sábado, 25 de abril de 2015

Discurso de Cavaco Silva em 25 de Abril de 2015


No seu último discurso na sessão solene do 25 de Abril no parlamento, o Presidente da República pediu a definição de um compromisso interpartidário para garantir a estabilidade política e a governabilidade do País.

Como já é habitual, foi um excelente discurso que faz um diagnóstico correcto da situação do País e pede consensos indispensáveis porque é altamente improvável que algum partido político ou coligação consiga obter maioria absoluta nas eleições legislativas do próximo Outono. O problema é que Cavaco Silva não teve uma conduta política e pessoal exemplar, sempre se guiando pelos seus próprios interesses mesquinhos.

Aqui fica a versão integral para o leitor apreciar:



"Celebramos hoje o 25 de Abril, uma ocasião de festa e alegria, em que Portugal comemora a liberdade, a democracia, e também o desenvolvimento e a justiça social.

Há precisamente quarenta anos, no dia 25 de Abril de 1975, os Portugueses participavam nas primeiras eleições verdadeiramente livres da nossa História.

Ao escolherem os Deputados à Assembleia Constituinte, naquele que foi o acto eleitoral mais participado da história da nossa democracia, os Portugueses demonstraram estarem do lado da liberdade contra todas as formas de autoritarismo.

Os Deputados à Assembleia da República, que hoje saúdo calorosamente e a quem agradeço a excelência da cooperação institucional, podem orgulhar-se de serem os sucessores dos constituintes eleitos em 1975.

O 25 de Abril tem vários heróis — e o maior de todos é o povo português.

Devemos celebrar Abril com sentido de futuro, para que as novas gerações saibam que a liberdade e a democracia são valores que se constroem e renovam todos os dias.

Num tempo em que, em vários lugares do Mundo, incluindo na Europa, vemos nascer sinais de intolerância e ameaças à liberdade, numa época em que alguns se deixam atrair por extremismos radicais, devemos renovar o nosso compromisso com uma sociedade mais livre e mais justa.

Os Portugueses perfilham os valores da democracia e da tolerância, recusam com firmeza o recurso à violência e à conflitualidade como formas de acção política. Somos um povo de paz e de diálogo. Convivemos de forma harmoniosa com todos os outros povos.

Ao comemorar o 25 de Abril na Assembleia da República, num ano em que termina a presente legislatura e em que outra se iniciará, devemos pensar o futuro de Portugal, fazendo uma reflexão séria e serena sobre os grandes desafios que o País terá de enfrentar.

Portugal cumpriu um exigente Programa de Assistência Económica e Financeira que, numa altura de emergência nacional, foi obrigado a estabelecer com as instituições internacionais que nos emprestaram os fundos indispensáveis ao financiamento do Estado e da economia.

Vivemos uma nova fase da vida nacional: apesar de termos um longo caminho a percorrer, a economia apresenta já sinais de crescimento e criação de emprego, as contas externas estão equilibradas e perspectiva-se a saída da situação de défice excessivo.

Somos hoje um País respeitado e credível na cena internacional, um País em que as instituições e os investidores podem confiar.

Em todo o caso, continuam a ser desafios decisivos para o nosso futuro o controlo da despesa pública e do endividamento do Estado, o financiamento das empresas, a competitividade da economia e a equidade fiscal, a que devemos associar o apoio ao investimento produtivo e uma agenda de crescimento económico e criação de emprego.

Se não existir, da parte dos agentes políticos, a consciência clara de que devem mobilizar os Portugueses para estes desafios, de pouco valerão os sacrifícios que fizemos e que, em muitos casos, deram azo a situações dramáticas, algumas das quais ainda hoje se mantêm.

Senhoras e Senhores Deputados,

Pensar o futuro de Portugal significa, antes de mais, proceder ao diagnóstico dos nossos problemas de fundo e apontar linhas de rumo que devem ser assumidas pelas diversas forças políticas.

O País enfrenta desafios de médio e longo prazo que não se esgotam no horizonte temporal de uma legislatura. Mas para construirmos um Portugal mais justo e desenvolvido para as novas gerações, é essencial que, no tempo que se aproxima, sejam tomadas medidas concretas a pensar no futuro.

Enfrentamos um problema muito grave de quebra da natalidade e envelhecimento da população. Portugal é dos países do Mundo onde proporcionalmente nascem menos crianças. Além de todas as questões associadas à baixa natalidade, como a sustentabilidade da segurança social, a desertificação de vastas zonas do território e a degradação do princípio da solidariedade entre gerações, a quebra do número de nascimentos é um factor de empobrecimento para o País como um todo.

O envelhecimento populacional não só reduz o crescimento potencial da economia como aumenta a pressão sobre as contas públicas, através das despesas de pensões e de saúde.

Mais grave ainda, o facto de cada vez nascerem menos crianças significa que, no futuro, teremos menos jovens empreendedores, menos cidadãos activos e criativos, menos trabalhadores qualificados.

Além da urgência em promover uma estratégia de aumento da natalidade, para que várias vezes chamei a atenção ao longo dos meus mandatos, é essencial fomentar o regresso daqueles que, em resultado da crise económica e financeira, decidiram partir rumo ao estrangeiro. Em áreas-chave para o nosso futuro, o País viu sair muitos dos seus jovens, a maioria dos quais altamente qualificados. É agora, enquanto os laços que os unem a Portugal ainda se mantêm vivos, que devemos actuar e promover o seu regresso, criando condições para que o seu talento e as suas capacidades possam frutificar entre nós.

Devemos igualmente adoptar uma estratégia coerente de captação de talentos e de integração das comunidades de imigrantes. Portugal orgulha-se de ser um país tolerante e inclusivo, uma terra fraterna e multicultural, onde cidadãos de todo o Mundo podem trabalhar e viver de forma harmoniosa e pacífica. Importa aprofundar o esforço de integração das comunidades estrangeiras, no respeito pela sua diversidade e na partilha de valores comuns de que nunca abdicaremos: a liberdade e a democracia, a justiça e a tolerância.

Verifica-se, por outro lado, que muitos dos jovens que permanecem em Portugal não têm emprego. Outros encontram-se em situações de subemprego e emprego precário. São forçados a adiar as suas opções de vida, incertos quanto ao que o futuro lhes trará. Portugal, que enfrenta já um grave problema de natalidade, está, assim, a desperdiçar um outro activo fundamental, os seus jovens.

Não admira o desinteresse das novas gerações pela actividade cívica e política. Todos nós — e os agentes políticos, em particular — devemos reflectir muito seriamente sobre este fenómeno.

Só através de uma estratégia vocacionada para a criação de emprego qualificado será possível aumentar a confiança dos jovens nas instituições. Muitos sentem que foi em vão o investimento que fizeram na sua formação escolar e qualificação profissional. A manter esta situação, Portugal perde duplamente: por um lado, perde aquilo que já investiu na educação e qualificação dos seus jovens; por outro lado, desperdiça o contributo desses jovens para, com o seu talento e a sua iniciativa, ajudarem o País a regressar a uma trajectória sustentável de crescimento económico e criação de riqueza.

A mobilização cívica dos jovens — e dos cidadãos em geral — implica também um trabalho de credibilização das instituições e dos seus protagonistas. Ao fim de quatro décadas de democracia, os agentes políticos devem compreender, de uma vez por todas, que a necessidade de compromissos interpartidários é intrínseca ao nosso sistema político e que os Portugueses não se revêem em formas de intervenção que fomentam o conflito e a crispação e que colocam os interesses partidários de ocasião acima do superior interesse nacional.

Os Portugueses estão cansados da conflitualidade política em torno de questões acessórias e artificiais, quando devia existir união de esforços na abertura de perspectivas de futuro para as novas gerações, no combate ao desemprego e à pobreza, na melhoria da equidade na distribuição do rendimento, no apoio aos idosos.

Senhoras e Senhores Deputados,

Num contexto de dignificação das instituições, impõe-se desde logo uma atitude firme de combate à corrupção, um dos maiores inimigos das sociedades democráticas.

A corrupção tem efeitos extremamente graves no relacionamento entre os cidadãos e o Estado, diminuindo a confiança nas instituições e criando, em particular, a falsa ideia de que a generalidade dos agentes políticos ou dos altos dirigentes da administração não desempenham as suas funções de forma transparente, ao serviço exclusivo da comunidade. É desta falsa percepção que se alimentam os populismos e se abre a porta à demagogia.

Para além do mais, a corrupção põe em causa um dos elementos essenciais da vida colectiva: a coesão do tecido social.

Portugal possui importantes activos, sobretudo em comparação com muitos países congéneres da União Europeia. Um desses activos é, precisamente, a coesão social. Graças a ela, conseguimos atravessar um período de duros sacrifícios sem que se tenham verificado radicalismos e rupturas dramáticas, como sucedeu em alguns países da Europa do Sul.

Para mantermos a coesão social, é essencial que exista um empenho de todos no combate à corrupção. Numa República de cidadãos iguais, ninguém está acima da lei.

Neste contexto, um desafio que temos de enfrentar é o da promoção de uma política de Justiça centrada na defesa do interesse colectivo e dos direitos individuais. Só através de uma Justiça credível, célere e eficaz Portugal pode afirmar-se como um Estado de direito consolidado, uma sociedade meritocrática de cidadãos livres e iguais. Têm sido aprovadas reformas do nosso sistema de justiça que só obterão plenos resultados se envolverem de forma activa os agentes do aparelho judiciário, os magistrados que conhecem de perto a realidade dos tribunais. Estou certo de que este é um domínio onde será possível encontrar consensos interpartidários capazes de conferir estabilidade às reformas de fundo já introduzidas ou que entretanto venham a ser apresentadas.

