terça-feira, 14 de julho de 2015

Entrevista de Passos Coelho à SIC


Em entrevista à SIC, conduzida pela jornalista Clara de Sousa, o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho salientou que é preciso uma maioria estável e inequívoca na próxima legislatura, mas não quer uma vitória nas eleições legislativas "custe o que custar".

22:36 14.07.2015


Sobre a Grécia:
Passos Coelho voltou a dizer que não defendeu, nem defende a saída da Grécia do euro. Acrescentou que até foi uma sua sugestão que conseguiu desbloquear o impasse sobre o fundo de privatizações e permitiu chegar a um acordo de princípios na Cimeira do Euro de 12 de Julho.
Quanto à ligação entre o Syriza e o Partido Socialista diz que não cola nenhum rótulo, mas constata que este partido não tem tido uma posição linear na análise ao comportamento do Syriza.

Sobre a política económica:
Já sobre o programa eleitoral de António Costa, diz que, em matéria de política económica, não é realista porque propõe alicerçar o crescimento económico no consumo interno, exactamente o que conduziu Portugal à situação de dependência externa e a um desequilíbrio macroeconómico que nos custou muito a corrigir.

Dizer aos trabalhadores que vão descontar menos para a Segurança Social, por contrapartida de pensões mais baixas no futuro, para terem mais dinheiro para gastar hoje, porque o que é importante para criar emprego e fazer a economia crescer é pôr as pessoas a gastar mais dinheiro, é uma estratégia que eu considero arriscada.
E, sobretudo, já provou no passado que conduz o País a desequilíbrio externo e à não criação de condições para um crescimento sustentado. Aconteceu em 2009, embora com fins eleitoralistas, aumentaram-se os salários dos funcionários públicos, baixaram-se os impostos, portanto deu-se mais dinheiro às pessoas para gastar. Foi Sol de pouca dura. A seguir teve de fazer-se tudo ao contrário: cortar tudo — contrair a economia, no fundo — porque se tinha sido imprudente.


Pelo contrário, a coligação pretende uma recuperação económica liderada pelas exportações e pelo aumento do investimento.

Sobre a política financeira:
Passos Coelho pretende que a sobretaxa no IRS seja removida gradualmente nos próximos quatro anos, se as condições económicas e financeiras o permitirem, até mais depressa.
Outro objectivo é remover totalmente os cortes de salários na administração pública e reduzir a carga fiscal dos portugueses.

Sobre a política social:
Dado que os sistemas previdenciais públicos são deficitários, voltou a desafiar o líder do Partido Socialista para uma reforma da Segurança Social.

Sobre a percepção de que mentiu nas legislativas de 2011:
Passos Coelho recorda que, no memorando assinado pelo anterior governo, previa-se, em 2010, um défice de 7 ou 8% e fixava-se para 2011 um défice de 5,9%.
Na verdade, encontrou um défice de 10%. Portanto "pedia-se a Portugal que passasse de um défice, não de 7 ou 8%, mas de 10%, para um défice de 5,9%". Passos Coelho conclui: “Tivemos de fazer uma correcção do défice de 4 pontos percentuais do PIB. Sabe quanto a Irlanda tinha de alcançar no mesmo ano? 0,1%.”
Para evitar que Portugal caísse numa situação como aquela em que se encontra hoje a Grécia, “tomámos a decisão de transformar um programa que não era cumprível, num programa que fechasse e de que nos pudéssemos ver livres”.

Sobre as presidenciais de 2016:
O primeiro-ministro não fala sobre as eleições presidenciais de Janeiro de 2016 antes de ocorrerem as legislativas do próximo mês de Outubro.


*


Passos Coelho contornou a questão difícil da reforma das pensões — António Costa já revelou que vai diminuir as pensões, embora adoçando a medida com uma diminuição das contribuições durante um par de anos, e afundou-se nas sondagens — desafiando o líder dos socialistas para uma decisão conjunta.

E disse a verdade sobre o memorando do resgate — o governo de Sócrates aldrabou os défices através das desorçamentações, por isso Bruxelas teve de mudar as regras contabilísticas — mas não contou que conhecia as aldrabices socialistas.

Enfim, uma entrevista lúcida e a apontar para a maioria absoluta.


segunda-feira, 13 de julho de 2015

Os resultados dos exames nacionais 2015


Os quadros seguintes apresentam as classificações médias obtidas nos exames nacionais de 2015 e foram elaborados a partir da informação divulgada pelo Júri Nacional de Exames.
Remetemos os encarregados de educação que desejam conhecer os resultados dos seus educandos para o sítio na Internet do respectivo agrupamento de escolas/escola não agrupada.

Começamos pelos resultados dos exames do Ensino Básico 3º ciclo divulgados em 9 de Julho:




O quadro seguinte foi elaborado a partir dos resultados dos exames do Ensino Secundário divulgados hoje:




O leitor pode seleccionar, neste calendário, a disciplina e a data para obter os enunciados e os critérios de classificação dos exames nacionais de 2015.

O Júri Nacional de Exames (JNE) divulgou também dois estudos sobre a distribuição das classificações dos exames:


Os quadros acima apresentam as classificações médias dos exames realizados pelos alunos internos, ou seja, os que frequentam as aulas durante o ano lectivo inteiro e obtêm aproveitamento para ir a exame, mas também as suas classificações médias de frequência.
Há alguns alunos que anulam a matrícula por terem baixo aproveitamento, ou frequentam cursos profissionais, ou estudam por sua conta e risco. Todos estes alunos são externos ao sistema de ensino e autopropõem-se a exame.
O estudo divulgado para o ensino secundário permite comparar os resultados dos examinandos internos e externos em 2013, 2014 e 2015.

Do comunicado do IAVE de 9 de Julho, destacamos as seguintes informações:
À semelhança do que se verificou no caso das provas finais do 1.º e do 2.º CEB de 2015, as classificações médias das provas finais do 3.º CEB mantêm-se estáveis quando comparadas com os resultados de anos anteriores e sem variações com relevância assinalável.
Tendo como referência os resultados de 2014, a maior variação é de cinco pontos percentuais (numa escala de 0 a 100%) e, se se considerar o período compreendido entre 2010 e 2015, não ultrapassa 10 pontos percentuais: na disciplina de Português, as classificações médias foram 57% em 2010, 51% em 2011, 54% em 2012, 49% em 2013 e 56% em 2014; na disciplina de Matemática, as classificações médias foram 51% em 2010, 44% em 2011, 54% em 2012, 44% em 2013 e 53% em 2014.
(...)
Quando considerados os resultados por domínio nas disciplinas de Português e de Matemática, também não se verificam oscilações estatisticamente relevantes em relação aos resultados das provas de 2014. Apresentam-se seguidamente os valores da classificação média em relação à cotação por domínio.

Português — Leitura: 70% (63% em 2014); Educação Literária: 52% (53% em 2014); Gramática: 42% (51% em 2014); Escrita: 67% (62% em 2014).

Matemática — Números e Operações: 55% (51% em 2014); Geometria: 42% (44% em 2014), Álgebra: 49% (55% em 2014); Organização e Tratamento de Dados: 67% (73% em 2014).

O comunicado do Ministério da Educação e Ciência dá algumas estatísticas relativas à logística:
No processo de classificação das provas finais do 3.º ciclo estiveram envolvidos 4557 professores classificadores do 3.º ciclo do ensino básico, cujo empenhado trabalho foi fundamental para um rigoroso cumprimento dos prazos previstos para afixação das pautas. Na totalidade das provas finais do 3.º ciclo do ensino básico estiveram ainda envolvidos cerca de 10 000 docentes vigilantes e pertencentes aos secretariados de exames das escolas, cujo papel e desempenho foi fundamental para que a 1.ª fase tenha decorrido sem problemas de maior.

As provas finais do 3.º Ciclo do Ensino Básico de 2015 foram realizadas em 1279 escolas localizadas em Portugal Continental, nas Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira e nas escolas no estrangeiro com currículo português.

