quarta-feira, 21 de maio de 2014

Campeão do mundo em cálculo mental tem negativa a Matemática

actualizado em 23 Mai, 2014, 10:24


Em 2013/14, o Campeonato Internacional de Cálculo Mental, SuperTmatik, que decorre online, envolveu 256 mil estudantes de 61 nacionalidades diferentes, tendo o estudante português conquistado o primeiro lugar na categoria seis, entre mais de 36 mil participantes, com um tempo de resolução de 42,5 segundos para as questões que lhe foram apresentadas.

O insólito é que este aluno teve nota negativa em Matemática no final do segundo período do presente ano lectivo.

José Martinho Gaspar, seu antigo professor, reconhece que "o João Bento tem, de facto, algumas dificuldades, que passam em primeiro lugar pelo Português, em especial pela interpretação, e creio que é esse o grande entrave a que ele seja um bom aluno a Matemática".

O seu actual professor, António Percheiro, sublinha que "no ano lectivo 2012/2013 o João ganhou o campeonato ao nível do Agrupamento de Escolas, como aluno de 5º ano, e concorreu a nível Internacional mas não obteve um resultado de destaque".
No entanto, "foi a sua perseverança e gosto pelo cálculo mental" que fez com que o João, este ano lectivo, tenha voltado a concorrer e conquistado o primeiro lugar a nível mundial. "Aliás, o João melhorou bastante desde a conquista deste troféu. Conseguiu agora um teste muito positivo, o que lhe abre muito boas perspectivas para uma nota positiva no final do ano".

João Bento, que tem 12 anos e diz gostar "mais ou menos" da disciplina Matemática, recorda que "desde pequenino que treinava e fazia muitas contas com os familiares, tipo contas de somar, dividir e multiplicar, tudo de cabeça". Agora o título de campeão do mundo "vai servir de motivação para subir a nota”, porque “não fica lá muito bem a um campeão do mundo em cálculo mental ter depois negativa a Matemática".

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Mais um exemplo a mostrar que bases sólidas na língua portuguesa são necessárias para obter êxito nas outras disciplinas. Aluno que não domine a língua materna, não consegue interpretar o que lê e não tira proveito do estudo.

Este caso também põe em evidência algo que há muito se sabe, que é a influência determinante do estímulo da família no sucesso escolar. Os nossos alunos de etnia cigana, por exemplo, podem ter negativa a Matemática, e noutras disciplinas, mas ninguém os bate no domínio do cálculo mental porque, de tão imprescindível que é nas actividades comerciais dos respectivos agregados familiares, é muito valorizado e incentivado entre os mais novos.

A terceira conclusão que se pode retirar desta história é que concursos nas escolas, como este, com prolongamento a nível nacional e internacional, exames nacionais, rankings de escolas e rankings de universidades são um estímulo para as crianças, para os jovens e mesmo para os adultos. Há que reconhecer que o ser humano é um animal competitivo que se sente entusiasmado pelos elogios, pelas palmas e pelos prémios, sendo de acarinhar as contendas leais.
Muitas crianças e jovens têm potencial intelectivo que não conseguem desenvolver por causa de ideologias educativas que os amarram ao facilitismo e os condenam à mediocridade, não lhes permitindo desenvolver os seus dotes naturais e sobressair do rebanho. Que a história do João da Silva Bento, e da escola que lhe permitiu competir lealmente, sirva de reflexão.


segunda-feira, 19 de maio de 2014

Começou a época de exames de 2014


Actualização em 12 de Junho
Resultados provisórios aqui. Os alunos que não obtenham aprovação final numa ou em ambas as disciplinas podem ter um acompanhamento extraordinário até 4 de Julho e repetir as provas em 9 e 14 de Julho para Português e Matemática, respectivamente.

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Cerca de 220 mil alunos dos 4º e 6º anos do ensino básico apresentaram-se hoje nas escolas para fazerem as provas de Português, com a alegria que transparece neste vídeo:


19 Mai, 2014, 13:26


A prova nacional de Português do 4º ano decorreu da parte da manhã, em dois momentos distintos.
No primeiro caderno, os alunos tinham de ler dois textos, um informativo sobre a sobrevivência das espécies e as técnicas de dispersão das sementes, da revista Quero Saber, com perguntas de interpretação, e outro narrativo retirado do conto “Uma semente de Girassol”, de Teresa Saavedra, também com perguntas de interpretação e apenas sete questões de gramática, muito fáceis, algumas de escolha múltipla.
No segundo caderno do exame, inteiramente reservado a uma composição, os miúdos deviam dar seguimento ao conto descrevendo o pássaro e o girassol e imaginando um diálogo entre ambos depois da transformação da floresta.

O leitor interessado em conhecer as perguntas e respectivas respostas, encontra aqui os dois cadernos da prova Português 41, com as respostas nos critérios de classificação.

A prova nacional de Português do 6º ano – Português 61 –, que decorreu da parte da tarde e num único momento, teve uma estrutura semelhante e ainda menos perguntas de gramática, apenas seis, muito fáceis, com duas de escolha múltipla. O texto informativo foi adaptado de uma tradução de "O Cavalo – Uma homenagem" de Moira C. Harris e foi escolhido para texto narrativo “O Cavalo da Noite” de Urbano Tavares Rodrigues, com supressões.
Na composição, os miúdos tinham de imaginar que pertenciam ao clube «Amigos dos Animais» e eram convidados a escrever um texto de opinião sobre a importância de os animais selvagens viverem em liberdade.

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O exame de Português conta apenas 30% para a nota final da disciplina. Os alunos que reprovarem vão ter aulas de recuperação e repetir as provas na 2ª fase que vai decorrer nos dias 9 e 14 de Julho. É por isso que as provas da 1ª fase acontecem durante o período de aulas.

Alguns agrupamentos interromperam as actividades lectivas para garantir espaços, silêncio e a disponibilidade de professores vigilantes, sendo os respectivos directores obrigados pelo MEC a pedirem autorização às associações de pais.

Os representantes dos directores consideraram inevitável esta interrupção, mas esqueceram-se de acrescentar que os agrupamentos de escolas/escolas não agrupadas podem, durante um ou dois dias, substituir as actividades lectivas por outras actividades escolares de carácter formativo envolvendo os seus alunos — ponto 2.4 do Despacho 8248/2013 que divulgou o calendário escolar há quase um ano.
Teria sido uma medida de boa gestão os directores terem programado essas actividades — visitas de estudo, passeios, marchas pela paz, ... — para os alunos dos 5º, 7º, 8º e 9º anos nos dias das provas nacionais dos alunos dos 4º e 6º anos, porque envolvem apenas alguns docentes, em vez de as realizarem noutros dias, eliminando aulas como sempre acontece.
No entanto, parece que se esquecem que estão a receber suplementos remuneratórios para fazerem uma gestão eficiente e procuram esconder os erros criando polémicas e complicando a vida às famílias dos alunos.


Humor: I ♡ bankruptcy


Depois de três anos anos de sacrifícios para a quase totalidade dos portugueses, o programa de assistência económica e financeira externa chegou ao fim no sábado, dia 17 de Maio.

Nesse dia, o PS prometeu fazer a quadratura do círculo: terminar com os cortes nas pensões e reduzir gradualmente os impostos.
No entanto, as sondagens apontam para uma vitória do PS nas eleições europeias do próximo domingo.




sábado, 17 de maio de 2014

Humor: as vidas passadas do parlamento


Desde 5 de Maio está a decorrer na Assembleia da República, a quinta edição das Jornadas de Saúde que inclui conferências, rastreios e check-ups.

Alexandra Solnado, filha do falecido humorista Raul Solnado, foi convidada para falar aos deputados, na passada quinta-feira, sobre a forma como "as memórias de vidas passadas podem interferir" na saúde das pessoas. A actriz publicou vários livros sobre o assunto que diz terem sido ditados por Jesus.

Alegando que tem uma experiência de "12 anos de tratamento de doentes", com a "regressão a vidas passadas" e "limpeza de memórias", a actriz revelou que o convite partiu de uma responsável pelos recursos humanos do parlamento mas na manhã desse dia lhe comunicaram que a sua palestra tinha sido cancelada.


Felizmente há energia a fluir nos comentários à notícia:

Fernando Pessoa
15/05/2014 15:54
Entristece-me esta intolerância do Parlamento relativamente a charlatães. Não se percebe: todos os dias na AR há charlatães a assinar decretos e votar leis...
  • Moxdix
    15/05/2014 16:16
    Ela ficava lá bem no meio dos outros, depois podiam juntar-lhe o prof. Karamba para dar uma palestra sobre amarrar almas e cura para problemas de amor, da parte da tarde dariam lugar aos deputados para palestrarem sobre roubo de gravadores, viagens fantasmas, a importância de ser maçon na vida política, legislar em causa própria. Acho que já tínhamos um belo ciclo de conferências.