É bem sabido que os atrasos do sistema de justiça, além de lesarem direitos e expectativas legítimas dos cidadãos, representam um dos factores determinantes da menor atractividade do investimento, prejudicando o dinamismo e a competitividade da nossa economia.

Também no domínio da Administração Pública, apesar da modernização tecnológica e do avanço na prestação de serviços digitais, subsistem ainda factores que dificultam a atracção do investimento e a iniciativa das empresas. Infelizmente, o debate sobre a reforma do Estado tem sido colocado num terreno de combate ideológico, em que se esgrimem argumentos que, em concreto, pouco contribuem para aquilo que todos desejamos: uma Administração independente, imparcial e próxima dos cidadãos, dimensionada de acordo com a provisão eficiente dos bens e serviços de natureza pública, com funcionários qualificados e com dirigentes escolhidos exclusivamente pelo seu mérito.

A Administração Pública tem de ser competitiva no mercado de trabalho, de modo a recrutar, motivar e manter nos seus quadros os recursos humanos aptos a desempenhar as funções de grande responsabilidade que lhe são exigidas.

Os Portugueses reconhecem no Estado Social o modelo que lhes trouxe importantes benefícios em domínios como a Saúde e a Educação, a Segurança Social e a Cultura. O Estado Social é uma das maiores realizações da nossa democracia. É uma área em que o debate e o consenso sobre o seu futuro se impõem. Não se trata de diminuir a protecção social dos cidadãos que dela necessitam, mas sim de garantir a sustentabilidade do sistema num horizonte temporal alargado e de aumentar a eficiência, a equidade e a qualidade dos serviços prestados.

Em boa medida, a qualidade da democracia depende da qualidade dos serviços públicos prestados aos cidadãos. O modo como estes percepcionam e avaliam a acção dos governantes, dos agentes políticos, das forças partidárias, depende muito do relacionamento quotidiano que mantêm com a Administração Pública. Nesse sentido, melhorar a eficiência do Estado é também contribuir para a qualidade da democracia e para o prestígio da classe política.

Senhoras e Senhores Deputados,

Ao fim de quarenta anos de democracia, é notável aquilo que alcançámos. Não só construímos um país democrático e livre, respeitado na cena internacional, como edificámos uma sociedade mais solidária e mais inclusiva.

Mas estamos insatisfeitos. Somos ambiciosos, queremos um futuro melhor.

Ambicionamos um Portugal mais justo, uma economia mais dinâmica e competitiva, uma educação de excelência e um Serviço Nacional de Saúde sustentável e de qualidade.

Em quatro décadas de democracia, os cidadãos viram significativamente melhorados a qualidade e o acesso à educação e aos cuidados de saúde. Portugal possui actualmente cientistas e investigadores que ombreiam com os melhores. Os progressos tecnológicos na detecção e tratamento da doença estão ao nível dos registados nos países mais desenvolvidos. O sucesso no combate à mortalidade infantil é uma referência mundial.

A excelência na educação, o desenvolvimento de competências ao longo da vida e a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde permanecem, no entanto, como grandes desafios que devem mobilizar a Assembleia da República na próxima legislatura.

O futuro do Serviço Nacional de Saúde português não pode ser encarado apenas na sua dimensão financeira. O investimento na saúde da população é uma fonte de criação de riqueza que não pode ser desperdiçada. É, acima de tudo, um imperativo de justiça e de salvaguarda da dignidade humana.

O relatório da Fundação Calouste Gulbenkian “Um futuro para a Saúde” fornece uma base informada e objectiva para o estabelecimento do pacto político e social para a próxima década que este sector exige.

Senhoras e Senhores Deputados,

Um tema constante dos meus mandatos, o da estratégia nacional para o mar, entrou definitivamente na agenda política.

Destaco, nesta ocasião, o largo consenso alcançado nesta Assembleia na aprovação da Lei de Bases da Política de Ordenamento e de Gestão do Espaço Marítimo Nacional e os desenvolvimentos operados nos sectores portuário e de transformação de pescado, pelo seu contributo para o aumento das exportações.

Apesar dos avanços, há um grande potencial da economia do mar ainda por explorar e um desafio político da maior relevância que importa enfrentar na próxima legislatura: a adopção de uma governação verdadeiramente integrada dos assuntos do mar. Há que assegurar uma articulação eficiente de todos os assuntos do mar, independentemente da tutela governativa em que se situem, de modo a garantir a realização da estratégia definida para o sector.

Noutro domínio, de grande importância, tornou-se evidente a necessidade de garantir a segurança dos cidadãos face a novas ameaças transnacionais, a que devemos dar resposta através da afirmação dos nossos valores e princípios, mas também com recurso a meios preventivos e repressivos. Portugal é uma sociedade aberta e tolerante. Para continuar assim, tem de rejeitar com firmeza os extremismos e ser intransigente com a violência e o terrorismo.

Um desafio premente que aqui se coloca é o de adequarmos a organização e o funcionamento de todas as estruturas que compõem o nosso sistema de segurança nacional às exigências que decorrem destes novos perigos, que não se fazem anunciar e que não conhecem fronteiras.

Ainda que num plano claramente distinto, a violência não se manifesta apenas através da força física e das armas. Temos assistido, no debate público em Portugal, a um nível de crispação e de agressividade verbal que, muitas vezes, não hesita em extravasar da controvérsia de opiniões para os ataques e os insultos de carácter pessoal.

Numa democracia amadurecida, o debate informado e a diversidade de opiniões são valores fundamentais. Valores que, no entanto, correm o risco de serem obscurecidos e relegados para um plano secundário se se mantiver a tendência para recorrer às querelas estéreis, à calúnia e à difamação como instrumentos de combate político. Aí, não estamos já no campo da divergência de opiniões; pelo contrário, aos olhos dos cidadãos, a salutar diversidade de ideias perder-se-á e o debate público sairá empobrecido.

A violência verbal, amplificada pelo ruído mediático, afasta os cidadãos da vida da República, fomenta o desinteresse cívico, corrompe a confiança dos Portugueses nas suas instituições. Apelo, pois, aos Deputados, representantes do povo, desta legislatura e da que irá iniciar-se no final deste ano, a que contribuam, pela força do seu exemplo, para a elevação do debate público e para a qualidade da democracia em Portugal.

Só deste modo, através do diálogo e do consenso, será possível alcançar os compromissos imprescindíveis para garantir a estabilidade política e a governabilidade do País e para enfrentar com êxito os desafios que o futuro nos coloca.

Só através do compromisso entre as forças democráticas foi possível aprovar a Constituição da República e concretizar muitos dos sonhos de Abril.

Senhora Presidente da Assembleia da República,
Senhoras e Senhores Deputados,

Olhando para o mapa da Europa, Portugal surge como um país pequeno e periférico. Mas, por vezes, as aparências são enganadoras. Somos dos países com maior nível de coesão social da União, possuímos laços privilegiados de amizade com vários povos do Mundo, a nossa língua é falada por milhões de seres humanos. Além de tudo isso, somos o espaço onde a Europa se abre ao Atlântico. O mar projecta-nos e engrandece-nos, coloca-nos no centro do planeta.

No mapa do Mundo — e já não do continente europeu — Portugal não se encontra na periferia. Pelo contrário, ocupa um lugar central. No tempo da globalização, em que as geografias se reconstroem continuamente com apoio na tecnologia e nas novas formas de comunicação, é para o mapa do Mundo que devemos olhar. Aí, observando o Mundo inteiro, Portugal encontra-se no fulcro da contemporaneidade.

Fomos pioneiros há quinhentos anos, quando tirámos partido da nossa proximidade ao oceano para descobrirmos novos mundos.
Fomos pioneiros há quarenta anos, quando a revolução de Abril iniciou uma vaga de democratização que se estendeu a vários países da Europa: primeiro, no Sul; depois, no bloco de Leste.
Não tivemos medo do desconhecido, quer no tempo das Descobertas, quer no dia 25 de Abril.

Também hoje os Portugueses não devem ter medo do tempo em que vivem. Enfrentamos grandes desafios, sem dúvida. Mas a História revelou que foi sempre nessas alturas que mostrámos ser mais fortes e mais corajosos.

No dia 25 de Abril, devemos celebrar a esperança.
Foi a esperança de um tempo novo que deu ânimo e coragem aos militares que derrubaram a ditadura.
É a esperança de um futuro melhor que nos deve juntar todos em nome de Portugal e dos Portugueses.

Muito obrigado."


Quarenta e um anos depois






Foi um marido afectuoso e, mais tarde, o melhor pai.
Trabalhava incansavelmente, de segunda a sábado, e ao domingo estudava.
Dizia que a guerrilha colonial ia provocar o fim da ditadura,
passaríamos a viver em democracia,
ser governados pela gente idónea da oposição
e desfrutar da vida esplêndida da Alemanha.
Por isso acreditei antes que aconteceu
e aplaudi quando o dia 25 de Abril amanheceu.

Vi as colónias tornarem-se independentes,
morrer em Angola o poeta Agostinho Neto e chegarem ao poder os cleptocratas
que depois se converteram em plutocratas.
Vi a Guiné-Bissau tornar-se num entreposto de droga da América Latina,
o petróleo ensoberbecer os líderes timorenses
e desaparecer de cena virtuosos crentes agraciados com o Nobel da Paz.