O MEC salienta que as provas de avaliação externa têm como principal objetivo orientar alunos e professores no seu trabalho e, simultaneamente, as escolas, o IAVE e o MEC. A todos cabe uma reflexão, uma análise e uma resposta não precipitada, que conduza a melhorar o ensino destas importantes disciplinas e os seus resultados.

Do comunicado do IAVE sobre os resultados do Ensino Secundário, destacamos as seguintes informações:
Os resultados dos exames finais nacionais de 2015, tendo por referência o universo dos alunos internos, revelam um quadro de relativa estabilidade na generalidade das disciplinas.

Considerando a natureza pública das provas e a interferência que este fator exerce na sua conceção e na variação anual dos resultados, qualquer análise deve ter em conta uma série temporal mais longa, que permita uma comparação de resultados de 5 ou mais anos.

Não obstante a estabilidade dos programas, é de salientar que, por um lado, nas disciplinas trianuais (12.º ano), 2015 é o primeiro ano em que os conteúdos do 10.º ano integram obrigatoriamente o objeto em avaliação, fator que pode explicar as oscilações de maior amplitude nos resultados observados entre 2014 e 2015. Por outro, a conceptualização das provas, tendo em conta o carácter público dos itens, não pode permanecer cristalizada nos mesmos conteúdos e capacidades, sob pena de excluir, da avaliação externa, partes significativas do currículo. As provas são objeto de consultorias e de auditorias de especialidade, quer por professores do ensino secundário, quer por professores do ensino superior, bem como de parecer prévio pelas entidades representadas no Conselho Científico. No geral, as provas foram consideradas adequadas, tanto no que respeita à sua relação com os documentos curriculares, como em relação ao público-alvo.
(...)
Uma nota especial para os resultados das disciplinas de Matemática A e de Biologia e Geologia.

No caso da Matemática A, a introdução, pela primeira vez, de conteúdos do 10.º ano é um fator que explica parcialmente a evolução positiva dos resultados, quando comparados com 2014. Adicionalmente, a conceção das provas de 2015 teve em conta diversos pareceres de especialistas, que incluem as entidades com assento no Conselho Científico, que consideraram que o peso que tinha vindo a ser atribuído ao cálculo era excessivo, que a prova deveria conter pelo menos um item de modelação matemática e mobilizar capacidades relacionadas com o conhecimento de conceitos e procedimentos, como já acontecera em diversas provas de anos anteriores. Foi nestes itens (itens 1. a 4. do Grupo I) que se observou uma melhoria considerável dos resultados.

No que respeita à prova de Biologia e Geologia, cuja conceção é em tudo semelhante às provas de 2013 e 2014, verificou-se que os alunos não dominam conteúdos curriculares essenciais que foram avaliados em itens que apelavam sobretudo ao conhecimento e à compreensão simples de conceitos e cujos resultados ficaram aquém do que seria expectável. São exemplos de itens com um resultado inferior ao expectável, tendo por referência provas de anos anteriores, os itens 4., 5. e 7. do Grupo IV.

O comunicado do Ministério da Educação e Ciência relativo ao Ensino Secundário acrescenta algumas estatísticas:
Os exames finais nacionais do ensino secundário foram realizados em 649 escolas em Portugal continental e nas regiões autónomas dos Açores e da Madeira, bem como nas escolas no estrangeiro com currículo português. Na 1.ª fase, obrigatória para todos os alunos, foram registadas 344 017 inscrições, tendo sido realizadas 319 409 provas, o que corresponde a cerca de 93% das inscrições.
(...)
Nesta 1.ª fase dos exames finais nacionais, 7289 docentes pertencentes à bolsa de professores classificadores do ensino secundário e 10 000 docentes vigilantes contribuíram para este processo de avaliação externa.

As classificações obtidas na 1.ª fase evidenciam, na generalidade, uma melhoria relativamente ao ano anterior.

Analisando os dados relativos aos alunos internos, verifica-se uma média das classificações inferior a 9,5 valores apenas na prova de Biologia e Geologia (702), com 8,9 valores. Registou-se uma melhoria superior a meio valor na classificação média de exame dos alunos internos em nove das 22 disciplinas. Em seis das 22 disciplinas, a média das classificações reduziu mais de meio valor.

Tendo em consideração as disciplinas com um maior número de alunos internos, destaca-se a subida da classificação média nas disciplinas de Matemática A (635) (2,8 valores), Matemática Aplicada às Ciências Sociais (835) (2,3 valores) e Economia A (712) (1,1 valores) e a descida da classificação média na disciplina de Biologia e Geologia (702) (2,1 valores).

Com exceção das disciplinas de Alemão (501) e Inglês (550), com maioria de alunos autopropostos, os alunos internos obtêm classificações mais elevadas do que as alcançadas por aqueles, à semelhança dos anos anteriores. As diferenças mais significativas, entre os resultados dos alunos internos e dos autopropostos, observam-se nas disciplinas de Geometria Descritiva A (708) e de Matemática A (635), com 4,7 e 5,2 valores de diferença, respetivamente. Pelo contrário, verifica-se nas disciplinas de Física e Química A (715) e de Biologia e Geologia (702) a diferença mais baixa entre os resultados dos alunos internos e dos autopropostos, com 1,3 valores.
(...)
O Ministério da Educação e Ciência (MEC) salienta a importância dos exames serem um referencial no processo de avaliação dos alunos, devendo manter-se com um grau de exigência global semelhante ao longo dos anos. Foi exatamente isso que foi indicado na carta pública de solicitação enviada pelo MEC ao Instituto de Avaliação Educativa (IAVE), a entidade independente responsável pela elaboração das provas. Terminada a 1.ª fase de exames e conhecidos os resultados dos alunos, será necessário que o IAVE e organismos responsáveis do MEC tornem a proceder a uma análise pormenorizada das provas e resultados, tendo em vista avaliar em que grau se tem atingido, ou não, o objetivo preconizado.



A mais longa cimeira da União Europeia alcançou um acordo


"A Cimeira do Euro alcançou um acordo por unanimidade. Tudo preparado para o programa MEE para a Grécia, com reformas sérias e apoio financeiro."

Com este tweet, Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, anunciou que foi alcançado um acordo com a Grécia.



Que 17 horas após o início da cimeira dos líderes da Zona Euro — a mais longa da União Europeia, de sempre — se tenha logrado um acordo por unanimidade, é uma notícia surpreendente e sensacional.

Desde a madrugada que se sabia que faltava resolver apenas duas questões:
  • A Grécia não aceitava o envolvimento do FMI no programa de resgate a partir de Março de 2016, data do fim do actual programa, e
  • considerava que 50 mil milhões de euros de vendas de activos gregos, a serem depositados num fundo independente com o objectivo de baixar a dívida grega, era um valor demasiado elevado. Tsipras também recusava que esse dinheiro fosse guardado num fundo sediado no Luxemburgo, defendendo que o dinheiro devia manter-se em Atenas.

Alexis Tsipras conseguiu um acordo para vir a negociar um resgate até 86 mil milhões de euros durante 3 anos, mas teve de aceitar a participação do FMI que a chanceler alemã Angela Merkel declarou essencial para obter o apoio parlamentar em Berlim.

Na semana que agora começa, Tsipras terá que conseguir aprovar extensa legislação no parlamento grego para convencer os seus 18 parceiros do euro a desbloquearem um empréstimo de curta duração que evite a bancarrota da Grécia e a iniciarem as negociações para um terceiro resgate.

13 Jul, 2015, 14:03


O comunicado de imprensa desta cimeira revela que quatro medidas radicais — onde se incluem a reforma do IVA, reforma das pensões, independência do instituto de estatística e cortes de despesas desencadeados por desvios das metas orçamentadas — devem estar legisladas até quarta-feira, 15 de Julho.

