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domingo, 15 de novembro de 2015

Noite de terror em Paris - III. Obama e Putin conversam sobre a Síria


Presidentes dos Estados Unidos e da Rússia conversaram, à margem da reunião do G20 na Turquia, sobre a guerra na Síria.

Obama e Putin, sentados frente a frente, num canto do hotel Regnum Carya, em Antalya, conversam sobre a guerra na Síria.


O tema da agenda da 10ª cimeira do G20 que vai decorrer este domingo e segunda-feira, em Antalya, na Turquia, era a discussão de medidas para travar a chegada à Europa de centenas de milhares de emigrantes oriundos de países africanos e asiáticos, a maioria em fuga da guerra na Síria mas também da violência no Iraque, Afeganistão, Paquistão e Eritreia.

Os ataques terroristas perpetrados pelo Estado Islâmico (EI) na sexta-feira em Paris acabaram, porém, por dominar as conversações.

De candeias às avessas desde a reintegração da Crimeia na Rússia, há quase dois anos, Barack Obama e Vladimir Putin estiveram a conversar 35 minutos, em privado, num diálogo considerado "construtivo" pelo lado americano.

"O Presidente Obama e o Presidente Putin concordaram com a necessidade de haver uma transição política liderada pelos sírios, que seria antecedida por negociações mediadas pelas Nações Unidas entre a oposição síria e o regime, para além de um cessar-fogo", disse um representante da delegação dos Estados Unidos.
Obama deixou de criticar a intervenção da Rússia na Síria, mas pretende que se cinja ao Estado Islâmico, sem atingir os outros grupos de rebeldes que lutam contra o exército sírio, apesar de poderem existir pontos de contacto entre o EI e outros rebeldes.

Por sua vez, o conselheiro Iuri Ushakov, que foi embaixador da Rússia em Washington entre 1999 e 2008, disse que "os objectivos estratégicos em relação ao combate contra o Estado Islâmico são, numa questão de princípios, muito similares, mas há diferenças na vertente táctica".

Depois dos ataques de Paris, Obama e Putin concordaram que "é ainda mais urgente" encontrar uma solução para a guerra na Síria que, em quatro anos e meio, já fez mais de 250 mil mortos e mais de 4 milhões de refugiados.

A aproximação entre os dois líderes é uma consequência da pressão exercida por Hollande sobre Obama, mas não deverá levar o presidente americano a reforçar o seu envolvimento na Síria para além dos ataques aéreos.

"Não acreditamos que as tropas americanas sejam a resposta para o problema", disse Ben Rhodes, um dos conselheiros de segurança nacional de Obama, referindo-se ao possível envio de soldados norte-americanos para a Síria.
"O envio de mais tropas americanas para entrar num combate em larga escala no Médio Oriente não é a melhor forma de lidar com este desafio", continuou Ben Rhodes, repetindo a política oficial da Casa Branca. Em vez disso, os ataques terroristas em Paris "podem servir para criar um maior sentimento de urgência na comunidade internacional para o apoio aos vários elementos da campanha anti-Estado Islâmico, e para uma solução diplomática no conflito sírio".



15/11/2015 - 21:18


*


A França efectuou hoje um raide aéreo sobre Raqqa, capital do Estado Islâmico no Norte da Síria, em que 10 caças franceses largaram 20 bombas. Contudo, enquanto não houver operações militares no solo para destruir os campos de treino e abater os terroristas, atentados como os de sexta-feira 13 de Novembro, em Paris, poderão repetir-se na Europa.

A conversa entre Obama e Putin à margem da cimeira do G20, em que concordaram na urgência de encontrar uma solução para a guerra na Síria, poderá ser um primeiro passo numa série de etapas que termine na coordenação de operações no solo para enfraquecerem o poder do EI.

