quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Sobre a primeira greve laboral na Autoeuropa


Depois de 26 anos de paz laboral, a Autoeuropa teve a sua primeira greve por razões laborais, sete meses após a reforma do carismático coordenador da comissão de trabalhadores da fábrica da Volkswagen em Palmela.

De acordo com o novo modelo de horários que deveria ser implementado a partir de Novembro, cada trabalhador iria rodar nos turnos da manhã e da tarde durante seis semanas e faria o turno da madrugada durante três semanas consecutivas, com uma folga fixa ao domingo e uma folga rotativa nos outros dias da semana.

A greve foi marcada após a rejeição de um pré-acordo entre a administração e a nova Comissão de Trabalhadores — que apresentou a demissão e convocou eleições para 3 de Outubro —, devido aos novos horários de laboração contínua retirarem a folga fixa ao sábado.

O conflito laboral na Autoeuropa é uma questão de dinheiro ou de tempo para a família?

A Autoeuropa existe há 26 anos mas o trabalho ao sábado numa base permanente é desconhecido para os trabalhadores da empresa. Até agora, quando a produção assim o exigia, a fábrica trabalhava aos sábados de manhã, o que era remunerado como horas extraordinárias.

Agora, os trabalhadores apontam que os 175 euros mensais extra oferecidos pela administração ficam muito abaixo dos 400 euros mensais a que teriam direito se trabalhassem o sábado em regime de horas extraordinárias. Por outro lado, dizem que trabalhar todos os sábados, e turnos nocturnos, vai ter consequências negativas para a sua vida familiar e também em termos de saúde.

Já a administração da Autoeuropa precisa que a fábrica trabalhe sem parar durante seis dias por semana, em três turnos diários, num total de 18 turnos semanais, para produzir 240 mil automóveis em 2018.

Em entrevista ao Negócios, António Chora, o coordenador da comissão de trabalhadores durante 20 anos, descreve o contexto em que eclodiu o conflito. Primeiro, vejamos, resumidamente, o seu percurso de vida:
António Chora nasceu em Montemor-o-Novo, em 1954. Começou a trabalhar com 12 anos, primeiro na construção civil, de seguida numa empresa de tecidos, em Lisboa.

A partir dos 14 anos começou a estudar à noite no ensino técnico, tendo feito o curso industrial e o comercial. Mais tarde completou o ensino secundário, fazendo o complementar de Mecanotecnia.

Entrou na Siderurgia em 1977 e, como era militante do PCP, foi chamado para a actividade sindical embora não tenha sido delegado sindical a tempo inteiro. Passou para a Autoeuropa, em 1992, e aí trabalhou até à sua reforma, em Janeiro de 2017. Foi o coordenador da comissão de trabalhadores (CT) desta empresa entre 1996 e 2016, um período que é recordado pelo aumento do número de postos de trabalho e por relações laborais estáveis.

Desde o 25 de Abril, tem sido deputado municipal do concelho da Moita, onde reside. Em 1999, nove anos depois da implosão dos regimes socialistas nos países europeus do Leste, pediu a demissão do PCP e, no final desse ano, ligou-se ao Bloco de Esquerda. Entre 2006 e 2007, foi deputado do parlamento, em substituição de Fernando Rosas, durante seis meses.

O coordenador demissionário da CT, Fernando Sequeira, disse que o sindicato SITE Sul, afecto à CGTP, estava a realizar um assalto ao castelo na Autoeuropa. Concorda?
Sim, é claramente o assalto ao castelo e a tentativa do PCP pressionar o Governo para algumas cedências noutros lados. Mas isso tem sido a prática ao longo dos anos.

Este sindicato aproveitou a sua saída para entrar na CT?
Vamos ver se entram. Ainda tem que haver eleições. O sindicato montou-se em cima de quatro ou cinco populistas. É lamentável porque é um sindicato com história.

Está admirado com este conflito laboral?
Estou espantado. Nunca pensei ver tanta verborreia como tenho visto ultimamente, mas o populismo é assim.

Vai haver muita adesão à greve de dia 30 de Agosto?
Penso que sim, é capaz de haver uma adesão significativa porque as pessoas estão demasiado instrumentalizadas e demasiado confiantes nas palavras de pessoas que nunca viram na vida delas.

Mas a administração diz que não negoceia com sindicatos...
Sim, é o que se passa em todas as fábricas da Volkswagen, tirando o caso de Bratislava [Eslováquia] onde há dois sindicatos, mas em que cada dia de greve é pago pelos sindicatos a 50 euros, aqui não se passa nada disso.

Pode haver um acordo até ao final do ano?
Penso que sim, se houver uma nova comissão de trabalhadores com carisma. Gostaria que uma lista independente ganhasse as eleições. Normalmente aparecem quatro ou cinco listas, vai depender da divisão de votos por essas listas.

Tem-se falado em deslocalizar parte da produção do novo modelo T-Roc...
Eu já vi isto acontecer, em 2005 e 2006, na Volkswagen, em Pamplona, e na Seat, em Barcelona. Num caso não foram admitidos trabalhadores, noutro caso foram para a rua. Mas depois desta euforia vamos acompanhar esta situação com muita calma, com muita atenção.

Os 2000 novos postos de trabalho [criados por causa do T-Roc] ficariam em risco com a deslocalização?
Uma parte significativa sim, se calhar 700 ou 800 estão.

Tem-se comparado a Autoeuropa com a Opel na Azambuja [que fechou em 2006]...
Penso que a Volkswagen não trabalhará assim. Quando decidem é a longo prazo. Mas se a Volkswagen não conseguir produzir os automóveis aqui, há-de produzi-los noutro lado. Quanto mais próxima está a produção de um automóvel da produção dos seus motores ou da sua caixa de velocidade, mais barato se torna. Todos sabemos o preço que a logística tem hoje.

A Autoeuropa já esteve em risco de fechar?
As únicas vezes que a fábrica teve esse risco foi em 1999, quando a Ford desistiu do projecto, e depois em 2005 quando a Volkswagen falou em encerrar uma fábrica na Europa. Na altura falou-se na Autoeuropa por causa das questões logísticas e a outra era a fábrica de Bruxelas por questões salariais, custos de produção. Na altura estive quase três semanas na Alemanha com muitas reuniões com administrações e com comissões de trabalhadores e optou-se "por vender" a fábrica de Bruxelas à Audi. Em Dezembro de 2005 tinha havido também a recusa de um acordo, mas em Janeiro de 2006 foi aprovado por uma esmagadora maioria e tudo isso contribuiu para a manutenção da fábrica até hoje.

Quando se reformou já previa este conflito laboral?
Eu atrasei a minha saída um ano exactamente por causa disto. Eu era para ter saído em Dezembro de 2015, mas tinha assinado um acordo a dizer que até Fevereiro de 2016 tinha que ter os horários prontos por causa do T-Roc, mas a empresa não encetou negociações, e acabei por sair em Janeiro de 2017. Mas poderia ter-se arranjado algum tempo no meio disto tudo para negociar. Não podia estar a prolongar eternamente a minha saída. Não se negociou durante esta altura porque penso que havia a necessidade de defender os postos de trabalho que estavam em risco. A Autoeuropa teve que negociar com a Volkswagen para distribuir pessoas pela Alemanha até à vinda do T-Roc.

Saiu com o sentimento de dever cumprido?
Fui o trabalhador número 144 a entrar na Autoeuropa. Estive na liderança da comissão de trabalhadores de 1996 até 2016. E orgulho-me de ter sido membro de uma CT que começou numa fábrica com 144 pessoas. Saí de lá com 4 mil, contrariamente a muitos sindicatos que entraram com 11 mil trabalhadores e saíram com ninguém, como na Lisnave, CUF ou Quimigal. Tenho muito orgulho no meu trabalho.



T-Roc, o veículo que substituirá o modelo Sharan, cuja produção será descontinuada. Será produzido em Palmela pela Autoeuropa?


A greve teve uma adesão de 41%, mas bastava a ausência de apenas uma equipa da linha de montagem para o sindicato SITE Sul conseguir paralisar a produção de automóveis.

No parque industrial de Palmela existe um total de 13 empresas fornecedoras da Autoeuropa, actualmente com 1600 trabalhadores, metade das quais também foi afectada pela greve.