André Santos Correia
15/05/2014 17:12
censura. a mulher escreveu livros e tem experiência no campo de 12 anos, por isso não andou a comer gelados com a testa esse tempo todo. algum conteúdo tem pelo menos. nem que esse conteúdo sirva para o debate. galileu também foi censurado. a historia da ciência sempre foi de refutação de velhas e construção de novas teorias.
  • Aquihágato
    15/05/2014 17:17
    Ahahaha... querer comparar o cientista Galileu com a aldrabice das "vidas passadas" é como querer comparar diamante com estrume. Parabéns: fez-me rir à fartazana.
  • João
    15/05/2014 17:20
    Comparar Galileu com a filha do Raul Solnado? ahahaha. Astronomia e astrologia são coisas bem diferentes. Vai estudar.
  • André Santos Correia
    15/05/2014 17:50
    isso mesmo, comentarios faceis a roçar o jagunço. avaliar e julgar uma pessoa pela relação de parentesco que tem com alguém também não me pareçe que seja argumento de qualquer autoridade. e sim, estudei filosofia no secundário, talvez o senhor ja não tenha estaleca para se recordar
  • Antónimo Anómino
    15/05/2014 20:55
    A base da ciência sempre foi a refutação, pois claro, e por isso as teorias científicas são refutáveis e fornecem predições que permitem fazer experiências e colocar à prova as mesmas. Ao contrário das charlatanices de Alexandra Solnado e afins, que carecem da possibilidade de tal refutação, antes sendo meros exercícios de fé. O menino faltou à aula de Epistemologia quando frequentava Filosofia no secundário? E a disciplina de Português? Não lhe ensinaram que o "c" nunca leva cedilha quando é seguido de "e"?
  • Rui Costa
    15/05/2014 23:33
    Galileu foi censurado? Não foi censurado pela comunidade científica. Foi censurado pela Igreja, que se baseia na fé e nas crenças, que é justamente o que a Alexandra Solnado tem para oferecer. Uma outra grande diferença em relação a Galileu, é que Galileu tinha a razão e os factos para demonstrar o que afirmava... Esta A. Solnado tem uma mão cheia de nada...

Martins ACC
15/05/2014 19:36
A notícia não pode ser que tal palestra tenha sido cancelada. A notícia é o facto de ter sido agendada.
Quem seriam os restantes intervenientes? O professor Karamba? Iam em busca de alguma alteração legislativa? Ou estavam apenas a ver se poupavam aos partidos uns milhares em sondagens, adivinhando o resultado das próximas eleições?


quinta-feira, 15 de maio de 2014

A explosão na mina de carvão de Soma


Bulent Kilic/AFP


Um mineiro ferido é transportado para uma ambulância depois de ser resgatado da mina de carvão de Soma, Turquia, na noite de 13 de Maio de 2014.
Emre Tazegul/REUTERS


Bulent Kilic/AFP


REUTERS


May 15
Relato de um mineiro que perdeu a consciência 4 horas após a explosão, mas sobreviveu. A empresa Soma Holding, proprietária da mina, disse que 485 mineiros tinham sido resgatados vivos, dos quais 122 foram hospitalizados.


Às 15h de terça-feira, dia 13 de Maio, ocorreu uma explosão numa sub-estação eléctrica, seguida de incêndio, numa mina de carvão de Soma, na província de Manisa da Turquia. O fogo provocou um corte de energia eléctrica, desligando os sistemas de ventilação e os elevadores. Centenas de mineiros ficaram aprisionados a 4km da entrada da mina e a 2km de profundidade. Era a hora da mudança de turno e não se sabia quantos lá tinham ficado.

Muitas horas depois as equipas de socorro ajudavam a sair os mineiros da secção superior da mina, conforme gravado às 22h pelas câmaras de segurança neste vídeo.
Mas pelas 5h da manhã já haviam retirado 201 corpos. Tinham sido envenenados pelo monóxido de carbono. Calculava-se que mais de uma centena de trabalhadores ainda se encontravam no fundo da mina. Numa tentativa para manter vivos os mineiros presos, as brigadas de emergência bombearam oxigénio na mina durante uma operação de resgate que durou toda a noite.
O último trabalhador a sair vivo do poço de Soma, foi resgatado nessa madrugada.



May 14


Doğan Haber Ajansı


Doğan Haber Ajansı



Funeral de um mineiro falecido no desastre da mina de carvão, no cemitério de Soma, Turquia, em 14 de Maio.
Yasin Akgul/REUTERS


Ontem havia gente em vigília à entrada do hospital, a aguardar notícias dos mineiros internados, havia dezenas de pessoas a agoniar à entrada da mina esperando pelos seus desaparecidos, havia 201 famílias a chorar os seus mortos, havia escavadoras a abrir centenas de sepulturas no cemitério de Soma.

Que palavras escolheu ontem o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan para ajudar a sarar a dor das famílias dos mineiros mortos, para mitigar a angústia dos que ainda têm os seus familiares encurralados nas profundezas da mina e desesperam pela sua vida, para apoiar uma nação que enfrenta o seu pior desastre industrial? As fatalidades em acidentes em minas britânicas no séc. XIX:
"Estive a estudar a história dos acidentes. Houve 204 mortos num colapso de uma mina em 1838, e em 1866 outros 361 mineiros morreram na Grã-Bretanha. Numa explosão em 1894 foram 290 vítimas."

Hoje tem 282 mortos em Soma. Tem uma greve geral, uma população revoltada pela falta de segurança no trabalho, sobretudo na indústria mineira, e manifestações não só nas ruas de Soma e da vizinha Esmirna, mas também nas de Ancara e de Istambul.

Num protesto sentado frente às linhas de polícias, os milhares de manifestantes de Istambul, erguiam cartazes que diziam: "Não é por acaso, não é o destino, é um assassínio".



Yusuf Yerkel, conselheiro do primeiro-ministro Erdogan, pontapeia um manifestante manietado e caído no chão, em Soma. Vídeo aqui.
Mehmet Emin/REUTERS

15 Mai, 2014, 21:00
No momento do incêndio estavam na mina 787 mineiros. Não havendo esperança de encontrar mais sobreviventes, deverá haver 302 mortos.


May 15
As maiores manifestações de desagrado decorreram nos arredores da cidade de Soma.



BBC


quarta-feira, 14 de maio de 2014

Tráfico de seres humanos em 2013


Em 2013 foram sinalizadas 308 presumíveis vítimas de Tráfico de Seres Humanos, das quais 299 pessoas sinalizadas em Portugal (49 menores e 250 adultos) e 9 portugueses (adultos) sinalizados no estrangeiro, de acordo com o relatório do Observatório do Tráfico de Seres Humanos (OTSH) do Ministério da Administração Interna.

Comparando com o ano anterior, observa-se em 2013 um acréscimo de 146% no número total de sinalizações:



Este aumento foi visível quer nas sinalizações oriundas dos órgãos da polícia criminal (OPC), que subiram de 109 para 183, quer nas reportadas por organizações não governamentais (ONG) e outras entidades públicas, que cresceram de 16 para 125, o que demonstra a importância da consolidação das redes colaborativas para o sucesso da monitorização do tráfico de seres humanos.


Tráfico de Seres Humanos em Portugal

Comparando com 2012, o número de pessoas sinalizadas em Portugal como presumíveis vítimas deste crime mais do que triplicou no ano passado — subiu de 81 para 299.





O forte acréscimo das sinalizações em Portugal “está associado a 198 sinalizações de tráfico para fins de exploração laboral de adultos, em que se incluem 185 sinalizações na agricultura, maioritariamente na região do Alentejo na apanha da azeitona”, revela o relatório do OTSH.

Efectivamente, houve 119 sinalizações no distrito de Beja, relacionadas com a apanha da azeitona e 64 no distrito de Santarém, quase todas (62) relativas à apanha da ervilha.
O terceiro distrito com mais sinalizações foi o de Lisboa — 45 possíveis vítimas —, mas maioritariamente por suspeita de exploração sexual, das quais 27 reportam-se a uma só ocorrência sinalizada no aeroporto de Lisboa, onde Portugal estava a ser usado como país de trânsito, tendo sido “pedido o estatuto de asilo pelas presumíveis vítimas”.





A polícia já confirmou "45 vítimas, todas alvo de protecção, assistência e apoio assistido ao retorno” ao país de origem.
Outras 116 situações continuam a ser investigadas pelos órgãos de polícia criminal, mas 80 casos foram dados, após investigação, como “não confirmados”.

Houve 46 casos sinalizados por organizações não governamentais (ONG), Instituto de Segurança Social e Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) que estas entidades ainda não reportaram a órgãos de polícia criminal por diversos motivos, entre os quais recusa das vítimas. E ainda 12 casos que estas entidades decidiram não considerar.

O relatório revela que ”as 45 vítimas confirmadas referem-se exclusivamente a situações de tráfico para fins de exploração laboral, 43 das quais no distrito de Beja”. São todos romenos, com idades entre os dezoito e os cinquenta e dois anos, foram recrutados com promessas de emprego para a apanha da azeitona, tendo viajado acompanhados até Portugal e por via terrestre. Foram alvo de várias formas de coacção, desde ameaças e controlo de movimentos, até ofensas corporais, sonegação de documentos, retenção de pagamentos e servidão por dívida.

Nas 116 sinalizações que continuam em fase de investigação, os 89 registos de adultos referem-se a possíveis vítimas de tráfico para exploração laboral (74), quase todos romenos, e exploração sexual (11), todas mulheres vindas por via aérea, sobretudo da Nigéria e da Guiné-Bissau.
Já nos 27 registos de menores predomina a exploração sexual (17), sendo as presumíveis vítimas todas raparigas, com uma média de idade de dezasseis anos, vindas sobretudo por via aérea da Nigéria e Guiné-Bissau. Há também casos de exploração de mendicidade (7), crianças com uma média de idade de oito anos, oriundas sobretudo da Bósnia/Montenegro e controladas por familiares, e ainda de adopção/venda de menores (3), estes com idade inferior a um ano e de nacionalidade portuguesa.