Estas medidas devem ser implementadas e todo o pacote legislativo contido no comunicado ser aprovado pelo parlamento grego, com confirmação das instituições — FMI/CE/BCE — e do Eurogrupo, antes das instituições serem mandatadas para negociar um Memorando de Entendimento (MoU).

Para concluir com êxito o MoU, a Grécia terá de propor um conjunto de reformas estruturais em áreas identificadas pelas instituições, com um calendário satisfatório para legislação e implementação dessas propostas.

As autoridades gregas devem transferir activos do Estado helénico no valor de 50 mil milhões de euros para um fundo independente que os converterá em moeda através de privatizações ou outros meios. Deste montante, 25 mil milhões serão usados na recapitalização dos bancos, 12,5 mil milhões para abater a dívida e o remanescente será usado em investimentos.
Este fundo ficará sediado na Grécia e será gerido pelas autoridades gregas sob a supervisão de instituições europeias relevantes.

"Os compromissos acima mencionados são requisitos mínimos para o início das negociações com as autoridades gregas", continua o comunicado. Contudo a Cimeira do Euro não exclui qualquer possível acordo para um novo programa do MEE, mas toma nota da um possível financiamento entre 82 e 86 mil milhões de euros.

Também anota as necessidades de financiamento urgentes da Grécia, estimadas em 7 mil milhões até 20 de Julho e mais 5 mil milhões em meados de Agosto.

"A Cimeira do Euro está ciente de que uma decisão rápida sobre um novo programa é uma condição para permitir a reabertura dos bancos", prossegue o documento.

Sobre a dívida, "o Eurogrupo continua preparado para considerar, se necessário, medidas adicionais (possíveis períodos de carência e de pagamento mais longos) com a intenção de garantir que as necessidades brutas de financiamento continuam a níveis sustentáveis. Estas medidas serão condicionais à total implementação das medidas a serem acordadas num possível novo programa e serão consideradas depois de uma primeira conclusão positiva de uma revisão", refere o comunicado.
Para logo esclarecer: "A Cimeira do Euro salienta que haircuts nominais sobre a dívida [perdões de dívida] não podem ser efectuados."

No final do comunicado fica o compromisso de fazer chegar à economia grega — não ao Estado — um plano de investimentos: "Para ajudar a apoiar o crescimento e a criação de emprego na Grécia (nos próximos 3-5 anos), a Comissão trabalhará em estreita colaboração com as autoridades gregas para mobilizar até 35 mil milhões de euros (em vários programas da UE) para financiar o investimento e a actividade económica, inclusive nas PME."


Um alto funcionário da UE calculou que as duas últimas semanas de turbulência política e económica custaram ao Estado grego entre 25 e 30 mil milhões de euros.

Tsipras deparou com 18 líderes europeus furiosos por ele ter desprezado uma oferta com condições mais favoráveis em 25 de Junho e ter realizado um referendo no domingo passado para rejeitá-la. Agora soube-se que apenas a França e a Itália procuraram suavizar as condições impostas à Grécia.

Questionada na conferência de imprensa, se as difíceis condições impostas a uma desesperada Grécia não eram semelhantes ao tratado de Versalhes de 1919 que forçou reparações esmagadoras sobre a Alemanha vencida após a Primeira Guerra Mundial, Merkel respondeu: "Não vou participar em comparações históricas, especialmente quando eu própria não as fiz."


*


A aventura dos revolucionários de salão do Syriza vai sair dispendiosa ao povo grego.

E não, não se pode comparar a penosa austeridade que vai cair sobre os ombros dos gregos com as pesadas indemnizações exigidas aos alemães pelas potências vencedoras da Primeira Guerra Mundial.

Uma indemnização de guerra é uma arbitrariedade que beneficia quem a exige. Um empréstimo, se bem aplicado, favorece quem o pede.

Há, porém, outra razão bem mais profunda: o povo grego elegeu Tsipras, assim como elegeu todos os outros políticos que criaram a enorme dívida grega desde 1974, mas o povo alemão não elegeu o imperador Guilherme II que atirou a Alemanha para a guerra em 1914.


domingo, 12 de julho de 2015

A Grécia em default parcial - III O cavalo de Tróia do euro


Numa reunião entre Tsipras, Merkel, Hollande e Tusk, à margem da Cimeira do Euro, o primeiro-ministro grego e o seu ministro das Finanças foram confrontados com a exigência de implementarem de forma imediata as reformas propostas ou, em alternativa, o país sair da Zona Euro.




Antes de entrar para a Cimeira do Euro deste domingo, Alexis Tsipras telefonou ao secretário de Estado do Tesouro norte-americano, Jack Lew, a quem disse que um acordo viável "tem de respeitar o povo grego e tudo o que suportaram nos últimos cinco anos".

Rapidamente, Lew divulgou um comunicado: "O secretário de Estado está a seguir atentamente as discussões em Bruxelas e ficou esperançado com o relato de que havia progressos, apesar de ainda haver trabalho a fazer.
A Grécia fez movimentações significativas e demonstrou a vontade política para implementar reformas difíceis e essa contínua flexibilidade é necessária de todas as partes.
"

Mas de pouco lhe valeu esta tentativa de pressão sobre os líderes europeus. A cimeira foi interrompida e, numa reunião com Angela Merkel, François Hollande e Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, o primeiro-ministro grego ficou a saber que tinha duas alternativas: ou implementava de forma imediata as reformas que propôs ou a Grécia saía da Zona Euro.

Em Atenas, perante uma manifestação anti-austeridade, a polícia de choque recebeu ordens para ocupar a escadaria do parlamento:




*


O Reino Unido usufrui grande prosperidade com os negócios financeiros da City e do seu império de offshores e não está interessada em aderir ao euro, nem talvez em permanecer na União Europeia.
Por isso não deve surpreender que a comunicação social britânica explore a cisão provocada na Zona Euro pelo governo liderado por Alexis Tsipras, a lembrar a secessão dos Estados Unidos no séc. XIX:

Como estão alinhadas as nações da Zona Euro

Gráfico do jornal britânico The Guardian: a laranja os países que aceitam um grexit, a cinzento os que hesitam mas preferiam que a Grécia ficasse no euro e a azul os que querem evitar a todo o custo um grexit.



Quem não se sente, não é filho de boa gente


Após análise à proposta de reformas do governo grego em troca de um terceiro resgate, um documento elaborado no Ministério das Finanças alemão apontou duas vias: ou condições mais rigorosas a vincularem o governo grego às suas novas promessas ou uma saída temporária do euro.


O ministro das Finanças alemão Wolfgang Schäuble chega à reunião do Eurogrupo de 11 de Julho, em Bruxelas, Bélgica.
Reuters/Francois Lenoir

Após analisarem a proposta de reformas do governo grego, de 9 de Julho, em troca de um empréstimo de três anos, o relatório dos funcionários do Ministério das Finanças alemão conclui que o plano carece de "áreas de reforma importantes e primordiais" e acrescenta: "Precisamos de uma solução melhor e sustentável."

Referido pela primeira vez pelo semanário bávaro Frankfurter Allgemeine Sonntagszeitung e, entretanto, posto a circular nas redes sociais, o documento aponta duas vias: ou condições mais rigorosas a vincularem o governo grego às suas novas promessas ou ter algumas das suas dívidas anuladas e sair do euro durante 5 anos para reestruturar a dívida e fazer reformas estruturais.




O documento cita três coisas que a Grécia poderia fazer para melhorar a sua proposta "rápida e significativamente", com o apoio do parlamento, no sentido de implementarem o terceiro programa com sucesso, garantindo o acesso aos mercados no final:
  • Transferir activos gregos no valor de 50 mil milhões de euros para um fundo externo como a Instituição para o Crescimento no Luxemburgo, para serem privatizados e diminuirem a dívida nacional. Fontes da Zona Euro disseram que Schäuble lançou esta ideia na reunião do Eurogrupo de ontem.
  • Reformar e despolitizar a administração pública, sob a supervisão da Comissão Europeia, para apropriada implementação do programa.
  • Legislar sobre cortes automáticos nos gastos do governo, caso as metas do défice orçamental não sejam alcançadas.
Isto significa que o risco de não concluírem o novo programa do MEE fica com a Grécia, não com os restantes países da Zona Euro.