Até esse objectivo ser atingido, os povos europeus continuam à mercê dos “safaris” dos terroristas, como diz o general Loureiro dos Santos:

16 Nov, 2015, 13:51

A incompatibilidade entre a mentalidade medieval da autocrática e riquíssima monarquia wahabita, aliada dos EUA, que governa a Arábia Saudita tendo o Corão como constituição e negando à população todos os direitos humanos, inclusive o direito de conduzir às mulheres, o que é caso único no mundo, e a visão ocidental de separação entre política e religião do ditador sírio Bashar al-Assad, aliado de Moscovo, constitui, porém, um obstáculo quase intransponível.


*


O G20 é o Grupo dos Vinte ministros das Finanças e governadores dos Bancos Centrais das maiores economias industrializadas — 19 países e a União Europeia — e foi criado em 1999 para discutir as questões-chave da economia global.


Europa: Alemanha, França, Itália, Reino Unido, Rússia, União Europeia
América: Argentina, Brasil, Canadá, Estados Unidos da América, México
África: África do Sul
Ásia e Oceânia: Arábia Saudita, Austrália, China, Índia, Indonésia, Japão, República da Coreia, Turquia

Os chefes de governo, ou os chefes de Estado, passaram a participar nas cimeiras desde a crise financeira de 2008, sendo a União Europeia representada pelo Presidente do Conselho Europeu e pelo Banco Central Europeu.
As economias do G20 representam mais de 80% do PIB mundial, 80% do comércio mundial (incluindo o comércio dentro da UE) e dois terços da população mundial.


sábado, 7 de setembro de 2013

O conflito sírio divide o G20



A cimeira de 2013 do G20 decorreu no salão de mármore do palácio Constantino (Strelna), S. Petersburgo.


Nas cimeiras do G20 discute-se habitualmente assuntos no domínio da economia e das finanças. Mas o uso de gás sarin no conflito militar desencadeado por vários grupos islâmicos sírios, apoiados por mercenários, contra o governo do presidente Bashar al-Assad, veio dar a primazia a este conflito na reunião do G20 em São Petersburgo, na Rússia.

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, tinha fixado o uso de amas químicas na Síria como a linha vermelha que, a ser ultrapassada, levaria os EUA a desencadear uma intervenção militar contra aquele país.
Obama tem dito possuir provas que, no dia 21 de Agosto, foram mortos mais de 1400 civis com gás sarin nos arredores de Damasco e atribui a responsabilidade do ataque ao governo de Assad.
Também a União Europeia tem informações da ocorrência de um ataque com armas químicas, contabilizando cerca de 300 mortos, mas tem dúvidas sobre a autoria do ataque. Em conjunto com a Rússia e a China, está a fazer pressão para que os EUA não lancem ataques militares contra a Síria e seja alcançada uma solução política para a guerra civil neste país.
O papa Francisco escreveu a Vladimir Putin, Presidente russo e anfitrião da cimeira do G20, para pedir aos líderes mundiais que desistam da “fútil perseguição de uma solução militar” para a guerra na Síria e espera que o horror de 21 de Agosto incentive os líderes reunidos na cimeira do G20 a “procurar, com coragem e determinação, uma solução pacífica através do diálogo”.

Qualquer decisão do G20 sobre a Síria não tem carácter vinculativo. Mas se Putin obtivesse um consenso dos líderes presentes na cimeira de São Petersburgo no sentido de evitar uma acção militar, isso seria um triunfo político significativo. Daí ter iniciado a cimeira com estas palavras:

September 5, 2013 (01:24)

"Alguns participantes pediram-me para lhes dar tempo e a possibilidade de discutir outras questões de política externa que não estavam anteriormente na agenda, mas que são muito importantes e urgentes, sobretudo a situação na Síria. Proponho que o façamos durante o jantar, por isso não vamos colocar tudo em monte e assim, na primeira parte do nosso encontro, podemos discutir os problemas que inicialmente nos reuniram aqui, os problemas que são fundamentais para os países do G20."

Portanto o jantar de quinta-feira, servido na sala do trono do palácio de Verão do czar Pedro, o Grande, teve com prato principal a guerra na Síria e, a acreditar no jornal russo Izvestia, foi bastante movimentado e prolongou-se pela noite dentro: o Governo mudou a disposição dos lugares à mesa várias vezes, primeiro, Putin estava separado de Barack Obama por um único líder; depois, chegaram a ter cinco lugares entre os dois; finalmente, os líderes russo e norte-americano sentaram-se à distância de apenas dois lugares.