"Estão fábricas paradas devido à greve da Autoeuropa. Umas seis a sete fábricas foram atingidas pela greve, umas parcialmente, outras totalmente", afirmou Daniel Bernardino, coordenador da comissão de trabalhadores deste parque.

A maioria destas fábricas utilizam um processo de produção industrial conhecido por "just in time", isto é, os componentes não são armazenados, são enviados diariamente para a Autoeuropa.

"Esta paragem afecta-nos, porque como trabalhamos "just in time" é tudo escoado em poucas horas. Não temos espaço para armazenar a produção de um dia inteiro nas nossas empresas. O processo "just in time" obriga a que tenhamos stocks muito reduzidos", explica Daniel Bernardino.

Com o início da produção do T-Roc estas empresas tencionavam recrutar, pelo menos, mais 400 trabalhadores.


*


O pré-acordo previa que o horário de trabalho na Autoeuropa manteria as 40 horas semanais e a redução de folgas em dias consecutivos para 2/6 — teriam dias de folga consecutivos de três em três semanas, quando, a juntar ao dia de folga fixa, domingo, a folga rotativa fosse ao sábado ou à segunda-feira — teria a compensação financeira de 175 euros mensais.

No entanto, Arménio Carlos, secretário-geral da CGTP, explicou claramente o motivo da greve: "A Autoeuropa pura e simplesmente não pode deixar de se reunir com os sindicatos, tem que falar com os sindicatos porque são estes que representam os trabalhadores. Da mesma forma que pode e deve falar com a comissão de trabalhadores".

E fez exigências à administração da Autoeuropa: "Agora o que importa é dar o passo seguinte. Retomar o diálogo, expurgar tudo aquilo que possa gerar problemas na proposta que a empresa apresentou e apresentar alternativas. Depois deste passo, se se concretizar ou não, veremos se temos de dar o terceiro passo [nova greve], ou se porventura não é necessário".

Portanto, mais do que um conflito laboral, é uma guerra de poder político entre o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista Português. Sem quaisquer preocupações com o destino dos trabalhadores, quer da Autoeuropa, quer do parque industrial de Palmela. E, ainda menos, com a economia do país.

Alguns comentários lidos no Negócios:

abelavida
Há 16 horas
Se as condições não interessam aos trabalhadores da Auto Europa, estes só têm de não aceitar. Da mesma forma a VW também está no seu direito de mudar a produção para outro lado.
A questão é que se calhar há muita gente que gostava de trabalhar na fábrica dentro das condições que a mesma oferece.
Se falhar o bom senso de parte a parte quem acaba por perder é o país, ou seja, todos os portugueses.

Anónimo
Há 16 horas
Não vi aqui ninguém a defender 48h de trabalho para os seus colegas: tanto quanto sei, a proposta em causa visa que o pessoal trabalhe aos sábados e faça uma folga semanal rotativa, que também pode ser aos sábados. E por isso recebem 175,00€ extraordinários!

Tentando Perceber
Há 15 horas
As Guerras Políticas são assim, não querem saber do mal que fazem à Economia, a Portugal, daí que, por alguma simpatia que se possa ter pelo BE e pelo PCP, mete receio votar neles, por causa da irresponsabilidade que demonstram numa pequena luta de poder entre BE-Comissão de Trabalhadores e PCP-Sindicatos.

Anónimo
Há 15 horas
Este é o dilema global da globalização.
Aceitar imposições ou ir para o desemprego.
Tudo começou quando comprámos a primeira pechincha numa loja do chinês.
Agora estamos a competir com o chinês que trabalha em regime de cama quente.
Solução difícil, mas nunca com a demagogia sindical.

Anónimo
Há 10 horas
A CGTP só quer protagonismo. Em 26 anos de existência e em situações de redução da produção não houve greves, agora que esta vai aumentar é que fazem greve, realmente dá que pensar.

Ó palermas dos trabalhadores da AE
Há 13 horas
Os sindicatos são sempre contra o patrão mas tal não significa que estejam do vosso lado.
Vocês estão a ser manipulados e usados pelos terroristas económicos.
Abram a pestana e aprendam a negociar sozinhos, sem interferências exteriores, caso contrário os parasitas sociais ganham e vocês perdem.

Leão_da_estrela
Há 11 horas
Não estejam preocupados porque se a VW se chatear e levar a fábrica daqui para fora, o sindicato sustenta os 3500 trabalhadores até arranjarem emprego similar em ordenado e condições. Se não querem trabalhar dêem o lugar a outros. Esquecem-se que querem o fim-de-semana para ir aos centros comerciais e aos supermercados onde estão pessoas a trabalhar porque precisam de ganhar a vida.

Anónimo
Há 1 dia
Coitadinhos (dos empregados da AE, claro) onde eles se estão a meter...
A grande maioria deles são jovens e não conhecem a maneira destes sindicalistas negociarem! Já os da minha idade, ainda se lembram (ontem nos noticiários das televisões às 8 h deu para relembrar) das imagens às portas da LISNAVE, SETENAVE, SIDERURGIA NACIONAL, QUIMIGAL, SOREFAME, e por aí fora, e todos sabemos como acabaram. Resta a LISNAVE (chegou a ser das maiores construtoras/reparadoras navais mundiais) em Setúbal a fazer umas coisitas de nada, com meia dúzia de gatos pingados.
Não sei se já será tarde demais, mas abram a pestana, senão estão fecundados com um F muito grande...

Anónimo
Há 1 dia
A AE deve negociar com os trabalhadores (comissão) e não com sindicatos. A CGTP não deve atirar achas para a fogueira numa altura em que a empresa precisa de se concentrar no arranque da produção do novo modelo, pois é isto que vai dar continuidade e pagar o salário aos trabalhadores.


terça-feira, 22 de agosto de 2017

Depois do acto terrorista em Barcelona, qual será a próxima cidade?


Em 17 e 18 de Agosto de 2017, ocorreram atentados terroristas em La Rambla de Barcelona e no passeio marítimo de Cambrils, cidades situadas na região autónoma da Catalunha, em Espanha, que provocaram 15 mortos e mais do que uma centena de feridos.

Eis um resumo dos atentados (com erros) publicado pelo jornal La Vanguardia:


  1. Explosão de uma moradia com 106 garrafas de gás, em Alcanar, mata 2 terroristas (um deles é o imã Abdelbaki Es Satti) e fere 1, há 6 vizinhos feridos (quarta-feira, 16 de Agosto, 23:30)
  2. Uma carrinha Fiat branca percorre mais de 500 m em La Rambla de Barcelona, atropelando pessoas, 13 mortos e 132 feridos (quinta-feira, 17 de Agosto, 17:00)
  3. Outra carrinha, alugada para a fuga, é localizada em Vic, 18:30
  4. Um Ford Focus fura um controlo policial na av. Diagonal na cidade universitária de Barcelona, 18:30
  5. O automóvel é encontrado em Sant Just Desvern, condutor está morto no banco traseiro, 19:00
  6. São detidos 3 suspeitos em Ripoll, 20:00
  7. Um Audi A3 com 5 terroristas fura um controlo policial, em Cambrils. A polícia abate-os, 1 mulher morta por esfaqueamento e 4 feridos (sexta-feira, 18 de Agosto, 1:00)


Polícia abate Younes Abouyaaqoub, o condutor da carrinha do atentado de La Rambla, em Subirats, a 50 km de Barcelona (segunda-feira, 21 de Agosto)


Os vídeos seguintes mostram o horror sofrido pelas vítimas e vivenciado pelas testemunhas:








Uma descrição pormenorizada dos atentados terroristas na Catalunha e as relações familiares entre os 12 membros da célula terrorista de Ripoll foram publicadas pelo jornal El País:




A explosão em Alcanar, Tarragona (quarta-feira, 16 de Agosto, 23:30)
Uma forte detonação destrói uma moradia numa urbanização de Alcanar. A polícia catalã pensa inicialmente que é um caso de tráfico de drogas.


O atentado em La Rambla, Barcelona (quinta-feira, 17 de Agosto, 16:30)



O atentado em Cambrils, Tarragona (sexta-feira, 18 de Agosto, 1.00)
Um Audi A3 com cinco terroristas fura um controlo da polícia catalã no passeio marítimo de Cambrils, ferindo vários peões e um polícia. Há um tiroteio no qual quatro terroristas morrem. O quinto é morto depois de esfaquear mortalmente uma mulher.