Vi os comunistas substituírem o mérito pelo cartão partidário
e discriminarem docentes por não alinharem em greves meramente políticas.
Vi Mário Soares coleccionar moradias em Nafarros e Alvor e cumular fundações,
Cavaco Silva rodear-se de larápios (e um assassino),
deixá-los desbaratar os fundos europeus
em apartamentos de luxo, herdades e moradias com piscinas e ferraris na garagem,
aboletar-se, via BPN, com uma propriedade na costa algarvia
e receber, a preço de saldo, o pavilhão da Utopia.
Vi José Sócrates endividar o País com obras públicas
para arrecadar pecúlios de dezenas de milhões,
ciosamente guardados em contas de testas-de-ferro na Suíça,
que depois fez regressar à origem, decretando perdões fiscais.
Vi os bloquistas criarem ilusões, enovelarem-se em temas fracturantes
e acabarem por demonstrar que nem sequer sabiam gerir facções.
Vi Ricardo Espírito Santo Salgado eleger presidentes da República,
criar plataformas giratórias para enriquecer centristas e socialistas,
e subsidiar festas comunistas.

Hoje os socratistas têm outro líder carismático
e os donos da comunicação social estão a preparar o eleitorado
para lhe entregar o poder
e deixar esta corja transformar novamente o País num protectorado.

Quarenta e um anos depois daquela auspiciosa madrugada,
para além da liberdade de expressão, o que é que há para comemorar?
Se as famílias vivem melhor,
devem-no ao decréscimo da natalidade,
aos fundos que a Europa do Norte ofereceu, e continua a enviar-nos,
e à inovação tecnológica que uma moeda forte vai permitindo importar.
Resta-me reconhecer, com humildade,
que trocámos ditadores íntegros com um desígnio para o País
por gente incapaz e pervertida, uma nulidade que se azáfama
a encher a algibeira e aumentar o património familiar.
Resta-me recordar a utopia perdida,
ir depor cravos vermelhos na campa e confessar,
confessar amargamente: “Eles enganaram-nos, pai.”


quarta-feira, 22 de abril de 2015

Auditoria revela infracções financeiras nas contas de 2013 do Tribunal Constitucional

A auditoria financeira do Tribunal de Contas, presidido por Guilherme d'Oliveira Martins, tinha de analisar a conta de gerência de 2013, verificar a contabilização das receitas e das despesas, bem como a regularidade e legalidade das operações subjacentes.

No seu relatório, o Tribunal de Contas refere, como sendo eventuais infracções financeiras, os pagamentos a Magistrados no que respeita as ajudas de custo:

Em 1 de Novembro de 2012, por alteração do procedimento antes seguido, sem que exista evidência de determinação formal por quem tinha competência para autorizar despesas, passaram a ser processadas e pagas aos Juízes Conselheiros as ajudas de custo por participação em sessão do TC sem dedução do abono diário do subsídio de refeição, contrariando o artigo 37.º do DL n.º 106/98 (…).

Assim, o pagamento do subsídio de refeição, em acumulação com as ajudas de custo por participação em sessão do TC, carecem de conformidade legal (…) pelo que, no período compreendido entre Novembro de 2012 e Dezembro de 2013, os pagamentos relativos ao abono do subsídio de refeição, no montante global de 12.329,98 €, são ilegais e indevidos e resultaram num dano efectivo para o erário público de igual montante (…).
(…)
Tais pagamentos indevidos, comprovados pelos documentos acima identificados, causaram dano efectivo para o erário público de 12.329,98 €, pelo que constituem eventual responsabilidade financeira reintegratória (…) imputável em regime de solidariedade (…) a:
a) Dulce Nídia Pinheiro da Fonseca Monteiro O’Neill Marques, Chefe de Divisão da DAF, pela ordem emitida, em 29 de Outubro de 2012;
b) Joaquim José Coelho de Sousa Ribeiro e Maria Manuela Pereira Baptista Lopes, Presidente e SG do TC, respectivamente, com competência delegada, que autorizaram os pagamentos.

No contraditório, o presidente do TC, Joaquim de Sousa Ribeiro, salienta que "são presentes ao signatário, para assinatura, largas dezenas de autorizações de pagamento (…) Já quanto aos vencimentos, são apresentados para assinatura, juntamente com as restantes autorizações, apenas mapas com verbas globais a pagar, que o signatário assina sem qualquer reserva ou prevenção dubitativa, uma vez que se trata de despesas decorrentes directamente de preceitos legais.
Pelos referidos mapas, o signatário não tem qualquer possibilidade de tomar conhecimento do que é pago a cada funcionário e qual a composição analítica de cada uma dessas prestações, o que só seria possível com a consulta dos respectivos processos individuais. Uma tal consulta é, por padrões mínimos de razoabilidade, inexigível, para este efeito. Sempre faltaria, por conseguinte, mesmo a ter-se por verificada qualquer das ilegalidades em causa — o que não se concede — a possibilidade de estabelecer o nexo de imputação subjectiva, pressuposto necessário tanto da responsabilidade reintegratória
(…), como da responsabilidade sancionatória", acrescenta Sousa Ribeiro.

Relativamente ao sistema de controlo interno do Constitucional, o Tribunal de Contas (TdC) refere:

O TC não elaborou as demonstrações financeiras previstas no POCP e os registos contabilísticos do orçamento_RP não asseguravam a fiabilidade e integridade das operações. O TdC regista a informação que, a partir de Janeiro de 2015, a totalidade do sistema contabilístico utilizará o POCP (…).

Constatou-se a inexistência de manual de procedimentos de controlo interno, designadamente, de normas específicas para o controlo da receita própria, do imobilizado, da utilização dos veículos e das existências. O controlo do imobilizado não é completo nem eficaz, não tendo sido contabilizados e inventariados os bens adquiridos através do orçamento_RP. Constataram-se falhas na organização dos processos individuais de pessoal e de aquisição de bens e serviços (que não têm sido publicitados no portal da internet), nas autorizações para a realização de trabalho extraordinário e na fixação de limiares de reembolso de despesas. O TdC regista as iniciativas para regularização dessas situações (…).

Constataram-se fragilidades operacionais quanto à receita cobrada pelo TC, encontrando-se em curso procedimentos para assegurar a plenitude dos registos contabilísticos ao controlo da receita cobrada na 4.ª Secção da SJ (que reverte para o Estado) (…). O TC não cumpria o princípio de unidade de tesouraria, situação entretanto regularizada com a transferência da quase totalidade do saldo para o IGCP (…).

No cômputo global o sistema de controlo interno não apresenta um grau razoável de eficácia na prevenção e detecção de erros e irregularidades, o que justifica a sua classificação de “Deficiente” (…).

Quanto à legalidade e regularidade, houve também falhas a apontar:

Constatou-se a atribuição, desde 2000, de veículo para uso pessoal (com cartão de combustível e via verde, com limiares definidos) a todos e a cada um dos Juízes Conselheiros. Dado que só o Presidente e a Vice-presidente do TC têm direito a veículo oficial, os restantes veículos são de serviços gerais inexistindo regulamentação adequada para a sua utilização e controlo (…).

As operações subjacentes de receita foram verificadas, numa base de amostragem, tendo sido revelado que, em 2013, o TC não contabilizou cerca de 13 m€ correspondente a uma parcela do accionamento de garantias bancárias (…).

O exame da documentação de despesa, numa base de amostragem, revelou que:
a) não foram contabilizadas transacções no montante de 21 m€ (…);
b) foram pagos suplementos de disponibilidade permanente a dois dirigentes que optaram pelo vencimento de origem, como forma de, no quadro da legislação do TC, os compensar do dever indisponível de isenção de horário (…).
c) pagou indevidamente o suplemento de forças de segurança a guardas da GNR e não lhes pagou o suplemento de disponibilidade permanente (…);
d) foram inadequados os processamentos a agentes da PSP, no TC e na PSP, dos suplementos de risco, de serviço nas forças de segurança e de disponibilidade permanente (…);
e) desde Novembro de 2012, foram processadas e pagas as ajudas de custo por participação em sessão do TC, sem dedução do abono diário do subsídio de refeição, no montante, até Dezembro de 2013, de 12 m€ (…).

Em conclusão, o Tribunal de Contas faz o juízo sobre a conta:

O juízo respeitante à fiabilidade dos documentos de prestação de contas de 2013 é desfavorável (no sentido desta expressão em auditoria financeira), em virtude da incidência dos seguintes erros e irregularidades: o sistema do controlo interno é deficiente; o sistema de controlo patrimonial não é eficaz inexistindo informação completa e detalhada sobre os bens em inventário; na contabilização da receita e da despesa no orçamento_RP não foram cumpridos os princípios e regras orçamentais relativamente a 1,4 M€; as operações subjacentes, que foram verificadas por amostragem, revelaram irregularidades (…).

Em contraditório, o Presidente do Tribunal Constitucional, Joaquim de Sousa Ribeiro, expressa "(…) o verdadeiro desgosto e a preocupação que causa o juízo que o Relato dos Auditores entende dever ser formulado sobre a conta de 2013". E prossegue: "Seguramente injusto perante o que é a realidade substantiva da orientação da gestão financeira deste Tribunal, e, no essencial, da sua prática, esse juízo afigura-se-nos também, a uma primeira análise — não dispondo embora de dados comparativos que permitam uma apreciação segura —, sem fundamento bastante".





*
Tudo isto foi descoberto numa base de amostragem porque não é possível efectuar uma análise exaustiva. Simplesmente demolidor do rigor e da exigência que deve ser apanágio do TC e a pôr em causa a sua honorabilidade!

Acrescentamos que o TC gastou cerca de 7 milhões de euros ao longo do ano 2013, mais do que recebeu, portanto ficou com um saldo de encerramento inferior ao saldo de abertura.

O presidente do Tribunal de Contas, Guilherme d'Oliveira Martins, foi deputado do partido socialista de 1991 a 1999 e, novamente, de 2002 a 2005, tendo exercido funções nos governos de António Guterres (1995-2002), nomeadamente, foi secretário de Estado da Administração Educativa (1995-1999), ministro da Educação (1999-2000), ministro das Finanças (2001-2002) e ministro da Presidência (2000-2002).