A alternativa a um plano credível de Atenas, escreveram os autores do documento, era: "Oferecer negociações rápidas à Grécia para uma saída da Zona Euro, com possível reestruturação da dívida, se necessário num formato similar ao Clube de Paris durante, pelo menos, os próximos cinco anos."

O Clube de Paris é um fórum para a reestruturação de dívidas soberanas. O documento nota que isto permitiria aos governos da Zona Euro fazerem writeoffs do valor nominal das dívidas gregas — algo que não é permitido desde que Atenas está também no euro.

Finaliza o documento, dizendo que a Grécia permaneceria na União Europeia e receberia assistência técnica e humanitária, durante o período fora do euro.

Schäuble já havia dito na sexta-feira que a Grécia precisava de um haircut da dívida, mas tais reduções são ilegais dentro da Zona Euro. Nada disse, porém, sobre a solução do enigma.

A ideia de uma saída temporária está em ressonância com as declarações de Hans-Peter Friedrich, vice-líder parlamentar dos conservadores e membro da União Social Cristã (CSU), o partido da Baviera aliado da União Democrática Cristã (CDU) de Angela Merkel.
"O que é necessário é reestruturar e fortalecer a economia grega na sua própria moeda", tinha dito Friedrich ao diário alemão Die Welt.

Os comentários de Friedrich e agora o documento do Ministério das Finanças alemão põem em relevo o dilema da chanceler Angela Merkel.

Fontes do governo de coligação direita/esquerda disseram que o documento foi elaborado após discussões entre Merkel, o vice-chanceler de esquerda Sigmar Gabriel e o ministro das Finanças, Wolfgang Schäuble. Sublinharam que a opção escolhida para a Grécia foi fazer reformas e manter-se no euro.

Mas, para tal, o governo de Tsipras terá de vincular-se mais estreitamente às reformas que propôs na passada quinta-feira e terá sido isso que o ministro das Finanças alemão disse aos seus colegas do Eurogrupo este sábado. Schaeuble não falou de grexit neste Eurogrupo, tendo antes destacado a necessidade de o Governo de Tsipras fazer mais para que possam ser iniciadas as negociações para um terceiro resgate à Grécia.

A chanceler está entalada entre a feroz oposição interna, que a acusa de ser suave com Atenas, e a intensa pressão internacional para conceder a reestruturação da dívida da Grécia num acordo para manter o país no euro, se os gregos entregassem reformas convincentes.

O ministro dos Negócios Estrangeiros luxemburguês, Jean Asselborn, já discordou em entrevista ao jornal alemão Süddeutsche Zeitung, a ser publicada amanhã, segunda-feira:
"Seria fatal para a reputação da Alemanha na UE e no mundo, se Berlim não aproveitar agora a oportunidade que existe com a oferta grega de reformas."
Asselborn já tinha declarado na notícia que antecede essa entrevista: "Se a Alemanha empurra para uma Grexit, vai provocar um conflito profundo com a França. Isso seria uma catástrofe para a Europa."

No entanto, não é a Alemanha que está a adoptar a posição mais dura contra o terceiro resgate à Grécia.

O Governo da Finlândia disse 'não' à proposta grega e pretende que a Grécia saía do euro. O partido Verdadeiros Finlandeses ameaçou desfazer a coligação, se a Finlândia aprovasse um terceiro resgate à Grécia. O parlamento finlandês, que terá de pronunciar-se sobre um novo resgate à Grécia, terá mandatado o Governo para bloquear um acordo com resgate no Eurogrupo.

Mesmo assim, poderá ser alcançado um acordo no Eurogrupo sem o apoio da Finlândia. Os pedidos de resgate ao MEE são decididos por unanimidade entre os ministros das Finanças, mas esta regra pode ser substituída por uma maioria qualificada de 85%, se a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu considerarem que é necessária uma decisão urgente.

A reunião do Eurogrupo terminou ontem à meia-noite sem se obter um acordo, mas prosseguiu na manhã deste domingo.

12 Jul, 2015, 13:40

À saída da reunião de hoje, terminada há pouco, o ministro das Finanças luxemburguês, Pierre Gramegna, declarava: "Todas as opções estão em aberto".

Também o ministro das Finanças belga, Johan Van Overtveldt, opinou que ainda era insuficiente o que se alcançou na reunião dos ministros das Finanças da Zona Euro, apesar de ter-se conseguido acordo em 90% dos assuntos.

Para o ministro das Finanças da Áustria, a decisão final cabe ao parlamento grego que vai votar amanhã, segunda-feira, se aceita o acordo alinhavado no Eurogrupo. Hans Jörg Schelling acrescentou, que apenas "quando todas as condições [acordadas] estiverem cumpridas, será negociado um novo programa de resgate. Nunca antes".

Consta que nesse esboço de acordo estará um terceiro resgate à Grécia de 86 mil milhões de euros. No texto, sugere-se que, em caso de desacordo, deverá ser oferecida à Grécia a saída temporária do euro e, nesse quadro, a possibilidade de reestruturação da sua dívida.

Agora a discussão do acordo passou para as mãos dos chefes de Estado ou de Governo da Zona Euro, cuja cimeira já está a decorrer.


*


Os dados do problema grego são os seguintes:

  • 61% do eleitorado grego disse ‘não’ a medidas de austeridade no referendo de 5 de Junho;
  • 17 deputados do Syriza/Anel faltaram à votação no parlamento grego, abstiveram-se ou votaram contra as propostas de reformas — a maioria não calendarizada, nem quantificada, sublinhe-se — apresentadas em Bruxelas.

O governo da coligação Syriza/Anel ficou com o apoio parlamentar reduzido a 145 deputados na madrugada de sábado, perdendo por seis votos a maioria absoluta. É óbvio que o governo liderado por Tsipras, mesmo que tivesse intenção de implementar o pacote de austeridade, não tem apoio nem do eleitorado, nem do parlamento grego para cumprir o programa associado a um terceiro resgate.

Fazer um governo de unidade nacional com a Nova Democracia e o Pasok não está nos planos de Tsipras porque teria menos lugares de ministros, ministros suplentes e vice-ministros (mais uma peculiaridade grega) para distribuir pelo Syriza e pelo Anel, os partidos que formam o actual governo helénico.

Se o terceiro resgate à Grécia for aceite na cimeira de hoje dos chefes de Estado ou de Governo da Zona Euro, então há cinco Estados-membros — os três Estados Bálticos, Eslováquia e Portugal — que têm de receber imediatamente chorudos empréstimos do MEE, nas condições que forem concedidas aos gregos.

Para quê? Para estes cinco países poderem subir os respectivos salários mínimos e complementos sociais para idosos, de imediato, de modo a passarem a usufruir valores idênticos aos que forem fixados para os gregos, com os custos inerentes a serem suportados pelos restantes 13 países do euro, obviamente.

Esta medida é da maior justiça social: os salários mínimos da Estónia, Letónia, Lituânia, Eslováquia e Portugal são, respectivamente, € 390, € 360, € 300, € 380 e € 589. O grego é muito superior: € 684.

Além disso, estes países não devem ser obrigados a suportar um provável futuro calote grego. E mais: estes cinco países devem arrogar-se o direito de não pagar esses benévolos empréstimos, se os gregos não pagarem. Quem não se sente, não é filho de boa gente.


A opinião dos outros:

Ana Maria Cerdeira Queiroz @ Facebook

06:26
Claro, como sempre este sr. diz 'não' porque a Grécia agora tem um Governo que não é da sua cor com políticos que não despem as calças por isso têm de sair do euro. Bom era que todos os que estão dependentes destes alemães lhes virassem as costas e os deixassem sozinhos na UE, sempre queria ver o que faziam.