Finalmente um artigo de opinião de um investigador português onde é feita uma análise lúcida destes atentados e suas causas:


Jogando com o fogo: a Catalunha e os jihadistas marroquinos

José Pedro Teixeira Fernandes
22 de Agosto de 2017, 12:14

A Catalunha apostou, para arregimentar votos favoráveis à independência, no grupo de populações árabes-islâmicas. Vejamos melhor esta estratégia e os seus efeitos colaterais.

1. Agora que os contornos do trágico atentado terrorista de 17 de Agosto de 2017 começam a ser mais claros, várias questões delicadas emergem. A resposta policial após a ocorrência foi rápida, corajosa e eficaz. Mas o mesmo não pode ser dito da actuação prévia dos serviços de informações e segurança, seja a responsabilidade política e operacional do governo espanhol, do governo autonómico da Catalunha (Generalitat), ou até de ambos. Importa começar por notar que estamos a falar de um atentado que envolveu uma dúzia de pessoas — e que levou vários meses a preparar — e de uma actuação isolada de um ou dois indivíduos, que seria muito mais difícil de antecipar, ou mesmo impossível. A primeira interrogação é, por isso, a de saber como foi possível que um atentado envolvendo tanta gente não tivesse sido detectado em comunicações entre os participantes, ou por movimentos suspeitos feitos por estes. Isto quando era previamente bem conhecido que a Catalunha, e Barcelona em particular, é uma zona de alto risco pela presença de islamistas-jihadistas.

2. A segunda interrogação é sobre a explosão na casa de Alcanar, em Tarragona, ocorrida na noite antes dos atentados e que derrubou totalmente a casa. É verdade que o tempo para actuar foi bastante escasso — o ataque no centro de Barcelona ocorreu a meio da tarde do dia seguinte —, mas, ainda assim, não poderia ter sido uma pista decisiva para ter evitado o atentado? A casa continha mais de uma centena de garrafas de gás butano, o que se soube logo na altura, e estava apenas ocupada irregularmente nos últimos meses pelos indivíduos de origem magrebina. Tudo apontava para um caso que não era o de uma normal explosão de botijas de gás num edifício de habitação. Sabemos agora que um dos mortos foi o imã da mesquita de Ripoll, em Girona, Abdelbaki Es Satty — o principal mentor do atentado. Note-se ainda que, há alguns meses atrás, a polícia espanhola tinha feito circular internamente informação indicando haver sinais de interesse por esse tipo de material para uso como explosivos.

3. O imã Abdelbaki Es Satty tinha antecedentes criminais. Registava já uma condenação por tráfico de haxixe entre Ceuta e Algeciras. Mais grave ainda, na prisão criou proximidade com um dos perpetradores do atentado terrorista de 11 de Março de 2004 em Madrid, Rachid Aglif. Anteriormente ao atentado de Barcelona, viajou também para a Bélgica. Passou alguns meses em Vilvoorde. Tal como Molenbeek, Vilvoorde ficou bem conhecida pelas piores razões durante o ano passado, quando ocorreram atentados no aeroporto e metro de Bruxelas. Vilvoorde e Molenbeek foram as bases — e onde estiveram as redes de solidariedade e cobertura — dos islamistas-jihadistas com ligações ao atentado de Bruxelas. Há aí presença ex-combatentes do Daesh e outros grupos islamistas radicais na guerra da Síria. Mais: existe uma conexão a Marrocos e em particular a populações oriundas do Rif, onde têm origem muitos dos islamistas-jihadistas — Abdelbaki Es Satty era também marroquino. Tinha, por isso, um perfil óbvio para que as suas actividades fossem seguidas de perto, e com muito cuidado, pelos serviços de informações e segurança. Aparentemente não foram, porquê?

4. Uma outra interrogação é a de saber a razão pela qual o governo da Catalunha, ou a gestão municipal de Barcelona, não colocaram barreiras impeditivas de veículos entrarem em locais com grande concentração de pessoas, como são as Ramblas. Parece uma medida de segurança bastante óbvia e necessária, sobretudo desde os precedentes graves dos atentados do ano passado em Nice, no passeio dos ingleses, e em Berlim, num mercado de Natal. Em ambos os casos — e de forma particularmente trágica no primeiro —, foram usados veículos automóveis para atropelar indiscriminadamente pessoas em locais de grande concentração na via pública. Não se percebe, por isso, o motivo pelo qual não foram colocadas tais barreiras, tanto mais que já existia uma recomendação do governo espanhol nesse sentido. Será por avaliação inadequada da ameaça, achando que bastava ter uma presença policial forte no local, meras razões estéticas, ou para ser diferente do resto de Espanha, numa estranha afirmação de autonomia?

5. Tal como aconteceu nos já referidos atentados de Bruxelas em 2016, fica a sensação de que as autonomias e rivalidades internas criaram alguma descoordenação nas forças de segurança e nos serviços de informações. Independentemente de a responsabilidade ser do governo de Madrid, ou do governo autonómico da Catalunha, ou de ambos, o resultado final foi dificultar uma actuação preventiva. Sob uma unidade de fachada face à tragédia, simbolizada pela presença, no dia seguinte ao atentado, do rei Filipe VI na cerimónia de homenagem às vítimas, nota-se o mal-estar político. O ministro do Interior espanhol, Juan Ignacio Zoido, anunciou o desmantelamento da célula responsável pelos ataques. A declaração foi logo criticada e considerada prematura por Joaquim Forn, Conselheiro do Interior do Governo da Catalunha. Quanto à polícia catalã — os Mossos d’Esquadra —, formalmente enquadrada pelo governo central, teve uma actuação muito corajosa e meritória após o atentado, na perseguição aos culpados. Mas também parece (demasiado) zelosa de uma actuação autónoma.

6. Para além das autonomias e rivalidades internas e do seu efeito negativo sobre a coordenação das forças de segurança e serviços de informações, há um aspecto relevante e que tem passado despercebido. Como já notado, os autores do atentado terrorista eram de origem marroquina (ou de Melilla). É o caso de Younes Abouyaaqoub, o principal executor. É também o caso de Abdelbaki Es Satty, o imã de Ripoll. Será um acaso ser essa a origem dos islamistas-jihadistas? Não é. A questão remete-nos, de alguma forma, para as políticas do governo autonómico da Catalunha e para a sua ambição independentista. Está empenhado em organizar um referendo para a independência, mesmo contra a vontade do governo de Madrid, e em arregimentar, o mais possível, votos favoráveis. Aqui entra o papel dos estrangeiros residentes na Catalunha que não têm origem na União Europeia. A ideia é que possam participar nesse referendo. Numa votação muito próxima, o seu voto poderá ser decisivo. Os dois grupos substanciais de estrangeiros/migrantes são os que têm origem na América Latina e os que provêm do Norte de África. A Catalunha apostou no segundo grupo de populações árabes-islâmicas (as populações latino-americanas já falam espanhol/castelhano e muitos não vêem, por isso, interesse na aprendizagem da língua catalã). Vejamos melhor a estratégia e os seus efeitos colaterais.

7. Na Catalunha vive um grupo bastante substancial de população de origem marroquina, na ordem das trezentas mil pessoas. Nos últimos anos, o governo autonómico adoptou uma série de medidas favoráveis à emigração para o seu território e acolhimento dessa população. Entre outras, foi previsto o ensino escolar do árabe e do tamazig (berber) — usado sobretudo nas zonas das montanhas Rif e do Atlas de Marrocos. A questão tem a sua ironia se pensarmos que o governo de Madrid acusa frequentemente a Catalunha de dificultar, ou até impedir, a aprendizagem e uso do espanhol/castelhano. Mais: foi dada às autoridades religiosas de Marrocos um papel fundamental na elaboração de conteúdos sobre o Islão para a maioria dos muçulmanos na Catalunha, bem como para a sua disseminação nas escolas e mesquitas. É arriscado ter colocado esse ensino nas mãos de autoridades religiosas estrangeiras. Claro que tudo isto foi a pensar mais na independência: os emigrantes marroquinos iam assim ter um estímulo para se identificar com a Catalunha e isso dará mais votos num referendo. Foi assim ignorado, ou, pelo menos, subestimado, que o aumento dessa população incrementava a possibilidade, até por probabilidade estatística, de uma presença acrescida de adeptos do islamismo-jihadista no seu território. O atentado terrorista de 17/8 mostrou que essa probabilidade é bem real e da pior maneira.


