quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Um Cidadão tenta evitar que estudantes atirem carrinhos de compras ao Mondego


No próximo domingo, quando terminar o cortejo da Festa das Latas, de recepção aos caloiros da Universidade de Coimbra, saber-se-á se o rio Mondego estará mais uma vez cheio de carrinhos de compras deitados para a água pelos estudantes universitários.





Roubar carrinhos dos hipermercados nos dias que antecedem a Latada, para transportar bebidas, trajes ou os próprios caloiros no cortejo, tornou-se há vários anos uma prática aceite na sociedade coimbrã. No final, muitos carrinhos são atirados ao Mondego.

Em Novembro do ano passado, Fernando Jorge Paiva, praticante semiprofissional de windsurf reparou, num dia em que as águas do Mondego estavam particularmente claras, que dezenas de carrinhos de compras submersos juncavam o leito do rio.

Resolveu agir. Juntou alguns amigos e, depois de três dias de trabalho, o grupo conseguiu retirar 64 carrinhos da água e 150 das margens. Estes 214 carrinhos equivaliam a mais de três toneladas de plástico e metal.




Este ano, Fernando Paiva enveredou pela via da prevenção. Convocou a associação de estudantes, os hipermercados e a câmara municipal de Coimbra para discutir soluções.
Os primeiros resultados foram promissores: depois da Queima das Fitas, em Maio, apenas três carrinhos de supermercado foram resgatados do rio.

Mas é no cortejo da Latada que a moda de atirar carrinhos ao rio está enraizada. E este ano os alunos já terão furtado cerca de 400 nos supermercados.
No final de Setembro, Fernando Paiva promoveu uma “reunião de cidadania” com todos os envolvidos e a solução encontrada foi a criação, pela câmara municipal de Coimbra, de seis parques onde os carrinhos poderão ser deixados no final do cortejo. Entretanto está em curso uma campanha de sensibilização intitulada “Não lixes o Mondego”, sendo distribuídos folhetos a chamar a atenção dos estudantes para os parques. O centro comercial Dolce Vita, onde há um hipermercado Jumbo, aceitou ajudar na concepção e impressão dos folhetos.

Fernando Paiva está optimista: “Vamos ver se isto resulta. Aquilo é uma moda, não é uma tradição académica. Não queremos criar guerras, mas apenas fazer entender que isto não tem cabimento nenhum. Andamos com naves espaciais a procurar água noutros planetas, e quando olhamos para a nossa atiramos para lá com lixo.

O presidente da Associação Académica de Coimbra, Bruno Matias, concorda que a tradição está nos caloiros vestirem trajes com mensagens satíricas em relação à sociedade ou à própria universidade. Roubar carrinhos não fazia parte da festa. Acrescenta, porém: “É complicado conseguir que isto não aconteça de uma hora para outra.


Fernando Paiva e os amigos retiraram 214 carrinhos de supermercados do leito e das margens do rio Mondego


*

Os comentários do fórum do Público abordam as várias facetas do problema, com uma excepção: os enormes lucros obtidos pelas cervejeiras com a venda das bebidas consumidas na Latada que explicam a passividade de autarcas e supermercados coimbrãos:

