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sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Face Oculta: Armando Vara e José Penedos condenados a 5 anos de prisão efectiva


O Tribunal de Aveiro condenou hoje a penas de prisão todos os arguidos do processo Face Oculta, dos quais 11 irão cumprir penas de prisão efectiva, incluindo o ex-ministro Armando Vara e o ex-presidente da REN José Penedos.




O colectivo de juízes, presidido por Raul Cordeiro, deu como provado que Armando Vara, antigo ministro do governo Guterres e antigo vice-presidente da Caixa Geral de Depósitos e do banco Millenium BCP, recebeu 25 mil euros do sucateiro Manuel Godinho como compensação pelas diligências empreendidas a favor das suas empresas. Foi condenado a uma pena única de cinco anos de prisão efectiva, em cúmulo jurídico, pelos três crimes de tráfico de influência de que estava acusado.

O ex-presidente da REN (Redes Energéticas Nacionais) José Penedos era suspeito de ter transmitido informações privilegiadas ao seu filho, o advogado Paulo Penedos, para favorecer Manuel Godinho nos negócios com aquela empresa que então pertencia ao sector empresarial do Estado.
José Penedos foi condenado também a uma pena única de cinco anos de prisão efectiva, em cúmulo jurídico, por um crime de corrupção passiva, outro de corrupção activa e um crime de participação económica em negócio, enquanto o seu filho foi condenado a quatro anos de prisão efectiva por um crime de tráfico de influências.

O tribunal condenou ainda outros cinco arguidos que eram quadros da REFER e um da EDP Imobiliária — Abílio Silva Correia, Manuel Guiomar, João Tavares, Manuel Gomes, Afonso Costa e Paiva Nunes — a penas de prisão efectiva que variam entre os quatro anos e meio e os seis anos e meio.

O empresário Manuel Godinho foi condenado por 49 crimes de associação criminosa, corrupção activa, tráfico de influências, furto qualificado, burla qualificada, falsificação e perturbação de arrematação pública, com a soma das penas parcelares em 87 anos e 10 meses de prisão, resultando no cúmulo jurídico de 17 anos e meio de prisão efectiva.

Dos restantes oito arguidos do grupo empresarial de Manuel Godinho, apenas Hugo Godinho, sobrinho do sucateiro, foi condenado com uma pena de prisão efectiva (cinco anos e seis meses).

Todos os restantes arguidos foram condenados com penas de prisão suspensas, condicionadas ao pagamento de quantias entre os 3 mil e os 25 mil euros a instituições de solidariedade social, na área da respectiva residência.

Além das penas de prisão, o tribunal determinou que Manuel Godinho e vários arguidos terão de pagar solidariamente indemnizações cíveis à REFER, REN e Petrogal.

Quanto às sociedades SCI e O2-Tratamento e Limpezas Ambientais do grupo empresarial de Manuel Godinho, foram condenadas ao pagamento de multas de 162,5 mil euros e 80 mil euros respectivamente.

Os advogados de defesa dos principais arguidos manifestaram intenção de recorrer para o Tribunal da Relação do Porto.


A operação Face Oculta foi desencadeada pelo Departamento de Investigação Criminal de Aveiro para investigar uma alegada rede de corrupção que teria como objectivo o favorecimento de um grupo empresarial de Ovar, pertencente ao sucateiro Manuel Godinho, nos negócios com empresas do sector empresarial do Estado e outras entidades privadas.

O Ministério Público (MP) acusou 34 pessoas e 2 empresas de centenas de crimes de burla, branqueamento de capitais, corrupção e tráfico de influências.

Nas alegações finais, o MP tinha pedido a condenação de todos os acusados, defendendo a aplicação de penas de prisão efectivas para 16 arguidos, incluindo Armando Vara, José Penedos, Paulo Penedos e Manuel Godinho, e penas suspensas para os restantes.
Todos os advogados de defesa tinham pedido a absolvição dos arguidos por insuficiência de provas.

Os crimes provados estão descritos aqui.



Carlos Alexandre, o juiz do Tribunal Central de Instrução Criminal que decidiu enviar todos os 36 arguidos do processo Face Oculta para julgamento em Março de 2011.


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05/09/2014 - 14:41


Logo no princípio, o processo Face Oculta celebrizou-se quando o então primeiro-ministro José Sócrates foi apanhado em conversas com Armando Vara, durante as escutas a este, onde ambos planeavam o controlo da comunicação social. Escutas que deram origem a uma novela com vários episódios após a destruição ordenada por Noronha do Nascimento, então presidente do Supremo Tribunal de Justiça, porque foram recolhidas sem sua autorização, e cujas transcrições foram cuidadosamente recortadas do processo com uma tesoura pelo então procurador-geral da República Pinto Monteiro.