*


Entre os mortos e os feridos há turistas de 35 países, pelo menos, entre os quais está Portugal. Mais uma vez a opinião pública foi apaziguada com um memorial:

E o que se passa em Lisboa?

Primeiro ouvimos um imigrante do Bangladesh dizer, à saída da mesquita da zona do Martim Moniz, em Lisboa, que gostava de lutar pelo Estado Islâmico.

Depois vem o presidente do município lisboeta anunciar que vai gastar 3 milhões de euros na construção de uma praça na Mouraria com uma mesquita para a comunidade do Bangladesh, projecto que recebe a concordância dos vereadores de todos os partidos políticos.

Paulatina e silenciosamente estamos a ser invadidos por imigrantes muçulmanos que não têm a mínima intenção de abandonar as suas tradições político-religiosas e sociais e aderir a ideais democráticos, à separação entre o Estado e a Religião e a respeitar as mulheres como seres humanos de direitos idênticos aos homens.

Paulatina e silenciosamente esses imigrantes criam comunidades fechadas nos países ocidentais da União Europeia onde os islamistas-jihadistas, que perpetram carnificinas de homens, mulheres e crianças educadas segundo os valores morais europeus, encontram refúgio e protecção.

Paulatinamente essas comunidades islamistas são apoiadas pelos partidos políticos portugueses, em especial pelos partidos da extrema-esquerda que vêem neles o braço armado da revolução que permitirá a sua ascensão ao poder para implantarem o regime socialista que trará bem-estar e felicidade — unicamente aos seus membros, assim a experiência o demonstrou na União Soviética, nos países da Europa de Leste, em Cuba, na Coreia do Norte e agora na Venezuela.

Paulatina e silenciosamente o Islão sunita avança, financiado pela Arábia Saudita e pelos contribuintes portugueses, perante a passividade dos cidadãos anónimos — apenas 7142 assinaram esta petição — anestesiados pela verborreia da propaganda politicamente correcta. Esquecendo que, em Portugal, a diminuição do desemprego e o crescimento do PIB é uma consequência da expansão do turismo fugido dos países flagelados pelo terrorismo.

Outras opiniões:

OldVic - eu sou Barcelona 13:02
“Claro que tudo isto foi a pensar mais na independência: os emigrantes marroquinos iam assim ter um estímulo para se identificar com a Catalunha e isso dará mais votos num referendo”: os independentistas catalães devem escrever 100 vezes num quadro “O tribalismo estupidifica”. Os extremistas dos atentados também deviam escrever isso, mas a esses não vale a pena recomendar nada.

Helder Antunes 14:00
As autoridades e o poder político da Catalunha têm uma boa parte do "problema" identificado, assinalado, sob-vigilância, etc. O mesmo se aplica às nossas autoridades e políticos. Idem por essa Europa fora. Em comum, todos, com honrosas excepções a leste, escolheram nada fazer. Não intervir preventivamente.
Optaram, porque em boa parte é uma escolha que fizeram, por deixar as populações que governam, que uns e outros deveriam proteger, sofrer na pele e pagar em vítimas o preço da sua vontade expressa de não intervir preventivamente. São vítimas, um sacrifício, em nome de um bem maior, dirão. São em boa parte escolhas que se fazem. Eu não me sinto representado, por uns, nem protegido, pelos outros, nessas opções.

Juvenal Barbosa 15:37
É sempre assim quando se aposta em imigração descontrolada e não se exige nada aos imigrantes (como eles podem identificar-se com o país de acolhimento quando recebem tanto de mão beijada?). Foi assim na Bélgica durante anos e criou-se Molenbeek, na Catalunha até não foi preciso tanto tempo, agora os turistas vão-se embora e vamos ver como é a vida com uma grande comunidade imigrante não integrada, que tem elementos hostis à infiel sociedade de acolhimento. Talvez devêssemos aprender com isso e modificar as nossas leis.


quinta-feira, 27 de julho de 2017

Tragédia em Pedrógão Grande - IV. O SIRESP


A “caixa negra” do incêndio do Pedrógão Grande mostra que pedidos de ajuda de várias pessoas não chegaram ao posto de comando devido a falhas nas comunicações.

O Sistema de Apoio à Decisão Operacional (SADO) — a chamada "caixa negra" da Protecção Civil — regista todos os passos dados no combate aos incêndios: data, hora da ocorrência e medidas tomadas como resposta.

De acordo com o registo da "caixa negra", divulgado hoje pela comunicação social, ocorreram várias falhas graves de comunicação nos incêndios em Pedrógão Grande. Este vídeo da SIC transcreve os registos da fita do tempo:




Durante cinco horas não há qualquer comunicação. No entanto, o membro do governo que estava no terreno garantiu, à noite, que as comunicações SIRESP funcionaram "com regularidade".

Às 19.45 de sábado, dia 17, chegou o primeiro pedido de ajuda. O 112 foi alertado para a situação de três pessoas que se encontravam dentro de uma casa cercada pelas chamas, no Casalinho. Mas as comunicações falharam, não sendo possível avisar o posto de comando.

Nesse mesmo dia 17, às 21.47, está registado o pedido de ajuda de um homem de 75 anos com problemas respiratórios, residente em Sarzedas do Vasco. Está sozinho em casa, que já está a arder por baixo, não tem água porque o poço está avariado, mas também não se consegue contactar o posto de comando.

Pelas 22.15 são encontrados 47 mortos na estrada nacional 236-1, mas não há registo na fita do tempo da Protecção Civil.
O CDOS de Leiria contacta o CNOS às 23.15 para alertar que não conseguem contactar o comandante dos bombeiros de Pedrógão nem de Castanheira de Pêra.

Pelas 23.23, o secretário de Estado da Administração Interna Jorge Gomes diz à comunicação social que não está confirmada nenhuma vítima mortal. No entanto, às 21h28 fora encontrada a primeira vítima mortal em Vila Facaia.

O registo da "caixa negra" continua a mostrar falhas no sistema de comunicações até às 3.30 de segunda-feira, dia 19: são "dificuldades de comunicações SIRESP" ou situações como "devido a avaria, o veículo repetidor SIRESP/PSP ficou imobilizado".

A implementação, o funcionamento e a manutenção do Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal (SIRESP) já custou mais 13,6 milhões de euros do que os 485,5 milhões previstos na adjudicação feita em 2006 pelo Ministério da Administração Interna, à data liderado por António Costa.

*

Será incompetência, será corrupção, ou ambas as coisas? Os “barões assinalados” do século XVI enaltecidos por Camões transformaram-se em charlatães.

Portugal é Lisboa, Porto, Setúbal e Braga. O resto é paisagem da qual os portugueses só se lembram durante as escassas semanas de férias. Quando acordarmos deste longo sono em que mergulhámos há quase meio século, em vez de cantarmos “Verdes são os campos De cor do limão: Assim são os olhos Do meu coração” diremos que “Cinzentos são os campos De cor da lama: Para os políticos serventuários Que elegemos fazeram a cama”.


terça-feira, 4 de julho de 2017

Humor militar


O Exército divulgou na quinta-feira, dia 29 de Junho, que dois paiolins dos Paióis Nacionais de Tancos tinham sido assaltados, havendo o furto de armamento de guerra.
Em entrevista à SIC, o chefe do Estado-Maior do Exército, general Rovisco Duarte, declarou que "estes roubos podem acontecer em qualquer país e em qualquer Exército, desde que haja vontades e capacidades":


01.07.2017 16h07


No entanto, a dimensão e gravidade do furto não era conhecida até que o jornal El Español publicou, na madrugada de 2 de Julho, a lista do material roubado.







A lista dos materiais desaparecidos (pdf) — 1450 munições de 9 milímetros, 18 granadas de gás lacrimogéneo, 150 granadas de mão ofensivas, 44 granadas foguete anti-carro, além de 22 bobinas de fio utilizado para activação por tracção, 102 unidades de carga explosiva, 264 unidades de explosivo plástico, ... — permite concluir que os ladrões entraram nas instalações com um veículo pesado, uma camioneta, pelo menos, pois só os lança-granadas pesam mais de 100 kg. Além do tempo e do pessoal necessário para transportar todos os equipamentos, vigiar e deixar o local sem alarme.

