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quinta-feira, 25 de junho de 2015

A concessão do oceanário de Lisboa - I


A Sociedade Francisco Manuel dos Santos propôs comprar a Oceanário de Lisboa SA, a concessionária pública que gere o oceanário, por 34 milhões de euros. Fica ainda a pagar uma renda pela concessão do oceanário durante 30 anos, atingindo a proposta global 124 milhões de euros.




"O Oceanário não passa para privados. O Oceanário era propriedade da Parque Expo e, por decisão do Governo, passou para património do Estado. Continuará a ser. O processo de privatização é da entidade concessionária, da empresa que gere," esclarece Luís Marques Guedes, ministro da Presidência.

A infra-estrutura continuará a ser património do Estado. O que vai ser privatizado é a sociedade que a gere, a Oceanário de Lisboa SA., cujo capital será vendido por 34 milhões de euros à Sociedade Francisco Manuel dos Santos (SFMS), a holding que controla o grupo Jerónimo Martins.
Pela concessão do oceanário, que terá 30 anos de vida, a SFMS ficará a pagar uma renda anual de 3 milhões de euros, elevando a proposta global pelo oceanário de Lisboa aos 124 milhões de euros.

Situado no Parque das Nações, o oceanário é um dos activos que o Governo escolheu concessionar para reduzir a dívida da Parque Expo, a sociedade criada para a Expo'98 e actualmente em liquidação, depois de ter anunciado a sua extinção em 2011.
A Parque Expo transferiu o Oceanário para o Estado pelo valor de 54,2 milhões de euros, o que permitiu à empresa liquidar esse montante em dívida ao Estado.

O Orçamento do Estado para 2015 previa receitas de 40 milhões de euros com a concessão do oceanário, que em 2014 gerou lucros de 1,49 milhões e recebeu quase 987 mil visitantes (+7% que no ano anterior).

Além da Sociedade Francisco Manuel dos Santos do grupo que controla o Pingo Doce, concorreram o grupo espanhol Aspro Parks — proprietário do parque de diversões aquáticas Aqualand, em Alcantarilha, no Algarve, entre outros parques europeus —, a empresa portuguesa Mundo Aquático, gestora do parque Zoomarine, no Algarve, o grupo francês Compagnie des Alps — gestor de mais de uma dezena de parques de lazer, museus e áreas de esqui — e a espanhola Parques Reunidos, que gere 56 parques na Europa, nos Estados Unidos e na Argentina.

A Sociedade Francisco Manuel dos Santos é liderada por José Soares dos Santos, que é licenciado em Biologia Marítima. Estava já a desenvolver a criação de uma Fundação para os oceanos e o oceanário de Lisboa vai ser uma peça essencial desse projecto.




*


É impressionante a quantidade de dívida que se deixou acumular em tudo o que são empresas públicas, nas grandes e nas pequenas, até na Parque Expo, a demonstrar que os políticos em quem temos votado nas últimas décadas foram uma nulidade como gestores.

A venda do capital da concessionária do oceanário vai proporcionar ao Estado um encaixe que fica aquém das expectativas do Governo registadas no OE 2015.
No entanto, se atendermos a que a renda que o concessionário privado fica a pagar anualmente é o dobro dos lucros da empresa no ano passado, acaba por parecer um bom negócio para o Estado.

Os comentadores, que analisaram os dados já divulgados, têm a mesma opinião:

Edgar Rodrigues @ Facebook
07:57
Em 2014 o oceanário obteve 1,5 milhões de euros de lucro (foi o maior lucro de sempre). 1,5 × 30 = 45 milhões de euros.
Se pelos 30 anos de concessão pagarem 3 milhões de euros ao ano, resulta em 90 + 34 = 124 milhões de euros. Se assim for, parece-me um bom negócio para o Estado.


quarta-feira, 24 de junho de 2015

A privatização da TAP - IV


A assinatura do contrato de venda de 61% da TAP realizou-se hoje no Ministério das Finanças. Maria Luís Albuquerque e António Pires de Lima assinaram o documento pelo Governo, Humberto Pedrosa e David Neeleman pelos compradores.

Um Neeleman radiante pediu aos portugueses para confiarem nos novos donos da TAP que reconhecem a importância da empresa para Portugal, confirmou a vontade de reforçar as ligações ao continente americano, voando para mais destinos nos Estados Unidos e no Brasil, e prometeu fortalecer o hub português:

24 Jun, 2015, 09:43

Humberto Pedroso, dono da Barraqueiro, garantiu que ele e David Neeleman têm um projecto ambicioso para a empresa, mas sólido e realista, deixando uma promessa: "Somos empreendedores. Não somos investidores financeiros. Ambos somos fiéis às empresas que criamos e fazemos crescer."
Também garantiu que o centro de decisões e o hub continuam em Lisboa e afirmou ter orgulho em que a TAP seja portuguesa:

24 Jun, 2015, 10:07

O ministro da Economia, António Pires de Lima, lembrou que a TAP precisa urgentemente de ser capitalizada e que as regras europeias impediam o Governo de o fazer sem uma profunda reestruturação da empresa. Deixou bem claro: "As companhias de bandeira mais bem sucedidas na Europa são todas, repito, são todas empresas privadas."
No final, ficou um elogio à administração e trabalhadores da TAP: "O sucesso desta privatização é também, ou se calhar sobretudo, o reconhecimento por parte dos novos investidores das competências e capacidades de gestão e de trabalho desta empresa. Para aqueles que quiserem, e sobretudo merecerem, esta privatização significa também a capacidade de, profissionalmente, poderem voar mais alto."

24 Jun, 2015, 10:18

Maria Luís Albuquerque, ministra das Finanças, encerrou o período reservado aos discursos classificando a privatização da TAP como um marco: "Muito mais que um novo sucesso no programa de privatizações, ao assegurar a viabilidade da companhia aérea e a continuidade do seu contributo para a economia nacional, marca um verdadeiro momento de viragem."

24 Jun, 2015, 10:37

O momento da assinatura e as declarações de Fernando Pinto, o ainda presidente executivo da TAP que vai assegurar a transição e, eventualmente, poderá permanecer na empresa:



24 Jun, 2015, 19:22

Depois da assinatura do contrato que os tornou donos da TAP, David Neeleman e Humberto Pedrosa realizaram uma conferência de imprensa para revelar o plano estratégico da empresa:



24 Jun, 2015, 19:25

O consórcio Gateway quer criar 10 novas rotas para os Estados Unidos, passando a voar para Boston, Washington e Chicago. Para Africa e Europa o objectivo é aumentar a frequência de voos. No Brasil vai aproveitar a ligação à companhia aérea Azul.
A frota será renovada com 53 novos aviões que deverão começar a chegar em 2017. Com a renovação da frota e a capitalização da TAP, David Neeleman e Humberto Pedrosa pretendem investir entre 600 e 800 milhões de euros.


*


Alea jacta est. O fim das greves no Verão e nas épocas festivas, será proveitoso para o turismo e para as exportações portuguesas. Que todos beneficiemos, em vez de uma minoria privilegiada, sem demérito da qualidade do seu trabalho.

