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sábado, 16 de março de 2013

A Europa perde única fábrica de máquinas multibanco


A japonesa Talaris tenciona fechar até Junho a fábrica de Torres Vedras, única na Europa a produzir máquinas multibanco (ATM).

Adquirida em 2012 pela multinacional japonesa Glory, teve em 2011 um volume de negócios de 26 milhões de euros e resultados líquidos de 429 mil euros (1,4 milhões de euros em 2010).
Dos 834 ATM fabricados, 700 foram exportados. Recentemente ganhou o concurso para assegurar o serviço de manutenção para a Caixa Geral de Depósitos durante três a cinco anos.

A empresa, que tem 200 trabalhadores espalhados pelo país — a maioria a fazer manutenção dos ATM —, pretende encerrar as instalações em Sintra e transferir para a fábrica de Torres Vedras a logística e a manutenção.
Nesta reestruturação tenciona encerrar a linha de produção que emprega 20 trabalhadores, e transferi-la para a China onde a mão-de-obra é mais barata, e passar o departamento de recursos humanos e o departamento financeiro para Espanha. O resultado, em termos de emprego, é um despedimento colectivo de 37 trabalhadores.

A Talaris alega que dentro de alguns anos a crise vai ter reflexos na produção de máquinas multibanco para o mercado nacional. Contrapõe o Sindicato das Indústrias Eléctricas do Sul e Ilhas (SIESI) que "a empresa está a usar a facilidade que existe em Portugal para fazer despedimentos colectivos para se deslocalizar".

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A questão é que o partido comunista que governa a China paga, em 2013, o salário mínimo de 180 euros em Shenzhen (noutros municípios ou províncias o salário mínimo ainda é mais baixo) para atrair investimentos estrangeiros e, obviamente, está a ser bem sucedido.
Se em Portugal se dificultar o despedimento colectivo, as empresas vão para a falência e saem igualmente de cá. Além de que o País não consegue captar investimento estrangeiro desde finais dos anos 90, com a consequente ausência de crescimento económico há uma década.

Pode concluir-se que o futuro dos trabalhadores portugueses vai ser auferir os salários de miséria dos chineses? Nas linhas de montagem de produtos, vai ser.
Mas se a geração que actualmente frequenta a escola trabalhar afincadamente e terminar a escolaridade obrigatória muito, mas mesmo muito mais qualificada que a geração dos seus pais, estes jovens podem tornar-se técnicos especializados, ou até projectistas, e aspirar a salários mais elevados.

Quem projecta produtos tecnologicamente avançados no mundo?
Nos Estados Unidos, e na indústria da informação, a Apple, a Hewlett-Packard, a Intel, a Microsoft, a Cisco, a Xerox, a Boston Dynamics, a aeroespacial Boeing, a produtora de maquinaria Caterpillar, na indústria automóvel, a General Motors e a Ford. O Canadá desenvolveu tecnologias extractivas e agora vem explorar concessões mineiras portuguesas.
Na Europa, temos a Finlândia com a Nokia, a Dinamarca com a Vestas — durante o governo Sócrates fomos o maior comprador das suas turbinas eólicas que vamos ter de pagar por meio de rendas elevadas aos produtores de energia eléctrica —, temos a França com as construtoras de automóveis, Renault, e de aviões, Airbus. Temos na Alemanha, e na indústria automóvel, a Volkswagen, a BMW, a Daimler, a Audi, na indústria eléctrica, a Siemens, a Bosch, a Miele, a gigante farmacêutica Bayer. No norte de Itália, a Fiat.
Na Ásia, o Japão com a indústria automóvel — Toyota, Nissan, Mitsubishi, Honda —, da informação — Fujitsu, Sony, Toshiba, Casio —, da fotografia e imagem — Canon, Nikon —. E a pequena Coreia do Sul, do tamanho de Portugal, tem um gigante na indústria automóvel, a Hyundai, e outro gigante na informação, a Samsung, que se bate no campo da inovação com a americana Apple.

Os portugueses especializaram-se em usar os produtos de alta tecnologia projectados nestes países e produzidos pelos trabalhadores chineses.

Acordar de um sonho é sempre doloroso. Mas se não quisermos continuar a empobrecer, é preciso acordar depressa e dar passos de gigante.


domingo, 22 de abril de 2012

EUA e Canadá recusam encher os cofres do FMI


O Fundo Monetário Internacional (FMI) recebeu promessas de 430 mil milhões de dólares (325 mil milhões de euros) durante a reunião dos países do G20.

Actualmente dispõe de 380 mil milhões de dólares em fundos que agora serão reforçados para mais do dobro.

