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sábado, 17 de junho de 2017

Fogo destrói bloco de apartamentos em Londres


A torre Grenfell, um bloco de apartamentos de habitação social com 24 andares situado em North Kensington, Londres, foi engolido pelas chamas depois da eclosão de um incêndio pouco antes da 01:00 de quarta-feira.




Wednesday 14 June 2017 15.20 BST


Os socorros chegaram seis minutos depois das inúmeras chamadas telefónicas. Estiveram a combater o incêndio 200 bombeiros com 40 carros.
Em incêndios de edifícios altos, plataformas aéreas podem ser usadas para permitir que os bombeiros trabalhem fora do prédio. Mas os veículos da plataforma aérea da Brigada dos Bombeiros de Londres só podem atingir alturas de cerca de 32 m, limitando o combate aos incêndios a apenas uma dezena de andares.




Construída em 1974, a torre Grenfell tinha 120 apartamentos com um ou dois quartos a partir do 4º andar.
Fora alvo de uma remodelação, em 2016, que lhe acrescentou mais 7 apartamentos com três ou quatro quartos nos pisos inferiores, onde também estavam localizados um infantário e um clube de boxe. Sobre o betão das fachadas foi aplicado um revestimento que tornava o edifício mais ecológico.
Poderiam estar entre 400 e 600 pessoas dentro do edifício quando o incêndio eclodiu.







A torre Grenfell fazia parte do Lancaster West Estate, um complexo de habitação social de quase 1000 casas no burgo (freguesia) real de Kensington e Chelsea que é onde ocorre o maior intervalo de salários da população residente:





O incêndio começou num apartamento do 4º andar, sendo notória a rapidez com que as chamas se propagaram ao longo das quatro fachadas da torre, bem ilustrada nestas imagens:




Tanta rapidez levantou suspeitas sobre se o revestimento em alumínio colocado nas fachadas, para melhorar a eficiência energética do edifício aquando da remodelação, teria um núcleo de polietileno, um plástico altamente inflamável. Suspeita-se também que a cavidade entre a parede e o revestimento provocou o efeito chaminé, incentivando a propagação do fogo.




Surgiu, então, à superfície uma litania de falhas do Conselho de Kensington e Chelsea, o proprietário dos apartamentos, e a Kensington and Chelsea Tenant Management Organisation (KCTMO), a organização de gestão de inquilinos de Kensington e Chelsea que era paga para gerir a propriedade.

Imediatamente o sub-empreiteiro da remodelação veio lamentar o trágico incêndio e lembrar que a KCTMO havia adjudicado a obra à Rydon Maintenance em nome do conselho.

Por sua vez, a empresa contratada para realizar a remodelação de 10 milhões de libras mudou a sua declaração sobre a tragédia. Primeiro, a Rydon divulgou uma declaração dizendo que cumpriu todos os "regulamentos de incêndio e padrões de segurança e saúde" durante a remodelação de 2016. No entanto, numa declaração posterior omitiu esta linha e simplesmente disse que a empresa "cumpriu todos os regulamentos de construção necessários".

Impotentes, as pessoas que observavam o incêndio foram gravando vídeos que documentam a tragédia:




Já foram identificadas algumas vítimas mortais, existindo, obviamente, inúmeros desaparecidos, diariamente actualizados. Estima-se, pelo menos, 58 mortos.

Há outras causas para o elevado número de vítimas além da alta velocidade de propagação das chamas pelo revestimento das fachadas. A construção do bloco de apartamentos não cumpria as actuais normas de segurança e a remodelação nada corrigiu: não existiam aspersores, nem escapatórias de incêndio, e duvida-se que as portas corta-fogo funcionassem pois não foi realizada qualquer inspecção.

A difusão de fumos para a única escada do edifício não só impediu completamente o contacto visual entre os membros das famílias que tentaram sair dos seus apartamentos, levando-os a perderem-se, como provocou o desmaio dos mais frágeis.
Entre os desaparecidos está Rania Ibrahim que vivia com as duas filhas de três e cinco anos de idade num apartamento no 23º andar. Neste vídeo angustiante que enviou à melhor amiga, pode ser vista a pedir ajuda no patamar cheio de fumo antes de voltar para casa. Depois olha para a rua, começa a rezar e, no final, diz em árabe: "Peço perdão a todos, adeus":



14 June 2017 • 9:30pm


As regras de segurança em caso de fogo impostas pela empresa gestora KCTMO, incitando os inquilinos a permanecerem nos respectivos apartamentos, também contribuíram para a morte dos mais respeitadores.


Quando algumas pessoas receberam ordem de evacuação dos bombeiros já era demasiado tarde, estavam prestes a desmaiar por inalação de monóxido de carbono. Tudo o que se encontrava dentro dos apartamentos, inclusive os tabiques que separavam as divisões, foi carbonizado (excepto os metais). Como se vê neste vídeo que mostra o resto de um apartamento T1 e outro T2:



18 June 2017 • 8:56pm






terça-feira, 23 de maio de 2017

Terror em Manchester


Ontem à noite, pelas 22:35, ocorreu uma explosão em Manchester no final de um espectáculo da cantora pop norte-americana Ariana Grande que decorreu na Manchester Arena.

A polícia de Manchester apenas quantificou o número de vítimas já na madrugada desta terça-feira — 19 vítimas mortais e cerca de 50 feridos —, informando no tweet que estavam a tratar a situação como um "incidente terrorista" até prova em contrário:



O ataque foi perpetrado no átrio de entrada da Manchester Arena, estando cerca de 21 mil pessoas nas imediações quando ocorreu a explosão que envolveu um dispositivo caseiro cheio de porcas e parafusos. O grupo terrorista Estado Islâmico já reivindicou o ataque.

Várias zonas ficaram interditas, afectando os transportes na cidade. A estação de comboios de Vitória, que comunica com a Arena, foi encerrada.





A polícia de Manchester actualizou o número de vítimas, esta manhã, subindo para 22 mortos e 59 feridos.

"Temos estado a tratar isto como um incidente terrorista e acreditamos, nesta etapa, que o ataque foi conduzido por um homem. A prioridade é estabelecer se actuou sozinho ou como parte de uma rede.

O atacante, podemos confirmar, morreu na arena. Acreditamos que o atacante carregava consigo um dispositivo explosivo improvisado, que detonou, causando esta atrocidade
”, afirma o comunicado da polícia, em que as autoridades pedem às pessoas para não especular.

A nossa prioridade é trabalhar com os serviços secretos britânicos e de contra-terrorismo para encontrar mais detalhes sobre o indivíduo que conduziu este ataque”, acrescentam as autoridades.



Entretanto a comunicação social começou a divulgar a identidade de algumas vítimas, entre as quais uma criança de 8 anos, e do bombista suicida. Chama-se Salman Abedi e tem 22 anos. A polícia de Manchester confirmou, com reticências:



Nascido em Manchester em 1994, Salman Abedi é o segundo mais novo dos quatro filhos de um casal de refugiados líbios que vieram para o Reino Unido para escapar ao regime do coronel Muammar Gaddafi.

Abedi frequentou a escola local e foi para a universidade de Salford, em 2014, onde estudou gestão antes de desistir. Usava vestes islâmicas e costumava rezar numa mesquita local que, no passado, foi acusada de angariação de fundos para os jihadistas.

O irmão mais velho, Ismail Abedi, foi professor na escola do Corão da mesquita de Didsbury. Segundo o imã, Salman havia-lhe mostrado recentemente "o rosto do ódio" quando deu uma palestra alertando para os perigos do chamado Estado Islâmico.

A mãe, Samia Tabbal, de 50 anos, e o pai, Ramadan Abedi, um agente de segurança, nasceram em Trípoli mas terão emigrado, primeiro para Londres e, mais tarde, para a zona de Whalley Range, no sul de Manchester.

Pensa-se que, em 2011, após a derrota de Gaddafi, os pais retornaram para a Líbia, mas as viagens que Salman Abedi fez para o país de origem da família estão agora a ser objecto de investigação.

Alguns dissidentes de Gaddafi que eram membros do Grupo Islâmico Líbio de Combate (LIFG), entretanto ilegalizado, viveram nas proximidades dos Abedi em Whalley Range.

Entre eles, encontrava-se Abd al-Baset Azzouz, pai de quatro filhos, que deixou Manchester para dirigir uma rede terrorista na Líbia supervisionada por Ayman al-Zawahiri, o sucessor de Osama bin Laden na liderança da Al-Qaeda. Azzouz, 48 anos, especialista em bombas, foi acusado de dirigir uma rede da Al-Qaeda no leste da Líbia, em 2014.

Outro membro da comunidade líbia em Manchester, Salah Aboaoba, disse ter angariado fundos para o LIFG, em 2011, justamente na mesquita de Didsbury. Na época, o porta-voz da mesquita negou veementemente a reivindicação: "Esta é a primeira vez que ouço falar do LIFG. Não conheço Salah".

Agora, Mohammed Saeed El-Saeiti, o imã da mesquita de Didsbury, apontou Salman Abedi como um extremista perigoso: "Salman mostrou-me o rosto de ódio depois do meu discurso sobre o Ísis (...) Não é uma surpresa para mim".

A polícia atacou a casa da família às 11:30 desta manhã. De acordo com moradores da rua, 2 helicópteros e pelo menos 30 polícias camuflados, com equipamentos anti-motim e escudos, participaram no ataque.
Removeram a cerca de madeira entre duas propriedades. Colaram uma tira preta na porta e provocaram uma explosão. A porta soltou-se das dobradiças e as janelas tremeram. O ataque durou 90 segundos.

"Não os vi trazer ninguém para fora da casa. Acredito que estava vazia”, disse um vizinho.