A reduzidíssima adesão ao protesto contra a privatização da empresa, convocado pela Comissão de Trabalhadores da TAP junto ao ministério da Economia, parece mostrar que os trabalhadores reconhecem que exorbitaram nas exigências de outrora e estão dispostos a colaborar lealmente com os novos donos da empresa e em proveito do nosso País.

O contrato de venda da TAP é claro: o encaixe para o Estado vai variar entre 16 e 150 milhões de euros, dependendo do EBITDA (resultado antes de juros, impostos, apreciações e amortizações), em 2015, e da entrada em bolsa que também está condicionada pelo desempenho da empresa.
O EBITDA, que em 2014 foi 90 milhões de euros, terá de atingir 280 milhões no corrente ano, uma meta que só será alcançada, se os trabalhadores colaborarem. No final, os portugueses farão a sua avaliação e lavram o veredicto: o peso da opinião pública é tremendo.




Jornal de Negócios


sábado, 13 de junho de 2015

A privatização da TAP - III


A dívida da TAP vai ficar nas mãos dos compradores — o consórcio Gateway formado por David Neeleman e Humberto Pedrosa — que têm de respeitar os direitos dos trabalhadores mas podem reduzir o seu número.

O ministro da Economia, António Pires de Lima, referiu que vai ser possível aos novos donos da TAP dispensar trabalhadores: "Por rescisões amigáveis podem ser dispensados em qualquer empresa."

O ministro congratula-se que a dívida da TAP — 1062 milhões de euros — ficará nas mãos dos compradores. Pires de Lima esclarece que a dívida da transportadora pode vir a ser renegociada, mas "em qualquer circunstância ficará na TAP".

"Esta é a melhor garantia que podemos ter de que a TAP vai ter novos aviões, vai poder crescer, que a TAP vai poder aproveitar todas as oportunidades desenvolvimento que teve no passado, mas não pode concretizar, e vai pagar de forma mais adequada aos seus profissionais", defendeu o ministro da Economia.


13 Jun, 2015, 13:32

O secretário de Estado dos Transportes, Sérgio Monteiro, reforçou que "não há qualquer aval da dívida da TAP, transferência da dívida da TAP do seu balanço para o balanço da Parpública, transferência da dívida da TAP para o balanço do Estado, isso podemos garantir". Nem um cêntimo vai sair do bolso dos portugueses.


12 Jun, 2015, 08:17


A venda da TAP está explicada em pormenor aqui.




A Espírito Santo International assinou um contrato de venda da Portugália à TAP, em Novembro de 2006, pelo valor de 140 milhões de euros e sem passivo.


Capitalização: o consórcio comprometeu-se a injectar 338 milhões de euros na TAP para cobrir a maior parte da sua situação líquida negativa que ascende a 512 milhões de euros. Daquele montante, 269 milhões entrarão na TAP até ao fecho do negócio, garantindo 80% do total. O restante virá em quatro parcelas trimestrais de 17 milhões de euros até ao fim de 2016.

Preço inicial: o Governo encaixa 10 milhões de euros de imediato. Dois milhões virão na assinatura do contrato de venda e os restantes oito milhões no fecho do negócio.

Opção de venda dos restantes 34%: ficou registada a opção de venda da participação de 34% que a Parpública ainda mantém na TAP ao consórcio que já assegurou 61% da empresa (continuam reservados 5% para os trabalhadores), embora o Estado possa anulá-la. No mínimo, o Estado encaixará 6 milhões de euros com a venda da participação restante. Este valor poderá subir para 50 milhões, se a TAP registar um EBITDA (resultado antes de juros, impostos, apreciações e amortizações) superior a 250 milhões de euros em 2015. A alienação poderá ser feita nos dois anos após o fecho do negócio.

Oferta Pública Inicial (IPO, na sigla inglesa): se houver uma oferta pública inicial (isto é, se a TAP entrar em bolsa) até quatro anos após o fecho do negócio, o Estado recebe mais 90 milhões de euros. Para tal, o desempenho da TAP em 2015 terá de ser como acima referido, podendo o próprio Estado tomar a iniciativa da IPO enquanto ainda for accionista da empresa.

Portanto o preço mínimo da proposta conjunta de Neeleman e Pedrosa é 354 milhões de euros — capitalização de 338 milhões, preço inicial de 10 milhões e 6 milhões com a opção de venda. Foi este o valor utilizado como termo de comparação com a proposta de Germán Efromovich.





O consórcio trará 53 novos aviões para a TAP que deverão chegar entre 2017 e 2025. Também ficou prevista a partilha de aviões com a companhia aérea brasileira Azul que já voa para dois destinos nos Estados Unidos. Aliás a aposta no mercado norte-americano é uma das prioridades.
A sede da empresa em Portugal e as rotas estratégicas ficam asseguradas por dez anos e a plataforma (hub) no aeroporto de Lisboa por trinta anos.

A intenção do Governo é assinar o contrato de venda ainda este mês de Junho, depois de o processo passar pelo crivo dos reguladores nacionais e europeus, nomeadamente a Direcção-Geral da Mobilidade e Transportes da Comissão Europeia.


*

Os actuais governantes afirmam que o Estado ainda poderá arrecadar mais 134 milhões de euros, se a TAP tiver um resultado operacional superior a 250 milhões no corrente ano. Com todos nós a lembrarmo-nos que a greve de dez dias dos pilotos, no passado mês de Maio, causou prejuízos de cerca de 35 milhões de euros, ou são utópicos ou estão a tomar-nos por parvos.

Pode parecer incompreensível que o Governo não procure manter, pelo menos, a participação de 34% no capital da TAP uma vez que o Estado irá encaixar uma insignificância de 6 milhões com a sua alienação.
Obviamente que nenhum empresário aceitaria pagar 354 milhões por uma empresa com mais de 500 milhões de capitais negativos, sem deter o seu controle. Mas se o Estado retivesse uma participação minoritária, podia acompanhar a gestão numa posição privilegiada no interior do grupo. O problema é que, nesse caso, seria responsável por uma parte significativa da colossal dívida do grupo TAP.

Quanto à luta feroz que trabalhadores, sindicatos e outros interesses associados à TAP desencadearam para manter a empresa na esfera do Estado, como é bem visível no jornal 2 da RTP, no dia 11 de Junho, em que até houve quem tivesse tentado denegrir o empresário David Neeleman, só mostra quanto esta gentinha tem ganho à sombra da companhia aérea nacional.

Entalado entre os interesses dos políticos do Governo, por um lado, e os interesses dos políticos da oposição e suas clientelas, por outro, no final, quem é depenado é sempre o contribuinte que não chafurda na política.

