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sábado, 25 de abril de 2020

Resposta do editor-chefe do BILD a Xi Jinping


O editor-chefe do BILD, o maior jornal tabloide alemão, publicou um artigo, em 17 de Abril, em que perguntava se a China deveria pagar pelos enormes danos económicos que o coronavírus está a causar no mundo inteiro.

Pouco habituado a ser posto em causa, o regime chinês incumbiu a sua embaixada em Berlim de dirigir uma carta aberta ao jornal em que acusava o editor-chefe Julian Reichelt de não estar a viver a "amizade tradicional dos povos" alemão e chinês.

Agora chegou a vez de Julian Reichelt responder ao presidente chinês Xi Jinping (o leitor pode seleccionar a tradução para português do Brasil):




Eis a tradução:


Caro Presidente Xi Jinping,

A sua embaixada em Berlim dirigiu-me uma carta aberta porque perguntámos no nosso jornal BILD se a China deveria pagar pelos enormes danos económicos que o coronavírus está a causar no mundo inteiro.

Permita-me responder:

1. O senhor governa pela vigilância. Não seria presidente sem vigilância. Monitoriza tudo, todos os cidadãos, mas recusa-se a monitorizar os mercados húmidos doentios do seu país.

Fecha qualquer jornal e website que seja crítico do seu regime, mas não as bancas onde a sopa de morcego é vendida. Não está apenas a monitorizar o seu povo, está a colocá-los em perigo — e com eles, o resto do mundo.

2. Vigilância é uma negação da liberdade. E uma nação que não é livre, não é criativa. Uma nação que não é inovadora, não inventa nada. É por isso que fez do seu país o campeão mundial em roubo de propriedade intelectual.

A China enriquece-se com as invenções de outros, em vez de inventar por conta própria. A razão pela qual a China não inova e inventa é que o senhor não deixa os jovens do seu país pensarem livremente. O maior sucesso de exportação da China (que ninguém queria ter, mas que já percorreu o mundo) é o Corona.

3. O senhor, o seu governo e os seus cientistas sabiam há muito tempo que o Corona é altamente infeccioso, mas deixaram o mundo na escuridão sobre isso. Os seus principais especialistas não responderam quando os pesquisadores ocidentais pediram para saber o que estava a acontecer em Wuhan.

Foi demasiado orgulhoso e demasiado nacionalista para dizer a verdade, que sentiu como uma desgraça nacional e que se tornou agora um desastre global.

4. O "Washington Post" relata que os laboratórios em Wuhan estão a pesquisar o coronavírus em morcegos, mas sem manter os mais altos padrões de segurança. Porquê os seus laboratórios tóxicos não são tão seguros quanto as suas prisões para presos políticos?

Pode explicar isto para as viúvas, filhas, filhos, maridos, pais de vítimas do Corona em todo o mundo?

5. No seu país, o povo está a sussurrar sobre si. O seu poder está a desmoronar-se. Criou uma China inescrutável e não transparente. Antes do Corona, a China era conhecida como um estado de vigilância. Agora, a China é conhecida como um estado de vigilância que infectou o mundo com uma doença mortal.

Esse é o seu legado político.

A sua embaixada diz-me que não estou a viver a "amizade tradicional dos nossos povos". Suponho que considera uma grande "amizade" quando agora envia máscaras generosamente ao redor do mundo. Isto não é amizade, eu chamar-lhe-ia imperialismo escondido atrás de um sorriso — um cavalo de Tróia.

Planeia fortalecer a China através de uma praga que exportou. Não terá sucesso. O Corona será o seu fim político, mais cedo ou mais tarde.

Com os melhores cumprimentos,

Julian Reichelt


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Desde 12 de Fevereiro, todos os empreendimentos residenciais em Wuhan, capital da província chinesa de Hubei, foram encerrados, impedindo a maioria dos moradores de deixar as suas casas para comprar alimentos.
Comissões de bairro formadas por elementos da confiança do regime comunista chinês, ficaram encarregadas de cuidar dos moradores em quarentena por causa do coronavírus, mas falharam no desempenho dessas funções.

Quando, há cerca de um mês, a vice-primeira-ministra Sun Chunlan visitou uma comunidade residencial, no distrito Qingshan de Wuhan, para inspeccionar o trabalho da respectiva comissão, foi recebida com protestos.
Insatisfeitos com as ineficiências demonstradas pela administração pública local, os moradores ganharam coragem para assomar às janelas dos seus apartamentos e gritar "falso, falso","é tudo falso" e "protestamos":





Pouco a pouco, a população chinesa começa a aperceber-se do sofrimento a que foi sujeita, devido ao silenciamento imposto pelas autoridades ao médico que alertou, em 30 de Dezembro de 2019, para os primeiros casos de infecção pelo SARS-CoV-2, e procura ganhar alguma liberdade de expressão.


sexta-feira, 10 de abril de 2020

COVID-19: A ameaça chinesa


Os políticos europeus andaram distraídos e, só agora, quando o coronavírus entrou no espaço da União Europeia e começou a matar dezenas de milhares de pessoas, em Itália e em Espanha, se aperceberam que estavam completamente dependentes da China para importação de equipamento de protecção individual para os profissionais de saúde e até de medicamentos.
Mesmo Angela Merkel, a mais atenta, só reagiu, alertando políticos de outros países — como, por exemplo, Portugal aquando da OPA da China à EDP — porque o Estado Chinês começou a querer apoderar-se das empresas europeias de energia eléctrica, o que depositaria a economia europeia nas mãos da China.

Este artigo divulgado no Jornal de Negócios é um dos primeiros alertas que aparecem na comunicação social portuguesa sobre a ameaça chinesa:

Brahma Chellaney
23 de Março de 2020 às 14:00

A pandemia covid-19 trouxe a lume os custos do crescente autoritarismo de Xi. Deveria ser uma chamada de atenção para os líderes políticos e empresariais que aceitaram durante demasiado tempo a ampliação da sombra da China sobre as cadeias globais de abastecimento.

O novo coronavírus, covid-19, já se propagou a mais de 100 países — provocando perturbações sociais, prejuízos económicos, enfermidades e mortes — em grande medida devido ao facto de as autoridades na China, país onde surgiu, terem inicialmente ocultado informação sobre o mesmo. E, ainda assim, a China está agora a agir como se a sua decisão de não limitar as exportações de ingredientes farmacêuticos activos (API, na sigla em inglês) e material médico — dos quais é a maior fornecedora mundial — fosse um acto generoso e assente em princípios, merecedor da gratidão do mundo.

Quando tivemos as primeiras evidências clínicas de que tinha surgido em Wuhan um novo vírus mortal, as autoridades chinesas não advertiram, durante semanas, a população, tendo hostilizado, repreendido e detido aqueles que o fizeram. Esta abordagem não constitui qualquer surpresa: a China tem uma longa história de "matar o mensageiro". Os seus líderes ocultaram a SARS (síndrome respiratória aguda grave), que foi outro coronavírus, durante mais de um mês depois de este surgir em 2002, e mantiveram sob custódia militar, durante 45 dias, o médico que denunciou a situação. A SARS acabou por afectar mais de 8.000 pessoas em 26 países.

Desta vez, a propensão do Partido Comunista Chinês (PCC) para o secretismo foi reforçada pela avidez do presidente Xi Jinping de ser visto como um homem forte que tem tudo sob controlo, apoiado por um PCC fortificado. No entanto, tal como sucedeu com a epidemia da SARS, os líderes chineses não conseguiriam esconder as coisas durante muito mais tempo. Assim que os casos de covid-19 associados a Wuhan começaram a ser detectados na Tailândia e na Coreia do Sul, eles não tiveram outra alternativa se não reconhecer a epidemia.

Cerca de duas semanas depois de Xi ter rejeitado a recomendação de cientistas para declarar estado de emergência no país, o governo anunciou fortes medidas de contenção, incluindo colocar milhões de pessoas em isolamento. Mas já era demasiado tarde: muitos milhares de chineses já estavam infectados com covid-19 e o vírus rapidamente se disseminou a nível internacional. O conselheiro norte-americano de segurança nacional, Robert O’Brien, disse que a ocultação inicial por parte da China "terá provavelmente custado à comunidade mundial dois meses para reagir", o que exacerbou o surto global.

Além da escalada global da emergência de saúde pública, que já ceifou a vida a milhares de pessoas, a pandemia perturbou o comércio e as viagens, obrigou muitas escolas a encerrarem, agitou o sistema financeiro internacional e afundou as bolsas a nível mundial. Com os preços do petróleo a mergulhar, parece iminente uma recessão global.

Nada disto teria acontecido se a China tivesse reagido rapidamente às evidências do novo vírus mortal, advertindo a população e implementando medidas de contenção. Com efeito, Taiwan e o Vietname mostraram a diferença que uma resposta proactiva pode fazer.