Os líderes do G-20 durante o jantar no palácio Peterhof.

O palácio Peterhof é a Versailles russa.


Mas Obama manteve-se firme na defesa dos interesses americanos e no final da cimeira anunciou que mantém os planos de guerra:

September 6, 2013 (1:42)

Fui eleito para acabar com as guerras, não para iniciá-las. Tenho passado os últimos quatro anos e meio, a fazer tudo o que posso para reduzir a nossa dependência do poder militar, mas o que também sei é que há momentos em que temos que fazer escolhas difíceis, se formos defender as coisas que nos preocupam e acredito que este é um desses momentos."





A fotografia de família da cimeira de 2013 do G20 no palácio Constantino.


E à margem da reunião do G20, Obama conseguiu que nove líderes de países do G20 — Arábia Saudita, Austrália, Canadá, França, Itália, Japão, Reino Unido, República da Coreia e Turquia — assinassem, em conjunto com os Estados Unidos, uma declaração em que condenam “de forma veemente o horrível ataque com armas químicas nos subúrbios de Damasco em 21 de Agosto” e assumem como provada a responsabilidade do regime de Assad nos ataques químicos aos arredores de Damasco.
O representante da Espanha na cimeira do G20 também assinou.

Os líderes da África do Sul, Alemanha, Argentina, Brasil, China, Índia, Indonésia, México, Rússia, bem como a União Europeia não assinaram.
Portugal já anunciou anteriormente que defende uma posição conjunta sob os auspícios das Nações Unidas, não tendo assinado este documento.

As estimativas apontam para que as reservas mundiais de petróleo se encontrem esgotadas dentro de 50 anos. Ora mais de 50% das reservas mundiais de petróleo bruto pertencem a cinco países do Médio Oriente — Arábia Saudita, Emiratos Árabes Unidos, Iraque, Kuwait, Irão —, CIA dixit, portanto os interesses dos Estados Unidos vão obrigar à desestabilização dos países cujos governos não consigam controlar para poderem enraizar-se na região.


(clicar para ampliar)


Actualização em 2013-09-10:
Segundo um comunicado da Casa Branca, são 33 os países que aceitaram assinar a declaração contra a Síria. Portugal também assinou e, como pequeno país que é, não constitui surpresa. A grande surpresa é a Alemanha, um país do G20 que, ao alinhar com a posição bélica de Obama e dos EUA, torna-a maioritária dentro do G20.
Claro que a proposta da Rússia de entregar a supervisão das armas químicas detidas pelo regime de Damasco a inspectores da ONU para posterior destruição, ontem feita após um deslize de John Kerry numa conferência de imprensa, e hoje aceite pela Síria, pode inviabilizar a intervenção militar planeada pelos EUA.


****
*

O G20 é o Grupo dos Vinte ministros das Finanças e governadores dos Bancos Centrais das maiores economias industrializadas — 19 países e a União Europeia — e foi criado em 1999 para discutir problemas da economia global.
Os chefes de governo, ou os chefes de Estado, passaram a participar nas cimeiras desde a crise financeira de 2008, sendo a União Europeia representada pelo Presidente do Conselho Europeu e pelo Banco Central Europeu.
As economias do G20 representam mais de 80% do PIB mundial, 80% do comércio mundial (incluindo o comércio dentro da UE) e dois terços da população mundial.



Europa: Alemanha, França, Itália, Reino Unido, Rússia, União Europeia
América: Argentina, Brasil, Canadá, Estados Unidos da América, México
África: África do Sul
Ásia e Oceânia: Arábia Saudita, Austrália, China, Índia, Indonésia, Japão, República da Coreia, Turquia


terça-feira, 19 de junho de 2012

Países do G20 reforçam reservas do FMI


No final da Cimeira do G20 em Los Cabos, no México, Christine Lagarde revelou que os compromissos para reforçar as reservas do FMI ascendem já a 456 mil milhões de dólares americanos, superando o valor prometido na cimeira de Abril, apesar de alguns países emergentes se sentirem frustrados por não terem obtido maior poder de voto dentro desta instituição credora mundial.
São recursos disponibilizados através de empréstimo bilateral ou acordo de compra entre cada país credor, ou o seu banco central, e o FMI, comprometendo-se esta instituição a devolver os valores sacados com juros.