*


Depois dos movimentos da Primavera árabe derrubarem os governantes da Tunísia e do Egipto para elegerem regimes islâmicos, começou uma revolta na Líbia, em 17 de Fevereiro de 2011, mas o ditador líbio Muammar Kadhafi resistiu.

Dez dias depois, foi criado um Conselho Nacional de Transição para administrar as áreas da Líbia sob controle dos rebeldes, prontamente reconhecido pela França, em 10 de Março, como o representante legítimo do povo líbio.

As forças pró-Gaddaffi responderam militarmente aos ataques rebeldes na Líbia ocidental — a cidade de Zawiya, a 48 km de Tripoli, foi bombardeada por aviões da força aérea e conquistada por tanques do exército — e lançaram um contra-ataque ao longo da costa na direcção leste, até Benghazi, o centro da rebelião.

Tanto o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, como o Conselho de Direitos Humanos da ONU condenaram estas acções militares, sob a acusação de violarem o direito internacional, tendo este último organismo expulsado a Líbia, atitude incentivada pela própria delegação da Líbia na ONU.

Em 17 de Março, o Conselho de Segurança da ONU aprovou a Resolução 1973 com 10 votos a favor dos membros permanentes Estados Unidos, França e Reino Unido e, ainda, da Bósnia-Herzegovina, Colômbia, Gabão, Líbano, Nigéria, África do Sul e Portugal e 5 abstenções dos restantes membros (Rússia e China, membros permanentes, e ainda Índia, Brasil e Alemanha).
Esta resolução sancionou o estabelecimento de uma zona de exclusão aérea e o uso de "todos os meios necessários" para proteger os civis dentro da Líbia.

Dois dias depois, a NATO começou a destruir as defesas aéreas da Líbia quando jactos militares franceses entraram no espaço aéreo da Líbia e atacaram alvos considerados inimigos.
Em seguida, entraram em acção as forças americanas. Mais de 8000 militares americanos foram destacados para a área em navios de guerra e aviões. A ofensiva aérea americana incluiu vôos de bombardeiros B-2 Stealth, cada bombardeiro armado com dezasseis bombas de 0,9 tonelada, saindo e retornando à base no Missouri, Estados Unidos.

Em 22 de Agosto, os rebeldes entraram em Trípoli e ocuparam a Praça Verde, rebaptizada Praça dos Mártires em homenagem aos seus mortos. Os últimos combates ocorreram na cidade de Syrte, onde Gaddafi foi capturado e morto em 20 de Outubro de 2011. Pelo menos 30 mil líbios morreram na guerra civil.

A seguir começou a segunda guerra civil da Líbia, agora entre as milícias armadas dos diferentes grupos rebeldes, o mais poderoso dos quais é o Estado Islâmico.

Passado algum tempo, formaram-se as máfias líbias que enchem embarcações frágeis com imigrantes, oriundos de países africanos a sul do Saará, e enviam-nos para Itália. Iniciava-se a invasão islâmica da Europa pelo corredor ocidental.

Quem foram os políticos responsáveis pelo Conselho de Segurança da ONU ter sido favorável à intervenção militar na Líbia que não só desestabilizou este país, como também a União Europeia?
Em 2011, a França era presidida por Nicolas Sarkozy.
No Reino Unido governava o primeiro-ministro David Cameron.
A presidência dos Estados Unidos estava nas mãos de Barack Obama e na Secretaria de Estado alinhava Hillary Clinton.

Quantas mais crianças e jovens vão ter de morrer até conseguirmos perceber que o pior tipo de ditadura é o terror promovido pelo fanatismo islâmico?


domingo, 20 de setembro de 2015

Se o Reino Unido saísse da União Europeia seria uma calamidade para todos


Foi o último Governador de Hong-Kong e comissário europeu responsável pela política externa. Presidiu à BBC e é o reitor da Universidade de Oxford. Conservador, europeísta convicto, Chris Patten preside aos Arrábida Meetings, um encontro anual lançado pela Fundação Oriente, em 1994, para debater a situação do mundo.


Miguel Manso


Em mais uma entrevista ao Público diz que não está pessimista sobre o futuro da Europa, mas se o Reino Unido saísse da União Europeia, seria uma calamidade.

PÚBLICO: Estive a reler a entrevista que me deu há quatro anos, a propósito de uma conferência em Lisboa cujo título era “A Europa ainda conta?” Hoje, um dos pontos do debate aqui [nos Arrábida Meetings] foi sobre o declínio da Europa. Nestes quatro anos, dá ideia de que tudo o que podia correr mal, correu. Está pessimista?
Chris Patten: Não sou pessimista. É verdade que a Europa enfrentou desafios muito difíceis nos últimos quatro anos. Em primeiro lugar, houve a crise da zona euro que foi sendo resolvida até um certo ponto e que agora se centrou na relação com a Grécia. Em segundo lugar, enfrentamos problemas na nossa fronteira leste com o revanchismo da Rússia. Em terceiro lugar, estamos a enfrentar um novo problema com as migrações a partir da Ásia e de África, que se traduz numa vaga de refugiados, mas também de imigrantes económicos, e que representa uma crise verdadeiramente existencial para a Europa, na medida em que questiona os nossos valores. Mas, reconhecendo tudo isto, a Europa ainda pode reclamar a melhor qualidade de vida do mundo, prossegue uma política ambiental que é a mais avançada, o Mercado Único continua a funcionar bastante bem. Por isso, digo que a Europa ainda está a sair-se muito bem. A questão é que enfrentamos hoje um mundo muito mais incerto do que nos anteriores cinquenta anos, depois da II Guerra Mundial, e temos de assumir a nossa responsabilidade na tentativa de criar uma ordem mundial mais estável.

O problema europeu é que a Europa tem de contar com novas potências, a Rússia é uma ameaça complicada, o Estado Islâmico não se vê como pode ser combatido, a guerra na Síria provoca esta vaga gigantesca de refugiados. O que considerávamos certo hoje deixa de o seu amanhã.
Deixe-me colocar as coisas de outra maneira. Houve dois períodos no último par de séculos que registaram uma extraordinária estabilidade na ordem internacional: o período seguinte ao Congresso de Viena e o período que se seguiu à II Guerra. Tivemos, depois da guerra, uma ordem assente em regras no domínio económico e político. Agora, há fracturas e ninguém sabe como substituir a velha ordem. Alguém recordou aqui o velho adágio espanhol: o caminho faz-se caminhando. Temos de descobrir nós próprios um novo caminho, construído na esperança de que os nossos velhos valores consigam reestabelecer a estabilidade entre países e entre continentes. As coisas ficaram mais complicadas com a emergência de novas potências e porque os problemas maiores não vêm dos Estados mais fortes mas dos Estados falhados. Ainda não encontrámos uma forma satisfatória de incentivar a cooperação internacional para resolver os problemas desses Estados.

Vamos desistir de encontrar? Não. Mas não é fácil. Fico muito satisfeito por termos em Angela Merkel uma líder europeia muito forte. Creio que é muito injustamente criticada, sendo ela na realidade uma europeísta generosa. O que está a fazer face às vagas migratórias revela uma compreensão profunda do que são os valores europeus fundamentais. Por isso, não estou pessimista quando à possibilidade de avançarmos no bom sentido. Preocupa-me o facto de não termos ainda uma ideia sobre o que é preciso fazer para construir essa nova ordem que sucederá à que tivemos depois da II Guerra.

O seu país arrisca-se a sair da União Europeia, o que seria uma situação bastante grave para a Europa...
E seria uma calamidade para nós. Seria a primeira vez na História moderna que o Reino Unido escolheria fazer parte da segunda divisão. Não creio que isso vá acontecer. Penso que precisamos de uma reavaliação da liderança americana. A América é a única superpotência e o único país que conta em qualquer parte do mundo e precisa de cooperar com uma Europa forte e confiante.

Com o Reino Unido...
Com o Reino Unido. Espero que votemos com sensatez no referendo e que Cameron, que conta com uma economia mais forte do que as economias continentais, seja capaz de de fazer com que o Reino Unido seja uma parte inteira da União Europeia. Ajudando a negociar um acordo de comércio com os EUA (TTIP), capaz de garantir a realização completa do Mercado Único, contribuindo, graças à nossa capacidade militar, para uma estratégia mais positiva em relação à Rússia.

A Rússia vai ser ainda mais perigosa nos próximos anos. Não se esqueça de que a última vez que o preço do petróleo caiu cerca de 50 por cento, a União Soviética desapareceu. A actual queda abrupta do preço do petróleo aumentou imenso a pressão sobre a Rússia, cuja economia vai contrair este ano 3,5 por cento ou mais, o que terá efeito sobre o bem-estar das pessoas e um efeito ainda maior nos magnatas que rodeiam Putin. O perigo é que, nessas circunstâncias, ele acabe por cometer um erro de cálculo, deixando-se arrastar para uma aventura política nacionalista.

Para além do risco de um cálculo errado da Rússia, mantêm-se problemas reais no Paquistão, que estivemos a discutir aqui. E a China vai atravessar um período difícil, com o seu crescimento económico a cair. Se acrescentarmos outros problemas imediatos, como a falta de um governo na Líbia, facilitando migrações através do seu território, os refugiados no Afeganistão e os que emigram da Eritreia ou da Somália, percebemos que as soluções não são fáceis.