Taiwan, retirando lições da sua experiência com a SARS, instituiu medidas preventivas, incluindo inspecções aos voos, antes de os líderes chineses terem sequer admitido o surto. Da mesma forma, o Vietname suspendeu rapidamente os voos provenientes da China e encerrou todos os estabelecimentos de ensino. Ambas as respostas reconheceram a necessidade de transparência, incluindo actualizações sobre o número e localização das infecções e também conselhos à população sobre como se proteger da covid-19.

Graças às políticas dos seus governos, tanto Taiwan como o Vietname — que recebem normalmente muitos viajantes diários provenientes da China — conseguiram manter o número de casos abaixo de 50. Os países vizinhos que foram mais lentos a implementar medidas similares, como o Japão e a Coreia do Norte, foram afectados mais duramente.

Se qualquer outro país tivesse desencadeado uma crise desta dimensão, tão mortal e sobretudo evitável, seria agora um pária mundial. Mas a China, com a sua enorme influência económica, tem escapado, em grande medida, à censura. Contudo, o regime de Xi terá de se esforçar bastante para recuperar o seu posicionamento a nível nacional e internacional.

Talvez seja por isso que os líderes chineses estão a congratular-se publicamente por não limitarem as exportações de material médico e APIs usados para produzir medicamentos, vitaminas e vacinas. Se a China decidisse banir essas exportações para os Estados Unidos, tal como sublinhou recentemente a agência noticiosa Xinhua, os EUA estariam "mergulhados num gigantesco mar de coronavírus". A China, insinua o artigo, teria justificações para tomar essa decisão. Se o fizesse, estaria muito simplesmente a retaliar contra as medidas "cruéis" dos Estados Unidos tomadas depois do surgimento da covid-19, tais como restringir a entrada no país de chineses e estrangeiros que tivessem visitado a China. É ou não verdade que o mundo tem muita sorte por a China não ser assim tão mesquinha?

Talvez. Mas não há qualquer razão para acreditar que a China não será mesquinha no futuro. Afinal de contas, os líderes chineses têm um historial de suspender outras exportações estratégicas (tais como minerais de terras-raras) para castigarem países que os desafiaram.

Além disso, esta não foi a primeira vez que a China pensou em transformar numa arma a sua dominância no fornecimento global de material médico e APIs. No ano passado, Li Daokui, um proeminente economista chinês, sugeriu que se reduzisse as exportações de ingredientes farmacêuticos activos para os Estados Unidos como contramedida na guerra comercial. "Assim que estas exportações sejam reduzidas, o sistema médico de alguns países desenvolvidos deixará de funcionar", sublinhou Li.

E não era um exagero. Um estudo realizado pelo Departamento norte-americano do Comércio concluiu que 97% de todos os antibióticos vendidos nos EUA provêm da China. "Se vocês forem chineses e quiserem de facto destruir-nos, basta que deixem de nos enviar antibióticos", salientou no ano passado Gary Cohn, que foi o principal conselheiro económico do presidente norte-americano, Donald Trump.

Se o fantasma de a China explorar a sua força farmacêutica para fins estratégicos não for suficiente para levar o mundo a repensar as suas dispendiosas decisões de "outsourcing", então a perturbação não intencional das cadeias de abastecimento globais devido à covid-19 deveria ser. Com efeito, a China registou um declínio involuntário na produção e exportação de APIs desde o surto – e esse facto restringiu o fornecimento mundial e fez disparar os preços de medicamentos vitais.

Isso já forçou a Índia, maior fornecedor mundial de medicamentos genéricos, a restringir as suas próprias exportações de alguns medicamentos mais habitualmente consumidos. Perto de 70% dos APIs para medicamentos fabricados na Índia provêm da China. Se as instalações farmacêuticas da China não regressarem em breve à plena capacidade, o mais provável é que assistamos a uma severa escassez de medicamentos a nível global.

A pandemia covid-19 trouxe a lume os custos do crescente autoritarismo de Xi. Deveria ser uma chamada de atenção para os líderes políticos e empresariais que aceitaram durante demasiado tempo a ampliação da sombra da China sobre as cadeias globais de abastecimento. O mundo só conseguirá manter-se a salvo das patologias políticas da China se afrouxar o poder daquele país sobre as redes globais de fornecimento – a começar pelo sector farmacêutico.


Brahma Chellaney, professor de Estudos Estratégicos no Centro de Investigação Política em Nova Deli e membro da Academia Robert Bosch em Berlim, é autor de nove livros, incluindo Asian Juggernaut, Water: Asia’s New Battleground, e Water, Peace, and War: Confronting the Global Water Crisis.


Direitos de autor: Project Syndicate, 2020.
www.project-syndicate.org

Tradução: Carla Pedro


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A equipa política que delineou a estratégia eleitoral do Partido Republicano nas eleições presidenciais de 2017, e conseguiu fazer eleger Donald Trump, foi o primeiro grupo de políticos ocidentais a aperceber-se do perigo que a China representava para as economias ocidentais e, em especial, para a economia dos Estados Unidos da América.

Os quadros interactivos seguintes discriminam as exportações e as importações da China relativamente aos EUA:


O que a China exporta para os Estados Unidos? (2017)




O que a China importa dos Estados Unidos? (2017)




A primeira conclusão é a existência de um enorme desequilíbrio entre as exportações e as importações que beneficiou a China, em 2017, com um superavit no valor de 344 mil milhões de dólares:

Saldo da balança comercial = Exportações - Importações = 477-133 = 344 mil milhões de dólares

Os valores mais preocupantes para os EUA encontram-se, porém, no domínio da saúde. A China vende, por exemplo, $824 milhões de vitaminas (isolar ícone Chemical Products) aos EUA, mas compra-lhes uma insignificância de $59 milhões. Em relação a antibióticos (ver quadros abaixo), as exportações chinesas sobem até 209 milhões, enquanto as importações não ultrapassam 92 milhões, ou seja, menos de metade.

No entanto, relativamente aos antibióticos a situação torna-se deveras grave nas exportações globais, com as exportações chinesas a atingirem $3,4 mil milhões ao passo que as importações não vão além de $521 milhões. O mundo refém da China:


Para onde a China exporta antibióticos? (2017)



De onde a China importa antibióticos? (2017)




Foi preciso a União Europeia tornar-se no epicentro da epidemia provocada pelo SARS-CoV-2, um vírus que parece ter surgido num mercado de peixe e animais selvagens chinês, para os europeus começarem a olhar para a invasão chinesa com menos benevolência.

Só não temos a certeza sobre qual o regime que a China pretende impor ao mundo: uma ditadura socialista de estilo soviético ou o tipo de capitalismo selvagem que existe na China, com a população menos culta transformada em novos escravos que nem sequer têm direito a usufruir de um sistema nacional de saúde, excepto no caso de epidemias que ponham em perigo a produção de bens e serviços.

Este artigo despoletou toda a espécie de comentários, desde fanáticos que anseiam pelo domínio do Partido Comunista Chinês até a leitores já conscientes da ameaça chinesa:

fcj
Mais um malandro a incendiar o regime que, muito brevemente, vai conduzir o rumo de toda a actividade humana!

helmarques
Este homem não bate bem, dizer isto da mãe China? E ainda mais este jornal publicar leva-me a pensar que anda tudo maluco. Que coragem deste senhor escrever isto, eu aqui na Europa rodeado de sábios e nunca me tinha passado pela cabeça porque nunca li nada sobre isto, "ingredientes farmacêuticos activos (API, na sigla em inglês) e material médico" que a China dominava o mercado mundial e poderão levar os EUA a desgraça, claro que depois terão que sofrer consequências, mas isso será outro assunto. O dragão já despertou e pelos vistos é insaciável, o mundo dominado pelo PPChinês e pelos seus soldados chineses, é o que afirmam dissidentes chineses. Quase passo a crer que o vírus foi feito por humanos.

Ser ingénuo é muito perigoso
Que ninguém tenha dúvidas de que a China está por detrás da actual pandemia, dum modo programado e metódico, com o fim último e principal de destruir a Civilização Ocidental.
Xi Jinping já marcou a meta de 2049 (centenário da criação do PCChinês) para dominar e impor o seu regime a todo o mundo.

Anónimo
O Trump pode ter muitos defeitos mas o Xi é cem vezes pior, é mesmo uma ameaça para o planeta. Durante a epidemia na China o Xi disse que todos os países que fechassem as linhas aéreas à China eram inimigos dos chineses. A UE deixou as portas grandes abertas e o resultado está à vista.

Anónimo
O melhor que os europeus podem fazer é evitar comprar produtos produzidos na China. Não irem às lojas chinesas, comprarem produtos, mesmo mais caros, mas nacionais ou produzidos na Europa. Talvez assim a ditadura chinesa mude de discurso.

Anónimo
Notícia da Antena 1 de hoje, 25/03, "testes rápidos para o coronavírus que a Espanha comprou à China não funcionam".
Será que alguém tem ainda alguma dúvida de que tudo quanto vem daquele sinistro país não presta?
A própria disseminação do vírus da China tem talvez uma história negra por detrás.


terça-feira, 10 de março de 2020

O que é a COVID-19 (Coronavirus Disease 2019)?