No entanto, como é preciso acabar com a bandalheira das greves e com a bola de neve da dívida que continua a rolar e a crescer pela encosta abaixo, a reprivatização da TAP é indispensável. Finalizemos, pois, com esta pérola de bom humor:


Pecas
Político de Bancada, Lisboa 13/06/2015 14:16
Aí está a lógica capitalista a imperar na gestão de uma empresa. Em vez de comprar o dobro dos aviões e aumentar exponencialmente a dívida, aumentar o ordenado dos pilotos para o triplo e reduzir a semana de trabalho para 24 horas, estes capitalistas de meia tigela parece que querem impor uma gestão de rigor onde até hoje reinou o regabofe. Inadmissível!


quinta-feira, 11 de junho de 2015

A privatização da TAP - II


O Conselho de Ministros escolheu o consórcio Gateway — constituído pela Barraqueiro e pela Azul — como vencedor do processo de reprivatização de 61% do capital da TAP por 354 milhões de euros. O Estado encaixa 10 milhões de euros no imediato.

David Neeleman, dono da Azul, que é a terceira maior companhia aérea brasileira, concorreu em parceria com Humberto Pedrosa, da Barraqueiro. A empresa portuguesa tem uma participação de 50,1% no consórcio Gateway, cumprindo assim o requisito da nacionalidade europeia que é obrigatório para poder controlar companhias aéreas da União Europeia.




Perfil de David Neeleman

Filho de americanos, nascido em São Paulo em 1959, criou até agora quatro companhias aéreas, a Morris Air e a JetBlue, nos Estados Unidos, a WestJet no Canadá e a Azul no Brasil.
É considerado um empreendedor no negócio da aviação, sendo-lhe atribuídas inovações desta industria como o e-ticket e a TV ao vivo durante os voos. Orgulha-se de nunca ter feito despedimentos em massa, de todas as companhias que fundou serem lucrativas e de ter sempre distribuído lucros pelos colaboradores.

Na passada sexta-feira 5 de Junho, data em que terminou o prazo para entregar ao Governo uma proposta melhorada de compra da transportadora aérea portuguesa, Neeleman tinha revelado por escrito alguns pormenores da proposta do consórcio:

"Uma parte importante do nosso plano é a renovação da frota. Iremos comprar 53 aviões novos e tecnologicamente avançados. Além de serem um elemento adicional de motivação para os nossos colaboradores são também um factor muito relevante para os nossos clientes já que ao serem mais cómodos, silenciosos e económicos constituem um factor adicional para que continuem a dar preferência à TAP."

Comprometeu-se também a reforçar o hub de Lisboa "para que a TAP possa continuar a contribuir com cerca de dois mil milhões para a economia portuguesa". E a "dar continuidade ao legado da TAP em matéria de segurança e profissionalismo de todos os que lá trabalham e, simultaneamente, criar uma companhia financeiramente sólida, no longo prazo, de modo a que todos se sintam orgulhosos por trabalhar numa companhia aérea que perdurará para as gerações futuras".

"Somos um grupo de parceiros fortes e comprometidos com uma história de sucesso e crescimento que fala por nós. Este é um compromisso que o Humberto Pedrosa e eu assumimos juntamente com os nossos parceiros perante o País, a TAP, os seus colaboradores e os seus clientes."

A proposta inicial previa um investimento de 350 milhões de euros com a compra de 53 aviões novos para a TAP.
Os planos de David Neeleman para a TAP passam, no que diz respeito à operação, por um reforço dos destinos no Brasil e em África, para os quais a companhia aérea voa actualmente, bem como dos destinos nos Estados Unidos para onde a Azul já voa. Qualquer uma destas estratégias exige o reforço da frota.
Neeleman tencionava distribuir anualmente 10% dos lucros da empresa aos trabalhadores, uma política que tem seguido em todas as transportadoras que criou.

Além da operação para o Brasil e para África, os pontos fortes da TAP eram a marca e a segurança.
Pelo contrário a sua elevada dívida — 1062 milhões de euros no final do exercício de 2014 —, a instabilidade laboral e a actual incerteza política sobre o desfecho do processo de privatização em curso desvalorizavam a companhia.


11 Jun, 2015, 16:15

Agora Isabel Castelo Branco, secretária de Estado do Tesouro, acaba de revelar que o Governo entregou 61% do capital da TAP ao consórcio Gateway, "no mínimo a 354 milhões de euros, valor que pode chegar aos 488 milhões de euros, em função da performance económico-financeira da empresa, durante o ano 2015". O valor também depende da possibilidade de efectuar uma operação de colocação no mercado de capitais que pode ser realizada até quatro anos após a conclusão da venda.


*


Depois dos prejuízos causados pela greve de dez dias dos pilotos no início de Maio, contar com resultados positivos na TAP, em 2015, será como considerar o ovo dentro do sim senhor da galinha. A venda será feita por 354 milhões de euros, dos quais 344 milhões para capitalizar a empresa e os restantes 10 milhões para o Estado, ponto final.

Também não se percebe onde vão estacionar os 53 novos aviões e, ainda menos, onde a Gateway vai arranjar o dinheiro para a locação operacional dos ditos, se a operação de colocação no mercado de capitais não se realizar. Mesmo assim, o contribuinte português exulta por ir deixar de pagar os prejuízos anuais da TAP:

Hip Hip Hurra
15:00
Agora falta a Carris/Metropolitano, Transtejo e outros ninhos de comunas sindicalistas parasitas.

Anónimo
15:11
Só ainda não percebi aonde é que vão estacionar os 53 novos aviões.
Aonde moro não temos garagem.

Anónimo
15:24
Obrigado, David, por ficares com o cancro da TAP! Uffa. Mais um 'sofreguedouro' do Estado fora da carteira dos Portugueses!

morador propr.na alta de lisboa
15:30
Os novos aviões vão ficar estacionados nos terrenos da Musgueira Norte e Sul. Vão deitar abaixo as casas que deram de borla aos ciganos e pessoal da Musgueira e também ao pessoal das Calvanas que construíram casas nos terrenos da câmara.

aa
15:38
100 milhões não dá para 53 novos aviões! Um avião custa, no mínimo, 15 milhões de euros. Só se vão comprar avionetas. Um Airbus 320 tem capacidade para cerca de 110 pessoas e custa cerca de 85 milhões.

anonimo
16:09
Obrigado, grande David, agora os grevistas vão fazer greve no *aralho! Os pilotos vão ficar com os ditos cujos entalados como merecem. Hoje foi um grande dia! Mas ainda falta os cancros malignos: Refer, metros de Lisboa, Porto e Sul do Tejo, STCP, Carris e RTP.

mestris
17:04
Não entendo este PS.
Então não se lembram que há 15 anos tentaram vender directamente à Swissair, sem concurso, e que o negócio não foi para a frente porque já na altura a Swissair estava em vias de falir. Se tivessem efectuado a venda, onde estaria hoje a TAP? Na massa falida da Swissair.
Vergonhosa a postura do PS em dizer que anulará a venda, se for governo. É a caça aos votos da malta da TAP, sempre são 8000 alminhas e mais o resto da família.

mestris
17:06
Mais um reparo: quem vai colocar lá os 400 milhões de euros que a TAP tem que pagar nos próximos 3 meses? A TAP está em falência técnica há mais de 10 anos.