Donde se conclui que, quer as eleições legislativas do próximo Outono sejam ganhas pelos socialistas ou pelos social-democratas, o Tribunal Constitucional vai entrar na ordem. Com a função pública e os pensionistas a poderem perder o melhor apoio e a terem de enfrentar tempos difíceis.


segunda-feira, 20 de abril de 2015

O jornal Público perdeu as estribeiras


Martin Richard, de oito anos, morreu no atentado da maratona de Boston, em Abril de 2013. A sua irmã, Jane, então com sete anos, perdeu a perna esquerda. O irmão Henry, de nove, assistiu a um terror que nunca conseguirá esquecer. A mãe, Denise, ficou cega de um olho e o pai, Bill, foi atingido por estilhaços numa perna e a onda de choque provocada pela explosão perfurou-lhe os tímpanos.
Foi junto desta família que Djhokhar Tsarnaev deixou a sua mochila com o engenho explosivo. Mesmo assim, Bill e Denise Richard pediram para que Djhokhar não fosse condenado à pena de morte.

Até o Partido Comunista Português sempre restringiu as suas acções armadas a objectivos militares, ou a instalações da PIDE, acções que realizava de noite para minimizar a perda de vidas humanas. A sabotagem da base aérea de Tancos que destruiu 13 aviões e helicópteros, numa madrugada de Março de 1971, é um exemplo do modo como o seu braço armado — a ARA — actuava.

Ao contrário do assalto ao paquete Santa Maria, durante uma viagem regular até Miami com cerca de 612 passageiros, em Janeiro de 1961, que foi um crime à mão armada contra uma tripulação desarmada de que resultou o sequestro dos passageiros durante onze dias, vários feridos e um morto.


Que a deputada bloquista Mariana Mortágua considere um indivíduo que participou neste crime como um herói, demonstra carência de valores éticos, mas sempre se trata do seu pai.

Que o Bloco de Esquerda não se afaste desta exaltação de um criminoso com as mãos sujas de sangue feita por uma sua deputada, só demonstra que não dá valor à vida humana e, em consequência, não merece o voto das pessoas de bom carácter.

Agora, espantosamente, que o jornal Público venha enaltecer na capa e num artigo a vida de um indivíduo que participou num crime de sangue é um delírio. Será que há jornalistas neste jornal que não são capazes de distinguir entre uma acção política e um acto terrorista? Por favor, belisquem-me e façam-me acordar porque estou a ter um pesadelo!


O êxodo africano para a Europa - III


Hoje mais um barco com 300 imigrantes clandestinos lançou um pedido de socorro, informou a Organização Internacional das Migrações (OIM).



20/04/2015 - 12:58


"A OIM em Roma acabou de receber uma chamada a pedir ajuda para um barco em águas internacionais (...). A pessoa que ligou disse que havia mais de 300 passageiros no seu barco e que estava em risco de se afundar", disse a organização.
A OIM reencaminhou o pedido de ajuda para as autoridades marítimas mas estas afirmaram que "não têm os meios para os socorrer neste momento", disse o porta-voz desta organização, porque os recursos foram disponiblizados para o naufrágio de domingo de uma embarcação com cerca de 700 pessoas a bordo.
"A guarda costeira vai provavelmente tentar redireccionar navios comerciais", concluiu a OIM, sublinhando que essa solução pode revelar-se ineficaz devido à recusa de alguns desses navios em colaborar.

"Trata-se simplesmente de um pedido de socorro", suavizou pouco depois o porta-voz da OIM, Flavio di Giacomo, nas declarações à televisão RaiNews24, tendo acrescentado: "É muito prematuro falar de naufrágio. Muitas vezes os migrantes, quando ainda estão próximos da Líbia, chamam os guardas costeiros e as associações para lhes pedir ajuda." Embora isso "não queira dizer que não estejam numa situação desesperada".

Este excerto de uma notícia sobre a tragédia que está a ocorrer no mar Mediterrâneo é arrepiante:

As condições das viagens são cada vez piores — muitas vezes, os traficantes de pessoas deixam o barco, em piloto automático, os chamados “navios fantasma”. Os sobreviventes descrevem como nunca sabem para onde vão. Chegam a Malta ou à Grécia pensando que estão em Itália.

Ali, esperam-nos campos de acolhimento ou detenção e poucas perspectivas. Numa tirada especialmente chocante, o presidente da Câmara da ilha grega de Kos, perto da cidade turca de Bodrum, disse na semana passada que não dava nem uma garrafa de água aos refugiados que chegam à ilha, porque estes afastam os turistas.

Nas ilhas gregas, muito mais perto da costa turca do que as ilhas italianas da costa líbia, os refugiados chegam aos grupos de 40, 50 pessoas em barcos que deveriam levar no máximo dez. A escala de morte em cada naufrágio é menor. Mesmo assim, cemitérios em ilhas como Lesbos têm secções com campas de mortos no mar. A maioria está marcada com placas dizendo: “Afegão 1, Afegão 2” ou simplesmente “X, imigrante”, e a data em que foram encontrados. Ao fim de três anos, as campas são removidas.

Na travessia para Itália, são mais comuns navios maiores, mais velhos, que levam mais pessoas e muitas vezes param no meio do mar, e se viram com o peso da deslocação das pessoas para um lado quando é avistado um navio que poderá ajudar. Vários naufrágios aconteceram assim.


Enquanto surgiam as notícias de que novos barcos com imigrantes clandestinos tentam chegar à Europa, decorreu a cimeira europeia convocada de emergência para abordar o assunto.

Há duas posições antagónicas no seio da UE. Os países mais afectados pelo fluxo migratório do Magrebe e da África subsaariana, como a Itália, França, Espanha ou Malta, defendem uma solução colectiva para combater o problema. Outros Estados europeus, com o Reino Unido à cabeça, defendem a redução do financiamento das operações de resgate porque encorajam a imigração clandestina.

Reunidos de emergência no Luxemburgo, os ministros dos Negócios Estrangeiros e do Interior da União Europeia adoptaram algumas medidas extraordinárias. Segundo o ministro do Interior da Alemanha, Thomas de Maiziere, a Comissão aprovou:
  • Duplicar o financiamento e os meios dos programas de segurança e patrulhamento marítimo Triton e Poseidon e alargar a sua área de intervenção. Mas mesmo depois deste reforço, as duas missões terão menos recursos do que o anterior programa de vigilância Mare Nostrum que o Governo italiano custeava e que abandonou no ano passado.
  • Medidas para a penalização das redes criminosas que lucram com o transporte de imigrantes para a Europa, usando a experiência obtida na operação anti-pirataria Atalanta, em curso na costa da Somália, para lograr a “captura e destruição” das embarcações usadas no tráfico do Mediterrâneo.
  • Dar prioridade à investigação (policial e judicial) das redes contrabandistas.
  • Dar novos poderes à Frontex, a agência europeia de controlo das fronteiras europeias, no que diz respeito ao alojamento ou expatriamento de imigrantes clandestinos e refugiados. A agência poderá proceder ao repatriamento de imigrantes ou candidatos a asilo cujo processo seja “irregular”.
  • Adoptar um “mecanismo de realojamento de emergência” dos imigrantes que chegam à costa e criar um programa-piloto voluntário para a redistribuição de refugiados pelos países da UE.


*


Sob a capa do anonimato pode falar-se de realidades que o cultivo de relacionamentos equilibrados e as normas de boa educação — que nos coíbem de ofender os nossos interlocutores — nos impedem de dizer cara a cara.
Não é, porém, não falando destas realidades, que elas desaparecem da face da Terra, como muitos de nós gostaríamos que acontecesse. O que se segue são diálogos impiedosos que é preciso ler:

No Mercy
20/04/2015 14:44
O problema não está nas vagas de emigrantes, está nas razões que levam às vagas de emigrantes e essas estão nos países de origem, países soberanos, com uma respeitável autodeterminação e onde a Europa não pode intervir para resolver os problemas de pobreza, da miséria, da intolerância religiosa, das guerras, do tribalismo, da ignorância, da violência endémica e sistemática, etc e tal, de que esses países continuam (e continuarão) a padecer!
Enquanto não se perceber que isso da autodeterminação é conversa do séc. XX e que, manifestamente, ela não acrescentou nada a inúmeros povos, bem pelo contrário, não se resolve o problema de África! As simple as that!
  • Álvaro Aragão Athayde
    Engenheiro (aposentado), Coimbra 20/04/2015 15:05
    Não pode intervir? Então o que aconteceu no Iraque, na Líbia, na Síria, etc., foi o quê? Hipocrisia, é?
  • Gota
    Um dia despertarão. Esperemos que não seja da pior maneira possível... 20/04/2015 15:34
    Boa, caro Álvaro!
  • No Mercy
    20/04/2015 15:43
    Caro Álvaro,
    A frase é "a Europa não pode intervir para resolver os problemas de pobreza, da miséria, da intolerância religiosa, das guerras, do tribalismo, da ignorância, da violência endémica e sistemática, etc e tal, de que esses países continuam (e continuarão) a padecer!".
    Uma coisa é mandar uns aviões atacar uns alvos, outra bem diferente é "os problemas de pobreza, da miséria, da intolerância religiosa, das guerras, do tribalismo, da ignorância, da violência endémica e sistemática", não acha? E acha que as intervenções no Iraque, na Líbia, na Síria resolveram algum problema ou, sequer, resolveram o problema do terrorismo? Eu espero que o Ocidente tenha aprendido que não é possível resolver os problemas desses países, como está mais do que provado. A não ser recolonizando-os...