Observando-se que a maioria das sinalizações, assim como das confirmações, se reportaram a vítimas para fins de exploração laboral na agricultura, o OTSH alerta para a necessidade de se dar especial atenção a “acções de fiscalização em territórios/sectores onde poderá ocorrer o aproveitamento criminoso da necessidade de trabalho migrante sazonal”.

Vai ser preciso aguardar algum tempo para se perceber se há uma tendência para o aumento do crime de tráfico de seres humanos em território nacional. O OTSH faz questão de realçar “um conjunto de acções, em 2013, que reforçaram” e sensibilizaram quem está no terreno para este tipo de fenómeno, desde a criação de uma unidade contra o tráfico de pessoas no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras até à entrada em funcionamento de um grupo de equipas multidisciplinares que, em diferentes pontos do país, colaboram com as autoridades para a sinalização de presumíveis vítimas deste tipo de crime.
No entanto, há que ter em atenção a elevada percentagem (46%) de casos não confirmados, não reportados à polícia ou não considerados.



Vítimas confirmadas eram exploradas na apanha da azeitona
Público/ANTÓNIO CARRAPATO


Tráfico de Seres Humanos no Estrangeiro

No que respeita a cidadãos portugueses no estrangeiro, foram sinalizadas 9 presumíveis vítimas de tráfico em 2013, todas adultas, maioritariamente para Espanha mas também para o Brasil, Suíça, Inglaterra e França.
Após investigação, 1 sinalização não foi confirmada, 6 encontram-se em fase de investigação a as 2 restantes aguardam ser reportadas pelas ONG à polícia.

Este valor consubstancia uma redução de 80% em relação às 44 sinalizações feitas no ano precedente, assim justificada no relatório: “O decréscimo de sinalizações no estrangeiro é explicável pela ausência de grandes ocorrências no estrangeiro durante 2013: em 2012 uma só ocorrência envolveu 35 presumíveis vítimas (suspeita de exploração laboral na Alemanha)”.

*

A notícia do Público recebeu poucos comentários. Um deles é de um idealista:

Miguel S.
Trondheim 14/05/2014 10:36
Gostaria de ver claramente identificados neste caso quem são as empresas, entidades ou pessoas envolvidas em qualquer fase do processo. Falo desde o angariador até à marca de azeite produzida com as azeitonas apanhadas pelas vítimas. Só assim se consegue um efeito dissuasor conveniente que chega a todos os cidadãos.


terça-feira, 13 de maio de 2014

Gabinetes do governo da Madeira custaram 2,6 milhões em 2012


Tribunal de Contas exige devolução de verbas ilegalmente pagas em ajudas de custo e abonos para despesas de representação.

O governo regional da Madeira é formado por um presidente, um vice-presidente e cinco secretários regionais.

Os seus gabinetes são constituídos por 7 chefes de gabinete, 13 adjuntos, 17 secretários pessoais, 6 conselheiros técnicos, 14 especialistas e 7 técnicos especialistas, a que acrescem 15 motoristas e 1 técnico de apoio administrativo.
O relatório da auditoria efectuada pela Secção Regional do Tribunal de Contas (TdC), ontem divulgado, revelou que as remunerações destes 80 funcionários geraram, em 2012, encargos na ordem dos 2,6 milhões de euros (p.5).


Por sua vez, as despesas com deslocações em serviço dos seus membros para fora da região autónoma da Madeira, acrescidas de ajudas de custo, e com a aquisição de estudos, pareceres, projectos e consultadoria ascenderam a 403 mil euros (p.30).

A auditoria concluiu que, na vice-presidência e em duas secretarias regionais — da Cultura, Turismo e Transportes e da Educação e Recursos Humanos —, foram pagas despesas com deslocações em território nacional dos membros do Governo Regional e dos respectivos gabinetes.
No caso de passagens de avião, alojamento e transferes em deslocações, foram os próprios responsáveis que assinaram as respectivas autorizações "apesar de se encontrarem impedidos de intervir nos correlativos procedimentos administrativos".
Além disso, nas propostas de deslocações autorizadas as despesas com transferes carecem de fundamentação (p.6).

No que se refere às ajudas de custo concedidas nas deslocações ao continente, o TdC lembra que, pelo decreto-lei n.º 106/98, “os membros do Governo da República, do Governo Regional e dos respectivos gabinetes só têm direito ao abono de ajudas de custo e transporte quando deslocados ao estrangeiro e no estrangeiro, e que deixaram de ter esse direito nas deslocações em território nacional” (p.11).


A auditoria confirma ter sido "provado que o chefe de gabinete e aos adjuntos do presidente receberam, em 2012, a mais do que os abonos que haviam sido estipulados por despacho do primeiro-ministro", sublinhando que foram autorizadas "despesas relativas aos abonos em excesso no montante global de 17.705,88 euros, em 2012" (p.22).

Os abonos mensais para despesas de representação pagos ao chefe de gabinete e aos adjuntos do gabinete do presidente do governo regional são “susceptíveis de tipificar um ilícito gerador de responsabilidade financeira sancionatória” e reintegratória. A multa que poderá ser aplicada ao presidente, ao vice-presidente e outros responsáveis pelos pagamentos ilegais varia entre 2625 e 18.900 euros, extinguindo-se o procedimento se for paga pelo montante mínimo. Também o procedimento por responsabilidade reintegratória extingue-se pelo pagamento da quantia a repor.

O tribunal recomenda a Alberto João Jardim que deixe de "pagar o abono para despesas de representação ao chefe de gabinete e aos adjuntos com base na Resolução do Conselho do Governo Regional de 23 de Outubro de 1986", visto que a legislação aplicável é o despacho do primeiro-ministro (p.7).



Quinta Vigia
Público/Rui Gaudêncio


Como era expectável, a presidência do governo regional considera "absolutamente falso que os membros dos gabinetes dos membros do Governo Regional tenham alguma vez recebido verbas indevidas".

Fundamentando os pagamentos numa resolução do governo regional, estranha essa resolução "nunca ter sido alvo de qualquer objeção, recomendação ou impugnação, em anteriores auditorias realizadas pelo Tribunal de Contas, sendo que o abono agora colocado em causa tem vindo a ser processado deste 1986, de forma absolutamente legal e consensual". E ser agora "quando nos encontramos a apenas uma semana de eleições europeias".


Actualização em 16 de Junho

A assembleia legislativa da Madeira vai aprovar a proposta de decreto legislativo regional que mantém em vigor o regime do abono de ajudas de custo e de transporte aos membros do governo regional, abolidas em 2010 a nível nacional, no âmbito das medidas de austeridade.

Com este diploma, Alberto João Jardim pretende contornar, com efeitos retroactivos, a decisão do Tribunal de Contas que exigiu a devolução das verbas ilegalmente pagas aos governantes madeirenses, em ajudas de custo e abonos para despesas de representação, e censurou o governo regional pela opção por hotéis de luxo nas viagens ao estrangeiro, quando a legislação nacional determina a escolha de hotéis de três estrelas.


segunda-feira, 12 de maio de 2014

As enganadoras campanhas eleitorais


Começou hoje a campanha eleitoral para o parlamento europeu e os nossos políticos brindaram-nos logo com uma prenda naquele domínio em que são mestres — a impostura.

Desta vez, foi o PS. Sob o lema da "inovação", este partido diz ter escolhido uma selfie dos candidatos socialistas às europeias para os cartazes que espalhou pelo País.

Só há um pequeno problema, o retrato que o PS apresenta como "a primeira selfie ao serviço da política", não o é, porque a figura central, o cabeça de lista Fernando Assis, claramente não é o autor da fotografia, condição sine qua non neste tipo de retrato.

E ainda um pormenorzito nada despiciendo: o CM detectou que as imagens de, pelo menos, três candidatos — Liliana Rodrigues, Fernando Moniz e Ricardo Serrão dos Santos — foram directamente retiradas da página oficial da candidatura socialista e colocadas na pseudo-selfie através do efeito de sobreposição do programa de edição e manipulação de imagem Photoshop.





Veio-me à memória o tratamento de imagem que sofriam as fotografias dos líderes políticos caídos em desgraça durante a época soviética. Onde estes tiravam, os nossos queridos políticos acrescentam.

Já a direcção de campanha do PS não vê "nada de extraordinário na utilização de ferramentas informáticas como o Photoshop", como os três candidatos não puderam comparecer à sessão fotográfica "o PS fez questão de os acrescentar na elaboração do cartaz".
Nesta linha de argumentação, quando o PS for governo, se não tiver boas notícias para dar aos portugueses, poderá inventá-las.


Entretanto o PSD anda a acenar com um aumento do salário mínimo nacional mas adia as negociações com os parceiros sociais para depois de 25 de Maio.

E o PCP acusa o PS de não ter saída para a austeridade mas esquece-se de apresentar uma solução credível.

Em tempo de campanha eleitoral são todos bons rapazes.


sexta-feira, 9 de maio de 2014

Moody's sobe rating de Portugal




A agência de notação financeira Moody's elevou a classificação da dívida soberana de Portugal em um nível, de 'Ba3' para 'Ba2'. Colocou também este rating sob revisão para possível subida adicional.

Em 8 de Novembro, a Moody's tinha retirado o outlook 'negativo' para Portugal e hoje não lhe mexeu, mantendo-o em 'estável'. No passado dia 11 de Abril, foi a vez da Fitch elevar a perspectiva do rating de 'negativa' para 'positiva' e a Standard & Poor's anunciou hoje a subida da perspectiva de 'negativa' para 'estável'.