O que já se sabe sobre a doença causada pelo novo coronavírus que surgiu na China e se está a disseminar por todo o mundo?


Plataforma informática dos casos de COVID-19 do Center for Systems Science and Engineering (CSSE) da Johns Hopkins University aqui.


Vamos apoiarmo-nos na informação do Centers for Disease Control and Prevention (CDC), o principal instituto nacional de saúde pública dos Estados Unidos.
O CDC é uma agência federal dos Estados Unidos, sob tutela do Departamento de Saúde, focada no controle e prevenção de doenças, especialmente doenças infecciosas. A partir de 2013, os laboratórios de biossegurança de nível 4 do CDC contam-se entre os poucos que existem no mundo, sendo um dos dois únicos repositórios oficiais (o outro situa-se na Rússia) de varíola, uma doença erradicada em 1980 graças a uma campanha mundial de vacinação.



Esta é uma imagem do Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2 (SARS-CoV-2) que causa uma doença chamada Coronavirus Disease 2019 (COVID-19).


Origem e disseminação do vírus

Os coronavírus são uma grande família de vírus comuns em pessoas e em muitas espécies diferentes de animais, incluindo camelos, gado, felinos e morcegos. Os coronavírus dos animais podem, raramente, infectar pessoas e depois disseminar-se entre pessoas como aconteceu com o SARS-CoV na China, em 2003, o MERS-CoV na Arábia Saudita, em 2012, e agora com este novo vírus chamado SARS-CoV-2.

Tal como o SARS-CoV e o MERS-CoV, o vírus SARS-CoV-2 também é um betacoronavírus, um tipo de vírus proveniente de morcegos. As sequências de ARN de pacientes dos EUA são semelhantes às publicadas inicialmente pela China, sugerindo uma provável emersão recente e única deste vírus a partir de um reservatório animal.

O surto iniciou-se em Wuhan, província de Hubei, na China, com o epicentro num grande mercado de marisco e animais vivos, sugerindo a disseminação de animal para pessoa. Em seguida, o número crescente de pacientes sem exposição a mercados de animais pôs em evidência a disseminação de pessoa para pessoa. Esta disseminação de pessoa para pessoa transbordou para fora de Hubei e, posteriormente, para fora da China.
Actualmente, em alguns destinos internacionais, parece ocorrer uma disseminação comunitária, ou seja, não se sabe como, ou onde, algumas pessoas infectadas tiveram contacto com o novo coronavírus.

Gravidade da doença

O quadro clínico completo da COVID-19 não é totalmente conhecido. As doenças relatadas variaram de muito leves (incluindo algumas sem sintomas relatados) a graves, incluindo casos fatais.
Um relatório elaborado na China sugere que as doenças graves ocorrem em 16% dos casos. Pessoas idosas e pessoas de todas as idades com graves problemas de saúde subjacentes — como seja doenças cardíacas, pulmonares e diabetes, por exemplo — parecem estar em maior risco de desenvolver uma COVID-19 grave.

Avaliação de risco

Surtos de novas infecções por vírus entre as pessoas são sempre uma preocupação de saúde pública. O risco destes surtos, para a generalidade das pessoas, depende das seguintes características do vírus:
  • a velocidade de disseminação entre as pessoas;
  • a gravidade da doença resultante e
  • as iniciativas clínicas, ou outras, disponíveis para controlar o impacto do vírus (por exemplo, vacinas ou medicamentos para tratar a doença).
O facto desta doença ter causado enfermidades graves, incluindo enfermidades que resultam em morte, é preocupante, especialmente porque também mostrou uma disseminação sustentada de pessoa para pessoa. São dois dos critérios de uma pandemia. À medida que a disseminação comunitária é detectada em cada vez mais países, aproximamo-nos do cumprimento do terceiro critério de pandemia — disseminação mundial do novo vírus.

Avaliação de risco em 9 de Março de 2020:

  • Para a maioria das pessoas, o risco imediato de ser exposto ao vírus que causa a COVID-19 é baixo. Não há ampla circulação do vírus na maioria das comunidades nos Estados Unidos.
    [Na maioria das comunidades, em Portugal, também não]
  • As pessoas em locais onde foi relatada disseminação comunitária contínua do vírus causador da COVID-19 têm um risco elevado de exposição.
    [Em Portugal, isto sucede nos distritos de Viana do Castelo, Braga, Porto, Vila Real e Bragança e no concelho de Lisboa]
  • Os profissionais de saúde que cuidam de pacientes com a COVID-19 têm um risco elevado de exposição.
  • Contactos próximos com pessoas infectadas com o SARS-CoV-2 também têm um risco elevado de exposição.
  • Os viajantes que regressam de locais internacionais onde a disseminação comunitária está a ocorrer também têm um risco elevado de exposição, com o aumento do risco dependente do país/região.

Orientações de viagem

Os destinos internacionais dividem-se por três níveis de risco:
Aviso - Nível 3, Evite viagens não essenciais
Ampla transmissão comunitária
  • China
  • Irão
  • Itália
  • Coreia do Sul
Alerta - Nível 2, Precauções aprimoradas
Transmissão comunitária sustentada — precauções especiais para viajantes de alto risco
  • Japão
Atenção - Nível 1, Precauções habituais
  • Hong Kong

Viajantes provenientes de países com ampla transmissão comunitária que regressam aos Estados Unidos [Apelamos aos viajantes que regressam a Portugal para que implementem uma quarentena similar]
Fique em casa durante 14 dias a partir do momento em que deixou uma área com ampla disseminação comunitária contínua (Aviso - Nível 3) e pratique o distanciamento social.

Siga estas etapas para monitorizar a saúde e praticar o distanciamento social:
  1. Meça a temperatura com um termómetro duas vezes por dia e monitorize a febre. Observe também tosse ou dificuldade em respirar.
  2. Fique em casa e evite o contacto com outras pessoas. Não vá trabalhar ou à escola durante esse período de 14 dias [período de incubação médio]. Discuta a situação profissional com o seu empregador antes de retornar ao trabalho.
  3. Não use transporte público, táxi ou carro compartilhado durante o tempo em que pratica o distanciamento social.
  4. Evite lugares superlotados (tais como centros comerciais e cinemas) e limite as actividades em público.
  5. Mantenha distância de outras pessoas (cerca de 2 metros).

Destaques da resposta do CDC

Uma parte importante da função do CDC durante uma emergência de saúde pública é desenvolver um teste para o patógeno e equipar os laboratórios de saúde pública estaduais e locais com capacidade de teste.
  • O CDC desenvolveu um teste rRT-PCR para diagnosticar a COVID-19. O teste consiste numa Reacção em Cadeia da Polimerase com transcrição reversa (RT-PCR), em tempo real, que permite detectar pequenas quantidades do ARN viral.
    • Trata-se de uma técnica de laboratório em que ARN é convertido em ADN pela enzima Transcriptase Reversa (RT), e depois o ADN é amplificado por Reacção em Cadeia (desencadeada pela enzima) Polimerase (PCR). A reacção de amplificação é monitorizada por fluorescência durante a PCR (isto é, em tempo real), não no final como na PCR convencional. Daí chamar-se rRT-PCR.
    • Na noite de 8 de Março, 78 laboratórios de saúde pública estaduais e locais nos 50 Estados e no Distrito de Columbia foram verificados com sucesso e estão a usar os testes de diagnóstico da COVID-19.
    • Combinado com outros reagentes que o CDC adquiriu, existem kits de teste suficientes para testar mais de 75.000 pessoas.
    • Além disso, dois laboratórios do CDC estão a realizar testes para o SARS-CoV-2, podendo testar aproximadamente 350 amostras por dia.
  • O CDC também está a desenvolver um teste serológico para a COVID-19. Estes testes medem a concentração de anticorpos no sangue que são proteínas específicas produzidas em resposta às infecções. Esta resposta imunológica vai permitir detectar infectados que tiveram poucos sintomas ou foram assintomáticos.


Esta é uma foto do kit de teste laboratorial do CDC para o SARS-CoV-2. Os testes do CDC são fornecidos aos laboratórios estaduais e locais de saúde pública dos EUA, ao Departamento de Defesa e a laboratórios internacionais seleccionados.

O leitor interessado poderá encontrar informação actualizada no website da agência federal CDC.

Agora vamos ver um vídeo produzido pela empresa privada que Ryan Haynes e Shiv Gaglani começaram a construir quando eram estudantes de Medicina na Johns Hopkins University.
Fora da sala de aula, eles descobriram que as visualizações eram uma maneira mais eficaz de aprender Medicina. O que começou por ser uma ferramenta para ajudar Shiv, Ryan e os colegas transformou-se na actual Osmosis, uma plataforma abrangente que ajuda pessoas de todo o mundo a entenderem a saúde mais profundamente.