Luis Simões

20/04/2015 15:38
"Se países como a Itália, França, Espanha ou Malta — mais afectados pelo fluxo migratório do Magrebe e da África Subsariana — defendem soluções abrangentes para combater o problema, outros estados europeus, com o Reino Unido à cabeça, promovem a redução do financiamento das operações de resgate, que consideram encorajadoras da imigração clandestina." Têm todo o dinheiro do mundo para atiçar guerras e bombardeamentos mas contam tostões para resgatar as vítimas inocentes...
  • No Mercy
    20/04/2015 15:50
    O problema é que se puseres um Muro no meio do Mediterrâneo, podes conseguir que eles não entrem, mas não resolves os problemas que os fazem fugir dos países deles... A Europa e o ocidente vão ter que resolver a crescente disparidade de valores (e de tudo o mais) entre os países desenvolvidos e os países eternamente atrasados que rodeiam os países desenvolvidos — e que nunca serão outra coisa senão países atrasados.
    O séc. XX foi o séc. das independências, com a ausência de resultados para as populações que está à vista. O séc. XXI vai ter que encontrar solução para as independências que o séc. XX concedeu. As simple as that!
  • Luis Simões
    20/04/2015 16:01
    "A Europa e o ocidente vão ter que resolver a crescente disparidade de valores"? Que fiquem quietinhos e que deixem de interferir nos negócios internos alheios e principalmente que deixem de agredir e de bombardear países soberanos!
  • No Mercy
    20/04/2015 16:35
    Até aí concordo. É o que eu acho, cada um que se governe! Agora, não estejam à espera que os problemas nos outros países se vão resolver, porque não vão...
  • Luis Simões
    20/04/2015 16:46
    "não estejam é à espera que os problemas nos outros países se vão resolver, porque não vão..." Que não criem problemas seja a quem for, é o que eu espero!

Mortiço
20/04/2015 16:21
Independentemente de qualquer conotação partidária, esta sucessão de tragédias são mais um sintoma da falência moral da civilização europeia. Claro que não vão ficar na história, porque como se diz "dos fracos não reza a história". Mas é de ter vergonha da geração que está no poder neste que já foi o continente dos direitos humanos (uma rotunda hipocrisia, certamente). Ouvindo hoje a entrevista do Durão Barroso me dei conta que ele usava exatamente a mesma argumentação da minha porteira, que não tem fama de ser das pessoas mais inteligentes. Pura demagogia, pura subserviência, fracasso moral total.
  • Luis Simões
    20/04/2015 16:47
    "esta sucessão de tragédias são mais um sintoma da falência moral da civilização europeia". E norte-americana, canadiana e australiana, enfim da NATO!
  • No Mercy
    20/04/2015 16:48
    "esta sucessão de tragédias são mais um sintoma da falência moral da civilização europeia"?
    ahahahahahahahahahhaahahahahahahahahahahhahahahhhah
    Oh migo, desça à Terra por uns instantes. Os náufragos não estão a fugir da Europa, estão a querer vir desesperadamente para a Europa — o tal sítio que o cavalheiro diz estar falido moralmente! Se a Europa, para onde estes desgraçados querem fugir, está falida em termos morais e civilizacionais, os países de origem destes fulanos estão o quê? Num zénite moral e civilizacional?
    ahahahahahahahahaahahahhahhahahhhhahhahahha
    Vocês são uns pândegos divertidos, taditos...
  • Mortiço
    20/04/2015 17:23
    No Mercy, o seu comentário ilustra exactamente o que eu escrevi. A Europa pode ser rica, mas é miserável de cultura, de política e moral. Gargalhadas é tudo o que lhe inspira a morte de centenas de seres humanos, precisamente daqueles que mais esperança depositavam na Europa?
  • No Mercy
    20/04/2015 18:12
    O cavalheiro pode tresler o que eu disse à medida da sua conveniência, mas o grotesco do seu comentário está ali, para quem quiser ver! E continua com "A Europa pode ser rica, mas é miserável de cultura, de política e moral" — que me sugere a seguinte pergunta: se é assim, porque é que aqueles desgraçados querem vir para cá e estão a fugir das terras deles?
    Mais, se a "Europa pode ser rica, mas é miserável de cultura, de política e moral", os paisecos de onde estes desgraçados fogem são o quê, referências da cultura, da política e da moral?
    ahahahahaahahahahahahhahhahaahahahahhhah
    E não, eu não me estou a rir daqueles desgraçados, cujas terras de muitos deles conheço, estou-me a rir de si e das suas teorias de quem vê o mundo a partir do sofá e pensa que sabe alguma coisa!

RA
20/04/2015 16:50
O problema não está na Europa, está no Norte de África. E o problema não é só da Europa, é de quem mais derrubou regimes no Norte de África e não ficou para arrumar a casa. A partir do momento que se meteram na Líbia, os EUA têm responsabilidade no assunto e a Europa é quem os tem de chamar a ajudar no assunto.
O problema também não é só dos países para onde os emigrantes vão. Os países onde, ao contrário da Líbia, não reina a desordem, têm de ser chamados a controlar as suas fronteiras! Marrocos, Egipto, Tunísia, ... , têm de ser responsabilizados e chamados a ajudar no problema e, em último caso, têm de ser sancionados pela apatia perante este gravíssimo problema.
Mais, o Reino Unido — país de política hipócrita com provas dadas em assuntos como a escravatura e a descolonização — que em nada ajuda nisto, também andou a largar bombas na Líbia. Não que discorde com a actuação na Líbia de Kadhafi, mas que fiquem a arrumar os restos. Largar só as bombas que estão quase fora de prazo, e depois ir embora, não chega. E os EUA (que nunca são esquecidos pelos antecedentes e procedentes) não são filhos únicos nesta saga; o Canadá também lá andou metido, não esquecer desses.


domingo, 19 de abril de 2015

O êxodo africano para a Europa - II


Um pesqueiro que transportava cerca de 700 emigrantes clandestinos emitiu um pedido de ajuda em águas territoriais líbias, tendo naufragado durante o resgate. Sobreviveram apenas 28 pessoas.

Segundo Carlotta Sami, porta-voz da Agência para os Refugiados no Sul da Europa da ONU, quando os clandestinos viram o porta-contentores que ia salvá-los, dirigiram-se para um dos lados da embarcação, provocando o naufrágio. O papa Francisco lamentou a tragédia:

19 Abr, 2015, 20:25

O director do Navigate Group conta que o navio porta-contentores King Jacob, que navega sob bandeira portuguesa, foi chamado pelo Centro Coordenador de Buscas e Salvamento Marítimos de Itália para ir socorrer um pesqueiro em dificuldades a 27 km da costa líbia, tendo chegado ao local pelas 23:00. Lançando bóias salva-vidas, redes e jangadas ao mar, a tripulação conseguiu salvar 22 pessoas:


19/04/2015 - 18:11


Um dos tripulantes do navio revelou os meios usados nesta operação de salvamento:

19 Abr, 2015, 20:29

Com a chegada ao local de navios da marinha de Malta e de Itália, prosseguem as operações de salvamento. Em conferência de imprensa, o primeiro-ministro de Malta afirmou que está a desenrolar-se "a maior tragédia de sempre no Mediterrâneo", e lamentou que o seu país e Itália estejam "sozinhos nesta crise".
"Malta tem problemas com a imigração, mas ninguém deveria ter de morrer", disse Joseph Muscat. E acrescentou: "Se a União Europeia e o mundo continuarem a fechar os olhos, serão julgados da forma mais severa possível, tal como foram julgados no passado quando fecharam os olhos a genocídios enquanto os que viviam bem nada fizeram."

Por sua vez, o primeiro-ministro italiano Matteo Renzi pediu um Conselho Europeu extraordinário para discutir o problema da imigração ilegal no Mediterrâneo. François Hollande foi mais longe, não hesitando em classificar os traficantes de imigrantes clandestinos como terroristas:


*

São três as rotas mais usadas pelos imigrantes ilegais para tentarem chegar à Europa. E a de maior fluxo passa pela Líbia. Com a progressiva desintegração deste país e a chegada do tempo quente, aumenta o fluxo de emigrantes que sai da costa líbia com destino à ilha de Lampedusa:

19 Abr, 2015, 20:50

O comandante Paulo Vicente, porta-voz da Marinha portuguesa, fala da sua experiência em operações de salvamento como a que está agora a decorrer no Mediterrâneo.
Embora considere que, com melhor integração de várias entidades, se podia aumentar a eficácia deste tipo de operações, afirma que o problema da imigração ilegal não se consegue combater apenas no mar. É preciso ir à causa e aniquilar o fluxo migratório de milhões de pessoas que procuram a Europa o que exigirá acções a nível planetário:

19 Abr, 2015, 22:33

A democracia funciona bem nos países do Norte e do centro da Europa. Já no Sul do continente europeu nem sempre os eleitores têm consciência das consequências das escolhas que fazem, como sucedeu este ano na Grécia. E os acontecimentos decorridos nos últimos anos na Tunísia, no Egipto e na Líbia demonstram que as sociedades do Norte de África encontram-se num estádio de desenvolvimento cultural que ainda não lhes permite viver em democracia.

Só um poder autocrático conseguia manter a estabilidade na Líbia. Quando esse poder foi destruído, o Estado desintegrou-se e mergulhou no caos onde pululam redes de traficantes de emigrantes ilegais e terroristas.
Mal uma frágil embarcação repleta de emigrantes clandestinos se afasta umas dezenas de quilómetros da costa líbia, o mestre lança um pedido de socorro e todos ficam ansiosamente à espera que a Itália desencadeie uma operação de salvamento e um navio os vá buscar a águas territoriais líbias.
Se ocorrer um naufrágio e centenas de pessoas se afogarem, a Europa comove-se e assume a responsabilidade. Pois não foram alguns países europeus, com a França de Sarkozy à cabeça, os instigadores dos bombardeamentos da NATO que causaram a queda de Gaddafi?