Tendo sido a primeira agência a colocar o rating de Portugal no nível de "lixo", em Junho de 2011, agora é também a primeira a elevar a notação financeira da dívida pública portuguesa.

No relatório, a agência justificou a subida do rating referindo três factores:

  • Melhoria da prestação orçamental e dívida pública numa tendência descendente
A situação orçamental de Portugal tem melhorado mais rapidamente do que o inicialmente previsto e o rácio da dívida pública face ao PIB começará a descer este ano, apesar de ser a partir de um nível muito elevado.
O défice orçamental foi reduzido em um ponto percentual do PIB acima do que estava previsto no ano passado, sinalizando assim o forte empenho do Governo na via da consolidação orçamental.
  • Saída do programa de assistência financeira e regresso aos mercados
O país irá concluir em breve o seu programa de assistência da UE/FMI, sem a necessidade de uma linha de crédito cautelar por parte do Mecanismo Europeu de Estabilidade. Portugal reconquistou o acesso aos mercados da dívida pública e, além do mais, o Governo conseguiu criar uma almofada financeira considerável.
  • Melhoria das perspectivas económicas
A retoma económica em Portugal está a ganhar dinâmica, com sinais de crescimento das exportações, continuando estas a ter um forte desempenho. A Moody’s está convicta de que o crescimento económico será sustentado no médio prazo, porque as autoridades portuguesas implementaram uma vasta gama de reformas estruturais.
Depois da contracção de 1,4% do PIB em 2013, a economia deverá crescer 1,2% este ano e 1,5% em 2015, de acordo com as estimativas da troika com que a Moody's concorda.

A Moody’s também subiu o rating da dívida da Parpública Participações Públicas, igualmente de ‘Ba3’ para ‘Ba2’, tendo iniciado uma revisão para uma possível subida adicional. Isto significa que estas empresas vão conseguir obter empréstimos nos mercados com taxas de juros mais baixas.
A revisão do rating para um possível upgrade reflecte a convicção da Moody’s de que a qualidade do crédito de Portugal pode melhorar ainda mais no curto prazo no caso de a agência concluir que Portugal conseguirá reduzir claramente o seu rácio bastante elevado da dívida pública (actualmente perto dos 130% do PIB), nos próximos anos.
Durante este processo de revisão, a Moody’s avaliará as próximas decisões do Tribunal Constitucional de Portugal no que respeita a medidas-chave do Orçamento do Estado para 2014. A Moody’s considera que estas decisões são importantes, porque as medidas contestadas dizem respeito a itens-chave da despesa do Governo no que toca às pensões e salários da função pública. No entender da Moody’s, alcançar e manter baixos défices orçamentais no médio prazo é difícil sem se tocar nestas áreas-chave da despesa.
Além disso, a agência pretende avaliar o plano orçamental de médio prazo recentemente apresentado pelo Governo e procurará esclarecer-se sobre a possibilidade de poder haver um consenso alargado quanto à necessidade de manter políticas orçamentais rigorosas para lá da actual legislatura.

Entre as três grandes agências de notação financeira, a Fitch é actualmente a que tem o rating soberano mais elevado para Portugal, pois está no primeiro nível de “lixo”. A S&P manteve-o hoje em 'BB', dois níveis abaixo, e a Moody's também tem de subir dois níveis para que a dívida soberana portuguesa deixe de ser considerada investimento especulativo, o chamado junk ou, em português, "lixo”.

Contudo, Kathrin Muehlbronner, vice-presidente da Moody’s, disse à Reuters que, se essa subida adicional de rating se materializar, será apenas um nível, portanto insuficiente para retirar a notação financeira de "lixo". "Para ter um rating no nível de 'investimento de qualidade' temos que assistir a um crescimento mais forte e ter a confiança que tal é sustentável", esclareceu Muehlbronner.


Standard & Poor’s sobe perspectiva de Portugal para 'estável'

Recorde-se que, na sequência da crise política iniciada com a demissão “irrevogável” de Paulo Portas, em Julho do ano passado, a S&P tinha baixado a perspectiva de Portugal para 'negativa'.

No relatório hoje divulgado, a S&P justifica a sua decisão de melhorar a perspectiva para 'estável' devido
  • ao desempenho orçamental de Portugal que superou as expectativas;
  • ao desempenho de Portugal no âmbito do programa de ajustamento da troika, acrescentando que o mercado laboral e a economia do País estão a recuperar mais depressa do que se esperava;
  • ao panorama económico de Portugal, que melhorou claramente, prevendo que o PIB deverá crescer em média 1,4% durante 2014 e 2015.

No entanto, deixa advertências, chamando a atenção para o facto de as necessidades financeiras para os próximos anos serem bastante elevadas. Além disso, a dívida bruta pública, actualmente em 129% do PIB, poderá também tornar-se insustentável se o País perder a sua dinâmica de crescimento:
Dados do banco central Português, o Banco de Portugal, indicam que a dívida bruta pública e do sector privado não financeiro ainda estava num muito alto 445% do PIB no final do ano de 2013, uma queda de apenas 0,5% face ao ano anterior e ainda 22% acima dos níveis anteriores à crise de 2008. Consideramos esta dívida como muito alta, especialmente tendo em conta a contracção contínua do crédito de Portugal e a inflação negativa actual.
Apesar da recente recuperação do mercado de trabalho, espera-se que o rácio do emprego como percentagem da população residente permanecerá deprimido a cerca de 43% para os próximos três anos, em comparação com mais de 49% em 2007-2008. Pensamos que a baixa taxa de emprego — a par com um perfil demográfico desfavorável — poderá restringir o potencial de crescimento da economia no médio a longo prazo.

Esta é a primeira actualização de rating da S&P para Portugal desde que o Governo decidiu não renovar o contrato com esta agência, passando as notações financeiras da agência a serem “não solicitadas”.

Segundo o calendário apresentado pelas agências, no cumprimento das novas directrizes da Comissão Europeia, a Moody's irá pronunciar-se de novo a 5 de Setembro, a Fitch a 10 de Outubro e a Standard & Poor's a 7 de Novembro. As agências não são, porém, obrigadas a apresentar relatório. Foi o que aconteceu com a Moody's que no dia 10 de Janeiro, a primeira data agendada para este ano, preferiu não se pronunciar.



terça-feira, 6 de maio de 2014

O adeus à troika


Não conseguimos resistir à tentação de transcrever este artigo de opinião que consegue dizer as verdades que doem fazendo sorrir:


"Obrigado, troika

JOÃO MIGUEL TAVARES 06/05/2014 - 07:46

Agora que eles se estão a ir embora, agora que tanta gente celebra a “saída limpa”, agora que Paulo Portas já pode festejar o seu novo 1640, agora que se cospe no prato de quem nos salvou da bancarrota em 2011, agora que se “joga pedra na troika” da mesma forma que na canção do Chico Buarque “se jogava pedra na Geni”, agora, nesta altura de suposta libertação, deixem-me agradecer publicamente aos homens e às mulheres que durante os últimos anos permitiram que continuássemos a ter dinheiro para pagar as reformas dos nossos idosos, os salários dos nossos funcionários públicos, a saúde dos nossos doentes e a educação dos nossos filhos. Obrigado, troika.

Agora que se descobriu que, afinal, a espiral recessiva deixou de espiralar, agora que o pó dos arquivos já embala os artigos de jornais com profecias apocalípticas, agora que os partidos da oposição mudam o seu discurso e a saída sem um programa cautelar já não é, afinal, a questão central, agora que os reformados Manuela Ferreira Leite e Bagão Félix se preparam para recuperar algum do seu poder de compra, agora que Pedro Passos Coelho nos voltou a mentir com os dentes todos no espaço de 15 dias, agora que o Governo decidiu sacar mais dinheiro à economia para pagar o velho Estado gargantuesco, agora que se lixou o “lixem-se a eleições”, deixem-me agradecer publicamente aos homens e às mulheres que impediram que o IVA subisse ainda mais, contrariando os desejos do próprio Governo. Obrigado, troika.

Agora que PSD e CDS voltaram a ser amigos dos pensionistas e dos funcionários públicos, agora que o governo até já faz voz grossa à troika e discute com ela, agora que já não há desculpas para não perceber que o neoliberalismo nunca existiu em Portugal, agora que é claro como água — IVA a 23,25%, senhores — que sempre tivemos e sempre teremos partidos estatistas, que procuram sacar o máximo mexendo o menos possível, agora que toda a gente finge não ver o crescimento de uma bolha especulativa com a dívida soberana europeia que ainda nos vai rebentar na cara, agora que o Governo prefere simular que está tudo bué bem e que existe uma infalível explicação para os actuais juros da dívida, deixem-me agradecer publicamente aos homens e às mulheres que sempre procuraram manter alguma lucidez num país cheio de gente moderada mas incapaz de conversar entre si. Obrigado, troika.

Agora que Paulo Portas ofereceu aos membros da troika Os Lusíadas em versão inglesa (edição Oxford Classics), certamente para eles se espantarem com a grandeza de Portugal na hora do adeus, agora que já ninguém quer ir além da troika, agora que se acabou o álibi “do etíope, do alemão e do careca” como justificação para todos os males e sacrifícios, agora que já podemos todos ser pobres e mal-agradecidos à vontade, deixem-me, ao menos, agradecer publicamente a quem andou três anos a tentar pôr juízo na cabeça dos nossos políticos e a tentar obrigá-los a fazer as reformas de que o país necessita. Eu sei que não conseguiram, eu sei que muita coisa foi mal feita, eu sei que o impacto da austeridade no desemprego foi explosivo, mas eu também sei que quando estamos sozinhos e soltos nunca conseguimos arranjar a coragem política para fazer aquilo que se impõe. Obrigado, troika. Quando vocês estão, é mau. Mas quando vocês não estão, ainda consegue ser pior."