Ó maria queiroz, deves ser das que gosta de viver
10:27
com o guito dos outros. É muito bonito gastar à grande sem pensar em pagar. Além de que a Alemanha já provou a nível mundial ser produtora de grande qualidade em tudo que faz. Se não venderem a gentinha do teu tipo, vendem a pessoas sérias. Paga as tuas dívidas e não critiques quem é melhor que tu.

Criador de Touros
14:45
Schäuble é hoje a única referência europeia, a seguir vem Draghi, mas como é socialista, está submetido às pressões que aí andam da Internacional Socialista. Portanto Schäuble é a única referência de sensatez!
15:04
Quando o socialista francês Hollande diz que fará todos os possíveis para manter a Grécia no Euro, quer dizer — digo eu — que ele quer os gregos na Europa, nem que seja para os gregos darem cabo da Europa, como têm feito até aqui. É tolo o François.


sexta-feira, 10 de julho de 2015

A Grécia em default parcial - II b. A proposta de reformas


A última proposta do governo grego cede nas taxas do IVA e nas pensões, mas calendariza pouco e quantifica ainda menos. Nas despesas militares, recusa os cortes exigidos pela troika.
Em troca deste pacote de austeridade, pede um novo empréstimo aos parceiros do euro de "pelo menos" 53,5 mil milhões de euros.




Vejamos um resumo da lista de medidas e promessas que o Governo do Syriza/Anel enviou ontem à noite a Bruxelas:

IVA — O Governo de Atenas já havia cedido na intenção inicial de fixar as receitas adicionais do IVA em 0,74% do PIB, subindo até aos 0,93% na proposta de 26 de Junho. Agora diz que aceita implementar uma reforma no IVA que represente receitas adicionais equivalentes a 1% do PIB, o valor pretendido pelos credores.
  • Na taxa mínima de 6% ficam medicamentos, livros e teatro.
  • Os hotéis passam de uma taxa de 6,5% para 13%, já incluída na proposta de 26 de Junho e aceite pelos credores, sendo que nesta taxa intermédia ficarão também os alimentos básicos, energia e água (excluindo esgotos).
  • Para restaurantes, transportes e tratamento de esgotos a taxa de IVA vai subir dos actuais 13% para 23%.
Quanto ao desconto de 30% na taxa de IVA que beneficia as ilhas, será eliminado mas de forma faseada, com as ilhas mais ricas a serem as primeiras a ficar com a taxa do resto do país e as mais remotas a ficarem isentas. No entanto, o agravamento fiscal nas demais será acompanhado de compensações à população local com impacto fiscal neutro.
As novas taxas de IVA nos hotéis e nas ilhas só serão introduzidas em Outubro, depois de terminada a época alta do turismo.

IRC — Aumento da taxa de IRC de 26% para 28% em 2016, como desejava a troika, mas Atenas admite um agravamento para 29%, se a receita fiscal derrapar.

IRS — A proposta mistura todos os impostos e é vaga nas alterações ao IRS. Diz que pretende introduzir mudanças nos impostos que recaem sobre os automóveis, ganhos de capital, agricultores e trabalhadores por conta própria.
Em 2016, terminarão os subsídios ao gasóleo agrícola e, em 2017, será iniciado o processo de eliminação dos benefícios aos agricultores.
Sobre os privilégios fiscais dos armadores, previstos na constituição grega, o documento diz apenas que devem ser abolidos.
Se a receita fiscal derrapar, aumento das taxas de imposto sobre as famílias de 11% para 15%, para rendimentos inferiores a 12 mil euros, e de 33% para 35% acima desse valor.

Outras taxas e impostos — Introdução de taxa sobre a publicidade na televisão e anúncio de concurso público para a atribuição de licenças de televisão. Alargar o âmbito da aplicação da taxa suplementar sobre iates (com mais de 5 metros), que sobe de 10% para 13%. Aumento das taxas sobre o jogo online.

Pensões — A nova proposta de Atenas antecipa em três anos, para 2022, o fim processo de aumento da idade legal da reforma para os 67 anos, aproximando-se da proposta da troika. O governo grego promete legislar nesse sentido ainda neste mês, com o objectivo de poupar até 0,5% do PIB, ainda em 2015, valor que sobe para 1% em 2016. Promete ainda criar "fortes desincentivos" às reformas antecipadas.
Propõe legislar no sentido de eliminar gradualmente o complemento solidário para idosos — na Grécia chama-se EKAS —, iniciando o processo nos 20% de pensionistas do topo. Pretende concluir esse processo em Dezembro de 2019, tal como pretendido pelos credores. No entanto, quer iniciar essa eliminação apenas a partir de Março de 2016, ao contrário da pretensão da troika de que o processo comece de imediato.
Promete subir as contribuições dos pensionistas para o sistema de saúde de 4% para 6%, em média, incidindo também sobre as pensões complementares.

Função Pública — O Executivo de Atenas prevê a criação de um quadro de mobilidade no último trimestre deste ano. Promete reduzir a massa salarial até 2019, ajustando salários e efectivos a uma meta, mas não quantifica.
Promete alinhar os suplementos salariais — acordos de licença, ajudas de custo, subsídios de deslocação e regalias — com as melhores práticas da União Europeia, a partir de Janeiro de 2016.

Defesa — Nas despesas militares, a proposta do Governo grego propõe cortes de 100 milhões de euros em 2015 e de 200 milhões em 2016, recusando ceder aos credores que exigiam poupanças de 400 milhões. Os cortes de custos serão obtidos através da redução do número de efectivos e das compras.

Combate à corrupção — Atenas promete publicar um plano estratégico contra a corrupção até ao final do mês de Julho e alterar a legislação de declaração de rendimentos e financiamentos dos partidos políticos. Promete combater o contrabando de combustíveis e fraudes no IVA e promover os pagamentos electrónicos.

Reformas estruturais — O Governo grego compromete-se a implementar uma série de reformas em diversas áreas com a colaboração da OCDE: reforma do Estado e da sua relação com empresas públicas e fornecedores, aumento da regulação, das auditorias e da transparência.
A saúde e as obras públicas são áreas prioritárias onde o Governo grego promete combater o desperdício e a corrupção.
Também na administração fiscal — um dos maiores problemas da Grécia é a forte fuga aos impostos — o Governo promete implementar reformas, inclusive criar uma agência autónoma para cobrar impostos.

Sector financeiro — Alterações nas leis de insolvência, com o objectivo de incentivar o pagamento de dívidas, e medidas para atrair investidores estrangeiros.

Privatizações — O governo grego admite avançar não só com as privatizações que estão em curso, como também com as que estão previstas, e não mexer nos respectivos cadernos de encargo.
Admitem agora avançar com a privatização da rede eléctrica (ADMIE), como pretende a troika, mas acrescentam que poderão apresentar uma alternativa "com resultados equivalentes em termos de concorrência" até Outubro deste ano.
O Governo grego também promete alienar os activos pertencentes ao fundo de desenvolvimento helénico (HRADF), para onde se prevê que seja transferida a participação estatal no operador de telecomunicações OTE.

Metas orçamentais — A proposta mantém o compromisso de apresentar excedentes orçamentais primários (receitas superiores às despesas, excluindo o serviço da dívida) equivalentes a 1%, 2%, 3% e 3,5% do PIB para os anos compreendidos entre 2015 e 2018.


O que foi já feito para aliviar a dívida grega?

A Grécia obteve em 2012 o maior perdão de dívida detida por privados de que há registo, depois de bancos e casas de investimento terem aceite um corte (hair-cut) de 53,5% no valor nominal das obrigações do tesouro vendidas pelo Estado helénico.