Por isso, estava a questioná-lo sobre o papel do seu país. Cameron manteve um discurso muito duro contra mais imigração. Esta rejeição é bastante contrária ao espírito de abertura que é tradicional no seu país.
Em primeiro lugar, não estamos a fechar a porta, muito longe disso. Graças ao sucesso da economia estamos a criar mais empregos do que qualquer outra economia europeia, mas temos um problema com o Estado de bem-estar. Muitos dos empregos criados são de baixos salários e nós temos um welfare que dá às pessoas com salários baixos uma série de benefícios. E isso torna-se muito atractivo para búlgaros ou romenos, criando um problema real. Mas isso nunca nos impediu de receber centenas de milhares de europeus que ajudaram a fortalecer a nossa economia. Os polacos são um exemplo disso.

Creio que os imigrantes económicos de Calais e os refugiados da Síria são casos diferentes. No caso da Síria, como sabe, o Governo britânico é, de muito longe, o maior contribuinte para a assistência aos campos de refugiados. Creio que contribuímos com mais do que a Alemanha, França, Itália e Espanha juntas. Em segundo lugar, creio que Cameron pensa que, se formos buscar as pessoas aos campos [fora da Europa], isso leva-as a perceber que essa é a sua melhor oportunidade de chegarem de forma segura. É uma questão de avaliação e, mesmo assim, vamos receber 20 mil e gastar muito dinheiro. E devemos fazê-lo, porque se trata de uma crise mundial, não é apenas uma crise europeia.

Mas há um fenómeno que estamos a enfrentar, que é semelhante a Donald Trump nos Estados Unidos ou o Syriza na Grécia...

Jeremy Corbyn.
Exactamente. É aquilo a que eu chamo de fenómeno “parem o mundo, quero sair”. É um voto louco ou romântico no passado, e está a afectar muitas democracias. Poderia imaginar Trump como Presidente dos Estados Unidos? Ou Corbyn como primeiro-ministro?

Parece impossível, de facto. Mas se ganhar, será o próximo líder do Labour [a entrevista foi feita no dia das eleições].
Vai ganhar e isso não é uma boa notícia para o Governo. Há colegas meus no Partido Conservador que estão felizes porque terão uma oposição fraca. Não creio que seja assim. Um conservador à velha maneira, como eu, entende que os governos precisam de uma oposição forte e responsável. Sem isso, tende-se a cometer erros desnecessários, fica-se arrogante, pensa-se que se pode fazer tudo. Com Corbyn, o problema é que ele pensa que tudo o que acontece de mal no mundo é por culpa dos americanos, é contra o poder nuclear britânico e uma defesa forte, pensa que o dinheiro nasce nas árvores e que não são precisas finanças equilibradas.

E não vai ajudar Cameron a ganhar o referendo porque a sua posição sobre a União Europeia é bastante ambígua.
Ninguém sabe exactamente o que pensa. O principal argumento para que o Reino Unido fique na União Europeia é muito simples: como qualquer outro país da União, nós não somos tão importantes como fomos há 20 anos, há 50, há 100. Quando decidimos candidatar-nos à Comunidade Europeia eramos membros da EFTA, pensávamos que conseguiríamos encontrar uma alternativa ao Mercado Comum que respeitava os nossos interesses económicos, que não fazia exigências politicas. Nesses dias, o Reino Unido representava 8 por cento do comércio mundial. E, mesmo assim, considerámos que a EFTA não era suficiente. Hoje representamos 3,4 por cento do comércio mundial e pensamos que podemos desenvencilhar-nos sozinhos. É uma loucura.

Os americanos dizem que é uma loucura, os chineses, os indianos, os japoneses. Alguns dos meus colegas da ala direita do Partido Conservador respondem-me: os americanos não sabem quais são os nossos interesses. Não gosto do facto de nos termos colocado nesta posição, mas vamos ter de lidar com ela.

O problema é que a paisagem política europeia, incluindo no seu país, está a mudar, abrindo espaço aos movimentos nacionalistas, xenófobos, radicais. E isso não ajuda muito.
As pessoas esqueceram-se de que somos, todos, uma comunidade de minorias. Porque é que sou um cidadão britânico? Porque os meus tetravós emigraram da Irlanda durante a Grande Fome e fixaram-se na Inglaterra. Nesses tempos, também eram olhados como gente perigosa e, ainda por cima, católica. Ao longo dos séculos, demos abrigo a huguenotes, judeus, fugidos da Europa de Leste, irlandeses, mais recentemente das Caraíbas, do continente asiático. Não temos uma identidade única. Somos uma mistura. E o que conseguimos fazer de uma forma notável foi integrar toda essa gente. Uma das minhas filhas é casada com um rapaz muito simpático das Caraíbas. Três dos meus cinco netos têm esta dupla origem.

Voltando ao início, pensa que o declínio europeu não será tão rápido nem tão inevitável?

Se outros grandes países aumentarem o seu rendimento per capita, seremos mais pobres em termos agregados. Mas, em termos de riqueza per capita, não é a mesma coisa. A China tem hoje o mesmo rendimento per capita que a Jamaica. A China vai ser tão rica como a Europa? Vai levar muito tempo.

Um dos temas que debateram foi a relação entre China, Japão e Índia. O que devemos esperar de Xi Jinping? E daquela demonstração recente de poderio militar?
Há duas grandes mudanças. A primeira é que o crescimento espectacular dos últimos vinte anos não vai continuar. Se acreditarmos em Larry Summers, será de 4 ou 5 por cento este ano. O FMI prevê à volta dos seis por cento. Só esse facto tem consequências para nós todos e não só para a China.

Em segundo lugar, eles tiveram uma forma de liderança colectiva, mas agora, pela primeira vez desde Mao, escolheram um imperador. Deng Xiao Ping quis evitar o risco de um novo grande líder. Xi é diferente, mas também tem um papel muito difícil a desempenhar. A não ser que o Partido Comunista alivie o seu controlo sobre a economia, vai ser muito difícil controlar o Estado. Temos, todos, interesse em que a China consiga este novo equilíbrio. Mil e trezentos milhões de pessoas é muito. Vimos como a queda das acções da bolsa de Xangai teve repercussão em toda a parte. Precisamos que a China se dê bem.

Mas o que estamos também a ver é uma política externa muito mais assertiva ou agressiva...
Assertiva!

Assertiva. Relativamente aos seus vizinhos e com o Japão.
Mas isso tem sido, em alguma medida, contraproducente. Quanto mais assertiva a China é com os seus vizinhos, mais os seus vizinhos dirão: “Queremos que os americanos fiquem por cá.” É fascinante ver até que ponto os vietnamitas querem melhorar a sua relação com os Estados Unidos. O que desejo é que a China não caia na tentação de usar o nacionalismo como substituto para a crescente melhoria da vida das pessoas.


domingo, 26 de julho de 2015

Entrevista de António Vitorino ao Público


O socialista e antigo comissário europeu António Vitorino diz, em entrevista ao jornal Público, que não pode haver união monetária sem convergência económica, nem partilha de risco sem partilha de soberania.
Embora faça algumas críticas à Alemanha e ainda mais à França, reconhece a importância do eixo franco-alemão na construção europeia e espera que o Reino Unido não saia da União. Critica duramente a estratégia do governo do Syriza nas recentes negociações dentro do Eurogrupo. Critica os governos nacionais que não fizeram reformas estruturais na devida época para melhorarem a competitividade e defende a presença de Portugal no núcleo duro europeu que é o euro.

Eis uma entrevista que é obrigatório ler:


"Estive a reler as entrevistas que me deu ao longo desta crise. Numa delas, em Dezembro de 2011, diz o seguinte: “Temos de ajudar a Alemanha a ultrapassar o seu momento unipolar”. E acrescenta: “No fundamental, a Alemanha tem razão, falta-lhe aprender a ter razão.” A Alemanha aprendeu alguma coisa?
Subscrevo essas afirmações mas confesso que cheguei à conclusão de que o processo de aprendizagem da Alemanha é mais lento do que esperava.

O que já se criticava à Alemanha naquela altura ainda se critica hoje?
Exactamente. Por duas razões. Não emergiram contrapesos no contexto europeu, e ajudar a Alemanha a ultrapassar o seu momento unipolar é também encontrar parceiros que contrabalancem o seu peso, sendo que contrabalançar é no sentido de convergir. Há uma segunda razão que continua presente: creio que a Alemanha ainda está prisioneira da narrativa que construiu há quatro anos e da qual ainda não se conseguiu libertar. E é esse o grande salto que vai ter de se pedir à Alemanha: abandonar a ideia de que tudo se resumiu a uns países perdulários que viviam acima das suas posses e centrar a atenção nos desequilíbrios internos da zona euro em termos de competitividade a fim de encontrar as soluções que permitam responder a três questões.

Primeira, relançar o investimento que permita o crescimento económico. Em segundo lugar, definir reformas adaptadas a cada país e não um modelo único, isto é, não se trata de fazer de todos os países pequenas e médias Alemanhas. É preciso compreender que o combate aos desequilíbrios exige reformas estruturais inteligentes, adaptadas aos défices de competitividade de cada país, que são diferentes. Os problemas de competitividade portugueses não são os mesmos da França, mas a França também tem problemas de competitividade, como os tem a Itália. O terceiro elemento é melhorar a qualidade das instituições europeias que são responsáveis pela gestão da moeda única.

Mas justamente as instituições europeias, à excepção do BCE e com particular evidência para a Comissão, têm vindo a enfraquecer, comparadas com o poder do Conselho Europeu e, dentro dele, da Alemanha. Vimos isso agora com a crise grega.
Penso que Jean-Claude Juncker fez um esforço para recentrar o papel da Comissão e isso é positivo. Em segundo lugar, mesmo o tão vilipendiado Tratado Orçamental, que é um tratado intergovernamental exterior à União, atribui às instituições comuns um papel central — à Comissão, ao Tribunal de Justiça e ao Parlamento Europeu. A UEM sempre esteve “a cavalo” entre o pilar comunitário e o pilar intergovernamental e a crise avolumou o pilar intergovernamental. O MEE [Mecanismo Europeu de Estabilidade] e o Tratado Orçamental são tratados intergovernamentais. O que temos de garantir é que essa evolução intergovernamental possa convergir para a plena integração destes mecanismos no quadro da União Europeia e, para isso, as instituições têm de estar preparadas do ponto de vista também da legitimidade democrática, para assumirem novas responsabilidades.