O assalto à base militar de Tancos está a gerar preocupação a nível mundial, com embaixadas de vários países da NATO, como a Espanha e os Estados Unidos da América, e forças anti-terroristas europeias a pedirem informações sobre a localização do armamento roubado e sobre as diligências feitas pelas autoridades portuguesas para encontrar o material.

A Corifa, uma empresa de Ourém, diz que efectuou obras de reparação em dez paióis, um paiolim e em 900 dos 2500 metros da vedação exterior da base de Tancos há um mês, mas... já se sabia que seria necessária nova reparação e foi anunciado novo concurso no Diário da República. Os ladrões anteciparam-se.

A estratégia de António Costa de desvalorizar a gravidade da situação deu azo à criatividade dos humoristas nacionais e estrangeiros:




Público, Bartoon de 3 de Julho de 2017


O jornal espanhol El País dedicou hoje este artigo ao roubo, donde destacamos:
Como se mostra, as deficiências da base de Tancos não eram segredo. Os assaltantes, mais de uma dúzia, tinham lido no Diário da República de 19 de Junho o anúncio de um concurso para a reparação no lado norte, leste e sul da cerca da base no valor de 316.000 euros. Em caso de dúvida, os ladrões não entraram pelo oeste.

Chegaram num camião, esburacaram a vedação e seguiram em direcção aos vinte paióis, mas só visitaram aqueles que tinham o material que necessitavam (1500 balas, 150 granadas, 40 lança-granadas, explosivos, fusíveis, conectores, ...), deixando tudo o resto. Encontrar iogurtes no frigorífico lá de casa, seguramente, levaria mais tempo.
Levavam uma lista de compras em que tudo era grátis. Carregaram à mão caixas pesadas, andando 500 metros para a frente e para trás e, concluída a tarefa, saíram como haviam chegado. Nem um tiro, nem um "alto", nem um "ai"!

Se depois de conhecer o Exército que toma conta de Tancos, o Índice Global de Paz para 2018 não der o primeiro prémio a Portugal, será uma injustiça a exigir pegar em armas.

domingo, 2 de julho de 2017

Tragédia em Pedrógão Grande - III. O IPMA


O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) fez uma análise exaustiva dos dados obtidos nas suas estações, detectores de descargas eléctricas e radares meteorológicos em 17 de Junho de 2017, dia em que deflagrou o incêndio no concelho de Pedrógão Grande, dados que coligiu nos mapas e tabelas de um relatório hoje publicado.
As conclusões daí resultantes também foram resumidas pelo presidente daquele instituto numa carta onde afirma ser pouco provável que o incêndio, iniciado na aldeia de Escalos Fundeiros às 14:43, tenha sido provocado por uma descarga eléctrica das trovoadas secas que decorreram em Portugal nessa tarde:
Perto deste local [Escalos Fundeiros], apenas se detectaram descargas nuvem-solo às 17:37, 18:53 e 20:54 (horas locais), a distâncias de 12, 7 e 8 km, respectivamente. Uma vez que a eficiência da rede é de cerca de 95% para as descargas nuvem-solo, podemos concluir que existe uma probabilidade baixa (mas não nula) da ocorrência de uma descarga nuvem-solo na proximidade do local de deflagração do incêndio.

Já a velocidade de propagação do fogo poderá ter sido aumentada por algum downburst dos vários que ocorreram na Região Centro e parte do Alto-Alentejo na tarde do dia 17 de Junho.





O relatório do IPMA explica que um downburst é um fenómeno de vento com rajadas rápidas — uma corrente de ar descendente (downdraft) extremamente forte que, ao atingir o solo, cria um escoamento horizontal divergente (outflow convectivo) muito intenso.

Como se origina um downburst?
Uma massa de ar aquecido torna-se menos densa, por isso sobe na atmosfera. Se o ar também estiver seco e contactar nuvens, parte delas evapora-se. A massa de ar arrefece bruscamente, portanto a descida é rápida, criando-se uma célula convectiva onde há rajadas. Eis uma imagem elucidativa:




Estas rajadas de vento, que haviam sido previstas pelo IPMA, podem explicar a propagação veloz do fogo na direcção da estrada nacional 236-1 que não foi cortada ao trânsito, onde sucumbiram 47 dos 64 mortos:
Os modelos de previsão de tempo indicaram existência de instabilidade durante a tarde do dia 17, favorecendo o desenvolvimento de nuvens convectivas e a ocorrência de precipitação e trovoada. Devido às condições de temperatura e humidade, a base das nuvens seria da ordem de 3000m, aumentando a probabilidade de correntes descendentes. (...)

A análise da rede de estações de superfície do IPMA permite identificar a existência de uma série de perturbações de origem convectiva (outflows convectivos) cujas frentes de rajada afectaram a Região Centro e parte do Alto-Alentejo. O valor mais significativo foi observado em Proença-a-Nova, com 85 km/h. Estas perturbação são o reflexo de correntes descendentes extremamente fortes e organizadas (downbursts) que ao atingir o solo criam escoamento horizontal divergente. (...)

O radar meteorológico de Coruche permite identificar às 19:20 (hora local) o padrão da pluma de incêndio, entre os níveis baixos e os 5000m de altitude, abaixo de outro padrão associável à bigorna das células convectivas, entre os 5km e os 11km. O padrão da pluma de incêndio apresenta propagação de leste para oeste. Verificam-se de seguida duas intensificações da pluma. A primeira com inicio às 19:20-19:30 (hora local) tendo atingido o auge pelas 19:50-20:00, período em que alcançou 13 km de extensão vertical, acima do nível da bigorna da nuvem convectiva. A segunda intensificação teve o máximo às 20:40, período em que alcançou 14km de extensão vertical. A análise da altitude do topo dos ecos do radar, e os cortes verticais dos campos da reflectividade e da velocidade apontam para que esta amplificação ser o resultado de escoamento horizontal divergente que se propagou sobre a região do incêndio de Pedrógão Grande.

De uma forma muito sintética (...) podemos concluir que a interacção entre o escoamento divergente gerado pelas células convectivas e o incêndio entretanto iniciado, conduziu a uma grande amplificação da pluma do incêndio, em termos de extensão vertical e velocidade de propagação, não susceptível de previsão por modelos numéricos de previsão do tempo, e criando condições excepcionais de propagação no terreno.

Evolução da reflectividade sobre a área de Pedrógão Grande

Para minorar as dificuldades observacionais, foram utilizados outros tipos de produto radar neste estudo, entre os quais o dos Topos dos Ecos (TOPS). Durante a maior parte do período em análise, os topos não ultrapassaram os 10 km de altitude, em particular sobre a área de referência representada na Fig.1.



Fig.1 Área de referência considerada no presente estudo. Vê-se as principais localidades, vias rodoviárias e orografia.
O segmento AB, a azul, é a secção do plano de corte seleccionado como referência dos cortes verticais efectuados sobre o campo da reflectividade radar.



As Fig.2 e Fig.3 mostram a evolução da reflectividade e a extensão vertical dos ecos durante o período 18:20-20:00 UTC, segundo a secção de corte explicitada na Fig.1.
No corte vertical das 18:20 UTC observa-se o padrão de pluma de incêndio, entre os níveis mais baixos e os 5000 m de altitude, situado por debaixo de um outro padrão de reflectividade, associável à bigorna das células convectivas, situado a níveis entre os 5 e os 11 km. Estas células propagavam-se de leste para oeste (sentido de A para B, na secção de corte). Durante este período, observou-se uma evolução muito significativa da reflectividade e, particularmente, da extensão vertical do padrão associável a pluma de incêndio (ou pluma de incêndio misturada com hidrometeoros).
A primeira de duas intensificações observadas no padrão de pluma iniciou-se pelas 18:20-18:30 UTC, tendo atingido o auge pelas 18:50-19:00 UTC, período em que alcançou cerca de 13 km de extensão vertical, situando-se portanto acima do nível da bigorna. Pelas 19:10 UTC a reflectividade do padrão de pluma, nos seus níveis mais baixos, decresceu um pouco, assim como a respectiva altitude (Fig.2).
A segunda intensificação iniciou-se pelas 19:20-19:30 UTC, tendo atingido o auge pelas 19:40 UTC, instante em que o topo do padrão de pluma (ou pluma misturada com hidrometeoros) se situava a cerca de 14 km de altitude (Fig.3).