Este dinheiro poderá ser usado para financiar países em dificuldades de todo o Mundo, se aceitarem as condições impostas pelo FMI. Mas num momento em que três países da zona euro estão a receber crédito do FMI — Grécia, Irlanda e Portugal — e pode ser preciso reforçar os pacotes já acordados ou intervir noutro país do euro, como a Espanha ou a Itália, este contributo destina-se a evitar o agravamento da crise do euro.

Na prática são mais 230 mil milhões de dólares com que a Zona Euro fica para usar, porque 200 mil milhões dos novos contributos vêm justamente de países dessa zona.
Os países emergentes, nos quais se incluem o Brasil, a Rússia, a Índia e a China (BRIC) participaram com um reforço de 68 mil milhões de dólares, mas impuseram duas condições: um limite para a exposição do Fundo à crise do euro e mais poder dentro do Banco Mundial e, principalmente, no FMI.
Outros países que decidiram reforçar o seu contributo foram Noruega, Suécia, Dinamarca, Polónia, Suíça e Japão.

No entanto, alguns dos membros com maior peso no FMI recusaram, desta vez, contribuir, defendendo que é a própria Zona Euro que tem de resolver os seus problemas. Foi o caso dos EUA e do Canadá.


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Ficou claro que o dinheiro está a chegar ao fim. Pode, portanto, a esquerda radical — PCP e BE — regozijar-se que a troika tem cada vez mais dificuldade em obter fundos para nos emprestar.
O problema é que isto significa que vêm aí mais sacrifícios para os portugueses.


sábado, 5 de novembro de 2011

A solidão do euro


Na cimeira anual do G20 a Zona Euro foi o bombo da festa e ninguém quis pôr um cêntimo no FEEF, nem sequer no FMI:


Barack Obama, Presidente dos Estados Unidos
“Eles vão ter em nós um parceiro forte, mas os líderes europeus compreendem que, em última análise, o mais importante é que a Europa dê um sinal forte de que apoia o euro.”

Angela Merkel, chanceler da Alemanha
“Quase nenhum país aqui presente disse que está preparado para apoiar o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF).”

Nicolas Sarkozy, Presidente de França
“Nunca quisemos mudar governos, nem na Grécia nem em Itália. Não é esse o nosso papel; não é essa a nossa ideia de democracia, mas é evidente que há regras na União Europeia e quem se auto-excluir do cumprimento dessas regras, estará a excluir-se da Europa.”

David Cameron, primeiro-ministro do Reino Unido
“Cada dia de crise na Zona Euro é um dia com efeitos arrepiantes no resto da economia mundial, incluindo a economia britânica. Não vou fazer de conta que todos os problemas da Zona Euro foram resolvidos. Não foram.”
“Nós, tal como o resto do mundo, precisamos que a Zona Euro resolva os seus problemas.”

José Manuel Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia
“Vejo esta situação como uma prova de quão importante é o processo de reformas em Itália para o próprio país e para a Zona Euro como um todo.”

Julia Gillard, primeira-ministra da Austrália
“A Europa precisa de pôr a sua própria casa em ordem.”

Stephen Harper, primeiro-ministro do Canadá
“Não vemos nenhuma razão para que o Canadá — ou, com franqueza, qualquer outro país — contribua para este apoio financeiro [ao FEEF].”

Jun Azumi, ministro das Finanças do Japão
“A crise na Europa está a causar uma crise global sistémica, incluindo na Ásia. Em vez da criação de um novo quadro de funcionamento global, toda a gente está à espera de que o Fundo Monetário Internacional se torne mais pró-activo.”


segunda-feira, 8 de agosto de 2011

"Missão impossível: parar uma nova recessão"


Ontem à tarde, Nouriel Roubini escreveu este artigo no Finantial Times, sob o título "Mission impossible: stop another recession":

7 de Agosto de 2011 18:19


"O primeiro semestre de 2011 mostrou uma desaceleração do crescimento — se não mesmo uma contracção — nas economias mais avançadas. Os optimistas disseram que era uma correcção temporária. Uma ilusão frustrada. Mesmo antes do pânico da semana passada, os EUA e outras economias avançadas estavam a caminho de uma segunda recessão grave.

Os dados recentes da América foram ruins: houve reduzida criação de emprego, fraco crescimento e estagnação do consumo e da produção industrial. A habitação permanece deprimida. Caiu a confiança de consumidores, empresários e investidores e, agora, vai cair ainda mais.

Do outro lado do Atlântico a periferia da Zona Euro está agora em contracção ou, na melhor das hipóteses, a crescer fracamente. O risco de que a Itália ou a Espanha — e talvez ambos — venham a perder o acesso aos mercados de dívida é, agora, muito alto. Ao contrário da Grécia, Portugal e Irlanda, estes dois países são demasiado grandes para serem resgatados.

