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sexta-feira, 3 de julho de 2015

A Grécia em default parcial - I c. A dívida grega


A Grécia pretende negociar com os seus credores da Zona Euro para obter um acordo antes que o governo endividado fique sem dinheiro. Veja nesta página interactiva do Wall Street Journal quanto a Grécia deve e quando.

A unidade dos gráficos é o milhar de milhão de euros.

O FMI concedeu empréstimos à Grécia que ascendem a 21 mil milhões de euros, dos quais 1,6 mil milhões venceram em 30 de Junho e não foram pagos.

O BCE emprestou 27 mil milhões de euros, mas poderá ser preciso adicionar os 89 mil milhões de euros emprestados aos bancos gregos ao abrigo da Assistência de Emergência de Liquidez (ELA) — fixa desde domingo, 28 de Junho, o que obrigou ao encerramento dos bancos — que, por enquanto, são um risco do banco central grego.

A dívida aos investidores privados é apenas 34 mil milhões de euros porque, aquando do segundo resgate à Grécia, assumiram a perda de aproximadamente metade dos empréstimos.
Pior estão os Estados-membros da Zona Euro que emprestaram 53 mil milhões aos gregos no primeiro resgate, em 2010.

Depois do segundo resgate, em 2012, quem ficou a suportar a fatia de leão dos empréstimos foi o Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF), o antigo fundo de resgate do euro, que entrou com 131 mil milhões de euros.

Se o governo liderado por Alexis Tsipras mantiver o encerramento dos bancos e o controle de capitais na Grécia até 20 de Julho, conseguirá aguentar a banca grega com liquidez mas, nessa data, quando Atenas falhar o pagamento de 3,5 mil milhões de euros ao BCE, o país entra em bancarrota.








segunda-feira, 29 de junho de 2015

A Grécia à beira da bancarrota - III g. Os pensionistas esquecidos


Os gregos encontraram hoje os bancos com as grades descidas e as máquinas automáticas fechadas durante a manhã para se proceder ao controlo dos levantamentos de dinheiro.
Os pensionistas que não têm cartões bancários para levantamento de dinheiro não conseguiram receber as suas pensões.


No seguimento do colapso nas negociações entre o governo de Alexis Tsipras e os credores, o Banco Central Europeu (BCE) decidiu não reforçar os valores da linha de financiamento de emergência (ELA) para a banca grega, mantendo o anterior limite de 89 mil milhões de euros.

Alertado pelo governador do banco central grego de que a banca não conseguiria suportar o ritmo crescente dos levantamentos de depósitos das últimas semanas, o primeiro-ministro grego anunciou ontem o encerramento dos bancos gregos e a imposição de controlo de capitais. Tsipras fez questão de dizer aos gregos para permanecerem "calmos", assegurando que os "depósitos estão salvaguardados" e que o pagamento de salários e pensões não estava em perigo.
A seguir o Ministério das Finanças informou que os bancos vão permanecer fechados até 7 de Julho e que o controlo de capitais ia limitar a 60 euros o montante máximo diário de levantamentos de dinheiro nas caixas automáticas.

Os pensionistas que não têm cartões bancários dirigiram-se hoje aos bancos na esperança de levantarem dinheiro das suas pensões, mas não conseguiram porque não se confirmou os rumores de que os bancos poderiam abrir para os pensionistas.


Pensionistas fazem fila fora de uma sucursal do Banco Nacional da Grécia na esperança de obterem as suas pensões, em Atenas, Grécia, em 29 de Junho de 2015.
REUTERS/Yannis Behrakis


Os pensionistas que esperam fora de uma sucursal fechada do Banco Nacional da Grécia na esperança de obterem as suas pensões, discutem com um funcionário do banco (E) em Heraklion, na ilha de Creta, Grécia, em 29 de Junho de 2015.
REUTERS/Stefanos Rapanis

REUTERS/Stefanos Rapanis


Um gerente bancário explica a situação aos pensionistas que esperam fora de uma sucursal do Banco Nacional da Grécia na esperança de obterem as suas pensões, em Tessalónica, Grécia, em 29 de Junho de 2015.
REUTERS/Alexandros Avramidis


Pessoas sentadas fora de uma agência fechada do Banco Nacional da Grécia, em Atenas, em 29 de Junho de 2015.
REUTERS/Marko Djurica


Pessoas, na sua maioria pensionistas, discutem com um membro do pessoal (C) de uma agência fechada do Banco Nacional da Grécia, na sede do banco em Atenas, em 29 de Junho de 2015.
REUTERS/Marko Djurica

REUTERS/Marko Djurica


As pessoas, na sua maioria pensionistas, discutem entre si fora de uma agência fechada do Banco Nacional da Grécia, na sede do banco em Atenas, em 29 de Junho de 2015.
REUTERS/Marko Djurica

Perante o drama destas pessoas, um funcionário do governo grego veio dizer que é expectável que abram 850 sucursais bancárias para o pagamento de pensões: "As sucursais dos bancos vão abrir antes de segunda-feira. Há um esforço para que abram na quinta-feira."


*


Os bancos recebem o dinheiro depositado pelos clientes e fazem empréstimos às empresas e aos particulares. Para satisfazerem os levantamentos de dinheiro por parte dos seus clientes, os bancos socorrem-se de financiamento do BCE. Se houver algum motivo que leve este banco central a recusar, vão à falência.
Por exemplo, o Banco Espírito Santo sofreu uma medida de resolução no ano passado quando, depois de apresentar prejuízos elevadíssimos nas contas do primeiro semestre, o BCE recusou manter o financiamento ao banco.

Depois dos levantamentos de dinheiro da última semana, concomitantes com o arrastar das negociações do ministro das Finanças grego com os seus parceiros dos restantes 18 países da Zona Euro, a banca grega pediu mais um reforço do financiamento de emergência ELA.

Com a manutenção do ELA em 89 mil milhões de euros, o colapso das negociações no sábado e a corrida às caixas multibanco do fim-de-semana, a banca grega estava na iminência de falir. Nada mais restava ao primeiro-ministro grego e ao seu ministro das Finanças senão imporem o encerramento dos bancos e o controlo de capitais.

A questão é que nem Tsipras, nem Varoufakis, nem ninguém no governo grego se lembrou das dezenas de milhar de pensionistas que não dispõem de cartão de débito bancário e que iam ficar mais de uma semana, em desespero, sem dinheiro para comer.

Este infeliz incidente revela a inexperiência dos actuais governantes gregos e a irresponsabilidade com que tomam decisões, sem acautelar as consequências sobre os gregos mais desprotegidos que, ideologicamente, dizem defender. Mas pode abrir os olhos aos eleitores gregos que confiaram o seu voto a Tsipras e que, depois deste episódio dramático, irão reflectir e eventualmente votar "Ναί" ("Sim", em grego) no referendo de 5 de Julho.



Actualização em 1 de Julho

Cerca de um terço das sucursais dos bancos gregos abriram hoje mas apenas para o pagamento de pensões. Os pensionistas sem cartões multibanco podem levantar até 120 euros por semana.

Cerca de um terço das sucursais dos bancos gregos, ou seja, aproximadamente mil balcões abriram esta quarta-feira, 1 de Julho, para permitir que os pensionistas sem cartão multibanco fizessem levantamentos de dinheiro. Mas só podem descontar até 120 euros, por semana, dos cheques das pensões, muito menos do que os outros clientes dos bancos.

Contudo, estarem a ver, desde sábado, as pessoas a formarem longas filas diante das caixas multibanco para levantarem dinheiro e ficarem impedidos de aceder às pensões, durante dois dias, deixou marcas nos pensionistas e houve tensão à porta dos bancos gregos:






domingo, 28 de junho de 2015

A Grécia à beira da bancarrota - III f. O encerramento dos bancos


Após a decisão do Banco Central Europeu de não reforçar os valores da linha de financiamento de emergência (ELA) para a banca grega, o governo de Alexis Tsipras decretou o encerramentos dos bancos e o controlo de capitais.