Fig.2 Imagem dos TOPS do radar de Coruche/Cruz de Leão, 17 junho 2017.
Cortes verticais sobre o campo da reflectividade radar (dBZ) efectuados na área de referência, para o período 18:20-19:10 UTC. Escalas horizontal e vertical em km.
Estão assinalados os extremos da secção AB (com extensão aproximada de 30 km), Vila Facaia (V.F.) e a estrada N236-1 (E.N.). A seta vermelha assinala axóide da pluma (nuvem de partículas de fumo oriundo do incêndio) a baixa altitude.
Não foi objectivamente possível identificar a frente de rajada de um outflow convectivo, escoamento tipicamente em camada a baixa altitude, que possa ter afectado a área. Este facto pode ter ficado a dever-se à orientação desfavorável, face ao feixe radar, dos rumos do vento envolvidos e, possivelmente, ao facto de as observações radar não detectarem circulações abaixo de 900-950m de altitude, na elevação mais baixa, sobre a região. No entanto, este facto objectivo não exclui a possibilidade de que um fenómeno deste tipo possa ter-se propagado sobre a área e ter tido impacto na evolução da pluma, anteriormente referida.

O relatório termina com estas considerações:
No dia 17 de Junho de 2017, com a rede de estações de superfície do IPMA, foi possível identificar uma série de perturbações de origem convectiva (outflows convectivos), cujas frentes de rajada afectaram diversos locais de parte do centro do território do continente e parte do Alto-Alentejo. Na estação de Proença-a-Nova foi observada uma rajada de 85 km/h, que se destaca entre os demais valores significativos observados noutros locais. Essas perturbações foram o reflexo de downbursts, fenómenos em que correntes descendentes extremamente fortes e organizadas, ao atingir o solo, criam um escoamento horizontal divergente.

Foi efectuada uma primeira análise observacional baseada no campo da reflectividade observado pelo radar de C/CL [Coruche/Cruz do Leão]. Esta análise permitiu a elaboração de um mapa de isócronas representativas de diversos outflows convectivos cuja frente de rajada foi possível identificar. Posteriormente, foi efectuado um outro tipo de análise, essencialmente fundamentado na identificação e interpretação de padrões de velocidade Doppler, tendo em vista a identificação de downbursts, especialmente na área de referência apresentada, região onde esta foi uma ferramenta essencial, dada a ausência de uma suficiente distribuição de retrodifusores. Pelas 18:36 UTC, sobre uma região situada um pouco a sul de Cardigos/Mação, foi identificada uma assinatura de downburst em que foi observado o valor mais elevado da velocidade do vento instantâneo estimado por radar (aproximadamente 117 km/h a cerca de 650 m da altitude) em associação a um aglomerado convectivo. Não obstante esta constatação, não foi possível identificar outras assinaturas relevantes noutros sectores do aglomerado convectivo, circunstância que será explicável pelo facto de nas outras áreas o rumo dos ventos em níveis baixos ser presumivelmente praticamente perpendicular ao feixe radar.

Ainda assim, com o recurso a produtos de altitude do topo dos ecos, à execução de cortes verticais sobre o campo da reflectividade e ao do campo da velocidade Doppler, é de admitir a possibilidade de que um outflow convectivo se tenha propagado sobre a região do incêndio de Pedrógão Grande.

*

Estamos perante um relatório cientifico-técnico pormenorizado que conclui que "é de admitir" a possibilidade de ter ocorrido um downburst responsável pela propagação de um outflow convectivo sobre a região do incêndio de Pedrógão Grande.

Conclusão corroborada pelo presidente do IPMA quando refere que alguns dados de radar "apontam" para que certa amplificação observada na pluma do incêndio possa ser o resultado de um escoamento horizontal divergente.

Está encontrado o bode expiatório ideal para carregar 64 mortos no dorso, limpando a incompetência do jurista António Costa quando assinou o contrato do SIRESP, uma rede de emergência e segurança, aceitando uma cláusula que alija os custos das falhas, justamente em caso de emergência, em cima do Estado. Branqueando também a irresponsabilidade da ministra da Administração Interna quando permitiu o assalto aos cargos cimeiros da Protecção Civil escassos meses antes do começo da época de incêndios florestais de 2017.

Os vivos votam consoante o dinheiro que, no momento, têm no bolso. E os mortos não votam. Está tudo bem.



Um comentário relevante lido na notícia do Público:

joaquim alberto pinto vieira 03.07.2017 05:14

Sou um ex observador meteorológico com o curso do Estado e especialista no lançamento de balões meteo e análise dos seus dados com elaboração da sua carta. A explicação técnica está correcta. O IPMA tinha condições, dentro de um sistema organizado e centralizado, de ir prestando informações aos coordenadores do incêndio sobre a direcção dos ventos e o seu teórico provável caminho. Face às notícias já confirmadas, porém, não houve coordenação quase nenhuma, não houve SIRESP, não houve nada de jeito excepto ordens desconexas face ao desconhecimento da progressão possível teórica do incêndio. Depois actuaram com meios desadequados. Tudo isto no meio de total descoordenação. Se ao menos servir este caso para de imediato se corrigirem e evitar futuros casos...


sábado, 1 de julho de 2017

Tragédia em Pedrógão Grande - II. A Protecção Civil


Desde que o governo António Costa tomou posse, a estrutura de topo da Autoridade Nacional da Protecção Civil (ANPC) sofreu uma transformação radical, sendo substituídos quase todos os membros (seis em sete), desde o presidente ao comandante nacional e adjuntos.

Seguiram-se as mudanças na cadeia descendente que afectaram 20 dos 36 comandantes distritais (CODIS), ocorrendo alterações em 17 desses cargos nos dois meses anteriores aos incêndios, ou com a entrada de novos elementos ou com a mudança de posição de alguns membros da ANPC mais experientes.





Desconhece-se quem comandou as operações a cada hora do incêndio de Pedrógão Grande. Contudo, o PÚBLICO avança que o primeiro homem a assumir o cargo de comandante das operações de socorro (COS) foi o comandante dos bombeiros de Pedrógão Grande, Augusto Arnaut, logo que recebeu o alerta pelas 14:43.

Às 17:08, foi substituído pelo 2.º comandante operacional distrital (CODIS) de Leiria, Mário Cerol, um homem novo no comando, advogado, comandante dos bombeiros de Alcobaça, porque o 1.º CODIS Sérgio Gomes estava hospitalizado.
No entanto, Cerol fora escolhido para substituir Luís Lopes, afastado pelo CONAC, apenas em Fevereiro deste ano. Além disso tem ligações ao PS como mandatário da candidatura autárquica do partido em 2009.

A partir daqui, há um vazio na fita do tempo do comando de operações. Por volta das 22:00 é o 2º comandante nacional (CONAC), Albino Tavares, a assumir o comando. Na nomeação em Diário da República deste militar da GNR, que só desde Janeiro faz parte da estrutura da ANPC, apenas consta que Albino Tavares tem um "Curso de Primeira Intervenção em Incêndios Florestais" e "vários cursos do Mecanismo Comunitário de Protecção Civil".

Os comandantes dos bombeiros da zona queixam-se de que não conheciam o homem no comando das operações e que este não conhecia a zona, além de que em situações complexas era o comandante nacional quem assumia o comando nos anos anteriores. Desta vez tal não sucedeu: Rui Esteves seguiu para a sede da ANPC, em Carnaxide, no dia 17 Junho, só voltando dias depois ao teatro de operações.

*

De toda esta narração, sobressai a irresponsabilidade da ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, por ter permitido o assalto aos cargos cimeiros da Protecção Civil escassos meses antes do começo da época de incêndios florestais de 2017.


sexta-feira, 23 de junho de 2017

Tragédia em Pedrógão Grande - I. A estrada N236-1


O incêndio no concelho de Pedrógão Grande, distrito de Leiria, deflagrou no sábado 17 de Junho, pouco antes das 14h43, na aldeia de Escalos Fundeiros, tendo provocado 64 mortos e mais de 200 feridos. Só foi dado como extinto uma semana depois, porém, todas as fatalidades ocorreram sábado à tarde.