Os Estados-membros da Zona Euro nunca aceitaram perdoar dívida. Contudo, já aliviaram por duas vezes as condições de reembolso dos empréstimos a Atenas e, em Novembro de 2012, admitiram voltar a fazê-lo, de novo, se os governos gregos cumprissem o programa de ajustamento acordado, o que o governo do Syriza recusou fazer a partir do início deste ano.

As taxas de juro cobradas à Grécia são praticamente iguais à taxa a que o FEEF, o fundo de resgate do euro (que tem rating máximo), consegue financiamento nos mercados, tendo sido oferecido um prazo de carência de 10 anos para o pagamento de juros, ou seja, a Grécia só pagará o primeiro euro de juros aos europeus em 2022.

Ao mesmo tempo, os prazos de maturidade dos empréstimos foram prolongados para cerca de 30 anos. Trata-se de condições mais favoráveis do que as aplicadas aos outros países do euro que foram resgatados — Irlanda, Portugal e Chipre.





*


O governo liderado por Alexis Tsipras pretende receber 53,5 mil milhões numa mão enquanto estende a outra mão cheia de promessas para começar a cumprir em 2016, um ano depois de terem sido eleitos.

Mexer nos privilégios fiscais dos armadores gregos? Fica a intenção, sem data marcada.
Reduzir em 400 milhões as despesas militares? Nem pensar, possivelmente metade disso, e só lá para o próximo ano.
Combate à corrupção? Até os partidos recebem empréstimos da banca, que é pública, Syriza incluído, e nada fizeram sobre o maior problema da sociedade grega. Agora vão congeminar um plano estratégico que talvez seja publicado no final de Julho, seis meses depois de terem sido eleitos.
Incompetência, fraqueza e hipocrisia. Cedência em toda a linha aos interesses instalados na Grécia.

Qual vai ser a reacção dos líderes da Zona Euro? Já se sabe que François Hollande aceita a proposta grega e Angela Merkel, entalada entre Obama e Hollande, não tem outro remédio senão condescender.

Depois da insensata revolução democrática conduzida por políticos franceses, ingleses e americanos que levaram à destruição da paz na Síria e da estabilidade social e política nos países do Norte de África, todos percebemos a importância geopolítica da fronteira Sul da Europa.
Merkel foi a primeira a compreender. A Alemanha não colaborou nas operações militares da NATO para derrubar Gaddafi quando este já deixara, há muito tempo, de proteger o terrorismo.

Dos quatro países europeus meridionais, a Grécia destaca-se como o paredão de defesa dos países europeus centrais, não só contra a perigosa imigração islâmica africana, mas também asiática através do conturbado médio oriente.
Dos russos, desconfiam Barack Obama, a traumatizada Merkel, que nasceu, cresceu e viveu mais de 40 anos no território alemão situado para além da cortina de ferro, e os países bálticos.

A União Europeia precisa de velar pelos gregos para que não façam demasiadas asneiras e deixem o País derrapar para uma situação caótica que abra brechas na segurança europeia.
No entanto, aceitar chantagens nunca resolveu problemas. É preciso que os gregos entendam que têm de cumprir as regras da Zona Euro e não podem exigir aos parceiros do euro um tratamento privilegiado em detrimento das populações dos países bálticos — Estónia, Letónia e Lituânia —, da Eslováquia e de Portugal que têm salários mínimos e pensões mais baixos.

Nas longas filas para levantar 60 euros nas caixas multibanco, os gregos começavam a entender. Se esta proposta — cheia de promessas que o governo de Tsipras, apoiado na estrondosa vitória do 'não' no referendo, não tem a mínima intenção de cumprir — for aceite na reunião de amanhã dos ministros das Finanças da Zona Euro, o problema grego vai renascer aquando da primeira avaliação da troika ao cumprimento do memorando que posteriormente será assinado.

Que esperança podem ter os povos europeus de deixarem de ser explorados pelas elites privilegiadas que pululam na sociedade helénica?
O peso dos países que têm um nível de vida inferior ao dos gregos não será suficiente, por si só, para refrear as artimanhas gregas.
Todavia há países da Zona Euro que prevêem a necessidade de aprovação parlamentar antes de haver a negociação formal sobre o memorando de entendimento — Alemanha, Áustria, Finlândia, Holanda e Estónia (Eslováquia não requer aprovação parlamentar). Portanto podem contar ainda com a oposição dos políticos finlandeses, holandeses e alemães, sobretudo, do fisicamente deficiente, mas intelectualmente vigoroso ministro das Finanças alemão.

Wolfgang Schäuble tornou-se o paladino dos contribuintes europeus que querem acabar com a exploração helénica e está a enfrentar corajosamente os americanos, assim como Christine Lagarde que se passou para o lado de Obama, apesar deste se ter recusado nos últimos anos a contribuir financeiramente para o FMI.
Tal como a directora do FMI, Schäuble defende a reestruturação da dívida grega mas à custa de um perdão pago... pelos gregos de maiores rendimentos e pela venda dos activos na posse do Estado helénico.

Por este caminho, ainda vamos ver uma manifestação de apoio dos ricos armadores gregos ao Syriza. É algo inacreditável ver a esquerda europeia a defender os contribuintes ricos da Grécia e a direita a pugnar para que os fundos europeus alimentados pelos contribuintes dos restantes 18 países do euro, alguns mais pobres que a Grécia, não caiam dentro dos bolsos das elites gregas. Estamos a assistir a uma completa inversão de valores políticos na Europa.





In Memoriam Omar Sharif



Omar Sharif
(1932-2015)



Lawrence da Arábia, cena "Poço de Ali"
Realizador: David Lean
Sherif Ali: Omar Sharif
1962


Lawrence da Arábia, cena “Aqaba. Aqaba, a partir de terra”


Lawrence da Arábia, cena “Nada está escrito”


Doutor Jivago, cena "Tentativa de suicídio"
Realizador: David Lean
Dr. Yuri Jivago: Omar Sharif
1965


Doutor Jivago, cena "Strelnikov — A vida íntima está morta"


Doutor Jivago, cena "Partida de Lara"


Doutor Jivago, cena "Morte de Jivago"


quarta-feira, 8 de julho de 2015

O Estado da Nação: os 7 pecados capitais e as 10 pragas do Egipto

08 Jul, 2015, 20:21

O líder parlamentar socialista tinha classificado o discurso do debate do Estado da Nação do primeiro-ministro como sendo "propaganda feita numa base totalmente irrealista". E acusou o Governo de ter feito um regresso ao passado, referindo "uma taxa de pobreza como há 15 anos e níveis de emprego como há 20 anos".

Ferro Rodrigues prosseguiu nas críticas trazendo para a discussão as privatizações feitas pelo actual Governo, a que pôs o rótulo de "vergonha", e os sete pecados capitais que António Costa atribuiu ao Governo, para o que pediu uma resposta ao primeiro-ministro.
Os sete pecados capitais do Governo, segundo António Costa

Primeiro pecado capital: A mentira eleitoral ao ter prometido não subir os impostos que subiu e não cortar pensões e salários como cortou.

Segundo pecado capital: O desemprego, a precariedade e a emigração que afastaram do mercado de trabalho 700 mil desempregados, mais de 200 mil desencorajados e que colocaram 90% dos novos contratos celebrados em contrato a prazo", além de terem feito "o país regressar aos anos 60 em termos de emigração".

Terceiro pecado capital: Asfixia da classe média

Quarto pecado capital: Pobreza e desigualdades que atingem 25% da população portuguesa, em especial a pobreza infantil, que "atinge 470 mil crianças".

Quinto pecado capital: Abandono da prioridade ao conhecimento, especialmente devido ao "desinvestimento" nas áreas da ciência, educação e cultura.

Sexto pecado capital: Ataque aos serviços públicos, em particular na área da saúde e justiça, e a incompetência na sua gestão, de que foram bem exemplo o caos no início do último ano lectivo" ou na questão dos tribunais.

Sétimo pecado capital: Quebra de mais de 25% no investimento, quer público, quer privado.

