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terça-feira, 16 de abril de 2019

Uma visita à Catedral de Notre-Dame de Paris


Recordemos os tempos áureos da Catedral de Notre-Dame de Paris numa visita gravada em directo por uma equipa do jornal Le Monde, em Março de 2017.

Começamos por identificar algumas partes notáveis da catedral:

Plan.cathedrale.Paris.png
Plano da catedral de Notre-Dame de Paris pelo arquitecto Viollet-le-Duc, 1856.
Da esquerda para a direita, identifica-se a fachada oeste com os três portais, segue a nave principal flanqueada pelas naves laterais duplas, o transepto (nave transversal) com os portais norte e sul e, finalmente, o coro e a abside rodeados pelo duplo deambulatório.


Notre-Dame de Paris 2013-07-24
Peter Haas / CC BY-SA 3.0.
Fachada oeste da Catedral de Notre-Dame de Paris em 2013.
Apresenta, de baixo para cima, o piso dos três portais, a galeria dos reis, o piso da rosácea oeste e, no topo, um último piso de colunatas coroado pela galeria das Quimeras (animais nos ângulos da balaustrada), ligando as duas torres.

Notre-Dame de Paris 2009-04-28
Zuffe / CC BY-SA
Fachada sul da Catedral de Notre-Dame de Paris em 2009.
Distingue-se, da esquerda para a direita, os arcobotantes da nave, a rosácea sul do transepto e, finalmente, os arcobotantes do coro. O braço sul do transepto é encimado por um frontão ricamente decorado e perfurado por uma clarabóia que iluminava o seu sótão.

Notre-Dame tsj
Jean-Christophe Windland / CC BY-SA
Fachada norte da Catedral de Notre-Dame de Paris em 2013.
Da esquerda para a direita, vê-se os arcobotantes do coro, o braço norte do transepto e os arcobotantes da nave. A rosácea norte é encimada por um frontão semelhante ao do braço sul do transepto, mas com uma clarabóia diferente, bem como três óculos.

Agora já podemos ver o vídeo da visita:




Num trajecto nunca acessível aos outros visitantes da catedral, Philippe Villeneuve, arquitecto-chefe dos Monuments Historiques, inicia a visita no terraço coroado pela galeria das Quimeras e situado entre os dois campanários (04:00 a 05:00). Estes são os passos seguintes:

  • Travessia do sótão no sentido oeste-leste até chegarem à base da flecha. O corredor transversal seguia, à esquerda, para a clarabóia do braço norte do transepto (19:45 a 20:13). Viram à direita para a clarabóia sul (21:10 a 21:55).
  • Descem a escada para o terraço das janelas altas, sob os arcobotantes do coro, e percorrem-no integralmente no sentido directo. Villeneuve explica como as forças exercidas pela abóbada e pelos arcobotantes se equilibram (25:06 a 26:27).
  • Descem a escada do braço norte do transepto para entrarem na tribuna do coro. Villeneuve chama a atenção para o belo pavimento marmóreo do coro, para uma abóbada sexpartida de ogivas (42:00 a 42:35) e para os vitrais medievos das rosáceas norte e sul do transepto. Percorrem a tribuna no sentido retrógrado e observam a rosácea sul (47:43 a 48:22).
  • Sobem duas escadas do braço sul do transepto para entrar na galeria sob a rosácea sul. Na frente está a magnífica rosácea norte (50:30 a 51:15).

A parte emocionante é o percurso efectuado sobre as abóbadas da nave e sob o tecto da Catedral (9:00 a 22:00), através da sua famosa estrutura em madeira — la charpente — feita de grossos barrotes extraídos de cerca de dois mil carvalhos que cresciam à volta de Paris, por isso considerada, numa visão romântica, “a floresta de Notre-Dame”. Madeiros com mais de 800 anos que no passado dia 15 de Abril foram reduzidos a cinzas.

No entanto, as abelhas (50:00) sobreviveram.


Rozeta Paryż notre-dame chalger.jpg
Krzysztof Mizera / CC BY-SA 4.0
Rosácea norte da catedral de Notre-Dame de Paris, uma obra-prima da arquitectura gótica.


terça-feira, 23 de maio de 2017

Terror em Manchester


Ontem à noite, pelas 22:35, ocorreu uma explosão em Manchester no final de um espectáculo da cantora pop norte-americana Ariana Grande que decorreu na Manchester Arena.

A polícia de Manchester apenas quantificou o número de vítimas já na madrugada desta terça-feira — 19 vítimas mortais e cerca de 50 feridos —, informando no tweet que estavam a tratar a situação como um "incidente terrorista" até prova em contrário:



O ataque foi perpetrado no átrio de entrada da Manchester Arena, estando cerca de 21 mil pessoas nas imediações quando ocorreu a explosão que envolveu um dispositivo caseiro cheio de porcas e parafusos. O grupo terrorista Estado Islâmico já reivindicou o ataque.

Várias zonas ficaram interditas, afectando os transportes na cidade. A estação de comboios de Vitória, que comunica com a Arena, foi encerrada.





A polícia de Manchester actualizou o número de vítimas, esta manhã, subindo para 22 mortos e 59 feridos.

"Temos estado a tratar isto como um incidente terrorista e acreditamos, nesta etapa, que o ataque foi conduzido por um homem. A prioridade é estabelecer se actuou sozinho ou como parte de uma rede.

O atacante, podemos confirmar, morreu na arena. Acreditamos que o atacante carregava consigo um dispositivo explosivo improvisado, que detonou, causando esta atrocidade
”, afirma o comunicado da polícia, em que as autoridades pedem às pessoas para não especular.

A nossa prioridade é trabalhar com os serviços secretos britânicos e de contra-terrorismo para encontrar mais detalhes sobre o indivíduo que conduziu este ataque”, acrescentam as autoridades.



Entretanto a comunicação social começou a divulgar a identidade de algumas vítimas, entre as quais uma criança de 8 anos, e do bombista suicida. Chama-se Salman Abedi e tem 22 anos. A polícia de Manchester confirmou, com reticências:



Nascido em Manchester em 1994, Salman Abedi é o segundo mais novo dos quatro filhos de um casal de refugiados líbios que vieram para o Reino Unido para escapar ao regime do coronel Muammar Gaddafi.

Abedi frequentou a escola local e foi para a universidade de Salford, em 2014, onde estudou gestão antes de desistir. Usava vestes islâmicas e costumava rezar numa mesquita local que, no passado, foi acusada de angariação de fundos para os jihadistas.

O irmão mais velho, Ismail Abedi, foi professor na escola do Corão da mesquita de Didsbury. Segundo o imã, Salman havia-lhe mostrado recentemente "o rosto do ódio" quando deu uma palestra alertando para os perigos do chamado Estado Islâmico.

A mãe, Samia Tabbal, de 50 anos, e o pai, Ramadan Abedi, um agente de segurança, nasceram em Trípoli mas terão emigrado, primeiro para Londres e, mais tarde, para a zona de Whalley Range, no sul de Manchester.

Pensa-se que, em 2011, após a derrota de Gaddafi, os pais retornaram para a Líbia, mas as viagens que Salman Abedi fez para o país de origem da família estão agora a ser objecto de investigação.

Alguns dissidentes de Gaddafi que eram membros do Grupo Islâmico Líbio de Combate (LIFG), entretanto ilegalizado, viveram nas proximidades dos Abedi em Whalley Range.

Entre eles, encontrava-se Abd al-Baset Azzouz, pai de quatro filhos, que deixou Manchester para dirigir uma rede terrorista na Líbia supervisionada por Ayman al-Zawahiri, o sucessor de Osama bin Laden na liderança da Al-Qaeda. Azzouz, 48 anos, especialista em bombas, foi acusado de dirigir uma rede da Al-Qaeda no leste da Líbia, em 2014.

Outro membro da comunidade líbia em Manchester, Salah Aboaoba, disse ter angariado fundos para o LIFG, em 2011, justamente na mesquita de Didsbury. Na época, o porta-voz da mesquita negou veementemente a reivindicação: "Esta é a primeira vez que ouço falar do LIFG. Não conheço Salah".

Agora, Mohammed Saeed El-Saeiti, o imã da mesquita de Didsbury, apontou Salman Abedi como um extremista perigoso: "Salman mostrou-me o rosto de ódio depois do meu discurso sobre o Ísis (...) Não é uma surpresa para mim".

A polícia atacou a casa da família às 11:30 desta manhã. De acordo com moradores da rua, 2 helicópteros e pelo menos 30 polícias camuflados, com equipamentos anti-motim e escudos, participaram no ataque.
Removeram a cerca de madeira entre duas propriedades. Colaram uma tira preta na porta e provocaram uma explosão. A porta soltou-se das dobradiças e as janelas tremeram. O ataque durou 90 segundos.