A nova crise grega, com todas as suas reviravoltas, veio demonstrar que a Alemanha — voltamos sempre à Alemanha — não aprendeu grande coisa em matéria de resgates. O terceiro resgate à Grécia, mais uma vez, parece não incluir nada que permita à economia grega respirar.
Diria que a mais recente crise grega — não digo a última porque não será a última — demonstra os limites da gestão em modo de urgência: soluções ad hoc a que já se chama de “lista da lavandaria”, com reformas que envolvem os horários das padarias ou dos centros comerciais. Isso não resolve o problema de fundo nem vai obter os resultados pretendidos. Só vai agravar a recessão e tornar ainda mais difícil a situação da Grécia. Mas isso também é da responsabilidade do Governo grego e da maneira como actuou nas negociações

Aos ziguezagues.
Claramente. Mas o aspecto mais pernicioso desta recente crise grega é que desviou o debate europeu daquilo que é a questão central: as reformas de fundo da UEM. Retrocedemos e passámos outra vez a gerir isto de forma atrabiliária, porque tínhamos um elefante na sala chamado Grécia.

Que, de alguma maneira, também se podia prever.
E que estou a prever que vá voltar. O Grexit não desapareceu. Foi apenas escondido. Quando voltar, voltará sempre com maior gravidade. Falta uma visão a prazo da sustentabilidade da zona euro que tem a ver com a convergência das economias, com a necessidade de dinamizar o investimento e de criar um quadro regulatório europeu que permita apostar nos sectores de crescimento económico futuro, como a energia ou a economia digital. Só com um pacote destes a nível europeu, que implica também reformas estruturais a nível nacional, será possível encontrar uma solução de sustentabilidade duradoura para a zona euro.

Porque é que a Alemanha não consegue ou não quer perceber isso?
Creio que a Alemanha ainda não se fixou num modelo global. Por muito criticável que seja a ultima proposta do Presidente francês — e é muito criticável...

A ideia de que o euro precisa de um núcleo duro composto pelos fundadores e de um governo económico.
A ideia de um governo económico para a zona euro é muito antiga em França. Estava em cima da mesa em Maastricht em 1991. Mas, ao menos, esta iniciativa francesa, que manifestamente não é convergente com Berlim, poderá ter a virtude de levar a Alemanha a clarificar a sua visão de conjunto. Para os que andam sempre dizer que a Alemanha manda em tudo, talvez devessem reflectir sobre o facto de que esta é uma das áreas onde há falta de Alemanha, onde a Alemanha ainda não assumiu a sua responsabilidade.

Mas a falta de Alemanha ou Alemanha a mais acaba por afectar toda a gente.
Acho injusto dizer que a União Europeia só faz o que a Alemanha quer. Não corresponde à realidade, que é mais sofisticada e mais complexa, se quiser. É verdade que iniciativas europeias que não tenham o beneplácito de Berlim têm pouca probabilidade de sobreviver. Mas isso faz parte da dinâmica da negociação. Não há um diktat alemão, isso é uma enorme injustiça. Há um filtro. A Alemanha é um filtro e a ultrapassagem desse filtro exige negociação. Mas isso exige que todos tenham ideias claras do que querem, obrigando a Alemanha a ter as suas e a trazê-las para a mesa, confrontando-as com as dos outros.

E se alguma crítica pode ser feita à Alemanha — e pode — é que a maneira como a Alemanha geriu esta sucessão de crises afectou a sua imagem política como um país capaz de ouvir os outros. Perdeu nessa frente.

Esta crise grega teve duas particularidades que gostava que comentasse. É a primeira vez que um governo é liderado por um partido que não faz parte do mainstream europeu. Mas esse mesmo partido teve de render-se perante uma realidade que descobriu ser incontornável. Esta experiência para o resto da Europa significa o quê?
O Governo grego cometeu um erro colossal de cálculo na estratégia negocial que seguiu. Conseguiu isolar-se, alienar potenciais aliados e seguiu uma estratégia negocial de alto risco, baseada num pressuposto que se verificou errado: esticando a corda, a Europa cede porque ninguém estará disposto a dar o salto no desconhecido que é deixar um país abandonar a zona euro. Algumas ideias do Syriza, à partida, nem eram más. Por exemplo, a questão de indexar o pagamento da dívida ao crescimento do Produto. É uma tese defensável, razoável até. Desapareceu rapidamente do radar da negociação.

Não há a disponibilidade do outro lado?
A política significa também a conjugação de vontades e a probabilidade de haver uma conjugação de vontade para resolver o problema da dívida neste momento era muito pequena. A estratégia seguida foi totalmente errada. E isso não quer dizer que é por ser um governo de extrema-esquerda. Se fosse de extrema-direita ou de centro estaria igualmente destinada ao malogro. Além disso, o Governo grego prestou um mau serviço à causa europeia ao tentar criar a ideia de que podia usar a sua democracia nacional contra a União Europeia. E esse é um erro de princípio, porque a partilha de soberania não é usar as soberanias e as legitimidades democráticas de cada um contra os outros.

Era previsível que um Governo com as características do Syriza assinasse um acordo que nega tudo aquilo que defendeu? Humilhação é um sentimento muito pouco recomendável.
Aquilo que foi manifestamente uma humilhação grega é um erro que levaremos muito anos a apagar. A humilhação não se dilui nem desaparece. Os chineses dizem que só há vitória quando quem perde também tem alguma coisa a ganhar. E uma das razões para que isso acontecesse resulta de se ter mantido a negociação ao nível técnico e não político, entregue aos ministros das Finanças.

Sobretudo o ministro das Finanças alemão, que apresentou pela primeira vez a hipótese concreta de um Grexit.
Que não está prevista nos tratados. O facto de haver, pela primeira vez, uma instância da União, o Eurogrupo, que permite, ainda que entre parêntesis rectos, a saída de um país, é um sinal político extremamente preocupante, com que nós, como os espanhóis ou outros, nos devíamos preocupar.

Conhece Wolfgang Schäuble há muito tempo, era a braço-direito de Kohl. Como interpreta o comportamento intransigente que assumiu?
Não tenho dúvidas de que Schäuble é um europeísta convicto e que até considera que a zona euro deve ser o núcleo de integração aprofundada da União Europeia. O que a sua atitude deixou no ar — e isso é que é preocupante — é até que ponto o compromisso alemão com o euro significa manter a zona euro na sua composição actual ou se há margem de manobra — vou utilizar uma expressão forte que talvez não devesse utilizar — para a purificação do euro.

Nas actuais circunstâncias pode ser uma ideia muito perigosa.
Sim. Jacques Delors disse há uns meses que o futuro da União Europeia deve ser construído na lógica das cooperações reforçadas, embora não sendo uma cooperação reforçada, onde os países que partilham a moeda única dão um salto na partilha de soberania e na partilha do risco: são os dois elementos fundamentais da UEM. Não há partilha de risco sem partilha de soberania. E isto tudo tem de ter uma forte legitimidade democrática, porque se trata de um salto significativo na integração europeia. Ora bem, a questão é saber entre que partes esta partilha se vai fazer. Delors defende que esse núcleo é a zona euro na sua composição actual. Mas há outra proposta, dos preguiçosos, que é escovar da zona euro os menos desenvolvidos e fazer um euro forte. Há aqui uma parte escondida: esse euro forte só para alguns sofreria uma valorização cambial tal que retirava parte das suas vantagens competitivas. Contra isso, devemos contrapor que estamos dispostos a aceitar novas partilhas de soberania na zona euro, mas também do risco.

Mais uma vez, o problema é que a Alemanha não quer partilhar o risco.
É esse o debate que está em cima da mesa. Somos, por vezes, precipitados nas críticas que fazemos à Alemanha, mas a verdade é que a chanceler disse ao longo destes últimos cinco anos duas coisas muito importantes. Avançou com a proposta dos chamados contractual arranjements para efeito do combate aos desequilíbrios de competitividade em cada país. A sua ideia não foi aceite mas convém não esquecer que foi ela que a fez.

E que pode pôr de novo na mesa.
Com outros contornos, com outra configuração, mas que é a resposta ao problema real dos desequilíbrios de competitividade e dos problemas de divergência, que se agravaram com a moeda única. A segunda coisa que a chanceler disse — e disse-o pela primeira vez — foi que, excluindo um haircut, estava disponível para discutir a dívida a nível europeu. Não é uma questão que se possa tratar caso a caso. Já hoje as condições de financiamento da Grécia são melhores que as de Portugal, da Espanha e da Irlanda. E acho que devem ser melhores. A Grécia sofreu um tremor de terra de grau 10 da escala de Richter, do ponto de vista económico. Mas dito isto, não creio que a solução para o stock da dívida europeia seja a salamização da dívida, caso a caso. Tem de haver uma lógica europeia.

Ainda se lembra do relatório Schauble-Lamers, apresentado em 1994, que já previa uma core Europe, mais integrada do que o resto. A França não quis. Há aqui também uma eterna dificuldade francesa face à integração. Hollande fez tudo para evitar o Grexit, mas agora vem com um núcleo duro de fundadores.
Isso corresponde à posição tradicional da França...

