilhadas “explodidas” em mercados da Nigéria. Ou muitos outros atos terroristas. Certo é que não podemos nunca aceitar abdicar da nossa liberdade pela chantagem terrorista daqueles que desprezam a nossa humanidade.

P.S.— Espera-se que o humorista Dieudonné, que escreveu na sua página de Facebook após ter participado na manifestação do dia 11 de Janeiro que se sentia “Charlie Coulibaly”, seja absolvido do crime de apologia de terrorismo por que foi detido a bem da liberdade de expressão."