"Não os vi trazer ninguém para fora da casa. Acredito que estava vazia”, disse um vizinho.


*


Depois dos movimentos da Primavera árabe derrubarem os governantes da Tunísia e do Egipto para elegerem regimes islâmicos, começou uma revolta na Líbia, em 17 de Fevereiro de 2011, mas o ditador líbio Muammar Kadhafi resistiu.

Dez dias depois, foi criado um Conselho Nacional de Transição para administrar as áreas da Líbia sob controle dos rebeldes, prontamente reconhecido pela França, em 10 de Março, como o representante legítimo do povo líbio.

As forças pró-Gaddaffi responderam militarmente aos ataques rebeldes na Líbia ocidental — a cidade de Zawiya, a 48 km de Tripoli, foi bombardeada por aviões da força aérea e conquistada por tanques do exército — e lançaram um contra-ataque ao longo da costa na direcção leste, até Benghazi, o centro da rebelião.

Tanto o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, como o Conselho de Direitos Humanos da ONU condenaram estas acções militares, sob a acusação de violarem o direito internacional, tendo este último organismo expulsado a Líbia, atitude incentivada pela própria delegação da Líbia na ONU.

Em 17 de Março, o Conselho de Segurança da ONU aprovou a Resolução 1973 com 10 votos a favor dos membros permanentes Estados Unidos, França e Reino Unido e, ainda, da Bósnia-Herzegovina, Colômbia, Gabão, Líbano, Nigéria, África do Sul e Portugal e 5 abstenções dos restantes membros (Rússia e China, membros permanentes, e ainda Índia, Brasil e Alemanha).
Esta resolução sancionou o estabelecimento de uma zona de exclusão aérea e o uso de "todos os meios necessários" para proteger os civis dentro da Líbia.

Dois dias depois, a NATO começou a destruir as defesas aéreas da Líbia quando jactos militares franceses entraram no espaço aéreo da Líbia e atacaram alvos considerados inimigos.
Em seguida, entraram em acção as forças americanas. Mais de 8000 militares americanos foram destacados para a área em navios de guerra e aviões. A ofensiva aérea americana incluiu vôos de bombardeiros B-2 Stealth, cada bombardeiro armado com dezasseis bombas de 0,9 tonelada, saindo e retornando à base no Missouri, Estados Unidos.

Em 22 de Agosto, os rebeldes entraram em Trípoli e ocuparam a Praça Verde, rebaptizada Praça dos Mártires em homenagem aos seus mortos. Os últimos combates ocorreram na cidade de Syrte, onde Gaddafi foi capturado e morto em 20 de Outubro de 2011. Pelo menos 30 mil líbios morreram na guerra civil.

A seguir começou a segunda guerra civil da Líbia, agora entre as milícias armadas dos diferentes grupos rebeldes, o mais poderoso dos quais é o Estado Islâmico.

Passado algum tempo, formaram-se as máfias líbias que enchem embarcações frágeis com imigrantes, oriundos de países africanos a sul do Saará, e enviam-nos para Itália. Iniciava-se a invasão islâmica da Europa pelo corredor ocidental.

Quem foram os políticos responsáveis pelo Conselho de Segurança da ONU ter sido favorável à intervenção militar na Líbia que não só desestabilizou este país, como também a União Europeia?
Em 2011, a França era presidida por Nicolas Sarkozy.
No Reino Unido governava o primeiro-ministro David Cameron.
A presidência dos Estados Unidos estava nas mãos de Barack Obama e na Secretaria de Estado alinhava Hillary Clinton.

Quantas mais crianças e jovens vão ter de morrer até conseguirmos perceber que o pior tipo de ditadura é o terror promovido pelo fanatismo islâmico?


sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Noite de terror em Paris - IV. A identidade dos terroristas


Uma semana depois dos ataques que mataram 130 pessoas em Paris e Saint-Denis, a investigação continua, revelando importantes vulnerabilidades de segurança.


16/11/2015 - 22:33

Le Monde.fr avec AFP | 20.11.2015 à 05h39

Dos sete bombistas suicidas:

  • Quatro são franceses: Ibrahim Abdeslam (31 anos) e Bilal Hadfi (20 anos) que se fizeram explodir no Comptoir Voltaire e no Estádio de França, respectivamente, Amimour Samy (28 anos) e Ismaël Omar Mostefai (29 anos), filho de mãe portuguesa, ambos no Bataclan.
  • Dois entraram na Europa, em Outubro, através da Grécia. Trata-se daquele terrorista que detonou o cinto de explosivos perto do Estádio de França e junto do qual foi encontrado um passaporte sírio de autenticidade duvidosa, porém, havendo uma correspondência entre as suas impressões digitais e as encontradas aquando de uma fiscalização na Grécia; e de um segundo formalmente identificado nesta sexta-feira.
  • Permanece por identificar um bombista suicida, o terceiro que estava no Bataclan.

A polícia continua na peugada de Salah Abdeslam, suspeito de pertencer ao comando terrorista que alvejou as esplanadas dos cafés e dos restaurantes em Paris com o seu irmão Ibrahim que, depois, se fez explodir no boulevard Voltaire. Ele terá sido ajudado a sair de Paris na manhã seguinte. Dois supostos cúmplices da fuga foram presos em Bruxelas na segunda-feira e indiciados por ataque terrorista. Também na Bélgica, um terceiro homem foi indiciado nesta sexta-feira por terrorismo.

Abdelhamid Abaaoud, o presumível instigador dos ataques, está morto: o seu corpo "crivado de projécteis" foi identificado pelos investigadores, na sequência do ataque policial a um apartamento em Seine-Saint-Denis na quarta-feira. A formação e como chegou a França permanecem desconhecidos.
Terão sido encontrados vestígios que lhe pertenciam numa das três Kalashnikovs descobertas no Seat abandonado em Montreuil, o que sugere que fazia parte do comando responsável pelos tiroteios nas esplanadas. Além disso, foi filmado pelas 22:00 de 13 de Novembro, por uma câmara no metro de Montreuil, perto do lugar onde o carro foi abandonado.


*



Países com mais de 5% de população muçulmana
sunitas ████████ xiitas ████████


O Estado Islâmico do Iraque e da Síria (ISIS, no acrónimo inglês, ou Daesh, no acrónimo árabe) é uma entidade que defende o regresso aos primórdios do Islão, no séc. XVII, quando o profeta Maomé conquistava territórios, tomava os vencidos como escravos e ordenava decapitações. Praticam a versão mais fundamentalista do Islão, o Wahhabismo.

Origem

Tudo começou com a invasão do Iraque pelos EUA e aliados em 2003. Afastada do poder pelos xiitas, a minoria sunita a que pertencia Saddam Hussein gerou uma guerrilha baseada no noroeste iraquiano onde era dominante. O líder do grupo era Abu Musab al-Zarqawi e obedecia à al-Qaeda.
Em 2006, al-Zarqawi foi morto num ataque americano. O grupo reforçou-se com alianças entre tribos sunitas e o novo chefe, Abu Omar al-Baghdadi, proclamou o Estado Islâmico do Iraque (ISI). No entanto, ofensivas conjuntas das forças armadas iraquianas e americanas, foram dizimando a guerrilha e, em 2010, foi anunciada a morte ou captura de 80% dos líderes do ISI, incluindo al-Baghdadi, bem como de recrutadores e financiadores. A ligação com a al-Qaeda do Paquistão ficou cortada.
Abu Bakr al-Baghdadi, o novo líder, foi recrutar ex-militares e ex-funcionários dos serviços de informações do antigo partido Baath que tinham servido durante o governo de Saddam Hussein, quase todos saídos de prisões militares americanas, para promover o renascimento do ISI.

Em 2011, a monarquia wahhabita que governa a sunita Arábia Saudita decidiu desestabilizar a Síria governada pelo alauita (um ramo do xiismo) Bashar al-Assad, com o apoio do aliado americano e a anuência tácita de ingleses e franceses.
Em poucos meses, os protestos civis deram lugar à guerra. Em Agosto, al-Baghdadi começou a enviar elementos iraquianos e sírios do ISI para a Síria para aí estabelecerem uma organização. Liderados pelo sírio Abu Muhammad al-Julani, este grupo recrutou combatentes e estabeleceu células em todo o país. No início de 2012, o grupo anunciou a formação da Frente al-Nusra, uma força de combate que contou com o apoio da oposição ao governo de Assad, bem como de muitos muçulmanos radicalizados na Europa que foram atraídos para a Síria por uma "jihad" onde descobriam uma identidade estimulante.
Em Abril de 2013, al-Baghdadi anunciou a fusão entre o ISI e a Frente al-Nusra sob o nome "Estado Islâmico do Iraque e Levante", mais conhecido por "Estado Islâmico do Iraque e da Síria". O anúncio provocou-lhe divergências com al-Julani e o líder da al-Qaeda, al-Zawahiri, mas este último mandou cessar os ataques da Frente al-Nusra ao ISIS.