00SEVEN
19:02
Ufff!
Que alívio!
Vender mais de 1 mil milhões de Euros de dívidas, acrescidos de mais de 500 milhões de Euros de capitais negativos e 11 mil grevistas por 10 milhões de Euros!
Grande negócio!
Quero este governo mais 10 anos no poder!


segunda-feira, 18 de maio de 2015

A privatização da TAP - I


O prazo para os interessados na compra até 61% do grupo TAP apresentarem uma proposta vinculativa terminou às 17 horas desta sexta-feira, 15 de Maio.


16 Mai, 2015, 13:49


Foram apresentadas três propostas vinculativas e pouco a pouco vão sendo conhecidos os pormenores das propostas que estão resumidos neste quadro:




18 Mai, 2015, 14:02


Miguel Paes do Amaral é português, Gérman Efromovich, dono da Avianca, tem nacionalidade polaca e David Neelman, accionista da Azul Linhas Aéreas Brasileiras, é norte-americano.
O Governo português tem, portanto, de confrontar-se com o facto de haver candidatos de fora da União Europeia e já contratou uma sociedade de advogados estrangeira, a Freshfields, para avaliar se os consórcios que estão a concorrer à reprivatização do grupo TAP cumprem as regras da União Europeia relativamente ao controlo de companhias aéreas, que impede cidadãos de fora da região de deter mais de 50% do capital.

Por outro lado, as ofertas para 61% do capital do grupo TAP, ao proporem uma injecção de capital de 350 milhões de euros, no máximo, não poderão retirar o grupo da situação líquida negativa de 512 milhões de euros em que se encontrava no final do ano passado.

As próximas etapas

No prazo de cinco dias úteis após a recepção das propostas, ou seja, até à próxima sexta-feira, e após ser ouvido o conselho de administração do grupo TAP quanto às propostas de projectos estratégicos, a Parpública — holding que gere as participações do Estado — terá de elaborar um relatório.
Esse relatório deve descrever pormenorizadamente as propostas recebidas e fazer a apreciação de cada um dos proponentes e das respectivas propostas, determinando o seu mérito relativo em função dos critérios de selecção definidos, o primeiro dos quais é a contribuição para o reforço da capacidade económico-financeira do grupo TAP.

Também a comissão especial de acompanhamento da reprivatização do grupo, liderada por João Cantiga Esteves, terá de se pronunciar sobre as propostas.

As regras do concurso, admitem que o Conselho de Ministros decida a realização de uma fase ulterior de negociações, com a finalidade de permitir a apresentação de propostas vinculativas melhoradas e finais pelos proponentes.

O Governo pretende que a escolha do vencedor seja feita duas semanas depois da entrega das propostas, ou seja, até ao final de Maio e quer assinar o contrato com o comprador de 61% do capital do grupo TAP até ao fim de Junho.
O futuro vencedor da privatização do grupo será obrigado a adquirir as acções destinadas aos trabalhadores, se estes não estiverem interessados. No limite pode vir a controlar 66% do grupo TAP.


A dívida do grupo TAP atingiu 1062 milhões de euros, no final de 2014, um valor tão elevado que os activos — aviões, terrenos e edifícios, equipamento, valor das rotas, ... — não conseguem cobrir a dívida e restante passivo, ficando o grupo com 512 milhões de euros de capitais próprios negativos, ou seja, em situação de falência técnica.

Mas, apesar da dívida do grupo ter atingido um valor excessivo, não vai ser o único motivo de preocupação para o eventual comprador.
É que o grupo registou prejuízos de 85,1 milhões de euros, um valor que representa um colossal agravamento face aos 5,9 milhões de euros registados em 2013 (p.25 do Relatório e contas).

A TAP Manutenção e Engenharia Brasil, unidade que nos últimos anos foi responsável pelo agravamento da situação líquida do grupo, ainda registou um prejuízo de 22,6 milhões de euros mas, se compararmos com os 40,3 milhões de euros registados no ano anterior, apresentou uma notável melhoria.

Donde veio, então, o descalabro nas contas de 2014?
Do transporte aéreo — a TAP SA — que passou de lucros de 34,0 milhões para prejuízos de 46,4 milhões. A administração do grupo explicou este resultado com "o impacto das greves na operação, pelo custo associado ao fretamento de aviões e, na vertente dos proveitos, pela redução de yield [receita média por cliente] no Brasil e na Europa, fenómeno transversal à globalidade da Indústria".


*

A Avianca é a maior companhia aérea da Colômbia e a segunda maior da América Latina. Tem várias subsidiárias: Avianca Brasil, que é a quarta maior companhia de aviação do Brasil, Avianca Costa Rica, Avianca Equador, Avianca El Salvador, Avianca Peru. A sua frota inclui 4 Boeing e 120 Airbus, dos quais 10 aviões A330.

A Azul Linhas Aéreas Brasileiras é a terceira maior companhia do Brasil em número de passageiros transportados e frota de aeronaves e a que mais cresce em termos de passageiros por quilómetro voado. Em Dezembro do ano passado, tornou-se uma companhia aérea de bandeira do Brasil ao começar rotas internacionais — 2 destinos nos Estados Unidos. Tem 5 Airbus A330.

A TAP SA garante ligações para 88 destinos, espalhados por 38 países e a sua frota é composta por 61 aeronaves de modelo Airbus, dos quais 14 aviões A330 e 4 aviões A340.

Um Airbus A320 custa 85 milhões de euros.
No caso do Airbus A330, o preço começa em 205 milhões de euros.
E para comprar o Airbus A350 mais baratinho, é preciso despender 240 milhões de euros.

Como contribuinte anseio pela privatização do grupo TAP, mas estas propostas de uma companhia latino-americana e de outra que está a iniciar a sua internacionalização causam-me algum desconforto. Mas quem quer investir num grupo que, assombrado por constantes greves, está a caminhar para o abismo?


segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Nos bastidores da privatização da EDP


Nas operações financeiras de nível internacional o lobbying exercido pelas empresas de assessoria financeira e jurídica sobre os gabinetes ministeriais é sempre enorme.

A privatização da EDP, classificada pela consultora PricewaterhouseCoopers como a nona maior transacção mundial no sector da energia, em 2011, vem confirmar essa regra.
Ao escutar um banqueiro do BESI, no perímetro da investigação de uma rede de fuga ao fisco e branqueamento de capitais, o procurador Rosário Teixeira cruzou-se com um telefonema de pressão sobre Passos Coelho no âmbito da privatização da EDP.

O Governo de Passos Coelho esperava que a primeira, e maior privatização do seu mandato, fosse um sucesso. E, em termos de encaixe financeiro, foi: a China Three Gorges Corporation comprou 21,35% do capital da EDP por 2,69 mil milhões de euros.

No entanto, a venda de parte significativa da maior empresa portuguesa do sector da energia a uma empresa chinesa em detrimento de uma europeia, que nada tinha de privada e até pertencia a um Estado não democrático, e nos termos em que foi concretizado o negócio, só podia ser polémica.


Várias empresas mostraram interesse na aquisição da EDP: a alemã E.ON, a China Three Gorges, as brasileiras Eletrobras e Cemig, a EDF e a Gas Natural Fenosa.

