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terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Vergonha

Quando Portugal se tornou no primeiro país do mundo com mais novos casos de infecção e mais óbitos diários por COVID-19, comecei a suspeitar que situações como a descrita abaixo pudessem existir em lares de idosos. No entanto, o que se passou neste "lar" ultrapassa tudo o que de pior conseguia imaginar. Por favor, leiam esta notícia do jornal Público:


O utente, que alegadamente tem problemas psicológicos, é um dos 17 que testaram positivo, assim como sete funcionárias que foram substituídas por auxiliares colocadas pela Cruz Vermelha.

Carlos Dias
9 de Fevereiro de 2021, 20:54

O fotógrafo Pedro Guimarães, que tinha ido no último domingo ao litoral alentejano em trabalho, decidiu regressar a Lisboa passando pela freguesia de S. Martinho das Amoreiras no concelho de Odemira. Chovia copiosamente. Descontraído, mas atento às difíceis condições que o mau tempo exigia à condução do seu veículo, observou no meio da estrada um vulto que se “arrastava pelo asfalto, semi nu, descalço e em absoluta agonia”. O viajante disse ao PÚBLICO ter ficado atónito quando se deparou com um idoso “com ar de quem estava às portas da morte e apresentando sinais de asfixia”. Mais tarde viria a descobrir que se tratava de um utente de um lar de idosos.

Perplexo e no meio de nada, Pedro Guimarães perguntou-lhe o nome, mas não obteve resposta. E descreve o que viu debaixo de chuva: “O seu tom de pele estava perto do cinzento” e o seu olhar focava-se num local certamente indefinido. Com a prevenção que os tempos que estamos viver exigem, antes de sair da viatura vestiu um impermeável, luvas, máscara, e da melhor maneira que conseguiu, tentou tirá-lo do meio da estrada.

O sítio onde se encontrava e àquela hora da noite, cerca das 20h, não tinha grandes pontos de referência a não ser o que depois confirmou ser um lar de idosos “rodeado de fita reflectora, denunciando um foco de contágio” com covid-19. Correu na direcção do edifício e chamou por alguém que pudesse prestar ajuda. Até que apareceu um senhor “vestido em trajes de guerra química” e perguntou-lhe se faltava algum utente no lar. Resposta peremptória: “Não!

Descuido na segurança

Pediu que descesse a rampa que dava acesso ao lar para se certificar se aquela pessoa em grande sofrimento e que “definhava sentado no asfalto” não seria um dos utentes do lar. O funcionário acedeu e quando se abeirou do idoso gritou: “Jeremias! O que estás aqui a fazer?”. Ao mesmo tempo, gesticulava para afastar o fotógrafo, alertando para a infecção com o vírus.

Pedro Guimarães entendeu que a situação requeria outro tipo de abordagem e ligou para o INEM. Enquanto respondia às perguntas que são colocadas nestas circunstâncias, o idoso “foi levado para dentro do lar numa cadeira de rodas” e o socorro deixou de fazer sentido, relata com indignação. O senhor Jeremias deu novamente entrada na casa que o acolhia e de onde saiu “sem que ninguém desse conta”, confirmou ao PÚBLICO, Manuel Loução, responsável do lar.

Numa primeira abordagem, este responsável negou que alguém saísse da instituição naquelas condições. Mas quando lhe foi referido o nome do utente, rectificou: “Jeremias? Temos cá um utente com esse nome. É uma pessoa autónoma mas apresenta deficiências mentais.

Manuel Loução assegura que não lhe foi comunicada a saída do idoso, mas admite que tal pudesse ter acontecido. Também ele está confinado na sua residência, depois de 17 utentes e sete funcionários do lar terem testado positivo, há três dias. “Para lhe ser franco não sabia de nada. Aliás nunca nos aconteceu uma coisa assim”, disse, reconhecendo que a instabilidade que o surto provocou possa ter “facilitado” a saída do senhor Jeremias.

Lar sem funcionários próprios

Com o contágio de sete funcionários, ficámos com dificuldades em assegurar os serviços do lar e a Cruz Vermelha enviou, há cerca de uma semana, oito pessoas naturais da Guiné-Bissau que estão a prestar serviço no nosso lar”, acrescentou. No levantamento que fez da situação, foi-lhe comunicado que o utente deverá ter saído do lar por volta das 18h30 quando todos jantavam. “É uma pessoa que tem problemas psicológicos e em momentos de crise temos de o fechar no quarto, para não se pirar”, frisou o responsável do lar, explicando que uma das funcionárias lhe foi entregar o jantar e “inadvertidamente deixou a porta aberta e ele saiu”.

Nos esclarecimentos que lhe foram prestados foi-lhe dito que o transeunte empolara a denúncia, e garantido que o idoso se encontrava “à porta da lavandaria e não na rua”. Mas Pedro Guimarães não tem dúvidas e reafirma que viu o senhor Jeremias no meio da estrada. Manuel Loução confirmou que o utente “está com a covid-19 e confinado num apartamento”, lamentando que a situação tenha ocorrido com pessoas que “não são funcionárias da instituição”. Mesmo assim, “serão chamadas à responsabilidade porque estes casos não podem acontecer”, observa o responsável do lar de S. Martinho das Amoreiras.

Consciente do risco que correu, logo que deixou entregue o idoso Pedro Guimarães, despiu a roupa que trazia e procurou salvaguardar a sua segurança. Mas garante que voltaria a tomar a mesma atitude: “O homem estava no meio do asfalto, sozinho, ao frio, à chuva e quase nu. Alguém tinha de o levantar do chão”, disse. “Mas o que me assustou não foi a proximidade com o vírus. Foi sim observar em primeira mão a violência institucional a que são sujeitos milhares de portugueses em fim de vida: os velhos sem ninguém, invisíveis”, lamentou o fotógrafo nas redes sociais.


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Ficámos a saber que há, pelo menos, um lar em Portugal, distrito de Beja, concelho de Odemira, freguesia de S. Martinho das Amoreiras, onde um idoso apresentando sinais de asfixia é fechado num quarto e não recebe oxigénio nem quaisquer outros cuidados médicos.

Foi para resolver estes casos que o partido socialista, liderado por António Costa, e os deputados Rui Rio e Catarina Martins se empenharam tanto na legalização da eutanásia durante a terceira vaga da pandemia?
Os problemas sociais resolvem-se criando um ensino de qualidade, tanto durante o período da escolaridade obrigatória, como ao longo do resto da vida. Uma sociedade que procura resolver problemas sociais pressionando, por meio de maus tratos, doentes, idosos, pessoas fragilizadas a pedirem a eutanásia condena-se a si própria ao declínio. Deixou de haver humanidade em terras de Portugal. Tornámo-nos a vergonha da União Europeia.

Apenas seis pessoas lamentaram o sucedido no jornal Público. Transcrevemos dois comentários:

newsbypublic.882951 Iniciante

Caro Pedro Gonçalves, um agradecimento pelo seu gesto altruísta e por partilhar esta experiência que levanta inúmeras questões. Como é que foi possível a fuga deste senhor? Por é que a sua falta não foi sentida? O motivo da resposta categórica, "Não!"?... Como é possível que "em momentos de crise temos de o fechar no quarto, para não se pirar"? Nestes momentos de crise, quem é que supervisiona a segurança física e psicológica do Sr Jeremias? Há algum tipo de apoio psiquiátrico e psicológico ou os Lares continuam a ser meros depósitos de Portugueses que aí permanecem até que a morte aconteça? Há alguém no governo, nos diferentes ministérios da Saúde, da Segurança Social, etc, que se preocupe minimamente com os Idosos? É indigno ter que passar por uma experiência assim devido à incúria. M. C.

Joaquim Rodrigues.915290 Iniciante

Este é o verdadeiro retrato da "política" de combate à pandemia no nosso País. Este deve ser mais um daqueles "lares de idosos" bem conhecidos das autoridades, mas que elas próprias apelidam de "clandestinos". Tristeza de País o nosso!


quarta-feira, 18 de março de 2020

Mensagem do Presidente da República ao País sobre a declaração do estado de emergência


Mensagem sobre a renovação do estado de emergência aqui.

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Eis a declaração de Marcelo Rebelo de Sousa aos portugueses, que o elegeram directamente com maioria absoluta, sobre as razões que o levaram a pedir aos deputados que aprovassem o estado de emergência (o negrito é meu):


Palácio de Belém, 18 de Março de 2020

Portugueses,

Acabei de decretar o estado de emergência.

Uma decisão excepcional num tempo excepcional.
A Pandemia da Covid-19 não é uma qualquer epidemia como aquelas que já conhecemos na nossa Democracia.

Está a ser e vai ser mais intensa.
Vai durar mais tempo até desaparecerem os seus últimos efeitos.
Está a ser e vai ser um teste nunca vivido ao nosso Serviço Nacional de Saúde e à sociedade portuguesa, chamada a uma contenção e a um tratamento em família sem precedente.
Está a ser e vai ser um desafio enorme para a nossa maneira de viver e para a nossa economia. Basta pensar na saúde, na educação, no comportamento nas famílias, no trabalho, nos efeitos no turismo, nas exportações, no investimento, na fragilização de famílias e empresas, nomeadamente de pequena e média dimensão.

Esta guerra — porque de uma verdadeira guerra se trata — dura há um mês, começou depois dos vizinhos europeus e, também por isso, pôde demorar mais tempo a atingir os picos da sua expressão.

E o que fizemos nestes últimos quinze dias?
Entendemos — e bem — que, no nosso Estado Social, era e é uma tarefa de todos e não de cada um abandonado à sua sorte.
Apostámos na contenção, para tentar limitar o contágio, ganhar tempo para preparar a resposta e evitar uma concentração muito rápida da procura de cuidados de saúde.
Na contenção, o Serviço Nacional de Saúde, fez e continua a fazer heroísmo diário, pela mão dos seus notáveis profissionais.
E, com eles, todos os que estão a garantir a segurança e a produção e distribuição de bens essenciais para que o País funcione.
E os Portugueses, com a experiência de quem já viveu tudo numa História de quase nove séculos, disciplinaram-se, entenderam que o combate era muito duro e muito longo e foram e têm sido exemplares. Numa quase quarentena, que revela o bom senso de respeitar as orientações das autoridades de saúde, e digo-vos, por testemunho próprio, é nosso dever acatar as orientações genéricas e, por maioria de razão, as recomendações específicas das autoridades sanitárias.
O Governo — que tem entre mãos uma tarefa hercúlea — adoptou medidas, tentando equilibrar contenção no espaço público e nas fronteiras e não paragem da vida económica e social, medidas que todos, Presidente, Parlamento, partidos e parceiros sociais, apoiámos, conscientes de que só a unidade permite travar e depois vencer guerras.

Aqui chegados, entendi dever convocar o Conselho de Estado e, nos termos da Constituição, ouvi o Governo e solicitei autorização à Assembleia da República para decretar o estado de emergência.

Sabia e sei que os Portugueses estão divididos. Há quem o reclame para anteontem. Há quem considere dispensável, prematuro ou perigoso.
Sabia e sei que, em plena crise, as pessoas se sentem tão ansiosas, tão angustiadas, que aquilo que pedem um dia ou uma semana, uma vez dado, é logo seguido de mais exigências ou mais reclamações, à medida que as preocupações ou os temores se avolumam.
Sabia e sei que muitos esperam do estado de emergência um milagre que tudo resolva num minuto, num dia, numa semana, num mês.

Ainda assim, entendi ser do interesse nacional dar este passo. Agradeço aos Conselheiros de Estado o terem expresso as suas opiniões, ao Primeiro-ministro e ao Governo o terem aderido, solidariamente, e colaborado, de modo decisivo, no conteúdo do presente decreto, e à Assembleia da República o tê-lo autorizado com generosa prontidão e amplo consenso.

Cinco razões essenciais explicam o passo dado.

Primeira — Antecipação e reforço da solidariedade entre poderes públicos e deles com o Povo. Outros países, que começaram, mais cedo do que nós, a sofrer a pandemia, ensaiaram os passos graduais e só agora chegaram a decisões mais drásticas, que exigem maior adesão dos povos e maior solidariedade dos órgãos do poder. Nós, que começamos mais tarde, devemos aprender com os outros e poupar etapas, mesmo se parecendo que pecamos por excesso e não por defeito.
O Povo Português tem sido exemplar. Mas este sinal político, dado agora, e dado não apenas pelo Governo, mas por Presidente da República, Assembleia da República e Governo é uma afirmação de solidariedade institucional, de confiança e determinação, para o que tiver de ser feito nos dias, nas semanas, nos meses que estão pela frente.

Segunda — Prevenção. Diz o povo: mais vale prevenir do que remediar. O que foi aprovado não impõe ao Governo decisões concretas, dá-lhe uma mais vasta base de Direito para as tomar. Assim, permite que possam ser tomadas, com rapidez e em patamares ajustados, todas as medidas que venham a ser necessárias no futuro. Nomeadamente, na circulação interna e internacional, no domínio do trabalho, nas concentrações humanas com maior risco, no acesso a bens e serviços impostos pela crise, na garantia da normalidade na satisfação de necessidades básicas, nas tarefas da protecção civil, em que, nos termos da lei, todos já são convocados, civis, forças de segurança e militares. O que seria, mais tarde, se fosse necessário agir, num ou noutro caso, neste quadro preventivo e ele não existisse?

Terceira — Certeza. Esta base de Direito dá um quadro geral de intervenção e garante que, mais tarde, acabada a crise, não venha a ser questionado o fundamento jurídico das medidas já tomadas e a tomar.

Quarta — Contenção. Este é um estado de emergência confinado, que não atinge o essencial dos direitos fundamentais, porque obedece a um fim preciso de combate à crise da saúde pública e de criação de condições de normalidade na produção e distribuição de bens essenciais a esse combate.

Quinta — Flexibilidade. O estado de emergência dura quinze dias, no fim dos quais pode ser renovado, com avaliação, no terreno, do estado da pandemia e sua previsível evolução.

É um sinal político forte de unidade do poder político, que previne situações antes de poderem ocorrer, estabelece um quadro que confere certeza, dá poderes ao Governo mas não regidifica o seu exercício, e permite reavaliação na sua aplicação num combate que muda de contornos no tempo.

É também um sinal democrático.
Democrático, pela convergência dos vários poderes do Estado.
Democrático, porque é a Democracia a usar os meios excepcionais que ela própria prevê para tempos de gravidade excepcional.
Não é uma interrupção da Democracia. É a Democracia a tentar impedir uma interrupção irreparável na vida das pessoas.

Não é, porém, uma vacina, nem uma solução milagrosa, que dispense o nosso combate diário, o apoio reforçado ao Serviço Nacional de Saúde, a capacidade de pessoas e famílias continuarem a tentar limitar o contágio, para que os números a crescer cresçam menos do que os piores cenários e para que o tratamento possa ser, cada vez mais, em casa. Tudo mais cedo do que mais tarde.

Até porque, num ponto, os especialistas são claros — depende da contenção nas próximas semanas o conseguirmos encurtar prazos, poupar pacientes e, sobretudo, salvar vidas.

Temos, pois, todos de fazer por contribuir para ir o mais longe e o mais depressa possível nesta luta desigual.
E quanto mais depressa formos, mais depressa poderemos salvar vidas, salvar a saúde, mas também concentrar-nos nos efeitos, a prazo, no emprego, nos rendimentos, nas famílias, nas empresas.
E, mesmo agora, só se salvam vidas e saúde se, entretanto, a economia não morrer.
Por isso, o Estado está a ajudar a economia a aguentar estes longos meses mais agudos. Fazendo o que possa para proteger o emprego, as famílias e as empresas.
Mas nós temos de fazer a nossa parte. Não parar a produção, não entrar em pânicos de fornecimentos como se o País fechasse, perceber que limitar contágio e tratar contagiados em casa é e tem de ser compatível com manter viva a nossa economia.
Assim é em tempo de guerra, as economias não podem morrer.

Termino com um pedido.
Nesta guerra, como em todas as guerras, só há um efectivo inimigo, invisível, insidioso e, por isso, perigoso.
Que tem vários nomes.
Desânimo. Cansaço. Fadiga do tempo que nunca mais chega ao fim.
Temos de lutar, todos os dias, contra ele.
Contra o desânimo pelo que corre mal ou menos bem.
Contra o cansaço de as batalhas serem ainda muitas e parecerem difíceis de ganhar.
Contra a fadiga que tolhe a vontade, aumenta as dúvidas, alimenta indignações e revoltas.

Tudo o que nos enfraquecer e dividir nesta guerra alongará a luta e torná-la-á mais custosa e dolorosa.
Resistência, solidariedade e coragem são as palavras de ordem. E verdade, porque nesta guerra, ninguém mente nem vai mentir a ninguém.
Isto vos diz e vos garante o Presidente da República. Por vós directamente eleito para ser, em todos os instantes, os bons e os maus, o primeiro e não o último dos responsáveis perante os Portugueses.

O caminho ainda é longo, é difícil e é ingrato.
Mas, não duvido um segundo sequer, que vamos vencê-lo o melhor que pudermos e soubermos.
Na nossa História, vencemos sempre os desafios cruciais.
Por isso temos quase novecentos anos de vida.
Nascemos antes de muitos outros. Existiremos ainda, quando eles já tiverem deixado de ser o que eram e como eram.

Deixem-me terminar com um exemplo de como somos.
O exemplo da neta, enfermeira, que, no dia em que perdeu o seu avô, a primeira vítima mortal, me dizia: «Presidente, já só faltam nove dias para eu regressar à luta».
Somos assim. Porque somos Portugal.

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Contra ventos e tempestades, o Presidente da República conseguiu decretar o estado de emergência.

Em Portugal, a COVID-19 foi importada através de um médico do Norte do país que foi passar alguns dias de férias em Itália e outro português que contraiu o coronavírus na Galiza, em Espanha. Os voos entre Portugal e Itália já foram suspensos e a fronteira com Espanha já foi encerrada à circulação de pessoas.

Acontece, porém, que a pandemia penetrou em todos os países da Europa, nos Estados Unidos da América e no Canadá. Era preciso suspender a circulação de pessoas de, e para, esses países. António Costa declarou ontem que nem sequer cumprirá o encerramento das fronteiras externas da União Europeia recomendado pela Comissão Europeia:
"A partir das 24:00 de amanhã (...) serão suspensos todos os voos internacionais para fora do espaço da UE e de fora do espaço da UE com destino a qualquer aeroporto nacional" com "duas excepções" definidas por Portugal: "as ligações aéreas com o Canadá, os Estados Unidos, a Venezuela e a África do Sul", países extracomunitários com forte presença das comunidades portuguesas, e "todos os países com língua oficial portuguesa", apesar de Angola ter suspendido os voos para Portugal.

Portanto o articulado do decreto presidencial não cumpre os requisitos pedidos pelos médicos para poderem salvar maior número de vidas.

Esperamos que o governo Costa e os partidos que o apoiam no parlamento sejam obrigados a revelar aos portugueses o estado de penúria e de desorganização a que conduziram o Serviço Nacional de Saúde. Os primeiros casos de infecção pelo coronavírus surgiram em 2 de Março e não havia, nem ainda foram comprados equipamentos de protecção para os profissionais de saúde, máscaras cirúrgicas para a população — em especial para os grupos de risco —, testes de diagnóstico e ventiladores.

Esperamos que um dia a classe política portuguesa seja responsabilizada pelo excesso de mortos que vai causar.


sábado, 14 de março de 2020

Um apelo dramático


Acabei de ler o artigo de opinião mais dramático até agora publicado sobre a COVID-19 em português. Foi escrito por um profissional de saúde profundamente conhecedor do que se está a passar nos hospitais italianos e da grave crise de recursos materiais e humanos por que passam os hospitais portugueses.
Como este blogue é sobretudo lido por descendentes de portugueses que enveredaram pela diáspora e, por isso, necessitam da tradução rápida acessível no canto superior direito, tomei a liberdade de copiar integralmente o texto, com as devidas vénias a quem teve a hombridade de escrever e ao jornal Público que foi capaz de publicar:


Estamos em guerra, senhor primeiro-ministro, por isso temos de usar tudo para defender o nosso país, que está à mercê dum inimigo sem igual. O maior que alguma vez tivemos de enfrentar nas nossas vidas.

Fausto J. Pinto
14 de Março de 2020, 20:58

Vivemos tempos únicos, em que subitamente, aquilo que era adquirido como conquistado, ou seja, a contenção das grandes pandemias que assolaram o mundo, há um século, foi deitado por terra com a crise resultante da pandemia pelo coronavírus covid-19. Numa fase inicial o mundo encarou o problema como sendo um problema chinês, mas rapidamente se percebeu que, mais tarde ou mais cedo, iríamos ter uma disseminação global. E finalmente temos a pandemia, declarada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), na passada quarta-feira. E o que era aparentemente um problema sobretudo chinês passou a ser um problema do mundo.

O director-geral da OMS pediu, muito claramente, aos países para fazerem tudo para conter esta tragédia. Mas, embora seja uma pandemia, não chega ao mesmo tempo a todos e isso cria uma janela de oportunidade gigantesca para os países que ainda não tiveram o embate maior. É aqui que Portugal ainda pode minimizar a dimensão do inevitável. Mas o tempo escasseia.

Hoje já temos 169 casos confirmados, com 12 doentes em cuidados intensivos. Estes casos foram resultado de contactos nas últimas duas semanas, o que significa que os números vão começar a crescer de forma muito significativa nos próximos dias, prevendo-se um pico daqui a cerca de duas a três semanas.

Este é pois o momento de actuar com toda a força. Como se fosse o Dia D, em que temos de jogar tudo para minimizar a força do inimigo. Infelizmente as armas que temos para este inimigo são muito escassas ou nenhumas, pois ainda não há nem tratamento específico, nem vacina. Na passada quinta-feira, V. Exa. anunciou medidas que vão ao encontro daquilo que muitos de nós propúnhamos, nomeadamente encerramento de escolas e outros estabelecimentos, bem como algumas medidas restritivas que anunciou. Mas, senhor primeiro-ministro, a dimensão do problema que enfrentamos exige muito mais.

Podia fazer uma longa narrativa justificando o que lhe vou pedir, mas transcrevo resumidamente as palavras dum médico italiano com grande responsabilidade e que está agora a viver a catástrofe em Itália: “Retiraram-se os ventiladores das salas de operações para montar novas áreas de cuidados intensivos. Usa-se todo o tipo de máquina que permita ventilar. Compraram-se novos ventiladores. Mas não chega. Deixámos de ventilar os doentes com mais comorbilidades e os idosos. É uma morte difícil. Em solidão. Sem ventilação. Com morfina e midazolam. O desmame dos que sobrevivem é demorado.

Contam com quatro semanas de ocupação da Unidade de Cuidados Intensivos. A mortalidade é difícil de definir por causa dos que não chegam a ventilação invasiva. Estão a criar hospitais sujos e hospitais limpos. Pioram os cuidados aos não covid. Burnout entre os profissionais. Necessidade de apoio psicológico diário. Nenhum profissional se aproxima menos de um metro de outro. Têm teams próprios para intubação. Procuram intubar por fibroscopia. O essencial é os profissionais serem capazes de se despir de emoções. Diz que só tough guys aguentam a linha da frente.

Tem muitos anestesistas envolvidos. Este colega avisa para a necessidade de nos prepararmos psicologicamente. De não contar com as autoridades, mas sim com a nossa capacidade de inventar soluções. Deseja-nos muita coragem e muita força. Diz que as nossas vidas nunca serão iguais depois disto. Não sabe a que distância estão do pico, mas assinala que só as medidas de precaução na sociedade podem ajudar. E tem que ser a sério. Mais as medidas drásticas no hospital.

E este é o momento para Portugal tomar medidas ainda mais firmes, que nos defendam e minimizem a destruição que o inimigo, que já está entre nós, vai provocar.

Senhor primeiro-ministro, este é o momento de mostrar coragem e fazer o que tem de fazer que é decretar quarentena obrigatória, estado de emergência, porque é de uma emergência que estamos a falar. Fechar fronteiras, bares, cafés, restaurantes, casas de espectáculo, praias, tudo, excepto naturalmente os serviços essenciais, como os serviços de saúde. E estes terão de receber um reforço financeiro tão grande quanto o possa fazer. Estamos em guerra, senhor primeiro-ministro, por isso temos de usar tudo para defender o nosso país, que está à mercê dum inimigo sem igual. O maior que alguma vez tivemos de enfrentar nas nossas vidas.

Faça-o agora, quando ainda há uma pequena janela, do que daqui a uns dias quando já não tiver alternativa, mas for tarde de mais. Se agir agora, Portugal vai-lhe ficar grato para sempre, se agir tarde demais nunca lhe perdoará. E não pode dizer que não foi avisado.

Senhor primeiro-ministro, não perca mais tempo, pela sua e pela nossa saúde.


Cardiologista, Director da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e Presidente do Conselho de Escolas Médicas Portuguesas (CEMP); director do Serviço de Cardiologia e Departamento Coração e Vasos do Centro Hospitalar Lisboa Norte.


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Alguns comentários ao artigo mostram que muitas pessoas já se aperceberam da situação caótica e de penúria em que se encontra o Sistema Nacional de Saúde português (o negrito é meu):

Ricardo Santos.888436 Iniciante
Ate que enfim, passado um mês temos um artigo de opinião com bom senso. Fechem tudo já.

Joao Iniciante
Absolutamente de acordo. Só discordo com "é este o momento" pois em meu entender já deveria ter sido há semanas, mas é melhor tarde que nunca.

Jcampos.876517 Iniciante
Fechar, informar, explicar. Temos uma população pouco escolarizada. Isso também se paga.

mzeabranches Iniciante
Esperemos que este apelo seja ouvido pelos responsáveis políticos e pela população em geral!

jacekm.885207 Iniciante
Eu sou polaco, moro em Portugal. Meu país fechou as fronteiras, discotecas e bares. Você tem que fazer o mesmo.

Boris Vian Influente
Pois foi. Essa leviandade irresponsável de pensar 'inicialmente como sendo um problema chinês... e agora, é como está no sub-título "Estamos em guerra". Uma guerra Invisível!

newsbypublic.882951 Iniciante
Muito obrigado, Sr. Prof. Fausto Pinto, pelo seu testemunho e lucidez. É incompreensível que, neste momento sem paralelo, os factores económicos estejam num patamar superior em relação ao direito e ao valor da Vida. Da Vida de cada um de Nós. As medidas têm sido tomadas, de forma tardia e hesitante, como por exemplo, o "controle pontual" de fronteiras. Ou há um controle eficaz ou esta atitude de "controle pontual" é meramente demagógica. Bares a encerrar às 21 horas? E a que hora é que podem abrir? Quantas pessoas/dia e em que condições irão frequentar os bares, etc? António Costa não aprendeu com a tragédia de Pedrogão Grande. Não há destino. Houve negligência criminosa que ficou impune. Nos Hospitais quando tiverem que decidir quem irá ter acesso a um ventilador será dramático. M. C

newsbypublic.882951 Iniciante
António Costa, Mário Centeno e outros membros do governo são moralmente responsáveis pelo desinvestimento crescente no SNS. Em notícias publicadas em outros media, é revelada a escassez de ventiladores no SNS, independentemente da situação actual e premente da covid-19. Já faltavam ventiladores, logo os cuidados de saúde há muito que estavam comprometidos. É importante realçar este facto. No cenário excepcional causado pela covid-19 que irá atingir a sociedade portuguesa, de forma mais ou menos traumática, as decisões nos Hospitais, tendo em conta o relato de um médico italiano são tomadas, de acordo com a idade e as condições de saúde de cada um. À partida, os idosos, os doentes oncológicos ou com outras patologias crónicas são mais vulneráveis. Com o que é que vão poder contar? M. C

JJ Influente
É por este motivo que em países como Portugal não se pode actuar só com medidas de sensibilização. Por respeito até com os próprios profissionais de saúde que vão atravessar semanas ou meses no tratamento dos infectados o governo já deveria ter decretado estado de emergência nacional e fecho de fronteiras. Tristeza de país.

Norberto Iniciante
O meu maior medo é o da irracionalidade das pessoas, do pânico e do histerismo. A mente irracional é muito mais perigosa que o Coronavírus. Fecho de fronteiras, desconfiança do próximo, quebra brutal dos investimentos (sobretudo nos países emergentes) irão criar problemas muito maiores que as mortes causadas pelo Coronavírus. A emenda é pior que o soneto. Estamos em guerra com o pânico e com o histerismo. A quarentena impõe-se para pessoas com mais de 70 anos ou com outros problemas de saúde. Não para os demais. O risco de morrer em Portugal por Coronavírus mesmo que já houvessem 30.000 casos em Portugal é inferior à mortalidade esperada POR ANO de acidentes de viação (para alguém de 40-50 anos). Sugere então que se proíba andar de carro durante os próximos 50 anos? Proibir fumar e açúcar?

Nuno Araujo Iniciante
É por causa de pessoas como o Norberto que temos mesmo que declarar Estado de Emergência e obrigar as pessoas a ficarem em casa. São sempre mais espertas e mais inteligentes que os outros. Nada lhes acontece. E pouco lhes importa se estão a morrer muitas ou poucas pessoas, ou se os médicos estão já desesperados com o fluxo de doentes a chegarem ao hospital e isto ainda nem começou. Enfim...

ALRB Experiente
A probabilidade de este primeiro-ministro tomar uma medida corajosa é igual à probabilidade de uma galinha ter dentes. Este PM funciona unicamente em função da popularidade: se dá votos ele faz, nem que seja errado, se não dá votos ele não faz nem que fosse preciso que fizesse.
A única maneira de ele tomar a medida de fechar o país é ele poder dizer que a UE mandou fechar o País, ou não aparecer ninguém nos postos de trabalho (aí ele percebia que a medida seria popular). Uma última hipótese era conseguir culpar o Passos Coelho, mas essa desculpa já está muito gasta.


quinta-feira, 5 de março de 2020

Recomendações para a COVID-19


O Estado da Califórnia, com 39,5 milhões de habitantes, tem 38 casos confirmados de Coronavirus Disease 2019 (COVID-19) e declarou ontem o estado de emergência.
Portugal, com cerca de 1/4 deste número de habitantes e um sistema nacional de saúde caótico, tem já 9 casos confirmados de pneumonia pelo novo coronavírus que parece ser de rápida propagação (tal como o vírus do sarampo), mas só a directora-geral da Saúde, Maria da Graça Freitas, está preocupada: "Estamos a ver a ponta do icebergue".