A defesa do governo económico, mas não a ideia dos fundadores.
Sim, mas uma coisa não pode ser lida sem a outra, na minha opinião. Discordo da criação de instituições apenas dedicadas à zona euro. Já há o Eurogrupo. É preciso garantir que a UEM é uma política da União e que as tensões entre zona euro e o grande mercado interno têm de ser geridas por instituições comuns, sob pena de criarmos uma espécie de apartheid. Isso seria inaceitável, porque poria em causa os fundamentos do Mercado Interno, que é o grande elemento aglutinador da integração europeia. Mas esta é a posição tradicional de França. O que é novo na proposta de Hollande é que, mesmo na zona euro, deveria haver um núcleo duro de integração que envolveria apenas os seis países fundadores.

Mas de onde é que vem uma ideia que já não tem nada a ver com a Europa actual?
Sempre achei que, para haver aprofundamento, tinha de haver um motor, que só poderia ser o eixo franco-alemão. Mas o documento apresentado em Maio por Merkel e Hollande para a reforma da zona euro é decepcionante, na medida em que se baseia em menores denominadores comuns. Não é um motor propulsor.

Quanto ao núcleo dos seis fundadores, não só não há um racional económico como cria um problema político para resolver outro. O problema que quer resolver é a fractura Norte-Sul, porque inclui um país do Sul, a Itália. Do ponto de vista político, cria um outro problema: se a questão central da sustentabilidade do euro é o aprofundamento da integração e a resposta à divergência económica, então deixar de fora os países que estão a fazer um trajecto de convergência mais bem-sucedido, é criar um novo problema político. São os casos da Irlanda, que deve crescer a 3,5% para o ano, ou da Espanha que deve crescer a 3 por cento ou da Áustria com uma situação económica bastante confortável, ou a própria Finlândia que, estando hoje em recessão, continua a ser um Triplo A.

Ninguém vai aceitar essa proposta.
Tenho a convicção sincera de que acabará por se desvanecer. Mas como não acredito em bruxas, embora elas existam, então convém deixar já clara a posição de cada um sobre esta matéria. E tenho uma enorme expectativa sobre a maneira como a Alemanha vai reagir.

A lógica da Alemanha não tem sido essa.
Antes pelo contrário, tem sido no sentido de garantir instituições comuns e de ser o mais inclusiva possível. O interesse da Alemanha, fundado ou não — não quero entrar nesse debate —, ao apresentar o caso português ou o irlandês como casos de sucesso, joga contra essa lógica francesa.

O eixo Paris-Berlim continua a ser fundamental mesmo com o desequilíbrio que tem hoje?
Para bem do projecto europeu, tem de ser recuperado. Sempre disse que o motor do projecto europeu era o eixo franco-alemão, mas também sempre recorri à imagem dos três mosqueteiros que eram quatro. Temos o eixo franco-alemão e temos o Reino Unido. E o Reino Unido é parte integrante do eixo franco-alemão, por paradoxal que possa parecer. É o moderador externo, digamos assim, dos equilíbrios internos desse eixo. E como nós vamos estar confrontados com uma questão seriíssima, atinente ao Reino Unido...

Questão muito mais grave do que a Grécia...
É verdade, e espero que não saiam. Mas é manifesto que, tendo de tratar da questão britânica, isso vai ser um enorme desafio ao eixo franco-alemão.

A Alemanha quer o Reino Unido dentro, a França parece querê-lo fora, embora, depois, também queira uma relação especial com ele no que toca à defesa.
A relação franco-britânica é a mais antiga e tensa relação europeia. Mas são os únicos que têm uma concepção global de política externa, que são membros permanentes do Conselho de Segurança, que são as duas potências militares e nucleares europeias. De alguma forma, a repulsa entre eles vem de serem tão parecidos.

A minha ideia é esta: como a questão do Reino Unido vai estar em cima da mesa este ano, uma parte importante da solução não é apenas a concepção franco-alemã sobre o futuro da zona euro, é também sobre o futuro da União Europeia, no seu conjunto e com o Reino Unido a bordo.

Quando o euro nasceu foi olhado como uma forma de amarrar a Alemanha à União. Kohl ofereceu a Mitterrand o que de mais preciso tinha a Alemanha nessa altura, que era o marco. Hoje os resultados não são os que esperaríamos. Muita gente diz que o euro não uniu, antes dividiu.
Há uma mais-valia acrescentada com a moeda única, há. O euro é uma moeda de referência nas trocas internacionais? É. É uma moeda de reserva das economias emergentes? É. É, aliás, um dos poucos domínios em que a Europa dá cartas à escala mundial ou tem, pelo menos, os instrumentos para um protagonismo global. Mas é evidente que, nestes últimos 10 anos, houve países que beneficiaram mais da moeda única do que outros. A Alemanha à cabeça, permitindo-lhe criar um excedente da balança externa de 7%, e isso constitui um mérito da moeda única em benefício da Alemanha. Mas a questão não é tanto Norte-Sul mas centro-periferias. E o risco que existe na Europa é criar a ideia de que há ganhadores permanentes e perdedores permanentes. Essa é que é a verdadeira factura.

Mas isso não é percebido assim pelos alemães.
É verdade. Mas a crise veio pôr a nu que uma união monetária exige que haja convergência económica. Parte dos problemas da divergência resultam de opções tomadas pelos governos nacionais, que não aproveitaram em devido tempo a oportunidade da moeda única para fazerem as reformas necessárias para melhorarem a competitividade. O que está agora em cima da mesa é como é que se acrescenta esse pilar económico, fazendo-o num período de recessão económica e de menor crescimento à escala global, de relativa pujança, por enquanto, das economias emergentes...

Que, elas próprias, já estiveram bem melhores.
Sim. O problema é que a Europa não foi considerada como um refúgio alternativo para a retracção dos investimentos nos mercados emergentes. Esse papel voltou a ser dos Estados Unidos, com a retoma da economia americana. Temos de ser suficientemente humildes para perceber que o papel da Europa no mundo está ameaçado e que exige soluções tanto do ponto de vista económico, como da sustentabilidade da moeda comum, como da garantia da coesão social, afectada por esta crise, como da construção de uma política externa, de segurança e de defesa que reponha a Europa como um player global.

Donald Tusk disse recentemente que o maior risco de contágio não é financeiro, é político. As consequências políticas desta crise podem ser ainda mais devastadoras do que as económicas?
Tem toda a razão e basta olhar para a Grécia. O PASOK desapareceu, a Nova Democracia entrou em crise. Esta crise dividiu o próprio Syriza e, aparentemente, ainda é a partir do Syriza que se poderá construir no futuro alguma coisa — pelo menos com uma facção do Syriza. Mas se o Syriza soçobrar nos braços desta crise, o que resta é a Aurora Dourada. Não é esta a Europa que queremos.

E não é só a Grécia. Olha-se para a maioria dos países do euro e vê-se como os sistemas partidários estão a ser postos à prova. Às vezes a única excepção parece a nossa...
E a Alemanha. Prestem lá essa homenagem à chanceler. Se tivéssemos uma Marine Le Pen alemã...

A Europa acabava...
Ora bem. E mesmo a França é factor de enorme preocupação.

O centro-esquerda não consegue encontrar o seu espaço, que seria fundamental para criar uma alternativa dentro do consenso europeu.
A alternativa que a social-democracia representava há vinte anos atrás, que era globalização económica, crescimento e redistribuição mais justa, confrontou-se com um problema central que foi subavaliado e que é a desregulação da globalização. O modelo fazia sentido na teoria, mas faltava-lhe esse instrumento fundamental. Isso teve consequências sobre a mobilidade acrescida do capital, a diminuição da capacidade de tributação dos Estados e, consequentemente, da arrecadação do volume de impostos necessário para a redistribuição, acabando por gerar um aumento das desigualdades. Das desigualdades entre países, à escala global, e dentro dos países, incluindo também os países com economias desenvolvidas, o que é uma má novidade. É esse o desafio a que o centro-esquerda tem de responder. Não é fácil.

O seu optimismo é realista?
É. Eu sou defensor de soluções realista. E nada do que lhe disse nesta conversa é impossível. Porque há uma coisa que eu sei: a implosão deste projecto é uma catástrofe global, para todos, a começar pelos europeus e para aqueles que estão hoje na posição mais confortável da integração europeia. Leia-se Alemanha. Seria absurdo do ponto de vista histórico que a Alemanha pudesse suicidar-se através do processo europeu.

Qual é a Europa que nos convém, admitindo que a anterior não voltará.
Não voltará. Temos que aprender a viver numa Europa muito diferente daquela a que estávamos habituados e temos de redefinir duas coisas. O que é o nosso interesse nacional e como é que estribamos o consenso interno para estarmos nessa Europa. Não há modelos alternativos, há modelos complementares, seja o espaço transatlântico, seja o espaço lusófono, que são valores acrescentados para podermos negociar a nossa presença na Europa. Mas essa presença no núcleo duro europeu, que é o euro, continua a ser a ancoragem que melhor nos serve. Mas temos de perceber que, mudando as condições, também temos de redefinir os nossos objectivos. Estas questões têm a ver com as nossas escolhas internas. Em segundo lugar, termos de definir a maneira como gerimos as nossas alianças no plano europeu.

Em que sentido?
Vou dizer algo abstracto. Portugal é um exemplo de que, sempre que soube defender o seu interesse nacional encontrando soluções que potenciavam o interesse europeu, ganhou."


*


Este comentário faz a avaliação perfeita da entrevista e do entrevistado:

Pecas
Político de Bancada, Lisboa 26/07/2015 09:09
1) Excelente entrevista. António Vitorino é um oásis de inteligência no deserto socialista.
2) Para perceber a "rendição" da Grécia é preciso ler o Financial Times e ficar perplexo com a incompetência do governo grego no seu ousado plano para a saída do euro (o Observador tem um bom resumo)


sexta-feira, 8 de maio de 2015

David Cameron ganha eleições no Reino Unido com maioria absoluta


David Cameron regressou a Londres esta manhã, vindo do seu círculo eleitoral em Oxfordshire, sabendo que não precisa de formar uma coligação, como sucedeu há 5 anos, porque o eleitorado lhe deu ontem maioria absoluta para governar o Reino Unido.