Centenas de milhares de médicos e estudantes de Medicina aprendem por vídeos de animação produzidos por esta empresa. Este narra a história da COVID-19 — causas, sintomas, diagnóstico, tratamento, patologia (seleccione as legendas em português):



  • Em 6:36 mostra-se que a perigosidade do SARS-CoV-2 é uma consequência da sua velocidade de disseminação R₀.
  • 7:40 O teste de diagnóstico consiste numa Reacção em Cadeia da Polimerase com transcrição reversa (RT-PCR), em tempo real, que permite detectar pequenas quantidades do ARN viral.
  • 7:55 O tratamento está focado em cuidados de suporte — fornecimento de líquidos, oxigénio e suporte ventilatório.
    Mas há três medicamentos eficazes em laboratório: cloroquina, um anti-malárico, ritonavir, um anti-viral usado contra o HIV, e remdesivir, um antiviral previamente usado contra o ébola.
    Este último foi administrado ao primeiro doente com COVID-19 nos Estados Unidos no 11º dia da doença, porque o seu estado clínico estava a piorar, e o doente começou a melhorar no dia seguinte. Estão a ser efectuados ensaios clínicos em larga escala na China.
  • 8:37 Como não é possível produzir uma vacina nos próximos meses, a prevenção consiste em evitar a transmissão entre pessoas ou isolar os doentes.
  • 10:37 Breve resumo
  • 11:37 Dedicatória ao Dr. Li Wenliang

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Para os negacionistas fica aqui uma imagem arrepiante dos cuidados intensivos do hospital de Cremona, na Itália, o segundo país com mais mortes por COVID-19, onde os médicos trabalham entre 12 e 14 horas por dia e dizem estar a viver num cenário de guerra:



As imagens foram captadas com câmara oculta pelo programa televisivo Piazzapulita.


quinta-feira, 5 de março de 2020

Recomendações para a COVID-19


O Estado da Califórnia, com 39,5 milhões de habitantes, tem 38 casos confirmados de Coronavirus Disease 2019 (COVID-19) e declarou ontem o estado de emergência.
Portugal, com cerca de 1/4 deste número de habitantes e um sistema nacional de saúde caótico, tem já 9 casos confirmados de pneumonia pelo novo coronavírus que parece ser de rápida propagação (tal como o vírus do sarampo), mas só a directora-geral da Saúde, Maria da Graça Freitas, está preocupada: "Estamos a ver a ponta do icebergue".





Horas antes do governador do Estado da Califórnia declarar uma emergência para todo o Estado, a cidade de Los Angeles declarou uma emergência de saúde devida ao coronavírus, alertando para a possibilidade de transmissão comunitária da doença que já causou 3.347 mortes em todo o mundo (supondo que o partido comunista chinês tem divulgado o número de mortes verídico nas diferentes províncias chinesas).

A medida ocorre depois de Los Angeles County ter confirmado seis novos casos do coronavírus e 7 no total, de acordo com a directora do Departamento de Saúde Pública desse município, Dra. Barbara Ferrer.

"Assinei uma declaração de emergência local para a cidade de Los Angeles", anunciou o prefeito Eric Garcetti, via Facebook. "Embora haja apenas alguns casos activos conhecidos de COVID-19 na região, a declaração ajuda-nos a aceder ao financiamento estadual e federal para fortalecer e apoiar os esforços para preparar a região e manter as nossas comunidades seguras".

A presidente do conselho de supervisores do município, Kathryn Barger, esclareceu que era uma reacção planeada ao vírus: "Esta não é uma resposta enraizada no pânico", disse Barger, tendo acrescentado que a declaração de emergência ajudaria as agências a coordenar a resposta e a conter o vírus num município onde vivem mais de 10 milhões de pessoas, tanto como a população portuguesa.

Por que motivo as autoridades sanitárias e administrativas do Estado da Califórnia estão tão preocupadas com a propagação da COVID-19?
É que num Estado mais a norte, o Estado de Washington, com apenas 7,5 milhões de habitantes, existem 39 casos confirmados de pneumonia pelo coronavírus, dos quais 31 em King County, o município onde está situada Seattle, a maior cidade de Washington.

Nós, portugueses, estamos a importar a doença de Itália, o país do mundo com maior número de mortes pela COVID-19 depois da China, mas os nossas políticos não estão preocupados, apenas a DGS divulga alguma informação. Chegou o momento de começarmos a procurar informação nos Estados que têm políticos competentes e não corruptos para adoptarmos as melhores práticas.

Estas são as recomendações das autoridades sanitárias de Seattle&King County:

  1. Orientação para pessoas com maior risco de doença COVID-19 grave

    A Saúde Pública [Seattle, Washington, EUA] recomenda que as pessoas com maior risco de doença grave fiquem em casa e longe de grandes grupos de pessoas, tanto quanto possível, incluindo locais públicos com muitas pessoas e grandes reuniões onde haverá contacto próximo com outras pessoas. Isto inclui salas de concerto, convenções, eventos desportivos e reuniões sociais superlotadas.

    Pessoas em maior risco incluem pessoas:
    • Acima de 60 anos de idade
    • Com problemas de saúde subjacentes, incluindo doenças cardíacas, pulmonares ou diabetes
    • Com o sistema imunitário enfraquecido
    • Grávidas

    Cuidadores de crianças com problemas de saúde subjacentes devem consultar os profissionais de saúde para saber se os filhos devem ficar em casa. Qualquer pessoa que tenha dúvidas se a sua condição de saúde a coloca em risco pelo novo coronavírus, deve consultar os seus médicos.

  2. Orientação para locais de trabalho e empresas

    Os empresários devem tomar medidas para tornar mais viável que os funcionários trabalhem de maneira a minimizar o contacto próximo com um grande número de pessoas.

    Os empresários devem:
    • Maximizar as opções de teletrabalho para o maior número possível de funcionários.
    • Instar os funcionários a ficar em casa quando estão doentes e maximizar a flexibilidade nos benefícios de baixa médica.
    • Considerar tempos de início e término instáveis para reduzir o número de pessoas que se reúnem ao mesmo tempo.

  3. Considerações sobre eventos e reuniões da comunidade

    Se puder evitar reunir grandes grupos de pessoas, adie eventos e reuniões.

    Se não puder evitar reunir grupos de pessoas:
    • Incentive qualquer pessoa que esteja doente a não comparecer.
    • Incentive aqueles que têm maior risco para o coronavírus a não comparecer.
    • Tente encontrar modos de dar às pessoas mais espaço físico para que elas não estejam em contacto próximo, o tanto quanto possível.
    • Incentive os participantes a manter bons hábitos saudáveis, como lavar as mãos com frequência.
    • Limpe as superfícies com produtos de limpeza.

  4. Orientação para escolas

    A Saúde Pública não está a recomendar o encerramento de escolas no momento, a menos que haja um caso confirmado na escola. A razão pela qual não estamos a recomendar o encerramento de escola é que as crianças não demonstraram ser um grupo de alto risco para doenças graves causadas por este vírus. Além disso, quando algumas escolas fecharam brevemente durante a pandemia de gripe H1N1, descobrimos que muitas crianças ainda se reuniam em grupos e ainda tinham exposição umas às outras. Tanto quanto possível, as crianças devem poder continuar com a educação e actividades normais.

    Saúde pública — a Seattle&King County também respeita as decisões de cada escola individual sobre o encerramento ou adiamento de actividades, pois cada escola conhece melhor as necessidades da comunidade.

    Algumas crianças têm problemas de saúde subjacentes, como sejam sistemas imunitários debilitados, que as colocam em maior risco. Cuidadores de crianças com problemas de saúde subjacentes devem consultar os profissionais de saúde para saber se os filhos devem ficar em casa.

  5. Para pessoas doentes

    Fique em casa quando estiver doente. Não saia em público quando estiver doente.

    Evite cenários médicos em geral, a menos que seja necessário. Se estiver doente, ligue para o consultório médico antes de entrar.

  6. Para o público em geral

    • Mesmo se não estiver doente, evite visitar hospitais, instituições de cuidados continuados ou asilos, na medida do possível. Se precisar visitar uma dessas instalações, limite o tempo e mantenha-se a 1,8 metros de distância dos pacientes.

    • Não vá à urgência, a menos que seja essencial. As salas de urgência precisam de ser capazes de atender as pessoas com necessidades mais críticas. Se tiver sintomas como tosse, febre ou outros problemas respiratórios, entre em contacto primeiro com o seu médico.

    • Fique em casa quando estiver doente.

    • Pratique excelentes hábitos de higiene pessoal, incluindo lavar as mãos com água e sabão com frequência, tossir num lenço de papel ou cotovelo e evite tocar nos olhos, nariz ou boca.

    • Fique longe de pessoas doentes, especialmente se estiver em maior risco para o coronavírus.

    • Limpe superfícies e objectos tocados com frequência (como maçanetas e interruptores de luz). Produtos de limpeza doméstica habituais são eficazes.

    • Evite tocar nos olhos, nariz e boca, a não ser depois de lavar as mãos.

    • Descanse bastante, beba bastantes líquidos, coma alimentos saudáveis ​​e domine o stress para manter a imunidade forte.

    • Mantenha-se informado. As informações estão a mudar com frequência.


sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Crisântemos para Li Wenliang


Tinha 33 anos, era casado, com um filho de 5 anos, e estava à espera de outro. Trabalhava como médico oftalmologista no Hospital Central de Wuhan, na província de Hubei, China.

Em 30 de Dezembro de 2019, viu um relatório de um paciente com resultado positivo de alto nível de confiança para os testes de coronavírus SARS, um tipo de vírus agressivo.
À tarde, alertou o grupo privado do WeChat dos colegas da sua escola médica de que "havia 7 casos confirmados de SARS no mercado de Huanan", tendo compartilhado o relatório e o resultado da tomografia computadorizada do paciente. Passada uma hora, acrescentou: "Foi confirmado que são infecções por coronavírus, mas o vírus exacto está a ser subtipado".
Pediu aos colegas para prevenirem familiares e amigos. O alerta acabou por envolver um grupo de oito médicos e ganhou dimensão nas redes sociais. A sua identidade foi divulgada.

Imediatamente Li Wenliang foi admoestado pelo supervisor do hospital. Em 3 de Janeiro de 2020, as autoridades policiais de Wuhan interrogaram e censuraram o médico por "fazer comentários falsos na Internet", obrigaram-no a assinar uma carta de advertência prometendo não voltar a fazê-lo e avisaram-no que, se não cumprisse, seria processado. Na China, a divulgação de boatos é punida com pena de prisão de três anos.


李文亮的训诫书.png
Carta emitida por 武汉市公安局武昌分局中南路街派出所
Foto por 李文亮醫生 - 新冠肺炎“吹哨人”李文亮:真相最重要
(in zh-hans) 财新网. 财新传媒 (2020-02-07).
Recuperada em 2020-02-07. "李文亮的训诫书。第二个落款时间2019年应为2020年,李文亮称此系笔误。受访者提供", Domínio público, ver aqui.
A carta de advertência emitida pelo Departamento de Polícia de Wuhan ordenando-lhe que parasse de "espalhar boatos" sobre o SARS, assinada pelo médico e dois polícias. Em 31 de Janeiro, Li fez o upload para sua conta Sina Weibo que, na China, corresponde ao Twitter. A Wikipedia mostra a tradução em inglês que nos esclarece sobre a mentalidade da polícia chinesa.



Em 8 de Janeiro, teve de examinar um paciente que sofria de glaucoma agudo e desenvolveu febre no dia seguinte. Era um lojista do mercado de peixe e animais selvagens de Huanan que tinha uma alta carga de vírus. O médico começou com febre e tosse em 10 de Janeiro. No dia 12 foi internado nos cuidados intensivos, onde iniciou a quarentena, sendo realizados sucessivos testes para o coronavírus até que resultou positivo em 30 de Janeiro.

Em 31 de Janeiro, o médico publicou uma mensagem sobre a sua experiência com as autoridades que se tornou viral. Além de fazer o upload da carta de advertência, escreveu no Weibo: "Estava febril em 11 de Janeiro e fui hospitalizado no dia seguinte. Nessa altura, o governo ainda insistia que não havia transmissão humano para humano e disse que ninguém da equipe médica tinha sido infectado. Fiquei confuso.”
A China só tinha reconhecido a gravidade do surto epidémico em 20 de Janeiro e subsequentemente implementado o encerramento de Wuhan que tem 11 milhões de habitantes e é a capital da província de Hubei.
As pessoas começaram a questionar por que motivo todos os médicos que deram o primeiro alerta foram silenciados pelas autoridades.

No final da tarde de 6 de Fevereiro o médico teve uma paragem cardíaca. Vários jornais estatais chineses (Diário Popular, Global Times e Notícias de Pequim) noticiaram que os batimentos cardíacos de Li Wenliang tinham parado às 21:30.

"Lamentamos muito a perda de qualquer trabalhador da linha de frente comprometido em cuidar de doentes [...] devemos celebrar a sua vida e lamentar a morte com os seus colegas", disse (video 11:16-12:10) Michael Ryan, director do programa de emergências em saúde da Organização Mundial da Saúde (WHO), ainda no dia 6.


Nas duas horas posteriores ao anúncio da morte de Li Wenliang pelos jornais oficiais chineses, muitos posts relativos ao acontecimento foram eliminados na Internet.

Pelas 00:38 de 7 de Fevereiro, o Hospital Central Wuhan divulgou uma declaração na conta oficial no Weibo contradizendo os relatos da sua morte: "No processo de combate ao coronavírus, o oftalmologista do nosso hospital, Li Wenliang, infelizmente foi infectado. Actualmente está em estado crítico e estamos a fazer o possível para resgatá-lo."

A WHO reformulou o tweet:



Após o hospital divulgar que o médico estava a ser tratado com oxigenação por membrana extracorpórea (ECMO), as mensagens dos chineses revelavam esperança. "Esta noite não dormimos, mas Li tem de acordar", era a frase que dominava no Weibo, relata uma jornalista do South Morning Post, de Hong Kong:



No entanto, pelas 03:48, o hospital confirmava o falecimento: "O oftalmologista Li Wenliang do hospital, infelizmente infectado na luta contra a epidemia de pneumonia da nova infecção por coronavírus, faleceu depois de todos os nossos esforços pelas 2:58 de 7 de fevereiro de 2020. Lamentamos profundamente a sua morte.”.

Foi cremado antes que os pais o pudessem ver uma última vez.




A morte do médico desencadeou uma onda de sofrimento e revolta nas redes sociais, que rapidamente se converteu na exigência de liberdade de expressão, prontamente bloqueada pela censura.

Como as autoridades policiais acusaram o médico de ser um "whistleblower" o que, literalmente, significa "soprador de apito", então os cidadãos de Wuhan começaram espontaneamente a organizar actividades como "Eu apitei para Wuhan hoje à noite", em que todos mantiveram as luzes apagadas nas suas casas por cinco minutos e depois tocaram apitos e lançaram purpurinas pelas janelas por mais cinco minutos.




Mas a mais bela homenagem realizada pelos seus concidadãos foi a deposição de crisântemos e outras flores à porta do Hospital Central de Wuhan, onde Li Wenliang trabalhou e morreu:



O memorial à porta do Hospital Central de Wuhan, uma cidade onde a incompetência, a opacidade e o secretismo das autoridades deixaram alastrar o surto epidémico que obriga os 11 milhões de habitantes a andarem pelas ruas com máscara cirúrgica:



O surto epidémico do novo coronavírus já causou mais casos confirmados e mortes que o surto de Síndrome Respiratória Aguda Severa (SARS) ocorrido no Sul da China, entre Novembro de 2002 e Julho de 2003, que causou 8098 casos confirmados e 774 mortes em 17 países. Parece estar a transformar-se numa pandemia.


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"Aqueles que tornam impossível a revolução pacífica,
tornarão inevitável a revolução violenta
.
"

John F. Kennedy, Address on the First Anniversary of the Alliance for Progress,
proferido na Casa Branca, Washington D.C., 13 Março 1962.



JJG
Do you hear the people sing?
R.I.P Doctor Li Wenliang
  • 张佳乐
    永远记得李文亮医生 永远!

    (Zhang Jiale
    Lembre-se o Dr. Li Wenliang para sempre!)

  • 凌滄海
    相信這次疫情結束後
    中共政權會出問題
    讓更多中國人認識自己的國家(真夠諷刺)
    願李文亮醫生的血不要白

    (Ling Canghai
    Eu acredito que depois da epidemia acabar
    Problemas com o regime PCC
    Deixe mais chineses conhecerem o país deles (é irónico)
    Que o sangue do Dr. Li Wenliang não corra em vão)

Kon
When there was a million people on the streets of Hong Kong.
  • verri123
    I don't get it, what's happening in hong kong?

  • Casey Chiu
    verri123 long story short: Basically, under the One Country Two Systems, China is not allowed to f*ck with Hong Kong and must let HK be of high autonomy and democracy. But the government would like to pass an extradition bill, which means people in HK might be extradited to mainland China (which everyone knows, has less transparency and democracy). HK people thinks this violates the One Country Two Systems rule and thus 1.03 millions of citizens took the streets on 9/6. Yet, the government only suspends the bill, but not to revoke it permanently. Citizens especially students are of course furious and thus we protested. The police forces used weapons like tear gas, pepper sprays and bullets against the unarmed protestors (even if they are armed, they only have umbrellas...). This angers the people even more and so we took the streets again on 16/6. This of course is a very brief timeline of what happened. If you wanna know more, you can search related news on the Internet.

    (Casey Chiu
    verri123 resumo da longa história: Basicamente, sob Um País, Dois Sistemas, a China não tem permissão para brincar com Hong Kong e deve deixar HK com autonomia e democracia elevadas. Mas o governo gostaria de aprovar uma lei de extradição, o que significa que as pessoas em Hong Kong podem ser extraditadas para a China continental (que todos sabem, tem menos transparência e democracia). O povo de Hong Kong acha que isso viola a regra Um País, Dois Sistemas e, portanto, 1,03 milhões de cidadãos saíram às ruas em 9/6. No entanto, o governo apenas suspende a lei, mas não a revoga permanentemente. Os cidadãos, especialmente os estudantes, ficam furiosos e, portanto, protestámos. As forças policiais usavam armas como gás lacrimogéneo, spray de pimenta e balas contra os manifestantes desarmados (mesmo que estejam armados, só têm guarda-chuvas...). Isso irrita ainda mais o povo e, por isso, voltámos às ruas em 16/6. É claro que este é um cronograma muito breve do que aconteceu. Se quiser saber mais, pode pesquisar notícias relacionadas na Internet.)


terça-feira, 28 de julho de 2015

Falta de segurança provoca morte em escada rolante na China


O circuito fechado de televisão de um centro comercial em Jingzhou, na província chinesa de Hubei, mostra como um acidente trágico ocorrido numa das escadas rolantes, em 26 de Julho de 2015, poderia ter sido evitado.




Duas funcionárias inspeccionam as escadas rolantes do centro comercial, após trabalhos de manutenção, e verificam que, no topo da escada ascendente, o painel intermédio do pavimento está solto (10:05:55).
Afastam-se, passado um par de minutos regressam e acabam por ficar junto do painel problemático — ou não foi possível ou não foram autorizadas a desligar o equipamento e ninguém se lembrou de cortar o acesso à escada.

Entretanto, um casal com uma criança pela mão aproxima-se da base da escada e, enquanto o pai aguarda, a mãe vai passear o filho pelas escadas. A meio da subida é avisada do problema no painel e ergue a criança do degrau. Todavia, quando chega ao topo, assenta os dois pés justamente no painel solto e este cai (10:10:11). Mais de 4 minutos tinham passado desde que o perigo fora detectado.
Sentindo-se arrastada pelos degraus rolantes para o interior da escada, Xiang Liujuan empurra o filho que é agarrado por uma das funcionárias (10:10:14). Esta tenta libertar também a jovem, segurando-lhe a mão e puxando-a com força para fora do mecanismo (10:10:16). Em vão, a escada rolante só pára 6 segundos depois.







Na China há graves falhas de segurança porque o regime totalitário não incentiva, bem pelo contrário, o respeito pela vida humana. Esta é mais uma razão porque receio tanto a influência chinesa na Europa e, em particular, em Portugal.


segunda-feira, 23 de junho de 2014

A revolução da educação em Portugal, já


Os alunos de 15 anos de Xangai ultrapassaram os estudantes de todos os 65 países participantes — os 34 países membros da OCDE e 31 países parceiros — em Matemática, Ciência e Leitura, de acordo com o Programa Internacional de Avaliação do Aluno (PISA) em 2009 e 2012, superando-se a si próprios entre as duas avaliações.
É certo que a China não participou como país, apenas os territórios de Xangai, Hong-Kong e Macau. Mesmo assim, qualquer um desses territórios ficou muito à frente de Portugal. Mas não chega, diz o autor do artigo — repleto de informação relevante — que a seguir transcrevemos com a devida vénia.

Tempo dos pais que andam a educar os filhos para príncipes, mas sem a concomitante preparação e sentido de responsabilidade, dos professores que andam a inventar sucesso nas reuniões de avaliação, mas fogem da prova de avaliação de conhecimentos e capacidades, e da sociedade portuguesa que anda a exigir mais bem-estar, mas recusa mudar do sistema da cunha para o princípio do mérito, lerem atentamente este artigo, reflectirem sobre o conteúdo e acordarem para a realidade mundial:


"A revolução da educação na China (english here)

23 Junho 2014, 21:30 por Lee Jong-Wha


Em termos de qualidade e de sustentabilidade do modelo de crescimento, a China tem um longo caminho pela frente.

Nos últimos 35 anos, o forte e sustentado crescimento da produção — média superior a 9,5% em termos anuais — conduziu a uma transformação milagrosa de uma economia rural e planificada para uma superpotência económica mundial. De facto, segundo os cálculos mais recentes do Banco Mundial relativos ao poder de compra dos rendimentos agregados, a China está próxima de ultrapassar os Estados Unidos da América (EUA) como a maior economia mundial. Mas, em termos de qualidade e de sustentabilidade do modelo de crescimento, a China tem um longo caminho pela frente.

Apesar do seu notável crescimento, os 10.057 dólares (ajustados ao poder de compra) de rendimento per capita da China, em 2011, estão na posição 99 em termos mundiais — cerca de um quinto do rendimento per capita dos Estados Unidos, que é de 49.782 dólares. E alcançar o estatuto de país com elevados rendimentos não é um feito fácil. De facto, muitos países tentaram e falharam, deixando-os na chamada armadilha dos rendimentos médios, na qual os níveis de rendimentos per capita estagnaram antes de cruzarem o limiar dos elevados rendimentos.

Um capital humano forte é essencial para permitir à China escapar a este destino. Mas a actual força de trabalho chinesa não tem as capacidades necessárias para apoiar as indústrias de alta tecnologia e de elevado valor. Alterar isto vai exigir uma reforma educativa ampla que aumente e melhore as oportunidades para as crianças, enquanto fortalecem as competências para os adultos.

De facto, durante as últimas quatro décadas, a qualidade da força de trabalho na China melhorou substancialmente, o que é reflectido em ganhos impressionantes no sucesso escolar. As taxas brutas de matrículas ao nível primário ultrapassaram os 100% desde a década de 1990, enquanto as taxas de matrículas ao nível do secundário e do ensino superior atingiram os 87% e os 24%, respectivamente, em 2012. Em 2010, mais de 70% dos cidadãos chineses com idades entre os 15 e os 64 anos receberam educação ao nível do secundário, o que compara com os cerca de 20% em 1970.

Além disso, os estudantes chineses apresentam bons desempenhos em testes internacionais comparáveis. Jovens de 15 anos em Xangai ultrapassaram estudantes de 65 países, incluindo 34 países da OCDE, em matemática, ciência e leitura, de acordo com o Programa Internacional de Avaliação de Aluno (PISA) em 2009 e 2012.

A China beneficiou também do rápido crescimento do emprego, com mais de sete milhões de trabalhadores a entrarem para o mercado de trabalho, todos os anos, desde 1990. Isto, em conjunto com uma grande reafectação dos trabalhadores das áreas rurais para as áreas urbanas, acabou por apoiar as indústrias transformadoras de trabalho intensivo, o que impulsionou o crescimento económico da China.

Mas a vantagem demográfica da China está a diminuir rapidamente devido às baixas taxas de fertilidade e ao envelhecimento da população. De acordo com a Organização das Nações Unidas, em 2030 a população activa chinesa (dos 15 aos 59 anos de idade) vai diminuir em 67 milhões de pessoas, tendo em conta os níveis de 2010.

Além disso, o ensino superior na China deixa muito a desejar, com os inquéritos aos empregadores a revelarem que os diplomados do ensino secundário e universitário frequentemente têm faltas de conhecimentos técnicos necessários e de competências sociais. Por exemplo, em 2013, mais de um terço das empresas chinesas que responderam ao inquérito afirmaram terem tido dificuldades em recrutar trabalhadores qualificados, com 61% a atribuírem isso à escassez de competências de empregabilidade em geral. Assim, como é que pode a China esperar alcançar a diversidade de exportações e modernização tecnológica que precisa para promover-se na cadeia de valor mundial?

Claramente, a China precisa de reformar as suas instituições de ensino superior, incluindo os programas de formação técnicos e vocacionais. Ao mesmo tempo, tem de aumentar as oportunidades para que qualquer pessoa com talento possa ter acesso a um ensino secundário e superior de qualidade, reduzindo deste modo, e substancialmente, as disparidades na acessibilidade e qualidade no ensino superior pelas regiões e pelos grupos sociais. E aos filhos de migrantes nas áreas urbanas têm de lhes ser garantido acesso total ao sistema educativo. Tais esforços para reduzir as disparidades educacionais ajudariam a abordar o desequilíbrio de rendimentos — uma ameaça significativa para o crescimento económico futuro da China.

Tudo isto vai exigir um aumento do investimento público na educação. Actualmente, o investimento público da China em educação, em percentagem do PIB, está abaixo dos padrões internacionais em todos os níveis, mas especialmente no ensino secundário e superior.

Os desafios educacionais na China também se estendem à qualidade. Um ensino inadequado é o principal motor do crescimento do desemprego na China entre os diplomados do ensino secundário e superior, para não falar na diminuição do seu prémio salarial. Isto pode ser solucionado através de um melhor financiamento, de um recrutamento mais efectivo e uma política de compensações e com administrações escolares mais descentralizadas no que diz respeito à tomada de decisões.

Finalmente, apesar de alguns dados sugerirem que existe um excesso de oferta nos licenciados das universidades na China, as actuais alterações demográficas e sectoriais significam que a China vai deparar-se com um défice de abastecimento de 24 milhões de licenciados altamente qualificados ou de escolas de formação profissional até 2020. Para colmatar esta lacuna, a China tem de melhorar os seus programas de formação profissional e técnicos.

Para assegurar que a força de trabalho cumpre com as exigências das rápidas alterações económicas e tecnológicas, a China tem de construir um sistema educativo de alta qualidade. Sem isso, a China pode não conseguir ser a primeira economia mundial por muito tempo.


Lee Jong-Wha é professor de economia e director do Asiatic Research Institute na Universidade da Coreia, e é também conselheiro para os assuntos económicos internacionais do antigo presidente sul-coreano Lee Myung-bak.


Direitos de autor: Project Syndicate, 2014.
www.project-syndicate.org

Tradução: Ana Laranjeiro"


quarta-feira, 21 de maio de 2014

Rússia e China fecham negócio do gás natural


A Rússia vai fornecer 38 mil milhões de metros cúbicos por ano à China, a partir de 2018. Acordo estava a ser negociado há dez anos e o negócio envolve 400 mil milhões de dólares.



May 21

Sob os aplausos dos presidentes Vladimir Putin e Xi Jinping, os responsáveis pelas empresas estatais russa Gazprom e chinesa China National Petroleum Corp (CNPC) assinaram, em Xangai, um acordo pelo qual a Rússia vai fornecer 38 mil milhões de metros cúbicos por ano à China, a partir de 2018, durante 30 anos.
O gás será transportado através de um novo gasoduto ligando os campos de gás da Sibéria aos principais centros da China.

Este negócio irá cobrir uma parte importante das necessidades energéticas chinesas, que atingiram 170 mil milhões de metros cúbicos no ano passado, mas representa apenas 25% dos mais de 160 mil milhões comprados pelos países da União Europeia nesse ano.

Quanto ao preço por mil metros cúbicos, ficou no segredo dos deuses. No entanto, a estação de televisão Russia Today estima, e os analistas concordam, que o preço final rondará os 350 dólares (255 euros) por mil metros cúbicos, não muito longe do valor médio pago pelos países da União Europeia que é 380 dólares (277 euros).

Embora a União Europeia (UE) continue a ser o mercado mais importante para o gás russo, este negócio permite à Rússia diversificar os destinos das suas exportações depois do arrefecimento das relações entre Moscovo e a UE causado pelo golpe de estado na Ucrânia.

A China tinha a possibilidade de lançar um projecto de gás em Sichuan ou de importar gás natural liquefeito dos Estados Unidos, de modo que o acordo foi considerado na Rússia como uma enorme vitória política do presidente Vladimir Putin.
Este admitiu que as negociações foram difíceis e descreveu-o como um contrato histórico: "É, de facto, um acontecimento histórico para o sector do gás da Rússia e da União Soviética. É o maior contrato da história do sector do gás da antiga URSS".

A Gazprom planeia construir uma nova fábrica de gás natural liquefeito (GNL) perto de Vladivostok, na costa do Pacífico, mas não tem a infra-estrutura necessária para fornecer o gás. O gasoduto para a China vem resolver o problema, posicionando o terminal de Vladivostok perto dos principais compradores de GNL do Japão e da Coreia do Sul, bem como do mercado em crescimento na costa leste da China.

*

Quem não ficou propriamente radiante com o acordo foi o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, devido ao peso do gás russo nas compras de energia dos países da UE.

Tanto mais que, no início da semana passada, Vladimir Putin escreveu a alguns líderes europeus, sublinhando não ter recebido nenhuma proposta concreta para o pagamento da dívida da Ucrânia à Rússia pelo fornecimento de gás. Trata-se de uma dívida de 3,5 mil milhões de dólares da Ucrânia à Gazprom e a empresa está a exigir que aquele país efectue o pré-pagamento de 1,6 mil milhões de dólares pelo fornecimento de Junho.
Se não houvesse avanços, alertou Putin, as torneiras do gás russo iriam fechar-se em 1 de Junho, com o consequente corte no fornecimento para os países-membros da UE que recebem gás pelos gasodutos que atravessam o território ucraniano, o que corresponde a metade do gás fornecido à UE.

"Enquanto decorrerem as negociações a três [UE, Ucrânia e Rússia], o fornecimento de gás não deve ser interrompido. Conto com a Rússia para manter esse compromisso", escreveu Durão Barroso em resposta.

Mas são os credores quem decide. É a vida!


segunda-feira, 24 de março de 2014

Voo da Malaysian Airlines despenhou-se e não há sobreviventes


"A Malaysia Airlines lamenta profundamente ter de assumir, sem margem para dúvidas, que o voo MH370 está perdido e que ninguém a bordo sobreviveu. Tal como ouvirão na próxima hora do primeiro-ministro da Malásia, temos de aceitar que todas as provas sugerem que o avião caiu no sul do oceano Índico."

Foi esta a mensagem que a Malaysia Airlines enviou hoje às famílias dos 227 passageiros e 12 tripulantes do voo MH370 desaparecido no passado dia 8 de Março, quando seguia de Kuala Lumpur para Pequim. A companhia aérea teve a sensibilidade de fazer contactos pessoais ou por telefone, mas a alguns familiares foi enviado um SMS.
A notícia foi um golpe terrível para as famílias dos 153 passageiros chineses, ao destruir a esperança a que muitos se tinham agarrado de que o avião havia sido sequestrado e levado para algum local remoto onde os passageiros poderiam ainda estar vivos, dando lugar a actos de desespero.


March 24

Pouco depois, pelas 22:00 (14:00 em Lisboa), o primeiro-ministro da Malásia, Najib Razak, comunicava em conferência de imprensa:

"Esta noite, falei com representantes do Air Accidents Investigation Branch (AAIB) [Departamento de Investigação de Acidentes Aéreos] do Reino Unido. Informaram-me que a Inmarsat, a empresa britânica que fornece dados de satélite e que indicou a existência dos corredores norte e sul, tem estado a fazer novos cálculos a partir dos seus dados. Usando um tipo de análise nunca antes utilizado numa investigação deste género, eles conseguiram fazer luz sobre a rota do MH370.

Com base nesta nova análise, a Inmarsat e a AAIB concluíram que o MH370 voou ao longo do corredor sul, e que a sua última posição foi a meio do oceano Índico, a oeste de Perth [Austrália].

É um local remoto, longe de qualquer sítio onde seja possível aterrar. Por isso, é com profunda tristeza e pesar que, de acordo com estas novas informações, somos obrigados a concluir que o voo MH370 acabou no sul do oceano Índico.

Amanhã daremos uma conferência de imprensa com mais pormenores. Entretanto, iremos informando sobre novos desenvolvimentos, mal eles existam. Partilhamos esta informação num espírito de transparência e de respeito pelas famílias — dois princípios que sempre regeram a nossa investigação.

A Malaysia Airlines já falou com as famílias dos passageiros e da tripulação sobre este desenvolvimento. Para eles, as últimas semanas foram dilacerantes; sei que estas novas notícias ainda são mais duras. Peço aos media que respeitem a sua privacidade e que lhes dêem o espaço de que precisam neste momento difícil."


Chris McLaughlin, vice-presidente da Inmarsat confirmou que a empresa passou os últimos seis dias a rever os dados do voo 370, em estreita colaboração com a Boeing e outros peritos envolvidos na investigação e concluiu que o avião deve ter voado para o sul: "A nossa série de medidas dos sinais recaem sobre a pista sul já prevista, após a provável última curva". Acrescentou que esta análise admitiu a hipótese de que o avião manteve aproximadamente a mesma velocidade e a mesma direcção nas últimas horas de voo, tendo sido submetida à AAIB. "O que ainda não se pode dizer é o que aconteceu no final, quando o avião ficou sem combustível. Não temos nenhuma maneira de saber se se despenhou ou planou", concluiu.

Portanto começa a tomar forma a ideia de que o Boeing 777 voou cerca de sete horas com o piloto automático, emitindo sinais para um satélite de hora a hora, o último dos quais foi recebido às 8:11. E só se desestabilizou quando o combustível se esgotou.

Já o motivo porque o avião alterou radicalmente a trajectória de voo, depois do último contacto de voz do co-piloto com a torre de controlo pelas 1:19, permanece envolto em mistério. É que esta inversão da rota não é executada manualmente usando os controles do cockpit, é inserida num computador do cockpit antes ou depois da descolagem. A ocorrência de um incêndio a bordo pode ser uma explicação plausível.
O mistério ficará esclarecido com as gravações contidas nas caixas negras do avião e, por isso, todos os esforços se concentram na sua recuperação do fundo do oceano. O Comando do Pacífico dos Estados Unidos vai enviar um navio com um sonar capaz de detectar os pings de uma caixa negra a uma profundidade de 6 km.


*


Usando o efeito Doppler relativístico, a Inmarsat analisou pequenas variações na frequência dos sinais emitidos pelo avião e captados por um seu satélite geoestacionário sobre o oeano Índico. Esta análise permitiu inferir a trajectória do avião e calcular a localização final.
Eis uma brevíssima explicação do efeito Doppler:


Quando um seixo cai num lago, propagam-se ondas circulares à superfície da água. Nesta animação as circunferências rosa representam ondas sonoras emitidas pela sirene de um carro. Enquanto o carro está parado, as frentes das ondas são simétricas.

Quando o carro começa a mover-se, cada onda é emitida a partir de uma posição um pouco mais à esquerda do que a onda anterior. Para um observador à frente do carro, cada onda leva menos tempo a chegar até ele que a onda anterior. As ondas "acumulam-se", o tempo entre a chegada de frentes de ondas sucessivas diminui, logo a frequência aumenta (som agudo). Para um observador atrás do carro, as ondas "apartam-se", o tempo entre a chegada de sucessivas frentes de onda aumenta, logo a frequência baixa (som grave).
Em conclusão: para um observador a sirene soa mais aguda quando o carro se aproxima e mais grave quando o carro se afasta — é o efeito Doppler.






Avião em repouso. Emite pings com a frequência f.
O satélite vai receber a frequência f, esteja onde estiver.


Avião está a mover-se para a direita. Emite pings com a frequência f.
Como a fonte está em movimento, o centro de cada nova frente de onda está ligeiramente deslocado para a direita. Portanto as frentes de onda começam a acumular-se no lado direito (em frente do avião) e a apartar-se no lado esquerdo (atrás do avião). Se o satélite estiver na frente do avião vai receber uma frequência maior que f, se estiver por trás vai receber uma frequência menor que f.





Simulador do efeito Doppler
Ponha o avião S a emitir ondas electromagnéticas circulares (start emission). Depois desloque o avião (clicar e arrastar).
Observe a variação de frequência das ondas detectadas pelo satélite O.



BES, Portas e os vistos dourados: mais uma tríade lusa?


Um cidadão chinês com um visto gold foi detido por ser alvo de um mandado de captura internacional emitido pela Interpol a pedido das autoridades chinesas.

O programa de autorizações de residência para investimento (ARI) a cidadãos estrangeiros — os vistos gold — foi criado, em Outubro de 2012, pelo então ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas. A ideia é atribuir autorizações de residência por seis anos a estrangeiros que invistam pelo menos 500 mil euros na aquisição de imobiliário, transfiram capitais no montante de, pelo menos, 1 milhão de euros ou criem, pelo menos, dez postos de trabalho.

O cidadão agora detido pediu a autorização em Julho de 2013 e o visto gold foi concedido em Janeiro deste ano, apenas um mês antes da emissão do mandado de captura pela Interpol.
Durante o processo de averiguações que antecede a concessão de um visto, a China não informou Portugal sobre as suspeitas que recaíam sobre o cidadão que terá comprado uma casa de luxo em Cascais com dinheiro proveniente de crimes cometidos no seu país.

Segundo informação oficial do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Portugal atribuiu 772 autorizações de residência, até 19 de Março, a que corresponde um investimento no valor de 464 milhões de euros, quase totalmente aplicado na compra de imóveis. Destes vistos gold, 612 foram concedidos a cidadãos chineses não oriundos de Hong Kong, nem de Macau.
No Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) há uma lista com cerca de mais 400 cidadãos chineses à espera de obter um visto gold.

Sabe-se que o SEF já recusou o visto gold a 11 cidadãos estrangeiros por “incumprimento de requisitos”. Das candidaturas indeferidas, “cinco são relativas a investidores e seis a familiares”, uma das quais relativa ao pedido apresentado por um operacional das "tríades" chinesas — crime organizado chinês — que, desde 1990, estava referenciado na Interpol.
A procura dos vistos gold por parte de cidadãos chineses levou o director do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, Manuel Palos, a propor ao Governo, já este ano, a colocação de um inspector do SEF na China.

Para o vice-primeiro-ministro Paulo Portas, a detenção deste cidadão chinês, cuja transferência de capital foi feita através do banco BES e com recurso a uma sociedade de advogados, vem provar que o "crivo de segurança funcionou duplamente".


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Além de passarem a poder residir em Portugal, os beneficiários dos vistos gold podem circular no espaço Schengen por curtos períodos de tempo, sem necessidade de visto.
Donde se conclui que Portugal está a obter dinheiro só pelo facto de pertencer a um espaço formado por 26 países europeus* que aboliram passaporte ou qualquer outro tipo de controle de fronteira entre as fronteiras comuns, funcionando como um único país para viagens internacionais.
Mas o espaço Schengen foi criado com o objectivo de incentivar a livre circulação de mercadorias, informação, dinheiro e pessoas, proporcionando maior bem-estar aos seus cidadãos, não para fazer lavagem de dinheiro sujo.

A opinião de Portas de que o BES e certa sociedade de advogados formam um crivo de segurança, vale o que vale: registamos a notícia deste banco ter sido multado em 1,1 milhão de euros por infracçõesmuito graves” em Espanha. Quais? Simplesmente, duas infracções à normativa sobre prevenção de branqueamento de capitais.

Depois do caso dos submarinos, vemos Portas e o BES envolvidos, de novo, num programa de centenas de milhões. Sempre a mesma tríade, que monotonia!



* Dos vinte e oito estados-membros da União Europeia, apenas seis não fazem parte do Espaço Schengen — Bulgária, Croácia, Chipre e Roménia vão juntar-se a este espaço, mas a Irlanda e o Reino Unido escolheram opções de não participação.
A estes 22 países, somam-se 4 estados-membros da Associação Europeia de Comércio Livre (EFTA) — Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça — que aderiram ao Acordo Schengen.


sábado, 27 de julho de 2013

Esperança - II


Portugal conquistou 111 pontos, a melhor pontuação de sempre, nas 54ª Olimpíadas Internacionais de Matemática, que decorrem na Colômbia, tendo ficado em 36.º lugar na classificação por países, num total de 97 países participantes.

Todos os elementos da equipa portuguesa receberam distinções, animando a nossa esperança:
  • Miguel Moreira, aluno do 11.º ano na Escola Secundária Rainha D. Amélia, em Lisboa, conquistou uma medalha de ouro, tendo ficado na posição 30ª entre 528 participantes.
  • Miguel Santos, da secundária de Alcanena, 12.º ano, Francisco Andrade, da secundária do Padrão da Légua, 10.º ano, Luís Duarte, da secundária de Alcains, 12.º ano, e David Martins, da secundária de Mirandela, 11.º ano, conquistaram medalhas de bronze.
  • Nuno Santos, aluno do 10º ano do Colégio Nossa Senhora do Rosário, no Porto, recebeu uma menção honrosa.

Estes alunos e os seus professores de Matemática merecem parabéns pelo trabalho desenvolvido. As palavras finais de apreço vão para as famílias dos alunos pela sabedoria com que os educaram e que agora vêem a recompensa.



29 Jul, 2013, 21:03


Nos resultados por países temos a assinalar o primeiro lugar da China, seguida pela Coreia do Sul, Estados Unidos da América, Rússia e Coreia do Norte.

O gráfico seguinte mostra a evolução dos quatro países melhor classificados, desde o ano 2000, e também a de Portugal. Reconhecendo à China o mérito de manter, em geral, o primeiro lugar, é preciso realçar o extraordinário desempenho da Coreia do Sul, um pequeno país com área próxima da de Portugal e o quíntuplo da população que se bate com a China, a Rússia e os Estados Unidos tendo já alcançado um primeiro lugar.




Nos últimos anos as equipas portuguesas têm vindo a melhorar significativamente os resultados, graças ao trabalho que está a ser desenvolvido por alguns professores de Matemática com os seus alunos mais promissores e pela Sociedade Portuguesa de Matemática. A selecção e preparação dos alunos está a cargo do Projecto Delfos, do Departamento de Matemática da Universidade de Coimbra.

No entanto, Portugal ficou atrás de muitos países europeus — Reino Unido, Ucrânia, Itália, França, Bielorrússia, Hungria, Roménia, Países Baixos, Alemanha, Croácia, Sérvia e Eslováquia — alguns dos quais nunca dispuseram dos recursos financeiros que foram canalizados para a educação no nosso País sem produzirem resultados perceptíveis.
Não podemos fingir que tudo está bem com os resultados dos nossos alunos quando vemos equipas de países com um nível de vida muito inferior ao nosso, como sejam o Vietname, o Irão, a Tailândia, o México, a Turquia, a Indonésia e a Índia, a ultrapassarem a equipa portuguesa.

As consolas de jogos, os telemóveis, o Facebook não produzem resultados, servem apenas para desperdiçar tempo e recursos financeiros, há que ter consciência desse facto e alertar os pais dos nossos alunos.
Grande também é a responsabilidade dos directores das escolas que preferem criar grupos de compadrio que os apoiem na manutenção no cargo em vez de investirem nos resultados dos alunos das suas escolas.

Compare-se os salários mínimos dos países europeus mencionados para não haver dúvidas. Os professores, os pais e os alunos têm um longo caminho a percorrer até Portugal conseguir apresentar resultados compatíveis com o bem-estar que as famílias portuguesas ainda desfrutam.