Este debate também é imperdível:

carlosacosta
06/05/2014 15:50
Será que este tipo já leu e interiorizou o que está escrito no belo artigo de hoje de José Vitor Malheiros. Estes neo liberais tem palas laterais nos olhos, só vêem o que lhes interessa.
  • JP
    06/05/2014 19:23
    Maiores palas tem quem se queixa das palas dos outros sem se aperceber das suas. Esta crónica é tendenciosa, é certo — mas o cerne é a crítica à nossa classe política e à falta de coragem para tomar medidas menos populares. A do José Malheiros é um manifesto ideológico (quase diria partidário) repleto de demagogias, imprecisões e falácias. Essencialmente, propaganda hipócrita de esquerda. Mal por mal, prefiro a ironia tendenciosa do João Miguel Tavares.

DNG
Lisboa 06/05/2014 18:13
Portugal vai pagar um total de 34.400 milhões de euros em juros pelo empréstimo de 78 mil milhões do programa de ajuda da troika. Oiça por favor, diga-nos por favor: O que é o leva a escrever, a ter a ousadia de escrever?... É pela miséria sensacionalista do protagonismo negativo?
O crescimento potencial da economia portuguesa é garantidamente abaixo de 2% até 2030. Oiça, pense um bocadinho, só um bocadinho... Só um bocadinho JMT. Não quer, eu sei. Sabe porquê, é simples. É que quando perceber o mundo, quando perceber as consequências a sério do que se está a passar neste país, pura e simplesmente não vai aguentar o self do ridículo e da vergonha.
  • tripeiro
    06/05/2014 18:45
    O que é que estará mal, o empréstimo da troika ou o vício do estado português em viver de empréstimos e não se limitar a gastar aquilo que produz?
  • JP
    06/05/2014 18:59
    Parece que o amigo DNG se ficou pelo 1º parágrafo... Ou então ficou picado pelas indirectas ao socio-populismo eleitoralista que grassa na nossa classe política, da esquerda à direita.
  • DNG
    Lisboa 06/05/2014 20:31
    Entristece-me que o Tripeiro não conheça os factos. Os factos indicam claramente que o estado português em pleno subprime, estava muito menos individado relativamente ao sector financeiro e à dívida privada geral do país. Contudo o Tripeiro culpa o estado quando foram os estados que salvaram o capitalismo falindo e socializando consequentemente o prejuízo, Estimado Tripeiro, então não vê que tenho razão!? A crise das dívidas soberanas é sobretudo uma engenharia de recapitalização da banca cujos custos são suportados pelos contribuintes.
  • tripeiro
    06/05/2014 21:16
    DNG, eu sei que antes o estado estava menos endividado e também sei que somos vítimas de ataques especulativos, mas três observações:
    1. Qualquer empréstimo implica juros e nunca numa ida ao "mercado" tivemos juros tão baixos como aqueles que nos foram proporcionados pela troika (pelo que não faz sentido estar a queixar-se do dinheiro que a troika vai receber em juros);
    2. Foi o vício permanente do estado em contrair dívida, que se veio a acumular ao longo dos anos, que nos colocou nesta situação. Se o estado tivesse vivido com o que tinha ou perto disso nunca seriamos um alvo dos ataques especulativos;
    3. Em engenharia de aldrabice foi também pródigo o senhor Eng. Sócrates, que contribuiu e muito para aqui chegarmos, que, por exemplo, empurrou o défice das empresas públicas de transporte com a barriga, ordenando-lhes que contraíssem empréstimos, para camuflar o défice nacional e agora vamos todos pagar essa factura também.
    Eu compreendo muita coisa do que o DNG diz e concordo com muitas das coisas que diz também (ainda que não pareça), mas temos uma diferença fundamental: eu não glorifico governo algum pois todos têm muita culpa na cartola e tenho os pés assentes na terra na medida em que percebo que há coisas que, por muito dolorosas que sejam, têm de ser feitas pois ninguém vive eternamente de endividamento.
  • DNG
    Lisboa 06/05/2014 21:50
    A segunda, é porque o FMI não tem água onde se lave — é que os Planos de Reforma dos funcionários do FMI pagos com as contribuições dos Estados-membros prevêem o pagamento de pensões vitalícias a partir de 50 anos de idade com um mínimo de 3 anos de serviço. Como refere Dean Baker, Director do Centro de Pesquisa Económica e Política em Washington, técnicos do FMI podem reformar-se aos 51 anos com uma reforma da ordem de 74 mil euros anuais. Para assegurar estas mordomias, para além da contribuição que Portugal paga para o FMI, pela "ajuda" de 78 mil milhões de euros somos obrigados a pagar 34.400 milhões de euros de juros, a somar aos 655 milhões de euros de comissões, sem juros. Paulo Martins, in DN Madeira num artigo "A canga da troika"
  • tripeiro
    06/05/2014 22:19
    DNG, tenha presente uma coisa: a maior parte do empréstimo veio da UE, ou melhor, dos seus países membros, e é para lá que vai também a maior parte dos juros, não para o FMI, não querendo com isto, contudo, glorificar o FMI.
    E quanto a reformas não precisamos de ir para o FMI, cá no burgo temos óptimos exemplos e são a prova de que há coisas que têm de ser feitas e mudadas. Por exemplo, a senhora "presidenta" da AR reformou-se aos 40 anos e provavelmente consegue auferir mais do que os 74 000 € anuais, mordomia sustentada por todos nós.
  • DNG
    Lisboa 06/05/2014 22:41
    A questão é que não se tratam de credores sem predicados morais. Pelo menos à partida. São instituições oficiais que trocaram o juro baixo pela violência. Isto não é violência?! Quando são ultrapassados os denominadores mínimos pelos quais se constrói uma sociedade, sobretudo em nome de objectivos opacos, não há direito moral à revolta? Quem tinha a obrigação de dominar todos os ângulos do jogo com consciência moral. Os especuladores, ou Lagarde, Barroso e Draghi? Oiça, sou capaz de me aproximar do seu ponto: tudo o que é feito fora do perímetro orçamental está errado, socrático ou não. A questão vai mais longe a financeirização da economia... São uns porcos não duvide.
  • MCA
    06/05/2014 22:50
    Ó Sr. Tripeiro, explique lá o que é o "vício do estado português viver de empréstimos".
    Não têm dívidas praticamente todos os países ocidentais? Não tem a globalização culpa das empresas estratégicas se terem transferido para o oriente? Que leis e imposições tenham levado ao fim de indústrias, agricultura, pescas no nosso país? Tantos factores envolvidos mas a "culpa", para muita gente, reside somente no maldito gene português.
  • tripeiro
    06/05/2014 23:46
    "A questão vai mais longe a financeirização da economia... São uns porcos não duvide."
    E não duvido DNG, não duvido nada, mas cabe-nos a nós, ou melhor, aos nossos governantes, não nos colocar a jeito de sermos apanhados pela tempestade e foi isso mesmo que, ao longo das várias décadas, fizeram!
    Mas os problemas do nosso país também não são exclusivos dos governantes, são transversais a toda a sociedade: temos empresários tacanhos e sem visão que não passam de meros comerciantes e temos um povo em geral (no qual, obviamente, se incluem os empresários) vocacionado para o chico-espertismo e os governantes são o reflexo de tudo isto.
  • tripeiro
    06/05/2014 23:52
    Oh dona MCA, então se eu me atirar ao Douro do tabuleiro superior da Luís I vem atrás de mim?
    Mas a explicação é simples: temos uma economia não produtiva (é só ver o crescimento do PIB nos últimos 10 anos que foi praticamente nulo) que há muito que vive de dinheiro emprestado.
    Todos os países ocidentais têm dívidas, mas uns são produtivos e outros não e os que não são produtivos estão como nós. Se quer exemplos, tem a Grécia, a Espanha, o Chipre... é impossível viver-se com um crescimento praticamente nulo, ano após ano, e um aumento constante da dívida, um dia alguma coisa tem que estourar.


Introdução do Inglês nos currículos do 1º ciclo a partir de 2015/16


O Inglês passará a integrar o currículo dos 3º e 4º anos do 1º ciclo do ensino básico, como disciplina obrigatória, a partir do ano lectivo 2015/2016.

A medida foi hoje revelada pelo ministro da Educação e da Ciência Nuno Crato na comissão parlamentar de Educação, Ciência e Cultura onde estava a ser ouvido:

06 Mai, 2014, 19:23


A nova disciplina deverá estar disponível em 2015/2016 apenas para os alunos do 3º ano de escolaridade. E, nesse ano lectivo, dificilmente poderá abranger todos os estabelecimentos de ensino porque é preciso dar formação complementar a professores — ensinar uma língua estrangeira a crianças de 7 ou 8 anos não é o mesmo que ensinar crianças de 12 anos.

O que nos preocupa é que o lançamento seja bem feito, tudo isso vai demorar tempo, mas o que é importante é que se comece e depois se generalizará a todas as escolas”, disse Nuno Crato.
Vão ser criados mestrados no ensino superior que darão acesso a um novo grupo de recrutamento de docentes. Há também que rever as metas curriculares nos 2º e 3º ciclos do básico.