O Partido Conservador, no poder, conseguiu uma enorme vitória nas eleições para o parlamento do Reino Unido e, ao contrário do empate técnico revelado nas sondagens, obteve uma maioria absoluta. Os conservadores elegeram 331 deputados.

Os trabalhistas de Ed Miliband têm apenas 232 eleitos já que os escoceses transferiram os votos para o Partido Nacional Escocês (SNP) que recebeu 56 dos 59 deputados que a Escócia elege.

Além dos trabalhistas, os outros grandes derrotados neste acto eleitoral são os liberais democratas, até agora parceiros de governo de Cameron, que recebeu somente 8 deputados.

O Partido da Independência do Reino Unido (UKIP), anti-europeu e anti-imigração, é o terceiro partido mais votado mas conseguiu apenas 1 deputado e o líder, Nigel Farage, não foi eleito.

Outras formações políticas — Partido Unionista Democrático, partidos norte-irlandeses, Partido Galês e Partido Verde — elegeram 21 deputados e há ainda 1 independente.



O trabalhista Ed Miliband e o liberal democrata Nick Clegg demitiram-se da liderança dos respectivos partidos, assim como o líder do UKIP, Nigel Farage, que tinha prometido sair se não fosse eleito.

David Cameron já declarou que o seu objectivo "continua a ser simples": "Governar para toda a gente no nosso Reino Unido". Esta manhã, bem cedo, twittou congratulando-se com "um futuro mais risonho para todos".

No entanto, Cameron tem pela frente dois desafios: não perder a Escócia e não perder a Europa.

O resultado na Escócia é uma vitória esmagadora do SNP, que consegue 56 deputados (conservadores, trabalhistas, e liberais democratas têm um cada), uma diferença enorme para os resultados de 2010, quando obtiveram apenas 6, atrás dos 41 do Labour e 11 dos lib dem.
Pela primeira vez na história do Reino Unido, um partido nacionalista torna-se a terceira força política no Parlamento de Westminster e o peso da sua bancada vai fazer-se sentir. George Osborne, ministro das Finanças, reconheceu numa entrevista, esta manhã, que a resposta não é simples mas lembrou que há planos para dar mais poderes à Escócia.

Outro perigo é o referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia prometido por Cameron para 2017: uma ala dos conservadores é profundamente eurocéptica e o UKIP obteve 13% dos votos.
O UKIP já se vangloriou de ser agora o terceiro partido do Reino Unido em termos de votação e de que, apesar de terem vencido em poucos círculos, os seus candidatos “conseguiram um número fenomenal de segundos lugares”.
Pelo contrário, o referendo desagrada aos escoceses, que rejeitam a ideia de abandonar a União Europeia e podem pensar, de novo, na independência. O mais provável, porém, é que a Escócia queira apenas maior autonomia política e económica para o governo de Edimburgo. Nicola Sturgeon já apresentou as exigências durante a campanha: o direito de aumentar o salário mínimo na Escócia; o direito de aprovar legislação baixando ou eliminando as propinas universitárias; ou de manter no país uma maior percentagem dos impostos pagos pelos escoceses que são canalizados para o orçamento da união.

A vitória de Cameron deve-se ao facto do eleitorado ter privilegiado a economia que está na quinta posição a nível mundial e foi a que mais cresceu entre os países da União Europeia, procurando evitar o risco do Reino Unido resvalar para uma derrapagem económica, como aconteceu em 2010 quando a despesa era alta e profundo o buraco nas contas públicas.
O anterior ministro das Finanças, Liam Byrne, reconheceu que o governo trabalhista levou o Reino Unido para esta situação na carta que deixou a David Cameron, há 5 anos, onde dizia simplesmente: “Não há dinheiro.
O primeiro-ministro defendeu, durante a campanha eleitoral, a contenção da despesa e redução do défice — com os inerentes cortes no sistema social criado depois da 2ª Guerra Mundial e que Cameron quer continuar a reformar — como base da recuperação da economia britânica, tendo pedido aos eleitores: “Deixem-me acabar o trabalho que comecei.

David Cameron já fez questão de anunciar que vai manter os principais ministros do actual Governo, recompensando o ministro das Finanças, George Osborne, com o título de “primeiro secretário de Estado” o que, na prática, faz dele o vice-primeiro-ministro.





*

O Reino Unido foi dividido em regiões eleitorais chamadas círculos eleitorais. Continua a haver uma distinção técnica entre círculos eleitorais de condado e círculos eleitorais de bairro, mas a única diferença é o montante que os candidatos estão autorizados a gastar durante as campanhas eleitorais que é maior para os círculos de condado por causa das despesas em viagens.

Os limites dos círculos são determinados por quatro Comissões de Fronteira permanentes e independentes, para Inglaterra, País de Gales, Escócia e Irlanda do Norte, respectivamente. As revisões dos limites realizam-se entre 8 e 12 anos, sendo as comissões obrigadas a ter em consideração os limites dos governos locais, exigência que é derrogada quando for preciso evitar grandes disparidades de população entre os vários círculos eleitorais.
As propostas das Comissões de Fronteira estão sujeitas à aprovação parlamentar, mas não podem ser alteradas. Após a próxima revisão geral do eleitorado, as Comissões de Fronteira serão absorvidas pela Comissão Eleitoral que foi criada em 2000.

Há 650 círculos eleitorais — 533 na Inglaterra, 40 no País de Gales, 59 na Escócia e 18 na Irlanda do Norte. Desde 1950, cada círculo eleitoral tem um único representante no Parlamento.

É preciso entender a democracia inglesa. O Estado britânico não têm uma agência pública para controlar os resultados das eleições mas tão somente uma Comissão Eleitoral para apoiar partidos e eleitores. A BBC desempenha a função de divulgar os resultados e o sistema funciona bem. Além disso, os eleitores não só não precisam de bilhete de identidade, como também inscrevem a cruz nos boletins de voto recorrendo a lápis.
Algo que, se fosse implementado em Portugal, daria azo a uma enorme fraude graças à mentalidade da falta de rigor e exigência no trabalho, e até da cunha e aldrabice que estão impregnadas nos genes lusos.

Também se confia na cultura, discernimento e consciência política dos eleitores no sentido de votarem no melhor candidato, de modo que apenas é eleito em cada círculo aquele que recebeu mais votos. Em consequência desta medida, o Reino Unido com uma população de 64 milhões tem apenas 650 deputados.

Em Portugal, que tem uma população de 10 milhões, esta medida daria 100 deputados, no máximo, o que chegava e sobejava porque, das seis filas de deputados no parlamento português, só falam os que se encontram sentados nas duas primeiras filas, os restantes estão apenas a receber salários e prebendas.
Nunca os partidos políticos portugueses vão permitir que a redução do número de deputados seja implementada no nosso País. António José Seguro tentou e foi cilindrado pelas clientelas socialistas. Passos Coelho prometeu reduzir o número de deputados para 181 no programa eleitoral do PSD em 2011 (p.9) mas não foi capaz de cumprir essa promessa.
Passos Coelho também não eliminou cerca de 1000 vereadores sem pelouro que infestam os governos locais; pelo contrário, entre 2009 e 2013, os mandatos aumentaram de 2078 para 2086 (ver Detalhes).
Os nossos políticos existem para se governarem e não para governar o País, por isso passei a anular os boletins de voto e defendo que os votos brancos e nulos sejam associados a lugares vagos no parlamento.

O regime eleitoral e o comportamento do eleitorado no Reino Unido demonstram que, se queremos assistir ao desenvolvimento da economia portuguesa e elevar o nosso nível de vida, será essencial que os portugueses de boa-fé incentivem uma profunda evolução cultural no nosso País, a começar nas administrações públicas — central, regiões autónomas e local — e, dentro da administração central, no professorado. É esse o objectivo deste blogue.


segunda-feira, 24 de março de 2014

Voo da Malaysian Airlines despenhou-se e não há sobreviventes


"A Malaysia Airlines lamenta profundamente ter de assumir, sem margem para dúvidas, que o voo MH370 está perdido e que ninguém a bordo sobreviveu. Tal como ouvirão na próxima hora do primeiro-ministro da Malásia, temos de aceitar que todas as provas sugerem que o avião caiu no sul do oceano Índico."

Foi esta a mensagem que a Malaysia Airlines enviou hoje às famílias dos 227 passageiros e 12 tripulantes do voo MH370 desaparecido no passado dia 8 de Março, quando seguia de Kuala Lumpur para Pequim. A companhia aérea teve a sensibilidade de fazer contactos pessoais ou por telefone, mas a alguns familiares foi enviado um SMS.
A notícia foi um golpe terrível para as famílias dos 153 passageiros chineses, ao destruir a esperança a que muitos se tinham agarrado de que o avião havia sido sequestrado e levado para algum local remoto onde os passageiros poderiam ainda estar vivos, dando lugar a actos de desespero.


March 24

Pouco depois, pelas 22:00 (14:00 em Lisboa), o primeiro-ministro da Malásia, Najib Razak, comunicava em conferência de imprensa:

"Esta noite, falei com representantes do Air Accidents Investigation Branch (AAIB) [Departamento de Investigação de Acidentes Aéreos] do Reino Unido. Informaram-me que a Inmarsat, a empresa britânica que fornece dados de satélite e que indicou a existência dos corredores norte e sul, tem estado a fazer novos cálculos a partir dos seus dados. Usando um tipo de análise nunca antes utilizado numa investigação deste género, eles conseguiram fazer luz sobre a rota do MH370.

