Um Presidente da República na reconquista do poder
A polémica criada pela declaração de Cavaco Silva sobre o valor das pensões que recebe — 10 mil euros brutos por mês — que "quase de certeza, não vão chegar para pagar as suas despesas ", penalizou fortemente os índices de popularidade presidencial, como se pode observar nesta infografia do Negócios:
O primeiro mandato presidencial de Cavaco Silva decorreu sobre a égide do princípio da cooperação estratégica com o governo socialista de José Sócrates.
Agora no longo prefácio do livro de intervenções ‘Roteiros VI’, divulgado no site da Presidência da República, Cavaco Silva vem defender a sua actuação citando afirmações retiradas de discursos de 2010 que considera tentativas de alertar os governos socialistas de José Sócrates e a opinião pública para o excessivo endividamento do País.
Deixa para depois falar sobre a eleição presidencial de 2011 mas refere a falta de confiança da oposição no governo, queixando-se do comportamento de José Sócrates em relação ao PEC IV (negrito nosso):
"O modo como foi apresentado publicamente o novo Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC IV) tornou-se o sinal mais evidente daquela falta de confiança. O Governo decidira avançar isoladamente, sem a precaução de, em devido tempo, desenvolver esforços para criar condições de diálogo com as forças da oposição que permitissem obter um consenso capaz de garantir o indispensável apoio político à aprovação de novas e mais exigentes medidas de consolidação orçamental.
O anúncio do “PEC IV” apanhou-me de surpresa. O Primeiro-Ministro não me deu conhecimento prévio do programa, nem me tinha dado conta das medidas de austeridade orçamental que o Governo estava a preparar e da sua imprescindibilidade para atingir as metas do défice público previstas para 2011, 2012 e 2013. Pelo contrário, a informação que me era fornecida referia uma situação muito positiva relativamente à execução orçamental nos primeiros meses do ano. O Primeiro-Ministro não informou previamente o Presidente da República da apresentação do Programa de Estabilidade e Crescimento às instituições comunitárias. Tratou-se de uma falta de lealdade institucional que ficará registada na história da nossa democracia. O Presidente da República, nos termos constitucionais, deve ser informado acerca de assuntos respeitantes à condução da política interna e externa do País. "
Depois de procurar justificar o facto de não ter dissolvido a Assembleia da República em Setembro de 2010 quando já era notória a incapacidade do governo em obter financiamento para a dívida do País, apresenta o trabalho desenvolvido na promulgação dos diplomas:
"Durante o meu primeiro mandato recebi do Governo, para efeitos de promulgação, 1741 diplomas, dos quais 696, ou seja 40%, deram lugar a contactos entre a Presidência da República e o Governo, tendo em vista o esclarecimento do seu conteúdo. Daí resultaram alterações em 381, ou seja, em 22% do total dos diplomas submetidos a promulgação.
Esta estatística ilustra bem a intensidade das relações entre a Presidência da República e o Governo no processo legislativo, a que acresce a análise de diplomas específicos feita nas minhas reuniões com o Primeiro-Ministro. Trata-se de uma importante dimensão da magistratura de influência do Presidente da República, tanto mais eficaz quanto exercida discretamente, fora do alcance dos holofotes da comunicação social.
Os contactos regulares com o Governo no sentido de obter esclarecimentos sobre os diplomas submetidos a promulgação e de introduzir-lhes aperfeiçoamentos, quer de carácter formal, quer de âmbito mais substancial, é uma prática que tem sido seguida por todos os Presidentes da República desde 1976.
Trata-se de uma prática que decorre do poder de veto que a Constituição concede ao Presidente da República, o qual, relativamente a diplomas do Governo, é absoluto , uma vez que é insusceptível de confirmação pelo executivo.
Entendo que, nestas circunstâncias, o Presidente da República possui o direito de, para formar a sua decisão, solicitar a informação que considere adequada. De igual modo, tem sido minha posição não recusar os ajustamentos que o Governo, face a dúvidas ou objecções por mim suscitadas, entenda introduzir nos diplomas. Isto não significa, naturalmente, que o Presidente da República actue como co-legislador nem, tão-pouco, pode prejudicar a decisão final sobre o destino de cada diploma. Como afirmei em várias ocasiões, a promulgação de um diploma não traduz a adesão do Presidente da República a todas as normas e soluções nele contidas. Todavia, tal como sustentam os constitucionalistas Gomes Canotilho e Vital Moreira, “nada impede que o Presidente da República, em vez de vetar formalmente à partida os diplomas, prefira sugerir primeiro ao Governo as alterações necessárias à superação das objecções presidenciais”.
Assim, ao longo do meu primeiro mandato, sempre segui esta prática, no quadro de uma interpretação alargada de cooperação institucional com o Governo. Por esta razão, e ao contrário do que havia ocorrido em outros mandatos presidenciais, não requeri a fiscalização preventiva da constitucionalidade , tendo apenas exercido o direito de veto relativamente a um diploma do Governo .
A prática seguida nas relações entre o Presidente da República e a Assembleia da República em matéria legislativa é muito diferente da seguida nas relações com o Governo.
Existe uma total separação entre os procedimentos de aprovação dos diplomas por parte da Assembleia da República e de promulgação pelo Presidente da República. Os diplomas aprovados pela Assembleia da República chegam à Presidência da República em versão definitiva, sem que sobre eles tenham ocorrido contactos prévios entre os dois órgãos de soberania, sem prejuízo do acompanhamento do procedimento legislativo que é feito pelo meu assessor para os assuntos parlamentares.
Uma vez entrados na Presidência da República, os decretos da Assembleia da República só têm três caminhos possíveis: serem promulgados , vetados politicamente ou submetidos à apreciação do Tribunal Constitucional .