Em Junho de 2014, além do oeste iraquiano, o ISIS já controlava a maior parte do território sírio. Depois de conquistar a cidade iraquiana de Mossul, al-Baghdadi proclamou o califado e declarou-se califa, transformando-se no guia espiritual dos muçulmanos de todo o mundo.

Os Governos ocidentais, obcecados pela "Primavera árabe" e pelo derrube de ditadores, como Mubarak, Kadhafi ou Assad, permitiram ao Estado Islâmico o controle de partes do Iraque, da Síria, da Líbia e da África central. A capacidade de atracção de novos voluntários para as suas forças nos países ocidentais permite-lhe criar raízes para o futuro. O Estado Islâmico descreve a sua estratégia militar como a capacidade de se mover como uma serpente entre as rochas, ou seja, usa forças militares flexíveis que atacam alvos fáceis, nunca entrando em conflitos prolongados.

Financiamento

Para a guerra o EI precisa de dinheiro. Uma das fontes é o petróleo das refinarias que é vendido no mercado negro. As mais recentes estimativas dizem que o EI recebe mensalmente 40 milhões de dólares pela venda do petróleo dos campos que controla na Síria e Iraque.

Outra fonte de receitas são os donativos de milionários árabes que defendem a guerra santa contra os xiitas e o Ocidente. Além disso o EI apropriou-se do dinheiro dos bancos das zonas controladas, vendendo também muitas das obras de arte que saqueou em cidades históricas.

Nos últimos tempos, o EI conseguiu obter duas novas fontes de receitas: a circulação de refugiados, que têm de pagar uma taxa para emigrarem para a Europa, e os raptos de sírios ricos ou de ocidentais.
No caso dos refugiados que emigram para a Europa as receitas do EI terão ascendido a cerca de 100 milhões de euros. No regresso, os camiões que levam os refugiados voltam com contrabando que é vendido no mercado negro das áreas controladas.
Os reféns podem render politicamente, como sucedeu com os decapitados, ou economicamente, quando os Estados estrangeiros pagam o resgate. Sabe-se que os negociadores europeus pagam entre um e seis milhões de dólares pela libertação de cada refém. São perto de 70 milhões de dólares que entram nos cofres do EI que apresenta relatórios das suas actividades como se fosse uma empresa.

Em 2014, as receitas totais do EI terão rondado os 1,2 mil milhões de dólares. É com elas que pagam o armamento e também os salários dos "jihaddistas" europeus recrutados, sobretudo, através da Internet.




sábado, 14 de novembro de 2015

Noite de terror em Paris - II. A homenagem mundial


Do One World Trade Center, em Nova York, à Porta de Brandeburgo, em Berlim, muitos monumentos do mundo iluminaram-se com as cores da bandeira francesa após os atentados que atingiram Paris na sexta-feira, 13 de Novembro.


Le Monde.fr | 14.11.2015 à 19h47


A Torre de Belém, em Lisboa, juntou-se à homenagem.


Recolhimentos espontâneos aconteceram em todo o mundo como reacção aos ataques terroristas em Paris.
Várias centenas de pessoas cantaram A Marselhesa, o hino nacional francês, em Sydney (Austrália). Em Moscovo (Rússia), como em Seul (Coreia do Sul), flores, velas e mensagens de apoio foram depositadas diante das embaixadas da França. Em Bangkok (Tailândia), centenas de pessoas reuniram-se para homenagear as vítimas.

Le Monde.fr | 14.11.2015 à 18h52


Noite de terror em Paris - I. Os atentados


Ontem à noite ocorreram 6 atentados terroristas em Paris e Saint-Denis que provocaram 129 mortos e 352 feridos e levaram à declaração do estado de emergência nacional e ao restabelecimento do controle das fronteiras de França.




LE MONDE | 15.11.2015 à 19h51

Os atentados começaram na sexta-feira 13 de Novembro, pelas 21:20 (20:20 em Lisboa), e visaram o Estádio de França, em Saint-Denis, restaurantes, bares e a sala de concertos Bataclan, em Paris.


Atentado próximo do Estádio de França

No Estádio de França, em Saint-Denis, decorria um jogo de futebol amigável entre a França e a Alemanha. Pelas 21:20 ouviu-se uma explosão, seguida por outra alguns minutos mais tarde, ambas junto de portas do estádio. Haveria ainda uma terceira explosão às 21:53 a quatrocentos metros do recinto.
Os acessos ao estádio foram encerrados. No final do jogo, a multidão concentrou-se no relvado do campo. O presidente francês, François Hollande, que também estava a assistir ao jogo, foi imediatamente retirado do local.
Estes ataques terão vitimado 1 pessoa e os três terroristas provocaram as explosões detonando os cintos de explosivos.



Bar Le Carillon


Café Bonne Bière

Le Monde.fr | 13.11.2015 à 22h04

Pelas 21:25, no cruzamento da rue Bichat com a rue Alibert, o bar Le Carillon, assim como a esplanada do restaurante Le Petit Cambodge que fica em frente, foram alvo de um tiroteio que partiu de um carro Seat Leon de cor negra. Morreram 15 pessoas.

O carro seguiu para o cruzamento da rue Faubourg du Temple com a rue de la Fontaine-au-Roi onde os terroristas repetiram o tiroteio, agora sobre as pessoas que se encontravam no café Bonne Bière que procuraram refugiar-se debaixo das mesas. Eram 21:32. Fizeram mais 5 vítimas.

Às 21:36, os mesmos terroristas chegaram ao cruzamento da rue Faidherbe com a rue de Charonne. Aí abriram fogo sobre a esplanada cheia de clientes do restaurante La Belle Équipe. Mataram 19 pessoas.

Pouco depois, outro terrorista suicida detonou o seu cinto de explosivos na esplanada do café Comptoir Voltaire, no boulevard Voltaire, provocando vários feridos, um dos quais se encontra em estado grave.




Pelas 22h09, no cruzamento do Boulevard Voltaire com a Passage Saint-Pierre Amelot, o fotógrafo Patrick Zachmann filmou as primeiras trocas de tiros no Bataclan entre as forças de segurança e os terroristas.

Le Monde.fr | 14.11.2015 à 07h59

No momento do ataque terrorista no Bataclan, Daniel Psenny, jornalista do Le Monde, filmou a fuga dos espectadores pela saída de emergência da sala de concertos parisiense. Ler a história da mulher pendurada na janela aqui.

O ataque mais grave teve lugar no Bataclan, no boulevard Voltaire. Pelas 21:40, um grupo de quatro terroristas chegou num Volkswagen Polo negro e entrou de rosto descoberto nesta sala de espectáculos da capital francesa quando estava a decorrer um concerto da banda rock "Eagles of Death Metal" presenciado por cerca de 1500 espectadores. Muitos ficaram sequestrados e foram abatidos pelos terroristas que, armados com metralhadoras kalashnikov, disparavam indiscriminadamente. Um deles terá gritado "Tudo isto é culpa do vosso presidente!", aludindo à intervenção francesa na Síria e no Iraque.
O pânico instalou-se na sala. Alguns espectadores fugiram pelas traseiras, outros por uma abertura que dava para o telhado e um conseguiu publicar mensagens no Twitter pedindo ajuda. Quando a polícia assaltou o recinto, três dos terroristas fizeram detonar os coletes de explosivos e o quarto conseguiu fugir. Há a lamentar, pelo menos, 89 vítimas.

O Estado Islâmico já reivindicou a autoria dos ataques.

Numa declaração ao país, por volta da meia-noite (23:00 em Lisboa), o presidente francês disse que havia decidido decretar o estado de emergência nacional e restabelecer o controle das fronteiras.


*


O passaporte sírio encontrado pela polícia francesa no local de uma das explosões junto ao Estádio de França pertencia a um refugiado registado na ilha de Lesbos, Grécia, em Outubro, disse hoje um ministro grego.

14 Nov, 2015, 20:26

Entre aqueles refugiados — a larga maioria — que fogem da guerra na Síria e procuram uma vida melhor para as suas famílias na União Europeia, escondem-se os terroristas que não têm outra ambição que não seja destruir os povos europeus.

A partir dos massacres de sexta-feira 13 de Novembro em Paris deixou de ser possível iludirmos esta realidade. Se ouvirmos atentamente este extracto da conferência de imprensa do procurador da República de Paris, teremos de reconhecer que os serviços de informações, por melhor que seja a sua organização, serão sempre insuficientes:

14 Nov, 2015, 20:31

Os terroristas vivem no interior dos países europeus, querem destruir o modelo de vida e os valores éticos da nossa sociedade e estão dispostos a morrer para nos matarem. Subestimar a sua força poderá ser fatal.
Há que interiorizar este grave problema e procurar soluções — por exemplo, aceitar para líder da Síria uma personalidade educada no modelo de valores ocidentais, como é Bashar al-Assad, para pôr fim à guerra e reunificar o país. Antes que seja demasiado tarde.