Depois seguiu-se a instrução do processo com o desfilar de políticos do PS e do PSD — ex-ministros, ex-comissários europeus e até um ex-presidente da República — a testemunharem a favor do valor moral do presidente da REN, tentando ilibá-lo das acusações de recebimento de presentes.

Terminado o julgamento na primeira instância, estamos perante um acórdão histórico.

Histórico, mesmo não consubstanciando uma decisão definitiva, porque um acórdão com quase três mil páginas está bem fundamentado, facto já reconhecido por Ricardo Sá Fernandes, advogado de Paulo Penedos. Vai ser um osso duro de roer nas instâncias superiores.
Não é impossível que juízes da segunda instância ou do supremo tomem a decisão política de diminuir as penas. Já os expedientes dilatórios usados por Isaltino de Morais ao longo de anos de recursos para o Tribunal Constitucional estão fora de questão porque foram eliminados por Paula Teixeira da Cruz, actual ministra da Justiça.

Histórico pela acutilância das penas a mostrarem à sociedade e aos políticos que o País está a mudar velozmente e quem cometer crimes económicos terá uma pena de prisão efectiva proporcional à gravidade dos mesmos. Os políticos têm de receber severas penas de prisão efectiva porque, ao entregarem os negócios lucrativos a quem os untar com dinheiro e presentes, são quem impõe a corrupção. O papel de Godinho consistiu em adaptar-se ao ambiente que nem peixe na água.

Histórico porque os juízes, tanto os de instrução criminal como o colectivo do Tribunal de Aveiro foram insensíveis à procissão dos políticos que acorreram a apoiar o antigo deputado socialista José Penedos. Neste julgamento não foram apenas julgados actos de pessoas e empresas. Também foi julgada e condenada uma entidade que não esteve sentada no banco dos réus: as relações de promiscuidade entre políticos e empresários.

Só haverá investidores dispostos a apostar no nosso País se a justiça for cega aos interesses de politicalha. E sem investimento não há crescimento económico.
Este acórdão condenatório é um sinal dado aos investidores de que, neste País, se punem os crimes económicos e os seus investimentos não serão prejudicados por trapaceiros. Basta olhar para a cara dos principais arguidos, antes e depois da leitura do acórdão, para se compreender que estavam a contar com a impunidade. É um ponto de viragem.


segunda-feira, 14 de março de 2011

Longa vida ao juiz Carlos Alexandre


Carlos Alexandre, juiz do Tribunal Central de Instrução Criminal (TCIC), decidiu hoje que todos os 36 arguidos do processo Face Oculta vão a julgamento.



No âmbito do processo Face Oculta foram acusadas 34 pessoas e duas empresas por corrupção e outros crimes económicos que envolvem um grupo empresarial de Ovar, que integra a O2-Tratamento e Limpezas Ambientais, liderado por Manuel Godinho, o único arguido que esteve em prisão preventiva.

Entre os arguidos estão ainda Armando Vara, ex-administrador do banco Millenium BCP, acusado de três crimes de tráfico de influências, José Penedos, ex-presidente da REN (Redes Energéticas Nacionais), acusado de um crime de corrupção passiva para acto ilícito e de um crime de corrupção activa para acto ilícito e o seu filho Paulo Penedos, acusado de um crime de tráfico de influências.

O juiz Carlos Alexandre — biografia aqui — decidiu confirmar todos os actos praticados pelo juiz de instrução de Aveiro, depois de parte dos arguidos terem alegado que a Comarca do Baixo Vouga, onde correu o processo até à fase de acusação, era incompetente para investigar o caso:
Não existem assim, quaisquer actos a anular, entre os actos que foram praticados pelo juiz de instrução criminal de Aveiro, pois todos teriam igualmente sido praticados por mim, neste TCIC, na mesma forma e com os mesmos fundamentos.


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Ainda pouco conhecido dos portugueses, este juiz é merecedor da nossa solidariedade como é dito nalguns comentários à notícia:

Luís Silva . 14.03.2011 15:50 Via Facebook
Senhor Doutor Juiz Carlos Alexandre
Na minha qualidade de Cidadão venho, singularmente, usar o meu direito de exigir a melhor Justiça em Portugal, em estrita independência relativamente aos poderes político e económico.
A Justiça é o primeiro poder do Povo Soberano! Acredito piamente que V. Exª. (e tantos outros seus colegas de Magistratura) erguerá ao céu de Portugal a absolvição para os inocentes e a punição para os criminosos.

Alexandre Neto . 14.03.2011 18:16 Via Facebook
Aceitam-se apostas...
... de quanto tempo demorará até que o Senhor Doutor Juiz Carlos Alexandre seja afastado, dando lugar a um colega menos combativo e eventualmente já com alguns telhados de vidro. Seja como for, Senhor Juiz, parabéns pela decisão e boa sorte na continuação do seu trabalho.