Em declaração televisiva feita ao povo grego este domingo, por volta das 19:00 em Lisboa, o primeiro-ministro da Grécia anunciou o encerramento dos bancos gregos e impôs o controlo de capitais.
Tsipras disse ter aceite uma recomendação do banco central grego ao seu Governo depois do bloqueio das negociações no sábado.
E fez questão de avisar os gregos para permanecerem "calmos", assegurando que os "depósitos estão salvaguardados" e o pagamento de salários e pensões não está em perigo.

Entretanto a comunicação social revelou que o Ministério das Finanças anunciou que os bancos vão permanecer fechados até 7 de Julho e o controlo de capitais imposto limita a 60 euros o montante máximo de levantamentos por dia.

Recordemos que, durante a crise do sistema financeiro cipriota em 2013, foram impostas medidas de controlo de capitais que apenas impediam o levantamento de quantias superiores a 300 euros diários e proibiam as transferências de dinheiro, ou a posse em saída para o estrangeiro, de quantias superiores a 3 mil euros.


*


A resposta dos gregos foi uma corrida aos levantamentos de dinheiro, formando-se longas filas defronte das caixas multibanco, com muito mais gente do que no sábado, quando foi divulgado o bloqueio das negociações dentro do Eurogrupo.








Os comentários dos outros:

Grexit
28 Junho 2015 - 21:24
O Tsipras é o maior, limita o levantamento a 60 euros diários. Ora toma e embrulha povo Grego! Começou a austeridade à Syriza!

xxxx
28 Junho 2015 - 22:06
A Catarina e o Louçã emudeceram? Não falam da reestruturação da dívida?
E o Costa já não aplaude o Syriza? Esse oportunista e traidor vai ficar mais 4 anos na oposição. Quem se está a mijar de tanto rir é o Seguro!

Paulo Paiva Santos @ Facebook
28 Junho 2015 - 22:45
Tsipras toma uma das primeiras medidas de austeridade, levantamento de Eur. 60,00 diários e Banca encerrada até próximo dia 7 Julho.
Faz-me lembrar de experiências vividas pós-25 de Abril, em que o Governo Socialista de Mário Soares impôs, como forma de controle de capitais (evasão de capitais) que os portugueses que se deslocassem ao estrangeiro não podiam gastar mais que Escudos 12.500 por ano, com registo e averbamento no passaporte.
Inédito não é, original, verdade! Pois é, assim foi na altura. É o mesmo que dizer que durante esse período os portugueses tinham um passaporte, mas poucas ou nenhumas condições para viajar.
Quanto a Mário Soares... "Oh Sr. Polícia deixe-nos em paz", óbvio, as medidas que tomava, eram destinadas aos outros, a Ele nunca lhe tocaram à porta. Os Traidores gozam de certas regalias...

PF
28 Junho 2015 - 22:49
Parabéns Tsipras. Acabou de condenar toda a esquerda radical da Europa.

Miguel Bél @ Facebook
28 Junho 2015 - 23:40
Não era melhor fazerem um referendo para ver se o povo aceita que se encerrem os bancos, tal como querem fazer para não pagar os calotes?


segunda-feira, 23 de março de 2015

A carta de Tsipras para Merkel


O novo primeiro-ministro grego, enviou, há uma semana, uma longa carta à sua homóloga alemã, a chanceler Angela Merkel, que visitou esta segunda-feira em Berlim. Parece que uma carta semelhante foi enviada também para um grupo restrito de outros líderes europeus — François Hollande, presidente da França, Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu, e Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, estarão entre os seleccionados.

Segue-se uma dissecação profunda desta carta de Alexis Tsipras, datada de 15 de Março, feita no "Brussels Blog" do Finantial Times com intuitos pedagógicos e alguns laivos de humor:


"A carta começa por referir um acordo de 20 de Fevereiro do Eurogrupo — o conselho de todos os 19 ministros das Finanças da zona Euro, que é responsável por supervisionar a parte europeia do resgate de € 172 mil milhões à Grécia.
Essa foi a reunião em que os ministros, em última instância, decidiram prorrogar o resgate à Grécia até Junho; originalmente deveria esgotar-se no final de Fevereiro, e a perspectiva da Grécia prosseguir sem uma rede de segurança da UE tinha estimulado levantamentos maciços de depósitos bancários gregos, que muitos temiam ser o início de uma corrida aos bancos.

O primeiro parágrafo da carta também refere uma carta enviada a 18 de Fevereiro por Yanis Varoufakis, ministro das Finanças grego, para Jeroen Dijsselbloem, o ministro das Finanças holandês que preside ao Eurogrupo. O objectivo era pedir formalmente uma extensão do resgate existente, algo a que Tsipras tinha resistido desde que assumiu funções.


Cara Chanceler,

Estou a escrever-lhe para expressar a minha profunda preocupação com a evolução desde o acordo do Eurogrupo de 20 de Fevereiro de 2015, que foi precedido dois dias antes por uma carta do nosso Ministro das Finanças para definir uma série de questões que o Eurogrupo deveria resolver, questões que considero serem importantes, incluindo a necessidade de:

(a) Acordar os termos financeiros e administrativos mutuamente aceitáveis cuja execução, em colaboração com as instituições, vai estabilizar a situação financeira da Grécia, alcançar excedentes orçamentais adequadas, garantir a estabilidade da dívida e ajudar na consecução dos objectivos orçamentais para 2015, que tenha em conta a actual situação económica.

Esta é uma maneira elegante de dizer que os dois lados não chegaram a acordo sobre que medidas de reforma devem ser aprovadas antes que a Grécia possa obter parte dos € 7,2 mil milhões restantes do resgate em vigor e Tsipras quer os termos esclarecidos rapidamente.

(b) Permitir ao Banco Central Europeu reintroduzir a isenção de acordo com os seus procedimentos e regulamentos.
Dada a conjuntura económica, os bancos gregos tiveram de contrair empréstimos do BCE a preços extremamente baratos, uma vez que muitas vezes não podem levantar dinheiro para suas operações do dia-a-dia no mercado aberto. Mas o BCE precisa de garantia para esses empréstimos, e uma das formas de garantia tem sido sempre as obrigações de dívida pública detidas pelos bancos.
Bem, à medida que a situação fiscal da Grécia se deteriorava, esses títulos valiam cada vez menos — até que se tornaram demasiado arriscados, na opinião de muitos bancos centrais, para serem aceites como garantia. Esta foi a situação das obrigações gregas durante algum tempo mas, até Tsipras ser eleito, o BCE tinha uma isenção que permitia a este banco central aceitar os títulos como garantia porque Atenas estava sob um programa de resgate destinado a repor as suas finanças nos carris.
Poucos dias depois de Tsipras ter formado governo, o BCE retirou a isenção, argumentando que Atenas já não estava comprometida com a conclusão do resgate. Tsipras quer a isenção restabelecida porque, agora, os bancos gregos estão apoiados em empréstimos de emergência mais caros do banco central grego em vez da janela normal de empréstimos do BCE.


(c) Iniciar os trabalhos entre as equipas técnicas sobre um possível novo Contrato de Recuperação e Desenvolvimento que as autoridades gregas prevêem entre a Grécia, a Europa e o Fundo Monetário Internacional, para prosseguir o actual acordo.
A Grécia vai precisar de um terceiro resgate, uma vez que o programa actual termina em Junho, e Tsipras está aqui a pedir para se iniciarem conversações sobre um novo resgate.

(d) Discutir os meios para adoptar a decisão do Eurogrupo de Novembro de 2012 sobre a possibilidade de novas medidas da dívida e assistência para implementação, após a conclusão do acordo prorrogado e como parte do Contrato de acompanhamento.
Aparentemente esquecido por todos, excepto pelo governo grego (e alguns repórteres irritantes), os ministros da zona Euro concordaram, em Novembro de 2012, em conceder a Atenas um alívio adicional da dívida se o governo conseguisse um excedente primário (o que significa que recebe mais do que gasta, quando os juros da dívida não são contabilizados). Bem, a Grécia atingiu um superavit primário em 2013. E nenhum alívio da dívida foi acordado. Tsipras está a pedir para que isso aconteça no terceiro programa de resgate.