Reforçadas as reservas do FMI, estas poderão ser usadas para financiar os seus 188 países-membros, se tiverem dificuldades em obter financiamento nos mercados e se aceitarem a orientação económica do FMI. Mas, num momento em que três países da Zona Euro estão a receber crédito do FMI — Grécia, Irlanda e Portugal — e vai ser preciso intervir na banca espanhola, este reforço destina-se a reduzir a especulação financeira sobre a dívida soberana destes países.

Portanto correu bem a cimeira para os países da Zona Euro porque, apesar da recusa dos Estados Unidos e Canadá, conseguiram captar do resto do mundo uma quantia superior à que vão disponibilizar. O quadro seguinte lista os 37 países que aceitaram contribuir:

Países
_____________________
Zona Euro
• Alemanha
• França
• Itália
• Espanha
• Países Baixos
• Bélgica
• Áustria
• Finlândia
• Luxemburgo
• Eslováquia
• Eslovénia
• Chipre
• Malta
UE não-Zona Euro
• Reino Unido
• Suécia
• Polónia
• Dinamarca
• República Checa
Não-UE
• Japão
• China
• Coreia
• Arábia Saudita
• Brasil
• Rússia
• Índia
• México
• Suíça
• Noruega
• Austrália
• Turquia
• Singapura
• África do Sul
• Colômbia
• Filipinas
• Malásia
• Nova Zelândia
• Tailândia
_____________________
total

______

54,7
41,4
31,0
19,6
18,0
13,2
8,1
5,0
2,7
2,1
1,2
0,6
0,3

15,0
10,0
8,2
7,0
2,0

60,0
43,0
15,0
15,0
10,0
10,0
10,0
10,0
10,0
9,3
7,0
5,0
4,0
2,0
1,5
1,0
1,0
1,0
1,0
______

mil milhões $
_____________
197,9













42,2





215,8



















_____________
455,9




O G20 é o Grupo dos Vinte ministros das Finanças e governadores dos Bancos Centrais das maiores economias industrializadas — 19 países e a União Europeia — e foi criado em 1999 para discutir as questões-chave da economia global.

Europa: Alemanha, França, Itália, Reino Unido, Rússia, União Europeia
América: Argentina, Brasil, Canadá, Estados Unidos da América, México
África: África do Sul
Ásia e Oceânia: Arábia Saudita, Austrália, China, Índia, Indonésia, Japão, República da Coreia, Turquia

Os chefes de governo, ou os chefes de Estado, passaram a participar nas cimeiras desde a crise financeira de 2008, sendo a União Europeia representada pelo Presidente do Conselho Europeu e pelo Banco Central Europeu.
As economias do G20 representam mais de 80% do PIB mundial, 80% do comércio mundial (incluindo o comércio dentro da UE) e dois terços da população mundial.


segunda-feira, 18 de junho de 2012

Europeus não precisam de lições de democracia ou economia


Na conferência de imprensa conjunta dada por Herman Van Rompuy, presidente do Conselho Europeu, e José Manuel Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, antes da Cimeira do G20 em Los Cabos, no México, em 18 de Junho, um jornalista canadiano do Sun Media pôs uma questão que mereceu de Durão Barroso uma resposta memorável:


David Akin: Como sabem, o primeiro-ministro [canadiano] Stephen Harper declarou que a Europa não deve procurar dinheiro fora da Europa. Ele acredita que a Europa tem bastante poder de fogo financeiro — a zona euro é uma área de enorme riqueza — e que os fundos do FMI teriam melhor utilidade nos países em desenvolvimento, que não têm os recursos que a Europa tem. Penso que o presidente Obama concorda. Agora os senhores estão na América do Norte. Expliquem, por favor, porquê os norte-americanos devem arriscar os seus bens pela Europa que muitos norte-americanos acreditam ser suficientemente rica para resolver os próprios problemas.
Sr. Rompuy, o senhor fala sobre a credibilidade do G20 e faz observações. Posso afirmar que muitos norte-americanos dizem que não há muita credibilidade entre os líderes europeus que andam a corrigir isso [a crise do euro] há quatro anos. Agora têm mais planos e estão à procura de mais dinheiro. Por favor, informem-nos sobre a vossa credibilidade e porquê os norte-americanos devem arriscar os seus activos para vos ajudar.

Durão Barroso: O FMI é uma instituição financeira internacional e deve trabalhar para o bem comum. Se há um problema que é reconhecido como importante para o bem comum, como a estabilidade financeira, incluindo nalguns países europeus, não vejo nenhuma razão por que esta instituição não devia contribuir. Deixe-me dizer-lhe que os Estados membros europeus são — de longe — os maiores contribuintes para o FMI. Mesmo os estados membros da zona euro são os maiores contribuintes, maiores do que os Estados Unidos e, certamente, muito, muito, muito maiores que o Canadá. Assim, a maior contribuição para o FMI durante todos estes anos tem sido dos estados membros da União Europeia. E é muito interessante notar que mesmo agora, em tempos de crise, quando decidimos aumentar o financiamento para o FMI, mais uma vez, são os países da União Europeia que têm dado a maior parte, a maior fatia. E estamos a tempo de fazê-lo. Outros, infelizmente, não estão.

Então, vamos colocar as coisas na perspectiva correcta. A União Europeia é a maior economia do mundo, sim, nós sabemos disso. Os 27 estados membros, em conjunto, são a maior economia e o maior parceiro comercial. Já que vem ao caso, estamos a tentar concluir um acordo importante sobre o comércio com o Canadá. Porquê? Porque todas as outras partes do mundo olham para a Europa como uma possível fonte de crescimento para eles. E, de facto, eles também têm interesse. Quanto mais cedo a situação for estabilizada na Europa, melhor para eles. É por isso que a minha posição, e a posição da União Europeia, tem sido a de dizer, vamos trabalhar cooperativamente. Vamos trabalhar juntos. Esta crise não teve a sua origem na Europa. Uma vez que mencionou a América do Norte, esta crise foi originada na América do Norte. E muitos dos nossos sectores financeiros foram contaminados por práticas nada ortodoxas de alguns sectores dos mercados financeiros, mas não estamos a culpar os nossos parceiros. O que estamos é a dizer, vamos trabalhar em conjunto quando temos um problema global como este.

É por isso que estou à espera que os líderes do G20 falem hoje muito claramente a favor da abordagem que a União Europeia está a seguir, entendendo uma coisa que é muito importante, é que na Europa somos democracias abertas. Nem todos os membros do G20 são democracias. Mas nós somos democracias, tomamos decisões democraticamente. Por vezes isso significa levar mais tempo, porque somos uma união de 27 democracias e temos de encontrar o consenso necessário. Mas, francamente, não viemos aqui para receber lições em termos de democracia ou como gerir uma economia, porque a União Europeia tem um modelo de que podemos estar muito orgulhosos. Não somos complacentes com as dificuldades. Desejo que todos os nossos parceiros sejam tão abertos sobre as próprias dificuldades como nós somos. Estamos extremamente abertos e procuramos envolver os nossos parceiros, mas certamente não viemos aqui para receber lições de ninguém!


domingo, 22 de abril de 2012

EUA e Canadá recusam encher os cofres do FMI


O Fundo Monetário Internacional (FMI) recebeu promessas de 430 mil milhões de dólares (325 mil milhões de euros) durante a reunião dos países do G20.

Actualmente dispõe de 380 mil milhões de dólares em fundos que agora serão reforçados para mais do dobro.

Este dinheiro poderá ser usado para financiar países em dificuldades de todo o Mundo, se aceitarem as condições impostas pelo FMI. Mas num momento em que três países da zona euro estão a receber crédito do FMI — Grécia, Irlanda e Portugal — e pode ser preciso reforçar os pacotes já acordados ou intervir noutro país do euro, como a Espanha ou a Itália, este contributo destina-se a evitar o agravamento da crise do euro.

Na prática são mais 230 mil milhões de dólares com que a Zona Euro fica para usar, porque 200 mil milhões dos novos contributos vêm justamente de países dessa zona.
Os países emergentes, nos quais se incluem o Brasil, a Rússia, a Índia e a China (BRIC) participaram com um reforço de 68 mil milhões de dólares, mas impuseram duas condições: um limite para a exposição do Fundo à crise do euro e mais poder dentro do Banco Mundial e, principalmente, no FMI.
Outros países que decidiram reforçar o seu contributo foram Noruega, Suécia, Dinamarca, Polónia, Suíça e Japão.

No entanto, alguns dos membros com maior peso no FMI recusaram, desta vez, contribuir, defendendo que é a própria Zona Euro que tem de resolver os seus problemas. Foi o caso dos EUA e do Canadá.


*


Ficou claro que o dinheiro está a chegar ao fim. Pode, portanto, a esquerda radical — PCP e BE — regozijar-se que a troika tem cada vez mais dificuldade em obter fundos para nos emprestar.
O problema é que isto significa que vêm aí mais sacrifícios para os portugueses.


sábado, 5 de novembro de 2011

A solidão do euro


Na cimeira anual do G20 a Zona Euro foi o bombo da festa e ninguém quis pôr um cêntimo no FEEF, nem sequer no FMI:


Barack Obama, Presidente dos Estados Unidos
“Eles vão ter em nós um parceiro forte, mas os líderes europeus compreendem que, em última análise, o mais importante é que a Europa dê um sinal forte de que apoia o euro.”

Angela Merkel, chanceler da Alemanha
“Quase nenhum país aqui presente disse que está preparado para apoiar o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF).”

Nicolas Sarkozy, Presidente de França
“Nunca quisemos mudar governos, nem na Grécia nem em Itália. Não é esse o nosso papel; não é essa a nossa ideia de democracia, mas é evidente que há regras na União Europeia e quem se auto-excluir do cumprimento dessas regras, estará a excluir-se da Europa.”

David Cameron, primeiro-ministro do Reino Unido
“Cada dia de crise na Zona Euro é um dia com efeitos arrepiantes no resto da economia mundial, incluindo a economia britânica. Não vou fazer de conta que todos os problemas da Zona Euro foram resolvidos. Não foram.”
“Nós, tal como o resto do mundo, precisamos que a Zona Euro resolva os seus problemas.”

José Manuel Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia
“Vejo esta situação como uma prova de quão importante é o processo de reformas em Itália para o próprio país e para a Zona Euro como um todo.”

Julia Gillard, primeira-ministra da Austrália
“A Europa precisa de pôr a sua própria casa em ordem.”

Stephen Harper, primeiro-ministro do Canadá
“Não vemos nenhuma razão para que o Canadá — ou, com franqueza, qualquer outro país — contribua para este apoio financeiro [ao FEEF].”

Jun Azumi, ministro das Finanças do Japão
“A crise na Europa está a causar uma crise global sistémica, incluindo na Ásia. Em vez da criação de um novo quadro de funcionamento global, toda a gente está à espera de que o Fundo Monetário Internacional se torne mais pró-activo.”


quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O duunvirato europeu fez um ultimato aos gregos





Numa reunião de emergência com o primeiro-ministro grego George Papandreou, os líderes da Alemanha e da França disseram hoje à Grécia que não receberia nem mais um centavo da ajuda europeia até decidir se quer ficar na Zona Euro.
Esclareceram, ainda, que salvar o euro passou a ser mais importante do que resgatar a Grécia.

Na entrevista que concederam após a reunião, os dois líderes falaram em uníssono:
"Preferimos alcançar uma estabilização do euro com a Grécia do que sem a Grécia, mas a meta de estabilizar o euro é mais importante", disse a chanceler Angela Merkel.
"Os nossos amigos gregos têm de decidir se querem continuar a viagem connosco", reforçou o presidente Nicolas Sarkozy.

Papandreou indignou os parceiros europeus e provocou ontem o pânico nos mercados financeiros ao anunciar na segunda-feira à tarde que a Grécia iria referendar o segundo plano de resgate de 130 mil milhões de euros negociado com os líderes da Zona Euro na passada quinta-feira.

Depois de um jantar, que Merkel classificou como "duro e difícil" na véspera da cimeira do G20 em Cannes, Papandreou disse que o plebiscito pode ocorrer em 4 de Dezembro, clarificando o objectivo:
"Não é o momento de indicar as palavras exactas mas, na essência, não é apenas a questão do programa, é saber se queremos permanecer na Zona Euro."
Apesar das sondagens revelarem que a maioria dos gregos, cansados de dois anos de austeridade crescente, consideram o pacote de resgate como um mau negócio para a Grécia, Papandreou espera mais apoio da população que do parlamento:
"Acredito que os cidadãos gregos são sábios e capazes de tomar a decisão certa em benefício do nosso país."
No entanto, em toda a imprensa grega, mesmo nos jornais tradicionalmente defensores do governo, é quase unânime a condenação de Papandreou.
O Eleftherotypia, um jornal de centro-esquerda, chama-lhe "O Senhor do Caos" e o Ethnos, outro jornal pró-governo, classificou o referendo como "suicida".

Os líderes da UE também já reagiram à carta de Papandreou, dizendo que queria negociar os detalhes do segundo pacote antes do referendo.
A UE e o FMI endereçaram uma mensagem à Grécia informando que não receberia, até à votação do referendo, a parcela urgente de € 8 mil milhões prometida para este mês, porque os credores oficiais queriam ter certeza de que Atenas iria cumprir o programa de austeridade.
Segundo diz Papandreou, a Grécia tem dinheiro suficiente para continuar a funcionar até meados de Dezembro, momento em que vai precisar de resgatar um empréstimo superior a € 6 mil milhões.

Sarkozy e Merkel já anunciaram que os ministros das finanças da Zona Euro vão reunir-se na próxima segunda-feira para acelerar decisões sobre a alavancagem do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF), a porta corta-fogo que pretende proteger os membros fracos que existam entre as 17 nações da Zona Euro.
Depois do caos nos mercados desencadeado pelo anúncio do referendo grego, o FEEF foi forçado a adiar o plano para levantar 3 mil milhões de euros no mercado obrigacionista.
Se Papandreou perder o referendo e a Grécia entrar em falência desordenada, os bancos europeus perdem muito mais do que os 50% da dívida soberana grega já acordados e entram em risco países com economias muito maiores, como a Itália e a Espanha, que o fundo não tem meios para socorrer.

A dúvida sobre a capacidade europeia em conter a crise da dívida colocou a Itália na linha de fogo dos investidores.
O prémio de risco dos títulos italianos sobre as obrigações alemãs atingiu hoje novo máximo, apesar do Banco Central Europeu (BCE) ter ido ao mercado secundário comprar dívida soberana italiana.
Enquanto o primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi realizava uma reunião de emergência do gabinete para criar medidas no orçamento que acalmem os mercados, no parlamento pedia-se a sua demissão.
O ministro das Finanças da Irlanda acredita que o BCE será forçado a prometer "uma muralha de dinheiro" para comprar títulos, algo que incomodou muitos políticos.
Apesar disso, o BCE é, neste momento, o único baluarte europeu contra os ataques dos mercados.

Por isso, os membros asiáticos do G20 estão a pressionar a Europa para enfrentar a crise antes que provoque danos graves na economia mundial.
O ministro das Finanças chinês, Zhu Guangyao, manifestou a indisponibilidade de Pequim em investir mais no FEEF e o colega japonês Jun Azumi acrescentou que "todos estamos confusos".
O presidente sul-coreano Lee Myung-bak disse esperar rapidez e ousadia da parte do G20 na contenção da crise, antes que transborde para o resto do mundo.





O homem que quis disciplinar os gregos, por um lado, e, por outro, obter mais benesses para a Grécia pregando um valente susto à banca europeia e ao eixo franco-alemão — a estratégia Jerónimo/Louçã — corre o risco de atirar os gregos para fora da Zona Euro.
Desta vez o cavalo de Tróia falhou a sua missão.


domingo, 9 de outubro de 2011

Um governo para a Zona Euro – II


Os líderes europeus estão a ser pressionados pelos parceiros internacionais para acabar com o contágio da dívida que o presidente Barack Obama disse estar a "assustar o mundo" quando, no mês passado, enviou o secretário do Tesouro Timothy Geithner à reunião dos ministros das Finanças da UE, na Polónia.

Preocupada com a crise da dívida, mas tentando impedir a implosão do euro, a chanceler Ângela Merkel já tinha afirmado, na sexta-feira, num discurso perante o CSU, seu parceiro na coligação, que a divisa europeia é crucial para o funcionamento da economia alemã: "Esta moeda única, o euro, é o elixir da vida para a Alemanha".
É que, na terça-feira, uma sondagem do instituto Forsa mostrou que 54% dos alemães pretendiam regressar ao marco, a moeda que antecedeu o euro na Alemanha, devido à crise da dívida.

Merkel aproveitou esse evento para responder também a Obama, ao declarar que o G20 tem de tomar atenção aos protestos contra os mercados financeiros, como o movimento espanhol dos “indignados” ou o norte-americano “Ocuppy Wall Street”.
"Os políticos precisam de impedir que cada vez mais pessoas desçam às ruas — o que está a acontecer em muitos países", defendeu a chanceler, sendo preciso criar um escudo de protecção para que "os mercados não conduzam as pessoas à ruína".


Bloomberg


Hoje, na conferência de imprensa que se seguiu a mais um encontro bilateral entre os líderes das duas maiores economias europeias, desta vez em Berlim, Nicolas Sarkozy fixou um prazo para dar uma resposta à crise da dívida soberana e aos defeitos estruturais dos 17 países da Zona Euro.
"Precisamos dar uma resposta que seja sustentável e global. Decidimos dar essa resposta até o final do mês porque a Europa deve resolver os seus problemas até à cimeira do G20 em Cannes", disse Sarkozy.
Merkel concordou com a recapitalização dos bancos europeus: "Estamos determinados a fazer tudo o que for necessário para garantir a recapitalização dos nossos bancos".
Embora tenha reiterado a intenção de manter a Grécia no euro, deixou aos auditores internacionais, conhecidos como a troika, a orientação dos próximos passos e Sarkozy evitou repetir o que disse há nove dias de que "não podemos deixar a Grécia falhar".
Mas para aumentar a coordenação económica e financeira na Zona Euro a chanceler lembrou que é necessário alterar os tratados europeus.





Acontece que a cimeira do G20 é só em 3-4 de Novembro e modificar os tratados europeus pode levar anos. Ora urge agir: o conselho de administração do Dexia SA (DEXB) ia reunir-se, hoje, com a intenção de começar o desmembramento deste banco franco-belga, o primeiro credor a cair vítima da crise da dívida na Zona Euro.


O G20 é o Grupo dos Vinte ministros das Finanças e governadores dos Bancos Centrais das economias industrializadas e em desenvolvimento mais importantes — 19 países e a União Europeia — e foi criado em 1999 para discutir as questões-chave da economia global.

Europa: Alemanha, França, Itália, Reino Unido, Rússia, União Europeia
América: Argentina, Brasil, Canadá, Estados Unidos da América, México
África: África do Sul
Ásia e Oceânia: Arábia Saudita, Austrália, China, Índia, Indonésia, Japão, República da Coreia, Turquia

Os chefes de governo, ou os chefes de Estado, passaram a participar nas cimeiras desde a crise financeira de 2008, sendo a União Europeia representada pelo Presidente do Conselho Europeu e pelo Banco Central Europeu.
As economias do G20 representam mais de 80% do PIB mundial, 80% do comércio mundial (incluindo o comércio dentro da UE) e dois terços da população mundial.