Com base nesta nova análise, a Inmarsat e a AAIB concluíram que o MH370 voou ao longo do corredor sul, e que a sua última posição foi a meio do oceano Índico, a oeste de Perth [Austrália].

É um local remoto, longe de qualquer sítio onde seja possível aterrar. Por isso, é com profunda tristeza e pesar que, de acordo com estas novas informações, somos obrigados a concluir que o voo MH370 acabou no sul do oceano Índico.

Amanhã daremos uma conferência de imprensa com mais pormenores. Entretanto, iremos informando sobre novos desenvolvimentos, mal eles existam. Partilhamos esta informação num espírito de transparência e de respeito pelas famílias — dois princípios que sempre regeram a nossa investigação.

A Malaysia Airlines já falou com as famílias dos passageiros e da tripulação sobre este desenvolvimento. Para eles, as últimas semanas foram dilacerantes; sei que estas novas notícias ainda são mais duras. Peço aos media que respeitem a sua privacidade e que lhes dêem o espaço de que precisam neste momento difícil."


Chris McLaughlin, vice-presidente da Inmarsat confirmou que a empresa passou os últimos seis dias a rever os dados do voo 370, em estreita colaboração com a Boeing e outros peritos envolvidos na investigação e concluiu que o avião deve ter voado para o sul: "A nossa série de medidas dos sinais recaem sobre a pista sul já prevista, após a provável última curva". Acrescentou que esta análise admitiu a hipótese de que o avião manteve aproximadamente a mesma velocidade e a mesma direcção nas últimas horas de voo, tendo sido submetida à AAIB. "O que ainda não se pode dizer é o que aconteceu no final, quando o avião ficou sem combustível. Não temos nenhuma maneira de saber se se despenhou ou planou", concluiu.

Portanto começa a tomar forma a ideia de que o Boeing 777 voou cerca de sete horas com o piloto automático, emitindo sinais para um satélite de hora a hora, o último dos quais foi recebido às 8:11. E só se desestabilizou quando o combustível se esgotou.

Já o motivo porque o avião alterou radicalmente a trajectória de voo, depois do último contacto de voz do co-piloto com a torre de controlo pelas 1:19, permanece envolto em mistério. É que esta inversão da rota não é executada manualmente usando os controles do cockpit, é inserida num computador do cockpit antes ou depois da descolagem. A ocorrência de um incêndio a bordo pode ser uma explicação plausível.
O mistério ficará esclarecido com as gravações contidas nas caixas negras do avião e, por isso, todos os esforços se concentram na sua recuperação do fundo do oceano. O Comando do Pacífico dos Estados Unidos vai enviar um navio com um sonar capaz de detectar os pings de uma caixa negra a uma profundidade de 6 km.


*


Usando o efeito Doppler relativístico, a Inmarsat analisou pequenas variações na frequência dos sinais emitidos pelo avião e captados por um seu satélite geoestacionário sobre o oeano Índico. Esta análise permitiu inferir a trajectória do avião e calcular a localização final.
Eis uma brevíssima explicação do efeito Doppler:


Quando um seixo cai num lago, propagam-se ondas circulares à superfície da água. Nesta animação as circunferências rosa representam ondas sonoras emitidas pela sirene de um carro. Enquanto o carro está parado, as frentes das ondas são simétricas.

Quando o carro começa a mover-se, cada onda é emitida a partir de uma posição um pouco mais à esquerda do que a onda anterior. Para um observador à frente do carro, cada onda leva menos tempo a chegar até ele que a onda anterior. As ondas "acumulam-se", o tempo entre a chegada de frentes de ondas sucessivas diminui, logo a frequência aumenta (som agudo). Para um observador atrás do carro, as ondas "apartam-se", o tempo entre a chegada de sucessivas frentes de onda aumenta, logo a frequência baixa (som grave).
Em conclusão: para um observador a sirene soa mais aguda quando o carro se aproxima e mais grave quando o carro se afasta — é o efeito Doppler.






Avião em repouso. Emite pings com a frequência f.
O satélite vai receber a frequência f, esteja onde estiver.


Avião está a mover-se para a direita. Emite pings com a frequência f.
Como a fonte está em movimento, o centro de cada nova frente de onda está ligeiramente deslocado para a direita. Portanto as frentes de onda começam a acumular-se no lado direito (em frente do avião) e a apartar-se no lado esquerdo (atrás do avião). Se o satélite estiver na frente do avião vai receber uma frequência maior que f, se estiver por trás vai receber uma frequência menor que f.





Simulador do efeito Doppler
Ponha o avião S a emitir ondas electromagnéticas circulares (start emission). Depois desloque o avião (clicar e arrastar).
Observe a variação de frequência das ondas detectadas pelo satélite O.



sábado, 25 de maio de 2013

O novo império britânico de offshores e paraísos fiscais


Quem realmente vive no One Hyde Park [Londres], o edifício residencial mais caro do mundo? A maior parte dos proprietários das habitações é gente que se esconde atrás de offshores, de paraísos fiscais, o que nos dá o retrato dos novos super-ricos”, lê-se no artigo A Tale of two Londons, de Nicholas Shaxson, publicado na última edição de Abril da revista norte-americana Vanity Fair.

"É uma surpresa para a maioria das pessoas que o mais importante player do sistema global de offshores (livre de impostos e taxas) não seja a Suíça, nem as Ilhas Caimão, mas sim a Grã-Bretanha, situada no centro de uma rede de paraísos fiscais britânicos interligados entre si, a lembrar os últimos resquícios do império”, prossege o artigo.

Na terça-feira, a organização internacional não-governamental (ONG) Oxfam estimou em 14 biliões de euros o dinheiro ocultado em paraísos fiscais espalhados pelo mundo, dos quais 9,5 biliões de euros em offshores da União Europeia. Com os Estados a perderem cerca de 120 mil milhões de euros de receita fiscal.

Hoje o Expresso revelou, graças a uma parceria estabelecida com o Offshore Leaks, que há 22 nomes (seis portugueses) e 12 empresas offshores associados a moradas em Lisboa, Porto, Estoril e Almancil.
O Offshore Leaks, o maior e mais complexo trabalho de colaboração entre jornalistas de todo o mundo, é coordenado a partir de Washington pelo International Consortium of Investigative Journalists (ICIJ) e investiga paraísos fiscais.
Tem a participação de "The Washington Post" nos Estados Unidos, "The Guardian" e a BBC no Reino Unido, "Le Monde" em França, o "Novaya Gazeta" na Rússia, a "Folha de S. Paulo" no Brasil e, segundo o Expresso, já analisou 2,5 milhões de documentos secretos, relacionados com 120 mil companhias e 170 países.
Pretende lançar uma luz sobre as grandes fortunas que “fogem” ao pagamento de impostos numa altura em que, em Bruxelas, os chefes de Estado e de governo europeus se reuniram para adoptarem medidas de reforço da luta contra a evasão e a fraude fiscal.

No entanto, os resultados deste encontro de quarta-feira, 22 de Maio, em Bruxelas, não foram animadores: a decisão sobre a generalização da troca de dados sobre as transacções financeiras no espaço europeu foi adiada para Dezembro.

Ao contrário da França, que tem defendido medidas europeias contra a evasão fiscal, a Áustria e o Luxemburgo fazem depender a sua concordância da aprovação de legislação similar na Suíça, no Mónaco, em Andorra, em San Marino e no Liechtenstein, territórios europeus que não integram a UE.

A Inglaterra é sempre um opositor ao aumento da regulação financeira (bancos, operações financeiras e offshores) e qualquer mudança à actual “arquitectura” da city londrina (uma metrópole offshore) será sempre olhada como uma ameaça à “competitividade” da sua indústria financeira.
Daí o mapa que acompanha o artigo de Nicholas Shaxson ter o título “O Sol nunca se deita para o império britânico de offshores e paraísos fiscais”.

Um círculo interior formado por dependências da coroa britânica — Jersey, Guernsey, Ilha de Man. Um pouco mais longe estão os 14 territórios espalhados pelo mundo, metade são paraísos fiscais, incluindo, por exemplo, gigantes offshores como as Ilhas Caimão, as Ilhas Virgens Britânicas e as Bermudas. Ainda mais longe numerosos países da Commonwealth britânica e antigas colónias como Hong Kong, com profundas e antigas ligações a Londres, continuam a alimentar grandes fluxos financeiros questionáveis e sujos para dentro da City”, explica o artigo. "A situação dúbia, meio dentro, meio fora (colónias sem o ser), assegura um fundo de legalidade e de distância que permite à Grã-Bretanha dizer “que nada pode fazer” quando um escândalo rebenta”.

Sabe-se que uma parte significativa das grandes fortunas mundiais, das empresas e dos fundos de investimento internacionais controlados a partir das metrópoles financeiras acabam sediados em paraísos fiscais.
Mas são territórios onde o sigilo bancário e a complexidade das estruturas societárias dificultam a identificação das offshores, dos seus beneficiários efectivos e das verbas que por ali circulam.
Mesmo assim, Nick Shaxson garante que no fim do primeiro semestre de 2009, “só as três dependências da coroa britânica [Caimão, as Ilhas Virgens Britânicas e as Bermudas] providenciaram 332,5 mil miliões de dólares de financiamento para a City, a maior parte dinheiro estrangeiro não taxado”.

Estas questões estão de tal modo fora de controlo que, em 2001, até a Autoridade Fiscal britânica vendeu 600 edifícios a uma companhia, a Mapeley Steps, registada no paraíso fiscal das Bermudas para evitar o pagamento de taxas.