Passos Coelho começou por responder a Ferro Rodrigues apontando a "azia" socialista face aos "resultados que vão sendo divulgados sobre o desempenho económico de Portugal". Sobre as privatizações, Passos aconselhou Ferro Rodrigues a ter "atenção que o que chamou vergonha representou o dobro do encaixe financeiro que o PS tinha prometido".

Depois de Ferro Rodrigues ter acusado novamente o Governo liderado por Passos Coelho de não apoiar a Grécia nas negociações com os credores, o primeiro-ministro sugeriu que preste atenção ao que dizem "os antigos ministros das Finanças do PS sobre a Grécia", aludindo às declarações já proferidas por Campos e Cunha e Teixeira dos Santos que se manifestaram contra as pretensões gregas.

Mas o melhor do debate foi a resposta de Pedro Passos Coelho aos 7 pecados capitais de Costa. "Deixe-me falar das 10 pragas que o PS deixou a Portugal", disse o primeiro-ministro, antes de começar a enumerar:
  1. obras faraónicas, como as PPP e o TGV
  2. os PEC de má memória que não resolveram nada
  3. uma das maiores desigualdades entre os países da União Europeia
  4. défices orçamentais volumosos e ruinosos — o de 2010 atingiu 10%
  5. défices externos preocupantes
  6. completo desgoverno do sector empresarial do Estado;
  7. a nacionalização do BPN
  8. défice tarifário na electricidade
  9. endividamento galopante e
  10. desemprego estrutural acima dos 10%.


A Grécia em default parcial - II a. Foi pedido um terceiro resgate


Já conhecido pela sua educação, cordialidade e por falar inglês com pronúncia britânica impecável — ou não se tivesse licenciado e doutorado em Oxford —, Euclides Tsakalotos era aguardado com expectativa no recomeço das negociações entre o governo grego e os outros 18 governos da Zona Euro para resolver a crise helénica.

O novo ministro das Finanças grego chegou à reunião do Eurogrupo desta terça-feira e pediu um empréstimo urgente de 7 mil milhões de euros para a Grécia, não tendo distribuído aos presentes quaisquer propostas de reformas. Instado pelos colegas, tirou da pasta um papel onde... estavam esboçadas algumas ideias.


Reunião extraordinária do Eurogrupo - 7 de Julho de 2015

07 Jul, 2015, 21:00

Os ministros das Finanças da Eslovénia e da Eslováquia, assim como os dos países bálticos — Estónia, Letónia e Lituânia —, países com salários mínimos mais baixos do que os gregos, ficaram agastados.
A Finlândia já fala em convocar um referendo para saber se os finlandeses estão dispostos a dar mais ajuda financeira à Grécia. Os governos de Portugal e Espanha, com eleições no fim do ano, também se interrogam sobre as reacções dos contribuintes dos seus países. Só a França parece disposta a suportar a farsa grega.

A seguir à reunião do Eurogrupo, decorreu a cimeira dos líderes da Zona Euro.

Cimeira do Euro - 7 de Julho de 2015

08 Jul, 2015, 07:55

Na conferência de imprensa, o presidente do Conselho Europeu, o polaco Donald Tusk, resumiu a posição dos chefes de Estado e primeiros-ministros da Zona Euro em cinco pontos.
No quarto ponto fixa-se um limite temporal para o Governo do Syriza e dos Gregos Independentes formularem o pedido de resgate ao MEE com propostas de reformas: quinta-feira, 9 de Julho.
O quinto anuncia uma cimeira dos chefes de Estado ou Governo no próximo domingo, 12 de Julho.
No fim da declaração acrescentou estas palavras: "A dura realidade é que ficam apenas cinco dias para encontrar o acordo final. Até agora, tenho evitado falar sobre prazos. Mas hoje tenho que dizer alto e bom som que o prazo final termina esta semana. Todos nós somos responsáveis pela crise e todos nós temos a responsabilidade de resolvê-la."

Euro Summit, on 7 July 2015

Na parte da conferência reservada a perguntas e respostas, Donald Tusk esclareceu que, na cimeira extraordinária convocada para decidir o terceiro resgate à Grécia, estarão presentes todos os líderes dos 28 países da União Europeia porque não se pode excluir o cenário negro de saída da Grécia do euro, sendo necessário que todos os Estados-membros se pronunciem.
Um descoroçoado presidente da Comissão Europeia reforçou esta resposta, dizendo que passou a admitir três cenários para o futuro da Grécia. Um deles é o Grexit. E, noutra questão, Jean-Claude Juncker acrescentou que tudo depende das propostas de reformas que o governo grego apresente o mais tardar na sexta-feira de manhã às 8:30.

Esta manhã o governo grego entregou o pedido de terceiro resgate ao Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE) que agora vai ser analisado pelos restantes parceiros e também pelo FMI, Comissão Europeia e Banco Central Europeu. Parece que os gregos já aprenderam que os prazos são para cumprir fora da Grécia. Dentro da Grécia, não são: os bancos não foram reabertos na terça-feira, ao contrário do que fora fixado pelo governo de Alexis Tsipras.

Durante a visita que fez hoje, quarta-feira, ao parlamento europeu, o primeiro-ministro grego prometeu fazer reformas em troca do dinheiro dos contribuintes dos restantes 18 países da Zona Euro, mas foi confrontado por alguns eurodeputados para que apresentasse propostas concretas de reformas. Eis um excerto do debate com o deputado europeu belga Guy Verhofstadt:

terça-feira, 7 de julho de 2015

Humor grego - III





Cartoon do jornal grego Ekathimerini



Anónimo
13:10
GREGOS, IDE COM A GRAÇA DIVINA, COMEI E BEBEI À FARTAZANA, E DEIXAI OS POBRES COITADOS DOS RESTANTES EUROPEUS SOZINHOS! (Oração de São Gregório aos caloteiros).

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Varoufakis sai, Tsakalotos passa para as Finanças gregas


O ministro suplente dos Negócios Estrangeiros grego, Euclides Tsakalotos, vai substituir Yanis Varoufakis que pediu a demissão.


O novo ministro das Finanças, Euclides Tsakalotos, (D) presta juramento durante a cerimónia de posse na presença do presidente Prokopis Pavlopoulos (C) e do primeiro-ministro Alexis Tsipras (E).
REUTERS/Alkis Konstantinidis

07 Jul, 2015, 08:21


Tal como sucedeu com a sua nomeação, foi Varoufakis quem anunciou a demissão no Twitter. E, na hora da saída, enalteceu a vitória no referendo, deixando uma alfinetada aos credores que, subtilmente, envolve Tsipras:
Já não sou ministro

O referendo de 5 de Julho vai ficar na história como um momento único em que uma pequena nação europeia se levantou contra a servidão da dívida.

Como todas as lutas pelos direitos democráticos, também esta histórica rejeição do ultimato do Eurogrupo de 25 de Junho tem um custo elevado. É, portanto, essencial que o enorme capital outorgado ao nosso governo pelo esplêndido voto no 'NÃO' seja imediatamente investido num 'SIM' a uma resolução adequada — num acordo que envolva a reestruturação da dívida, menos austeridade, redistribuição a favor dos necessitados e verdadeiras reformas.

Pouco depois do anúncio dos resultados do referendo, fizeram-me saber de uma certa preferência de alguns participantes do Eurogrupo, e vários 'parceiros', pela minha… 'ausência' das suas reuniões; uma ideia que o Primeiro-Ministro julgou ser potencialmente benéfica para poder chegar a um acordo. Por esta razão deixo hoje o Ministério das Finanças.

Considero ser meu dever ajudar Alexis Tsipras a tirar partido, como ele entender, do capital que o povo grego nos concedeu através do referendo de ontem.

Vou usar a aversão dos credores com orgulho.