Com base na aceitação de princípio dessa carta e do seu conteúdo, o Presidente do Eurogrupo convocou a reunião de 20 de Fevereiro, que chegou a uma decisão unânime num comunicado. Este último constitui um novo quadro para a relação entre a Grécia, os parceiros e as instituições.
Isto pode parecer um floreio retórico, mas atinge algo mais profundo, que continua a assolar a relação: Tsipras considera o acordo de 20 de Fevereiro como uma ruptura com o que existia antes; os outros líderes da zona Euro, em particular na Alemanha, consideram-no simplesmente uma extensão do actual programa de resgate.

Mais precisamente, o acordo do Eurogrupo de 20 de Fevereiro estipulou um número de pontos que descrevem este novo quadro e processo, incluindo:

(a) As autoridades gregas apresentarão uma primeira lista de medidas de reforma, com base no arranjo actual, até ao final de segunda-feira, 23 de Fevereiro. As instituições vão fornecer uma visão inicial se esta é suficientemente abrangente para ser um ponto de partida para uma conclusão bem-sucedida da revisão. Esta lista será melhor especificada e, então, acordada com as instituições até ao final de Abril.

Para conquistar uma extensão, Varoufakis teve de submeter outra carta (publicada aqui) dando ao Eurogrupo uma lista de grandes reformas que Atenas tencionava executar, uma vez que o governo grego tinha insistido, durante semanas, que não iria concordar com reformas que haviam sido incluídas no actual resgate. A carta destinou-se a acalmar essas preocupações antes do Eurogrupo ter assinado a extensão. Foi bem-sucedida, embora o FMI e o BCE expressassem publicamente grandes preocupações com a lista.

(b) As autoridades gregas expressaram o forte compromisso com um processo de reforma estrutural mais amplo e profundo que vise melhorar, de forma duradoura, as perspectivas de crescimento e emprego, garantindo a estabilidade e a resiliência do sector financeiro e melhorando a justiça social. As autoridades comprometem-se a implementar reformas há muito necessárias para combater a corrupção e a evasão fiscal, e melhorar a eficiência do sector público. Neste contexto, as autoridades gregas comprometem-se a fazer o melhor uso da prestação continuada de assistência técnica.
Tsipras sempre insistiu que é a favor de reformas, e muitas das reformas que cita são totalmente abraçadas pelos credores do resgate. Mas há outras reformas que eles também querem fazer.

(c) Continuamos empenhados em dar apoio adequado à Grécia até que recupere o acesso total ao mercado, desde que respeite os seus compromissos no quadro legal.
Auto-explicativo. A zona Euro vai fornecer tanto dinheiro quanto for preciso, desde que a Grécia faça reformas.

Com base nesta plataforma comum, o Ministro das Finanças enviou ao Presidente do Eurogrupo uma carta, datada de 23 de Fevereiro de 2015, com a supracitada "primeira lista de reformas" [ver (a) acima] proposta pelo governo. Em 24 de Fevereiro de 2015 a referida "primeira lista" foi aceite pelas instituições como "suficientemente compreensível para ser um ponto de partida para uma conclusão com sucesso da revisão" de 20 de Abril de 2015.

A fim de agilizar o processo, o Ministério das Finanças enviou uma carta ao Presidente do Eurogrupo, em 5 de Março de 2015, solicitando que o processo de discussões técnicas sobre a especificação da "primeira lista de reformas" comece imediatamente. Na mesma carta, o ministro das Finanças anexou sete exemplos de como as reformas da "primeira lista" poderiam ser desenvolvidas e especificadas.

É aqui que as coisas começam a sair dos carris. A carta de Varoufakis referida (e publicada aqui) é agora conhecida pela referência a um plano para delegar indivíduos não-profissionais — incluindo os turistas — como inspectores fiscais independentes. Mas o verdadeiro problema com a carta é que enviou o processo para a direcção que muitos em Bruxelas acreditavam ser errada. Para eles, o passo seguinte era inspectores dos três monitores do resgate à Grécia virem a Atenas observar os registos da Grécia para ver quão longe dos carris o programa tinha ido. Mas a nova carta de Varoufakis deixava claro que a Grécia queria falar sobre algo completamente diferente — novas reformas e não as do programa existente.

Na sequência de uma resposta positiva por parte do Presidente do Eurogrupo (datada de 6 de Março de 2015) e da subsequente reunião do Eurogrupo de 9 de Março de 2015, a primeira ronda de discussões do Grupo de Bruxelas (que compreende as quatro instituições — CE-BCE-FMI-MEE — mais a equipa técnica do governo grego) decorreu em Bruxelas, na quarta-feira 11 de Março, lidando tanto com questões políticas como técnicas. Na mesma reunião, também foi decidido que as equipas técnicas das instituições iriam viajar para Atenas no dia seguinte para apuramento de factos in loco que ajudassem as negociações do Grupo de Bruxelas.
De novo, este parágrafo demonstra quão distantes estão os dois lados na compreensão do que deveria acontecer ao longo do último mês. Embora Dijsselbleom respondesse à carta de Varoufakis, foi mais superficial do que "positivo" (pode ler-se uma cópia aqui). E no Eurogrupo de 9 de Março a que Tsipras se refere, Dijsselbloem estava francamente irritado com o tempo despendido para conseguir os inspectores em Atenas. O "Grupo de Bruxelas" é o novo nome dado à odiada "troika" dos inspectores do resgate — a Comissão Europeia, BCE e FMI — que agora inclui uma quarta instituição, o fundo de resgate de € 500 mil milhões da zona Euro, conhecido como Mecanismo Europeu de Estabilidade.

No contexto do exposto, sinto que é fundamental alertar para uma série de acontecimentos que estão a minar o espírito do acordo alcançado ou a dificultar perigosamente o seu cumprimento.
O anterior era o prólogo. Isto é o que realmente me chateia.

(a) No dia 4 de Fevereiro, o Banco Central Europeu levantou a isenção dos requisitos mínimos de notação de crédito para instrumentos negociáveis emitidos ou garantidos pela República Helénica, embora declarando que a isenção seria restabelecida quando fosse alcançado um acordo ao nível do Eurogrupo. Além disso, desde que os bancos gregos foram encaminhados para o recurso ELA do Banco da Grécia, o BCE está a elevar o tecto do ELA em intervalos mais curtos do que o normal e incrementos bastante pequenos que estimulam a especulação e espalham incerteza vis-à-vis o sistema bancário da Grécia. Além disso, o BCE determinou que os bancos gregos não podem deter mais bilhetes do Tesouro do que tinham em 18 de Fevereiro de 2015, restringindo, assim, a sua participação para bem abaixo do limite de bilhetes do Tesouro. (Por favor, note que, no Verão de 2012, quando um novo governo de Atenas estava numa situação parecida com a nossa, a ELA foi sendo ampliada generosamente, o limite de emissão de bilhetes do Tesouro foi elevado para permitir ao governo financiar os reembolsos de dívida aos nossos credores e os bancos não estavam restritos a qualquer limite correspondente à participação numa data anterior. Dessa maneira o governo da época e o Eurogrupo acederam a "espaço" suficiente para chegar a um acordo que permitiu que aos bancos gregos afastarem-se da ELA e regressarem aos métodos normais de financiamento do BCE.)
Reunido num único lugar, é a conta inteira de particulares que Tsipras tem contra o BCE. São complexos, por isso vamos levá-los um a um. O primeiro — a referência à isenção — é o mesmo assunto mencionado no início da carta.

Quando os bancos gregos foram expulsos do programa de empréstimo de emergência normal do BCE, foram obrigados a recorrer a empréstimos mais caros a partir do banco central grego, o que é conhecido como ELA (de assistência de liquidez de emergência). Embora o banco central grego seja o credor real, o BCE tem de aprovar todos os empréstimos ELA, e eles foram mantendo o banco central grego com trela muito curta, permitindo apenas pequenos aumentos periodicamente. Tsipras pensa que mina a confiança no sistema bancário, mas o BCE acha que está apenas a exercer o seu dever fiduciário.

Por último, e, possivelmente, o mais importante para a crise de liquidez imediata da Grécia, é um limite máximo para o montante em bilhetes do Tesouro (dívida de curto prazo normalmente emitida em bilhetes do Tesouro a três meses) que pode ser comprado pelos bancos gregos. Porque os bancos gregos estão agora a depender da ELA para as operações do dia-a-dia, o BCE tem uma palavra a dizer aonde esse dinheiro é gasto. E porque a legislação da UE impede o dinheiro do banco central de ser usado para financiar governos nacionais, o BCE impôs um limite para o montante em bilhetes do Tesouro do governo grego que os bancos gregos podem comprar. Este é um grande problema porque, dada a incerteza actual, quase ninguém que não seja os bancos gregos estão a comprar bilhetes do Tesouro gregos. O BCE disse aos bancos que não estão autorizados a comprar mais bilhetes do Tesouro do que o montante realizado no dia em que a Grécia solicitou a extensão do resgate, 18 de Fevereiro (isso não era anteriormente conhecido), o que significa que, quando os seus bilhetes do Tesouro vencem, podem comprar um montante igual, mas não mais. No geral, o programa de resgate permite à Grécia emitir € 15 mil milhões em bilhetes do Tesouro, mas o limite nos bancos gregos significa que Atenas está agora, aparentemente, abaixo do limite máximo de € 15 mil milhões. Tsipras quer ser capaz de emitir mais bilhetes do Tesouro, e ter bancos gregos a comprá-los.

O parêntesis refere-se a meados de 2012, quando o predecessor de Tsipras, Antonis Samaras, tinha acabado de ser eleito e o BCE tinha regras muito mais brandas em vigor. O BCE defende que não tem dois pesos e duas medidas; a Samaras foi dada indulgência porque tinha prometido implementar o resgate e começou a fazê-lo. Tsipras, argumenta o banco central, repudiou o programa e ainda não implementou as respectivas medidas.


(b) Na sequência de fracassos passados (do governo anterior) para concluir as avaliações programadas, os desembolsos no âmbito dos contratos de empréstimo com o MEE-FEEF foram descontinuados (enquanto os do FMI foram igualmente adiados), obtendo-se uma lacuna financeira substancial em 2014 e 2015. Isso inclui os lucros provenientes do programa SMP de resgates de obrigações pelo BCE, que o BCE distribui aos Estados-membros com o entendimento de que sejam transferidos para o governo grego.
Os € 7,2 mil milhões da última tranche do resgate que Tsipras está a tentar obter inclui o financiamento de três fontes: € 1,8 mil milhões do fundo de resgate da zona Euro, € 3,6 mil milhões do FMI e um adicional de € 1,8 mil milhões de lucros de obrigações do Tesouro gregas. Estas obrigações foram adquiridas pelo BCE em 2010 para acalmar os mercados financeiros, e foi decidido em 2012 que não era adequado o BCE obter um lucro com elas — de modo que os lucros seriam enviados de volta para os governos nacionais que, por sua vez, iriam pagá-los a Atenas. O novo governo grego tem insistido repetidamente que esses lucros são devidos agora a Atenas e algumas autoridades sugeriram que poderiam ser repartidos como uma sub-tranche precoce, se as autoridades gregas implementassem rapidamente uma série de reformas. Mas a maioria dos autoridades da zona Euro — incluindo Merkel — disseram que não serão distribuídos até que a avaliação de todo o resgate esteja concluída.

Dado que a Grécia não tem acesso aos mercados financeiros, e também tendo em conta os 'picos' nos reembolsos da nossa dívida durante a Primavera e Verão de 2015 (principalmente ao FMI), deveria ser claro que as restrições especiais impostas pelo BCE [ver (a) acima], quando combinadas com os adiamentos nos desembolsos [ver (b) acima], tornariam impossível a qualquer governo cumprir as obrigações de pagamento de dívida. A manutenção destes reembolsos através de recursos internos por si só, conduziria, de facto, a uma acentuada deterioração da já deprimida economia social grega — uma perspectiva que não vou tolerar.
Este é o cerne da questão. Tsipras está a dizer que, a menos que receba dinheiro rapidamente, tem somente duas opções: deixar de pagar o que deve aos credores, incluindo o FMI, ou reduzir dramaticamente os gastos sociais. E ele não vai tolerar um corte na despesa social.

Entretanto também lamento informar que pouco progresso foi feito nas negociações entre as equipas técnicas em Bruxelas e Atenas. A razão para o progresso extremamente lento é que as equipas técnicas das instituições, bem como alguns dos actores a um nível superior, parecem mostrar pouca consideração pelo acordo de 20 de Fevereiro do Eurogrupo e estão, em vez disso, empenhadas em proceder no sentido do memorando de entendimento que é anterior tanto ao acordo de 20 de Fevereiro como a 25 de Janeiro de 2015 — a data em que o povo grego elegeu um novo governo com um mandato para negociar o novo processo estabelecido no acordo de 20 de Fevereiro do Eurogrupo. É difícil acreditar que os nossos parceiros considerem que pode ser realizado um percurso de reforma bem-sucedida sob tais constrangimentos restritivos e urgentes, incluindo o aperto financeiro sob o qual o meu governo está a trabalhar.
Isto descreve muito sucintamente o impasse. Tsipras acha que o resgate foi alterado, e o resto da zona Euro não acha. Entre as coisas que vêm com o velho estilo de fazer negócios estão inspecções intrusivas por monitores de resgate em Atenas, e que o governo grego até à semana passada não estava disposto a aceitar, uma vez que lembrou aos eleitores gregos a injuriada "troika".

O governo grego continua firme no compromisso de cumprir as obrigações para com os parceiros no quadro da carta de 18 de Fevereiro e da decisão de 20 de Fevereiro do Eurogrupo. No entanto, também sou obrigado a esclarecê-la que, a fim de continuarmos a cumprir as nossas obrigações, como temos feito até agora, tem de se progredir em várias frentes:
Aí vêm as exigências.

(a) Depois do acordo de 20 de Fevereiro do Eurogrupo e da aprovação da extensão do MFAFA pelos Estados-membros, e dado que as discussões técnicas com as instituições estão em andamento, o BCE devia devolver os termos de financiamento dos bancos gregos à situação pré-4 de Fevereiro de 2015.
Em suma, o BCE devia começar a aceitar novamente obrigações gregas como garantia.

(b) Deve ser imediatamente clarificado o processo das reformas propostas pelo governo grego, e respectiva avaliação, de modo a fazer uma conclusão bem-sucedida da avaliação até ao final do mês de Abril de 2015, bem como especificar o reinício dos desembolsos com o andamento das negociações.
Vai mesmo forçar-me a aceitar novamente inspecções da troika para ter esta coisa feita? E quando é que vai começar a dar-nos as sub-tranches de que falou?

(c) Deve ser especificado o processo (bem como os participantes e o calendário) através do qual novos acordos (que o meu governo gostaria que assumissem a forma de um "Contrato para a Recuperação e Desenvolvimento da Grécia' — incluindo disposições sobre a dívida pública da Grécia no espírito do acordo de Novembro de 2012 do Eurogrupo) serão estabelecidos antes do final de Junho de 2015.
Temos de começar as negociações sobre um terceiro resgate à Grécia, incluindo algum alívio da dívida. Mas, em vez de chamá-lo um terceiro resgate, nós gostaríamos de chamá-lo "Contrato para a Recuperação e Desenvolvimento da Grécia".

Em conclusão, a Grécia está empenhada em cumprir as suas obrigações de boa fé e em estreita colaboração com os seus parceiros. Para esta finalidade, estamos comprometidos integralmente com o processo especificado no acordo de 20 de Fevereiro do Eurogrupo, de modo a começar imediatamente o trabalho de implementação de reformas cruciais para as perspectivas de desenvolvimento a longo prazo da nossa economia dentro de uma Europa inclusiva. Com esta carta, estou a alertá-la para que não permita que um pequeno problema de liquidez, e uma certa "inércia institucional", se transforme num grande problema para a Grécia e para a Europa.

Alexis Tsipras

Isto não vai ficar mais fácil para nenhum de nós."



Encontro realizado à margem da cimeira europeia da quinta-feira passada que foi concluído perto das 02:30 locais desta sexta-feira (01:30 de Lisboa). À volta da mesa, além da chanceler alemã, Angela Merkel, e do presidente francês, François Hollande, estão o presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, o presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, sentado entre o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, e o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, anfitrião do encontro.
Juncker e Tusk anunciaram na sexta-feira, que a União Europeia colocou à disposição da Grécia 2 mil milhões de euros provenientes de fundos europeus não utilizados.
Finantial Times




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Durante décadas, os governos gregos viciaram-se em contrair dívida pública. Antonis Samaras cortou esta dependência, obteve um superavit primário e foi penalizado nas eleições.

Agora Alexis Tsipras pretende continuar a alimentá-la através de um terceiro resgate, a que chama pomposamente "Contrato para a Recuperação e Desenvolvimento da Grécia", pago pelo MEE, o fundo de resgate da zona Euro sustentado, obviamente, pelos contribuintes dos restantes 18 países do euro. E não se quedando satisfeito, ainda reivindica um novo alívio da dívida, ou seja, quer ferrar-nos outro calote. Internem este doido furioso.


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Eurogrupo dá mais quatro meses à Grécia


Os ministros das Finanças da zona Euro acordaram, em princípio, estender o programa de resgate da Grécia por quatro meses, para evitar uma crise de liquidez em Março que forçaria o país a sair do euro.

Obtido apenas na terceira reunião do Eurogrupo em dez dias, o acordo exige que, na próxima segunda-feira, o governo grego apresente uma carta ao Eurogrupo listando todas as medidas políticas que pretende tomar durante o restante período do resgate, para garantir que vai cumprir as condições do mesmo.

Se a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o FMI ficarem satisfeitos, os Estados-membros da Zona Euro vão ratificar a prorrogação, quando necessário através dos seus parlamentos, como lembrou o ministro das Finanças irlandês Michael Noonan:
"É um importante primeiro passo que esperamos que venha a conduzir a uma segunda etapa de sucesso na noite de segunda/manhã de terça-feira, mas depois há uma terceira etapa com as ratificações nos parlamentos [da Alemanha, Holanda, Estónia e Eslováquia]."

A firmeza dos outros 18 Estados-membros da zona Euro, que cerraram fileiras contra as pretensões do governo grego em beneficiar de financiamento europeu mas sem contrapartidas, isolou o primeiro-ministro radical Alexis Tsipras e forçou-o a um grande recuo político uma vez que ele havia prometido acabar com o programa de resgate, terminar a cooperação com a troika de credores internacionais e reverter a austeridade.

Todavia terá sido o conselho de governadores do Banco Central Europeu (BCE), que anteontem se reuniu para avaliar novamente a linha de liquidez de emergência (ELA) concedida aos bancos gregos, quem exerceu a pressão decisiva sobre o governo grego. Ao alterar de 65 para 68,3 mil milhões de euros o limite dos fundos disponibilizados, uma subida muito inferior aos 10 mil milhões de euros solicitados pela banca helénica para poder suportar a enorme fuga de depósitos, deixou os bancos na iminência de falirem no curto prazo.
Por sua vez o Mecanismo Único de Supervisão, o regulador para a banca europeia, alertou os bancos gregos para não emprestarem dinheiro às entidades públicas porque os tratados europeus não permitem que o programa ELA seja usado para financiar directamente os Estados-membros.

Confrontado com a exigência de um compromisso claro até ao final da semana, o ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, enviou esta carta ao seu homologo holandês, Jeroen Dijsselbloem, presidente do Eurogrupo, pretendendo que a resposta dos seus colegas fosse apenas "sim", ou "não", e dada em reunião por teleconferência (negrito é meu):

Atenas, 18 de Fevereiro de 2015

Caro Presidente do Eurogrupo,

Ao longo dos últimos cinco anos, o povo da Grécia realizou esforços notáveis de ajustamento económico. O novo Governo está empenhado num processo de reforma mais amplo e profundo que visa melhorar de forma duradoura o crescimento e as perspectivas de emprego, alcançar a sustentabilidade da dívida e a estabilidade financeira, aumentando a equidade social e atenuando o custo social significativo da crise em curso.

As autoridades gregas reconhecem que os procedimentos acordados pelos Governos anteriores foram interrompidos pelas recentes eleições presidenciais e legislativas, e que, em resultado, várias disposições técnicas foram invalidadas. As autoridades gregas honram as obrigações financeiras da Grécia para com todos os seus credores, assim como afirmam a nossa intenção de cooperar com os nossos parceiros, a fim de evitar obstáculos técnicos no âmbito do Acordo-Quadro que reconhecemos como obrigatório no que diz respeito às suas disposições financeiras e processuais.

Neste contexto, as autoridades gregas estão agora a pedir a prorrogação do Acordo-Quadro de Assistência Financeira para um período de seis meses, a contar após a sua conclusão, período durante o qual vamos proceder em conjunto, e fazendo o melhor uso da flexibilidade dada pelo actual plano, com vista à sua conclusão bem-sucedida e avaliação com base nas propostas de, por um lado, o governo grego e, por outro, as instituições.

O objectivo da prorrogação solicitada de seis meses da duração do Acordo é:

a) Chegar a acordo sobre os termos financeiros e administrativos cuja implementação, em colaboração com as instituições, estabilizará a posição orçamental da Grécia, atingindo excedentes primários apropriados, garantindo a estabilidade da dívida e apoiando a realização dos objectivos orçamentais para 2015, tendo em conta a actual situação económica.

b) Assegurar, em estreita colaboração com os nossos parceiros europeus e internacionais, que quaisquer novas medidas serão totalmente financiadas, e ao mesmo tempo abster-se de acções unilaterais que prejudiquem as metas orçamentais, a recuperação económica e a estabilidade financeira.

c) Permitir ao Banco Central Europeu reintroduzir a cláusula de excepção [para as obrigações do tesouro gregas] de acordo com seus procedimentos e regulamentos.

d) Prolongar a disponibilidade das obrigações do FEEF [Fundo Europeu de Estabilização Financeira que financia em nome da zona Euro], que estão na posse do HFSF [Fundo Helénico de Estabilização Financeira], durante a vigência do Acordo.

e) Iniciar as conversações técnicas com vista à assinatura de um novo Contrato para a Recuperação e Crescimento [terceiro resgate] que as autoridades gregas desejam entre a Grécia, a Europa e o FMI, para dar seguimento ao actual Acordo.

f) Chegar a acordo sobre a supervisão no quadro da UE e do BCE e, no mesmo espírito, com o FMI durante o período alargado do Acordo.

g) Discutir o modo de desencadear a decisão do Eurogrupo de Novembro de 2012 relativamente a novas possíveis medidas sobre a dívida e a assistência para a implementação após a conclusão do Acordo prorrogado e enquanto parte do Contrato de acompanhamento [mecanismos de alívio de dívida previstos desde 2012].

Com o acima referido em mente, o governo grego exprime a sua determinação em cooperar estreitamente com as instituições da União Europeia e com o Fundo Monetário Internacional, de modo a: a) atingir a estabilidade orçamental e financeira, e b) permitir ao governo grego introduzir reformas substantivas e de longo alcance que são necessárias para restaurar os padrões de vida de milhões de cidadãos gregos através de um crescimento económico sustentável, emprego produtivo e coesão social.

Atenciosamente,
Yanis Varoufakis
Ministro das Finanças
Grécia


Depois de Atenas ter enviado a Bruxelas este pedido de prorrogação de seis meses, o ministro grego do Trabalho, Panos Skourletis, desvalorizou o pedido, afirmando que apenas estava em jogo o contrato de empréstimo assinado com a zona Euro: "O pedido é referente à extensão do acordo de empréstimo, não é para o programa de assistência em curso."

Vários países do euro ficaram descontentes com as declarações contraditórias das autoridades gregas e mostraram-se dispostos a deixar sair a Grécia da moeda única.

"A zona Euro está, certamente, mais estável e mais forte do que há cinco anos, pelo que a eventualidade hipotética de um dos seus membros sair deverá ter pouco impacto", disse o ministro estónio das Finanças, Maris Lauri, que fez notar que a Grécia não cairia na insolvência, se não quiser uma extensão do resgate europeu, pois obteve um superavit em 2014. Contudo, acrescentou, o país teria de passar a viver por conta própria.

O primeiro-ministro eslovaco Robert Fico, em entrevista ao Finantial Times, também disse que a Eslováquia encarava com "calma" a eventualidade da Grécia sair da zona Euro, se o país se recusasse a honrar os seus compromissos, tendo acrescentado ser "impossível" explicar aos eslovacos que tinham de pagar salários e pensões na Grécia.

Hoje, de manhã, foi a vez do ministro das Finanças de Malta, Edward Scicluna, dizer horas antes da reunião do Eurogrupo: "Penso que chegámos agora a um ponto em que vão dizer à Grécia 'se querem realmente sair, saiam'. E penso que eles vão levar isto a sério, porque a Alemanha, Holanda e outros vão ser duros e vão insistir que a Grécia pague de volta a solidariedade demonstrada pelos Estados-membros ao respeitar as condições."
O ministro de Malta criticou também o método de actuação de Alexis Tsipras e de Yanis Varoufakis: "Infelizmente para a Grécia, eles não sabem as regras e como o Eurogrupo trabalha. Eles são completamente novos e isso é negativo para eles."

Mas o aviso mais forte veio de Berlim, quando porta-voz de Wolfgang Schäuble considerou que a carta de Atenas não verificava os critérios acordados pelo Eurogrupo na segunda-feira, indo noutra direcção: “Na verdade, vai na direcção de um financiamento intercalar sem responder às exigências do programa [de ajustamento].”

Os esclarecimentos necessários exigiram o adiamento da reunião dos ministros das Finanças da zona Euro para as 16h30, em Bruxelas, para se poder realizar um encontro entre o ministro grego, Yanis Varoufakis, o homólogo alemão, Wolfgang Schäuble, o comissário europeu dos Assuntos Económicos, o francês Pierre Moscovici, a directora-geral do Fundo Monetário Internacional, Christine Lagarde, e o presidente do Eurogrupo, Jeroem Dijsselbloem.
O acordo aí delineado foi depois apresentado na reunião do Eurogrupo, tendo merecido a concordância de todos os ministros das Finanças. Pelas 20h começaram as conferências de imprensa e uma hora depois era divulgada a declaração do Eurogrupo (negrito é meu):

O Eurogrupo reitera o seu apreço pelos esforços de ajustamento notáveis realizados pela Grécia e pelo povo grego ao longo dos últimos anos. Durante as últimas semanas, envolvemo-nos, em conjunto com as instituições [Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI], num diálogo intenso e construtivo com as novas autoridades gregas e atingimos hoje uma base comum.

O Eurogrupo toma nota, no âmbito do acordo existente, do pedido das autoridades gregas para uma prorrogação do Acordo-Quadro de Assistência Financeira (MFFA), que é sustentado por um conjunto de compromissos. O objectivo da prorrogação é a conclusão com êxito da avaliação [do programa grego] com base nas condições do actual acordo, fazendo o melhor uso da flexibilidade que será considerada em conjunto com as autoridades gregas e as instituições. Esta extensão também serve de ponte no tempo para discussão de um possível acordo de acompanhamento entre o Eurogrupo, as instituições e a Grécia.

As autoridades gregas vão apresentar uma primeira lista de medidas de reforma, com base no actual acordo, até o final de segunda-feira, 23 de Fevereiro. As instituições vão fazer uma primeira análise sobre se esta é suficientemente abrangente para ser um ponto de partida válido para uma conclusão com êxito da avaliação. Esta lista será melhor especificada, e então alvo de acordo com as instituições, até ao final de Abril.

Apenas a aprovação da avaliação final do acordo prorrogado por parte das instituições, permitirá qualquer desembolso da parcela remanescente [7,2 mil milhões de euros] do actual Programa FEEF e a transferência dos lucros [1,9 mil milhões de euros] de 2014 do SMP [programa de compra de valores mobiliários]. Ambos ficam novamente sujeitos à aprovação pelo Eurogrupo.

Tendo em vista a avaliação das instituições, o Eurogrupo chegou a acordo que os fundos, até agora disponíveis no buffer FHEF [Fundo Helénico de Estabilização Financeira] [11 mil milhões de euros], devem ser confiados ao FEEF [Fundo Europeu de Estabilização Financeira], livres de direitos de terceiros para o período de extensão do MFFA. Os fundos continuam a estar disponíveis para o período de extensão do MFFA e só podem ser usados para custos de recapitalização e resolução da banca. Só serão libertados a pedido do BCE/SSM [Mecanismo Único de Supervisão].

Nesta perspectiva, congratulamo-nos com o compromisso das autoridades gregas de trabalhar em estreita parceria com instituições e parceiros europeus e internacionais. Neste contexto, recordamos a independência do Banco Central Europeu. Também concordámos que o FMI vai continuar a desempenhar a sua função.

As autoridades gregas expressaram o forte compromisso com um processo de reforma estrutural mais ampla e profunda que visa melhorar de forma duradoura o crescimento e as perspectivas de emprego, garantindo a estabilidade e resiliência do sector financeiro, e melhorar a equidade social. As autoridades comprometem-se a implementar reformas há muito necessárias para combater a corrupção e a evasão fiscal e melhorar a eficiência do sector público. Neste contexto, as autoridades gregas comprometem-se a fazer o melhor uso do prosseguimento da prestação de assistência técnica.

As autoridades gregas reiteram o seu compromisso inequívoco de honrarem plena e atempadamente as obrigações financeiras para com todos os seus credores.

As autoridades gregas também se comprometeram a garantir o superavit orçamental primário [saldo positivo sem os juros da dívida] adequado ou os recursos de financiamento necessários para garantir a sustentabilidade da dívida, de acordo com a declaração do Eurogrupo de Novembro de 2012. As instituições, para a meta de superavit primário de 2015, vão tomar em consideração as circunstâncias económicas em 2015.

À luz desses compromissos, congratulamo-nos que, numa série de áreas as prioridades políticas gregas podem contribuir para um reforço e uma melhor aplicação do actual acordo. As autoridades gregas comprometem-se a abster-se de qualquer reversão de medidas e alterações unilaterais de políticas e reformas estruturais que teriam um impacto negativo nas metas orçamentais, na recuperação económica ou na estabilidade financeira, tal como avaliadas pelas instituições.

Com base no pedido, nos compromissos assumidos pelas autoridades gregas, no parecer das instituições, e no acordo de hoje, vamos lançar os procedimentos nacionais com vista a chegar a uma decisão final sobre a extensão do actual Acordo-Quadro de Assistência Financeira do FEEF para quatro meses, pelo Conselho de Administração do FEEF. Também convidamos as instituições e as autoridades gregas a retomarem imediatamente o trabalho que permitiria a conclusão bem-sucedida da avaliação.

Continuamos empenhados em fornecer um apoio adequado à Grécia até que recupere o acesso total ao mercado, desde que respeite os seus compromissos no horizonte acordado.

Friday, February 20, 2015 - 01:48
Excerto das duas conferências de imprensa, a da troika com Christine Lagarde (FMI), Pierre Moscovici (Comissão Europeia) e o representante do Banco Central Europeu, com Jeroem Dijsselbloem (Eurogrupo) entre estes últimos, e a do ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis.

20/02/2015 - 22:07


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Ficam assim adiadas as promessas que permitiram ao Syriza ganhar as eleições legislativas gregas em 25 de Janeiro — em especial, as subidas do salário mínimo grego para 876 euros e do limiar de pagamento de IRS para 12.000 euros —, bem como o recente perdão fiscal (que anularia 90% dos 76 mil milhões de euros que os gregos devem ao fisco e à segurança social) para quando conseguirem derrotar a corrupção e a tradicional evasão fiscal grega.

O governo de Alexis Tsipras vai ficar o fim-de-semana prolongado (segunda-feira é feriado na Grécia) a fazer um trabalho de casa que será avaliado na próxima terça-feira pela Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI, ou seja, pelas equipas técnicas lideradas por Jean-Claude Juncker, Mario Draghi e Christine Lagarde e, se passar neste exame técnico, será aprovado pelos restantes 18 ministros das Finanças da zona Euro na reunião do Eurogrupo.

Não é um trabalho nada fácil: têm de elaborar uma lista de medidas de reforma de modo a manter este ano o superavit primário (saldo positivo, não contabilizando os juros da dívida) alcançado pelo governo de Antonis Samaras em 2014. Se as instituições julgarem que as reformas apresentadas pelo governo grego não cumprem o princípio de se compensarem financeiramente, para não colocar os objectivos orçamentais e de competitividade da economia em causa, “a Grécia estará em apuros e este acordo morto e enterrado”, reconheceu o próprio Yanis Varoufakis.
No entanto, o governo grego pode contar com o apoio técnico da troika CE/BCE/FMI para fazer o trabalho de casa...



Se o governo grego for capaz de passar nos exames técnicos de 24 de Fevereiro e do final de Abril, tem uma terceira etapa para ultrapassar logo a seguir. É que, em vez do prolongamento de seis meses pedido por Varoufakis, foram dados apenas quatro meses, o que coloca o final da vigência do empréstimo antes das amortizações de obrigações do tesouro previstas para Julho e Agosto, num total de cerca de 7 mil milhões de euros. E, ao contrário dos bilhetes do tesouro que podem ser pagos com a emissão de novos bilhetes, as obrigações do tesouro e a dívida ao FMI só podem ser amortizadas com o apoio dos parceiros europeus.

Além disso, ficou decidido que os 11 mil milhões de euros que estavam na posse da Grécia para capitalizar os seus bancos vão regressar ao FEEF, o fundo europeu de estabilização financeira. “É para garantir que não é usado pelo Estado”, explicou o presidente do Eurogrupo, Jeroem Dijsselbloem, com uma sinceridade desarmante.
No caso de Portugal, a parte não usada do montante destinado à banca permaneceu em Lisboa, mesmo depois do fim do programa.

A questão do BCE ter deixado de aceitar as obrigações do tesouro gregas como colateral para ceder liquidez aos bancos não foi abordada por ser uma instituição independente do Eurogrupo. Estas obrigações têm notação de 'lixo' das quatro grandes agências de rating mas beneficiavam de uma cláusula de excepção que foi retirada pelo BCE no início deste ano porque não tinha a garantia de que o programa de assistência grego, supervisionado por uma troika de instituições de que fazia parte, vai terminar com sucesso.

Em Março de 1985, a Grécia exigiu como contrapartida para aceitar a entrada de Portugal e de Espanha na CEE “um auxílio adicional no quadro das verbas para os PIM [ajuda às regiões mais desfavorecidas]: “dois mil milhões de dólares (cerca de 350 milhões de contos)”. Qualquer coisa como 1750 milhões de euros.
Desta vez foi servido aos gregos o prato frio (parece que foi quente) da vingança por Maria Luís Albuquerque que defendeu como uma leoa os 5000 milhões que, entre empréstimos e garantias, devem a Portugal.
Há 30 anos com o socialista PASOK, hoje com o socialista radical Syriza, os gregos lá vão mungindo a vaquinha europeia.


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O drama grego II: sistema financeiro com liquidez de emergência


O primero-ministro grego Alexis Tsipras e o seu ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, terminaram hoje o périplo pela União Europeia.

Varoufakis propôs na segunda-feira, em Londres, durante uma entrevista ao Finantial Times, que os títulos de dívida pública grega detidos pelos estados-membros da Zona Euro e pelo respectivo fundo de resgate fossem trocados por obrigações indexadas ao crescimento da economia grega. E ontem deslocou-se a Frankfurt para propor a Mario Draghi a troca dos títulos gregos detidos pelo Banco Central Europeu (BCE) por obrigações perpétuas.

À saída do encontro com Draghi, o político grego disse à Reuters sentir-se "encorajado" pelo facto do BCE continuar a garantir o apoio ao sistema financeiro helénico: "O BCE é o banco central da Grécia. O BCE vai fazer o que for preciso para apoiar os estados membros da Zona Euro." Já o Finantial Times dizia que Draghi não aceitara a proposta de Varoufakis.
A dúvida desfez-se à noite, após a reunião quinzenal dos governadores do BCE. O comunicado de imprensa subsequente anunciava que o BCE deixou de aceitar obrigações do tesouro gregas como colateral para financiamento do sistema financeiro:


O Conselho de Governadores do Banco Central Europeu (BCE) decidiu hoje levantar a isenção que afecta os instrumentos de dívida transaccionáveis emitidos ou integralmente garantidos pela República Helénica. A isenção permitia que esses instrumentos fossem usados em operações de política monetária do Eurosistema, apesar do facto de que não cumpriam os requisitos mínimos de notação de crédito. A decisão do Conselho de Governadores baseia-se no facto de que, de momento, não é possível assumir uma conclusão bem sucedida da avaliação do programa e está em consonância com as regras do Eurosistema.

Esta decisão não tem consequências sobre a situação de contraparte das instituições financeiras gregas em operações de política monetária. As necessidades de liquidez das contrapartes do Eurosistema, para contrapartes que não tenham suficiente garantia alternativa, pode ser satisfeita pelo banco central nacional competente por meio de assistência de liquidez de emergência (ELA), dentro das regras do Eurosistema.

Os instrumentos em questão deixarão de ser elegíveis como garantia a partir da data de vencimento da operação principal de refinanciamento em curso (11 de Fevereiro de 2015).

Esta decisão afecta todos os bancos, mas vai penalizar sobretudo os bancos gregos pois são estes que têm mais dívida pública grega nos seus balanços: 21 mil milhões de euros segundo os dados mais recentes. Fora do país, as bancas alemã e britânica são as que detêm mais obrigações do tesouro do Estado grego: 10 mil milhões cada uma.

A partir de 2008, as dificuldades de financiamento no mercado interbancário obrigaram os bancos a recorrer ao BCE para conseguirem obter liquidez, mas este banco central tem regras rígidas em relação à qualidade do colateral que pode aceitar: os títulos têm de obter um rating acima de junk (lixo) de uma, pelo menos, das maiores agências de notação financeira — Standard&Poor’s, Moody’s, Fitch e DBRS.

Quando alguns países da Zona Euro pediram ajuda financeira e ficaram sujeitos a programas de ajustamento, o BCE continuou a ceder liquidez aos bancos que usaram títulos de dívida destes países como colateral porque passavam nas avaliações periódicas de uma troika em que participava o próprio BCE. Note-se que as obrigações do tesouro portuguesas nunca foram afectadas por aquelas regras porque a DBRS sempre as classificou num grau de investimento.

Ora o programa de assistência à Grécia foi prolongado por dois meses, em Dezembro, na sequência do impasse entre o governo liderado por Antonis Samaras e a troika por causa das reformas estruturais que deviam ser introduzidas no orçamento do Estado para 2015, e expira no final do corrente mês de Fevereiro. Não só está bloqueada a última tranche do empréstimo, no valor de 7 mil milhões de euros (e 11 mil milhões ainda reservados para a banca), como também não foi negociada nenhuma linha de crédito cautelar que assegure as necessidades de financiamento no período que se segue ao final do resgate financeiro.