O sinal de pré-sinalização no IC8 que indica a intersecção com a fatídica estrada N236-1, entre Castanheira de Pera (10 km) e Figueiró dos Vinhos (5 km), para onde a GNR encaminhou o trânsito quando encerrou o IC8 pelas 19h de sábado 17 de Junho.
Ao fundo vê-se o viaduto da N236-1 sobre o IC8 que permite virar para Castanheira de Pera. Percorrido o viaduto entra-se no troço onde morreram 47 pessoas.








Foi na estrada nacional 236-1, no troço entre os entroncamentos de Vila Facaia e Pobrais, no concelho de Pedrógão Grande, que o fogo consumiu quinze veículos causando 47 mortos, dos quais 30 foram carbonizados dentro dos automóveis e 17 encontrados junto das viaturas.



  1. chegada dos reboques à N236-1 no sentido IC8-Castanheira de Pera********* 4:13-4:56
  2. reboques fazem inversão de marcha para posicionarem os estrados ******* 3:16-4:13
  3. reboques começam a remover as cinco carcaças que obstruíam a N236-1. Pode ver-se catorze das quinze viaturas carbonizadas *******************************0:00-3:16



  1. estrada N236-1 percorrida no sentido IC8-Castanheira de Pera *************0:00-5:30
  2. estrada N236-1 percorrida no sentido contrário, restando ainda onze das quinze viaturas carbonizadas ****************************************************5:30-13:03


O relato de Maria de Fátima Nunes, uma das sobreviventes que conseguiu atravessar os 400m do troço da morte e, posteriormente, chegar ao quartel dos bombeiros de Castanheira de Pera:






terça-feira, 20 de junho de 2017

Humor trágico





Bartoon de 20 de Junho de 2017 do jornal Público, publicado inicialmente em 10 de Agosto de 2016


A 17 de Junho de 2017 deu-se, no concelho de Pedrógão Grande, um devastador incêndio que matou 64 pessoas e causou um elevado número de feridos. É considerado como a maior tragédia em Portugal desde a queda da ponte Hintze Ribeiro, em Março de 2001, que provocou 59 mortes.

O fogo deflagrou ao início da tarde de sábado numa área florestal em Escalos Fundeiros, uma aldeia portuguesa do município de Pedrógão Grande, tendo alastrado aos municípios vizinhos de Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos, todos no distrito de Leiria.





Hoje, as elevadas temperaturas e o vento que sopra forte estão a provocar o alastramento do incêndio que lavra no concelho de Góis, distrito de Coimbra, o que já obrigou à evacuação de várias aldeias.



*


O XIX Governo Constitucional herdou um défice público de 11% e um país que vendia dívida pública a taxas de juros exorbitantes. Baixou o défice para 3% e conduziu Portugal de regresso aos mercados financeiros.

O XXI Governo Constitucional tomou posse no dia 26 de Novembro de 2015 numa cerimónia presidida pelo presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, e pelo presidente da assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues no Palácio da Ajuda, em Lisboa.
Faz hoje 1 ano, 6 meses e 25 dias.

Lavra um incêndio em Pedrógão Grande que provocou 64 mortos numa tarde. O Verão de 2017 começa amanhã.



sábado, 17 de junho de 2017

Fogo destrói bloco de apartamentos em Londres


A torre Grenfell, um bloco de apartamentos de habitação social com 24 andares situado em North Kensington, Londres, foi engolido pelas chamas depois da eclosão de um incêndio pouco antes da 01:00 de quarta-feira.




Wednesday 14 June 2017 15.20 BST


Os socorros chegaram seis minutos depois das inúmeras chamadas telefónicas. Estiveram a combater o incêndio 200 bombeiros com 40 carros.
Em incêndios de edifícios altos, plataformas aéreas podem ser usadas para permitir que os bombeiros trabalhem fora do prédio. Mas os veículos da plataforma aérea da Brigada dos Bombeiros de Londres só podem atingir alturas de cerca de 32 m, limitando o combate aos incêndios a apenas uma dezena de andares.




Construída em 1974, a torre Grenfell tinha 120 apartamentos com um ou dois quartos a partir do 4º andar.
Fora alvo de uma remodelação, em 2016, que lhe acrescentou mais 7 apartamentos com três ou quatro quartos nos pisos inferiores, onde também estavam localizados um infantário e um clube de boxe. Sobre o betão das fachadas foi aplicado um revestimento que tornava o edifício mais ecológico.
Poderiam estar entre 400 e 600 pessoas dentro do edifício quando o incêndio eclodiu.







A torre Grenfell fazia parte do Lancaster West Estate, um complexo de habitação social de quase 1000 casas no burgo (freguesia) real de Kensington e Chelsea que é onde ocorre o maior intervalo de salários da população residente:





O incêndio começou num apartamento do 4º andar, sendo notória a rapidez com que as chamas se propagaram ao longo das quatro fachadas da torre, bem ilustrada nestas imagens:




Tanta rapidez levantou suspeitas sobre se o revestimento em alumínio colocado nas fachadas, para melhorar a eficiência energética do edifício aquando da remodelação, teria um núcleo de polietileno, um plástico altamente inflamável. Suspeita-se também que a cavidade entre a parede e o revestimento provocou o efeito chaminé, incentivando a propagação do fogo.




Surgiu, então, à superfície uma litania de falhas do Conselho de Kensington e Chelsea, o proprietário dos apartamentos, e a Kensington and Chelsea Tenant Management Organisation (KCTMO), a organização de gestão de inquilinos de Kensington e Chelsea que era paga para gerir a propriedade.

Imediatamente o sub-empreiteiro da remodelação veio lamentar o trágico incêndio e lembrar que a KCTMO havia adjudicado a obra à Rydon Maintenance em nome do conselho.

Por sua vez, a empresa contratada para realizar a remodelação de 10 milhões de libras mudou a sua declaração sobre a tragédia. Primeiro, a Rydon divulgou uma declaração dizendo que cumpriu todos os "regulamentos de incêndio e padrões de segurança e saúde" durante a remodelação de 2016. No entanto, numa declaração posterior omitiu esta linha e simplesmente disse que a empresa "cumpriu todos os regulamentos de construção necessários".

Impotentes, as pessoas que observavam o incêndio foram gravando vídeos que documentam a tragédia:




Já foram identificadas algumas vítimas mortais, existindo, obviamente, inúmeros desaparecidos, diariamente actualizados. Estima-se, pelo menos, 58 mortos.

Há outras causas para o elevado número de vítimas além da alta velocidade de propagação das chamas pelo revestimento das fachadas. A construção do bloco de apartamentos não cumpria as actuais normas de segurança e a remodelação nada corrigiu: não existiam aspersores, nem escapatórias de incêndio, e duvida-se que as portas corta-fogo funcionassem pois não foi realizada qualquer inspecção.

A difusão de fumos para a única escada do edifício não só impediu completamente o contacto visual entre os membros das famílias que tentaram sair dos seus apartamentos, levando-os a perderem-se, como provocou o desmaio dos mais frágeis.
Entre os desaparecidos está Rania Ibrahim que vivia com as duas filhas de três e cinco anos de idade num apartamento no 23º andar. Neste vídeo angustiante que enviou à melhor amiga, pode ser vista a pedir ajuda no patamar cheio de fumo antes de voltar para casa. Depois olha para a rua, começa a rezar e, no final, diz em árabe: "Peço perdão a todos, adeus":



14 June 2017 • 9:30pm


As regras de segurança em caso de fogo impostas pela empresa gestora KCTMO, incitando os inquilinos a permanecerem nos respectivos apartamentos, também contribuíram para a morte dos mais respeitadores.


Quando algumas pessoas receberam ordem de evacuação dos bombeiros já era demasiado tarde, estavam prestes a desmaiar por inalação de monóxido de carbono. Tudo o que se encontrava dentro dos apartamentos, inclusive os tabiques que separavam as divisões, foi carbonizado (excepto os metais). Como se vê neste vídeo que mostra o resto de um apartamento T1 e outro T2:



18 June 2017 • 8:56pm






terça-feira, 23 de maio de 2017

Terror em Manchester


Ontem à noite, pelas 22:35, ocorreu uma explosão em Manchester no final de um espectáculo da cantora pop norte-americana Ariana Grande que decorreu na Manchester Arena.