Nuno Crato lembrou que, até ao ano lectivo passado, o Inglês existia no 1º ciclo com carácter obrigatório nas actividades de enriquecimento curricular (AEC), mas a frequência era facultativa, sendo oferecido em “actividades lúdicas que, em alguns casos, pouco passavam de canções de embalar. A qualidade era muito variável”.
Nos restantes níveis de ensino, o Inglês “não era obrigatório em nenhum ano de escolaridade” até este Governo ter entrado em funções, embora a larga maioria das escolas tivesse “o bom senso” de oferecer Inglês aos seus alunos.

Dados anunciados em Abril pela Direcção-Geral de Estatística da Educação e Ciência sobre o actual ano lectivo, revelaram que, apesar de a oferta ter deixado de ser obrigatória nas AEC, 90% das escolas públicas oferecem Inglês aos alunos dos 3º e 4º ano e 80% também aos alunos dos 1º e 2º anos.
Mas a contratação de docentes para as AEC é feita pelas associações de pais e influenciada, em muitas escolas, pelos directores, decorrendo num clima de compadrio. E, demasiadas vezes, as aulas são fictícias.

O grupo de trabalho está a pensar a questão global do Inglês no 1º ciclo, não estamos a pensar em actividades dispersas, facultativas, estamos a pensar no Inglês curricular de forma a que dentro de alguns anos os nossos jovens possam ter Inglês, obrigatório no currículo, durante sete anos seguidos [do 3º ao 9º ano]. É o nosso grande objectivo”, acrescentou o ministro.
Hoje o Inglês é algo que se aproxima de uma língua franca universal”, com que se fazem negócios e se discutem resultados de investigações científicas, sendo insuficientes os “cinco anos de Inglês” que os alunos têm actualmente.

Nuno Crato revelou também que o Governo levantou a suspensão das obras em 14 estabelecimentos de ensino da Parque Escolar.


Professores de Inglês concordam

O presidente da Associação de Portuguesa de Professores de Inglês (APPI), Alberto Gaspar, concorda com a medida, recordando que este ministro “propõe-se fazer” o que a APPI “já defendia antes de 2005/2006”, ano em que a oferta daquela língua passou a ser obrigatória nas AEC, para os alunos dos 3º e 4º anos, embora de frequência facultativa.

Estamos mais do que de acordo com a entrada do Inglês no currículo, com a criação de um grupo de recrutamento de professores próprio e com a necessidade de formação específica — são propostas nossas há muitos anos”, disse Alberto Gaspar, que sublinhou que a APPI “sempre defendeu, também, que a obrigatoriedade abrangesse, pelo menos numa primeira fase, apenas o 3º e o 4º ano”.

Na sua opinião, foi precisamente “o alargamento precipitado” da oferta do Inglês nas AEC aos alunos dos dois primeiros anos de escolaridade, em 2006/2007, “sem qualquer avaliação prévia das condições para dar esse passo, que provocou o caos, já que não havia professores com a formação adequada em número suficiente para responder à procura”.

A criação de mestrados para formação de professores mexe com o emprego docente e, nessa área, Alberto Gaspar é mais cauteloso: “Não sei se é necessário, não discuto isso, mas não faria sentido exigir aquela qualificação, que não é necessária para quem dá aulas aos 2º e 3º ciclos e ao secundário”. E considera que “seria grave desaproveitar os bons professores, qualificados, com formação específica e experiência feita nas AEC”.

*

Esta é uma medida que irá tornar os jovens mais qualificados para responderem às solicitações profissionais em importantes sectores da economia, como seja o turismo e a indústria, que é preciso relançar.

Se os portugueses forem capazes de entender os manuais de instruções dos equipamentos e os livros escritos originalmente em Inglês, torna-se desnecessário recorrer a traduções brasileiras e vexar a língua portuguesa.
Terminada a colonização brasileira, Portugal poderá singrar no trilho que conduzirá à independência da cultura portuguesa e à sua afirmação entre as culturas mundiais mais avançadas.

Em coerência com o desígnio de valorização da cultura portuguesa, defendemos que durante os 1º e 2º anos da escolaridade seja ensinado apenas o Português para que as crianças possam consolidar e aprofundar os conhecimentos da língua materna adquiridos no seio da família.

Só no 3º ano de escolaridade, após terem aprendido a ler, a escrever e a interpretar na língua portuguesa, é que os alunos deverão iniciar a aprendizagem do Inglês que, temos de reconhecer, ganhou o estatuto de língua franca universal nas relações comerciais, nas indústrias e nas investigações científicas que são a base do progresso das sociedades humanas.


A “saída limpa” é uma miragem


O País vai sair do Programa de Ajustamento Económico e Financeiro (PAEF), que teve de aceitar em Maio de 2011 para receber empréstimos no valor total de 78 mil milhões de euros, sem programa cautelar.
A primeira vantagem de tal programa seria proteger o país de uma subida das taxas de juros nos novos empréstimos que vão ser contraídos nos mercados financeiros para amortizar os empréstimos que, entretanto, atingirem a maturidade e pagar os juros.

Até Março de 2015, o problema de financiamento não existe porque o Governo tem dinheiro suficiente em caixa.

Se, posteriormente o problema surgir, o País pode pedir um programa cautelar, ou seja, um novo programa de ajustamento económico e financeiro, embora mais suave que o negociado em 2011 pelo governo Sócrates com a corda na garganta.
Esta seria a segunda vantagem de um programa cautelar porque amarraria um futuro governo com tentações despesistas à continuação da disciplina orçamental dos últimos três anos.

No entanto, Portugal terá de manter a trajectória de redução do défice orçamental e da dívida pública e prosseguir as reformas da economia com que se comprometeu perante a Comissão Europeia quando assinou o pacto de estabilidade do euro.

E obviamente o País continuará a ser vigiado orçamental, económica e financeiramente pelos credores externos, com o objectivo de garantir que no orçamento de Estado vai figurar a verba necessária para assegurar o reembolso dos empréstimos e os respectivos juros.
Mais intervaladas e discretas do que nos últimos três anos, estas missões de vigilância prosseguirão até que

  • 75% do empréstimo de 26 mil milhões de euros concedido pelo fundo garantido pelo orçamento da União Europeia — o EFSM — tenha sido reembolsado;
  • no caso do fundo garantido pelos países da Zona Euro — o EFSF, actualmente designado por mecanismo europeu de estabilidade (ESM) — que forneceu o outro terço da ajuda, a vigilância prosseguirá até ao reembolso da totalidade dos empréstimos;
  • finalmente, o FMI, que forneceu o último terço dos empréstimos, tem como regra manter a vigilância sobre os países ajudados enquanto a respectiva dívida pública estiver acima de 200% da sua quota no fundo.
    Atendendo à cotação do ouro, para o nosso País significa 905 milhões de euros*. Como a dívida pública ascende a 213.390 milhões de euros, temos vigilância por toda a vida do empréstimo.

Não há “saídas limpas” quando os governos deixam descontrolar os défices orçamentais e criam dívidas públicas excessivas.



* Salazar pagou uma quota de 15 toneladas de ouro para Portugal pertencer ao clube do FMI.


domingo, 4 de maio de 2014

Declaração do primeiro-ministro sobre o fim do Programa de Assistência Económica e Financeira


Três anos depois, com aprovações nos 12 exames da troika, Portugal sai do Programa de Ajustamento Económico e Financeiro (PAEF), em 17 de Maio, e avança para os mercados financeiros sem um programa cautelar.
A decisão foi anunciada este domingo por Passos Coelho, numa comunicação ao País com pompa e circunstância na presença de todos os ministros:


04 Mai, 2014, 20:37


"Há poucos dias o País inteiro celebrou os 40 anos do 25 de Abril e da nossa democracia. O que o povo português alcançou há 40 anos mudou o País e ressoou por todo o mundo.

Há 40 anos os Portugueses rejeitaram a ditadura e a injustiça, e uniram-se para construir uma sociedade europeia ocidental. Com uma democracia pluralista e representativa. Aberta ao mundo, com um Estado social e uma economia social de mercado. Foi essa a escolha que mobilizou o País e mudou para sempre a nossa história.

Eu pertenço à primeira geração de Portugueses que pôde crescer em liberdade. Foi um privilégio podermos crescer e construir os nossos horizontes pessoais na casa da liberdade que nos foi dada. Por essa mesma razão, estamos entre os mais gratos de todos os Portugueses pelo legado do 25 de Abril.

Este nosso caminho colectivo como País misturou-se com a nossa adesão à Europa. Para a esmagadora maioria dos Portugueses, a Europa foi sempre o modo de garantir o projecto colectivo afirmado no 25 de Abril. O isolamento no espaço europeu seria na prática a impossibilidade de o realizar.

Ao longo destes 40 anos atravessámos vários momentos em que este caminho poderia ter sido posto em causa. E respondemos sempre com coerência e com coragem.

Entrámos na Comunidade Económica Europeia em 1986, mas, se não tivéssemos levado a bom porto o Programa de assistência externa entre 83 e 85, não o teríamos conseguido.

Em 2011, o País viu-se a braços com a perspectiva ainda mais grave de uma bancarrota. E foi confrontado com as consequências prováveis de um impasse: um Estado sem financiamento, a saída do euro e o fim do nosso projecto europeu.