1ab 14 Março 2011 - 15:34
Este juiz merecia uma manifestação nacional a seu favor
O Juiz Carlos Alexandre, depois de tudo a que tem sido submetido pela (in)justiça deste país, — por certo não se revê nela — precisa ter tomates para seguir com este e outros processos para a frente.
Precisa da solidariedade do povo português. Pois que funcionem as redes sociais agora tão em voga.

Obaid 14 Março 2011 - 15:47
Coitadinho do Vara
O homem até passa à frente de todos os utendes no posto de saúde, espero que também aqui passe à frente de todos e vá para trás das grades, talvez os amigos lhe levem uns robalos.
Este é também um daqueles licenciados ao Domingo da extinta universidade independente, grande escola de homens de mau carácter.

nymex 14 Março 2011 - 18:15
Isto, no máximo, dá para o Godinho pagar uma qualquer multa...
... quanto aos outros, já sabemos como vai acabar.
Em todo o caso já é um princípio irem a julgamento, quem sabe se daqui a 10 anos casos como este já darão lugar a prisão. São precisos é mais Juízes como este, julgo que o Sr. Carlos Alexandre. Tiro o chapéu a este Senhor e espero que se mantenha vertical até ao fim.
Aprovo que devia haver uma manifestação de apoio a este Senhor Juiz. Que rica ideia!


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Actualização em 5 de Setembro de 2014
O Tribunal de Aveiro condenou hoje a penas de prisão todos os arguidos do processo Face Oculta, dos quais 11 irão cumprir penas de prisão efectiva, incluindo o ex-ministro Armando Vara e o ex-presidente da REN José Penedos.


quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O pântano III - O processo Face Oculta


O ex-ministro das Finanças Eduardo Catroga deslocou-se hoje ao Tribunal Central de Instrução Criminal para depor como testemunha de José Penedos, arguido do processo Face Oculta.

Eduardo Catroga classificou José Penedos, ex-presidente da REN - Redes Energéticas Nacionais, como "um dos mais competentes gestores na área da energia".
Questionado sobre a oferta e recebimento de presentes por parte de Penedos, a testemunha admitiu que ele próprio sempre recebeu prendas de maior ou menor valor e que considera esta prática normal.

"A troca de prendas é um hábito na sociedade portuguesa no contexto da vida empresarial e social. As pessoas recebem mas mantêm a sua independência. Nunca tive qualquer problema em aceitar prendas", declarou, no final, aos jornalistas.
Acrescentou que recebeu várias ofertas enquanto administrador de empresa e ministro das Finanças de "valor mais ou menos elevado", dando como exemplo, pratas, vinhos raros e livros.
Sobre José Penedos disse que é seu amigo há mais de 20 anos e que tem "um alto perfil moral e profissional".


A opinião dos outros:

hmco2000 26 Janeiro 2011 - 18:17
Alto perfil moral e profissional
Ninguém duvida que toda a gente tem alto perfil moral e profissional. Por exemplo, Al Capone tinha um alto perfil moral e profissional no seio da estrutura e pelos padrões da estrutura onde trabalhava.
A questão não é ter altos perfis morais e profissionais. A questão é quais são esses altos perfis morais e profissionais. Qual a profissão e qual o padrão moral em questão.
O Sr. Catroga terá de dizer quais os altos perfis morais e profissionais a que se refere para podermos tirar as conclusões.


segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

O pântano I - O processo Face Oculta



O ex-presidente da República Jorge Sampaio, atestou hoje no Tribunal Central de Instrução Criminal, em Lisboa, "o alto valor moral e a grande capacidade técnica" do arguido do processo Face Oculta José Penedos.

Questionado sobre o facto de José Penedos ter recebido presentes quando era presidente da REN, uma das questões de que é acusado, Jorge Sampaio referiu: "Há presentes e presentes. Recebi centenas e ninguém pode dizer que influenciaram qualquer das minhas decisões”. A testemunha lembrou ainda que a maior parte dos presentes "são mera cortesia (...) quem é influenciado e afectado por eles, é porque não tem capacidade moral". Jorge Sampaio admitiu ser amigo de José Penedos.

Outra das testemunhas arroladas por José Penedos foi o ex-comissário europeu António Vitorino, que não prestou declarações aos jornalistas.

A instrução é uma fase processual facultativa destinada a rebater os argumentos do Ministério Público e tentar evitar a ida a julgamento.

José Penedos foi acusado de dois crimes de corrupção e dois de participação económica em negócios, que envolvem também o seu filho Paulo Penedos, com o empresário da sucata Manuel José Godinho, o único dos arguidos em prisão preventiva.
O processo Face Oculta investiga alegados casos de corrupção e outros crimes económicos de um grupo empresarial de Ovar, que integra a O2-Tratamento e Limpezas Ambientais, liderado por Manuel José Godinho.