A polícia de Manchester apenas quantificou o número de vítimas já na madrugada desta terça-feira — 19 vítimas mortais e cerca de 50 feridos —, informando no tweet que estavam a tratar a situação como um "incidente terrorista" até prova em contrário:



O ataque foi perpetrado no átrio de entrada da Manchester Arena, estando cerca de 21 mil pessoas nas imediações quando ocorreu a explosão que envolveu um dispositivo caseiro cheio de porcas e parafusos. O grupo terrorista Estado Islâmico já reivindicou o ataque.

Várias zonas ficaram interditas, afectando os transportes na cidade. A estação de comboios de Vitória, que comunica com a Arena, foi encerrada.





A polícia de Manchester actualizou o número de vítimas, esta manhã, subindo para 22 mortos e 59 feridos.

"Temos estado a tratar isto como um incidente terrorista e acreditamos, nesta etapa, que o ataque foi conduzido por um homem. A prioridade é estabelecer se actuou sozinho ou como parte de uma rede.

O atacante, podemos confirmar, morreu na arena. Acreditamos que o atacante carregava consigo um dispositivo explosivo improvisado, que detonou, causando esta atrocidade
”, afirma o comunicado da polícia, em que as autoridades pedem às pessoas para não especular.

“A nossa prioridade é trabalhar com os serviços secretos britânicos e de contra-terrorismo para encontrar mais detalhes sobre o indivíduo que conduziu este ataque”, acrescentam as autoridades.



Entretanto a comunicação social começou a divulgar a identidade de algumas vítimas, entre as quais uma criança de 8 anos, e do bombista suicida. Chama-se Salman Abedi e tem 22 anos. A polícia de Manchester confirmou, com reticências:



Nascido em Manchester em 1994, Salman Abedi é o segundo mais novo dos quatro filhos de um casal de refugiados líbios que vieram para o Reino Unido para escapar ao regime do coronel Muammar Gaddafi.

Abedi frequentou a escola local e foi para a universidade de Salford, em 2014, onde estudou gestão antes de desistir. Usava vestes islâmicas e costumava rezar numa mesquita local que, no passado, foi acusada de angariação de fundos para os jihadistas.

O irmão mais velho, Ismail Abedi, foi professor na escola do Corão da mesquita de Didsbury. Segundo o imã, Salman havia-lhe mostrado recentemente "o rosto do ódio" quando deu uma palestra alertando para os perigos do chamado Estado Islâmico.

A mãe, Samia Tabbal, de 50 anos, e o pai, Ramadan Abedi, um agente de segurança, nasceram em Trípoli mas terão emigrado, primeiro para Londres e, mais tarde, para a zona de Whalley Range, no sul de Manchester.

Pensa-se que, em 2011, após a derrota de Gaddafi, os pais retornaram para a Líbia, mas as viagens que Salman Abedi fez para o país de origem da família estão agora a ser objecto de investigação.

Alguns dissidentes de Gaddafi que eram membros do Grupo Islâmico Líbio de Combate (LIFG), entretanto ilegalizado, viveram nas proximidades dos Abedi em Whalley Range.

Entre eles, encontrava-se Abd al-Baset Azzouz, pai de quatro filhos, que deixou Manchester para dirigir uma rede terrorista na Líbia supervisionada por Ayman al-Zawahiri, o sucessor de Osama bin Laden na liderança da Al-Qaeda. Azzouz, 48 anos, especialista em bombas, foi acusado de dirigir uma rede da Al-Qaeda no leste da Líbia, em 2014.

Outro membro da comunidade líbia em Manchester, Salah Aboaoba, disse ter angariado fundos para o LIFG, em 2011, justamente na mesquita de Didsbury. Na época, o porta-voz da mesquita negou veementemente a reivindicação: "Esta é a primeira vez que ouço falar do LIFG. Não conheço Salah".

Agora, Mohammed Saeed El-Saeiti, o imã da mesquita de Didsbury, apontou Salman Abedi como um extremista perigoso: "Salman mostrou-me o rosto de ódio depois do meu discurso sobre o Ísis (...) Não é uma surpresa para mim".

A polícia atacou a casa da família às 11:30 desta manhã. De acordo com moradores da rua, 2 helicópteros e pelo menos 30 polícias camuflados, com equipamentos anti-motim e escudos, participaram no ataque.
Removeram a cerca de madeira entre duas propriedades. Colaram uma tira preta na porta e provocaram uma explosão. A porta soltou-se das dobradiças e as janelas tremeram. O ataque durou 90 segundos.

"Não os vi trazer ninguém para fora da casa. Acredito que estava vazia”, disse um vizinho.


*


Depois dos movimentos da Primavera árabe derrubarem os governantes da Tunísia e do Egipto para elegerem regimes islâmicos, começou uma revolta na Líbia, em 17 de Fevereiro de 2011, mas o ditador líbio Muammar Kadhafi resistiu.

Dez dias depois, foi criado um Conselho Nacional de Transição para administrar as áreas da Líbia sob controle dos rebeldes, prontamente reconhecido pela França, em 10 de Março, como o representante legítimo do povo líbio.

As forças pró-Gaddaffi responderam militarmente aos ataques rebeldes na Líbia ocidental — a cidade de Zawiya, a 48 km de Tripoli, foi bombardeada por aviões da força aérea e conquistada por tanques do exército — e lançaram um contra-ataque ao longo da costa na direcção leste, até Benghazi, o centro da rebelião.

Tanto o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, como o Conselho de Direitos Humanos da ONU condenaram estas acções militares, sob a acusação de violarem o direito internacional, tendo este último organismo expulsado a Líbia, atitude incentivada pela própria delegação da Líbia na ONU.

Em 17 de Março, o Conselho de Segurança da ONU aprovou a Resolução 1973 com 10 votos a favor dos membros permanentes Estados Unidos, França e Reino Unido e, ainda, da Bósnia-Herzegovina, Colômbia, Gabão, Líbano, Nigéria, África do Sul e Portugal e 5 abstenções dos restantes membros (Rússia e China, membros permanentes, e ainda Índia, Brasil e Alemanha).
Esta resolução sancionou o estabelecimento de uma zona de exclusão aérea e o uso de "todos os meios necessários" para proteger os civis dentro da Líbia.

Dois dias depois, a NATO começou a destruir as defesas aéreas da Líbia quando jactos militares franceses entraram no espaço aéreo da Líbia e atacaram alvos considerados inimigos.
Em seguida, entraram em acção as forças americanas. Mais de 8000 militares americanos foram destacados para a área em navios de guerra e aviões. A ofensiva aérea americana incluiu vôos de bombardeiros B-2 Stealth, cada bombardeiro armado com dezasseis bombas de 0,9 tonelada, saindo e retornando à base no Missouri, Estados Unidos.

Em 22 de Agosto, os rebeldes entraram em Trípoli e ocuparam a Praça Verde, rebaptizada Praça dos Mártires em homenagem aos seus mortos. Os últimos combates ocorreram na cidade de Syrte, onde Gaddafi foi capturado e morto em 20 de Outubro de 2011. Pelo menos 30 mil líbios morreram na guerra civil.

A seguir começou a segunda guerra civil da Líbia, agora entre as milícias armadas dos diferentes grupos rebeldes, o mais poderoso dos quais é o Estado Islâmico.

Passado algum tempo, formaram-se as máfias líbias que enchem embarcações frágeis com imigrantes, oriundos de países africanos a sul do Saará, e enviam-nos para Itália. Iniciava-se a invasão islâmica da Europa pelo corredor ocidental.

Quem foram os políticos responsáveis pelo Conselho de Segurança da ONU ter sido favorável à intervenção militar na Líbia que não só desestabilizou este país, como também a União Europeia?
Em 2011, a França era presidida por Nicolas Sarkozy.
No Reino Unido governava o primeiro-ministro David Cameron.
A presidência dos Estados Unidos estava nas mãos de Barack Obama e na Secretaria de Estado alinhava Hillary Clinton.

Quantas mais crianças e jovens vão ter de morrer até conseguirmos perceber que o pior tipo de ditadura é o terror promovido pelo fanatismo islâmico?