Miguel S.
Trondheim 15/10/2014 11:02
Não pretendo de forma alguma desculpabilizar a imbecilidade inerente a estas acções, mas será que toda a gente, em particular em grupo, já não fez algo extremamente estúpido e sem medir devidamente o impacto dos seus actos? São apenas miúdos a tentarem divertir-se... De uma forma imbecil, mas é só isso.
  • Gota
    A Gota que é Gutta... 15/10/2014 11:14
    Desculpe-me Miguel, aceito comportamentos imbecis num grupinho de adolescentes que saiu uma noite e se embebedou. Ficou a história para depois contarem aos netos.
    Agora 214 carrinhos no rio e nas margens e 400 carrinhos já furtados? Diversão? É imbecilidade e estupidez massiva. É falta de educação. É falta de consciência ecológica. É falta de civismo. É crime.
    Por roubar para comer já foi um sem-abrigo condenado. Mas estes energúmenos com cérebros de ervilha podem fazer tudo o que quiserem que nada lhes acontece.
  • aramospereira
    15/10/2014 11:20
    Não! Não é isso! Começa por desconhecimento do conteúdo da palavra "civismo" e continua pela sugestão de "Miguéis S.s" de que ser estudante implica ser atrasado mental. Quem menoriza este tipo de acções com o simplismo de "não é mal, são apenas estudantes e miúdos" ofende gravemente os estudantes e está-se nas tintas para os miúdos!
  • Joaquim Moreira
    15/10/2014 11:49
    É verdade que muitos de nós já fizemos coisas de que hoje até teremos vergonha. No entanto, como pessoas inteligentes, reflectimos e procuramos não reincidir. Esta notícia relata um facto que se repete e que nenhum Dux ou alguém do género procura evitar.
    Não acho que seja diversão roubar seja o que for e, ainda por cima, atirar o objecto ao rio, com as implicações que isso acarreta (não só poluição, mas também eventuais danos pessoais a quem frequente a zona). Com a chancela de tradição, faz-se muito mal. A praxe até pode existir, mas que seja feita com inteligência e respeito pelos outros e pelos bens dos outros. Mais: seria desejável que a sociedade fosse muito mais exigente: enquanto há aulas, há muitos que estão a brincar. Alguém está a pagar para os meninos estarem a brincar!
  • Miguel S.
    Trondheim 15/10/2014 11:57
    Cara Gutta, é a minha opinião. E repare que nunca disse que deve ser desculpabilizada. Devia ter consequências, mas friso que não consigo inferir nada de particularmente significativo sobre o carácter, moral ou formação dos autores a partir destes actos.
    Caro aramospereira, lamento não ser perfeito como o caro e lamento ter ofendido os estudantes. E sim, apanhou-me! Estou-me nas tintas para os miúdos. Posso aprender a ser como o caríssimo ou já é algo que nasceu consigo?
  • Miguel S.
    Trondheim 15/10/2014 12:07
    Caro Joaquim, concordo integralmente consigo. E talvez isso fosse conseguido se houvesse consequências para estes actos e daí não querer desculpabilizá-los. Simplesmente enquadrar o valor simbólico que julgo merecerem.
  • aramospereira
    15/10/2014 12:07
    Meu Caro, é óbvio (pf NÃO tire o "b") que não nasceu comigo — foi-me inculcado pelos meus Pais! E assim sendo, francamente... não sei se irá a tempo! Eu já não ia, de certeza.
  • Miguel S.
    Trondheim 15/10/2014 12:17
    É pena. Suponho que perdi uma excelente oportunidade....
  • Gota
    A Gota que é Gutta... 15/10/2014 12:26
    Eu sei que é a sua opinião, caro Miguel. E também lhe disse que tolero casos esporádicos de "trenguice" adolescente. Eu, por exemplo, quando era adolescente, roubei um sinal de trânsito! E só o devolvi (coloquei-o sorrateiramente numa rua qualquer) quase dois anos mais tarde, justamente quando me apercebi do mal que tinha feito. Mas a coisa ficou por aí. Não houve recorrência.
    Mas este caso, Miguel, não é um caso isolado. São comportamentos a que a juventude tem tendência a aderir por imitação. E já vimos que quando as imbecilidades são levadas ao exagero, o resultado pode ser nefastamente irreversível.
  • Gonçalo
    15/10/2014 12:42
    Miguel, o problema é que não querendo desculpabilizar, acaba por fazê-lo. Se cedermos à crescente estupidez e barbárie dos "divertimentos dos miúdos" (até que idade serão miúdos?), com esse olhar condescendente, quando e onde se traça uma linha? A julgar pelo caso do Meco, nem quando morre gente! E são estes os comportamentos que queremos ver nos "doutores", supostas futuras cabeças pensantes do País?
    A própria Universidade tem a obrigação de intervir, e decidir se é gente desta que reflecte os seus valores. Brincadeira é uma coisa, mas vandalismo, roubo e poluição já entram noutro campeonato...
  • Miguel S.
    Trondheim 15/10/2014 13:02
    Sim Gutta, as pessoas são mamíferos gregários sociais que tendem a imitar comportamentos. É a natureza. O foco é que não vejo nada de particularmente significativo nisto.
    Se me dissessem que é inadmissível a impunidade e falta de consequências com que tal se repete, aí a conversa é outra. Há laxismo de diversas entidades responsáveis e até seria bom que actuassem para que os miúdos percebessem que, no mundo real, as acções ou omissões têm consequências.
  • Miguel S.
    Trondheim 15/10/2014 13:06
    Caro Gonçalo, não estou a desculpabilizar. Apenas a dizer que isto não é particularmente indicador de nada acerca dos seus autores. Se houvesse alguma consequência para eles, as coisas mudavam. O exemplo que refere do Meco é um extremo deste paradigma. Até ver, foi uma brincadeira que correu mal, ninguém os obrigou a ir de madrugada para a praia numa noite de tempestade no inverno. Pareceu-lhes boa ideia. Não foi. Quer apostar que este ano isso não se repete?
  • Gota
    A Gota que é Gutta... 15/10/2014 13:08
    Sim, Miguel, concordo absolutamente com o que diz, mas, não competirá aos pais uma melhor educação para que casos como estes sejam simplesmente uma excepção, excepção essa que deverão então as autoridades tentar debelar?
  • Miguel S.
    Trondheim 15/10/2014 13:20
    Sem dúvida que passa por mais formação cívica e social em casa, mas tenho dificuldade em acreditar que tal seja suficiente, será uma melhoria... Estou cada vez mais convencido que um amigo meu sociólogo que afirma "uma pessoa é inteligente, mas uma multidão é estúpida" tem razão.
  • tripeiro
    15/10/2014 13:48
    Bem, Miguel, há coisas estúpidas e coisas estúpidas e este caso parece-me exceder largamente a razoabilidade da estupidez.
    E excedeu largamente a razoabilidade da estupidez por ser uma prática, pelos vistos, rotineira e não algo que aconteceu uma vez isoladamente.

Miguel Soares
15/10/2014 13:48
Penso que roubar carrinhos de supermercado e atirá-los ao rio é contra a lei. Ainda por cima às centenas. Ainda por cima repetidamente ao longo de anos. Ainda por cima sempre com a complacência das mesmas “associações”.
No entanto, a resposta é uma campanha de sensibilização. Ainda por cima da total (e louvável) iniciativa e organização de um Cidadão. As autoridades não têm nada a ver com o assunto, como é evidente. Repetidamente, alunos universitários são tratados como inimputáveis. Se essa é a realidade, temos, pelo menos, que aumentar a idade da maioridade.


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