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domingo, 11 de janeiro de 2015

Manifestação histórica em França contra o terrorismo islamita


Depois do ataque ao jornal satírico Charlie Hebdo na quarta-feira, do tiroteio contra os polícias em Montrouge, na quinta-feira, e do sequestro num supermercado kosher em Vincennes pelo atirador de Montrouge, na sexta, que provocaram um total de 17 vítimas, a manifestação contra o terrorismo islamita levou, este domingo, cerca de 4 milhões de pessoas para a rua por toda a França.

A marcha em Paris reuniu mais de 1 milhão de pessoas, tornando-se o acontecimento mais importante desde a Libertação em 1944.
Quase cinquenta chefes de Estado e de governo estiveram hoje presentes em Paris para homenagear as vítimas dos atentados no Charlie Hebdo, em Vincennes e Montrouge. Na fila da frente desfilaram Angela Merkel e David Cameron, mas também Mahmoud Abbas e Benjamin Netanyahu.



A estátua alegórica da Praça da República, em Paris, foi o local privilegiado pelos manifestantes desde quarta-feira à noite.
AFP/Loic Venance


Os manifestantes prestaram homenagem às 17 vítimas dos atentados com o lema "Eu sou Charlie".
AFP/Joel Saget


No percurso da Praça da República à Praça da Nação, em Paris, os franceses agitaram as bandeiras tricolores e cantaram a "Marselhesa".
AFP/Jean-François Monier


A manifestação teve início às 15:30, mas uma hora antes já a Praça da República estava cheia.
AFP/Bertrand Guay


O mar de gente da Praça da República visto do céu.
AFP/Kenzo Tribouillard


A manifestação em Paris durou até às 21h.
AFP/Bertrand Guay


François Hollande recebeu cerca de 50 dirigentes mundiais no Palácio do Eliseu que depois incorporaram a marcha de Paris.
AFP/Dominique Faget


Na primeira fila: o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu, o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy, o presidente do Mali, Ibrahim Boubacar Keita, o presidente francês François Hollande, a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas.
AFP/Philippe Wojazer


Imagens aéreas da manifestação republicana
Le Monde.fr | 11.01.2015


Le Monde.fr | 11.01.2015 à 16h47


Outras cidades francesas também se associaram a esta manifestação histórica:



25 mil pessoas desfilaram em Reims.
AFP/François Nascimbeni


60 mil manifestaram-se em Marselha.
AFP/Anne-Christine - Poujoulat


Uma maré humana de 300 mil pessoas desfilou em Lyon.
AFP/Jean-Philippe Ksiazek


100 mil manifestaram-se em Bordéus.
AFP/Nicolas Tucat


Mais de 100 mil manifestantes em Rennes.
AFP/Jean-François Monier


A multidão que se manifestou junto ao mar Mediterrâneo, em Nice.
AFP/Valery Hache


*

Nos últimos tempos houve uma escalada de ataques islamitas em França. Depois do caso ocorrido em Joué-lès-Tours, em que um jovem entrou no comissariado com uma faca na mão a gritar "Allahu Akbar" (Deus é grande), ferindo três polícias antes de ser baleado, o primeiro-ministro Manuel Valls alertou para a singularidade da época actual em França: "Nunca experimentámos um perigo tão grande em matéria de terrorismo."
Valls pediu aos franceses para reagirem ao fenómeno do envolvimento dos jovens com a jihad: "Temos mais de mil pessoas envolvidas na jihad na Síria ou no Iraque, mais de 300 estão lá, 56 ou 57 morreram, isto mostra o grau de envolvimento (...). Muitos foram para lá, muitos querem ir, muitos têm regressado felizmente. Isto deve desafiar a sociedade francesa."

Na Alemanha, os líderes do movimento Pegida pretendem denunciar a islamização da sociedade, a ausência de direitos humanos para as mulheres muçulmanas e a existência de sistemas alternativos de justiça impiedosos como a sharia, mas os políticos alemães têm procurado associar os activistas anti-islão aos neonazis.
Na sua mensagem de Ano Novo, a chanceler Angela Merkel disse que os apointes do Pegida têm “ódio nos seus corações”, mobilizando os alemães contra as manifestações do movimento e fazendo gorar a manifestação de Berlim.

A sede do semanário satírico francês Charlie Hebdo foi atacada em 7 de Janeiro de 2015, no mesmo dia em que Soumission, escrito por Michel Houellebecq, chegou às livrarias. Justamente o escritor que foi satirizado no número do Charlie Hebdo saído nessa quarta-feira trágica, no cartoon publicado na primeira página.


A última edição do Charlie Hebdo, publicada em 7 de Janeiro de 2015.
AFP/Bertrand Guay

Mas por que motivo os cartoonistas assassinados assestaram os seus lápis contra o escritor, transformando-o no mago Houellebecq?
Porque, no livro, o islamismo triunfa e dá um Presidente muçulmano à França. Trata-se de um islamismo suave, chegado ao poder pela via democrática, sem confrontos.
Um islamismo que deriva de uma hipotética incompetência dos dois grandes partidos republicanos da direita e da esquerda que teriam conduzido o País para um pântano onde chafurda uma classe branca, afortunada, educada, dominante, que se submete aos medos que criou no povo e ao inimigo que deixou instalar dentro das fronteiras.
Um islamismo politicamente correcto que cria o partido da Fraternidade Muçulmana oportunisticamente aliado ao Partido Socialista para vencer a extrema-direita. Seria muito natural, descreve Houellebecq, que os muçulmanos em França tivessem um partido que os representasse com os valores tirados do Islão, o que obrigaria à refundação do sistema educativo francês sobre uma base islâmica e reconduziria as mulheres ao seu papel doméstico e procriador.

Mas os cartoonistas do Charlie Hebdo não morreram em vão. Quase 4 milhões de franceses perderam o medo e, insubmissos, manifestaram-se em defesa dos valores da República.
Dezenas de dirigentes políticos mundiais aliaram-se ao povo, deliberadamente ou para atenuar a revolta libertada e participaram na marcha de Paris contra o terrorismo islamita. Na primeira fila François Hollande e Angela Merkel. Ladeados por Mariano Rajoy (Espanha), David Cameron (Reino Unido), Jean-Claude Juncker (Comissão europeia) e Matteo Renzi (Itália). A Europa Unida com Paris a ser hoje a capital. Ninguém se importou com a ausência de Barack Obama.

Esta manifestação veio reforçar os valores da República Francesa — Liberdade, Igualdade, Fraternidade é o seu lema — e da sociedade europeia, aberta e laica que erradicou a pena de morte e onde tudo é tolerado excepto a prática ou a apologia da violência. Quem escolher a França para viver, não importa qual o país de origem, a cultura ou a religião professada, terá de aprender a respeitá-los. Parafraseando o provérbio “Em Roma, sê romano”, poder-se-á concluir que “Na Arábia Saudita, sê árabe” mas “Na Europa, sê europeu”.


sexta-feira, 4 de abril de 2014

Novo Governo francês define seis princípios orientadores


Na primeira reunião do Conselho de Ministros francês, o novo primeiro-ministro definiu os seis princípios que deverão orientar o Governo.

Manuel Valls no primeiro conselho de ministros, nesta sexta-feira 4 de Abril, sob os dourados do salão Murat no piso térreo do palácio do Eliseu.

Clareza, Colegialidade, Eficácia

Mostrando claramente que considera ser necessário uma liderança forte, Manuel Valls definiu como primeiro pilar a "clareza" da cadeia de decisão, tendo lido o artigo 21 da Constituição francesa: “O primeiro-ministro dirige a acção do Governo”. Destina-se a evitar a falta de liderança do anterior primeiro-ministro Jean-Marc Ayrault.

O segundo princípio é o critério "colegial" de tomada de decisões para comprometer todo o Executivo num projecto comum. Qualquer projecto de lei ou qualquer decisão que envolva o governo deve doravante "ser precedida por uma reunião atempada de natureza política, reunindo, sob a presidência, os principais ministros em causa". Além disso, Valls pretende reunir o conjunto dos ministros e secretários de Estado de duas em duas semanas.

O terceiro princípio é a "eficácia" de todas as acções governativas. Para Manuel Valls, "1500 reuniões interdepartamentais cada ano, é demasiado". Repetindo uma crítica de longa data de especialistas em engenharia governamental, o primeiro-ministro deseja fazer das reuniões no palácio do Matignon uma "excepção", a regra deverá ser "o trabalho cooperativo interministerial que conduza a acordos" entre os ministros.

O risco de inconstitucionalidade deve ser antecipado

O quarto princípio passa pela “solidez jurídica” porque o ex-ministro do Interior considera que só medidas juridicamente sustentadas e válidas podem legitimar as políticas do seu Executivo.

