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domingo, 22 de março de 2020

COVID-19: a justificação das medidas de contenção


A análise seguinte explica pormenorizada e correctamente a perigosidade do coronavírus SARS-CoV-2. Foi escrita por um professor de epidemiologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa mas pode — e deve — ser lida por toda as pessoas, independentemente das suas habilitações académicas, porque apresenta de forma pedagógica a justificação das medidas de contenção em vigor no nosso país.

Como este blogue é sobretudo lido por descendentes de portugueses que enveredaram pela diáspora e, por isso, necessitam da tradução rápida acessível no canto superior direito, tomei a liberdade de copiar integralmente o texto, com as devidas vénias a quem teve a solidariedade de escrever e ao jornal Público que soube avaliar a qualidade desta análise:


O novo coronavírus: factos, respostas e previsões II

A protecção dos idosos e dos doentes crónicos vai ser crucial para o sucesso nos próximos muitos meses. Estou convencido de que iremos ultrapassar esta pandemia”. Análise de Manuel Carmo Gomes, professor de Epidemiologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa

Manuel Carmo Gomes
22 de Março de 2020, 20:45

À data em que escrevo, a covid-19 atingiu em todo o mundo cerca de 280 mil pessoas e causou mais de 11 mil mortes. Olhamos para as curvas da incidência da doença nos nossos vizinhos em Espanha, França, Itália e Alemanha, e não conseguimos dizer com segurança, onde ou quando ocorrerá o pico da epidemia.


No passado dia 19, o Governo português enunciou um conjunto de medidas restritivas que visam limitar o contágio da doença, sendo legítimo que os cidadãos se interroguem. Por que razão chegámos aqui? A ciência ajuda-nos a compreender esta realidade? O que vai acontecer a seguir?

Talvez pareça estranho, mas é possível responder. Não com certezas absolutas, mas com confiança suficiente para poder escrever estas linhas. Tentarei em seguida cruzar conhecimentos científicos com estas preocupações de uma forma que espero compreensível e esclarecedora.

O que tem o novo coronavírus de tão especial para gerar uma pandemia com esta rapidez?

O novo coronavírus tem quatro características que, combinadas, lhe dão essa capacidade:

1. Quando uma pessoa é infectada, passa por um período em que o vírus se multiplica nos nossos órgãos de forma silenciosa e sem causar sintomas (um-dois dias), entrando em seguida num outro período (também um-dois dias) durante o qual a pessoa já é capaz de contagiar as outras. Tudo isto sempre sem sintomas.

2. O tempo geracional (serial interval), isto é, o tempo médio que decorre entre ser infectado e contagiar outrem, é curto — pensa-se que sejam cerca de quatro a sete dias. Isto significa que não leva muito tempo a formar-se uma cadeia de transmissão.

3. Múltiplas vias podem levar ao contágio: gotículas emanadas com a tosse, espirro ou a fala; via aerossol (gotículas tão pequenas que pairam no ar); contacto físico (por exemplo, mão-boca-olhos); e, eventualmente, via fecal-oral. Desconhece-se se a transmissão da grávida para o feto é possível.

4. O vírus causa uma letalidade por doença (percentagem de doentes que morre) baixa a moderada nos menores de 60 anos. Mas a doença tende a ser prolongada e, durante esta, o doente mantém-se contagioso. A maioria das estimativas da letalidade média situa-se entre 2 e 5%, variando com a capacidade do sistema de saúde. Quando esta letalidade é aplicada a um grande número de doentes, traduz-se por um monstruoso número absoluto de mortes.

Quando um vírus com estas características é introduzido numa população que está totalmente desprotegida, sem anticorpos para o vírus, as consequências são aquelas a que assistimos. Isto não é surpresa nem para especialistas em vírus nem para epidemiologistas. Há muito tempo que nos dizem que a questão seria ‘quando’ e não ‘se’ surgiria alguma vez um vírus assim.

Apesar de já termos tido más experiências com a família dos coronavírus (SARS em 2002 e MERS em 2012), a maioria dos cientistas esperava que fosse um vírus da gripe a originar a próxima pandemia. Em termos práticos, acertar na família do vírus não faz grande diferença, as características do vírus é que fazem a diferença.

Há solução? O que vem a seguir?

Sabemos o suficiente para responder a estas perguntas com alguma segurança, recorrendo à epidemiologia matemática, a área da ciência que se ocupa do estudo da dinâmica das epidemias.

O impacto de um vírus com as características acima descritas depende essencialmente de algo que a maioria dos portugueses nunca tinha ouvido falar: o número básico de reprodução da infecção, a que chamarei R₀ (lê-se R-zero).

Trata-se do número de novas infecções provocadas por uma pessoa que está infectada, antes de ser isolada. Evidentemente, há doentes que contagiam cinco ou seis pessoas ou mais, e há doentes que não contagiam ninguém. O valor do R₀ é uma média de tudo isto. No caso do novo coronavírus, tem-se situado entre dois e três, dependendo da região e da fase da epidemia. Por exemplo, se já há um estado de alerta, os doentes são identificados e isolados mais depressa, e o R₀ tende a diminuir. Em meios urbanos de grande densidade populacional, o R₀ tende a ser mais alto do que em meios rurais.

Há dois pontos fundamentais, que resultam do valor do R₀ acima mencionado. É conveniente tê-los em mente para perceber o raciocínio que se segue:

1. Na ausência de qualquer controlo da doença, a covid-19 irá atingir 60% a 80% da população. Quando, há alguns dias, a chanceler Merkel disse que 70% dos alemães podiam ser infectados, houve quem ficasse céptico. Na verdade, estava apenas bem informada.

2. A única forma de travar a propagação da covid-19 é ter, pelo menos, 60% da população imunizada (isto é, mais de 60% dos portugueses têm de ter anticorpos contra o vírus).

O ponto 1 representa o problema e ajuda-nos a compreender por que razão a epidemia cresce tão depressa em tantos países, Portugal incluído. As curvas desta epidemia crescem de forma exponencial, é um crescimento estonteante. É apenas uma manifestação da agressiva dinâmica do vírus em direcção à invasão de 60 a 80% da população. Se nada for feito, atingiremos esta percentagem em pouco tempo, o que teria terríveis consequências, às quais se retorna mais abaixo.

O ponto 2 é a solução para o problema. Existem duas formas de conseguir imunizar uma população: uma é recorrendo a uma vacina; a outra é através de imunização natural, ou seja, ter contacto com o vírus selvagem.

No que respeita à vacina, é improvável dispormos dela em menos de um ano, e isto já é um prazo optimista. Para além do tempo dos ensaios da vacina, vai ser necessário produzir centenas de milhões de doses para todo o planeta. Há poucos fabricantes com esta capacidade e a produção levará o seu tempo. As notícias que têm circulado sobre ensaios, pela primeira vez, de uma vacina em humanos, referem-se à chamada Fase 1. Esta destina-se apenas a testar a segurança da vacina (é preciso garantir que os vacinados não adoecem com a vacina). Falta a Fase 2 (optimização do conteúdo da vacina) e, em especial, a Fase 3 (teste da efectividade e segurança em grande escala), que é a mais demorada. Só depois se iniciará a produção em massa.

Quanto à imunização natural: se deixarmos a epidemia seguir o seu livre curso, sem medidas de controlo, eventualmente 60 a 80% das pessoas serão infectadas e, passado esse ponto, atingimos aquilo a que os epidemiologistas designam por “imunidade de grupo”. Nessa altura, o R₀ toma um valor menor do que 1 (cada infectado contagia menos do que uma outra pessoa) e a epidemia pára. Mesmo que seja importado um novo doente do estrangeiro, este não consegue dar origem a uma cadeia sustentada de novos doentes porque, em geral, contactará com pessoas que estão imunizadas. Podemos considerar que a população está globalmente protegida — é a imunidade de grupo a funcionar.

Mas imunizar a população desta forma tem consequências terríveis para os serviços de saúde e as populações. Nenhum serviço de saúde do mundo tem capacidade para responder ao afluxo de doentes graves que ocorreria em poucas semanas.

Os portugueses são testemunhas de que em menos de três semanas atingimos os mil doentes covid-19 e, sem medidas de contenção, o número de novos doentes aumentará a cada dia que passa. Em Itália, após um mês e meio de epidemia, verificam-se mais de 45 mil doentes e mais de quatro mil mortos, e ainda não se antevê o pico da epidemia. As autoridades italianas estão a fazer tudo o que é humanamente possível para abrandar a epidemia. O problema é a força da dinâmica do vírus em direcção aos 60-80%.

A contenção da epidemia

A China, a Coreia do Sul, Singapura e Macau provaram que é possível travar a epidemia com medidas inéditas de supressão de contactos sociais, as quais requerem uma grande aceitação e disciplina por parte da população.

Todos ouvimos nas notícias a dureza das medidas tomadas e as suas consequências para a economia. O Governo português — a meu ver, bem — deu passos nessa direcção quando, a 13 de Março, optou pelo fecho das escolas e, em especial, com o pacote de medidas emanadas pela resolução do Conselho de Ministros do passado dia 19 de Março. São conhecidas de todos, são todas pertinentes, não as irei enumerar.