Registamos este comentário à notícia do Público:

Álvaro Aragão Athayde
Engenheiro (aposentado), Coimbra 08:10
O Muammar Abu Minyar al-Gaddafi foi um autocrata. Mesmo à moda da cultura da terra dele foi um autocrata, sim. Mas foi um autocrata que fez obra, manteve a ordem, não se dobrou a determinadas exigências que lhe foram feitas e morreu... por ter sido o que foi. Quem o matou foram aprendizes de feiticeiro, aprendizes de feiticeiro que abriram as portas da anarquia e do caos, que é o que temos hoje. Quem quiser ser "missionário da democracia" tem que ser mais competente.


sábado, 18 de abril de 2015

Nasceu uma nova associação de professores de Português


Foi criada uma nova associação de professores de Português que preconiza o fim da confusão actual na ortografia da língua portuguesa que adveio do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90) e pretende alargar os conhecimentos literários dos alunos.
A defesa da possibilidade de os estudantes utilizarem ambas as grafias nas provas nacionais, este ano, é a sua primeira iniciativa.




Fernando Nabais, presidente de nova associação de professores de Português


A Associação Nacional de Professores de Português (Anproport) fez, este sábado, a sua apresentação pública na Biblioteca da Escola Secundária Pedro Nunes, em Lisboa, e já apresentou a primeira iniciativa: reclamar junto do Ministério da Educação e Ciência (MEC) que seja permitido o uso da grafia de 1945 aos estudantes que este ano fazem exames nacionais de Português.

O presidente, Fernando Nabais, argumenta que o calendário de aplicação do AO90 à avaliação externa foi estabelecido “na expectativa de que a nova grafia estaria, nesta altura, consolidada, o que está muito longe de se verificar”.
“A Anproport não foi criada contra o AO90 nem se afirma contra ele. Mas defende que o acordo deve ser debatido e avaliado e que, se se concluir que é prejudicial, deverá ser revogado”, esclareceu Fernando Nabais. Sublinhava, assim, um dos pontos de divergência entre a Anproport e a velha Associação de Professores de Português (APP), criada em 1977, cuja presidente, Edviges Ferreira, afirmou, recentemente, que “se o MEC determina que o AO90 é para cumprir, [os professores] só têm de obedecer”.

A perspectiva da nova associação, explica Fernando Nabais, é que “nada passa a ser positivo pelo único facto de estar legislado”. No que respeita à ortografia, “o que actualmente se verifica é o caos, que resulta da utilização simultânea de ambas as grafias e do que não é uma coisa nem outra” e “Não é invulgar depararmos com palavras que não existem na publicidade, nas legendas da televisão e até em documentos oficiais”, observa.
Ora esta situação é especialmente grave em relação aos alunos do 12.º ano porque podem perder até 4 valores (em 20) devido a erros ortográficos, justamente aqueles para quem uma centésima a menos ou a mais pode determinar a entrada, ou não, num curso do ensino superior público.

Outro dos motivos para que parte dos docentes de Português não se reveja na associação profissional de 1977, é a oposição desta “ao regresso dos clássicos e à revalorização da história da literatura e da própria literatura” no novo programa do ensino secundário, que será aplicado pela primeira vez no ano lectivo 2015-2016.
“Ouvimos a presidente da APP defender que do programa deviam constar autores mais recentes e mais próximos da realidade dos alunos, que de contrário passarão a detestar a disciplina. Já nós consideramos inaceitável que um aluno possa fazer 12 anos de escolaridade sem saber que D. Dinis ou Fernão Lopes escreveram uma linha. Quando se toma este tipo de decisões, o critério não pode ser se os alunos se identificam ou não imediatamente com as obras”, disse Fernando Nabais, mas “o rigor e a exigência”.

A presidente da APP, Edviges Ferreira, recordou o parecer da associação feito na altura da apresentação do programa do ensino secundário. Nessa ocasião, criticou o elevado número de obras literárias incluído no programa, o facto de aquele ser excessivamente extenso e prescritivo (com a indicação de capítulos específicos de cada obra e até de excertos e de poemas) que considera desadequado, por exemplo, ao 10.º de escolaridade, “um ano crítico, marcado por altos níveis de insucesso, por corresponder a uma fase de transição e por as turmas serem muito heterogéneas”.
“Na medida em que tem nos seus órgãos sociais os autores das metas e dos novos programas de Português, é muito natural que as pessoas que integram a nova associação não se revejam nas posições da APP, que os tem contestado publicamente. Mas isso não tem mal nenhum, tornará o debate mais interessante, pelo que fazemos questão de estar presentes e de desejar as maiores felicidades aos nossos colegas”, acrescenta.
Sobre o AO90, Edviges Ferreira diz que “a APP nunca tomou uma posição favorável ou desfavorável” porque “existindo professores de Português que concordam com a aplicação do AO90 e outros que discordam”, “a única posição possível da associação é colocar isso em segundo plano e proteger alunos, cumprindo a lei e os despachos que determinam que este ano o AO90 é aplicado na avaliação externa”.

O presidente da nova associação confirmou que Helena Buescu, presidente da comissão científica responsável pelas metas curriculares e pelo programa de Português do ensino secundário, é presidente da mesa da assembleia geral da nova Anproport. E esclarece: “Não excluímos pessoas por serem autoras de programas ou de manuais ou por serem de esquerda ou de direita. As pessoas juntam-se por terem visões comuns.”

Durante a próxima semana a Anproport divulgará o seu sítio na internet e a forma como os professores se podem tornar associados. O objectivo é reunir docentes de todos os níveis de ensino, do pré-escolar ao superior.


*


Definidas as fronteiras em 1297, Dinis de Portugal concebeu um novo projecto para o País — a criação da identidade nacional — que pôs em prática ao instituir a língua Portuguesa como língua oficial da corte e criar a primeira Universidade portuguesa.
Dom Dinis não só apreciava a literatura, como foi ele próprio um poeta, facto reconhecido no seu cognome de Rei-Poeta. Pelos vistos a presidente da APP não se importa de fazer tábua rasa de mais de oitocentos anos de cultura portuguesa e quer reduzir os conhecimentos literários dos alunos aos escritores contemporâneos.

Quanto à sua afirmação de que “a única posição possível da associação é colocar isso [a discussão sobre o AO90] em segundo plano e proteger alunos, cumprindo a lei e os despachos que determinam que este ano o AO90 é aplicado na avaliação externa”, faz-me recordar a argumentação do partido comunista aos seus militantes ao exigir-lhes para se absterem de pensar e limitarem-se a cumprir as directrizes do comité central que existe para pensar por eles. Pelos vistos o horror à liberdade de pensamento não é domínio exclusivo deste partido.

Sobre a questão da heterogeneidade das turmas, o ministro Nuno Crato tem repetido sucessivas vezes que é favorável a turmas mais homogéneas porque facilita o trabalho dos docentes e favorece a aprendizagem dos alunos. Se as turmas são heterogéneas é porque os professores assim decidem por razões ideológicas — o socialismo exige que se misture os alunos para torná-los iguais, mas o que se consegue é nivelar todos pela mediocridade. No entanto, o facciosismo ideológico cega muitos docentes.

O objectivo de reunir docentes de todos os níveis de ensino, do pré-escolar ao Superior, só pode merecer a minha concordância. Actualmente observa-se uma partição do ensino em básico e secundário, por um lado, e superior, por outro, com os docentes de costas viradas entre si e muitas vezes hostilizando-se — é habitual os docentes do ensino não superior depreciarem os conhecimentos pedagógicos dos seus colegas do superior, e estes, a fragilidade dos conhecimentos científicos dos primeiros.
A criação de pontes entre todos os professores só beneficiará todos pois contribuirá para aumentar o rigor e a exigência no ensino não superior e enriquecer pedagogicamente a prática lectiva dos docentes do superior.

Nasceu uma nova associação de professores de português. Nos bancos da escola está agora a geração que um dia irá substituir a minha. Renasce a esperança de que a cultura portuguesa não afundará no esquecimento, vai criar raízes nessa nova geração e florescer em novos cultores à altura de um Fernão Lopes, um Gil Vicente, um Camões, um Padre António Vieira, um Garrett ou um Eça.