Nós, da Esquerda, sabemos como agir colectivamente sem nos preocuparmos com os privilégios da função. Darei todo o meu apoio ao primeiro-ministro Tsipras, ao novo Ministro das Finanças e ao nosso governo.

O esforço sobre-humano para honrar o bravo povo da Grécia, e o famoso OXI [NÃO] que ele deu aos democratas de todo o mundo, está apenas a começar.

06 Jul, 2015, 20:39

A fascinação cultivada por Varoufakis havia sofrido um rombo com a entrevista ao Paris Match mas, apesar de ter sido relegado para segundo plano nas negociações dentro do Eurogrupo, conseguia permanecer no palco fornecido pela comunicação social.

Chamar terroristas, em entrevista ao El Mundo, aos colegas do Eurogrupo, aos líderes políticos europeus e aos responsáveis do BCE por se recusarem a aumentar o valor da assistência de liquidez de emergência (ELA) à banca grega, foi a gota de água que fez transbordar a impaciência dos líderes europeus e de... Tsipras.

O novo ministro das Finanças grego, Euclides Tsakalotos, já era, desde Abril, o responsável pela coordenação das negociações com os credores no Eurogrupo, sendo visto como um moderado.

Filho de um engenheiro naval, Tsakalotos nasceu em 1960 em Roterdão, nos Países Baixos, e cresceu no Reino Unido, tendo frequentado a privada e exclusiva St. Paul's School por onde passaram muitos ministros britânicos, incluindo o seu homólogo George Osborne. Casado com uma escocesa, estudou Política, Filosofia e Economia na universidade de Oxford onde fez o doutoramento em 1989. Perfilha a doutrina marxista e pertence ao comité central do Syriza, sendo próximo de Tsipras.

Vai desempenhar a função de construir pontes com os ministros das Finanças dos restantes 18 países da Zona Euro com o objectivo de, partindo da estaca zero, conseguir um acordo que permita à Grécia aceder a um terceiro resgate.

Reunidos hoje no Eliseu, François Hollande e Angela Merkel abriram as portas à negociação com a Grécia, deixando advertências:

06 Jul, 2015, 19:15


Para o presidente da França cabe agora ao governo de Alexis Tsipras "fazer propostas sérias que traduzam essa vontade de ficar na Zona Euro". Sublinhou que "a Europa é um conjunto fundado em valores e princípios, numa concepção do mundo. Nesta Europa há lugar para a solidariedade. Mas também há responsabilidade". O tempo urge: 20 de Julho é o fim da linha.

"A porta está aberta a conversações, mas neste momento ainda não temos condições para as iniciar. São precisas propostas concretas e de médio prazo que assegurem a estabilidade e a prosperidade da Grécia", repetiu a chanceler da Alemanha, tendo acrescentado: "Respeitamos a decisão do povo grego, mas temos de saber qual é a vontade dos outros 18 governos do euro que foram também eleitos democraticamente."


domingo, 5 de julho de 2015

O resultado do referendo grego

05 Jul, 2015, 20:58

Três sondagens realizadas pela GPO, Metron Analysis e MRB já mostravam que o 'Não' ia à frente por três pontos. Uma sondagem da Marc estimava que 49,5 a 54,5 por cento dos gregos tinham votado ‘não’.

Mas a vantagem do 'não' é muito mais significativa e observa-se em todos os distritos eleitorais. Os resultados do referendo no sítio da Internet do Ministério do Interior grego:

██ Não 61,31 %
██ Sim 38,69 %




Reuters/Yves Herman

Com a vantagem do ‘não’, o futuro da Grécia está descrito numa entrevista do presidente do parlamento europeu, Martin Schulz, um político pertencente ao Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD), e será fora da Zona Euro.
"A Grécia continua no euro após este referendo? Certamente, mas se disserem ‘não’, vão ter que introduzir outra moeda depois do referendo porque o euro já não estará disponível como forma de pagamento", afirmou Schulz em entrevista à rádio alemã Deutschlandfunk.
"Como vão conseguir pagar salários? Como vão pagar pensões? Assim que introduzirem uma nova moeda vão sair da Zona Euro. Esses são os elementos que me dão alguma esperança de que as pessoas não vão votar ‘não’ hoje".

No sábado, o presidente do Parlamento Europeu tinha avançado que estava a ser avaliada a possibilidade de serem concedidos créditos de emergência à Grécia para evitar uma crise humanitária.
"Vamos ver-nos obrigados a conceder créditos de emergência à Grécia como medida de transição, para que os serviços públicos possam continuar a funcionar e as pessoas necessitadas recebam dinheiro. Para isso haveria dinheiro a curto prazo em Bruxelas", disse Schulz, numa entrevista ao jornal Welt am Sonntag.

Mas hoje os gregos festejam, indiferentes a estes alertas:


REUTERS/Christian Hartmann



AFP/Aris Messinis


*


Os gregos queriam permanecer na Zona Euro, mas votaram para regressar ao dracma. Se não houver um acordo entre a Grécia e os credores sobre um terceiro resgate, o país vai falhar o pagamento de 3,5 mil milhões de euros ao Banco Central Europeu, no dia 20 de Julho, e este banco terá de encerrar a assistência de liquidez de emergência (ELA). Os bancos gregos ficarão insolventes e, em consequência, o governo grego terá de criar moeda.

O caminho de transição do euro para a nova moeda grega está apinhado de dificuldades, como se explica neste artigo que fala da experiência da Alemanha, quando estendeu o marco ao leste alemão, do divórcio checo e eslovaco de 1993 e da criação de uma moeda na Croácia, face à implosão da Jugoslávia.


Notas e moedas do antigo dracma grego
Bloomberg/Kostas Tsironis

No entanto, ao obrigar os gregos a viverem com aquilo que produzem, a saída da Zona Euro vai desencadear as profundas reformas de que a Grécia necessita e que passam pela reestruturação da administração pública grega, bem como da economia e das finanças do País.

Mas nada disto será feito pelo governo liderado por Alexis Tsipras, um demagogo sem estatura política que, em 5 meses, ainda não tomou uma única medida para revitalizar a economia ou para combater a corrupção.

Os tempos mais próximos serão de grande instabilidade. Só depois da maioria dos gregos entender que o dinheiro externo acabou e que foram enganados por extremistas irresponsáveis que prometeram conseguir um acordo com perdão de dívida, se o 'não' vencesse, pode haver espaço para surgir um governo grego com conhecimento e capacidade para implementar as reformas de que a Grécia carece.

O problema grego é que políticos corruptos do PASOK (centro-esquerda) e da Nova Democracia (centro-direita) criaram na população grega, desde 1981, data da adesão do país à então comunidade económica europeia (CEE), uma dependência de dinheiro externo.
Na primeira década, dissiparam as verbas para o desenvolvimento económico vindas da CEE. Depois falsificaram a contabilidade para entrarem na Zona Euro e passarem a receber fundos estruturais que também não usaram para criar riqueza, foram distribuídos.
E como as clientelas, criadas de alto a baixo na sociedade grega, votavam sempre naqueles que prometiam mais, drogaram-se com empréstimos.

A dívida pública cresceu desmesuradamente. Um governo do partido socialista grego liderado por George Papandreou descobriu que o país estava fora dos mercados financeiros e começou a aceitar taxas de juros agiotas até que teve de pedir ajuda financeira ao FMI/CE/BCE, em 2010.

Começava o longo calvário da austeridade que se vai prolongar por muitas décadas. Hoje os gregos escolheram trilhar esse caminho da forma mais dolorosa — sozinhos e pela mão de aventureiros.

O alargamento do leque salarial, colossal, injusto e mundial, que adveio da implosão dos regimes socialistas dos países da Europa de Leste, com favorecimento dos gestores empresariais que se aproveitaram do triunfo das economias de mercado, é um problema que temos de exigir que os líderes europeus também resolvam. Mas não tem nada a ver com a questão grega — aqui é um país que se habituou, e quer continuar, a viver à custa dos outros 18 países da Zona Euro.