Todas estas medidas têm como objectivo principal reduzir a proximidade física entre as pessoas, evitando, assim, o contágio da doença pelas suas múltiplas vias de transmissão. Se tivermos sucesso, o valor do R₀ diminuirá e a rapidez com que a epidemia cresce irá abrandar. A epidemia passará então por um pico que todos desejamos que não seja muito alto (poucos doentes por dia quando chegarmos ao pico). Se nos mantivermos firmes e disciplinados nas medidas de contenção, o valor do R₀ irá tornar-se menor que 1 e o número de novos doentes começará a diminuir todos os dias. Aconteceu na China, iremos conseguir também em Portugal.

Uma consequência importante das medidas de contenção é que o pico da epidemia não será tão alto e estará deslocado para mais tarde no tempo. Este achatamento e atraso na ocorrência do pico é aquilo a que os epidemiologistas designam por “aplanar a curva epidémica”. Quando as previsões vão adiando a ocorrência do pico, isso significa, em geral, que as medidas implementadas estão a surtir efeito.

Ao ultrapassarmos o pico da epidemia, nada está ganho, mas precisamos desesperadamente dessa acalmia para nos reorganizarmos. Os serviços de saúde precisam também de ganhar tempo, criar estruturas organizadas e treinadas, gerir recursos e equipamentos para continuar a ter capacidade de resposta. Há equipas de cientistas portugueses a monitorizar a epidemia que estarão atentos aos sinais do impacto das medidas decretadas pelo Governo ao longo das próximas semanas. Deixo aqui uma palavra de muito apreço aos académicos de várias instituições que nos últimos dias largaram as suas actividades e se disponibilizaram para apoiar os colegas do Instituto Ricardo Jorge a analisar os dados da epidemia, construir modelos, efectuar previsões, discutir soluções. Grande espírito de corpo por parte da Academia.

É de realçar a importância de dois pilares fundamentais na contenção da epidemia de covid-19:

A. É fundamental apoiar e proteger os nossos profissionais de saúde de todas as formas possíveis. Há que assegurar a disponibilidade de material de protecção individual para quem está na linha da frente.

B. É obrigatório proteger os nossos idosos e as numerosas pessoas que são portadoras de doenças crónicas de alto risco para este vírus: hipertensão, doenças cardiovasculares, diabetes. Todos os esforços devem ser feitos para disseminar este apelo.

Estas pessoas, quando são infectadas, têm elevado risco de contrair formas graves da covid-19 e de requerer cuidados hospitalares intensivos prolongados. Quando são internadas, o curso da doença é, em geral, lento, podendo estes doentes estar sob cuidados quatro a seis semanas, ou mais! É muito tempo. Um afluxo de muitos doentes com a covid-19 num espaço de poucas semanas vai obstruir a capacidade de resposta dos serviços de saúde. Vimos assistindo a isso em Itália e as consequências estão a ser devastadoras.

Os netos e os filhos devem manter distanciamento físico em relação aos avós. Os lares de idosos devem ser cautelosamente protegidos de infecção importada por pessoas bem-intencionadas que desconhecem estar a transmitir o vírus. A protecção dos idosos e dos doentes crónicos vai ser crucial para o sucesso nos próximos muitos meses.

O alívio da contenção e a possibilidade da segunda onda epidémica

Ultrapassado o pico da epidemia, se conseguirmos que o número de novos casos por dia continue a descer, haverá uma altura em que será possível, até desejável, o alívio das medidas de contenção.

Mas este assunto é delicado. O vírus continuará a circular no planeta; Portugal continuará por muito tempo a importar pessoas infectadas e, uma vez que estamos longe dos ambicionados 60% de imunizados que nos conferem imunidade de grupo, corremos o sério risco de uma segunda onda epidémica, que pode ser tão agressiva como a que vivemos. A China corre esse risco neste preciso momento. Isto não significa que não devamos tentar, mas o processo vai necessitar de acompanhamento apertado e gestão cautelosa.

Num mundo ideal, os idosos e os doentes crónicos continuariam sempre protegidos, e reiniciaríamos gradualmente as actividades das pessoas com menor risco de doença grave. Estas pessoas passariam a ter maior risco de infecção do que quando estavam confinadas. Nesse mundo ideal, manteríamos a separação entre elas e os idosos, de forma a que as novas cadeias de transmissão se formassem apenas entre as pessoas de menor risco para doença grave.

Sempre mantendo baixa incidência da doença, conseguiríamos, com esta estratégia, ir imunizando naturalmente os sectores da população de menor risco, caminhando em direcção aos 60% de imunizados na população, circunstância que nos aproximaria do desejado estado de imunidade de grupo. Esta estratégia ideal é difícil de implementar na perfeição. Se ficarmos abaixo (por exemplo, ao nível de 20 a 30% da população imunizada naturalmente), a possibilidade da segunda onda não será evitada. Contudo, esta será mais lenta, permitindo maior capacidade de resposta dos serviços de saúde. A razão é simples: quando um doente contactar com uma pessoa que poderia contagiar, existirá uma certa probabilidade de que essa pessoa já esteja imunizada. O valor efectivo do R₀ será, então, mais baixo do que no início da primeira onda.

Várias equipas de investigação, em muitos países, estão neste momento focadas em estudar este problema. Todos concordamos que, quando um país aliviar as medidas de contenção, terá de ter uma máquina bem montada de detecção rápida dos novos doentes, rastreio rápido dos contactos destes doentes, imposição de quarentenas locais aos contactos dos doentes. Mais uma vez, será necessário o extraordinário trabalho dos nossos delegados de saúde e das suas equipas. A existência ou não de uma segunda onda dependerá, em grande parte, do apoio que lhes consigamos prestar.

Temos pela frente muitos meses difíceis, inéditos, durante os quais faremos todo o possível para minimizar os danos causados pela covid-19 enquanto não chega a vacina. Estou convencido de que iremos ultrapassar esta pandemia com muitas histórias para contar, novas competências e uma forma mais humilde de olhar o mundo.

****
*

Sobre a importância do valor do R₀, o leitor interessado pode visualizar o gráfico apresentado no vídeo divulgado aqui.

Os idosos e os doentes crónicos devem prestar muita atenção à possibilidade da segunda onda epidémica, muito bem explicada no final desta excelente análise, devem continuar a lavar as mãos com frequência e usar máscaras cirúrgicas quando receberem visitas ou saírem para a rua.


sexta-feira, 20 de março de 2020

Mensagem de Angela Merkel sobre a COVID-19


Angela Merkel dirigiu-se aos cidadãos alemães para explicar as restrições e apelar a que cada um se isole e distancie como meio de travar a pandemia do novo coronavírus:




“Caros cidadãos,

O coronavírus está a mudar dramaticamente as nossas vidas, a nossa compreensão da normalidade, da vida pública, da união social — tudo está a ser testado como nunca antes. Milhões de vós não podem ir trabalhar, os vossos filhos não podem ir à escola, ao jardim de infância. Teatros, cinemas e lojas estão fechados e o que é talvez mais difícil: todos sentimos falta dos encontros sociais que, noutras circunstâncias, tomávamos como reconhecidos.

Claro que, cada um de nós tem muitas perguntas e preocupações em tal situação sobre os próximos dias. Dirijo-me hoje a si desta maneira invulgar, porque quero dizer-lhe o que me guia — como chanceler — e a todos os meus colegas do governo federal nesta situação.

Isto faz parte do que é uma democracia aberta: que tomamos decisões políticas transparentes e as explicamos, que nos justificamos e comunicamos as nossas acções da melhor maneira possível para que as pessoas sejam capazes de compreendê-las. Acredito firmemente que passaremos este teste, se realmente todos os cidadãos o virem como tarefa deles.

Deixem-me dizer: Isto é sério, por favor leve a sério também. Desde a reunificação alemã, não, desde a Segunda Guerra Mundial, não houve outro desafio ao nosso país em que a nossa acção solidária seja tão importante. Quero explicar a nossa posição actual na epidemia, o que o governo federal e os governos estaduais estão a fazer para proteger todos na nossa comunidade e para limitar os danos económicos, sociais e culturais. Mas também quero dizer-lhe por que a sua actuação é necessária e o que cada um e todos podem fazer para ajudar.

No que diz respeito à epidemia, as informações baseiam-se em consultas constantes do governo federal ao Instituto Robert Kock e a outros cientistas e virologistas: estão a decorrer pesquisas intensas em todo o mundo mas ainda não há tratamento, nem vacina contra o coronavírus.

Enquanto for este o caso — e esta é a diretriz de toda a nossa actuação — só há uma coisa a fazer: retardar a propagação do vírus, aplanar a curva durante vários meses e ganhar tempo. Tempo para a ciência desenvolver medicamentos e vacinas. Mas, acima de tudo, tempo para que aqueles que adoecerem possam ser tratados da melhor maneira possível.

A Alemanha possui um excelente Sistema Nacional de Saúde, talvez um dos melhores do mundo. Podemos sentir confiança. Mas até os nossos hospitais ficariam completamente sobrecarregados se, em pouco tempo, demasiados pacientes fossem admitidos sofrendo sintomas graves de uma infecção pelo vírus.
Estes não são números abstractos em estatística, mas um pai ou avô, uma mãe ou avó, um parceiro — são pessoas. E nós somos uma comunidade em que toda a vida e todo o ser humano conta.

Nesta oportunidade, quero abordar primeiro aqueles que são médicos, trabalham em enfermagem ou nos hospitais ou em trabalho geral na saúde pública. Nesta batalha vós estais na linha da frente, sois os primeiros a ver os doentes e quão severas são algumas infecções. E todos os dias ides trabalhar de novo e estais lá para as pessoas. O que vos realizais é tremendo e agradeço-vos do fundo do meu coração por isso.

Então o objectivo é diminuir a velocidade do vírus na Alemanha. E com isto — isto é existencial — devemos definir uma coisa: reduzir ao máximo a vida pública. Claro que dentro da razão e com a perspectiva — o país continuará a funcionar — naturalmente os fornecimentos serão garantidos continuamente. E queremos preservar o máximo de actividade económica possível. Mas qualquer coisa que possa ameaçar pessoas, qualquer coisa que possa ameaçar o indivíduo ou a comunidade, isso temos de reduzir agora. Temos que limitar o risco de que uns possam afectar os outros, tanto quanto possível.

Sei quão dramáticas as restrições já são, nenhum evento, nenhuma feira, nenhum espectáculo e, por enquanto, nem escola, nem universidade, nem jardim de infância, nem brincar em recreios.

Sei quanto os encerramentos — com os quais os governos federal e estaduais concordaram — interferem na nossa vida e também na nossa auto-imagem democrática. São restrições como nunca existiram nesta república. Deixe-me garantir-lhe — por alguém para quem a liberdade de viajar e de movimento foram direitos tediosamente lutados —
essas restrições são justificáveis apenas em situação excepcional. Numa democracia nunca deveriam ser descuidados e apenas ser adoptados temporariamente.

Mas agora são indispensáveis para salvar vidas por isso, desde início da semana, verificações nas fronteiras e limitações de entrada estão em vigor. Para a economia, para as grandes empresas e as pequenas empresas, para lojas, restaurantes, freelancers já é muito difícil e as próximas semanas serão ainda mais difíceis.

Asseguro-vos que o governo federal faz tudo ao seu alcance para aliviar as consequências económicas e especialmente preservar empregos. Podemos e vamos utilizar tudo que for preciso para ajudar as nossas empresas e trabalhadores neste teste difícil. E todos podem confiar no fornecimento de alimentos a qualquer momento. Se as prateleiras forem esvaziadas num dia, serão reabastecidas. Para todos os que fazem compras nos supermercados, quero dizer: o armazenamento é sensato — aliás, sempre foi — mas em grau mensurável. Acumular como se nunca mais houvesse de novo, é inútil e completa ausência de solidariedade.

E, neste momento, deixem-me agradecer a pessoas que raramente recebem agradecimentos. Quem hoje em dia está sentado num terminal de caixa ou reabastece as prateleiras, presta um dos trabalhos mais difíceis agora. Obrigada por estarem aí para os vossos concidadãos e literalmente manterem a loja (o espectáculo) a funcionar.

Agora, para o assunto que é mais urgente para mim: todas as medidas governamentais seriam desprovidos de propósito, se não utilizássemos os meios mais eficazes contra a propagação demasiado rápida do vírus. E isso é: nós próprios. Tão indiscriminadamente como cada um de nós pode ser afectado pelo vírus, assim cada um deve ajudar.

Primeiro levando o assunto de hoje sério. Não entre em pânico, mas nem por um momento pense que eles não desempenham um papel. Ninguém é dispensável.

Todos contam. Requer esforço de todos nós. É isso que uma epidemia nos mostra quão vulneráveis todos somos, quão dependente do comportamento atencioso dos outros, mas também como através de acções comuns podemos protegermo-nos e fortalecemo-nos uns aos outros.

Todos contam. Não somos condenados a levar a propagação do vírus passivamente. Temos um remédio contra ele. Temos que — por consideração — manter as distâncias uns dos outros. O conselho dos virologistas não é ambíguo. Nenhum aperto de mão, lavagem cuidadosa e frequente das mãos, pelo menos 1,5 m de distância uns dos outros e contacto idealmente escasso com os mais velhos porque eles estão especialmente em risco.

Sei quantos estes pedidos são difíceis para nós. Especialmente em tempos de angústia queremos estar perto dos outros, sabemos cuidar com proximidade corporal ou toque mas, de momento, infelizmente o oposto é que está certo.
Todos precisamos de entender realmente isto: de momento apenas a distância é expressão de cuidado. A visita bem intencionada, a viagem que não era necessária, tudo iso pode significar infecção e realmente agora não deve ocorrer. Existe uma razão pela qual os especialistas dizem: avós e netos não devem encontrar-se. Aqueles que evitam encontros desnecessários ajudam todos os que, em hospitais, têm de cuidar diariamente mais casos. É assim que salvamos vidas.

Vai ser difícil para muitos e nisso dependerá — para não deixar ninguém sozinho — cuidar daqueles que precisam de conforto e confiança. Como famílias e sociedade encontraremos outras formas de apoiarmo-nos uns aos outros.

Já existem muitas formas criativas que enfrentam o vírus. Já existem netos que gravam um podcast para os avós para que não estejam sozinhos. Todos temos que encontrar maneiras de mostrar carinho e amizade — Skype, telefonemas, e-mails — e talvez escrevendo cartas novamente, o correio está a ser entregue apesar de tudo.
Ouve-se exemplos maravilhosos de ajuda de vizinhos aos idosos que não podem fazer compras por eles próprios. Tenho a certeza de que é possível mais. Vamos mostrar como sociedade que não abandonamos os outros.

Apelo a si: respeite as regras que se aplicam nos tempos mais próximos. Nós, como governo, examinaremos constantemente o que pode ser corrigido mas também o que pode ser necessário em adição. Esta é uma situação dinâmica e continuaremos aptos a aprender, ser capaz de repensar e responder com outras ferramentas a qualquer momento.

Também vamos explicar isso. Por isso, peço-lhe: não acredite em boatos! Mas apenas em mensagens oficiais que também traduzimos em várias línguas. Nós somos uma democracia, não vivemos a ser forçados mas compartilhando conhecimento e colaboração. Esta é uma tarefa histórica que pode ser superada se a enfrentarmos juntos.

Tenho a certeza absoluta que vamos superar esta crise. Mas quantas vítimas exigirá? Quantos entes queridos vamos perder? A resposta, em grande parte, está nas nossas próprias mãos. Agora podemos tomar acções decisivas todos juntos. Podemos aceitar as restrições actuais e apoiarmo-nos uns aos outros.

A situação é grave e o resultado incerto. O nosso sucesso depende também, em larga medida, de quão disciplinados cada um de nós for no cumprimento das regras. Mesmo que isto seja algo quem nunca experimentámos antes, devemos mostrar que podemos actuar calorosa e racionalmente — e assim salvar vidas.

Depende de cada um e de todos nós fazer isto, sem qualquer excepção. Cuide de si e dos seus entes queridos. Obrigada."


****
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No momento em que se vive a maior crise do século XXI no mundo ocidental, esta mensagem de Angela Merkel aos alemães projecta-a para o topo dos estadistas mundiais. É a líder perfeita não só para a Alemanha, como também a escolha certa para um governo da União Europeia.

Se já existisse um governo Europeu chefiado por esta Política (com letra maiúscula), dezenas de milhares de vidas seriam poupadas pela COVID-19 entre a população europeia. Nas próximas eleições legislativas para um governo europeu, exijo poder votar em Angela Merkel.


Ver outros comentários aqui:

DERRIC News
"at the moment, only distance is expression of care" what a historic sentence.

Steve Penney
I envy Germany, for having this level of compassionate leadership.

Richard Wells
How good it must be to have an intelligent, compassionate leader.

Damiano Benzoni
As a foreigner living in Germany and learning German, thanks a lot. This was a great service for us.

Leonardo Diehl
How about we forget our country's boundaries for a moment, and start looking for ourselves as a whole planet through this fight?
Merkel already has my vote as our leader.

Tradução:

DERRIC News
"no momento, apenas a distância é expressão de cuidado carinhoso", que frase histórica.

Steve Penney
Invejo a Alemanha por ter este nível de liderança compassiva.

Richard Wells
Quão bom deve ser ter um líder inteligente e compassivo.

Damiano Benzoni
Como estrangeiro vivendo na Alemanha e aprendendo alemão, muito obrigado. Este foi um óptimo serviço para nós.

Leonardo Diehl
Que tal esquecermos as fronteiras do nosso país por um momento e começarmos a olhar para nós como um planeta inteiro por via desta luta?
Merkel já tem o meu voto para nossa líder.


segunda-feira, 6 de julho de 2015

Varoufakis sai, Tsakalotos passa para as Finanças gregas


O ministro suplente dos Negócios Estrangeiros grego, Euclides Tsakalotos, vai substituir Yanis Varoufakis que pediu a demissão.


O novo ministro das Finanças, Euclides Tsakalotos, (D) presta juramento durante a cerimónia de posse na presença do presidente Prokopis Pavlopoulos (C) e do primeiro-ministro Alexis Tsipras (E).
REUTERS/Alkis Konstantinidis

07 Jul, 2015, 08:21


Tal como sucedeu com a sua nomeação, foi Varoufakis quem anunciou a demissão no Twitter. E, na hora da saída, enalteceu a vitória no referendo, deixando uma alfinetada aos credores que, subtilmente, envolve Tsipras:
Já não sou ministro

O referendo de 5 de Julho vai ficar na história como um momento único em que uma pequena nação europeia se levantou contra a servidão da dívida.

Como todas as lutas pelos direitos democráticos, também esta histórica rejeição do ultimato do Eurogrupo de 25 de Junho tem um custo elevado. É, portanto, essencial que o enorme capital outorgado ao nosso governo pelo esplêndido voto no 'NÃO' seja imediatamente investido num 'SIM' a uma resolução adequada — num acordo que envolva a reestruturação da dívida, menos austeridade, redistribuição a favor dos necessitados e verdadeiras reformas.

Pouco depois do anúncio dos resultados do referendo, fizeram-me saber de uma certa preferência de alguns participantes do Eurogrupo, e vários 'parceiros', pela minha… 'ausência' das suas reuniões; uma ideia que o Primeiro-Ministro julgou ser potencialmente benéfica para poder chegar a um acordo. Por esta razão deixo hoje o Ministério das Finanças.

Considero ser meu dever ajudar Alexis Tsipras a tirar partido, como ele entender, do capital que o povo grego nos concedeu através do referendo de ontem.

Vou usar a aversão dos credores com orgulho.

Nós, da Esquerda, sabemos como agir colectivamente sem nos preocuparmos com os privilégios da função. Darei todo o meu apoio ao primeiro-ministro Tsipras, ao novo Ministro das Finanças e ao nosso governo.

O esforço sobre-humano para honrar o bravo povo da Grécia, e o famoso OXI [NÃO] que ele deu aos democratas de todo o mundo, está apenas a começar.

06 Jul, 2015, 20:39

A fascinação cultivada por Varoufakis havia sofrido um rombo com a entrevista ao Paris Match mas, apesar de ter sido relegado para segundo plano nas negociações dentro do Eurogrupo, conseguia permanecer no palco fornecido pela comunicação social.

Chamar terroristas, em entrevista ao El Mundo, aos colegas do Eurogrupo, aos líderes políticos europeus e aos responsáveis do BCE por se recusarem a aumentar o valor da assistência de liquidez de emergência (ELA) à banca grega, foi a gota de água que fez transbordar a impaciência dos líderes europeus e de... Tsipras.

O novo ministro das Finanças grego, Euclides Tsakalotos, já era, desde Abril, o responsável pela coordenação das negociações com os credores no Eurogrupo, sendo visto como um moderado.

Filho de um engenheiro naval, Tsakalotos nasceu em 1960 em Roterdão, nos Países Baixos, e cresceu no Reino Unido, tendo frequentado a privada e exclusiva St. Paul's School por onde passaram muitos ministros britânicos, incluindo o seu homólogo George Osborne. Casado com uma escocesa, estudou Política, Filosofia e Economia na universidade de Oxford onde fez o doutoramento em 1989. Perfilha a doutrina marxista e pertence ao comité central do Syriza, sendo próximo de Tsipras.

Vai desempenhar a função de construir pontes com os ministros das Finanças dos restantes 18 países da Zona Euro com o objectivo de, partindo da estaca zero, conseguir um acordo que permita à Grécia aceder a um terceiro resgate.

Reunidos hoje no Eliseu, François Hollande e Angela Merkel abriram as portas à negociação com a Grécia, deixando advertências:

06 Jul, 2015, 19:15


Para o presidente da França cabe agora ao governo de Alexis Tsipras "fazer propostas sérias que traduzam essa vontade de ficar na Zona Euro". Sublinhou que "a Europa é um conjunto fundado em valores e princípios, numa concepção do mundo. Nesta Europa há lugar para a solidariedade. Mas também há responsabilidade". O tempo urge: 20 de Julho é o fim da linha.

"A porta está aberta a conversações, mas neste momento ainda não temos condições para as iniciar. São precisas propostas concretas e de médio prazo que assegurem a estabilidade e a prosperidade da Grécia", repetiu a chanceler da Alemanha, tendo acrescentado: "Respeitamos a decisão do povo grego, mas temos de saber qual é a vontade dos outros 18 governos do euro que foram também eleitos democraticamente."


quinta-feira, 25 de junho de 2015

Humor cimeiro


Na cimeira dos líderes da União Europeia, em que a crise na Grécia esteve na agenda, Alexis Tsipras e Angela Merkel são apanhados a rir, com o primeiro-ministro italiano Matteo Renzi no meio.




Cimeira dos líderes da União Europeia, Bruxelas, Bélgica, 25 de Junho de 2015
REUTERS/Yves Herman


segunda-feira, 23 de março de 2015

A carta de Tsipras para Merkel


O novo primeiro-ministro grego, enviou, há uma semana, uma longa carta à sua homóloga alemã, a chanceler Angela Merkel, que visitou esta segunda-feira em Berlim. Parece que uma carta semelhante foi enviada também para um grupo restrito de outros líderes europeus — François Hollande, presidente da França, Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu, e Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, estarão entre os seleccionados.

Segue-se uma dissecação profunda desta carta de Alexis Tsipras, datada de 15 de Março, feita no "Brussels Blog" do Finantial Times com intuitos pedagógicos e alguns laivos de humor:


"A carta começa por referir um acordo de 20 de Fevereiro do Eurogrupo — o conselho de todos os 19 ministros das Finanças da zona Euro, que é responsável por supervisionar a parte europeia do resgate de € 172 mil milhões à Grécia.
Essa foi a reunião em que os ministros, em última instância, decidiram prorrogar o resgate à Grécia até Junho; originalmente deveria esgotar-se no final de Fevereiro, e a perspectiva da Grécia prosseguir sem uma rede de segurança da UE tinha estimulado levantamentos maciços de depósitos bancários gregos, que muitos temiam ser o início de uma corrida aos bancos.

O primeiro parágrafo da carta também refere uma carta enviada a 18 de Fevereiro por Yanis Varoufakis, ministro das Finanças grego, para Jeroen Dijsselbloem, o ministro das Finanças holandês que preside ao Eurogrupo. O objectivo era pedir formalmente uma extensão do resgate existente, algo a que Tsipras tinha resistido desde que assumiu funções.


Cara Chanceler,

Estou a escrever-lhe para expressar a minha profunda preocupação com a evolução desde o acordo do Eurogrupo de 20 de Fevereiro de 2015, que foi precedido dois dias antes por uma carta do nosso Ministro das Finanças para definir uma série de questões que o Eurogrupo deveria resolver, questões que considero serem importantes, incluindo a necessidade de:

(a) Acordar os termos financeiros e administrativos mutuamente aceitáveis cuja execução, em colaboração com as instituições, vai estabilizar a situação financeira da Grécia, alcançar excedentes orçamentais adequadas, garantir a estabilidade da dívida e ajudar na consecução dos objectivos orçamentais para 2015, que tenha em conta a actual situação económica.

Esta é uma maneira elegante de dizer que os dois lados não chegaram a acordo sobre que medidas de reforma devem ser aprovadas antes que a Grécia possa obter parte dos € 7,2 mil milhões restantes do resgate em vigor e Tsipras quer os termos esclarecidos rapidamente.

(b) Permitir ao Banco Central Europeu reintroduzir a isenção de acordo com os seus procedimentos e regulamentos.
Dada a conjuntura económica, os bancos gregos tiveram de contrair empréstimos do BCE a preços extremamente baratos, uma vez que muitas vezes não podem levantar dinheiro para suas operações do dia-a-dia no mercado aberto. Mas o BCE precisa de garantia para esses empréstimos, e uma das formas de garantia tem sido sempre as obrigações de dívida pública detidas pelos bancos.
Bem, à medida que a situação fiscal da Grécia se deteriorava, esses títulos valiam cada vez menos — até que se tornaram demasiado arriscados, na opinião de muitos bancos centrais, para serem aceites como garantia. Esta foi a situação das obrigações gregas durante algum tempo mas, até Tsipras ser eleito, o BCE tinha uma isenção que permitia a este banco central aceitar os títulos como garantia porque Atenas estava sob um programa de resgate destinado a repor as suas finanças nos carris.
Poucos dias depois de Tsipras ter formado governo, o BCE retirou a isenção, argumentando que Atenas já não estava comprometida com a conclusão do resgate. Tsipras quer a isenção restabelecida porque, agora, os bancos gregos estão apoiados em empréstimos de emergência mais caros do banco central grego em vez da janela normal de empréstimos do BCE.


(c) Iniciar os trabalhos entre as equipas técnicas sobre um possível novo Contrato de Recuperação e Desenvolvimento que as autoridades gregas prevêem entre a Grécia, a Europa e o Fundo Monetário Internacional, para prosseguir o actual acordo.
A Grécia vai precisar de um terceiro resgate, uma vez que o programa actual termina em Junho, e Tsipras está aqui a pedir para se iniciarem conversações sobre um novo resgate.

(d) Discutir os meios para adoptar a decisão do Eurogrupo de Novembro de 2012 sobre a possibilidade de novas medidas da dívida e assistência para implementação, após a conclusão do acordo prorrogado e como parte do Contrato de acompanhamento.
Aparentemente esquecido por todos, excepto pelo governo grego (e alguns repórteres irritantes), os ministros da zona Euro concordaram, em Novembro de 2012, em conceder a Atenas um alívio adicional da dívida se o governo conseguisse um excedente primário (o que significa que recebe mais do que gasta, quando os juros da dívida não são contabilizados). Bem, a Grécia atingiu um superavit primário em 2013. E nenhum alívio da dívida foi acordado. Tsipras está a pedir para que isso aconteça no terceiro programa de resgate.

Com base na aceitação de princípio dessa carta e do seu conteúdo, o Presidente do Eurogrupo convocou a reunião de 20 de Fevereiro, que chegou a uma decisão unânime num comunicado. Este último constitui um novo quadro para a relação entre a Grécia, os parceiros e as instituições.
Isto pode parecer um floreio retórico, mas atinge algo mais profundo, que continua a assolar a relação: Tsipras considera o acordo de 20 de Fevereiro como uma ruptura com o que existia antes; os outros líderes da zona Euro, em particular na Alemanha, consideram-no simplesmente uma extensão do actual programa de resgate.

Mais precisamente, o acordo do Eurogrupo de 20 de Fevereiro estipulou um número de pontos que descrevem este novo quadro e processo, incluindo:

(a) As autoridades gregas apresentarão uma primeira lista de medidas de reforma, com base no arranjo actual, até ao final de segunda-feira, 23 de Fevereiro. As instituições vão fornecer uma visão inicial se esta é suficientemente abrangente para ser um ponto de partida para uma conclusão bem-sucedida da revisão. Esta lista será melhor especificada e, então, acordada com as instituições até ao final de Abril.

Para conquistar uma extensão, Varoufakis teve de submeter outra carta (publicada aqui) dando ao Eurogrupo uma lista de grandes reformas que Atenas tencionava executar, uma vez que o governo grego tinha insistido, durante semanas, que não iria concordar com reformas que haviam sido incluídas no actual resgate. A carta destinou-se a acalmar essas preocupações antes do Eurogrupo ter assinado a extensão. Foi bem-sucedida, embora o FMI e o BCE expressassem publicamente grandes preocupações com a lista.

(b) As autoridades gregas expressaram o forte compromisso com um processo de reforma estrutural mais amplo e profundo que vise melhorar, de forma duradoura, as perspectivas de crescimento e emprego, garantindo a estabilidade e a resiliência do sector financeiro e melhorando a justiça social. As autoridades comprometem-se a implementar reformas há muito necessárias para combater a corrupção e a evasão fiscal, e melhorar a eficiência do sector público. Neste contexto, as autoridades gregas comprometem-se a fazer o melhor uso da prestação continuada de assistência técnica.
Tsipras sempre insistiu que é a favor de reformas, e muitas das reformas que cita são totalmente abraçadas pelos credores do resgate. Mas há outras reformas que eles também querem fazer.

(c) Continuamos empenhados em dar apoio adequado à Grécia até que recupere o acesso total ao mercado, desde que respeite os seus compromissos no quadro legal.
Auto-explicativo. A zona Euro vai fornecer tanto dinheiro quanto for preciso, desde que a Grécia faça reformas.

Com base nesta plataforma comum, o Ministro das Finanças enviou ao Presidente do Eurogrupo uma carta, datada de 23 de Fevereiro de 2015, com a supracitada "primeira lista de reformas" [ver (a) acima] proposta pelo governo. Em 24 de Fevereiro de 2015 a referida "primeira lista" foi aceite pelas instituições como "suficientemente compreensível para ser um ponto de partida para uma conclusão com sucesso da revisão" de 20 de Abril de 2015.

A fim de agilizar o processo, o Ministério das Finanças enviou uma carta ao Presidente do Eurogrupo, em 5 de Março de 2015, solicitando que o processo de discussões técnicas sobre a especificação da "primeira lista de reformas" comece imediatamente. Na mesma carta, o ministro das Finanças anexou sete exemplos de como as reformas da "primeira lista" poderiam ser desenvolvidas e especificadas.

É aqui que as coisas começam a sair dos carris. A carta de Varoufakis referida (e publicada aqui) é agora conhecida pela referência a um plano para delegar indivíduos não-profissionais — incluindo os turistas — como inspectores fiscais independentes. Mas o verdadeiro problema com a carta é que enviou o processo para a direcção que muitos em Bruxelas acreditavam ser errada. Para eles, o passo seguinte era inspectores dos três monitores do resgate à Grécia virem a Atenas observar os registos da Grécia para ver quão longe dos carris o programa tinha ido. Mas a nova carta de Varoufakis deixava claro que a Grécia queria falar sobre algo completamente diferente — novas reformas e não as do programa existente.

Na sequência de uma resposta positiva por parte do Presidente do Eurogrupo (datada de 6 de Março de 2015) e da subsequente reunião do Eurogrupo de 9 de Março de 2015, a primeira ronda de discussões do Grupo de Bruxelas (que compreende as quatro instituições — CE-BCE-FMI-MEE — mais a equipa técnica do governo grego) decorreu em Bruxelas, na quarta-feira 11 de Março, lidando tanto com questões políticas como técnicas. Na mesma reunião, também foi decidido que as equipas técnicas das instituições iriam viajar para Atenas no dia seguinte para apuramento de factos in loco que ajudassem as negociações do Grupo de Bruxelas.
De novo, este parágrafo demonstra quão distantes estão os dois lados na compreensão do que deveria acontecer ao longo do último mês. Embora Dijsselbleom respondesse à carta de Varoufakis, foi mais superficial do que "positivo" (pode ler-se uma cópia aqui). E no Eurogrupo de 9 de Março a que Tsipras se refere, Dijsselbloem estava francamente irritado com o tempo despendido para conseguir os inspectores em Atenas. O "Grupo de Bruxelas" é o novo nome dado à odiada "troika" dos inspectores do resgate — a Comissão Europeia, BCE e FMI — que agora inclui uma quarta instituição, o fundo de resgate de € 500 mil milhões da zona Euro, conhecido como Mecanismo Europeu de Estabilidade.

No contexto do exposto, sinto que é fundamental alertar para uma série de acontecimentos que estão a minar o espírito do acordo alcançado ou a dificultar perigosamente o seu cumprimento.
O anterior era o prólogo. Isto é o que realmente me chateia.

(a) No dia 4 de Fevereiro, o Banco Central Europeu levantou a isenção dos requisitos mínimos de notação de crédito para instrumentos negociáveis emitidos ou garantidos pela República Helénica, embora declarando que a isenção seria restabelecida quando fosse alcançado um acordo ao nível do Eurogrupo. Além disso, desde que os bancos gregos foram encaminhados para o recurso ELA do Banco da Grécia, o BCE está a elevar o tecto do ELA em intervalos mais curtos do que o normal e incrementos bastante pequenos que estimulam a especulação e espalham incerteza vis-à-vis o sistema bancário da Grécia. Além disso, o BCE determinou que os bancos gregos não podem deter mais bilhetes do Tesouro do que tinham em 18 de Fevereiro de 2015, restringindo, assim, a sua participação para bem abaixo do limite de bilhetes do Tesouro. (Por favor, note que, no Verão de 2012, quando um novo governo de Atenas estava numa situação parecida com a nossa, a ELA foi sendo ampliada generosamente, o limite de emissão de bilhetes do Tesouro foi elevado para permitir ao governo financiar os reembolsos de dívida aos nossos credores e os bancos não estavam restritos a qualquer limite correspondente à participação numa data anterior. Dessa maneira o governo da época e o Eurogrupo acederam a "espaço" suficiente para chegar a um acordo que permitiu que aos bancos gregos afastarem-se da ELA e regressarem aos métodos normais de financiamento do BCE.)
Reunido num único lugar, é a conta inteira de particulares que Tsipras tem contra o BCE. São complexos, por isso vamos levá-los um a um. O primeiro — a referência à isenção — é o mesmo assunto mencionado no início da carta.

Quando os bancos gregos foram expulsos do programa de empréstimo de emergência normal do BCE, foram obrigados a recorrer a empréstimos mais caros a partir do banco central grego, o que é conhecido como ELA (de assistência de liquidez de emergência). Embora o banco central grego seja o credor real, o BCE tem de aprovar todos os empréstimos ELA, e eles foram mantendo o banco central grego com trela muito curta, permitindo apenas pequenos aumentos periodicamente. Tsipras pensa que mina a confiança no sistema bancário, mas o BCE acha que está apenas a exercer o seu dever fiduciário.

Por último, e, possivelmente, o mais importante para a crise de liquidez imediata da Grécia, é um limite máximo para o montante em bilhetes do Tesouro (dívida de curto prazo normalmente emitida em bilhetes do Tesouro a três meses) que pode ser comprado pelos bancos gregos. Porque os bancos gregos estão agora a depender da ELA para as operações do dia-a-dia, o BCE tem uma palavra a dizer aonde esse dinheiro é gasto. E porque a legislação da UE impede o dinheiro do banco central de ser usado para financiar governos nacionais, o BCE impôs um limite para o montante em bilhetes do Tesouro do governo grego que os bancos gregos podem comprar. Este é um grande problema porque, dada a incerteza actual, quase ninguém que não seja os bancos gregos estão a comprar bilhetes do Tesouro gregos. O BCE disse aos bancos que não estão autorizados a comprar mais bilhetes do Tesouro do que o montante realizado no dia em que a Grécia solicitou a extensão do resgate, 18 de Fevereiro (isso não era anteriormente conhecido), o que significa que, quando os seus bilhetes do Tesouro vencem, podem comprar um montante igual, mas não mais. No geral, o programa de resgate permite à Grécia emitir € 15 mil milhões em bilhetes do Tesouro, mas o limite nos bancos gregos significa que Atenas está agora, aparentemente, abaixo do limite máximo de € 15 mil milhões. Tsipras quer ser capaz de emitir mais bilhetes do Tesouro, e ter bancos gregos a comprá-los.

O parêntesis refere-se a meados de 2012, quando o predecessor de Tsipras, Antonis Samaras, tinha acabado de ser eleito e o BCE tinha regras muito mais brandas em vigor. O BCE defende que não tem dois pesos e duas medidas; a Samaras foi dada indulgência porque tinha prometido implementar o resgate e começou a fazê-lo. Tsipras, argumenta o banco central, repudiou o programa e ainda não implementou as respectivas medidas.


(b) Na sequência de fracassos passados (do governo anterior) para concluir as avaliações programadas, os desembolsos no âmbito dos contratos de empréstimo com o MEE-FEEF foram descontinuados (enquanto os do FMI foram igualmente adiados), obtendo-se uma lacuna financeira substancial em 2014 e 2015. Isso inclui os lucros provenientes do programa SMP de resgates de obrigações pelo BCE, que o BCE distribui aos Estados-membros com o entendimento de que sejam transferidos para o governo grego.
Os € 7,2 mil milhões da última tranche do resgate que Tsipras está a tentar obter inclui o financiamento de três fontes: € 1,8 mil milhões do fundo de resgate da zona Euro, € 3,6 mil milhões do FMI e um adicional de € 1,8 mil milhões de lucros de obrigações do Tesouro gregas. Estas obrigações foram adquiridas pelo BCE em 2010 para acalmar os mercados financeiros, e foi decidido em 2012 que não era adequado o BCE obter um lucro com elas — de modo que os lucros seriam enviados de volta para os governos nacionais que, por sua vez, iriam pagá-los a Atenas. O novo governo grego tem insistido repetidamente que esses lucros são devidos agora a Atenas e algumas autoridades sugeriram que poderiam ser repartidos como uma sub-tranche precoce, se as autoridades gregas implementassem rapidamente uma série de reformas. Mas a maioria dos autoridades da zona Euro — incluindo Merkel — disseram que não serão distribuídos até que a avaliação de todo o resgate esteja concluída.

Dado que a Grécia não tem acesso aos mercados financeiros, e também tendo em conta os 'picos' nos reembolsos da nossa dívida durante a Primavera e Verão de 2015 (principalmente ao FMI), deveria ser claro que as restrições especiais impostas pelo BCE [ver (a) acima], quando combinadas com os adiamentos nos desembolsos [ver (b) acima], tornariam impossível a qualquer governo cumprir as obrigações de pagamento de dívida. A manutenção destes reembolsos através de recursos internos por si só, conduziria, de facto, a uma acentuada deterioração da já deprimida economia social grega — uma perspectiva que não vou tolerar.
Este é o cerne da questão. Tsipras está a dizer que, a menos que receba dinheiro rapidamente, tem somente duas opções: deixar de pagar o que deve aos credores, incluindo o FMI, ou reduzir dramaticamente os gastos sociais. E ele não vai tolerar um corte na despesa social.

Entretanto também lamento informar que pouco progresso foi feito nas negociações entre as equipas técnicas em Bruxelas e Atenas. A razão para o progresso extremamente lento é que as equipas técnicas das instituições, bem como alguns dos actores a um nível superior, parecem mostrar pouca consideração pelo acordo de 20 de Fevereiro do Eurogrupo e estão, em vez disso, empenhadas em proceder no sentido do memorando de entendimento que é anterior tanto ao acordo de 20 de Fevereiro como a 25 de Janeiro de 2015 — a data em que o povo grego elegeu um novo governo com um mandato para negociar o novo processo estabelecido no acordo de 20 de Fevereiro do Eurogrupo. É difícil acreditar que os nossos parceiros considerem que pode ser realizado um percurso de reforma bem-sucedida sob tais constrangimentos restritivos e urgentes, incluindo o aperto financeiro sob o qual o meu governo está a trabalhar.
Isto descreve muito sucintamente o impasse. Tsipras acha que o resgate foi alterado, e o resto da zona Euro não acha. Entre as coisas que vêm com o velho estilo de fazer negócios estão inspecções intrusivas por monitores de resgate em Atenas, e que o governo grego até à semana passada não estava disposto a aceitar, uma vez que lembrou aos eleitores gregos a injuriada "troika".

O governo grego continua firme no compromisso de cumprir as obrigações para com os parceiros no quadro da carta de 18 de Fevereiro e da decisão de 20 de Fevereiro do Eurogrupo. No entanto, também sou obrigado a esclarecê-la que, a fim de continuarmos a cumprir as nossas obrigações, como temos feito até agora, tem de se progredir em várias frentes:
Aí vêm as exigências.

(a) Depois do acordo de 20 de Fevereiro do Eurogrupo e da aprovação da extensão do MFAFA pelos Estados-membros, e dado que as discussões técnicas com as instituições estão em andamento, o BCE devia devolver os termos de financiamento dos bancos gregos à situação pré-4 de Fevereiro de 2015.
Em suma, o BCE devia começar a aceitar novamente obrigações gregas como garantia.

(b) Deve ser imediatamente clarificado o processo das reformas propostas pelo governo grego, e respectiva avaliação, de modo a fazer uma conclusão bem-sucedida da avaliação até ao final do mês de Abril de 2015, bem como especificar o reinício dos desembolsos com o andamento das negociações.
Vai mesmo forçar-me a aceitar novamente inspecções da troika para ter esta coisa feita? E quando é que vai começar a dar-nos as sub-tranches de que falou?

(c) Deve ser especificado o processo (bem como os participantes e o calendário) através do qual novos acordos (que o meu governo gostaria que assumissem a forma de um "Contrato para a Recuperação e Desenvolvimento da Grécia' — incluindo disposições sobre a dívida pública da Grécia no espírito do acordo de Novembro de 2012 do Eurogrupo) serão estabelecidos antes do final de Junho de 2015.
Temos de começar as negociações sobre um terceiro resgate à Grécia, incluindo algum alívio da dívida. Mas, em vez de chamá-lo um terceiro resgate, nós gostaríamos de chamá-lo "Contrato para a Recuperação e Desenvolvimento da Grécia".

Em conclusão, a Grécia está empenhada em cumprir as suas obrigações de boa fé e em estreita colaboração com os seus parceiros. Para esta finalidade, estamos comprometidos integralmente com o processo especificado no acordo de 20 de Fevereiro do Eurogrupo, de modo a começar imediatamente o trabalho de implementação de reformas cruciais para as perspectivas de desenvolvimento a longo prazo da nossa economia dentro de uma Europa inclusiva. Com esta carta, estou a alertá-la para que não permita que um pequeno problema de liquidez, e uma certa "inércia institucional", se transforme num grande problema para a Grécia e para a Europa.

Alexis Tsipras

Isto não vai ficar mais fácil para nenhum de nós."



Encontro realizado à margem da cimeira europeia da quinta-feira passada que foi concluído perto das 02:30 locais desta sexta-feira (01:30 de Lisboa). À volta da mesa, além da chanceler alemã, Angela Merkel, e do presidente francês, François Hollande, estão o presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, o presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, sentado entre o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, e o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, anfitrião do encontro.
Juncker e Tusk anunciaram na sexta-feira, que a União Europeia colocou à disposição da Grécia 2 mil milhões de euros provenientes de fundos europeus não utilizados.
Finantial Times




*

Durante décadas, os governos gregos viciaram-se em contrair dívida pública. Antonis Samaras cortou esta dependência, obteve um superavit primário e foi penalizado nas eleições.

Agora Alexis Tsipras pretende continuar a alimentá-la através de um terceiro resgate, a que chama pomposamente "Contrato para a Recuperação e Desenvolvimento da Grécia", pago pelo MEE, o fundo de resgate da zona Euro sustentado, obviamente, pelos contribuintes dos restantes 18 países do euro. E não se quedando satisfeito, ainda reivindica um novo alívio da dívida, ou seja, quer ferrar-nos outro calote. Internem este doido furioso.


domingo, 11 de janeiro de 2015

Manifestação histórica em França contra o terrorismo islamita


Depois do ataque ao jornal satírico Charlie Hebdo na quarta-feira, do tiroteio contra os polícias em Montrouge, na quinta-feira, e do sequestro num supermercado kosher em Vincennes pelo atirador de Montrouge, na sexta, que provocaram um total de 17 vítimas, a manifestação contra o terrorismo islamita levou, este domingo, cerca de 4 milhões de pessoas para a rua por toda a França.

A marcha em Paris reuniu mais de 1 milhão de pessoas, tornando-se o acontecimento mais importante desde a Libertação em 1944.
Quase cinquenta chefes de Estado e de governo estiveram hoje presentes em Paris para homenagear as vítimas dos atentados no Charlie Hebdo, em Vincennes e Montrouge. Na fila da frente desfilaram Angela Merkel e David Cameron, mas também Mahmoud Abbas e Benjamin Netanyahu.



A estátua alegórica da Praça da República, em Paris, foi o local privilegiado pelos manifestantes desde quarta-feira à noite.
AFP/Loic Venance


Os manifestantes prestaram homenagem às 17 vítimas dos atentados com o lema "Eu sou Charlie".
AFP/Joel Saget


No percurso da Praça da República à Praça da Nação, em Paris, os franceses agitaram as bandeiras tricolores e cantaram a "Marselhesa".
AFP/Jean-François Monier


A manifestação teve início às 15:30, mas uma hora antes já a Praça da República estava cheia.
AFP/Bertrand Guay


O mar de gente da Praça da República visto do céu.
AFP/Kenzo Tribouillard


A manifestação em Paris durou até às 21h.
AFP/Bertrand Guay


François Hollande recebeu cerca de 50 dirigentes mundiais no Palácio do Eliseu que depois incorporaram a marcha de Paris.
AFP/Dominique Faget


Na primeira fila: o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu, o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy, o presidente do Mali, Ibrahim Boubacar Keita, o presidente francês François Hollande, a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas.
AFP/Philippe Wojazer


Imagens aéreas da manifestação republicana
Le Monde.fr | 11.01.2015


Le Monde.fr | 11.01.2015 à 16h47


Outras cidades francesas também se associaram a esta manifestação histórica:



25 mil pessoas desfilaram em Reims.
AFP/François Nascimbeni


60 mil manifestaram-se em Marselha.
AFP/Anne-Christine - Poujoulat


Uma maré humana de 300 mil pessoas desfilou em Lyon.
AFP/Jean-Philippe Ksiazek


100 mil manifestaram-se em Bordéus.
AFP/Nicolas Tucat


Mais de 100 mil manifestantes em Rennes.
AFP/Jean-François Monier


A multidão que se manifestou junto ao mar Mediterrâneo, em Nice.
AFP/Valery Hache


*

Nos últimos tempos houve uma escalada de ataques islamitas em França. Depois do caso ocorrido em Joué-lès-Tours, em que um jovem entrou no comissariado com uma faca na mão a gritar "Allahu Akbar" (Deus é grande), ferindo três polícias antes de ser baleado, o primeiro-ministro Manuel Valls alertou para a singularidade da época actual em França: "Nunca experimentámos um perigo tão grande em matéria de terrorismo."
Valls pediu aos franceses para reagirem ao fenómeno do envolvimento dos jovens com a jihad: "Temos mais de mil pessoas envolvidas na jihad na Síria ou no Iraque, mais de 300 estão lá, 56 ou 57 morreram, isto mostra o grau de envolvimento (...). Muitos foram para lá, muitos querem ir, muitos têm regressado felizmente. Isto deve desafiar a sociedade francesa."

Na Alemanha, os líderes do movimento Pegida pretendem denunciar a islamização da sociedade, a ausência de direitos humanos para as mulheres muçulmanas e a existência de sistemas alternativos de justiça impiedosos como a sharia, mas os políticos alemães têm procurado associar os activistas anti-islão aos neonazis.
Na sua mensagem de Ano Novo, a chanceler Angela Merkel disse que os apointes do Pegida têm “ódio nos seus corações”, mobilizando os alemães contra as manifestações do movimento e fazendo gorar a manifestação de Berlim.

A sede do semanário satírico francês Charlie Hebdo foi atacada em 7 de Janeiro de 2015, no mesmo dia em que Soumission, escrito por Michel Houellebecq, chegou às livrarias. Justamente o escritor que foi satirizado no número do Charlie Hebdo saído nessa quarta-feira trágica, no cartoon publicado na primeira página.


A última edição do Charlie Hebdo, publicada em 7 de Janeiro de 2015.
AFP/Bertrand Guay

Mas por que motivo os cartoonistas assassinados assestaram os seus lápis contra o escritor, transformando-o no mago Houellebecq?
Porque, no livro, o islamismo triunfa e dá um Presidente muçulmano à França. Trata-se de um islamismo suave, chegado ao poder pela via democrática, sem confrontos.
Um islamismo que deriva de uma hipotética incompetência dos dois grandes partidos republicanos da direita e da esquerda que teriam conduzido o País para um pântano onde chafurda uma classe branca, afortunada, educada, dominante, que se submete aos medos que criou no povo e ao inimigo que deixou instalar dentro das fronteiras.
Um islamismo politicamente correcto que cria o partido da Fraternidade Muçulmana oportunisticamente aliado ao Partido Socialista para vencer a extrema-direita. Seria muito natural, descreve Houellebecq, que os muçulmanos em França tivessem um partido que os representasse com os valores tirados do Islão, o que obrigaria à refundação do sistema educativo francês sobre uma base islâmica e reconduziria as mulheres ao seu papel doméstico e procriador.

Mas os cartoonistas do Charlie Hebdo não morreram em vão. Quase 4 milhões de franceses perderam o medo e, insubmissos, manifestaram-se em defesa dos valores da República.
Dezenas de dirigentes políticos mundiais aliaram-se ao povo, deliberadamente ou para atenuar a revolta libertada e participaram na marcha de Paris contra o terrorismo islamita. Na primeira fila François Hollande e Angela Merkel. Ladeados por Mariano Rajoy (Espanha), David Cameron (Reino Unido), Jean-Claude Juncker (Comissão europeia) e Matteo Renzi (Itália). A Europa Unida com Paris a ser hoje a capital. Ninguém se importou com a ausência de Barack Obama.

Esta manifestação veio reforçar os valores da República Francesa — Liberdade, Igualdade, Fraternidade é o seu lema — e da sociedade europeia, aberta e laica que erradicou a pena de morte e onde tudo é tolerado excepto a prática ou a apologia da violência. Quem escolher a França para viver, não importa qual o país de origem, a cultura ou a religião professada, terá de aprender a respeitá-los. Parafraseando o provérbio “Em Roma, sê romano”, poder-se-á concluir que “Na Arábia Saudita, sê árabe” mas “Na Europa, sê europeu”.


terça-feira, 6 de janeiro de 2015

O drama grego novamente em cena - I


Os bancos alemães têm uma exposição à dívida da Grécia de cerca de 23,5 mil milhões de euros mas o risco sistémico é limitado porque os maiores bancos comerciais, o Deutsche Bank e o Commerzbank, detêm apenas uma pequena percentagem deste montante total, de acordo com dados recolhidos pela Reuters.

No entanto, o mesmo não se pode dizer do banco estatal de desenvolvimento KfW que emprestou 15 mil milhões de euros ao Estado grego, segundo o Bundesverband deutscher Banken (BdB), a entidade que representa os interesses dos bancos comerciais privados alemães.
O BdB revelou que, do crédito alemão à Grécia, 4,6 mil milhões foram para bancos, 3,6 mil milhões para empresas e particulares, e 15,2 mil milhões de euros para o Estado grego.

O Commerzbank tinha, no final de Setembro de 2014, cerca de 400 milhões de euros de exposição às empresas, bancos e dívida pública da Grécia, e o Deutsche Bank apenas 298 milhões de euros.

Por outro lado, um estudo elaborado pela JP Morgan, e citado pela Reuters, descobriu que o banco francês Crédit Agricole é o banco comercial europeu mais exposto à Grécia: a instituição, no final de 2013, tinha investido 3,5 mil milhões de euros no desenvolvimento da economia grega, dos quais 2,8 mil milhões no sector do transporte marítimo, e nada em dívida pública.

O maior banco da França, o BNP Paribas, tinha uma exposição à Grécia de cerca de 700 milhões, no final de 2013, tendo a maior parte dos empréstimos sido concedidos a empresas e nada em dívida do Estado grego, de acordo com dados fornecidos pelo próprio banco. Havia uma exposição adicional de mais 1,3 mil milhões de euros, mas é crédito concedido a empresas gregas não ligadas à situação económica grega, como sejam as empresas de transporte marítimo.
Por sua vez, a Société Générale tinha uma exposição de 300 milhões de euros a empresas gregas, mas não tinha dívida pública do país no final de Setembro.

"A exposição de crédito dos bancos alemães à Grécia é baixo", disse o presidente do BdB, Thomas Kemmer, em comunicado. "É por isso que, se a Grécia entrasse em insolvência, os efeitos directos sobre os bancos alemães poderiam ser superados. Até mesmo os efeitos de contágio que acompanhariam uma saída [da Zona Euro] poderiam ser melhor suportados do que há dois ou três anos."

Efectivamente, uma notícia do Wall Street Journal, de Fevereiro de 2010, três meses antes do primeiro resgate à Grécia ocorrido em Maio de 2010, apontava que a banca francesa e alemã, detinha, em conjunto, uma exposição à Grécia de cerca de 119 mil milhões de euros. Valor que subia até aos 900 mil milhões de euros, tendo em conta também a exposição à Irlanda, Portugal e Espanha.

No próximo dia 25 de Janeiro, os gregos vão escolher o próximo Governo e as sondagens mostram que o Syriza, um partido de extrema-esquerda, lidera as intenções de votos. Como este partido sempre disse ser contra a austeridade e querer uma segunda reestruturação da dívida pública grega, se vencer as eleições e não cumprir os compromissos financeiros assumidos com os parceiros europeus e internacionais, a Grécia poderá sair da Zona Euro.

A Alemanha, a maior economia europeia, já disse que há duas vias: a Grécia pode permanecer na Zona Euro após as legislativas desde que mantenha os compromissos assumidos pelo governo ainda em funções; se o futuro governo grego recusar cumprir os compromissos assumidos pelo Estado e insistir em reestruturar a dívida pública, a União Europeia está preparada para a saída da Grécia da Zona Euro.

O presidente francês secundou: "Os gregos são livres de decidir o seu destino. Dito isto, há determinados compromissos que foram assumidos e todos eles devem naturalmente ser respeitados." Contudo deixa aos gregos a decisão sobre a permanência no euro "porque é uma escolha que só a eles cabe". François Hollande sabe que os tratados europeus não prevêem a expulsão de países da Zona Euro.



Cartoon publicado no jornal "Ekathimerini"


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Após a adesão da Grécia à União Europeia em 1981, os gregos usufruíram dos fundos estruturais europeus sem se preocuparem com a corrupção que grassava nos partidos políticos onde votavam, e também entre políticos e empresários, porque o dinheiro chegava para todos.

Passado o período de transição, os fundos diminuíram. Então “embelezaram” as contas públicas para poderem entrar na Zona Euro em 2001, gozarem dos benefícios da moeda única e acederem a empréstimos com taxas de juros reduzidas. A máquina administrativa do Estado engordou e prosperou, as prestações sociais multiplicaram-se e os gregos desfrutavam de um óptimo nível de vida.
A dívida pública crescia, mas ninguém se importava, até que as taxas de juro dos empréstimos pedidos para financiar os défices também começaram a crescer e a dívida grega tornou-se incontrolável. No final, o crédito cessou e o governo socialista de maioria absoluta do PASOK pediu assistência financeira externa em Maio de 2010, no valor de 110 mil milhões de euros.

O problema é que as ajudas financeiras vêm sempre associadas a medidas de austeridade e, apesar de ficarem longe de ter sido cumpridas, a Grécia passou a viver entre manifestações e greves. O governo do primeiro-ministro George Papandreou viu-se obrigado a pedir um segundo resgate de 130 mil milhões que só foi concedido em Fevereiro de 2012.

Este segundo resgate à Grécia impôs a perda de 53,5% da dívida soberana grega detida pelas instituições financeiras privadas, tendo sido responsável pelos elevados prejuízos da banca portuguesa em 2011.

Entretanto os deputados do PASOK fugiram em debandada, o governo deixou de ter apoio parlamentar, Papandreou pediu a demissão em Novembro de 2011 e a Grécia partiu para eleições antecipadas.

No dia 6 de Maio de 2012 foi a vez dos eleitores fugirem do PASOK e repartirem os votos pelos novos partidos que nasciam da instabilidade como os cogumelos nascem depois da chuva. Não foi possível formar um governo e os gregos tiveram de voltar às urnas em 17 de Junho desse ano.

O Syriza, um partido da esquerda radical, liderava as sondagens e já se imaginava no poder, mas foi o Nova Democracia, um partido de centro-direita, que voltou a ganhar as eleições e agora com um número de deputados suficientes para formar um governo de coligação com o socialista PASOK e a Esquerda Democrática.

No final de 2014, este governo de bloco central caiu porque não conseguiu eleger o Presidente da República e o país seguiu para novas eleições antecipadas.
Voltou a estar em cena a peça teatral estreada na Primavera de 2012: o Syriza lidera as sondagens referentes às legislativas do próximo dia 25 de Janeiro e as cotações dos bancos caiem nas bolsas mundiais para antecipar as perdas causadas por uma hipotética futura insolvência da Grécia.

O Syriza promete electricidade grátis para os mais pobres e subida do salário mínimo nacional para chegar ao poder. No entanto, estas medidas não assustam os investidores: serão pagas pela classe média grega com um aumento de impostos.
E se um governo do Syriza exigir um segundo perdão da dívida pública grega, os bancos da França e da Alemanha já diminuíram radicalmente a exposição à Grécia para superarem as consequências e as bolsas mundiais já estão a antecipar os prejuízos. A Grécia vai ficar isolada na Zona Euro, assumir a insolvência e sair.

Não acredito, porém, que tal situação venha a ocorrer: os gregos vão preferir a austeridade à fome e o Syriza, se ganhar as eleições, vai ser o filho rebelde da Zona Euro, sempre tentando equiparar robalos e douradas com audis e mercedes, mas cumprindo o suficiente para usufruir dos fundos estruturais europeus e manter o conforto de pertencer à família mais rica do planeta.


sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Desta vez Obama ultrapassou a linha vermelha


Um documento confidencial publicado pelo jornal britânico The Guardien demonstra que a Agência Nacional de Segurança (NSA) dos Estados Unidos pôs sob escuta os telefones de 35 líderes mundiais.





Um memorando confidencial, obtido através do analista informático Edward Snowden que trabalhou para a NSA, revela que esta agência incentiva altos funcionários dos departamentos seus "clientes" — a Casa Branca, o Departamento de Estado e o Pentágono —, a partilhar as "Agendas de telefones" com a agência para que esta possa acrescentar os números de telefone de líderes políticos estrangeiros aos seus sistemas de vigilância.

Eis o teor do memorando:

Os clientes podem ajudar o SID [Direcção de Informação de Sinal] a obter números de telefone alvo

Data: 10 de Outubro de 2006

Num caso recente, um funcionário dos EUA forneceu à NSA 200 números de telefone de 35 líderes mundiais. Os operadores de S2 entregaram imediatamente esta informação aos centros de produção do S2 (PCs). Apesar da maioria, provavelmente, estar disponível em fonte aberta, os PCs anotaram 43 números de telefone previamente desconhecidos. Esses números, além de vários outros, têm sido monitorizados pelo OCTAVE.

Até agora, os PCs anotaram pouca informação reportável a partir destes números específicos, que parece não terem ser usados para discussões sensíveis. No entanto, estes números têm fornecido informações sobre outros números que, posteriormente, foram monitorizados.

Este sucesso leva o S2 a perguntar se existem ligações da NSA cujos clientes podem estar dispostos a partilhar as suas 'Agendas de telefones' ou listas de telefones com a NSA como fontes potenciais de informação. O S2 acolhe com prazer tal informação!


Segundo o jornal Público, a NSA não pretendia com este memorando sugerir uma nova prática, mas relembrar procedimentos enraizados: “De tempo a tempo, é disponibilizado à SID acesso às listas de contactos pessoais de funcionários dos EUA. Tais agendas de telefone podem conter informações sobre os contactos de líderes políticos ou militares estrangeiros, incluindo linha directa, fax, morada e números de telemóveis.

Portanto tal vigilância não foi um acto isolado. A agência não só tem por rotina a função de escutar os líderes mundiais, como também pede a ajuda dos “clientes” para fazê-lo.





Os aliados europeus dos EUA não gostaram de saber que têm os telefones sob escuta. Mesmo que Obama tenha acabado com esta prática da administração Bush quando chegou à Casa Branca em 2009, algo que não está garantido, como actual presidente dos EUA devia ter apresentado desculpas aos líderes dos países aliados que têm ou, pelo menos, tiveram os telefones sob escuta.

A chanceler alemã, Angela Merkel, telefonou a Barack Obama para manifestar o seu desagrado. Para aliviar a tensão, a Casa Branca emitiu um comunicado de imprensa através do seu porta-voz: “O Presidente garantiu que os Estados Unidos não estão a monitorizar, nem vão monitorizar as comunicações [da chanceler]". Mas não conseguiu resolver o assunto, porque os EUA não negaram ter escutado o telefone no passado.

Chegada a Bruxelas para uma reunião cimeira da União Europeia, Merkel acusou os EUA de quebra de confiança. "Precisamos de confiar nos nossos aliados e parceiros, e isso deve ser estabelecido novamente. Repito que a espionagem entre amigos não é de todo aceitável contra qualquer pessoa, o que abrange todos os cidadãos da Alemanha."


REUTERS/Tobias Schwarz