Não o podíamos permitir e não o permitimos.

Foi para salvar o projecto político consensual e mobilizador destas quatro décadas — o projecto de uma democracia europeia, com um Estado social forte e uma economia social de mercado próspera — que executámos um programa tão exigente e tão duro como este que agora estamos prestes a concluir.

O colapso que o País sofreu em 2011 foi tão grave que tivemos de tomar decisões muito difíceis.

Não foi este Governo que provocou e depois pediu o resgate financeiro. Mas foi a nós que coube a responsabilidade de executar o Programa que permitiu pôr o País de pé outra vez.

Tivemos de agir rapidamente para minimizar a recessão, estancar a dívida, preservar o Estado social e preparar o crescimento da economia. Foi um período de verdadeira emergência nacional.

As famílias portuguesas sentiram duramente as consequências da crise.

Os desempregados que enfrentaram a ausência de perspectivas de trabalho, os pensionistas que viram as suas pensões cortadas, os funcionários públicos que sentiram a redução dos salários e o congelamento das progressões, os trabalhadores do sector privado que enfrentaram a instabilidade e a incerteza, os jovens que perderam a confiança no futuro, todos os Portugueses sofreram os efeitos dolorosos de uma crise que poderia, e deveria, ter sido evitada.

Foram tempos muito difíceis.

Eu sei que as dificuldades persistem para muitas famílias. E também sei que o crescimento que regressou à economia no último ano ainda não se traduziu em melhorias no dia-a-dia de muita gente. Mas hoje é claro que os sacrifícios feitos não foram um fim em si mesmos e que podemos agora alcançar os resultados que ambicionamos.

Sei que os Portugueses querem ver concretizados esses resultados, com mais e melhores empregos, com a recuperação das pensões e salários que foram cortados, com o alívio dos impostos que foram aumentados, com mais oportunidades para os nossos jovens, com o regresso dos que emigraram involuntariamente.

O nosso trabalho diário, e o nosso objectivo, é garantir que os resultados chegarão a todos tão rapidamente quanto possível. Estamos no caminho certo e o País está a recuperar com bases mais sólidas e sustentáveis do que tínhamos no passado.

Três anos depois, estamos a poucos dias de terminar o Programa de Assistência. O 17 de Maio de 2014 ficará na nossa história como um dia de homenagem a todos os Portugueses, porque sem o esforço de todos não teria sido possível chegar até aqui.

Não será o dia nem do Governo, nem de nenhum partido político. O dia 17 de Maio será o vosso dia. Será o dia de homenagem a cada um de vós, o dia em que a nossa liberdade de decisão foi reconquistada por cada um de vós.

Todos os Portugueses estão de parabéns.

Durante todo o período do resgate financeiro nunca deixámos de nos sentir como membros plenos da União Europeia e do Euro. Pela forma como lidámos com as circunstâncias difíceis, recuperámos credibilidade para nos afirmarmos no concerto europeu com dignidade e responsabilidade.

Mas é inequívoco que, com a reconquista da nossa autonomia, Portugal poderá uma vez mais exercer sem constrangimentos o seu lugar em pé de igualdade com todos os outros Estados-membros. Com as mesmas obrigações e com as mesmas oportunidades, com os mesmos direitos e com as mesmas responsabilidades. Mas com uma voz muito mais credível e respeitada.

Hoje, em Conselho de Ministros, o Governo decidiu que sairemos do Programa de Assistência sem recorrer a qualquer programa cautelar.

Depois de uma profunda ponderação de todos os prós e contras, concluímos que esta é a escolha certa na altura certa. É a escolha que defende mais eficazmente os interesses de Portugal e dos Portugueses e que melhor corresponde às suas justas expectativas.

Podemos fazer agora esta escolha porque, tal como consta na declaração final emitida na sequência da última avaliação da Troika, o Programa está no bom caminho para o seu termo e colocou a economia portuguesa no caminho da solidez das finanças públicas, da estabilidade financeira e da competitividade.

Fazemos esta escolha, portanto, porque a estratégia de regresso aos mercados foi bem-sucedida, porque fizemos enormes progressos na consolidação orçamental e porque recuperámos a nossa credibilidade.

A nossa escolha está alicerçada no apoio dos nossos parceiros europeus, que de forma inequívoca o manifestaram fosse qual fosse a opção que viéssemos a tomar.

O que os Portugueses conseguiram nestes últimos três anos converteu-se num grande voto de confiança por parte dos nossos parceiros. Sabemos que podemos contar com eles nesta nova fase da nossa história, como contámos até agora com todas as instituições e em particular com a Comissão Europeia.

E eles sabem que podem confiar em nós.

Temos reservas financeiras para um ano, que nos protegem de qualquer perturbação externa.
Temos a confiança dos investidores e os juros da nossa dívida estão em níveis historicamente muito baixos.
Temos excedentes externos como não acontecia há décadas.

E manteremos o rigor orçamental, porque essa é a firme vontade do Governo e da maioria parlamentar que o suporta.

Além disso, beneficiamos de um contexto de maior segurança e confiança no plano da União Europeia. Hoje, na Europa, há mecanismos e garantias mais fortes para responder às crises sistémicas e para preveni-las. Há mais coordenação económica e estamos já a construir, com grande empenho de Portugal, a União Bancária.

Sei que os Portugueses saberão sempre responder de forma clara e inequívoca a quaisquer percepções externas negativas relacionadas com eventuais riscos internos, nomeadamente de natureza legal ou política.

Quando em 2011, o Programa de Assistência foi negociado, o Governo de então pôde beneficiar do apoio dos principais partidos da oposição, apesar das nossas discordâncias. Fizemo-lo porque compreendemos o quanto isso era fundamental para preservar o consenso nacional.

Infelizmente, quando foi preciso cumprir o Programa, um apoio idêntico não existiu.
A falta de compromisso político acentuou ainda mais a incerteza e as dificuldades, obrigando, por vezes, à alteração de medidas e das correspondentes expectativas das pessoas. Foi a determinação extraordinária dos Portugueses – e, é justo dizê-lo, de muitos parceiros sociais – que nos permitiu superar todos os obstáculos.

E é minha profunda convicção que os Portugueses continuarão a ser o melhor garante do consenso nacional que dará força à nossa recuperação.

Podemos, assim, estar tranquilos. Esta é a decisão certa.

Todos sabemos que ainda temos um longo caminho para percorrer e que não é de um dia para o outro que gozaremos de todos os benefícios de sermos autónomos outra vez. Mas é um caminho que faremos com confiança, com a credibilidade que fomos conquistando junto dos nossos parceiros, e com a esperança no futuro que há muito não conhecíamos.

Por tudo isto, quero dizer-vos que esta não é a hora para voltar atrás. O que já conseguimos custou muito, e não seria aceitável deitar tudo a perder.
Estamos no caminho certo para nunca mais permitir que Portugal passe por um outro colapso, um outro resgate, uma outra emergência nacional.

Estamos no caminho certo para construir a sociedade a que os Portugueses aspiram e merecem.

Mas estamos também no caminho certo para poder agora começar a sarar as feridas que foram abertas nos momentos mais difíceis da emergência nacional.

É meu compromisso convosco que não voltaremos à política da estagnação e da irresponsabilidade que nos empurrou para o precipício.
Que a recuperação do emprego e da economia está no centro das prioridades do Governo.
E que continuaremos a liderar um processo de mudança reformista para trazer a prosperidade, para corrigir as injustiças e as desigualdades e para democratizar a sociedade e a economia.

Precisamos da mesma determinação e do mesmo realismo de que demos provas durante estes três anos.

Olhamos agora para a frente com uma esperança renovada, sem os receios e as incertezas dos últimos anos.

Depois do que juntos conseguimos, não há nada que juntos não possamos alcançar.

Muito obrigado."



Autor: Miguel Baltazar/Negócios


In Memoriam Veiga Simão



José Veiga Simão
(1929-2014)

Nasceu na aldeia de Prados, concelho de Celorico da Beira, distrito da Guarda, em 13 de Fevereiro de 1929. Ainda frequentou o Liceu Afonso de Albuquerque, na Guarda, mas fez o ensino secundário em Coimbra, para cuja universidade o irmão mais velho tinha ido estudar.

Licenciou-se em Ciências Físico-Químicas na Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, em 1951, e doutorou-se em Física Nuclear na Universidade de Cambridge, em 1957, tendo regressado a Coimbra para seguir a carreira de professor universitário.

O seu doutoramento numa prestigiada universidade inglesa granjeou-lhe convites para cargos políticos.
Em 1963, António de Oliveira Salazar nomeou-o reitor da primeira universidade de Moçambique, em Lourenço Marques, actual Maputo.
Em Janeiro de 1970, foi Marcello Caetano que o convidou para suceder a José Hermano Saraiva como ministro da Educação Nacional. Aceitou com a ideia de transformar o ensino e o País: “Eu assumia que a única possibilidade, a única nesga de oportunidade que Portugal tinha para caminhar um pouco mais depressa para uma democracia inevitável e desejável era através da educação”, revelou numa entrevista em 2001.

Procurou provocar uma profunda transformação no ensino não superior com a publicação, em 1973, da primeira Lei de Bases do Sistema Educativo que previa a unificação do ensino liceal e do ensino técnico e alargava a escolaridade obrigatória para oito anos, regulamentada como gratuita. O alargamento da escolaridade obrigatória acabou por ficar suspenso devido às alterações do pós-25 de Abril, apenas prosseguiu a via única de ensino que se revelou uma utopia.