O Estado e a EDP contrataram a assessoria jurídica na Morais Leitão, Galvão Teles, Soares da Silva (MLGTS), sendo a equipa liderada pelo advogado Nuno Galvão Teles, e ninguém questionou a escolha.
A E.On teve o apoio do escritório de Lisboa da sociedade internacional de advogados Linklaters, sendo a equipa dirigida pelo advogado Jorge Bleck.
A China Three Gorges escolheu para assessores jurídicos a Serra Lopes e Cortes Martins, em colaboração com a firma norte-americana Skadden Arps, com o advogado Luís Cortes Martins a liderar a equipa.
As brasileiras Eletrobras e Cemig tiveram apoio jurídico da Pereira, Sáragga Leal, Oliveira Martins e Júdice (PLMJ) e da Cuatrecasas, Gonçalves Pereira, respectivamente.
A EDF contratou a Uría Menedez/Proença de Carvalho, conotada com os socialistas, e a Gás Natural Fenosa, a Campos Ferreira e Sá Carneiro, mas desistiram à partida.

Em 30 de Agosto de 2011, Vítor Gaspar anunciou a contratação, por ajuste directo, da Perella Weinberg Partners para assessor financeiro do Estado nas privatizações da EDP (21,35%), da REN (40%) e da Galp (10%). Falta de tempo para lançar um concurso público, foi a justificação do ministro.
Tratava-se de um negócio de 16 milhões de euros e a Perella não estava na lista das instituições que haviam manifestado interesse na operação. Estas melindraram-se e lembraram que tempo não constituía problema: a escolha dos assessores do Estado na privatização da Galp fora feita, no ano anterior, com base num concurso limitado com o vencedor anunciado ao fim de uma semana.
E um jurista, Bacelar Gouveia, levantou a questão da legalidade: "Se a empresa não está pré-qualificada, é óbvio que o contrato é ilegal e qualquer um dos outros interessados pode impugnar a decisão do Governo. E qualquer cidadão pode pedir ao Ministério Público para investigar."
Quando a Procuradoria-Geral da República já se preparava para investigar o assunto, o ministério das Finanças impôs a subcontratação da Perella à Caixa Banco Investimento (BI) o que, por sua vez, desencadeou protestos de Nogueira Leite e Nuno Fernandes Thomaz, administradores da CGD.
Entretanto a E.ON escolheu a assessoria financeira do Deutsche Bank e o ofendido BESI apareceu a assessorar a China Three Gorges.

Outros jogadores também se moveram no tabuleiro do jogo: os comissionistas, intermediários ou lobistas. Quando um deles, António Moura Santos, cunhado de António Guterres e defensor da proposta da E.ON, se deslocou à Alemanha cruzou-se aí com o presidente executivo da EDP, António Mexia...

Nos bastidores do negócio dizia-se que Relvas apoiava a brasileira Eletrobras (2,56 mil milhões) e que Gaspar e Passos eram favoráveis à E.ON (2,54 mil milhões), por ser europeia e ter sido promovida pela chanceler Merkel.
Mas o conselho geral de supervisão da EDP afastou as brasileiras Eletrobras e Cemig e depois o Conselho de Ministros, a quem cabia a decisão final, acabou por escolher a China Three Gorges (2,69 mil milhões).

Seis meses depois do epílogo da privatização da EDP, a Caixa Banco Investimento (BI), o Espírito Santo Investment Bank (BESI) e a Parpública, que gere as participações do Estado, foram alvo de buscas policiais por suspeita de tráfico de influências e abuso de informação. O Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP) pretendia "esclarecer e investigar a intervenção e conduta de alguns dos assessores financeiros do Estado" nas privatizações da EDP e da REN depois do procurador Rosário Teixeira ter tropeçado num telefonema de José Maria Ricciardi a Passos Coelho sobre a privatização da EDP.


Os banqueiros consideram naturais os contactos com o poder político porque numa sociedade livre todos têm o direito de lutar pelos seus interesses. Mas a fronteira entre a legalidade e a ilegalidade é difícil de localizar: onde é que o diálogo normal entre banqueiros, advogados, lobistas e o Estado se transforma em tráfico de influências e corrupção?

O Goldman Sachs é um caso paradigmático. Marc Roche responsabilizou este banco pela actual crise da dívida soberana. E em Março deste ano, na sua carta de demissão publicada no The New York Times, o director do Goldman Sachs para o negócio de derivados na Europa, Médio Oriente e África, Greg Smith, criticou o presidente executivo por ter perdido a cultura da empresa, que descreveu como "o segredo que fez este óptimo lugar e nos permitiu ganhar a confiança de nossos clientes durante 143 anos", criando um ambiente "tóxico e destrutivo" onde "os interesses do cliente continuam a ser marginalizados".
Ora foi da GS que saíram o ex-secretário do Tesouro dos EUA, Henry Paulson (ex-CEO da GS), o presidente do BCE, Mario Draghi, o primeiro-ministro italiano, Mário Monti, e o ex-primeiro-ministro grego Lucas Papademos. António Borges, convidado por Passos Coelho para acompanhar as privatizações, foi um dos vice-presidentes da GS em Londres e director do departamento europeu do FMI.

Por sua vez a Perella, empresa fundada em 2006 e sem experiência no sector da energia, também tem ligações à banca de investimento: entre os sócios, estão ex-quadros de topo da Goldman Sachs e da Merrill Lynch e o parceiro português, Paulo Cartucho Pereira, esteve 20 anos no Morgan Stanley.


domingo, 21 de outubro de 2012

Uma resposta frontal - II


O presidente do Banco Espírito Santo Investimento (BESI), José Maria Ricciardi, já admitiu ter sido o interlocutor de Passos Coelho na conversa escutada no processo Monte Branco.

Ricciardi terá telefonado a "vários membros do Governo" para manifestar a sua discordância pelo facto de o Estado ter decidido entregar à norte-americana Perella Weinberg, por ajuste directo, a consultoria financeira das privatizações da EDP e da REN.
Aliás o banqueiro já tinha admitido ao PÚBLICO que havia telefonado ao ministro Miguel Relvas para falar sobre o assunto. E procura justificar os telefonemas numa carta à directora do jornal:

"Não traduz ilicitude, irregularidade ou sequer censura que se questione eventualmente um membro do Governo sobre se há intenção de ceder a pressões políticas promovidas pelas lideranças europeias, amplamente divulgadas na imprensa de então, sendo que tal questão só podia ter como pressuposto a vontade clara de fazer cumprir as regras do concurso, ou seja, a da adjudicação à proposta com melhor preço e condições mais favoráveis para o Estado Português."

Consta que Passos não terá "dado troco", afirmando que não tencionava interferir no processo das privatizações. Daí o seu prazer em que as escutas sejam tornadas públicas.


José Maria Ricciardi


O telefonema a Passos Coelho foi escutado durante a recolha de informações (e não recolha de provas) no caso Monte Branco, que envolve a maior rede de sempre de fuga ao fisco e branqueamento de capitais a operar em Portugal.
A investigação está a ser conduzida pelo procurador Rosário Teixeira, que entendeu a conversa como uma forma de pressão sobre o primeiro-ministro. Como Passos Coelho tinha sido envolvido "fortuitamente" na escuta, a sua transcrição teria que ser validada pelo Supremo Tribunal de Justiça.
Assim, o então Procurador-Geral da República, Pinto Monteiro, remeteu o pedido de validação ao presidente do Supremo, Noronha Nascimento, em 8 de Outubro.

Contudo Ricciardi sublinha: "Não mantenho nem nunca mantive qualquer ligação com pessoas envolvidas no processo Monte Branco, que nem sequer conheço, ou que alguma vez haja prometido favores ou pedido vantagens a quem quer que fosse, ou participado directa ou indirectamente em actos que configurem abuso de informação ou manipulação de preços."

*

Ainda bem que Ricciardi não está envolvido com a rede de fuga ao fisco e branqueamento de capitais revelada por Duarte Lima em troca da prisão domiciliária.
Só há uma questão que não se consegue perceber. As privatizações foram conduzidas pelo ministro das Finanças, Vítor Gaspar, e pela secretária de Estado do Tesouro, Maria Luís Albuquerque. Por que razão o banqueiro não expôs os seus argumentos a estes membros do governo, em vez de telefonar a Relvas e depois a Passos?
Que saudade daquele tempo em que nenhum banqueiro ou empresário se atrevia a telefonar ao chefe do Governo...


terça-feira, 21 de agosto de 2012

"O delírio do capitalismo sindical"


"20 Agosto 2012 | 23:30
João Cândido da Silva - joaosilva@negocios.pt


O percurso até à privatização da TAP promete ser interessante e cheio de surpresas. Os sindicatos que têm expressão na empresa são mais do que as mães e é por este lado que poderão surgir as principais curiosidades. Talvez, até, tenha chegado a hora de o Governo amarrotar a lista de potenciais interessados na compra da companhia e de a depositar no cesto dos papéis.

No longínquo ano de 1999, os pilotos fizeram uma greve que provocou muito ruído e muitos prejuízos. Entre as reivindicações estavam, como é óbvio, actualizações substanciais nos salários. Um dos argumentos era o de que os colegas da Swiss Air ganhavam muito mais dinheiro pelo mesmo trabalho e pelas mesmas responsabilidades. Não interessavam as diferenças entre as duas economias. E também não despertou qualquer interesse entre os pilotos da TAP o facto de a empresa helvética ter estourado algum tempo depois, esmagada pela circunstância incontornável de ter muitos custos e receitas insuficientes para os cobrir.

A guerra foi feia. A empresa, com o aval do Governo, até colocou anúncios na televisão para zurzir os pilotos e colocar a opinião pública do seu lado. Nem teria sido necessário fazer o investimento. Num país de ordenados baixos, um conflito laboral em que os grevistas desfrutam de salários estratosféricos em relação à média nacional não é uma luta com grandes possibilidades de se tornar popular. Capaz de provocar menos simpatia, talvez só uma paralisação de banqueiros em luta por melhores remunerações.

No fim, os gestores da transportadora, com o natural aval do Governo, conseguiram que os pilotos regressassem aos "cockpits" sob a promessa de que, quando a companhia fosse privatizada, teriam direito a um significativo pacote de acções. A garantia não suscitou muita crítica. Os aviões voltaram a voar, o processo de venda da empresa continuou a arrastar-se e, com alguns anos de excepção pelo meio, os prejuízos nunca deixaram de rondar a TAP, como um urso atraído por mel.

Agora que os tempos da prosperidade ficcionada terminaram e os apertos financeiros obrigam a transformar as tartarugas em lebres, a privatização da TAP vai avançar e colocar um ponto final em duas décadas de avanços, recuos, hesitações e contra-hesitações. Foi a oportunidade para o sindicato dos pilotos retirar da gaveta uma antiga promessa, de lhe soprar o pó e limpar as teias de aranha. Querem ressuscitar o capitalismo sindical tal como dizem que lhes foi prometido. E não estão sozinhos. O sindicato dos trabalhadores da manutenção também alega que lhe foram oferecidas acções da empresa e pretende que o prometido seja cumprido.

O primeiro aspecto curioso neste episódio está no facto de um dos horrores do capitalismo, tal como ele é visto habitualmente pelos sindicatos, ter sido, afinal, uma arma eficaz para os calar. Segue-se a circunstância absurda de alguém ter prometido a terceiros uma fatia da propriedade pública, dos contribuintes, portanto, sem ter mandato, nem legitimidade para o fazer. Se o hábito pega, ainda se poderá assistir à gestão da CP a oferecer locomotivas para tentar parar as greves. Quanto a acções, talvez nem os trabalhadores as queiram se já tiverem as paredes de casa forradas com outro material mais adequado.

As reivindicações que surgiram na TAP revelam que há quem não se tenha apercebido que a era dos delírios passou e espera-se que não regresse. A TAP precisa de investidores sólidos, sentido das responsabilidades e paz social. A alternativa é a que os sindicatos que operam na empresa parecem preferir. Isto é, boas condições remuneratórias e participações no capital de uma empresa que, com prejuízos de 112 milhões de euros no primeiro semestre deste ano, caminha para a insustentabilidade e arrisca-se a ficar sozinha no altar, sem noivo que lhe queira pegar."


Zé Provinciano 21 Agosto 2012 - 00:50
O salário dos pilotos da TAP e o salário médio dos portugueses
As reivindicações salariais dos pilotos da TAP são escandalosas. É que os pilotos, se tivessem algum decoro, a fazer comparações deviam fazê-las tendo em conta o salário médio dos portugueses. Através de uma regra de três simples. Supondo que queriam ter um salário igual aos pilotos da Air France. O valor do seu salário calculava-se pela relação entre o salário dos pilotos da Air France e o salário médio dos franceses e tendo em conta o salário médio dos portugueses.


albucas 21 Agosto 2012 - 08:09
Salário dos pilotos
É uma ideia correcta mas que não corresponde à realidade.
É óbvio que os pilotos deveriam olhar para o País que temos e atento isso lutarem pelo que consideram justo.
O leitor fala em médias mas esquece-se de uma coisa. O tal trabalhador médio pelo qual se fariam as contas se pretender ir para outro País, no exemplo que deu, França, eles não precisam dele e não o querem e portanto não vale nada.
No entanto se for piloto, provavelmente já o querem e pagam-lhe como se fosse francês.
Percebeu onde está o erro do seu raciocínio?


rato 21 Agosto 2012 - 16:52
Oh albuco
O albucas tem muita retórica mas pouca lógica e nenhuma razão.

O albucas escreve "O tal trabalhador médio pelo qual se fariam as contas se pretender ir para outro País no exemplo que deu, França eles não precisam dele e não o querem e portanto não vale nada.
No entanto se for piloto provavelmente já o querem e pagam-lhe como se fosse francês.
"

Coitado de si e do seu raciocínio já que a realidade e os factos logo o desmentem. Teve azar com o exemplo. Então é tão ignorante que não sabe que precisamente na França há milhões de portugueses a trabalhar e, tanto quanto é público, não consta que a Air France se ponha de joelhos a implorar e oferecer emprego aos ilustríssimos pilotos da TAP...