Outras opiniões:

Anónimo
01:03
Na minha casa tenho porta e só entra quem quero... Façam o mesmo sendo Europa e deixem as caganças de fora, devia ter sido sempre assim.

Grunho
02:13
Isto é o preço do apoio da Europa à campanha dos imperialistas dos USA de saque do petróleo dos árabes, não tem nada a ver com rezas. E a nós o que nos vale é a nossa insignificância, porque senão já tínhamos aqui outra desgraça.

Aquiles
11:58
Eis os refugiados a cumprirem a sua missão ao invadirem a Europa! Uma vergonha para os dirigentes europeus que alinharam com a estratégia dos USA que financiam o EI para a guerra e fomentam a invasão europeia por muçulmanos assassinos.

DantasPt
12:02
Quando foram bombardear o Iraque, e aterrorizaram todo um país, onde morreram mais de 500 mil pessoas, sem nenhum motivo para o fazerem, assinaram uma declaração de guerra. Agora estamos a pagar essa guerra, que está a levar todo o mundo para conflitos globais que pode desencadear a mais mortífera guerra a nível mundial.
Ainda espero ver presos e mandados para o Iraque todos aqueles que invadiram o Iraque a fim de que o povo Iraquiano os julgue.

Anónimo
12:39
O EI é o resultado das "primaveras" árabes. Por cada ditador derrubado aparece um pior. A democracia ali não resulta.
Acontece que o EI tem pouco de Islâmico e fomenta o ódio contra uma cultura maioritariamente pacífica. Esse ódio criará mais fundamentalistas.

Miguel Santos @ Facebook
13:09
Venham mais muçulmanos, abram as fronteiras, cambada de mansos! Venham daí esses malditos defensores de muçulmanos! Sejam bem-vindos, refugiados muçulmanos que todos os dias chegam aos milhares! Estamos a ser invadidos e ainda os vamos buscar!

Adriano Coelho @ Facebook
14:39
À guerra terrorista responde-se com a aniquilação sem piedade destes grupos. Já é tempo de forças militares europeias fazerem uma limpeza nos países de origem destes terroristas. Sugiro que a NATO deixe de fazer exercícios no Alentejo e passe ao ataque dos locais onde estes criminosos se escondem.

Em tempo de guerra, suspendem-se as circulações
15:28
Continuem a tratar estes monstros com luvas e depois queixem-se.
Continuem a insistir na manutenção do chamado "Espaço Schengen" e na liberdade de movimentos, sem controlo, dentro da UE, e depois queixem-se.
Continuem a não filtrar as fronteiras, à entrada de criminosos, e depois queixem-se.

E agora? Que fazer? A guerra está a nossa porta
17:12
Muitos dos que comentam não fazem a mínima ideia do que é guerrilha e terrorismo. Os americanos, cheios de tecnologia e poder militar, foram corridos do Vietname e Iraque.
Querem Paz na Europa e no mundo? Não fomentem guerras para roubarem as riquezas dos outros.

“A FRANÇA ESTÁ A COLHER O FRUTO DO QUE SEMEOU”
19:51
Telefonou, há bocado para a SIC, uma enfermeira portuguesa, a trabalhar em França, há 4 anos, dizendo que os chamados "refugiados" chegam a França, não trabalham, têm casa grátis à espera, recebem subsídio, tudo isto pago pelos contribuintes, enquanto que ela tem a filha numa escola onde é a única criança de confissão cristã, onde se sente discriminada e aculturada, uma vez que todas as outras suas colegas de turma são filhas de famílias muçulmanas.
Acrescentou — e bem — que a França está a colher o fruto daquilo que semeou, ao abrir-se, sem controlo, à vaga muçulmana.

psi_fb
14 Novembro 2015 - 22:11
Na primeira noite eles aproximam-se
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam o nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo o nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.


Simões Álvaro @ Facebook
00:58
É lógico. Mas é preciso é actuar e deixarem-se de tretas e mesquinhices interesseiras. É tacar os criminosos com força e coragem, como faz Putin, e juntarem-se aos Curdos e outros que lutam com valentia no terreno, deixando a cobardia cá nos piegas da Europa e nas mariquices de alguns que não entendem. Proteger os inocentes e vítimas de cá.

uma coisa é certa
11:10
Não é prático, nem é razoável vivermos num Estado policial para podermos garantir a segurança devido a elementos radicais da religião islâmica que está enraizada na Idade Média enquanto o ocidente está no séc.XXI.
As comunidades islâmicas deviam colaborar com a polícia para evitar esta situação.


(actualizado)


domingo, 26 de julho de 2015

Entrevista de António Vitorino ao Público


O socialista e antigo comissário europeu António Vitorino diz, em entrevista ao jornal Público, que não pode haver união monetária sem convergência económica, nem partilha de risco sem partilha de soberania.
Embora faça algumas críticas à Alemanha e ainda mais à França, reconhece a importância do eixo franco-alemão na construção europeia e espera que o Reino Unido não saia da União. Critica duramente a estratégia do governo do Syriza nas recentes negociações dentro do Eurogrupo. Critica os governos nacionais que não fizeram reformas estruturais na devida época para melhorarem a competitividade e defende a presença de Portugal no núcleo duro europeu que é o euro.

Eis uma entrevista que é obrigatório ler:


"Estive a reler as entrevistas que me deu ao longo desta crise. Numa delas, em Dezembro de 2011, diz o seguinte: “Temos de ajudar a Alemanha a ultrapassar o seu momento unipolar”. E acrescenta: “No fundamental, a Alemanha tem razão, falta-lhe aprender a ter razão.” A Alemanha aprendeu alguma coisa?
Subscrevo essas afirmações mas confesso que cheguei à conclusão de que o processo de aprendizagem da Alemanha é mais lento do que esperava.

O que já se criticava à Alemanha naquela altura ainda se critica hoje?
Exactamente. Por duas razões. Não emergiram contrapesos no contexto europeu, e ajudar a Alemanha a ultrapassar o seu momento unipolar é também encontrar parceiros que contrabalancem o seu peso, sendo que contrabalançar é no sentido de convergir. Há uma segunda razão que continua presente: creio que a Alemanha ainda está prisioneira da narrativa que construiu há quatro anos e da qual ainda não se conseguiu libertar. E é esse o grande salto que vai ter de se pedir à Alemanha: abandonar a ideia de que tudo se resumiu a uns países perdulários que viviam acima das suas posses e centrar a atenção nos desequilíbrios internos da zona euro em termos de competitividade a fim de encontrar as soluções que permitam responder a três questões.

Primeira, relançar o investimento que permita o crescimento económico. Em segundo lugar, definir reformas adaptadas a cada país e não um modelo único, isto é, não se trata de fazer de todos os países pequenas e médias Alemanhas. É preciso compreender que o combate aos desequilíbrios exige reformas estruturais inteligentes, adaptadas aos défices de competitividade de cada país, que são diferentes. Os problemas de competitividade portugueses não são os mesmos da França, mas a França também tem problemas de competitividade, como os tem a Itália. O terceiro elemento é melhorar a qualidade das instituições europeias que são responsáveis pela gestão da moeda única.

Mas justamente as instituições europeias, à excepção do BCE e com particular evidência para a Comissão, têm vindo a enfraquecer, comparadas com o poder do Conselho Europeu e, dentro dele, da Alemanha. Vimos isso agora com a crise grega.
Penso que Jean-Claude Juncker fez um esforço para recentrar o papel da Comissão e isso é positivo. Em segundo lugar, mesmo o tão vilipendiado Tratado Orçamental, que é um tratado intergovernamental exterior à União, atribui às instituições comuns um papel central — à Comissão, ao Tribunal de Justiça e ao Parlamento Europeu. A UEM sempre esteve “a cavalo” entre o pilar comunitário e o pilar intergovernamental e a crise avolumou o pilar intergovernamental. O MEE [Mecanismo Europeu de Estabilidade] e o Tratado Orçamental são tratados intergovernamentais. O que temos de garantir é que essa evolução intergovernamental possa convergir para a plena integração destes mecanismos no quadro da União Europeia e, para isso, as instituições têm de estar preparadas do ponto de vista também da legitimidade democrática, para assumirem novas responsabilidades.