O quinto princípio passa por “ultrapassar os constrangimentos relacionados com a comunicação” que considera fundamental para o sucesso governativo. Conhecido pelas suas capacidades de comunicação — foi porta-voz de Lionel Jospin (ex-primeiro-ministro) e director de comunicação da campanha presidencial de François Hollande — Valls dará grande importância à forma como o Governo comunica entre si e à forma como expõe publicamente a informação.

O sexto e último princípio orientador diz respeito às relações com o Parlamento e à necessidade de “legislar melhor”: "Governaremos melhor, legislando menos". Além do melhoramento das leis produzidas, Valls identificou ainda o problema da “inflação legislativa”. Um excesso de legislação acaba por ser contraproducente: "A busca de um acordo com a maioria deve ser sempre a regra, esta é a base do contrato de legislatura fundado nos compromissos do presidente da República".

*

Tem a França um governo compacto e um primeiro-ministro com capacidade de liderança, governante activo e com ideias claras. Não está, porém, o seu Governo imune a riscos, como sejam as utopias que povoam a cabeça de alguns ministros e os efeitos das relações sentimentais do presidente Hollande. Vamos aguardar.


segunda-feira, 31 de março de 2014

Manuel Valls vai governar a França


Após a derrota do partido socialista nas eleições municipais, esperava-se que François Hollande anunciasse uma profunda alteração governativa na sua alocução televisiva desta noite.
O presidente francês começou por prestar homenagem ao seu ex-primeiro-ministro Jean-Marc Ayrault que teve de executar a tarefa difícil de fazer reformas. De seguida, e tal como se previa, Hollande confirmou a nomeação do ministro do Interior, Manuel Valls, como o novo primeiro-ministro:


Dailymotion/Le Monde.fr 31.03.2014

Hoje é o momento de abrir uma nova etapa. Por isso confiei a Manuel Valls a missão de conduzir o Governo de França. Tem o perfil adequado. Vai ser uma equipa muito compacta, coerente e unida, um governo de luta."

A este governo confiou a tríplice missão de reanimar a economia, garantir a justiça social e criar a coesão. Para apaziguar a ala esquerda do PS, Hollande vai propor um pacto de solidariedade:
"Ao Pacto de Responsabilidade deve corresponder um Pacto de Solidariedade. O primeiro pilar é a educação e a formação da juventude; o segundo é a segurança social com a prioridade dada à Saúde e, finalmente, o terceiro é o poder de compra com uma diminuição dos impostos dos franceses até 2017 e uma redução rápida das contribuições pagas pelos assalariados."

Terminou a alocução deplorando a "crise cívica e até moral" que a França atravessa:

"Ela sofreu uma contestação das instituições, incluindo recentemente a justiça. Ela perde a sua energia com muita frequência em discussões vãs. Ela cultiva uma ansiedade que os extremistas usam para atiçar ódios e rejeições. A República é o nosso bem comum. Não vou deixar nenhum dos seus valores ser lesado, atacado ou ofendido, em qualquer lugar do país."

"Nenhuma forma de exclusão, estigmatização ou comunitarismo será tolerada. O diálogo e o respeito são, mais do que nunca, a melhor maneira de reunir os franceses e os seus representantes. (...) Este método de diálogo é o meu."


*

Manuel Valls pertence à ala direita do PS e o seu pensamento enraíza na social-democracia alemã e escandinava. Defende um discurso político "economicamente realista" e desprovido de "demagogia".
Ao contrário dos seus pares socialistas, aposta na responsabilidade individual: "A nova esperança que a esquerda deve trazer é a auto-realização individual: permitir a cada um tornar-se naquilo que é". Considerando-se "mais reformista que revolucionário", pretende "reconciliar a esquerda com o pensamento liberal".

Em França, é um político mais popular entre a direita do que entre os próprios socialistas. Numa sondagem realizada antes da segunda volta das eleições municipais, 31% dos franceses gostaria de o ver como primeiro-ministro, enquanto Jean-Marc Ayrault apenas agradava a 11% dos franceses.

Valls defende a existência de quotas de imigração e declarou que os ciganos, que insistem em viver em acampamentos ilegais, não desejam integrar-se e têm a vocação de regressar ao país de origem.
Sendo a Frente Nacional um partido de extrema-direita e anti-imigração que ficou em terceiro lugar nas eleições municipais, a presença de Valls no palácio do Matignon vem desviar-lhe eleitorado. Daí Marine Le Pen, líder da Frente Nacional, ter-se lançado ao ataque: “Este homem é perigoso. Há que temer o seu domínio. É um homem de autoridade nas palavras. Valls é um homem da comunicação”.