Outras opiniões:

Jalopes
17/04/2015 21:29
A escrita implica regras para fixar a língua. Mas a língua é sobretudo o que se fala e como se fala. Desde o séc. XII tem havido mudanças ortográficas na língua portuguesa. A partir de 1904, por exemplo, deixou de escrever-se "pharmacia". Fernando Pessoa nunca aderiu ao acordo ortográfico do seu tempo e escreveu sempre como havia aprendido na escola. E veio daí algum mal ao mundo? Há sempre gente imobilista e pouco atreita a mudanças. Há que respeitar a sua opinião... e a dos outros!
  • MC
    Lisboa 17/04/2015 22:07
    "A partir de 1904, por exemplo, deixou de escrever-se pharmacia" — essa informação não tem pés nem cabeça e é errada. Erro que vai a par com o considerar que Fernando Pessoa é "gente imobilista e pouco atreita a mudanças". Enfim, de tolices está o mundo cheio. Fica a notícia da constituição da nova associação que pretende proteger professores e alunos e bater-se pelo ensino da Literatura e Cultura portuguesas na disciplina de língua portuguesa.
  • José Papalvo
    18/04/2015 00:27
    O Novo Diccionário da Língua Portuguesa de Cândido de Figueiredo de 1913 tem grafia dupla para “farmácia” e “pharmacia” provenientes do grego “pharmakeia”. Também apresenta grafia dupla para centenas de termos provenientes do grego onde a letra f não existia e o som da mesma era representado por ph. Como por exemplo “fotografia” e “photographia”. Mas isto será uma evolução.
    Substituir o AO45 assinado pelos dois países pelo Vocabulário Ortográfico de 1943 (agora AO90), criado unilateralmente no Brasil para resolver o grave problema do analfabetismo, é uma involução.
  • MC
    Lisboa 18/04/2015 04:15
    Substituir ph por f não é evolução nenhuma, caro José Papalvo. É uma escolha, que hoje se verifica não ter qualquer sentido ou utilidade. Na altura ainda poderia ter algum cabimento pensar numa "ortografia fonética". Mas "pharmacia" e "farmácia" não se pronunciam exactamente do mesmo modo — como referia Victor Guerreiro a propósito de "filosofia" —, não se podendo falar, sequer, de "aproximação à oralidade"? E hoje, à luz das descobertas das ciências neurocognitivas, sabe-se que é totalmente indiferente para a aprendizagem.
    A etimologia tem a vantagem de permitir o mais fácil reconhecimento das palavras da mesma família: é mais fácil perceber que "estupefacto" e "estupefacção" estão proximamente relacionadas do que "estupefacto" e "estupefação". São uns bits de informação que ajudam na leitura.
  • MC
    Lisboa 18/04/2015 04:17
    O estado português nunca legislou sobre ortografia até 1911, por isso é um erro fáctico a afirmação de que houve mudanças em 1904. A única curiosidade é que tal data é referida em propaganda brasileira do acordo.

José Papalvo
17/04/2015 23:38
O Acordo Ortográfico de 1945 foi assinado em Lisboa a 10 de Agosto de 1945, por uma Comissão composta de membros da Academia das Ciências de Lisboa e Academia Brasileira de Letras. Esse Acordo, por motivos que devem ser investigados, não substituiu, no Brasil, o Formulário Ortográfico de 1943 oportunamente criado pelos editores brasileiros que pressionaram o Congresso Nacional Brasileiro para não aceitar o AO45, considerado, pasme-se, demasiado lusitano.
Da terra dos “mensalões” e “lava-jatos” saíram depois embaixadas para a terra dos BPN, BES, etc, para substituir o AO45 pelo AO43 em Portugal e nos outros seis países lusófonos. Essa fraude monumental chama-se AO90. Até hoje ainda ninguém percebeu porque têm de ser os outros sete países a escrever brasileiro e não o Brasil a escrever português.

Aliás não existe nenhum AO43 discutido pelos países lusófonos (na altura só Portugal e Brasil eram independentes). O que existe sim é o Formulário Ortográfico de 1943, ou Vocabulário Ortográfico de 1943, criado pelos editores brasileiros atendendo à mistura dos vários idiomas de imigrantes brasileiros, nomeadamente os italianos. É este FO43, ou VO43, que nos é imposto em 1990 sem qualquer discussão e ao arrepio da opinião dos linguistas portugueses e... brasileiros. Obviamente os que estavam nas negociatas das editoras, lá e cá, consideram a grande fraude AO90 como a obra prima da coprocultura.

Hendrik
18/04/2015 16:30
Tem todo o meu apoio. Malaca Casteleiro, um obscuro e malvisto professor da Faculdade de Letras de Lisboa, não pode impor uma revisão incoerente do ponto de vista ortográfico e que não resolve nada em termos de acordo, antes complica a inteligência das palavras e nos afasta da etimologia.


sexta-feira, 17 de abril de 2015

O êxodo africano para a Europa - I


Doze imigrantes ilegais foram atirados ao mar por outros clandestinos, durante uma discussão por motivos religiosos a bordo do bote em que todos tentavam chegar à Europa.


17 Abr, 2015, 13:55


Logo que desembarcaram em solo italiano, quinze muçulmanos da Costa do Marfim, Mali e Senegal foram detidos pelo assassínio dos doze cristãos, oriundos do Gana e da Nigéria, e acusados de homicídio agravado por ódio religioso.

É mais uma história dramática dos imigrantes oriundos de países da África subsaariana e da Síria que todos os dias continuam a chegar à Europa. Só nas últimas duas semanas, as autoridades resgataram do mar mais de 13 mil pessoas.

As equipas da ONU, que estão a acolher os imigrantes, tiveram de encaminhar para os hospitais vários queimados numa explosão que foram impedidos de receber assistência médica e obrigados a embarcar pelos traficantes.


*


No final da primeira guerra mundial, os vencedores impuseram à Alemanha a perda das colónias. Estávamos em 1918. Mas poucos anos mais os outros países europeus permaneceram em África. A partir da segunda guerra mundial, Itália, Inglaterra, França, Espanha e Bélgica foram, sucessivamente, dando a independência aos territórios por si governados e saindo do continente africano. Portugal encerrou esta debandada em 1975.

Era, e ainda é, um continente bafejado pela sorte de possuir imensos recursos naturais. Os novos senhores dos países africanos foram bem sucedidos em explorar esses recursos, porém, em benefício próprio. Aliados a empresários sem consciência social das antigas potências colonialistas, os governantes autóctones enriqueceram e formaram elites opulentas enquanto os seus compatriotas definham numa miséria inimaginável há meio século atrás.
Houve algumas excepções. Léopold Senghor foi uma e, graças ao respeito mútuo e intercâmbio cultural com a antiga potência colonizadora, sem esquecer a exaltação da negritude, o Senegal é o País africano que tem desfrutado de maior estabilidade política e vida democrática.

África é hoje um continente retalhado de países dominados pelo Islão fanático e pela violência islamista ou por conflitos internos criados pela ganância de opositores que nada mais pretendem senão substituir os actuais governantes por novos oligarcas que mantenham os regimes plutocratas instalados.

Do outro lado do Mediterrâneo, está a Europa. A região mais rica do mundo apenas a uma centena de quilómetros das costas da Tunísia. A população africana pega nos parcos haveres e dá tudo o que tem para cumprir o sonho de chegar a solo europeu e enriquecer na terra da bem-aventurança. Mas quem realmente prospera são os traficantes sem escrúpulos que criaram as redes de emigração clandestina.

Entretanto a marinha italiana vai multiplicando as missões de recolha dos náufragos e alargando os centros de acolhimento de imigrantes em Lampedusa, a sua ilha mais meridional. A solução para o êxodo africano não está, porém, na transferência segura dos 1100 milhões de africanos para casa dos 740 milhões de europeus. A atitude certa será retirar apoio aos corruptos governantes dos países africanos, promover a educação das populações e impulsionar o desenvolvimento das suas incipientes economias.



In Memoriam Mariano Gago




(16 de Maio de 1948 - 17 de Abril de 2015)


José Mariano Rebelo Pires Gago nasceu em Lisboa em 16 de Maio de 1948. Licenciou-se em Engenharia Electrotécnica pelo Instituto Superior Técnico, actualmente integrado na Universidade de Lisboa, em 1971.

A partir de 1971, governava então o País o Professor Marcello Caetano, foi bolseiro do Instituto de Alta Cultura no Laboratório de Física Nuclear das Altas Energias (LPNHE-X) da École Polytechnique, até que, em 1976, se doutorou em Física pela Faculdade de Ciências da Universidade de Paris.

Após o doutoramento, permaneceu mais dois anos como bolseiro do Instituto de Alta Cultura, agora em Genebra, no Centro Europeu de Investigação Nuclear (CERN). Em 1979 tornou-se professor agregado em Física no Instituto Superior Técnico.

Mais tarde pertenceu ao Conselho do CERN (1985–1990), tendo influenciado o acordo de adesão de Portugal a este centro europeu de investigação nuclear em 1985. Influência que lhe deu o cargo de presidente da Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica (1986-1989), o instituto que geria a pesquisa científica portuguesa, por convite do secretário de Estado da Investigação Científica do primeiro governo de Cavaco Silva.

Foi ministro da Ciência e da Tecnologia entre 1995 e 2002, nos governos liderados por António Guterres.
Substituiu a Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica pela Fundação para a Ciência e Tecnologia e implementou a avaliação dos centros portugueses de investigação científica. A política de incentivo aos doutoramentos e pós-doutoramentos através da concessão de bolsas de cerca de mil euros permitiu criar muitos jovens investigadores, embora tenha atraído bolseiros em áreas de emprego saturadas (e.g. ciências sociais) e até estrangeiros que fizeram currículo e regressaram aos países de origem, dissipando recursos.
Criou o Programa Ciência Viva (1996) para aproximar os cientistas da generalidade da população e desenvolver nesta a atracção pela ciência.
Além de concentrar as suas energias no impulsionamento da investigação científica portuguesa, apostou na sua internacionalização, tendo desempenhado um papel decisivo nos acordos de adesão de Portugal ao ESRF - Laboratório Europeu de Radiação de Sincrotrão (1997), à ESA - Agência Espacial Europeia (2000) e ao ESO - Organização Europeia para a Investigação Astronómica no hemisfério sul (2000).

Três anos depois, assumiu a pasta da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, entre 2005 e 2011, durante os governos de José Sócrates.
Distinguiu-se por ter logrado aproveitar a divulgação das trapaças que envolviam a licenciatura do então primeiro-ministro na universidade Independente para conseguir o encerramento compulsório não só desta decadente instituição do ensino universitário privado, como também das suas congéneres Moderna e Internacional.
Incentivou a formação de parcerias entre as mais reputadas instituições do ensino superior público português e três grandes instituições de ensino superior norte-americanas: o MIT (Massachusetts Institute of Technology) (2006), a Carnegie Mellon University e a Universidade do Texas, em Austin. Os acordos assinados destinam-se a permitir o intercâmbio de alunos, professores e programas de doutoramento.
Também criou o RJIES - regime jurídico das instituições de ensino superior (2007) que foi alvo de contestação.