A nova crise grega, com todas as suas reviravoltas, veio demonstrar que a Alemanha — voltamos sempre à Alemanha — não aprendeu grande coisa em matéria de resgates. O terceiro resgate à Grécia, mais uma vez, parece não incluir nada que permita à economia grega respirar.
Diria que a mais recente crise grega — não digo a última porque não será a última — demonstra os limites da gestão em modo de urgência: soluções ad hoc a que já se chama de “lista da lavandaria”, com reformas que envolvem os horários das padarias ou dos centros comerciais. Isso não resolve o problema de fundo nem vai obter os resultados pretendidos. Só vai agravar a recessão e tornar ainda mais difícil a situação da Grécia. Mas isso também é da responsabilidade do Governo grego e da maneira como actuou nas negociações

Aos ziguezagues.
Claramente. Mas o aspecto mais pernicioso desta recente crise grega é que desviou o debate europeu daquilo que é a questão central: as reformas de fundo da UEM. Retrocedemos e passámos outra vez a gerir isto de forma atrabiliária, porque tínhamos um elefante na sala chamado Grécia.

Que, de alguma maneira, também se podia prever.
E que estou a prever que vá voltar. O Grexit não desapareceu. Foi apenas escondido. Quando voltar, voltará sempre com maior gravidade. Falta uma visão a prazo da sustentabilidade da zona euro que tem a ver com a convergência das economias, com a necessidade de dinamizar o investimento e de criar um quadro regulatório europeu que permita apostar nos sectores de crescimento económico futuro, como a energia ou a economia digital. Só com um pacote destes a nível europeu, que implica também reformas estruturais a nível nacional, será possível encontrar uma solução de sustentabilidade duradoura para a zona euro.

Porque é que a Alemanha não consegue ou não quer perceber isso?
Creio que a Alemanha ainda não se fixou num modelo global. Por muito criticável que seja a ultima proposta do Presidente francês — e é muito criticável...

A ideia de que o euro precisa de um núcleo duro composto pelos fundadores e de um governo económico.
A ideia de um governo económico para a zona euro é muito antiga em França. Estava em cima da mesa em Maastricht em 1991. Mas, ao menos, esta iniciativa francesa, que manifestamente não é convergente com Berlim, poderá ter a virtude de levar a Alemanha a clarificar a sua visão de conjunto. Para os que andam sempre dizer que a Alemanha manda em tudo, talvez devessem reflectir sobre o facto de que esta é uma das áreas onde há falta de Alemanha, onde a Alemanha ainda não assumiu a sua responsabilidade.

Mas a falta de Alemanha ou Alemanha a mais acaba por afectar toda a gente.
Acho injusto dizer que a União Europeia só faz o que a Alemanha quer. Não corresponde à realidade, que é mais sofisticada e mais complexa, se quiser. É verdade que iniciativas europeias que não tenham o beneplácito de Berlim têm pouca probabilidade de sobreviver. Mas isso faz parte da dinâmica da negociação. Não há um diktat alemão, isso é uma enorme injustiça. Há um filtro. A Alemanha é um filtro e a ultrapassagem desse filtro exige negociação. Mas isso exige que todos tenham ideias claras do que querem, obrigando a Alemanha a ter as suas e a trazê-las para a mesa, confrontando-as com as dos outros.

E se alguma crítica pode ser feita à Alemanha — e pode — é que a maneira como a Alemanha geriu esta sucessão de crises afectou a sua imagem política como um país capaz de ouvir os outros. Perdeu nessa frente.

Esta crise grega teve duas particularidades que gostava que comentasse. É a primeira vez que um governo é liderado por um partido que não faz parte do mainstream europeu. Mas esse mesmo partido teve de render-se perante uma realidade que descobriu ser incontornável. Esta experiência para o resto da Europa significa o quê?
O Governo grego cometeu um erro colossal de cálculo na estratégia negocial que seguiu. Conseguiu isolar-se, alienar potenciais aliados e seguiu uma estratégia negocial de alto risco, baseada num pressuposto que se verificou errado: esticando a corda, a Europa cede porque ninguém estará disposto a dar o salto no desconhecido que é deixar um país abandonar a zona euro. Algumas ideias do Syriza, à partida, nem eram más. Por exemplo, a questão de indexar o pagamento da dívida ao crescimento do Produto. É uma tese defensável, razoável até. Desapareceu rapidamente do radar da negociação.

Não há a disponibilidade do outro lado?
A política significa também a conjugação de vontades e a probabilidade de haver uma conjugação de vontade para resolver o problema da dívida neste momento era muito pequena. A estratégia seguida foi totalmente errada. E isso não quer dizer que é por ser um governo de extrema-esquerda. Se fosse de extrema-direita ou de centro estaria igualmente destinada ao malogro. Além disso, o Governo grego prestou um mau serviço à causa europeia ao tentar criar a ideia de que podia usar a sua democracia nacional contra a União Europeia. E esse é um erro de princípio, porque a partilha de soberania não é usar as soberanias e as legitimidades democráticas de cada um contra os outros.

Era previsível que um Governo com as características do Syriza assinasse um acordo que nega tudo aquilo que defendeu? Humilhação é um sentimento muito pouco recomendável.
Aquilo que foi manifestamente uma humilhação grega é um erro que levaremos muito anos a apagar. A humilhação não se dilui nem desaparece. Os chineses dizem que só há vitória quando quem perde também tem alguma coisa a ganhar. E uma das razões para que isso acontecesse resulta de se ter mantido a negociação ao nível técnico e não político, entregue aos ministros das Finanças.

Sobretudo o ministro das Finanças alemão, que apresentou pela primeira vez a hipótese concreta de um Grexit.
Que não está prevista nos tratados. O facto de haver, pela primeira vez, uma instância da União, o Eurogrupo, que permite, ainda que entre parêntesis rectos, a saída de um país, é um sinal político extremamente preocupante, com que nós, como os espanhóis ou outros, nos devíamos preocupar.

Conhece Wolfgang Schäuble há muito tempo, era a braço-direito de Kohl. Como interpreta o comportamento intransigente que assumiu?
Não tenho dúvidas de que Schäuble é um europeísta convicto e que até considera que a zona euro deve ser o núcleo de integração aprofundada da União Europeia. O que a sua atitude deixou no ar — e isso é que é preocupante — é até que ponto o compromisso alemão com o euro significa manter a zona euro na sua composição actual ou se há margem de manobra — vou utilizar uma expressão forte que talvez não devesse utilizar — para a purificação do euro.

Nas actuais circunstâncias pode ser uma ideia muito perigosa.
Sim. Jacques Delors disse há uns meses que o futuro da União Europeia deve ser construído na lógica das cooperações reforçadas, embora não sendo uma cooperação reforçada, onde os países que partilham a moeda única dão um salto na partilha de soberania e na partilha do risco: são os dois elementos fundamentais da UEM. Não há partilha de risco sem partilha de soberania. E isto tudo tem de ter uma forte legitimidade democrática, porque se trata de um salto significativo na integração europeia. Ora bem, a questão é saber entre que partes esta partilha se vai fazer. Delors defende que esse núcleo é a zona euro na sua composição actual. Mas há outra proposta, dos preguiçosos, que é escovar da zona euro os menos desenvolvidos e fazer um euro forte. Há aqui uma parte escondida: esse euro forte só para alguns sofreria uma valorização cambial tal que retirava parte das suas vantagens competitivas. Contra isso, devemos contrapor que estamos dispostos a aceitar novas partilhas de soberania na zona euro, mas também do risco.

Mais uma vez, o problema é que a Alemanha não quer partilhar o risco.
É esse o debate que está em cima da mesa. Somos, por vezes, precipitados nas críticas que fazemos à Alemanha, mas a verdade é que a chanceler disse ao longo destes últimos cinco anos duas coisas muito importantes. Avançou com a proposta dos chamados contractual arranjements para efeito do combate aos desequilíbrios de competitividade em cada país. A sua ideia não foi aceite mas convém não esquecer que foi ela que a fez.

E que pode pôr de novo na mesa.
Com outros contornos, com outra configuração, mas que é a resposta ao problema real dos desequilíbrios de competitividade e dos problemas de divergência, que se agravaram com a moeda única. A segunda coisa que a chanceler disse — e disse-o pela primeira vez — foi que, excluindo um haircut, estava disponível para discutir a dívida a nível europeu. Não é uma questão que se possa tratar caso a caso. Já hoje as condições de financiamento da Grécia são melhores que as de Portugal, da Espanha e da Irlanda. E acho que devem ser melhores. A Grécia sofreu um tremor de terra de grau 10 da escala de Richter, do ponto de vista económico. Mas dito isto, não creio que a solução para o stock da dívida europeia seja a salamização da dívida, caso a caso. Tem de haver uma lógica europeia.

Ainda se lembra do relatório Schauble-Lamers, apresentado em 1994, que já previa uma core Europe, mais integrada do que o resto. A França não quis. Há aqui também uma eterna dificuldade francesa face à integração. Hollande fez tudo para evitar o Grexit, mas agora vem com um núcleo duro de fundadores.
Isso corresponde à posição tradicional da França...