Foi no ensino superior que conseguiu realizar uma reforma efectiva, que ficou conhecida como reforma Veiga Simão. Resumidamente, o contexto era o seguinte:

  • O plano de estudos do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (actual ISEG) fora aprovado pelo Decreto 37.584, de Outubro de 1949, pelo ministro Fernando Pires de Lima que ficou tristemente célebre pela demissão compulsiva por delito de opinião de 26 professores universitários.
  • Fora feita a reforma das licenciaturas nas Faculdades de Letras pelo ministro Francisco de Paula Leite Pinto (1955-1961) através do Decreto 41.341, de Outubro de 1957.
  • No âmbito de uma profunda reforma do ensino superior concretizada através do Decreto 45.840, de Julho de 1964, o ministro Inocêncio Galvão Teles (1962-68) fez a reforma das Faculdades de Ciências, tendo aumentado para cinco anos a escolaridade das suas licenciaturas, procedido à divisão da licenciatura em Matemática em duas e à separação da Física e da Química na licenciatura em Ciências Físico-Químicas.
    Pelo Decreto 48.627, de Outubro de 1968, o bacharelato passou a existir nas Faculdades de Letras e a constituir habilitação académica suficiente para admissão ao estágio para professor do ensino liceal.

Era preciso reestruturar os cursos de ciências económicas e sociais e definir dois ciclos de estudos também nas Faculdades de Ciências.

Veiga Simão começou por introduzir alterações no plano de estudos do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras pelo Decreto 512/70.
A reforma profunda chegou pelo Decreto 520/72, de 15 de Dezembro, que definiu a estrutura dos cursos professados no então Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (actual ISEG) — bacharelatos e licenciaturas em Economia e em Organização e Gestão de Empresas —, no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, criado em Dezembro de 1972, — bacharelatos e licenciaturas em Ciências do Trabalho e em Organização e Gestão de Empresas —, e no então Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina (actual ISCSP) — bacharelatos em Ciências do Trabalho e em Economia e licenciatura em Ciências Sociais — que passavam a ser ministrados em semestres lectivos.

A revisão da orgânica dos bacharelatos e licenciaturas nas Faculdades de Ciências pelo Decreto 443/71, de 23 de Outubro, permitiu-lhes conferir os graus de bacharel e de licenciado e estabeleceu o regime semestral de frequência e exames para melhorar o rendimento do ensino e o nível de exigência. Mas a característica desta reforma que mais influenciou o futuro do País foi o desdobramento das licenciaturas em Matemática, em Física, em Química, em Geologia e em Biologia em dois ramos:
  • Especialização científica;
  • Formação educacional.
Os planos de estudos para o 4.º e 5.º anos do ramo de especialização científica eram elaborados pelo corpo docente das Faculdades e continham disciplinas com exames, tal qual os três primeiros anos do curso.

O decreto estipulava um plano de estudos para o 4.º e 5.º anos do ramo de formação educacional explicitando até os nomes das oito disciplinas do 4.º ano, todas na área das ciências pedagógicas, e exigindo a elaboração de uma monografia científica a concluir no 5º ano que era ocupado por um estágio pedagógico numa escola do ensino não superior.
Na verdade, o que se passou na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa entre 1971 e 1974, e nas outras não terá sido diferente e poderá ser confirmado pelos professores universitários ainda vivos, foi o direccionamento dos alunos do bacharelato com médias fracas, entre 10 e 12 valores, para o ramo educacional com a concomitante entrega da total responsabilidade da leccionação do 4º ano a licenciados oriundos das Faculdades de Letras.
Estes facilitaram a avaliação dos alunos, substituindo os exames por trabalhos que se limitavam a pouco mais que uma colecção de fotocópias legendadas à mão, aos quais foram atribuídas notas elevadas. E a monografia transformou-se num relatório das vivências do estagiário durante a sua experiência de ensino no 5º ano.

A carência de professores era de tal ordem que, já no início da década de 1980, e mesmo em escolas situadas a poucas dezenas de quilómetros das cidades, ainda eram aceites, como professores de Matemática e de Física, os alunos que acabavam de concluir o ensino secundário. O actual primeiro-ministro leccionou Matemática nestas condições numa escola do ensino secundário em Vila Pouca de Aguiar, no ano lectivo 1982-83. Por isso as Universidades de Lisboa, Porto e Coimbra aceitaram dar licenciaturas que mais não tinham que três anos de estudo, mas tal atitude veio a desencadear uma situação profundamente injusta¹.

A duplicação dos exames acarretada pela criação dos semestres reforçou a irritação provocada pela guerra colonial entre os alunos revolucionários provenientes da classe social média-alta. A pedido dos directores de algumas faculdades da Universidade de Lisboa, Veiga Simão anuiu na colocação de vigilantes — os “gorilas” —, uma medida necessária para permitir a realização das actividades lectivas e de avaliação, senão as greves decretadas pelas associações de estudantes nas mãos do MRPP não nos permitiam fazer testes, nem exames.

As condições de integração dos alunos que já frequentavam estes cursos nos novos planos de estudo foram estabelecidos, como é usual, pelas Faculdades.
Assim sucedeu na licenciatura em Física da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Se, no ano lectivo 1971-72, os alunos do 2º ano só tiveram, no máximo, que se adaptar a uma disciplina de continuação — a Mecânica Física II —, e os do 4º e 5º anos conseguiram passar pelos pingos da chuva, já o mesmo não sucedeu aos alunos do 3º ano. Sofremos um duro golpe na auto-estima ao sermos obrigados a fazer, no lugar das disciplinas de opção, as cadeiras de Mecânica Física II (1º semestre), Electromagnetismo II e Física Atómica e Molecular (2º semestre), todas do 2º ano. Com a agravante da Mecânica Quântica começar nas equações de Hamilton-Jacobi que era onde terminava a Mecânica Física II, ambas cadeiras do mesmo ano e semestre para nós...

O lado bom foi podermos usufruir de um rejuvenescimento da licenciatura que subiu para o nível de exigência das licenciaturas das melhores universidades de França, Inglaterra ou Estados Unidos. Numa vertente pouco lembrada da “primavera marcelista”, este renascimento deveu-se ao convite de Veiga Simão a professores que haviam feito doutoramento em França, ou até estavam a trabalhar no Instituto Henri Poincaré, em Paris, para regressarem a Portugal: recordamos Maria Helena Andrade e Silva (Mecânica Física II), Noémio Macias Marques (Electromagnetismo II) e João Luís Andrade e Silva (Mecânica Quântica).

Na sua evocação, David Justino, antigo ministro da Educação, fala de "um homem que fez da educação um desígnio pessoal".
E o actual ministro da Educação e Ciência, Nuno Crato, destacou o papel de Veiga Simão na “ampliação e diversificação da rede de estabelecimentos de ensino superior em Portugal”, que incluíram a criação das universidades do Minho, Aveiro, Nova de Lisboa e Évora, em 1973.

Afastado do Ministério da Educação Nacional pela revolução de 25 de Abril, Veiga Simão foi embaixador de Portugal nas Nações Unidas, entre 1974 e 1975, e posteriormente professor convidado da Universidade de Yale, nos Estados Unidos.
Em 1978 regressou a Portugal para presidir durante cinco anos ao recém-criado Laboratório Nacional de Engenharia e Tecnologia Industrial (LNETI) que incorporou a antiga Junta de Energia Nuclear.
Eleito deputado pelo distrito da Guarda na lista do partido socialista, em 1983, assumiu, de seguida, a pasta da indústria e Energia no governo do bloco central de Mário Soares e Mota Pinto (1983-85).
Retorna à vida académica, entre 1985 e 1992, como professor catedrático da Universidade da Beira Interior.
A partir de Novembro de 1997, voltou a exercer funções políticas como ministro da Defesa Nacional no primeiro governo de António Guterres, cargo de que pediu a demissão em Maio de 1999 após a polémica do envio de documentos sobre os serviços secretos portugueses que continha uma listagem dos elementos operacionais.

Na entrevista ao PÚBLICO de 2001, foi-lhe perguntado se era um homem de esquerda.
Veiga Simão respondeu que tinha “grandes preocupações com a igualdade de oportunidades, com a injustiça social, horror por ver quem utilize os seus patrimónios para dominar outros”. Se ser de “esquerda” era “independência de pensamento” e “capacidade individual”, então o epíteto ajustava-se: “Guio-me pela minha cabeça, nunca fui servo de ninguém. Aprendi a viver com o granito, não dobro.



Nota:
  1. Com as universidades fechadas pela revolução do 25 de Abril, o destino da quase totalidade dos alunos do ramo da especialização científica foi o ensino básico e secundário onde, em 1980, foram obrigados pelo ministro Vítor Crespo a fazer um estágio de dois anos para poderem entrar nos quadros das escolas onde já se encontravam os seus colegas do ramo educacional.
    A segunda hecatombe foram as passagens administrativas nos anos lectivos 1973-74 e 1974-75. Na década de 1980 começou a gestação da terceira hecatombe com a criação das universidades privadas que, para conseguirem vender licenciaturas, inflacionaram as classificações.
    Quarenta anos depois, as sequelas destas três vagas podem observar-se, quer nos fracos resultados de demasiados alunos nos exames nacionais dos ensinos básico e secundário, quer na obediência canina da maioria dos docentes às ordens emanadas do PCP através de um sindicalista grosseiro chamado Mário Nogueira.