Actualmente era Professor Catedrático no Departamento de Física do Instituto Superior Técnico (IST), investigador na área de Física de Partículas e presidente do Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas (LIP).





O departamento de Física do IST homenageia-o hoje com estas memórias:

"José Mariano Gago marcou várias gerações de estudantes e colegas do IST. Destacou-se na implementação dos laboratórios de física experimental para todos os cursos do IST. São muitos os que lembram os seminários de Física de Partículas às terças-feiras à noite para os alunos do IST. Nesses seminários participava quem queria e o bilhete de entrada era o entusiasmo. Destes encontros partiram muitos engenheiros e investigadores que se lançaram em desafios no CERN."



quinta-feira, 16 de abril de 2015

Sabe qual é o coeficiente de localização da sua casa?


O coeficiente de localização é um dos elementos necessários para calcular o valor fiscal dos prédios e está a ser revisto, reflectindo-se depois no Imposto Municipal sobre Imóveis (IMI) a pagar.

O Portal das Finanças disponibiliza um mapa interactivo onde pode pesquisar qualquer rua do seu município e conhecer o coeficiente de localização da sua casa. Basta escrever o nome da rua e município respectivos e procurar o seu prédio.


Nesta imagem de 2013 da Av. da República, Lisboa, os coeficientes de localização variam entre 2,5 e 3. Deve ampliar o actual mapa interactivo para conseguir ver o seu prédio.

O coeficiente de localização (Cl) varia entre 0,4 e 3,5, podendo, em situações de habitação dispersa em meio rural, ser reduzido para 0,35.

Na fixação deste coeficiente tem-se em consideração as acessibilidades (qualidade e variedade das vias rodoviárias, ferroviárias, fluviais e marítimas); a proximidade de equipamentos sociais (como escolas, serviços públicos e comércio); serviços de transportes públicos; localização em zonas de elevado valor de mercado imobiliário.

Cada município é dividido em zonas homogéneas — zonamento — a que se aplicam os diferentes coeficientes de localização. Numa mesma zona pode haver coeficientes diferentes consoante o imóvel seja para habitação, comércio, indústria ou serviços.


O zonamento e os respectivos coeficientes, introduzidos com a reforma da tributação do património, em 2004, foram alterados em 2006 e 2009, mas actualmente está em curso uma revisão muito mais profunda, e a nível nacional, feita pelos peritos avaliadores de cada serviço de Finanças. No final, o mapa interactivo será actualizado.

Se o coeficiente de localização (Cl) de um imóvel subir ou descer, isso reflectir-se-á no seu valor patrimonial tributário (Vt) porque é calculado pela fórmula

Vt = 603 euros por m² x Área x Ca x Cl x Cq x Cv

E reflecte-se no IMI: depois da câmara municipal fixar a taxa de IMI, as Finanças cobram o imposto e entregam à câmara.

Contudo, terminada a revisão, os coeficientes só serão aplicados pelas Finanças aos prédios novos. Os outros proprietários serão obrigados a pedir uma reavaliação nos serviços de Finanças.
Será uma boa oportunidade para actualizar também o coeficiente de vetustez (Cv), outro dos elementos da fórmula de cálculo do valor patrimonial tributário, que depende da idade dos edifícios mas que, apesar de estes envelhecerem todos os anos, também não é automaticamente actualizado pelas Finanças.

Para não ficar a pagar mais IMI do que corresponde ao valor patrimonial tributário da sua casa, o proprietário poderá consultar o mapa do zonamento acima referido, clicar no seu prédio e depois escolher Habitação para fazer uma simulação.

O simulador pede algumas informações sobre a casa, como sejam a área bruta da fracção, a área do terreno, ... , que só se encontram na caderneta predial. Portanto, caro leitor, tem de obter este documento no Portal das Finanças.

  • Se não tiver senha:

    Portal das Finanças ⇒ Registar-se (canto superior direito)

  • Se já tiver senha:

    Portal das Finanças ⇒ Iniciar Sessão (canto superior direito)
    ⇒ digite no campo de pesquisa (no topo, ícone lupa): património predial
    ⇒ Consultar Património Predial
    ⇒ descarregue a caderneta

    Para abrir a caderneta predial, use a aplicação informática Adobe Reader. Se esta aplicação não estiver instalada no seu computador, descarregue-a aqui.

Lembre-se, caro leitor, que um cidadão informado não se deixa manipular pelos partidos políticos e sabe defender os seus legítimos interesses.


*


Actualização em 1 de Agosto de 2016

IMI das habitações passa a depender das vistas e da exposição solar

No cálculo do valor patrimonial tributário, aparece um coeficiente de qualidade e conforto (Cq) composto por vários elementos, entre os quais, uma 'localização e operacionalidade relativas' que tinha uma ponderação máxima de 5%, ou seja, podia aumentar ou diminuir o coeficiente até 0,05.

O DL 41/2016, publicado hoje, altera este valor. Agora, o coeficiente de 'localização e operacionalidade relativas' pode ser aumentado até 20% ou diminuído até 10%, caso factores como a exposição solar, o piso ou a qualidade ambiental sejam considerados positivos ou negativos.

Assim, se o imóvel tiver uma boa exposição solar (orientação a sul), for um piso mais elevado ou tiver uma 'área especial', como um terraço, então o coeficiente pode subir até 20%.

Ao contrário, caso o imóvel receba pouca luz natural (orientação a norte), seja uma cave ou tenha uma qualidade ambiental fraca (como poluição atmosférica, sonora ou outra) ou elementos visuais negativos (como uma ETAR ou um cemitério), o coeficiente pode diminuir até 10%.


quarta-feira, 15 de abril de 2015

O terramoto de Lisboa de 1755 em vídeo


Na manhã de 1 de Novembro de 1755, pelas 09:40, um terramoto sacudiu Lisboa e zonas limítrofes durante 3,5 a 6 minutos, tendo aberto fissuras de 5 m e provocado o desmoronamento da maior parte dos edifícios.

Os sobreviventes refugiaram-se no espaço vazio à beira do rio Tejo e viram a água recuar. Cerca de 40 minutos após o terramoto, porém, um maremoto engoliu a área do porto e a baixa da cidade. Cidadãos britânicos residentes em Lisboa relataram que "várias pessoas que percorriam a cavalo a grande estrada para Belém, em que um dos lados desce para o rio, asseveraram depois que as águas corriam tão depressa que eles foram forçados a galopar tão rápido quanto possível para locais mais altos com medo de serem arrastados".

Era o feriado do dia de Todos-os-Santos e as velas que os fiéis tinham acendido nas igrejas tombaram, provocando incêndios por toda a cidade. Nos locais que não foram atingidos pelo maremoto, as chamas lavraram durante cinco dias.

Não foi possível quantificar quantas pessoas morreram nesse dia, mas as estimativas apontam para um número compreendido entre 40.000 e 50.000 vítimas, tornando-o num dos terramotos mais mortíferos da história.

Os sismólogos estimam que o terramoto de Lisboa teve a magnitude 8,7 na escala do Momento, com epicentro no Oceano Atlântico a cerca de 200 km a oeste-sudoeste do Cabo de São Vicente.

Animação ampliada aqui. Clique em Motion e deslize a seta para ver o movimento das placas tectónicas nos últimos 150 milhões de anos.
Clique em Maps e seleccione Boundaries e Names para ver a posição actual das placas. O terramoto de Lisboa resultou do movimento — convergente (seleccione Velocity) — entre as placas africana e euro-asiática.


Desprezado pela aristocracia por ser oriundo da pequena nobreza, o primeiro-ministro Sebastião José de Carvalho e Melo, mais tarde agraciado com o título de Marquês de Pombal, esteve à altura do acontecimento, mandando enterrar os mortos para evitar epidemias e organizando equipas de bombeiros para combater os incêndios.
E logo encomendou ao arquitecto real, Carlos Mardel, ao engenheiro-mor do reino, Manuel da Maia, e ao arquitecto do Senado de Lisboa, Eugénio dos Santos, um plano para a reconstrução de Lisboa com grandes praças e ruas largas e rectilíneas, de tal forma que o seu novo centro, hoje conhecido por Baixa Pombalina, é uma das zonas nobres da cidade e causa admiração aos estrangeiros que nos visitam ter sido edificada no século XVIII. Os edifícios serão também os primeiros do mundo a serem projectados à prova de sismos: as gaiolas de madeira foram testadas pondo tropas a marchar para simular as vibrações sísmicas.

O primeiro-ministro não se limitou a lançar a reconstrução da cidade. Enviou um inquérito a todas as paróquias do país para apurar as características do sismo com este tipo de questões:

Em que instante começou e quanto tempo durou o sismo?
O choque foi sentido como maior numa direcção do que noutra? Exemplo, de Norte para Sul? Parece que os edifícios caíram mais para um lado do que para o outro?
O mar subiu ou baixou em primeiro lugar, e quantos palmos subiu acima do normal?

As respostas ao inquérito foram arquivadas na Torre do Tombo e permitiram aos cientistas actuais recolherem dados fiáveis para reconstituírem o fenómeno numa perspectiva científica. Dado que é a primeira iniciativa de descrição objectiva no campo da sismologia, o Marquês de Pombal é considerado um precursor desta ciência.

Quase três séculos depois, o Instituto Smithsonian, um grupo público de museus e centros de investigação nos Estados Unidos, recriou em vídeo os eventos ocorridos em Lisboa nesse longínquo dia 1 de Novembro de 1755: