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quinta-feira, 9 de abril de 2015

Os eternos bolseiros pós-doutoramento


O problema dos bolseiros pós-doutoramento que se eternizam nessa situação é abordado neste artigo de opinião:


"Os descamisados doutorados

João Miguel Tavares 09/04/2015 - 06:38

Reparem como sou moderado: por um lado, não gosto nada do que o CES faz; por outro, compreendo que o queira fazer.

Nem por acaso: enquanto eu andava entretido a debater a qualidade “científica” do Observatório sobre Crises e Alternativas e as peculiaridades ideológicas do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, o presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia, Miguel Seabra, apresentava a sua demissão, após um desgraçadíssimo mandato.

Ora, a FCT e a ciência social ao estilo CES — que a sua própria direcção classifica como (juro) “ciência social crítica” ou “ciência cidadã” — estão ligadas por um cordão umbilical que diz muito acerca das debilidades estruturais deste país e do perigo da aposta acrítica na “qualificação”, o cavalo favorito de António Costa e dos governos socialistas.

Dir-me-ão: mas então não é tão bonito investir na educação, na formação, na qualificação, e em outras palavras acabadas em “ão” que enchem a boca e o coração? É, é. Só que, quando juntamos 1) a política de doutoramentos e pós-doutoramentos criada por Mariano Gago e patrocinada pela FCT; 2) as limitações e a falta de competitividade da economia portuguesa; e 3) a chegada em força da austeridade e o aumento dramático do desemprego jovem; o resultado deste cocktail mortífero só pode naturalmente ser um: a criação de um exército de descamisados doutorados, completamente dependentes da boa-venturança do senhor professor que dá uma ajudinha para conseguir a bolsa do pós-doc, e que chegam aos 35 e aos 40 anos numa situação lastimável, sem forma de ingressar nos quadros das universidades (que estão fechados e cheios de gente menos competente do que eles), sem uma vida profissional estável e com excesso de qualificações para os empregos disponíveis.

Os números não mentem (enfim: às vezes mentem, se torturados por cientistas cidadãos). Em 1997, ano em que a FCT foi criada, doutoraram-se 579 portugueses. Em 2013 (dados Pordata), doutoraram-se 2668. Os doutorados quintuplicaram numa década e meia. Quando se olha para o gráfico dos doutoramentos anuais desde 1970, a evolução a partir do final dos anos 90 é uma subida de montanha de primeira categoria. Ou seja, enquanto em termos económicos o país afocinhava, naquela que já é conhecida como a “década perdida”, as qualificações dos portugueses não paravam de subir. Seria fantástico, em termos de competitividade, se — e este é um grande “se” — o sector privado conseguisse absorver um quinhão significativo dos doutorados. Infelizmente, não consegue.

Um estudo de 2009 sobre a situação profissional dos doutorados em Portugal indicava a existência de 17.010 a trabalhar em investigação e desenvolvimento. Mas sabem quantos é que o faziam fora das universidades, em empresas privadas? 196. Ou seja, pouco mais de 1% do total. É esta a força da investigação e do desenvolvimento em Portugal. E se olharmos para o domínio específico das ciências sociais, não é difícil adivinhar o seu credo da última década: “fora da universidade (ou do laboratório associado) não há salvação”.

Reparem como sou moderado: por um lado, não gosto nada do que o CES faz; por outro, compreendo que o queira fazer. Boaventura Sousa Santos, José Manuel Pureza e Carvalho da Silva têm um batalhão de doutorados descamisados, frustrados e politizados às suas ordens, que lhes foram oferecidos por Mariano Gago, uma economia débil e um país intervencionado. Há que entendê-los: a tentação de criar as condições para que um dia possa nascer um Pablo Iglesias do Mondego é demasiado grande. E é para isso que eles trabalham. “Cientificamente”."





*


O artigo deu origem a um debate que vale a pena ler. Registámos alguns comentários que ajudam a perceber melhor o problema:

Miguel S.
Trondheim 09/04/2015 10:14
O problema não é haver mais pessoas com mais formação. O problema é que o sector económico não tem visão, gestão ou sequer capacidade para perceber a mais-valia que esta nova geração de pessoas pode representar. Há outros locais onde se percebe, por exemplo, nos últimos 2 anos contratámos aí 8 pessoas nas circunstâncias descritas no texto. Enquanto Portugal continuar com "sucateiros e chico-espertos" à frente das empresas, num mundo (de mercado aberto) cada vez mais profissional, não vai lá.
  • tripeiro
    Alguém informe a Princesa44 sobre os horários de visita em Évora 09/04/2015 10:37
    Tem razão no que diz sobre a visão do sector empresarial português, mas também não podemos desprezar o facto de que uma grande fornada dos doutorados em Portugal é das áreas sociais e para estes nem com muito boa vontade haverá lugar no sector económico/empresarial.
  • Miguel S.
    Trondheim 09/04/2015 11:03
    Talvez.... Julgo que, tal como eu, o tripeiro tem formação base nas "ciências exactas" e talvez por isso tenhamos mais dificuldade em perceber como poderiam ser aproveitados. Pelo que tenho visto aqui, há pelo menos dois sectores onde se acrescenta mais-valias (estou a falar de dinheiro) significativas através das ciências sociais: marketing/publicidade e recursos humanos. Talvez valha a pena ver mais sobre isto, em particular o segundo tema, quando a produtividade per capita (ainda que deflacionada) é o que é.
  • Luis Marques
    Javali profissional, Manchester 09/04/2015 11:09
    Caro Miguel, respeitando a privacidade das pessoas, pode indicar-me qual a área de formação das pessoas contratadas?
  • Miguel S.
    Trondheim 09/04/2015 12:02
    Claro, caro Luís. Engenharias de formação base (excepto civil), com formação complementar em química e áreas afins, energia e áreas afins e modelação. Por exemplo, as duas últimas contratações aí foram uma engenheira química doutorada em química ambiental (com o estudo centrado em partículas ultra-finas) e um engenheiro mecânico doutorado em mecânica de fluídos (modelação de sistemas de fluxo multi-fásico).
  • tripeiro
    Alguém informe a Princesa44 sobre os horários de visita em Évora 09/04/2015 12:04
    Miguel, eu não tenho dificuldade nenhuma em compreender a importância do marketing/publicidade e recursos humanos e em aceitar convictamente que há lugar para estas áreas no mundo real. O problema mesmo são aquelas áreas que produzem estudos que determinam taxas de desemprego incluindo os cidadãos emigrados e outras congéneres... é suposto vender-se o quê e a quem? E em Portugal abundam...
  • Troglodita Marreta
    09/04/2015 12:05
    Se essas pessoas que formamos não servem para criar empresas e ninguém os quer, são inúteis, porque uma pessoa que não tem utilidade é, por definição, um inútil. Os nossos empresários são sucateiros, chico-espertos e semianalfabetos, isso apenas acontece porque os úteis e qualificados não se querem dar ao trabalho de serem empresários. Como quem cria a riqueza numa economia capitalista são os empresários, parece que temos aqui um problema difícil de resolver.
    Penso que o que chama o sector económico, que eu pensava que era as acções colectivas da população, afinal são uns aliens que determinam quem tem trabalho ou não. Aterram no país vindos de Saturno sem propósito nem nenhum tipo de racionalidade. Os empresários aparentemente são uns seres híbridos que os aliens criaram, um licenciado nunca se pode tornar num empresário porque são espécies diferentes incompatíveis. A questão é que embora um licenciado em física jurássica aplicada à nutrição possa ser útil, um licenciado nessa área, talvez tenha de se tornar um empresário visto não existir ninguém no mercado com a visão necessária para contratar um especialista destes, parece ser uma oportunidade no mercado que deve ser aproveitada. Agora esperar que seja o Estado a empregá-lo, porque sim?
  • Luis Marques
    Javali profissional, Manchester 09/04/2015 12:34
    Eu acho que as pessoas das gerações que tiveram a felicidade de poder ir para o ensino superior (que hoje em dia são bastante mais que há alguns anos atrás) incluindo a minha geração (malta nascida entre 82 e 88) caiu no erro de achar que qualquer curso lhes daria um emprego e um bom futuro. Vejo os meus colegas engenheiros com emprego em Portugal (e quando emigram é para ganhar bastante bem), os economistas com emprego em Portugal (baixa aceitação na Europa mas com bastante facilidade em trabalhar em Angola/Brasil em empresas portuguesas) e malta que tirou história, psicologia, etc, a ter empregos de baixa classificação (call centers e derivados) ou a ir para o estrangeiro para empregos como profissional de restauração ou hotelaria. É uma geração desperdiçada mas com algumas culpas próprias.
  • Miguel S.
    Trondheim 09/04/2015 12:39
    Sector económico foi, de facto, uma expressão infeliz. Leia-se em seu lugar "sector empresarial". E o seu comentário espelha claramente o problema transversal à sociedade: desde a incapacidade dos que obtêm uma formação em percepcioná-la como uma ferramenta para e não uma carreira em si, até e principalmente aos empresários, que não são capazes de interligar temas e conhecimentos para acrescentar a mais valia ao seu negócio que as competências adquiridas por um licenciado em "física jurássica" podem trazer.

Leitor incrédulo, Algures neste país desgovernado
09/04/2015 11:18
"(...) sem forma de ingressar nos quadros das universidades (que estão fechados e cheios de gente menos competente do que eles) (...)."
O problema é exactamente esse: durante muitos anos entraram pessoas sem qualidade para os quadros das universidades, que não podem ser despedidas porque ganharam o direito constitucional a terem o seu tacho até ao fim das suas vidas. Enquanto outros doutorados, mais jovens e mais dinâmicos, por causa do direito constitucional de outros, não têm lugar nos mesmos quadros. Enquanto não houver coragem para acabar com o direito constitucional à posição permanente, não há solução. E não me venham dizer que temos doutorados a mais... o que há é coragem política a menos.
  • João Miguel Tavares
    09/04/2015 11:33
    Bingo!

Marco Oliveira
09/04/2015 13:13
Parabéns mais uma vez ao JMT. Ainda bem que há quem não se curve ao "sistema", que não se limite a expor ideias conformistas do "politicamente correto", e pelo menos tenha o condão de colocar em debate e em discussão tantos assuntos de interesse público. Pode-se não concordar com todas as análises e pontos de vista do JMT, mas pelo menos reconheçam-lhe esse mérito. Obrigado JMT. Bem haja por existir, por ter a coragem de exprimir as suas opiniões que tanto mexem com os que estão acomodados à situação do país. Haverá sempre vespas furiosas que o atacarão e tentarão denegrir, sem apresentarem ideias concretas alternativas, que é o que se deseja num debate de ideias. Continue sempre.
  • João
    Lisboa 09/04/2015 15:16
    Também gostei do artigo dele. Pelo menos não faz de avestruz. Há um grande lobby à volta dessa malta da investigação da treta e dos observatórios fictícios.

João
Lisboa 09/04/2015 14:59
A questão é que muitos dos doutoramentos não passam de uma fantochada. Doutorados de sociologia, psicologia, ciências sociais. Não existem ciências sociais. Foi um nome inventado para dar um ar de credibilidade a essa treta pegada. São pessoas que se metem nisso para passar a vida a viver de fundos públicos encaixando-se naqueles observatórios da treta. Não gosto deste governo, mas se ele achar e bem que esse tipo de doutoramentos vindos do ISCTE, faculdades de psicologias e afins devem ser cortados sou o primeiro a apoiar.
  • Luis Marques
    Javali profissional, Manchester 09/04/2015 15:20
    Calma lá que o ISCTE também tem cursos de jeito :) mas de resto concordo consigo!
  • João
    Lisboa 09/04/2015 15:21
    Sim é verdade. Não me estava a referir à parte de economia e gestão. Foi um lapso.
  • tripeiro
    Alguém informe a Princesa44 sobre os horários de visita em Évora 09/04/2015 15:31
    Todas as áreas são importantes e têm o seu lugar na sociedade, a questão de fundo é que não precisam de ser "fabricados" especialistas aos magotes e o curioso é que às faculdades de letras e de direito e cursos de natureza social nunca sobram vagas.
  • Viriato Queiroga
    09/04/2015 15:31
    Caro, aconselho a que veja o que é a definição dessa coisa que é a "ciência", porque afirmar "Não existem ciências sociais. Foi um nome inventado para dar um ar de credibilidade a essa treta pegada." apenas revela falta de conhecimentos da sua parte sobre a fundamentação não só da ciência social, como da ciência. Já agora: sabe qual é a razão pela qual não existem ciências sociais (ou melhor, ciências sociais de investigação não controlada) em países ditatoriais? Porque estas são inconvenientes. O CES, na minha humilde opinião de analista estatístico, fez um over-stretch da pesquisa, mas ninguém pode negar que realizar estudos sobre a sociedade, o emprego, a política, as pessoas é algo necessário à sociedade.
  • João
    Lisboa 09/04/2015 15:38
    Veja o que significa ciência. O social e a ciência são coisas distintas. Falta de conhecimento é querer relacionar coisas distintas. Em democracias como a nossa são criados centros de estudos dessas "ciências", como incubadoras de jotas dos partidos. Veja a quantidade de centros de estudo desses existem espalhados por Lisboa. E veja se quem lá está encaixado não são malta ligados aos partidos.
  • Viriato Queiroga
    09/04/2015 15:46
    Bem, atendendo a que eu ensino o que é a ciência, só posso concluir que o senhor não sabe concretamente do que está a falar. Quanto aos centros de investigação, sim... Eu faço parte de um centro de investigação. Sou doutorando e professor. No ISCTE. Onde existem as mais diversas pessoas de todos os quadrantes ideológicos e muito para lá desses quadrantes: pessoas que estão completamente fora da politização. Só no meu centro somos mais de 400 pessoas. Das três uma: ou o senhor tem algum preconceito, ou está muito mal informado, ou deixou-se influenciar pelos media, ao ponto de ter construído o seu pensamento a partir da falta de informação. Se quer ver por si, tem o site. Pode ver quais são aqueles que tem filiação ou não.
  • tripeiro
    Alguém informe a Princesa44 sobre os horários de visita em Évora 09/04/2015 15:51
    Caro Viriato, inadvertidamente aprovei o seu comentário e o mais provável é que o mesmo venha a ser denunciado e eliminado, pelo que não se surpreenda se tal acontecer. Pelos critérios de publicação do jornal não é permitida a "postagem" de links, pelo que evite fazê-lo no futuro e, já agora, sugiro que leia os critérios de publicação seguindo o link por baixo do botão "Submeter".
  • João
    Lisboa 09/04/2015 15:55
    Não estudei no ISCTE, no entanto conheço suficientemente bem como é que aquilo funciona e os lobbies que por lá estão instalados. Não sou doutorando porque não quero. Tinha média para prosseguir os estudos, mas não quis. Sou mestre e no meu trabalho é suficiente. Para o corrigir, creio que no máximo o Viriato é assistente e não professor (não existem professores nas universidades sem serem doutorados). Conheço as pessoas que andam por lá nesses centros de estudo e como eles funcionam.
  • Viriato Queiroga
    09/04/2015 16:08
    Caro "tripeiro", peço desculpa, mas agradeço a informação :) não volta a suceder.
    Caro João: sim, sou assistente... Com funções de docência... Mas por acaso também não está correto: existem professores que são apenas Mestres. Já não sucede com as novas gerações, mas existem alguns, mais antigos, que nunca foram doutorados. O que considera "suficientemente bem"? É que, longe de os Centros e Observatórios serem mares de rosas, dizer que funcionam com mandatários ideológicos é, não só desvalorizar o que se produz, como reduzir o conhecimento à própria forma política. E por muito que existam pessoas que sejam influenciadas pelas suas ideologias (isto acontece em todas as áreas... Até na sua), a maioria não é assim. Desculpe-me, mas essa não é a minha realidade.


quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Um Cidadão tenta evitar que estudantes atirem carrinhos de compras ao Mondego


No próximo domingo, quando terminar o cortejo da Festa das Latas, de recepção aos caloiros da Universidade de Coimbra, saber-se-á se o rio Mondego estará mais uma vez cheio de carrinhos de compras deitados para a água pelos estudantes universitários.





Roubar carrinhos dos hipermercados nos dias que antecedem a Latada, para transportar bebidas, trajes ou os próprios caloiros no cortejo, tornou-se há vários anos uma prática aceite na sociedade coimbrã. No final, muitos carrinhos são atirados ao Mondego.

Em Novembro do ano passado, Fernando Jorge Paiva, praticante semiprofissional de windsurf reparou, num dia em que as águas do Mondego estavam particularmente claras, que dezenas de carrinhos de compras submersos juncavam o leito do rio.

Resolveu agir. Juntou alguns amigos e, depois de três dias de trabalho, o grupo conseguiu retirar 64 carrinhos da água e 150 das margens. Estes 214 carrinhos equivaliam a mais de três toneladas de plástico e metal.




Este ano, Fernando Paiva enveredou pela via da prevenção. Convocou a associação de estudantes, os hipermercados e a câmara municipal de Coimbra para discutir soluções.
Os primeiros resultados foram promissores: depois da Queima das Fitas, em Maio, apenas três carrinhos de supermercado foram resgatados do rio.

Mas é no cortejo da Latada que a moda de atirar carrinhos ao rio está enraizada. E este ano os alunos já terão furtado cerca de 400 nos supermercados.
No final de Setembro, Fernando Paiva promoveu uma “reunião de cidadania” com todos os envolvidos e a solução encontrada foi a criação, pela câmara municipal de Coimbra, de seis parques onde os carrinhos poderão ser deixados no final do cortejo. Entretanto está em curso uma campanha de sensibilização intitulada “Não lixes o Mondego”, sendo distribuídos folhetos a chamar a atenção dos estudantes para os parques. O centro comercial Dolce Vita, onde há um hipermercado Jumbo, aceitou ajudar na concepção e impressão dos folhetos.

Fernando Paiva está optimista: “Vamos ver se isto resulta. Aquilo é uma moda, não é uma tradição académica. Não queremos criar guerras, mas apenas fazer entender que isto não tem cabimento nenhum. Andamos com naves espaciais a procurar água noutros planetas, e quando olhamos para a nossa atiramos para lá com lixo.

O presidente da Associação Académica de Coimbra, Bruno Matias, concorda que a tradição está nos caloiros vestirem trajes com mensagens satíricas em relação à sociedade ou à própria universidade. Roubar carrinhos não fazia parte da festa. Acrescenta, porém: “É complicado conseguir que isto não aconteça de uma hora para outra.


Fernando Paiva e os amigos retiraram 214 carrinhos de supermercados do leito e das margens do rio Mondego


*

Os comentários do fórum do Público abordam as várias facetas do problema, com uma excepção: os enormes lucros obtidos pelas cervejeiras com a venda das bebidas consumidas na Latada que explicam a passividade de autarcas e supermercados coimbrãos:

Miguel S.
Trondheim 15/10/2014 11:02
Não pretendo de forma alguma desculpabilizar a imbecilidade inerente a estas acções, mas será que toda a gente, em particular em grupo, já não fez algo extremamente estúpido e sem medir devidamente o impacto dos seus actos? São apenas miúdos a tentarem divertir-se... De uma forma imbecil, mas é só isso.
  • Gota
    A Gota que é Gutta... 15/10/2014 11:14
    Desculpe-me Miguel, aceito comportamentos imbecis num grupinho de adolescentes que saiu uma noite e se embebedou. Ficou a história para depois contarem aos netos.
    Agora 214 carrinhos no rio e nas margens e 400 carrinhos já furtados? Diversão? É imbecilidade e estupidez massiva. É falta de educação. É falta de consciência ecológica. É falta de civismo. É crime.
    Por roubar para comer já foi um sem-abrigo condenado. Mas estes energúmenos com cérebros de ervilha podem fazer tudo o que quiserem que nada lhes acontece.
  • aramospereira
    15/10/2014 11:20
    Não! Não é isso! Começa por desconhecimento do conteúdo da palavra "civismo" e continua pela sugestão de "Miguéis S.s" de que ser estudante implica ser atrasado mental. Quem menoriza este tipo de acções com o simplismo de "não é mal, são apenas estudantes e miúdos" ofende gravemente os estudantes e está-se nas tintas para os miúdos!
  • Joaquim Moreira
    15/10/2014 11:49
    É verdade que muitos de nós já fizemos coisas de que hoje até teremos vergonha. No entanto, como pessoas inteligentes, reflectimos e procuramos não reincidir. Esta notícia relata um facto que se repete e que nenhum Dux ou alguém do género procura evitar.
    Não acho que seja diversão roubar seja o que for e, ainda por cima, atirar o objecto ao rio, com as implicações que isso acarreta (não só poluição, mas também eventuais danos pessoais a quem frequente a zona). Com a chancela de tradição, faz-se muito mal. A praxe até pode existir, mas que seja feita com inteligência e respeito pelos outros e pelos bens dos outros. Mais: seria desejável que a sociedade fosse muito mais exigente: enquanto há aulas, há muitos que estão a brincar. Alguém está a pagar para os meninos estarem a brincar!
  • Miguel S.
    Trondheim 15/10/2014 11:57
    Cara Gutta, é a minha opinião. E repare que nunca disse que deve ser desculpabilizada. Devia ter consequências, mas friso que não consigo inferir nada de particularmente significativo sobre o carácter, moral ou formação dos autores a partir destes actos.
    Caro aramospereira, lamento não ser perfeito como o caro e lamento ter ofendido os estudantes. E sim, apanhou-me! Estou-me nas tintas para os miúdos. Posso aprender a ser como o caríssimo ou já é algo que nasceu consigo?
  • Miguel S.
    Trondheim 15/10/2014 12:07
    Caro Joaquim, concordo integralmente consigo. E talvez isso fosse conseguido se houvesse consequências para estes actos e daí não querer desculpabilizá-los. Simplesmente enquadrar o valor simbólico que julgo merecerem.
  • aramospereira
    15/10/2014 12:07
    Meu Caro, é óbvio (pf NÃO tire o "b") que não nasceu comigo — foi-me inculcado pelos meus Pais! E assim sendo, francamente... não sei se irá a tempo! Eu já não ia, de certeza.
  • Miguel S.
    Trondheim 15/10/2014 12:17
    É pena. Suponho que perdi uma excelente oportunidade....
  • Gota
    A Gota que é Gutta... 15/10/2014 12:26
    Eu sei que é a sua opinião, caro Miguel. E também lhe disse que tolero casos esporádicos de "trenguice" adolescente. Eu, por exemplo, quando era adolescente, roubei um sinal de trânsito! E só o devolvi (coloquei-o sorrateiramente numa rua qualquer) quase dois anos mais tarde, justamente quando me apercebi do mal que tinha feito. Mas a coisa ficou por aí. Não houve recorrência.
    Mas este caso, Miguel, não é um caso isolado. São comportamentos a que a juventude tem tendência a aderir por imitação. E já vimos que quando as imbecilidades são levadas ao exagero, o resultado pode ser nefastamente irreversível.
  • Gonçalo
    15/10/2014 12:42
    Miguel, o problema é que não querendo desculpabilizar, acaba por fazê-lo. Se cedermos à crescente estupidez e barbárie dos "divertimentos dos miúdos" (até que idade serão miúdos?), com esse olhar condescendente, quando e onde se traça uma linha? A julgar pelo caso do Meco, nem quando morre gente! E são estes os comportamentos que queremos ver nos "doutores", supostas futuras cabeças pensantes do País?
    A própria Universidade tem a obrigação de intervir, e decidir se é gente desta que reflecte os seus valores. Brincadeira é uma coisa, mas vandalismo, roubo e poluição já entram noutro campeonato...
  • Miguel S.
    Trondheim 15/10/2014 13:02
    Sim Gutta, as pessoas são mamíferos gregários sociais que tendem a imitar comportamentos. É a natureza. O foco é que não vejo nada de particularmente significativo nisto.
    Se me dissessem que é inadmissível a impunidade e falta de consequências com que tal se repete, aí a conversa é outra. Há laxismo de diversas entidades responsáveis e até seria bom que actuassem para que os miúdos percebessem que, no mundo real, as acções ou omissões têm consequências.
  • Miguel S.
    Trondheim 15/10/2014 13:06
    Caro Gonçalo, não estou a desculpabilizar. Apenas a dizer que isto não é particularmente indicador de nada acerca dos seus autores. Se houvesse alguma consequência para eles, as coisas mudavam. O exemplo que refere do Meco é um extremo deste paradigma. Até ver, foi uma brincadeira que correu mal, ninguém os obrigou a ir de madrugada para a praia numa noite de tempestade no inverno. Pareceu-lhes boa ideia. Não foi. Quer apostar que este ano isso não se repete?
  • Gota
    A Gota que é Gutta... 15/10/2014 13:08
    Sim, Miguel, concordo absolutamente com o que diz, mas, não competirá aos pais uma melhor educação para que casos como estes sejam simplesmente uma excepção, excepção essa que deverão então as autoridades tentar debelar?
  • Miguel S.
    Trondheim 15/10/2014 13:20
    Sem dúvida que passa por mais formação cívica e social em casa, mas tenho dificuldade em acreditar que tal seja suficiente, será uma melhoria... Estou cada vez mais convencido que um amigo meu sociólogo que afirma "uma pessoa é inteligente, mas uma multidão é estúpida" tem razão.
  • tripeiro
    15/10/2014 13:48
    Bem, Miguel, há coisas estúpidas e coisas estúpidas e este caso parece-me exceder largamente a razoabilidade da estupidez.
    E excedeu largamente a razoabilidade da estupidez por ser uma prática, pelos vistos, rotineira e não algo que aconteceu uma vez isoladamente.

Miguel Soares
15/10/2014 13:48
Penso que roubar carrinhos de supermercado e atirá-los ao rio é contra a lei. Ainda por cima às centenas. Ainda por cima repetidamente ao longo de anos. Ainda por cima sempre com a complacência das mesmas “associações”.
No entanto, a resposta é uma campanha de sensibilização. Ainda por cima da total (e louvável) iniciativa e organização de um Cidadão. As autoridades não têm nada a ver com o assunto, como é evidente. Repetidamente, alunos universitários são tratados como inimputáveis. Se essa é a realidade, temos, pelo menos, que aumentar a idade da maioridade.


sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Universidade de Lisboa entre as 300 melhores do mundo no ranking de Xangai


A Universidade de Lisboa ascendeu ao intervalo das 300 melhores universidades do mundo no Academic Ranking of World Universities 2014, categoria alcançada pela primeira vez por uma universidade portuguesa.

A Universidade do Porto mantém-se no grupo das 301-400 melhores e a Universidade de Coimbra permanece no grupo das 401-500 para onde entrou no ano passado.

Este ranking só discrimina as posições individuais das instituições até ao lugar 100. A partir daí coloca-as por intervalos, 101-150, 151-200, 201-300, 301-400 e 401-500, inscrevendo-as por ordem alfabética dentro de cada intervalo. No entanto, olhando para o gráfico seguinte conclui-se que a Universidade de Lisboa está no topo do seu grupo:









O topo da tabela continua a pertencer às mesmas dez universidades do ano passado, oito instituições dos Estados Unidos da América e duas do Reino Unido: Harvard University, Stanford University, Massachusetts Institute of Technology (MIT), University of California - Berkeley (UCB), University of Cambridge, Princeton University, California Institute of Technology (Caltech), Columbia University, University of Chicago e University of Oxford.


O Academic Ranking of World Universities (ARWU) é vulgarmente conhecido como o ranking de Xangai porque é coligido pela Shanghai Jiao Tong University, China, desde 2003.

O ranking global compara 1200 instituições de ensino superior, em todo o mundo, e escolhe as 500 melhores de acordo com a seguinte metodologia: uma fórmula onde entra o número de ex-alunos vencedores de prémios Nobel e medalhas Fields (10%), professores vencedores de prémios Nobel e medalhas Fields (20%), investigadores classificados entre os mais citados em 21 categorias de assuntos (20%), artigos publicados na Nature e na Science (20%), artigos indexados no Science Citation Index-expanded e Social Sciences Citation Index (20%) e o desempenho académico per capita (nos anteriores indicadores) de cada instituição (10%).
Devido a esta metodologia, é considerado o mais rigoroso e prestigiado ranking universitário internacional.

Entre as 500 melhores universidades, 205 europeias, 177 americanas, 113 situadas na Ásia ou Oceânia e apenas 5 africanas.

Além do ranking global, são divulgadas listas das 200 melhores universidades em determinadas áreas do conhecimento, discriminando as 50 do topo.
Na área Engenharia/Tecnologia e Ciências da Computação, a Universidade de Lisboa surge no grupo 76-100, seguindo-se a Universidade do Porto e a de Aveiro, ambas no grupo 151-200.

São também divulgadas listas das 200 melhores universidades em determinadas disciplinas, discriminando as 50 do topo.
Em Matemática, a Universidade de Lisboa aparece entre os 76.º e 100.º lugares e, em Ciências da Computação, entre os 151.º e 200.º lugares.
Em Física, a Universidade do Minho situa-se entre os 151.º e 200.º lugares.


Eis o resumo do Público do ranking de Xangai 2014:



domingo, 4 de maio de 2014

In Memoriam Veiga Simão



José Veiga Simão
(1929-2014)

Nasceu na aldeia de Prados, concelho de Celorico da Beira, distrito da Guarda, em 13 de Fevereiro de 1929. Ainda frequentou o Liceu Afonso de Albuquerque, na Guarda, mas fez o ensino secundário em Coimbra, para cuja universidade o irmão mais velho tinha ido estudar.

Licenciou-se em Ciências Físico-Químicas na Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, em 1951, e doutorou-se em Física Nuclear na Universidade de Cambridge, em 1957, tendo regressado a Coimbra para seguir a carreira de professor universitário.

O seu doutoramento numa prestigiada universidade inglesa granjeou-lhe convites para cargos políticos.
Em 1963, António de Oliveira Salazar nomeou-o reitor da primeira universidade de Moçambique, em Lourenço Marques, actual Maputo.
Em Janeiro de 1970, foi Marcello Caetano que o convidou para suceder a José Hermano Saraiva como ministro da Educação Nacional. Aceitou com a ideia de transformar o ensino e o País: “Eu assumia que a única possibilidade, a única nesga de oportunidade que Portugal tinha para caminhar um pouco mais depressa para uma democracia inevitável e desejável era através da educação”, revelou numa entrevista em 2001.

Procurou provocar uma profunda transformação no ensino não superior com a publicação, em 1973, da primeira Lei de Bases do Sistema Educativo que previa a unificação do ensino liceal e do ensino técnico e alargava a escolaridade obrigatória para oito anos, regulamentada como gratuita. O alargamento da escolaridade obrigatória acabou por ficar suspenso devido às alterações do pós-25 de Abril, apenas prosseguiu a via única de ensino que se revelou uma utopia.

Foi no ensino superior que conseguiu realizar uma reforma efectiva, que ficou conhecida como reforma Veiga Simão. Resumidamente, o contexto era o seguinte:

  • O plano de estudos do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (actual ISEG) fora aprovado pelo Decreto 37.584, de Outubro de 1949, pelo ministro Fernando Pires de Lima que ficou tristemente célebre pela demissão compulsiva por delito de opinião de 26 professores universitários.
  • Fora feita a reforma das licenciaturas nas Faculdades de Letras pelo ministro Francisco de Paula Leite Pinto (1955-1961) através do Decreto 41.341, de Outubro de 1957.
  • No âmbito de uma profunda reforma do ensino superior concretizada através do Decreto 45.840, de Julho de 1964, o ministro Inocêncio Galvão Teles (1962-68) fez a reforma das Faculdades de Ciências, tendo aumentado para cinco anos a escolaridade das suas licenciaturas, procedido à divisão da licenciatura em Matemática em duas e à separação da Física e da Química na licenciatura em Ciências Físico-Químicas.
    Pelo Decreto 48.627, de Outubro de 1968, o bacharelato passou a existir nas Faculdades de Letras e a constituir habilitação académica suficiente para admissão ao estágio para professor do ensino liceal.

Era preciso reestruturar os cursos de ciências económicas e sociais e definir dois ciclos de estudos também nas Faculdades de Ciências.

Veiga Simão começou por introduzir alterações no plano de estudos do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras pelo Decreto 512/70.
A reforma profunda chegou pelo Decreto 520/72, de 15 de Dezembro, que definiu a estrutura dos cursos professados no então Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (actual ISEG) — bacharelatos e licenciaturas em Economia e em Organização e Gestão de Empresas —, no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, criado em Dezembro de 1972, — bacharelatos e licenciaturas em Ciências do Trabalho e em Organização e Gestão de Empresas —, e no então Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina (actual ISCSP) — bacharelatos em Ciências do Trabalho e em Economia e licenciatura em Ciências Sociais — que passavam a ser ministrados em semestres lectivos.

A revisão da orgânica dos bacharelatos e licenciaturas nas Faculdades de Ciências pelo Decreto 443/71, de 23 de Outubro, permitiu-lhes conferir os graus de bacharel e de licenciado e estabeleceu o regime semestral de frequência e exames para melhorar o rendimento do ensino e o nível de exigência. Mas a característica desta reforma que mais influenciou o futuro do País foi o desdobramento das licenciaturas em Matemática, em Física, em Química, em Geologia e em Biologia em dois ramos:
  • Especialização científica;
  • Formação educacional.
Os planos de estudos para o 4.º e 5.º anos do ramo de especialização científica eram elaborados pelo corpo docente das Faculdades e continham disciplinas com exames, tal qual os três primeiros anos do curso.

O decreto estipulava um plano de estudos para o 4.º e 5.º anos do ramo de formação educacional explicitando até os nomes das oito disciplinas do 4.º ano, todas na área das ciências pedagógicas, e exigindo a elaboração de uma monografia científica a concluir no 5º ano que era ocupado por um estágio pedagógico numa escola do ensino não superior.
Na verdade, o que se passou na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa entre 1971 e 1974, e nas outras não terá sido diferente e poderá ser confirmado pelos professores universitários ainda vivos, foi o direccionamento dos alunos do bacharelato com médias fracas, entre 10 e 12 valores, para o ramo educacional com a concomitante entrega da total responsabilidade da leccionação do 4º ano a licenciados oriundos das Faculdades de Letras.
Estes facilitaram a avaliação dos alunos, substituindo os exames por trabalhos que se limitavam a pouco mais que uma colecção de fotocópias legendadas à mão, aos quais foram atribuídas notas elevadas. E a monografia transformou-se num relatório das vivências do estagiário durante a sua experiência de ensino no 5º ano.

A carência de professores era de tal ordem que, já no início da década de 1980, e mesmo em escolas situadas a poucas dezenas de quilómetros das cidades, ainda eram aceites, como professores de Matemática e de Física, os alunos que acabavam de concluir o ensino secundário. O actual primeiro-ministro leccionou Matemática nestas condições numa escola do ensino secundário em Vila Pouca de Aguiar, no ano lectivo 1982-83. Por isso as Universidades de Lisboa, Porto e Coimbra aceitaram dar licenciaturas que mais não tinham que três anos de estudo, mas tal atitude veio a desencadear uma situação profundamente injusta¹.

A duplicação dos exames acarretada pela criação dos semestres reforçou a irritação provocada pela guerra colonial entre os alunos revolucionários provenientes da classe social média-alta. A pedido dos directores de algumas faculdades da Universidade de Lisboa, Veiga Simão anuiu na colocação de vigilantes — os “gorilas” —, uma medida necessária para permitir a realização das actividades lectivas e de avaliação, senão as greves decretadas pelas associações de estudantes nas mãos do MRPP não nos permitiam fazer testes, nem exames.

As condições de integração dos alunos que já frequentavam estes cursos nos novos planos de estudo foram estabelecidos, como é usual, pelas Faculdades.
Assim sucedeu na licenciatura em Física da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Se, no ano lectivo 1971-72, os alunos do 2º ano só tiveram, no máximo, que se adaptar a uma disciplina de continuação — a Mecânica Física II —, e os do 4º e 5º anos conseguiram passar pelos pingos da chuva, já o mesmo não sucedeu aos alunos do 3º ano. Sofremos um duro golpe na auto-estima ao sermos obrigados a fazer, no lugar das disciplinas de opção, as cadeiras de Mecânica Física II (1º semestre), Electromagnetismo II e Física Atómica e Molecular (2º semestre), todas do 2º ano. Com a agravante da Mecânica Quântica começar nas equações de Hamilton-Jacobi que era onde terminava a Mecânica Física II, ambas cadeiras do mesmo ano e semestre para nós...

O lado bom foi podermos usufruir de um rejuvenescimento da licenciatura que subiu para o nível de exigência das licenciaturas das melhores universidades de França, Inglaterra ou Estados Unidos. Numa vertente pouco lembrada da “primavera marcelista”, este renascimento deveu-se ao convite de Veiga Simão a professores que haviam feito doutoramento em França, ou até estavam a trabalhar no Instituto Henri Poincaré, em Paris, para regressarem a Portugal: recordamos Maria Helena Andrade e Silva (Mecânica Física II), Noémio Macias Marques (Electromagnetismo II) e João Luís Andrade e Silva (Mecânica Quântica).

Na sua evocação, David Justino, antigo ministro da Educação, fala de "um homem que fez da educação um desígnio pessoal".
E o actual ministro da Educação e Ciência, Nuno Crato, destacou o papel de Veiga Simão na “ampliação e diversificação da rede de estabelecimentos de ensino superior em Portugal”, que incluíram a criação das universidades do Minho, Aveiro, Nova de Lisboa e Évora, em 1973.

Afastado do Ministério da Educação Nacional pela revolução de 25 de Abril, Veiga Simão foi embaixador de Portugal nas Nações Unidas, entre 1974 e 1975, e posteriormente professor convidado da Universidade de Yale, nos Estados Unidos.
Em 1978 regressou a Portugal para presidir durante cinco anos ao recém-criado Laboratório Nacional de Engenharia e Tecnologia Industrial (LNETI) que incorporou a antiga Junta de Energia Nuclear.
Eleito deputado pelo distrito da Guarda na lista do partido socialista, em 1983, assumiu, de seguida, a pasta da indústria e Energia no governo do bloco central de Mário Soares e Mota Pinto (1983-85).
Retorna à vida académica, entre 1985 e 1992, como professor catedrático da Universidade da Beira Interior.
A partir de Novembro de 1997, voltou a exercer funções políticas como ministro da Defesa Nacional no primeiro governo de António Guterres, cargo de que pediu a demissão em Maio de 1999 após a polémica do envio de documentos sobre os serviços secretos portugueses que continha uma listagem dos elementos operacionais.

Na entrevista ao PÚBLICO de 2001, foi-lhe perguntado se era um homem de esquerda.
Veiga Simão respondeu que tinha “grandes preocupações com a igualdade de oportunidades, com a injustiça social, horror por ver quem utilize os seus patrimónios para dominar outros”. Se ser de “esquerda” era “independência de pensamento” e “capacidade individual”, então o epíteto ajustava-se: “Guio-me pela minha cabeça, nunca fui servo de ninguém. Aprendi a viver com o granito, não dobro.



Nota:
  1. Com as universidades fechadas pela revolução do 25 de Abril, o destino da quase totalidade dos alunos do ramo da especialização científica foi o ensino básico e secundário onde, em 1980, foram obrigados pelo ministro Vítor Crespo a fazer um estágio de dois anos para poderem entrar nos quadros das escolas onde já se encontravam os seus colegas do ramo educacional.
    A segunda hecatombe foram as passagens administrativas nos anos lectivos 1973-74 e 1974-75. Na década de 1980 começou a gestação da terceira hecatombe com a criação das universidades privadas que, para conseguirem vender licenciaturas, inflacionaram as classificações.
    Quarenta anos depois, as sequelas destas três vagas podem observar-se, quer nos fracos resultados de demasiados alunos nos exames nacionais dos ensinos básico e secundário, quer na obediência canina da maioria dos docentes às ordens emanadas do PCP através de um sindicalista grosseiro chamado Mário Nogueira.


quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Quatro universidades portuguesas entre as melhores do mundo


A Universidade de Lisboa ascendeu ao intervalo das 400 melhores universidades do mundo no Academic Ranking of World Universities 2013, condição alcançada pela Universidade do Porto desde 2011.

A Universidade de Coimbra consegue entrar pela primeira vez neste ranking, ficando entre as 401.ª e 500.ª posições e juntando-se à Universidade Técnica de Lisboa que já entrou para esse nível no ano passado.

Este ranking só discrimina as posições individuais das instituições até ao lugar 100. A partir daí coloca-as por intervalos, 101-150, 150-200, 200-300, 300-400 e 400-500, inscrevendo-as por ordem alfabética dentro de cada intervalo.

António Cruz Serra, recém-eleito reitor da Universidade de Lisboa, congratula-se com a melhoria do desempenho desta universidade e diz esperar que "o orçamento de Estado acompanhe esta melhoria".
Espera também que a Universidade de Lisboa, em resultado da sua fusão com a Técnica, irá subir mais de cem lugares em 2014 e "deverá ficar acima da melhor universidade espanhola".

O reitor da Universidade de Coimbra, João Gabriel Silva, lembra que a entrada de Coimbra na lista e a melhoria de Lisboa são ainda mais de realçar quando o país atravessa “tantas dificuldades”.
No entanto, alerta: “Os efeitos dos cortes orçamentais impostos às universidades ainda não se reflectem aqui.” Sendo dois dos indicadores deste ranking o número de artigos científicos publicados pelos investigadores das universidades e o número de citações que recebem, com a redução de financiamento que se tem imposto ao ensino superior, há o sério risco de se fazer menos investigação.
Em Coimbra, nos últimos três anos, o corte no financiamento público foi de cerca de 30%, diz o reitor, “e todas as instituições são tratadas por igual, independentemente dos resultados que têm. Se toda a administração pública tivesse sofrido cortes desta ordem já estávamos a pagar a dívida pública e não a aumentá-la”.
Na verdade, acrescenta o reitor, os cortes começaram em 2005, só que não eram tão “violentos” e nessa altura ainda era possível encontrar fontes de receita nos contratos com empresas. Hoje, muitas empresas estão mais preocupadas em sobreviver do que em financiar projectos.



ARWU 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013
Institutional Ranking ////403-510402-503402-501401-500301-400301-400301-400









O topo da tabela continua a pertencer aos Estados Unidos da América, com oito instituições nas dez primeiras posições, e ao Reino Unido: Harvard University, Stanford University, University of California Berkeley (UCB), Massachusetts Institute of Technology (MIT), University of Cambridge, California Institute of Technology, Princeton University, Columbia University, University of Chicago e University of Oxford.


O Academic Ranking of World Universities (ARWU), vulgarmente conhecido como o ranking de Xangai, é coligido pela Shanghai Jiao Tong University, China, desde 2003.

Este ranking compara 1200 instituições de ensino superior, em todo o mundo, e escolhe as 500 melhores de acordo com a seguinte metodologia: uma fórmula onde entra o número de ex-alunos vencedores de prémios Nobel e medalhas Fields (10%), professores vencedores de prémios Nobel e medalhas Fields (20%), investigadores classificados entre os mais citados em 21 categorias de assuntos (20%), artigos publicados nas revistas Nature e Science (20%), no Science Citation Index e Social Sciences Citation Index (20%) e o desempenho académico per capita (nos anteriores indicadores) de cada instituição (10%).

O ARWU é considerado um dos três mais influentes rankings universitários internacionais, em conjunto com o Times Higher Education World University Ranking (THE) e o QS World University Ranking.


sábado, 27 de julho de 2013

Esperança - II


Portugal conquistou 111 pontos, a melhor pontuação de sempre, nas 54ª Olimpíadas Internacionais de Matemática, que decorrem na Colômbia, tendo ficado em 36.º lugar na classificação por países, num total de 97 países participantes.

Todos os elementos da equipa portuguesa receberam distinções, animando a nossa esperança:
  • Miguel Moreira, aluno do 11.º ano na Escola Secundária Rainha D. Amélia, em Lisboa, conquistou uma medalha de ouro, tendo ficado na posição 30ª entre 528 participantes.
  • Miguel Santos, da secundária de Alcanena, 12.º ano, Francisco Andrade, da secundária do Padrão da Légua, 10.º ano, Luís Duarte, da secundária de Alcains, 12.º ano, e David Martins, da secundária de Mirandela, 11.º ano, conquistaram medalhas de bronze.
  • Nuno Santos, aluno do 10º ano do Colégio Nossa Senhora do Rosário, no Porto, recebeu uma menção honrosa.

Estes alunos e os seus professores de Matemática merecem parabéns pelo trabalho desenvolvido. As palavras finais de apreço vão para as famílias dos alunos pela sabedoria com que os educaram e que agora vêem a recompensa.



29 Jul, 2013, 21:03


Nos resultados por países temos a assinalar o primeiro lugar da China, seguida pela Coreia do Sul, Estados Unidos da América, Rússia e Coreia do Norte.

O gráfico seguinte mostra a evolução dos quatro países melhor classificados, desde o ano 2000, e também a de Portugal. Reconhecendo à China o mérito de manter, em geral, o primeiro lugar, é preciso realçar o extraordinário desempenho da Coreia do Sul, um pequeno país com área próxima da de Portugal e o quíntuplo da população que se bate com a China, a Rússia e os Estados Unidos tendo já alcançado um primeiro lugar.




Nos últimos anos as equipas portuguesas têm vindo a melhorar significativamente os resultados, graças ao trabalho que está a ser desenvolvido por alguns professores de Matemática com os seus alunos mais promissores e pela Sociedade Portuguesa de Matemática. A selecção e preparação dos alunos está a cargo do Projecto Delfos, do Departamento de Matemática da Universidade de Coimbra.

No entanto, Portugal ficou atrás de muitos países europeus — Reino Unido, Ucrânia, Itália, França, Bielorrússia, Hungria, Roménia, Países Baixos, Alemanha, Croácia, Sérvia e Eslováquia — alguns dos quais nunca dispuseram dos recursos financeiros que foram canalizados para a educação no nosso País sem produzirem resultados perceptíveis.
Não podemos fingir que tudo está bem com os resultados dos nossos alunos quando vemos equipas de países com um nível de vida muito inferior ao nosso, como sejam o Vietname, o Irão, a Tailândia, o México, a Turquia, a Indonésia e a Índia, a ultrapassarem a equipa portuguesa.

As consolas de jogos, os telemóveis, o Facebook não produzem resultados, servem apenas para desperdiçar tempo e recursos financeiros, há que ter consciência desse facto e alertar os pais dos nossos alunos.
Grande também é a responsabilidade dos directores das escolas que preferem criar grupos de compadrio que os apoiem na manutenção no cargo em vez de investirem nos resultados dos alunos das suas escolas.

Compare-se os salários mínimos dos países europeus mencionados para não haver dúvidas. Os professores, os pais e os alunos têm um longo caminho a percorrer até Portugal conseguir apresentar resultados compatíveis com o bem-estar que as famílias portuguesas ainda desfrutam.