Nick Candy, o construtor do One Hyde Park, explicou que Londres “é a cidade no topo do mundo e o melhor paraíso fiscal para alguns”, enquanto Mark Holling, co-autor do livro Londongrad, de 2009, comenta a invasão russa: “Eles [russos] vêem a capital/city como a mais segura, justa e honesta para parquear o dinheiro e a justiça britânica nunca os extradita”, nem “a polícia os investiga”, apesar de “se desconhecer a origem do seu dinheiro” resultante das “privatizações pós-soviéticas corruptas”.

Shaxson recorda a política financeira da ex-primeira-ministra britânica, Margaret Thatcher: “As reformas financeiras [de Thatcher], nomeadamente, o Big Bang [desregulamentação], de 1986, fizeram disparar o número de banqueiros na city o que expandiu as operações financeiras” e atraiu o investimento estrangeiro.
A menor regulação não teve como resultado maior transparência e qualidade nas transacções financeiras, pelo contrário, esteve na origem da crise financeira anglo-saxónica de 2008.

Actualmente, num contexto de austeridade para os ingleses, a grande dimensão dos negócios em paraísos fiscais sob administração britânica tem gerado contestação ao governo de David Cameron. Até Lord Oakeshott, do partido Liberal-Democrata, o parceiro de coligação de Cameron, já avisou sobre as triangulações entre offshores: “É uma mancha na face da Grã-Bretanha. Como pode Cameron pedir seriamente ao G8 para reforçar as receitas fiscais, se depois deixar as ilhas [paraísos fiscais britânicos] usarem a lei para absorver milhões em dinheiro sujo?


quarta-feira, 8 de maio de 2013

Reino Unido procura limitar imigração


David Cameron vai propor alteração das leis de imigração para que o Reino Unido possa “atrair pessoas que contribuam para o país e desincentivar quem não o faça”.

A prioridade dada a estas medidas advém do fim próximo das restrições temporárias que o Reino Unido, tal como outros Estados, impôs à entrada em massa dos trabalhadores da Roménia e Bulgária.

O Governo quer proibir o arrendamento de casas a quem não esteja legalmente no país, impor multas mais pesadas para quem contratar trabalhadores ilegais e prevê que os imigrantes, incluindo os cidadãos da União Europeia (UE), só possam receber por mais de seis meses o subsídio destinado a quem procura trabalho, se provarem que têm “condições genuínas” para o conseguir.

Os imigrantes vão precisar de residir entre dois a cinco anos num determinado município para se poderem candidatar a uma casa com renda controlada e pagar taxas no serviço nacional de saúde podendo, em alternativa, os países de origem — incluindo os membros da UE — comparticipar parte das despesas.

Também pretende o Governo britânico tornar mais fácil a deportação de pessoas condenadas a penas superiores a 12 meses de prisão ou que estejam ilegalmente no país, limitando as situações em que podem invocar o direito à reunião familiar.


O anúncio do primeiro-ministro britânico surge depois de, quinta-feira, o Partido da Independência do Reino Unido (UKIP), ter multiplicado o número de votos nas eleições locais, atingindo uma média de 25% nos círculos em que apresentou candidatos. Além de defender a saída da União Europeia, o partido populista de Nigel Farage tem conquistado votos à direita com o seu discurso anti-imigração.

A imprensa também destaca que o discurso de Março de Cameron sobre imigração aconteceu depois de os conservadores terem descido para terceiro lugar em eleições intercalares para o Parlamento. Agora as sondagens mostram que o crescimento dos populistas pôs os conservadores dez pontos atrás dos trabalhistas, tornando improvável a vitória de Cameron nas legislativas de 2015.


No entanto, parece-me que nada mais está a fazer Cameron, senão a aplicar conhecimentos que advêm do estudo da História da Humanidade para prevenir situações de implosão dos Estados.
Recordamos a queda do Império Romano do Ocidente, em 476, após séculos de decadência a que se seguiram as invasões dos bárbaros. Bárbaros para os invadidos, entenda-se, porque desfrutavam de poder económico e financeiro inferior a Roma, mas com valores morais e respeito pela instituições muito superiores aos da decadente e amoral sociedade romana.


sexta-feira, 24 de agosto de 2012

No rescaldo do julgamento de Breivik


Com a condenação à pena máxima de 21 anos de prisão renováveis, chegou ao fim o julgamento de Anders Breivik que massacrou 77 pessoas, em Julho do ano passado, nos atentados contra um edifício do Governo em Oslo e num encontro da Juventude Trabalhista na ilha de Utoya, perto da capital norueguesa.

Foi um julgamento impressionante.

Pela celeridade da justiça norueguesa e elevado comportamento dos juízes que, entre outras rotinas, cumprimentaram o arguido com um aperto de mão.

Pela arrepiante coerência de Breivik.
Tendo sido submetido a uma primeira avaliação médico-legal que lhe atribuía esquizofrenia paranóide considerando que não podia ser responsabilizado pelos seus actos, Breivik contestou. Numa carta enviada a um jornal norueguês, insistiu que os seus crimes foram "ideologicamente motivados" e preferia morrer a ser internado numa instituição psiquiátrica: "Enviar um activista político para um hospício é mais sádico e mais maléfico do que matá-lo!"
Na primeira audiência, em 16 de Abril deste ano, começou por saudar a assistência com um gesto conotado com a direita radical.
Quando lhe foi permitido falar, declarou à juíza presidente: "Não reconheço os tribunais noruegueses. Vós recebestes o vosso mandato dos partidos políticos que apoiam o multiculturalismo. Não reconheço a autoridade deste tribunal".
Confessou os ataques mas recusou quaisquer responsabilidades criminais pelos seus actos.
Pediu desculpa aos familiares das vítimas sem filiação política, recusando-se a fazer o mesmo pelos mortos na ilha de Utoya porque considerava que o massacre dos jovens políticos e de funcionários ministeriais foi "atroz, mas necessário".
Alegou ter agido em "legítima defesa (...) contra os traidores da pátria", apresentando o Partido Trabalhista como um “alvo legítimo” porque apoia a imigração e o multiculturalismo, políticas que poderão levar o Islão a controlar a Europa.
"Executei o mais sofisticado e espectacular ataque político cometido na Europa desde a Segunda Guerra Mundial. (...) Não tenho medo da perspectiva de ficar preso o resto da vida. Já nasci numa prisão onde não posso expressar as minhas crenças. Essa prisão chama-se Noruega", afirmou Breivik em tribunal, tendo acrescentado que agiu "em situação de emergência em nome do meu povo, da minha cultura e do meu país".

Nas alegações finais, a acusação a cargo dos procuradores do Ministério Público norueguês pediu que Breivik fosse internado numa instituição psiquiátrica. Pelo contrário, a defesa afastou o internamento psiquiátrico e pediu "uma pena de prisão o mais clemente possível" porque "a violência não foi o factor que desencadeou as suas acções, mas sim a sua ideologia radical".


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São realmente perigosas as ideologias radicais.

Regressemos ao final dos anos oitenta do século passado, quando foi criada uma organização fundamentalista islâmica — a Al-Qaeda — que pregava a guerra santa e treinava guerrilheiros em países muçulmanos, nomeadamente no Afeganistão e no Paquistão, para executarem actos terroristas contra interesses norte-americanos como, por exemplo, as suas embaixadas e consulados.

Aproveitando habilidosamente um desses ataques perpetrado em 11 de Setembro de 2001 contra as torres gémeas do World Trade Center — parece haver indícios de que até o maximizaram —, os Estados Unidos desencadearam uma intervenção militar no Afeganistão dominado pelos talibãs e principal foco da guerrilha.

Que, muito oportunistamente, estenderam ao Iraque, um país governado por um ditador pró-ocidental, tolerante em termos religiosos, não apoiante da Al-Qaeda e detentor de uma das maiores reservas de petróleo mundiais segundo a CIA. Com o apoio do Reino Unido, da Espanha e doutros aliados europeus.
Esta atitude foi trágica: acirrou o fanatismo religioso no mundo muçulmano e fez crescer exponencialmente a cruzada islâmica, agora estendida aos aliados europeus dos EUA na guerra contra o Iraque. Até os muçulmanos moderados se sentiram humilhados pela sociedade ocidental, de que abominam certos comportamentos decadentes — consumo de drogas, prostituição, pedofilia, pornografia, ... —, e regressaram a práticas culturais tradicionais que estavam a ser abandonadas, como o uso do hijab (lenço islâmico).

Se a cruzada islâmica existe, é preciso combatê-la.
Pegando em armas, ou procurando demonstrar, pela prática, a superioridade dos valores do mundo ocidental — o respeito pela vida humana, a igualdade de géneros, a defesa da biodiversidade, do multiculturalismo e da liberdade de expressão?

Os EUA perseguem impiedosamente os guerrilheiros e aprisionam, e até matam, os civis que sejam suspeitos como foi denunciado por Julian Assange.
Os políticos europeus procuram uma via mais fraterna, justa, tolerante e lembram que há muito aboliram a pena de morte. Mas nem sempre os actos estão de acordo com as ideias, há muita ganância e hipocrisia nos corredores do poder. E se há algo que os muçulmanos não apreciam é a mesquinhez e a dissimulação.
No entanto, do outro lado da barricada não há só qualidades, também existem defeitos ancestrais como a sensualidade, o autoritarismo e a violência. Além de que são detentores das maiores reservas de petróleo do planeta. E riqueza, por vezes, acarreta decadência moral.

Muitos europeus e muçulmanos vão sofrer e morrer neste embate entre as culturas ocidental e islâmica. Que vença o que cada uma tem de melhor.