A defesa do governo económico, mas não a ideia dos fundadores.
Sim, mas uma coisa não pode ser lida sem a outra, na minha opinião. Discordo da criação de instituições apenas dedicadas à zona euro. Já há o Eurogrupo. É preciso garantir que a UEM é uma política da União e que as tensões entre zona euro e o grande mercado interno têm de ser geridas por instituições comuns, sob pena de criarmos uma espécie de apartheid. Isso seria inaceitável, porque poria em causa os fundamentos do Mercado Interno, que é o grande elemento aglutinador da integração europeia. Mas esta é a posição tradicional de França. O que é novo na proposta de Hollande é que, mesmo na zona euro, deveria haver um núcleo duro de integração que envolveria apenas os seis países fundadores.

Mas de onde é que vem uma ideia que já não tem nada a ver com a Europa actual?
Sempre achei que, para haver aprofundamento, tinha de haver um motor, que só poderia ser o eixo franco-alemão. Mas o documento apresentado em Maio por Merkel e Hollande para a reforma da zona euro é decepcionante, na medida em que se baseia em menores denominadores comuns. Não é um motor propulsor.

Quanto ao núcleo dos seis fundadores, não só não há um racional económico como cria um problema político para resolver outro. O problema que quer resolver é a fractura Norte-Sul, porque inclui um país do Sul, a Itália. Do ponto de vista político, cria um outro problema: se a questão central da sustentabilidade do euro é o aprofundamento da integração e a resposta à divergência económica, então deixar de fora os países que estão a fazer um trajecto de convergência mais bem-sucedido, é criar um novo problema político. São os casos da Irlanda, que deve crescer a 3,5% para o ano, ou da Espanha que deve crescer a 3 por cento ou da Áustria com uma situação económica bastante confortável, ou a própria Finlândia que, estando hoje em recessão, continua a ser um Triplo A.

Ninguém vai aceitar essa proposta.
Tenho a convicção sincera de que acabará por se desvanecer. Mas como não acredito em bruxas, embora elas existam, então convém deixar já clara a posição de cada um sobre esta matéria. E tenho uma enorme expectativa sobre a maneira como a Alemanha vai reagir.

A lógica da Alemanha não tem sido essa.
Antes pelo contrário, tem sido no sentido de garantir instituições comuns e de ser o mais inclusiva possível. O interesse da Alemanha, fundado ou não — não quero entrar nesse debate —, ao apresentar o caso português ou o irlandês como casos de sucesso, joga contra essa lógica francesa.

O eixo Paris-Berlim continua a ser fundamental mesmo com o desequilíbrio que tem hoje?
Para bem do projecto europeu, tem de ser recuperado. Sempre disse que o motor do projecto europeu era o eixo franco-alemão, mas também sempre recorri à imagem dos três mosqueteiros que eram quatro. Temos o eixo franco-alemão e temos o Reino Unido. E o Reino Unido é parte integrante do eixo franco-alemão, por paradoxal que possa parecer. É o moderador externo, digamos assim, dos equilíbrios internos desse eixo. E como nós vamos estar confrontados com uma questão seriíssima, atinente ao Reino Unido...

Questão muito mais grave do que a Grécia...
É verdade, e espero que não saiam. Mas é manifesto que, tendo de tratar da questão britânica, isso vai ser um enorme desafio ao eixo franco-alemão.

A Alemanha quer o Reino Unido dentro, a França parece querê-lo fora, embora, depois, também queira uma relação especial com ele no que toca à defesa.
A relação franco-britânica é a mais antiga e tensa relação europeia. Mas são os únicos que têm uma concepção global de política externa, que são membros permanentes do Conselho de Segurança, que são as duas potências militares e nucleares europeias. De alguma forma, a repulsa entre eles vem de serem tão parecidos.

A minha ideia é esta: como a questão do Reino Unido vai estar em cima da mesa este ano, uma parte importante da solução não é apenas a concepção franco-alemã sobre o futuro da zona euro, é também sobre o futuro da União Europeia, no seu conjunto e com o Reino Unido a bordo.

Quando o euro nasceu foi olhado como uma forma de amarrar a Alemanha à União. Kohl ofereceu a Mitterrand o que de mais preciso tinha a Alemanha nessa altura, que era o marco. Hoje os resultados não são os que esperaríamos. Muita gente diz que o euro não uniu, antes dividiu.
Há uma mais-valia acrescentada com a moeda única, há. O euro é uma moeda de referência nas trocas internacionais? É. É uma moeda de reserva das economias emergentes? É. É, aliás, um dos poucos domínios em que a Europa dá cartas à escala mundial ou tem, pelo menos, os instrumentos para um protagonismo global. Mas é evidente que, nestes últimos 10 anos, houve países que beneficiaram mais da moeda única do que outros. A Alemanha à cabeça, permitindo-lhe criar um excedente da balança externa de 7%, e isso constitui um mérito da moeda única em benefício da Alemanha. Mas a questão não é tanto Norte-Sul mas centro-periferias. E o risco que existe na Europa é criar a ideia de que há ganhadores permanentes e perdedores permanentes. Essa é que é a verdadeira factura.

Mas isso não é percebido assim pelos alemães.
É verdade. Mas a crise veio pôr a nu que uma união monetária exige que haja convergência económica. Parte dos problemas da divergência resultam de opções tomadas pelos governos nacionais, que não aproveitaram em devido tempo a oportunidade da moeda única para fazerem as reformas necessárias para melhorarem a competitividade. O que está agora em cima da mesa é como é que se acrescenta esse pilar económico, fazendo-o num período de recessão económica e de menor crescimento à escala global, de relativa pujança, por enquanto, das economias emergentes...

Que, elas próprias, já estiveram bem melhores.
Sim. O problema é que a Europa não foi considerada como um refúgio alternativo para a retracção dos investimentos nos mercados emergentes. Esse papel voltou a ser dos Estados Unidos, com a retoma da economia americana. Temos de ser suficientemente humildes para perceber que o papel da Europa no mundo está ameaçado e que exige soluções tanto do ponto de vista económico, como da sustentabilidade da moeda comum, como da garantia da coesão social, afectada por esta crise, como da construção de uma política externa, de segurança e de defesa que reponha a Europa como um player global.

Donald Tusk disse recentemente que o maior risco de contágio não é financeiro, é político. As consequências políticas desta crise podem ser ainda mais devastadoras do que as económicas?
Tem toda a razão e basta olhar para a Grécia. O PASOK desapareceu, a Nova Democracia entrou em crise. Esta crise dividiu o próprio Syriza e, aparentemente, ainda é a partir do Syriza que se poderá construir no futuro alguma coisa — pelo menos com uma facção do Syriza. Mas se o Syriza soçobrar nos braços desta crise, o que resta é a Aurora Dourada. Não é esta a Europa que queremos.

E não é só a Grécia. Olha-se para a maioria dos países do euro e vê-se como os sistemas partidários estão a ser postos à prova. Às vezes a única excepção parece a nossa...
E a Alemanha. Prestem lá essa homenagem à chanceler. Se tivéssemos uma Marine Le Pen alemã...

A Europa acabava...
Ora bem. E mesmo a França é factor de enorme preocupação.

O centro-esquerda não consegue encontrar o seu espaço, que seria fundamental para criar uma alternativa dentro do consenso europeu.
A alternativa que a social-democracia representava há vinte anos atrás, que era globalização económica, crescimento e redistribuição mais justa, confrontou-se com um problema central que foi subavaliado e que é a desregulação da globalização. O modelo fazia sentido na teoria, mas faltava-lhe esse instrumento fundamental. Isso teve consequências sobre a mobilidade acrescida do capital, a diminuição da capacidade de tributação dos Estados e, consequentemente, da arrecadação do volume de impostos necessário para a redistribuição, acabando por gerar um aumento das desigualdades. Das desigualdades entre países, à escala global, e dentro dos países, incluindo também os países com economias desenvolvidas, o que é uma má novidade. É esse o desafio a que o centro-esquerda tem de responder. Não é fácil.

O seu optimismo é realista?
É. Eu sou defensor de soluções realista. E nada do que lhe disse nesta conversa é impossível. Porque há uma coisa que eu sei: a implosão deste projecto é uma catástrofe global, para todos, a começar pelos europeus e para aqueles que estão hoje na posição mais confortável da integração europeia. Leia-se Alemanha. Seria absurdo do ponto de vista histórico que a Alemanha pudesse suicidar-se através do processo europeu.

Qual é a Europa que nos convém, admitindo que a anterior não voltará.
Não voltará. Temos que aprender a viver numa Europa muito diferente daquela a que estávamos habituados e temos de redefinir duas coisas. O que é o nosso interesse nacional e como é que estribamos o consenso interno para estarmos nessa Europa. Não há modelos alternativos, há modelos complementares, seja o espaço transatlântico, seja o espaço lusófono, que são valores acrescentados para podermos negociar a nossa presença na Europa. Mas essa presença no núcleo duro europeu, que é o euro, continua a ser a ancoragem que melhor nos serve. Mas temos de perceber que, mudando as condições, também temos de redefinir os nossos objectivos. Estas questões têm a ver com as nossas escolhas internas. Em segundo lugar, termos de definir a maneira como gerimos as nossas alianças no plano europeu.

Em que sentido?
Vou dizer algo abstracto. Portugal é um exemplo de que, sempre que soube defender o seu interesse nacional encontrando soluções que potenciavam o interesse europeu, ganhou."


*


Este comentário faz a avaliação perfeita da entrevista e do entrevistado:

Pecas
Político de Bancada, Lisboa 26/07/2015 09:09
1) Excelente entrevista. António Vitorino é um oásis de inteligência no deserto socialista.
2) Para perceber a "rendição" da Grécia é preciso ler o Financial Times e ficar perplexo com a incompetência do governo grego no seu ousado plano para a saída do euro (o Observador tem um bom resumo)


sexta-feira, 26 de junho de 2015

O massacre na França, no Kuwait e na Tunísia - III


França, 8h00. Kuwait, 12h30. Tunísia, 13h30.

Um ataque islamista a uma estância turística na Tunísia matou 39 turistas e feriu mais 36.

Sousse, Tunísia, 26 de Junho de 2015.
REUTERS/Amine Ben Aziza


Um homem que se fez passar por turista abriu fogo com uma metralhadora Kalashnikov na praia junto a um hotel, por volta do meio-dia de hoje. Foi abatido pela polícia que procura possíveis cúmplices.

O hotel é o Riu Imperial Marhaba, em Sousse, sensivelmente a 150 quilómetros da capital do país, Tunes.
Segundo contou à Reuters um trabalhador deste hotel, que assistiu ao ataque, havia só um atirador, que abriu fogo junto à piscina do hotel: "Era só um atacante. Era um jovem vestido com calções como se fosse também um turista."

As vítimas mortais são turistas, sobretudo britânicos, alemães e belgas, segundo o Ministério do Interior tunisino, que tem estado a actualizar a estimativa do número de mortos. O assassino foi um estudante de Kairouan, uma cidade no centro do país que é uma das cidades santas do Islão.









Considerada o melhor exemplo de evolução democrática da Primavera Árabe, a Tunísia já tinha assistido a um ataque terrorista perpetrado por extremistas muçulmanos em Março que teve como alvo o museu Bardo, em Tunes. Morreram 22 pessoas, todos turistas.


*


Sousse é uma das principais cidades turísticas na Tunísia muito procurada pelas estâncias turísticas junto à praia. O país é visitado anualmente por seis milhões de turistas, a maior parte dos quais europeus, que procuram as praias e os locais históricos. Estes ataques dirigidos contra os turistas são uma catástrofe para a economia tunisina que tem no turismo uma importante fonte de receita.

Afastando os turistas, a economia tunisina entra em recessão, a população empobrece e, com o decorrer do tempo, acaba por aderir a ideologias extremistas como as professadas pelos radicais islamistas.

Cabe aos líderes europeus serem capazes de fazer fracassar o terrorismo do Estado Islâmico que, a par e concomitantemente com a imigração islâmica, são o maior perigo que a Europa enfrenta.

Merecem uma leitura estes comentários à notícia no Observador:

Luis Fonseca
26 Jun 2015
Vamos à guerra contra essa gente. Eles não querem saber de ninguém, estão em guerra connosco, que estamos à espera para lhes dar troco? Que invadam ainda mais a Europa?

Pedro de Almeida
26 Jun 2015
Luis Fonseca,
Calma, há que compreender a revolta dos pobres muçulmanos, humilhados e ofendidos pelo despudor dos ocidentais.
E, claro, há as desigualdades económicas gritantes, que contribuem para a sua revolta.
Como é que se sentiria se vivesse num país com um PIB per capita ainda inferior ao Grego (esses desgraçados esmagados pela austeridade neoliberal)?
Certamente também se sentiria revoltado, e com vontade de atacar resorts turísticos, não?
Por isso, nada de julgamentos apressados.
(Até porque, como todos sabemos, o Islão é uma religião de paz, e não são um ou dois jovens mais excitados que alteram esse facto. Temos de respeitar a cultura deles!)
  • David Pinheiro
    26 Jun 2015
    ;)

Daniel Teixeira
26 Jun 2015
Caro Pedro de Almeida,
Não deixa de ser curioso que noutras culturas com a mesma desigualdade social não se passe o mesmo – Não me lembro de ver nenhum Hindu ou Budista a matar e decapitar pessoas. Mais curioso ainda é a proclamação diária da religião da paz...

A Indocrinação é fácil de acontecer numa sociedade pouco educada – no entanto, olhando para todos estas sociedades e diferentes religiões o padrão é sempre o mesmo – Apenas no médio/próximo oriente isto acontece – qual o ponto em comum?
  • Nuno Gonçalves
    26 Jun 2015
    Daniel, eu sei que o sarcasmo é difícil de detectar através da escrita, mas está mais que presente no comentário do Sr. Pedro de Almeida.

Pedro de Almeida
26 Jun 2015
Daniel Teixeira,
Isso é um pensamento maldoso, que resulta de pensar demais e perder tempo a analisar realidades.
Não seja assim.
Escreva 100 vezes (à mão, num papel qualquer, fazer copy/paste num computador não serve) “O islão é uma religião pacífica”, e vai ver que se sente melhor.


O massacre na França, no Kuwait e na Tunísia - II


França, 8h00. Kuwait, 12h30. Tunísia, 13h30.

Um bombista suicida fez um ataque terrorista numa mesquita xiita do Kuwait que causou 27 vítimas mortais e feriu 227 pessoas.





Era a hora das orações na cidade do Kuwait, capital do pequeno Estado do golfo Pérsico com o mesmo nome.
A mesquita Imam Sadiq continha cerca cerca de 2000 pessoas, quando houve uma forte explosão. Logo a seguir, dezenas de homens com vestimentas brancas salpicadas de sangue fugiram para fora da mesquita xiita no meio da fumaça.

O atentado foi reivindicado por um grupo jihadista ligado ao sunita Estado Islâmico.


*


A facção sunita do Islão deteve o poder no Iraque até ao derrube de Saddam Hussein pela invasão americana e britânica em 2003.

Desde essa época não mais parou a insurreição sunita no Iraque, que tanto lutou contra as forças da coligação liderada pelos Estados Unidos como contra as milícias da facção xiita do Islão, entretanto constituídas para combater o governo interino formado em 2004. Um grupo jihadista sunita tornou-se na Al-Qaeda do Iraque em Outubro desse ano.

A insurreição sunita intensificou-se em 2005, não obstante as eleições, primeiro para redigir a constituição e depois para criar um parlamento. E continuou contra o governo xiita depois das forças armadas americanas terem abandonado o Iraque em 2011.

A guerra civil síria, que teve início nesse ano, levou os grupos sunitas a atravessar a fronteira para combater o regime de Bashar al-Assad. Em 2014, um grupo ultra-conservador, de inspiração salafista, consegue controlar algumas das maiores cidades iraquianas, como Tikrit, Fallujah e Mosul, e autoproclama o Estado Islâmico do Iraque e da Síria (ISIS, na sigla inglesa) onde impõe um clima de terror.

Agora o ódio do Estado Islâmico alastrou para a Europa mas não esquece o ramo xiita do Islão.


O massacre na França, no Kuwait e na Tunísia - I


França, 8h00. Kuwait, 12h30. Tunísia, 13h30.

Um ataque terrorista em Lyon, na França, provocou uma explosão numa fábrica de gás e fez vários feridos. Há também um homem decapitado.

AFP/Getty Images

Um homem fez colidir uma viatura contra o portão da fábrica da Air Products em Saint-Quentin-Fallavier, a 25 quilómetros de Lyon, cerca das 8:00 desta sexta-feira. Depois de entrar, provocou a explosão de garrafas de gás.

Os bombeiros chegaram rapidamente e depararam com o suspeito deste atentado, Yassin Salhi, a gritar "Allah Akbar", que conseguiram manietar até à chegada dos polícias. Posteriormente, a mulher e uma irmã do suspeito foram detidas na sua residência.

No exterior do edifício encontrava-se um corpo decapitado que, mais tarde, foi identificado como o gerente de uma empresa de transportes e patrão de Yassin Salhi. A sua cabeça fora colocada pelo terrorista num gradeamento e junto do corpo decapitado estava uma bandeira do autoproclamado Estado Islâmico.

Segundo o ministro do Interior francês, Bernard Cazeneuve, o suspeito nasceu em 1980 e residia na região de Lyon. Em 2006 fora identificado pela polícia como um radical islâmico, mas a sua "ficha S" (de Segurança do Estado) não foi renovada quando foi feita uma actualização dos dados policiais, em 2008.


Le Monde.fr | 26.06.2015 à 14h31

Tanto o Presidente François Hollande como o primeiro-ministro Manuel Valls classificaram este ataque como um atentado terrorista.


*


Depois dos ataques de 11 de Janeiro, contra a redacção do semanário satírico Charlie Hebdo e contra um supermercado judeu, a França volta a ser o alvo de um novo atentado islamista. E desta vez não há a desculpa de que os autores do atentado ficaram ofendidos com as caricaturas de Maomé.

A opinião dos outros:

Luis Marques
Javali profissional, Manchester 26/06/2015 11:49
Os franceses são fracos, são um povo submisso ao politicamente correcto que recua recua, recua, até não mandar mais no seu país. Mas isto já é dito há bastantes anos e nada fizeram para alterar a situação.
O medo de serem chamados fascistas, ou coisa parecida, pela turba politicamente correcta tem-nos paralisado e diminuído a França. Pode ser que acordem antes que seja tarde demais ou então irão continuar até não reconhecerem o país que habitam.
  • Vanity_Kingdom
    26/06/2015 12:04
    O Cameron já legislou em 2012, que cônjuge extra-comunitário só pode viver em Inglaterra se o cônjuge inglês auferir £18.600. Os franceses são patéticos.

Krys
26/06/2015 12:35
Sou italiano e brasileiro, mas digo, sou completamente contra a turba de imigrantes que invadem a Europa e querem cá impor o seu estilo de vida.
Se querem vir para cá, que venham, mas primeiro entrem pela porta da frente, imigrantes ilegais têm que ser deportados. Que tenham a obrigação de aprender e comunicar no idioma do país no qual residem, que sigam as tradições locais e respeitem os usos e costumes.
Querem vir para os países da Europa ou América, mas querem trazer a mesma desgraça da qual fogem. A França, Bélgica e outros já foram colonizados, quem lá esteve por algum tempo sabe ao que me refiro. A onda do politicamente correcto enfraquece e põe a Europa de joelhos.


quinta-feira, 26 de março de 2015

Um Airbus A320 despenhou-se nos Alpes franceses - II


A queda do avião da Germanwings nos Alpes franceses deveu-se a um acto voluntário do co-piloto.

O procurador de Marselha, Brice Robin, revelou em conferência de imprensa o resultado da análise da caixa negra com as gravações de voz dos últimos 30 minutos do voo 4U9525.




Le Monde.fr | 26.03.2015 à 12h58

26 Mar, 2015, 13:28


Nos primeiros 20 minutos, o comandante e o co-piloto tiveram uma conversa amena. Em seguida, o comandante Patrick Sonderheimer levantou-se e saiu do cockpit, aparentemente para ir à casa de banho, tendo fechado a porta.

O co-piloto Andreas Lubitz ficou sozinho aos comandos do aparelho. Nesse momento passou o aparelho do piloto automático para manual e accionou o botão para reduzir a altitude da aeronave. O promotor disse acreditar que foi um acto deliberado: "Podíamos ouvi-lo respirar. Ele respirava normalmente. Não pronunciou uma única palavra desde que o piloto saiu da cabine."

O avião começou a descer. O comandante regressou, bateu levemente na porta do cockpit e usou o intercomunicador para se identificar. Mas o co-piloto não respondeu. Preso fora da própria cabine, o comandante ficou cada vez mais desesperado: "Tocaram os alarmes para avisar a tripulação da proximidade do solo e, naquele momento, pudemos ouvir pancadas violentas numa porta, alguém a tentar forçar a porta. Era uma porta forte, tinha sido reforçada, em conformidade com as normas internacionais, para proteger contra actos de terrorismo."
Não havia nenhuma maneira de entrar e parar o co-piloto. Andreas Lubitz voou calmamente em direcção à montanha, arrastando o comandante, os passageiros e a restante tripulação — mais 149 pessoas.

Agora cabe às autoridades alemãs investigar a vida do jovem co-piloto de 27 anos para descobrir a motivação do seu acto terrorista.





Le Monde.fr | 27.03.2015 à 15h16


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Desde os atentados do 11 de Setembro, são obrigatórias portas blindadas no acesso ao cockpit para proteger os pilotos. Num Airbus A320, há códigos de emergência para acesso da tripulação ao cockpit, mas os pilotos podem anulá-los, bloqueando a porta. A Airbus explica, em pormenor, o procedimento:




Finalmente vamos abordar a análise dos dados do piloto automático feita pelo administrador do fórum da Flightradar24:



Depois de ficar sozinho aos comandos do aparelho, Lubitz passou o aparelho do piloto automático para manual e accionou o botão para reduzir a altitude da aeronave dos 38.000 pés para 96 pés, o mínimo possível, que foi fixado às 9:30:55.
Logo que o transponder da aeronave enviou estes dados para a torre de controle, os controladores do tráfego aéreo tentaram contactar o avião mas o co-piloto não respondeu. E também não enviou nenhuma mensagem de emergência (código 7700). Daí os controladores terem alertado imediatamente as autoridades.


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Actualização em 27 de Março

Numerosas companhias aéreas decidiram criar uma nova regra de segurança: passa a ser obrigatório que estejam sempre dois tripulantes no cockpit.


terça-feira, 24 de março de 2015

Um Airbus A320 despenhou-se nos Alpes franceses - I


Um avião da companhia low cost alemã Germanwings caiu nos Alpes franceses quando fazia a ligação de Barcelona para Düsseldorf.



A aeronave — um Airbus A320-200 — partiu do aeroporto Barcelona-El Prat, em Espanha, às 9:01 UTM¹ (10:01 no local) e tinha como destino Düsseldorf, na Alemanha.

Atingiu a altitude máxima de 38.000 pés (11.582 m) perto da costa meridional francesa e nesse momento, eram 9:31, algo de estranho terá ocorrido no interior do avião.
O aparelho iniciou, então, uma descida acentuada. Dez minutos depois, embatia numa montanha dos Alpes Franceses a uma altitude de 6800 pés (2073 m) e à velocidade de 378 nós (700 km/h).

A bordo seguiam 150 pessoas — 144 passageiros e 6 tripulantes, dos quais dois pilotos —, sobretudo de nacionalidade alemã e espanhola. O Governo francês confirmou que não há sobreviventes e que foi encontrada uma das duas caixas negras, a que grava os sons emitidos dentro do cockpit.

O avião tinha sido adquirido em Novembro de 1990 pela companhia aérea alemã Lufthansa, dona da low cost Germanwings. Segundo o presidente executivo da Germanwings, Thomas Winkelmann, o avião tinha sido alvo de uma vistoria técnica de rotina na véspera do acidente e de uma inspecção sistemática no Verão de 2013. O piloto tinha 10 anos de experiência e mais de 6000 horas de voo.


Uma hora depois do avião se despenhar, a Flightradar24 anunciava o desastre no Twitter...



...mas a Germanwings considerou a notícia uma especulação:



Logo a seguir, a Flightradar24 divulgou o playback do voo 4U9525 ao minuto:




O gráfico de altitude e velocidade mostra que o voo 4U9525 desceu com velocidade entre 3000 e 4000 pés por minuto, o que é aproximadamente duas vezes mais rápido que uma descida normal, mas dentro da capacidade da aeronave.


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Actualização em 25 de Março

O avião Airbus A320 da Germanwings, que se despenhou na terça-feira nos Alpes franceses, nunca emitiu um alerta de emergência durante os longos dez minutos da queda.

As fotografias e os vídeos do local de embate na montanha mostram um avião pulverizado. A dispersão de detritos nas paredes do maciço dos Trois Evêchés demonstra a extrema violência do choque. Localizado nos Alpes-de-Haute-Provence, esta região montanhosa é particularmente íngreme, o que dificulta o acesso das equipas de intervenção. Poucas horas após o acidente, a caixa preta que grava os sons no cockpit foi encontrada parcialmente danificada.


Os restos do avião estão espalhados por um terreno extremamente acidentado. A povoação mais próxima é Seyne-les-Alpes.
REUTERS/Emmanuel Foudrot


Um pedaço do estabilizador
AFP PHOTO/Denis Bois


Um pedaço da fuselagem
REUTERS/Thomas Koehler


A caixa negra com a gravação dos sons do cockpit vai ser analisada pela BEA (Bureau d'Enquêtes et d'Analyses pour la sécurité de l'aviation civile)
REUTERS/BEA/Handout


O presidente francês Francois Hollande, a chanceler alemã Angela Merkel e o primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy visitaram o local do desastre
REUTERS/Christophe Ena/Pool


25/03/2015 - 20:18


Le Monde.fr avec AFP | 25.03.2015 à 12h42

25 Mar, 2015, 13:23


Nota:
  1. Universal Time Coordinated (UTC) é o fuso horário de referência a partir do qual se calculam todas as outras zonas horárias do mundo. Corresponde à hora de Inverno de Lisboa.