Entretanto, o Reino Unido viu o crescimento a aplanar à medida que a austeridade vai ferroando e o Japão, estruturalmente estagnado, vai recuperar durante alguns trimestres — após a dupla recessão a seguir ao terramoto — apenas para estagnar de novo quando os estímulos fracassarem. Pior ainda, os principais indicadores da produção global estão a diminuir drasticamente — quer nas economias emergentes, como a China, Índia e Brasil, quer nos países orientados para a exportação ou ricos em matérias-primas, como a Alemanha e Austrália.

Até ao ano passado os políticos podiam tirar um coelho da cartola para accionar a deflação dos activos e a recuperação económica. Taxas de juro zero, QE1, QE2, crédito facilitado, estímulos orçamentais, delimitação, provisão de liquidez no montante de biliões de dólares e resgate a bancos e instituições financeiras — tudo foi tentado. Mas agora esgotámos os coelhos.

A decisão desacertada da Standard & Poor’s de descer a notação dos EUA num momento de turbulência do mercado e fraqueza económica tão graves só aumenta a probabilidade de uma recessão em W e ainda maiores défices orçamentais. Paradoxalmente, porém, o Tesouro dos EUA provavelmente continuará a ser o activo seguro menos desagradável: a aversão ao risco, o declínio de capital e uma crise iminente podem até mesmo fazer a taxa das obrigações do Tesouro cair em vez de subir.

Agora, tanto na Zona Euro como no Reino Unido, a política orçamental é contraccionista. Mesmo nos EUA a questão é apenas o montante da redução, à medida que as autoridades estatais e locais, e agora o governo federal, cortarem despesas, reduzirem as transferências e (em breve) aumentarem os impostos. Outra rodada de resgates a bancos é politicamente inaceitável. Mas mesmo se não fosse, a maioria dos países, especialmente na Europa, estão tão enfraquecidos que o risco soberano está a gerar risco bancário — porque os bancos estão carregados de dívida pública.

A esperança numa flexibilização quantitativa [quantitative easing (QE), vulgo 'imprimir dinheiro'] será limitada pela inflação que está bem acima dos níveis-alvo no mundo ocidental. A Reserva Federal vai começar, provavelmente, uma terceira rodada de QE, mas será um pouco tarde demais. No ano passado, um QE2 de 600 mil milhões de dólares (juntamente com 1 bilião de dólares de cortes de impostos e transferências) produziu uma taxa de crescimento de apenas 3%, durante um trimestre. Um QE3 será muito menor e vai fazer muito menos.

Nem as exportações ajudam. Todos os países desenvolvidos precisam de uma moeda mais fraca, mas nem todos podem tê-la — se um é mais fraco, outro tem de ser mais forte. É um jogo de soma zero que tem o risco de reacender guerras monetárias. Estão a começar as escaramuças iniciais com o Japão e a Suíça a tentarem enfraquecer as taxas de câmbio. Em breve outros vão seguir-se.

Assim, podemos evitar uma nova recessão grave? Pode ser uma missão impossível. A melhor aposta para aqueles países que não perderam o acesso ao mercado — os EUA, Reino Unido, Japão e Alemanha — é introduzirem um novo estímulo orçamental no curto prazo, enquanto se comprometem com uma austeridade orçamental a médio prazo. A descida da notação dos EUA irá acelerar os pedidos de redução orçamental mas a América, em particular, deve comprometer-se com cortes significativos no médio prazo, não um corte orçamental imediato que vai piorar o crescimento e os défices.

A maioria dos bancos centrais ocidentais deve apresentar ainda mais QE, apesar do efeito ser limitado. O Banco Central Europeu não deve parar a caminhada das taxas: deve reduzir as taxas a zero e fazer grandes compras de obrigações soberanas para evitar que a Itália ou a Espanha percam o acesso ao mercado — o que teria como resultado uma crise verdadeiramente colossal, a exigir o dobro (ou o triplo) dos recursos para resgates, ou insolvências e a implosão da Zona Euro.

Finalmente, uma vez que esta é uma crise de solvência, assim como de liquidez, deve começar uma reestruturação ordenada da dívida. Isto significa uma redução da dívida hipotecária para a metade das famílias dos Estados Unidos que estão debaixo de água, e bail-ins para os credores dos bancos em perigo. Devem ser concedidas extensões de maturidade coercivas nas taxas livres, ao estilo grego, também para Portugal e Irlanda, com a Itália e Espanha a seguir, se perderem o acesso ao mercado. Pode não ser possível prevenir outra recessão. Mas a política pode parar uma segunda depressão. Isso é um motivo suficiente para uma acção rápida e bem localizada."