Ainda assim, a Grécia não entrou por enquanto num beco sem saída. As necessidades de financiamento dos bancos gregos que não tenham colaterais com qualidade continuarão a ser satisfeitas através do programa de assistência de liquidez de emergência (emergency liquidity assistance — ELA), providenciado pelo banco central grego com recursos do BCE.
Dias antes das eleições de 25 de Janeiro, o Banco da Grécia pediu ao BCE que os bancos gregos acedessem a esta linha de emergência para suportarem uma fuga de capitais do país no valor de 15 mil milhões de euros. O BCE aceitou e, pelo menos, dois bancos já recorreram a esta linha, obtendo financiamento de 2 mil milhões de euros, depois da vitória de uma coligação de partidos da extrema-esquerda, o Syriza, nestas eleições antecipadas.
Hoje o BCE decidiu conceder 60 mil milhões de euros à banca grega para que possa suportar a corrida aos depósitos. A taxa de financiamento do banco central está actualmente nos 0,05%, mas para os bancos gregos a taxa de juro será 1,55%, além de que o Conselho Executivo do BCE tem o poder de retirar este financiamento, bastando para tal obter dois terços dos votos dos seus seis membros.

Já no que respeita a emissão de obrigações do tesouro, a Grécia está bloqueada. No dia 1 de Fevereiro, após o encontro com o seu homólogo francês, Michel Sapin, Varoufakis anunciou que tinha pedido para emitir 10 mil milhões de euros em dívida de curto prazo, garantidos pelos países da Zona Euro. O BCE não aceitou porque a Grécia já tinha atingido o tecto máximo de 15 mil milhões de euros para a emissão de títulos de curto prazo.

Claramente estas decisões do BCE têm o objectivo de pressionar o governo de Tsipras a fazer reformas estruturais e a cumprir os compromissos assumidos pelo Estado grego com as instituições financeiras europeias.

A decisão de ontem teve reflexos imediatos esta manhã, provocando não só a subida das taxas de juro (yields) da dívida no mercado secundário mas também a queda dos mercados bolsistas, em especial dos títulos da banca.
A yield das obrigações do tesouro helénico a três anos disparou 337,6 pontos base para 19,702%, a cinco anos subiu 219,1 pontos para 15,201%, enquanto na maturidade a dez anos avançou 86,9 pontos para 10,547%.
Nos restantes países periféricos, os juros da dívida pública estão a subir em todas as maturidades mas os acréscimos são muito inferiores aos registados na Grécia. Em Portugal, a taxa da dívida a dez anos sobe 4,0 pontos base para 2,527%. Em Espanha a subida é de 3,9 pontos para 1,470% e em Itália é de 2,4 pontos para 1,572%.

O governo de Tsipras reagiu através do porta-voz, afirmando que "não há motivo de preocupação" e que se trata de uma "pressão política" por parte do BCE no âmbito do processo de negociação da Grécia com os seus parceiros. "Não vamos chantagear, nem tão pouco vamos deixar que nos chantageiem".

Por sua vez, o ministério das Finanças grego frisou que o sistema bancário vai manter-se adequadamente capitalizado e completamente protegido através do programa de assistência de liquidez de emergência, tendo declarado que o Eurogrupo ficou pressionado no sentido de aceitar um acordo que contemple as exigências do governo grego:
"Esta decisão coloca pressão sobre o Eurogrupo, para proceder rapidamente à conclusão de um novo acordo em benefício mútuo para a Grécia e os seus parceiros", informou o ministério em comunicado.
O Ministério das Finanças acrescentou que o Governo "aumenta diariamente" o círculo de parceiros e instituições com os quais mantém consultas e "permanece firme na sua meta de aplicar o programa de salvação social, aprovado pelo voto do povo grego".


Feb 5, 2015 3:46pm EST
Conferência de imprensa aqui.

No entanto, a realidade é diferente. Depois de conversações contundentes entre os dois ministros das Finanças, esta manhã, em Berlim, última paragem do périplo, seguiu-se uma conferência de imprensa conjunta.
O ministro alemão, Wolfgang Schäuble, declarou que as mudanças mais relevantes têm de ser feitas dentro da própria Grécia, não pelo resto da Europa, que não era realista fazer promessas eleitorais que sobrecarregassem os outros países da Zona Euro e que não tinha havido acordo mas "concordámos em discordar".
Yanis Varoufakis foi mais longe: "Nós nem sequer concordámos em discordar." Depois pediu a cooperação da Alemanha para derrotar a ameaça nazi na Grécia [onde o neonazi Aurora Dourada é o terceiro maior partido no novo parlamento em Atenas], por poder compreender o drama de uma depressão como a que nos anos 30 foi seguida pela ascensão de Hitler: "A Alemanha pode estar orgulhosa por ter erradicado o nazismo aqui, mas não na Grécia. (...) Precisamos da Alemanha do nosso lado."
Sobre as promessas feitas pelo Syriza durante a campanha eleitoral, Varoufakis reconheceu: "Temos o direito de implementar tudo o que prometemos? Não, mas temos de ter a oportunidade de apresentar o nosso mandato, e os nossos parceiros os seus, e desejavelmente chegaremos a um acordo final." Para isso é preciso tempo e dinheiro: "Um empréstimo-ponte, até ao fim de Maio, dar-nos-ia espaço para gerar um novo contrato com a Europa. (...) faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para evitar um default."


Ao chegar a Roma, o primeiro-ministro grego Alexis Tsipras recebeu uma gravata como prenda do seu homólogo italiano Matteo Renzi.

Confrontado com o apoio dos dois líderes de centro-esquerda europeus, o presidente francês, François Hollande e o primeiro-ministro italiano Matteo Renzi, à decisão do BCE e por eles aconselhado a chegar rapidamente a um acordo com a troika, o primeiro-ministro grego regressou a Atenas de mãos vazias.
Valeu a Tsipras o gesto de apoio do presidente russo, Vladimir Putin, em litígio com o Ocidente por causa da Ucrânia, que convidou o líder grego a visitar Moscovo no dia 9 de Maio, durante um telefonema em que discutiram a cooperação na energia e no desenvolvimento das economias russa e grega.


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Propor que os títulos de dívida pública grega detidos pelos estados-membros da Zona Euro sejam trocados por obrigações indexadas ao crescimento da economia grega, permitindo que a Grécia não pague quaisquer juros nos anos em que a economia tenha um mau desempenho, e que os títulos detidos pelo BCE sejam trocados por obrigações perpétuas, ou seja, sem data de vencimento, é acreditar que os outros Estados-membros da Zona Euro são o Pai Natal.
Proferir declarações delirantes e chamar chantagistas aos outros países, quando não se consegue convencer os interlocutores, é perder as estribeiras.

O sistema financeiro grego está preso ao euro por um fio chamado ELA. Se Tsipras deixar quebrar esse fio, os bancos gregos entram em falência e a Grécia irá regressar ao dracma cujo valor cambial ficará associado à força que a economia grega for capaz de evidenciar. O ajustamento será rápido, brutal e doloroso.

O regresso a uma moeda fraca poderá incrementar as exportações gregas (se aumentarem a produção de bens transaccionáveis), mas reduzirá drasticamente as importações e todo o bem-estar associado (medicamentos, automóveis, electrodomésticos, electrónica, ...).
A população grega ficará dividida em duas classes: os que conseguiram enviar as poupanças (eventualmente derivadas da evasão fiscal ou da corrupção) para o estrangeiro, que vão poder importar bens do exterior pagos com euros e, portanto, desfrutar de um nível de vida razoável; os mal-afortunados que não conseguiram vão ver as suas poupanças reduzidas a uma insignificância, ficar sujeitos a racionamentos e conhecer a diferença entre austeridade e fome. Medidas que aumentem ainda mais a desigualdade na sociedade grega serão profundamente injustas.