Zolkron 21 Agosto 2012 - 17:21
O cerne da questão
Nesta longa história já de si trágico-cómica, que é a TAP, está o espelho de Portugal em vários detalhes.
  1. Um ministro que prometeu algo para o qual não tinha mandato. Alguém vai falar com este senhor quando chegar a hora da verdade?

  2. Um accionista que é o Estado, detém 100% da companhia e gere-a pessimamente. Alguém vai pedir justificação de anos de passivo e a operar no vermelho a quem foi ministro da tutela?

  3. Um gang profissional que há vários anos chula a empresa e o país. O sindicato dos pilotos vai ser chamado à pedra por causa dos milhões perdidos em greves ao longo dos anos?
Em resumo, só uma saída para a TAP é aceitável para o país: a venda total da empresa e quanto mais depressa melhor.

O contribuinte agradece.


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Governo vende 40% da REN por 592 milhões de euros


Rui Cartaxo, actual presidente executivo da REN


Embora vendendo 40% da REN nesta operação de privatização, o Governo limitava a 25% a parcela a que cada concorrente se podia candidatar. Além disso, o Estado mantém ainda 11,1% da REN, a alienar quando as condições do mercado forem mais favoráveis.

Na conferência de imprensa após o Conselho de Ministros, a secretária de Estado do Tesouro, Maria Luís Albuquerque, explicou que a chinesa State Grid pagará 2,90 euros por acção, num valor global de 387,15 milhões de euros, enquanto a Oman Oil pagará 2,56 euros por acção, num total de 205,06 milhões de euros.
Portanto o Estado vai receber 592 milhões de euros pela privatização da concessionária portuguesa das redes de transporte de energia eléctrica e de gás natural.

Na opinião da secretária de Estado do Tesouro, os dois accionistas "combinam uma interessante mistura" de perfis de investidor financeiro e de parceiro estratégico da energia e "os compromissos assumidos pela State Grid e pela Oman Oil são um voto de confiança na economia portuguesa".


sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

"Ni hao, meus senhores"


"22 Dezembro 2011, 23:30 por Pedro Santos Guerreiro

Ontem foi um dia histórico. Menos pela saída do Estado Português do que pela entrada da China na EDP. A Europa está a ficar para tia, falida e pudica, de um mundo que agora gira entre Nova Iorque e Pequim. Portugal tomou uma opção: entrou nesse eixo. E isso abre um novo mar — um mar onde seremos as rémoras dos tubarões.

A privatização foi um "jackpot" para a EDP e para o Estado. Porque traz aquilo de que ambos mais carecem: capital. O capital sem pátria, que preferíamos que fosse nosso, mas nosso não há. Há este, é pegar ou largar. Nós pegámos. A dependência tornou-nos pragmáticos: andamos a aprender com os angolanos. Mas a China é outra coisa: é um potentado. E quanto a proselitismos, basta olhar para a Zona Euro. O dinheiro chinês é o mesmo dinheiro que a União Europeia e o FMI foram mendigar há semanas para alavancar o Fundo de Estabilização da Zona Euro. Foi um vexame: a senhora Lagarde e o senhor Regling levaram tampa. Portugal fechou negócio. A diferença não é o espaço geográfico, é ser capital para investimento em vez de capital para pedinte.

É claro que os chineses são um problema, mesmo para quem não tem consciência. Não são uma democracia. Não respeitam direitos humanos. Nem ambientais. Mas a Europa hipotecou a consciência quando se tornou frágil. Olhai para Espanha: prepara-se para vender 10% da Repsol a chineses, a russos ou ao Qatar. Pois é: o país dos "campeões nacionais" está de rastos, com construtoras como a Sacyr a vender-se para pagar dívidas e bancos como o Santander a precisarem de aumentos de capital gigantes para tapar os buracos abertos pelos seus apregoados sucessos.

Sempre esperámos a ascensão dos BRIC. Nunca esperámos que ela acontecesse em simultâneo com o declínio acelerado da Europa e a erosão lenta dos Estados Unidos: a quebra do mundo ocidental. E agora, por muito que nos custe, e custa, vamos pedir dinheiro a países pobres onde há muitos ricos. Países de petróleo, da abundância de recursos naturais, países como a China. Que não é uma democracia. Que emergirá como nova potência mundial para uma nova bipolaridade. Sem disparar um único tiro.

A Three Gorges capitaliza e financia a EDP, salvando-a de uma dívida preocupante em tempo de maus "ratings". Mais: a China traz fábricas, financia bancos, anuncia participar na solução do BCP. Mas nós, sobretudo, selámos uma aliança. Não com o Diabo. Não com qualquer anjo. Passos Coelho foi corajoso — e temerário.

É preciso garantir que tudo o que foi anunciado será cumprido — há razões para ser céptico em relação aos chineses. Se for, seguiremos no lastro. Para África, inclusive. E para o Brasil. É esse o nosso "interesse": o "mercado de língua portuguesa", de que falava o primeiro-ministro há dias. A PT vale pelo Brasil, a EDP vale pelo Brasil e pelas renováveis, a TAP vale pelo Brasil e África, a Galp vale pelo Brasil e Moçambique, o BPI vale por Angola. É o nosso factor competitivo, foi o nosso destino, a solução de escape enquanto falidos.

Os chineses investem em ciclos longos e actuam em rede. Percebemo-los mal e vamos ter de aprender a dialogar com eles, ou seremos enganados. Mas agora, numa galeria longínqua em Pequim, já nos olham como chinesinhos, seus aliados.

Angela Merkel deve ter aprendido ontem uma lição. Isto não está a acontecer a Portugal, está a acontecer à Europa, paralisada nas suas pequenas ordenanças. E nós? Nós estamos a ver se nos salvamos, desesperadamente procurando fora da Europa o que a Europa não nos consegue providenciar. Portugal não se vendeu porque não se vende o que não se tem. Bem-vindos ao mundo novo, ele é pouco admirável mas segue em lentas translações. Correr riscos é melhor do que morrer devagar."


Nota:
Ni hao = Olá


Uma oferta irrecusável - II


A entrada da China Three Gorges (CTG) no capital da EDP vai permitir à eléctrica duplicar a sua liquidez, que actualmente se situa em 4 mil milhões de euros, quando a empresa chinesa concluir os seus investimentos.

A CTG vai investir 800 milhões de euros na aquisição de participações minoritárias nas empresas da EDP e garantiu uma linha de 2 mil milhões de euros do China Development Bank para financiar a EDP.
Além destes 2,8 mil milhões de euros de investimentos em 2012, a CTG comprometeu-se a investir mais 1,2 mil milhões de euros, entre 2013 e 2015, na compra de posições minoritárias (34% a 49%) em projectos de renováveis da EDP.

Este reforço de liquidez vai cobrir as necessidades de financiamento da empresa até finais de 2015. E servirá também para reduzir o nível de endividamento da EDP, que passará do rácio actual superior a quatro vezes o EBITDA, para menos de três vezes.

O conflito de interesses na parceria é “mínimo”, uma vez que a empresa chinesa não está presente nos mercados da EDP.
Nos principais mercados (Europa, Estados Unidos e América Latina) a EDP poderá continuar a investir sozinha, tendo a CTG o direito de preferência se a empresa portuguesa pretender um parceiro. Já no mercado asiático, onde a CTG está presente, as posições invertem-se.

Ao vencer a privatização da EDP, após um investimento de 2,7 mil milhões de euros, a CTG passa a deter 23,15% da eléctrica portuguesa, tornando-se na sua maior accionista.





quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Uma oferta irrecusável - I


A privatização da EDP teve hoje o epílogo:

"O Conselho de Ministros seleccionou a proposta da China Three Gorges Corporation como vencedora para a aquisição de 21,35% das acções do capital social da EDP — Energias de Portugal, S.A., objecto de venda directa de referência."


Qualquer dos quatro concorrentes seleccionados tinha financiamento garantido.
A alemã E.ON, a única empresa privada no concurso, dispunha de uma liquidez de sete mil milhões de euros.
As brasileiras Eletrobras e Cemig, ambas empresas estatais, tinham o suporte financeiro de um banco também estatal, o Banco Nacional de Desenvolvimento Económico Social (BNDES), que tem disponibilizado linhas de financiamento para diversos sectores da economia brasileira.
E a China Three Gorges tinha por detrás o poder financeiro do China Development Bank (CDB).
A E.ON ofereceu 2,537 mil milhões de euros por 21,35% da EDP. A China Three Gorges vai pagar 2,693 mil milhões.

Mas não foi apenas uma centena e meia de milhões entre as duas propostas que ditou o vencedor.
No âmbito da privatização da EDP, o CDB não só emitiu uma carta de "compromisso incondicional" de financiamento à China Three Gorges, como também estava disponível para financiar a própria EDP: "Oferecemos um montante elevado, a longo prazo e com uma taxa muito competitiva", assegurou Hengyue Wu, líder da representação do CDB em Portugal. E acrescentou:
"Além da entrada da China Three Gorges na EDP, também podemos financiar as empresas chinesas que queiram entrar nas outras privatizações em Portugal. E não só podemos financiar as aquisições como também os investimentos e as linhas de crédito para resolver os problemas de liquidez.
Acreditamos que o sucesso da aquisição da EDP pela China Three Gorges possa influenciar o interesse de outras empresas chinesas noutras empresas que serão privatizadas. Actualmente temos empréstimos em curso nos países europeus de 11 mil milhões de euros, em sectores como o petrolífero, a indústria química, aeronáutica, transporte marítimo, telecomunicações e energias renováveis. Portanto temos uma base de sucesso para financiar a EDP.
”
São 10 mil milhões de dólares (7,5 mil milhões de euros) que o CDB se comprometeu disponibilizar à economia portuguesa, cerca de 10% do programa de assistência da troika a Portugal.
O banco, aliás, já abriu linhas de financiamentos a outros países de língua portuguesa — 6 mil milhões de dólares a Angola e 10 mil milhões de dólares ao Brasil.





*

Mas que não restem dúvidas, a transformação que a China vai operar em Portugal estender-se-á muito para lá do impacto económico desta colossal linha de financiamento.
Na China estuda-se e trabalha-se. Não há Estado social. A defesa dos direitos humanos dá direito a prisão. A corrupção é punida com a pena de morte.
Não vai ocorrer apenas uma entrada impressionante de meios financeiros. É a penetração de empresários chineses no tecido empresarial português. É a organização chinesa do trabalho que vai ser imposta às empresas financiadas. É a exigência de mão-de-obra qualificada.

Quando chegam ao mundo ocidental, as nossas línguas de tipo fonético constituem um obstáculo terrível para as crianças chinesas porque o chinês é uma linguagem de tipo simbólico como a da Matemática. As famílias chinesas, porém, valorizam o ensino e a cultura e incentivam as suas crianças a vencer essa dificuldade. Não só não há indisciplina nem abandono escolar, como também aparecem sempre alunos chineses nos quadros de honra das escolas portuguesas.
Por isso, não deixa de ser irónico que a degradação da qualidade do ensino português promovida por sindicatos ligados ao PCP vá ser combatida justamente pela maior ditadura comunista mundial.
E convém não esquecer que o salário mínimo da província de Pequim — o maior salário mínimo da China — subiu este ano para... 150 euros.


Barragem de Three Gorges na cidade de Yichang, província de Hubei.

O Three Gorges Project (TGP) na bacia hidrográfica do rio Yangtze é um projecto estratégico da China Three Gorges para controle de inundações, geração de energia e melhoria de navegação. É o projecto de construção do maior complexo hidroeléctrico do mundo.
Com o nível normal da albufeira em 175 m, a capacidade total de armazenamento do reservatório de 39,3 mil milhões m3 e capacidade de armazenamento de controle da inundação do reservatório de 22,15 mil milhões m3, a barragem irá aumentar a eficácia do dique Jingjiang do valor actual de uma vez em 10 anos para uma vez em 100 anos.
A capacidade total instalada do TGP é 18,2 GW, com a produção média anual de 84,7 TWh.


quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

"E.On, porque não?"


Salvador Costa 14 Dezembro 2011 - 10:16
E.On, porque não?
  1. O processo de privatização da posição do Estado português na EDP não é isento de considerações políticas.
  2. Por um lado, a E.On é um parceiro comercial estratégico num quadro alargado de aprofundamento do mercado único e da Zona Euro. Para além das complementaridades que existem entre as duas empresas no sector das energias renováveis em termos de tecnologia e conhecimento dos mercados.
  3. A entrada da E.On na EDP abre bastantes perspectivas de expansão à empresa nos seus mercados alvo na Europa e nos Estados Unidos.
  4. A EDP detém uma posição importante no Brasil, mas nunca deixará de ser um parceiro menor em relação à Iberdrola.
  5. Por último, qual o interesse de uma empresa chinesa da dimensão da CTG na EDP, cujo volume de produção e de negócios será equivalente a uma das mais pequenas províncias da China? É o consumo de electricidade de dez milhões de portugueses empobrecidos?.
  6. A EDP detém um activo estratégico para a CTG que é o seu importante portefólio de energia eólica nos EUA. O que seria uma janela de oportunidade para a China entrar e ampliar a sua influência neste mercado.
  7. Ora a escolha da CTG será muito mal vista pelas autoridades dos EUA, pouco dadas à presença e influência das empresas chinesas no seu território, ainda para mais num sector vital como o da energia. O que levaria a um forte condicionalismo da expansão da EDP no mercado energético norte-americano.
  8. Portanto, o negócio da privatização da EDP será acima de tudo uma avaliação de ganhos políticos mais do que a mais-valia financeira das propostas apresentadas.