Horas antes do governador do Estado da Califórnia declarar uma emergência para todo o Estado, a cidade de Los Angeles declarou uma emergência de saúde devida ao coronavírus, alertando para a possibilidade de transmissão comunitária da doença que já causou 3.347 mortes em todo o mundo (supondo que o partido comunista chinês tem divulgado o número de mortes verídico nas diferentes províncias chinesas).

A medida ocorre depois de Los Angeles County ter confirmado seis novos casos do coronavírus e 7 no total, de acordo com a directora do Departamento de Saúde Pública desse município, Dra. Barbara Ferrer.

"Assinei uma declaração de emergência local para a cidade de Los Angeles", anunciou o prefeito Eric Garcetti, via Facebook. "Embora haja apenas alguns casos activos conhecidos de COVID-19 na região, a declaração ajuda-nos a aceder ao financiamento estadual e federal para fortalecer e apoiar os esforços para preparar a região e manter as nossas comunidades seguras".

A presidente do conselho de supervisores do município, Kathryn Barger, esclareceu que era uma reacção planeada ao vírus: "Esta não é uma resposta enraizada no pânico", disse Barger, tendo acrescentado que a declaração de emergência ajudaria as agências a coordenar a resposta e a conter o vírus num município onde vivem mais de 10 milhões de pessoas, tanto como a população portuguesa.

Por que motivo as autoridades sanitárias e administrativas do Estado da Califórnia estão tão preocupadas com a propagação da COVID-19?
É que num Estado mais a norte, o Estado de Washington, com apenas 7,5 milhões de habitantes, existem 39 casos confirmados de pneumonia pelo coronavírus, dos quais 31 em King County, o município onde está situada Seattle, a maior cidade de Washington.

Nós, portugueses, estamos a importar a doença de Itália, o país do mundo com maior número de mortes pela COVID-19 depois da China, mas os nossas políticos não estão preocupados, apenas a DGS divulga alguma informação. Chegou o momento de começarmos a procurar informação nos Estados que têm políticos competentes e não corruptos para adoptarmos as melhores práticas.

Estas são as recomendações das autoridades sanitárias de Seattle&King County:

  1. Orientação para pessoas com maior risco de doença COVID-19 grave

    A Saúde Pública [Seattle, Washington, EUA] recomenda que as pessoas com maior risco de doença grave fiquem em casa e longe de grandes grupos de pessoas, tanto quanto possível, incluindo locais públicos com muitas pessoas e grandes reuniões onde haverá contacto próximo com outras pessoas. Isto inclui salas de concerto, convenções, eventos desportivos e reuniões sociais superlotadas.

    Pessoas em maior risco incluem pessoas:
    • Acima de 60 anos de idade
    • Com problemas de saúde subjacentes, incluindo doenças cardíacas, pulmonares ou diabetes
    • Com o sistema imunitário enfraquecido
    • Grávidas

    Cuidadores de crianças com problemas de saúde subjacentes devem consultar os profissionais de saúde para saber se os filhos devem ficar em casa. Qualquer pessoa que tenha dúvidas se a sua condição de saúde a coloca em risco pelo novo coronavírus, deve consultar os seus médicos.

  2. Orientação para locais de trabalho e empresas

    Os empresários devem tomar medidas para tornar mais viável que os funcionários trabalhem de maneira a minimizar o contacto próximo com um grande número de pessoas.

    Os empresários devem:
    • Maximizar as opções de teletrabalho para o maior número possível de funcionários.
    • Instar os funcionários a ficar em casa quando estão doentes e maximizar a flexibilidade nos benefícios de baixa médica.
    • Considerar tempos de início e término instáveis para reduzir o número de pessoas que se reúnem ao mesmo tempo.

  3. Considerações sobre eventos e reuniões da comunidade

    Se puder evitar reunir grandes grupos de pessoas, adie eventos e reuniões.

    Se não puder evitar reunir grupos de pessoas:
    • Incentive qualquer pessoa que esteja doente a não comparecer.
    • Incentive aqueles que têm maior risco para o coronavírus a não comparecer.
    • Tente encontrar modos de dar às pessoas mais espaço físico para que elas não estejam em contacto próximo, o tanto quanto possível.
    • Incentive os participantes a manter bons hábitos saudáveis, como lavar as mãos com frequência.
    • Limpe as superfícies com produtos de limpeza.

  4. Orientação para escolas

    A Saúde Pública não está a recomendar o encerramento de escolas no momento, a menos que haja um caso confirmado na escola. A razão pela qual não estamos a recomendar o encerramento de escola é que as crianças não demonstraram ser um grupo de alto risco para doenças graves causadas por este vírus. Além disso, quando algumas escolas fecharam brevemente durante a pandemia de gripe H1N1, descobrimos que muitas crianças ainda se reuniam em grupos e ainda tinham exposição umas às outras. Tanto quanto possível, as crianças devem poder continuar com a educação e actividades normais.

    Saúde pública — a Seattle&King County também respeita as decisões de cada escola individual sobre o encerramento ou adiamento de actividades, pois cada escola conhece melhor as necessidades da comunidade.

    Algumas crianças têm problemas de saúde subjacentes, como sejam sistemas imunitários debilitados, que as colocam em maior risco. Cuidadores de crianças com problemas de saúde subjacentes devem consultar os profissionais de saúde para saber se os filhos devem ficar em casa.

  5. Para pessoas doentes

    Fique em casa quando estiver doente. Não saia em público quando estiver doente.

    Evite cenários médicos em geral, a menos que seja necessário. Se estiver doente, ligue para o consultório médico antes de entrar.

  6. Para o público em geral

    • Mesmo se não estiver doente, evite visitar hospitais, instituições de cuidados continuados ou asilos, na medida do possível. Se precisar visitar uma dessas instalações, limite o tempo e mantenha-se a 1,8 metros de distância dos pacientes.

    • Não vá à urgência, a menos que seja essencial. As salas de urgência precisam de ser capazes de atender as pessoas com necessidades mais críticas. Se tiver sintomas como tosse, febre ou outros problemas respiratórios, entre em contacto primeiro com o seu médico.

    • Fique em casa quando estiver doente.

    • Pratique excelentes hábitos de higiene pessoal, incluindo lavar as mãos com água e sabão com frequência, tossir num lenço de papel ou cotovelo e evite tocar nos olhos, nariz ou boca.

    • Fique longe de pessoas doentes, especialmente se estiver em maior risco para o coronavírus.

    • Limpe superfícies e objectos tocados com frequência (como maçanetas e interruptores de luz). Produtos de limpeza doméstica habituais são eficazes.

    • Evite tocar nos olhos, nariz e boca, a não ser depois de lavar as mãos.

    • Descanse bastante, beba bastantes líquidos, coma alimentos saudáveis ​​e domine o stress para manter a imunidade forte.

    • Mantenha-se informado. As informações estão a mudar com frequência.


segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Tolerância à morte provocada - III


Neste P24 do jornal Público, dois médicos debatem a eutanásia:

  • Bruno Maia, médico especialista em Neurologia e Medicina Intensiva e coordenador hospitalar de Doação no Centro Hospitalar de Lisboa Central, e
  • José Diogo Martins, vice-presidente da Associação dos Médicos Católicos Portugueses, assistente hospitalar graduado de Cardiologia Pediátrica, mestre em Educação Médica pela Universidade Católica Portuguesa e doutor em Medicina pela NOVA Medical School.




Quem é Miguel Ricou, o autor do estudo em que o médico Bruno Maia se apoia para afirmar que a maioria dos médicos portugueses apoiam a legalização da eutanásia? Eis o seu currículo:
Miguel Ricou nasceu no Porto no dia 03 de outubro de 1972. É Doutorado pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra na área de Psicologia Clínica. É Mestre em Bioética pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e Licenciado em Psicologia Clínica pelo Instituto Superior de Ciências da Saúde-Norte. Desde que se licenciou em 1997 que tem desenvolvido investigação na área da ética e da bioética, com especial ênfase na ética profissional, tendo dedicado grande parte do seu tempo ao estudo dos Princípios Éticos dos Psicólogos Portugueses. É membro da Associação Portuguesa de Bioética, da qual é vogal da Assembleia Geral desde 2002. Foi o primeiro Presidente do Conselho Jurisdicional da Ordem dos Psicólogos Portugueses. Fez parte da Comissão responsável pela elaboração do Código Deontológico dos Psicólogos Portugueses. É o representante Português no Board of Ethics da EFPA (European Federation of Psychologists’ Associations).

Para além da sua atividade clínica, é Professor Auxiliar na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, integrando o Departamento de Ciências Sociais e da Saúde. É ainda docente no Doutorado em Bioética FMUP/CFM e no Mestrado em Bioética e no Mestrado em Cuidados Paliativos da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. É também responsável pela Unidade Curricular de “Psicopatologia” da Licenciatura em Psicologia da Universidade Portucalense Infante D. Henrique.

Vamos interpretá-lo:

Nome: Miguel Ricou
Data de nascimento: dia 03 de outubro de 1972

Licenciatura: Psicologia Clínica
Instituição de ensino: Instituto Superior de Ciências da Saúde-Norte
O Instituto Universitário de Ciências da Saúde (IUCS) é uma instituição de Ensino Superior Privado Português que ministra cursos superiores na área da Saúde e teve reconhecimento de interesse público no D.R. nº 76, 1ª Série de 20 de abril de 2015.

O Instituto Universitário de Ciências da Saúde resulta da alteração de interesse público do Instituto Superior de Ciências da Saúde-Norte homologado por despacho do Ministério da Educação publicado no D.R. nº 181, I Série (Decreto-Lei nº 250/89 de 8 de Agosto de 1989), tendo-lhe sido atribuída esta designação pela Portaria 906/93 de 20 de Setembro de 1993 (D.R. nº 221, I Série B).

O IUCS é tutelado pela CESPU - Cooperativa de Ensino Superior, Politécnico e Universitário, crl.
Mestrado: Bioética
Instituição de ensino: Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Doutoramento: Psicologia Clínica
Instituição de ensino: Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra

Actividades profissionais:
  1. Psicólogo clínico
  2. Docência: professor auxiliar do Departamento de Ciências Sociais e da Saúde da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) nos
    • Mestrado em Bioética da FMUP
    • Mestrado em Cuidados Paliativos da FMUP
    • Doutorado em Bioética da FMUP/CFM (Conselho Federal de Medicina), Brasília, Brasil
  3. Docência: professor da Universidade Portucalense na
    • Unidade Curricular de “Psicopatologia” da Licenciatura em Psicologia

Repare-se na diferença abissal entre as condições exigidas na candidatura ao IUCS e as exigidas na FMUP:

Psicologia
Instituto Universitário de Ciências da Saúde

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Provas de Ingresso
Uma das seguintes provas:
02 Biologia e Geologia
06 Filosofia
07 Física e Química
18 Português

Classificações Mínimas
Nota de candidatura: 95 pontos
Provas de ingresso: 95 pontos

Fórmula de Cálculo
Média do secundário: 65%
Provas de ingresso: 35%
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Medicina
Universidade do Porto

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Provas de Ingresso

02 Biologia e Geologia

07 Física e Química
16 Matemática

Classificações Mínimas
Nota de candidatura: 140 pontos
Provas de ingresso: 140 pontos

Fórmula de Cálculo
Média do secundário: 50%
Provas de ingresso: 50%
______________________________


Pergunto:
Miguel Ricou é um psicólogo? Sim.
É um médico? Não.

Portanto um psicólogo com 47 anos, fundador e coordenador da plataforma "Wish to Die", sem qualquer possibilidade de se candidatar ao curso de Medicina e sem qualquer formação em Medicina, graças a uma incursão na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto para tirar um mestrado em Bioética, converte-se no professor, não só de Bioética, mas também de Cuidados Paliativos, dos futuros médicos que estão em formação nessa mesma Faculdade de Medicina.




Ora é num inquérito realizado sob coordenação deste sorridente psicólogo que Bruno Maia, 37 anos, candidato em 5º lugar nas listas do Bloco de Esquerda pelo Porto nas eleições legislativas de Outubro de 2019 (não eleito: escolher Distrito do Porto) e médico apoiante da legalização da cannabis e da eutanásia, se baseia para afirmar que a maioria dos médicos portugueses apoiam a legalização da eutanásia.

Corre-se o Facebook da plataforma "Europeia" (por que não, "Internacional"?) "Wish to Die" e vemos um grupo de jovens sorridentes psicólogos que, sob a coordenação de um candidato a médico frustrado, se preparam para estudar e debater a eutanásia, permitindo uma legislação em conformidade com o melhor interesse dos doentes, sublinha o jornal Observador, um interesse que eles vão saber definir, obviamente.


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*



Proclamam estes adeptos encapotados da legalização da eutanásia que há dois modos de analisar a questão: o arcaico, tradicional, fora de moda que se apoia em convicções religiosas e defende a inviolabilidade da vida e o outro, o moderno, o futuro, que centra a decisão no doente, tem compaixão, respeita a liberdade de escolha do doente e orienta essa escolha no sentido da defesa dos interesses do doente.

Profunda hipocrisia! O doente sabe que tem uma doença incurável, por isso é um ser humano em sofrimento psicológico e, muitas vezes, também em sofrimento físico a quem políticos incompetentes ou corruptos bloquearam todas as vias de sobrevivência — não só lhe impedem o acesso a uma rede de cuidados paliativos na fase terminal, mas também lhe adiam o mais elementar direito a consultas, cirurgias e tratamentos na fase inicial quando os vai pedir a um delapidado e caótico sistema nacional de saúde — deixando apenas livre uma única saída, a mais económica, a mais egoísta, a desumana, aquela que trata o doente como um assassino e o empurra subtilmente para a injecção letal.

Um comentário à notícia do Observador a merecer reflexão:

Amora Bruegas
17/12/2017
Ingenuidade ou cinismo?

O autor da iniciativa, embora aparente ter boas intenções (e deles está o inferno cheio!), avança com uma ideia do tipo "Solução Final" que visa eliminar um problema social e económico, na semelhança do que fizeram outros socialistas há algumas décadas. A ideia não sendo nova (e tão do agrado de socialistas), é sinistra e pretende beneficiar alguns pela matança de outros Seres humanos indefesos.
É bom que tenhamos os olhos e a mente bem abertos para não pactuar com a criação de mais campos de extermínio.


sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Crisântemos para Li Wenliang


Tinha 33 anos, era casado, com um filho de 5 anos, e estava à espera de outro. Trabalhava como médico oftalmologista no Hospital Central de Wuhan, na província de Hubei, China.

Em 30 de Dezembro de 2019, viu um relatório de um paciente com resultado positivo de alto nível de confiança para os testes de coronavírus SARS, um tipo de vírus agressivo.
À tarde, alertou o grupo privado do WeChat dos colegas da sua escola médica de que "havia 7 casos confirmados de SARS no mercado de Huanan", tendo compartilhado o relatório e o resultado da tomografia computadorizada do paciente. Passada uma hora, acrescentou: "Foi confirmado que são infecções por coronavírus, mas o vírus exacto está a ser subtipado".
Pediu aos colegas para prevenirem familiares e amigos. O alerta acabou por envolver um grupo de oito médicos e ganhou dimensão nas redes sociais. A sua identidade foi divulgada.

Imediatamente Li Wenliang foi admoestado pelo supervisor do hospital. Em 3 de Janeiro de 2020, as autoridades policiais de Wuhan interrogaram e censuraram o médico por "fazer comentários falsos na Internet", obrigaram-no a assinar uma carta de advertência prometendo não voltar a fazê-lo e avisaram-no que, se não cumprisse, seria processado. Na China, a divulgação de boatos é punida com pena de prisão de três anos.


李文亮的训诫书.png
Carta emitida por 武汉市公安局武昌分局中南路街派出所
Foto por 李文亮醫生 - 新冠肺炎“吹哨人”李文亮:真相最重要
(in zh-hans) 财新网. 财新传媒 (2020-02-07).
Recuperada em 2020-02-07. "李文亮的训诫书。第二个落款时间2019年应为2020年,李文亮称此系笔误。受访者提供", Domínio público, ver aqui.
A carta de advertência emitida pelo Departamento de Polícia de Wuhan ordenando-lhe que parasse de "espalhar boatos" sobre o SARS, assinada pelo médico e dois polícias. Em 31 de Janeiro, Li fez o upload para sua conta Sina Weibo que, na China, corresponde ao Twitter. A Wikipedia mostra a tradução em inglês que nos esclarece sobre a mentalidade da polícia chinesa.



Em 8 de Janeiro, teve de examinar um paciente que sofria de glaucoma agudo e desenvolveu febre no dia seguinte. Era um lojista do mercado de peixe e animais selvagens de Huanan que tinha uma alta carga de vírus. O médico começou com febre e tosse em 10 de Janeiro. No dia 12 foi internado nos cuidados intensivos, onde iniciou a quarentena, sendo realizados sucessivos testes para o coronavírus até que resultou positivo em 30 de Janeiro.

Em 31 de Janeiro, o médico publicou uma mensagem sobre a sua experiência com as autoridades que se tornou viral. Além de fazer o upload da carta de advertência, escreveu no Weibo: "Estava febril em 11 de Janeiro e fui hospitalizado no dia seguinte. Nessa altura, o governo ainda insistia que não havia transmissão humano para humano e disse que ninguém da equipe médica tinha sido infectado. Fiquei confuso.”
A China só tinha reconhecido a gravidade do surto epidémico em 20 de Janeiro e subsequentemente implementado o encerramento de Wuhan que tem 11 milhões de habitantes e é a capital da província de Hubei.
As pessoas começaram a questionar por que motivo todos os médicos que deram o primeiro alerta foram silenciados pelas autoridades.

No final da tarde de 6 de Fevereiro o médico teve uma paragem cardíaca. Vários jornais estatais chineses (Diário Popular, Global Times e Notícias de Pequim) noticiaram que os batimentos cardíacos de Li Wenliang tinham parado às 21:30.

"Lamentamos muito a perda de qualquer trabalhador da linha de frente comprometido em cuidar de doentes [...] devemos celebrar a sua vida e lamentar a morte com os seus colegas", disse (video 11:16-12:10) Michael Ryan, director do programa de emergências em saúde da Organização Mundial da Saúde (WHO), ainda no dia 6.


Nas duas horas posteriores ao anúncio da morte de Li Wenliang pelos jornais oficiais chineses, muitos posts relativos ao acontecimento foram eliminados na Internet.

Pelas 00:38 de 7 de Fevereiro, o Hospital Central Wuhan divulgou uma declaração na conta oficial no Weibo contradizendo os relatos da sua morte: "No processo de combate ao coronavírus, o oftalmologista do nosso hospital, Li Wenliang, infelizmente foi infectado. Actualmente está em estado crítico e estamos a fazer o possível para resgatá-lo."

A WHO reformulou o tweet:



Após o hospital divulgar que o médico estava a ser tratado com oxigenação por membrana extracorpórea (ECMO), as mensagens dos chineses revelavam esperança. "Esta noite não dormimos, mas Li tem de acordar", era a frase que dominava no Weibo, relata uma jornalista do South Morning Post, de Hong Kong:



No entanto, pelas 03:48, o hospital confirmava o falecimento: "O oftalmologista Li Wenliang do hospital, infelizmente infectado na luta contra a epidemia de pneumonia da nova infecção por coronavírus, faleceu depois de todos os nossos esforços pelas 2:58 de 7 de fevereiro de 2020. Lamentamos profundamente a sua morte.”.

Foi cremado antes que os pais o pudessem ver uma última vez.




A morte do médico desencadeou uma onda de sofrimento e revolta nas redes sociais, que rapidamente se converteu na exigência de liberdade de expressão, prontamente bloqueada pela censura.

Como as autoridades policiais acusaram o médico de ser um "whistleblower" o que, literalmente, significa "soprador de apito", então os cidadãos de Wuhan começaram espontaneamente a organizar actividades como "Eu apitei para Wuhan hoje à noite", em que todos mantiveram as luzes apagadas nas suas casas por cinco minutos e depois tocaram apitos e lançaram purpurinas pelas janelas por mais cinco minutos.




Mas a mais bela homenagem realizada pelos seus concidadãos foi a deposição de crisântemos e outras flores à porta do Hospital Central de Wuhan, onde Li Wenliang trabalhou e morreu:



O memorial à porta do Hospital Central de Wuhan, uma cidade onde a incompetência, a opacidade e o secretismo das autoridades deixaram alastrar o surto epidémico que obriga os 11 milhões de habitantes a andarem pelas ruas com máscara cirúrgica:



O surto epidémico do novo coronavírus já causou mais casos confirmados e mortes que o surto de Síndrome Respiratória Aguda Severa (SARS) ocorrido no Sul da China, entre Novembro de 2002 e Julho de 2003, que causou 8098 casos confirmados e 774 mortes em 17 países. Parece estar a transformar-se numa pandemia.


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"Aqueles que tornam impossível a revolução pacífica,
tornarão inevitável a revolução violenta
.
"

John F. Kennedy, Address on the First Anniversary of the Alliance for Progress,
proferido na Casa Branca, Washington D.C., 13 Março 1962.



JJG
Do you hear the people sing?
R.I.P Doctor Li Wenliang
  • 张佳乐
    永远记得李文亮医生 永远!

    (Zhang Jiale
    Lembre-se o Dr. Li Wenliang para sempre!)

  • 凌滄海
    相信這次疫情結束後
    中共政權會出問題
    讓更多中國人認識自己的國家(真夠諷刺)
    願李文亮醫生的血不要白

    (Ling Canghai
    Eu acredito que depois da epidemia acabar
    Problemas com o regime PCC
    Deixe mais chineses conhecerem o país deles (é irónico)
    Que o sangue do Dr. Li Wenliang não corra em vão)

Kon
When there was a million people on the streets of Hong Kong.
  • verri123
    I don't get it, what's happening in hong kong?

  • Casey Chiu
    verri123 long story short: Basically, under the One Country Two Systems, China is not allowed to f*ck with Hong Kong and must let HK be of high autonomy and democracy. But the government would like to pass an extradition bill, which means people in HK might be extradited to mainland China (which everyone knows, has less transparency and democracy). HK people thinks this violates the One Country Two Systems rule and thus 1.03 millions of citizens took the streets on 9/6. Yet, the government only suspends the bill, but not to revoke it permanently. Citizens especially students are of course furious and thus we protested. The police forces used weapons like tear gas, pepper sprays and bullets against the unarmed protestors (even if they are armed, they only have umbrellas...). This angers the people even more and so we took the streets again on 16/6. This of course is a very brief timeline of what happened. If you wanna know more, you can search related news on the Internet.

    (Casey Chiu
    verri123 resumo da longa história: Basicamente, sob Um País, Dois Sistemas, a China não tem permissão para brincar com Hong Kong e deve deixar HK com autonomia e democracia elevadas. Mas o governo gostaria de aprovar uma lei de extradição, o que significa que as pessoas em Hong Kong podem ser extraditadas para a China continental (que todos sabem, tem menos transparência e democracia). O povo de Hong Kong acha que isso viola a regra Um País, Dois Sistemas e, portanto, 1,03 milhões de cidadãos saíram às ruas em 9/6. No entanto, o governo apenas suspende a lei, mas não a revoga permanentemente. Os cidadãos, especialmente os estudantes, ficam furiosos e, portanto, protestámos. As forças policiais usavam armas como gás lacrimogéneo, spray de pimenta e balas contra os manifestantes desarmados (mesmo que estejam armados, só têm guarda-chuvas...). Isso irrita ainda mais o povo e, por isso, voltámos às ruas em 16/6. É claro que este é um cronograma muito breve do que aconteceu. Se quiser saber mais, pode pesquisar notícias relacionadas na Internet.)


quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

ARS de Lisboa e Vale do Tejo paga 400 mil euros pelo inventário


A Administração Regional de Saúde (ARS) de Lisboa e Vale do Tejo pagou mais de 400 mil euros a uma empresa de consultoria pela elaboração do inventário dos bens móveis e imóveis da instituição.

A obrigação da realização dos inventários foi determinada pela Inspecção-Geral das Actividades em Saúde há alguns anos e foi o anterior conselho directivo da ARS de Lisboa e Vale do Tejo que lançou um concurso público em 2010. A prestação do serviço foi adjudicada em Setembro de 2011 à consultora SGG - Serviços Gerais de Gestão, SA, uma empresa associada da Deloitte, por 338.750 euros mais IVA.
Estima-se em 250 mil os bens móveis e 133 os imóveis a inventariar e cadastrar. É preciso registar desde prédios a mesas e cadeiras, tesouras, material cirúrgico, “tudo até ao mais ínfimo pormenor”, explica Luís Cunha Ribeiro, actual presidente desta ARS, que procura realçar a complexidade do trabalho enumerando factos como seja a existência de imóveis que “ninguém sabia onde estavam”. Tendo chegado à presidência em 2012, diz que se limitou a “dar o empurrão” a um serviço já adjudicado, senão teria de indemnizar a consultora.

Entretanto, as outras ARS do país estão a tratar do assunto com a prata da casa: a ARS do Norte está a proceder ao inventário “pelos seus próprios meios, visando a migração dos dados para uma plataforma informática”, na do Centro “não há qualquer procedimento para contratação externa”, a do Alentejo tem vindo a efectuar, ao longo dos últimos anos, “a inventariação, regularização registral e matricial dos imóveis que são objecto de avaliação pela administração tributária” e, finalmente, a ARS do Algarve optou por encarregar desta tarefa “uma equipa interna de funcionários”, refere o chefe de gabinete do ministro Paulo Macedo.

A ARS de Lisboa e Vale do Tejo também contratou uma outra consultora, a Antares, para a realização de um estudo sobre a reforma da sua rede hospitalar, pelo valor de 90 mil euros.
Não é um estudo avulso, é preciso fazer um levantamento por hospital, por população, por movimento hospitalar, por internamentos”, justifica Cunha Ribeiro. “Não vamos fechar camas sem percebermos se o devemos ou não fazer. Não vamos fazer nada sem um estudo exaustivo”, defende, acrescentando que a ARS não tem recursos humanos para realizar este tipo de trabalho.

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Contratos com cláusulas de indemnização, carência de recursos qualificados para realizar estudos numa Administração Central que se sabe ter excesso de funcionários, enfim, nada de novo na política à portuguesa.


quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

"Não há Saúde gratuita"


"Não há Saúde gratuita

11 Janeiro 2012, 23:30 por Pedro Santos Guerreiro | psg@negocios.pt

Manuela Ferreira Leite é um fenómeno: não sabe dizer-se mas sabe ouvir-se. Aproveite-se a polémica. A pergunta é simples: a saúde gratuita é para todos? A resposta também é simples: não. Mas a divisão, obviamente, não está na idade, está no rendimento.

Resolvamos já as palavras de Ferreira Leite: são irresolúveis. O País ainda se divide sobre se era ironia ou afirmação aquele "é preciso suspender a democracia seis meses". Na terça à noite, Ferreira Leite parece ter querido dizer que toda a gente deve ter acesso a saúde, pagando quem deve e não pagando quem não pode. Mas lá está: é uma interpretação, não é a afirmação textual. O equívoco fica para equívoco. Vamos à Saúde.

Saúde gratuita, não há: ela é paga por impostos (e talvez 2% pelas taxas moderadoras) e envolve múltiplos interesses, negócios privados, alguns particulares, que vivem do Estado e se suportam no clamor público de que é preciso mais. Um ministro que corta despesa na Saúde corta os pulsos à sua carreira política. Que o diga Correia de Campos, um homem de esquerda. Que o diga Paulo Macedo, de direita.

Há anos em que o Serviço Nacional de Saúde tem lucro, outros em que tem prejuízo. É uma habilidade: o Estado decide a transferência do Orçamento do Estado maior ou menor e, nisso, cria lucro ou prejuízo. Nos últimos anos, tem sido sempre prejuízo. Prejuízo significa défice, o que significa impostos futuros. É por isso que há muitos orçamentos rectificativos por causa da Saúde. Para saber, pois, quanto custa a Saúde, é preciso somar as transferências do OE com o défice do SNS e, agora, também com o défice dos hospitais EPE. Tudo somado, são mais de oito mil milhões em 2011.

Para 2012, o Governo cortou a fundo na Saúde, com menos 740 milhões. Isso tem vários cortes, 1) nos custos com medicamentos, 2) nos meios complementares de diagnóstico (hemodiálises, análises...), 3) nos custos com pessoal e horas extraordinárias, 4) nas compras de matéria hospitalar e 5) nas transferências para os hospitais.

Todas estas medidas retiram quantidade, e qualidade, à Saúde, o que prejudica os utentes. Mas agora releia a lista anterior, dos cinco cortes, e pense em quem perde dinheiro com eles. São 1) as farmacêuticas e as farmácias, 2) os laboratórios privados, 3) os trabalhadores da Saúde, 4) os fornecedores de equipamentos e 5) os gestores de hospitais. Além, dos "comissionistas" clandestinos destas operações. São, pois, oito mil milhões de euros que vão para bolsos de farmacêuticas, farmácias, médicos, seguradoras, gestores, hospitais, vendedores de equipamentos. Muita dessa gente está organizada em lóbis, que aproveitam o temor social para uma única coisa: negócio. As suas receitas são os nossos impostos.

A saúde é um negócio para muita gente. Inclusive, não se engane, para alguns médicos. Foi-o também na gestão dos hospitais, até Correia de Campos acabar com isso, quando não renovou o contrato do Amadora-Sintra com o Grupo Mello. Veja-se as contas dos grupos privados (e da Caixa) nos hospitais: um desastre. Olhe-se para o hospital de Cascais: pode ter de ser entregue pela Caixa ao Estado, não se paga. Com a abertura do Hospital de Loures, a Maternidade Alfredo da Costa e o Hospital de Santa Maria ficam com excesso de capacidade.

Cada poupança na Saúde é uma redução do serviço. Mas quase cada euro lá investido é também um negócio para alguém. E tem havido negócio a mais na Saúde. Paulo Macedo é mais um ministro das Finanças da Saúde que um ministro da Saúde — e está a acabar com as margens excessivas nesses negócios. Mas está também a reduzir capacidade hospitalar, a cortar comparticipações, a aumentar listas de espera. Porquê? Porque não há dinheiro. Só se aumentarem os impostos.

A Saúde precisa de cortar custos e aumentar receitas. Quem tem mais dinheiro já paga mais impostos e vai ter de pagar mais na Saúde. Aliás, já paga: nos privados, recorrendo aos seguros de saúde. O "Saúde gratuita para todos" é a frase que os interesses instalados mais gostam de dizer — e de ouvir dizer. E há milhões de pessoas a dizê-la sem perceber quanto isso lhes custa a si e quanto lucro há nisso para outros."