A prática seguida tem sido, contrariamente ao que sucede quanto aos diplomas aprovados pelo Governo, a da inexistência de contactos formais com a Assembleia da República visando a obtenção de esclarecimentos relativamente aos diplomas ou a introdução de aperfeiçoamentos.
A justificação para a existência de práticas distintas consoante se trate de diplomas do Governo ou da Assembleia da República assenta, por um lado, na especificidade e natureza pública do processo parlamentar de aprovação dos decretos e, por outro, no facto de, quer o veto político , quer mesmo o veto por inconstitucionalidade do Presidente da República relativamente aos decretos da Assembleia da República, não terem carácter absoluto , podendo, pois, nos termos da Constituição, ser objecto de uma votação de confirmação que ultrapasse aqueles vetos.
Dos diplomas da Assembleia da República submetidos a promulgação durante o meu primeiro mandato, 398 foram promulgados, 14 foram objecto de veto político e 6 vetados por inconstitucionalidade , na sequência de uma pronúncia nesse sentido pelo Tribunal Constitucional. "
Analisando este prefácio com o Wordle, podemos verificar que a mensagem que se pretende passar é a de que o Governo, o Primeiro-Ministro e a Assembleia limitaram a actuação do Presidente sendo, em consequência, os responsáveis pela situação do País:
Continuamos a ter um Presidente egocêntrico, ocupado com os seus ajustes de contas agora numa tentativa de recuperar influência e poder no tabuleiro do xadrez político. Mas há sempre quem tenha boa memória e persista em recordar os factos que marcaram o percurso político de Cavaco Silva nos últimos 25 anos:
Eis a versão legítima do século XXI do ex-presidente da República Américo Tomás (o da Gertrudes, lembram-se?) 09 Março 2012 - 16:30
Sempre que este homem abre a boca há a certeza de que não entra mosca...
Cada uma que o Cavaco faz é mais infeliz do que a anterior. Decididamente, o homem só está bem quando está calado.
Não que se goste do vígaro e aldrabão do Sócrates, que a maioria esmagadora dos portugueses espera ver na barra do tribunal a responder pelos seus abusos de poder e pelo modo corrupto como mexeu nos dinheiros de todos nós.
Mas de um Presidente da República é, em qualquer situação, legítimo esperar grandeza de espírito e não uma mente mesquinha e estreita de "vendetta", como é a do actual ocupante de Belém.
Até porque, no momento que o país vive, os portugueses têm outras coisas bem mais importantes e dramáticas com que se preocupar do que com as vingançazinhas do "senhor presidente".
Além de que o cavalheiro que reside actualmente em Belém — prefiro designá-lo assim e não como o "meu presidente", porque não o reconheço como tal — tem telhados de vidros muito finos, em vários domínios e que os portugueses não esquecem.
Para não ser demasiado extenso, uma vez que haveria ampla matéria para isso, aqui referirei apenas alguns desses domínios, a saber:
Governou no tempo das "vacas gordas" com os euros a virem em paletes de Bruxelas, a fundo perdido, dinheiro que administrou da pior maneira, visto que estes Fundos de Coesão destinavam-se supostamente a modernizar as nossas estruturas produtivas e foram enterrados em betão e para financiar inúmeros projectos fantasmas que redundaram, muitos deles, na compra de jipes e de vivendas.
Devemos a este senhor o abate de metade da nossa frota pesqueira, que nos dava peixe fresco diariamente, para agora grande parte do peixe que comemos não prestar, porque é incompreensivelmente criado em viveiros, não obstante a enorme plataforma marítima que temos, que é predada ilegalmente pelos espanhóis, que com os seus arrastões destroem tudo, desde juvenis a posturas, espanhóis que lutaram junto de Bruxelas, borrifando-se para ser "bons alunos" e, em vez de verem a sua frota de pesca diminuída, a aumentaram.
Ao actual ocupante de Belém se deve igualmente a destruição da nossa indústria pesada, como a Sorefame, a Lisnave, a Setenave e os Altos Fornos com o correspondente desemprego daí resultante.
Igualmente, no plano da agricultura, foram arrancadas vinhas e olivais e em tudo isto o então PM Cavaco Silva cumpriu bovinamente as ordens de Bruxelas para quê? Para ser "bom aluno".
Rodeou-se, nos seus Governos, de indivíduos que são hoje criminosos de colarinho branco e arguidos no processo do BPN, tais como Oliveira e Costa, Dias Loureiro, Arlindo Carvalho e outros, que andam cá fora em liberdade, sendo que nós, contribuintes, estamos todos a pagar, na forma de IRS, IMI, IVA e na reposição das portagens em auto-estradas e outros impostos, o buracão enorme do BPN, onde o Estado tem enterrado fortunas colossais.
A vergonha das escutas.
O drama que este senhor criou à volta da questão do Estatuto Político-Administrativo da Região Autónoma dos Açores, em que foi ao ponto de convocar as televisões, em horário nobre, para uma comunicação ao país, em que a montanha pariu um rato.
Opostamente à dramatização que fez com o caso acima, quando os jornalistas, repetidamente, o convidaram a pronunciar-se sobre a dívida escondida de seis mil milhões de euros contraída abusivamente pelo seu correligionário de Partido, o Bokassa da Madeira, Alberto João, assobiou para o lado e nem uma palavra disse.
De notar que essa dívida esteve na origem da decisão do corte dos subsídios de férias e do Natal, visto que, até aí, o que estava no horizonte era tão só o corte de metade de um dos dois subsídios.
A posição pública que o mesmo residente do Palácio de Belém, tomou, hipocritamente, contra o corte dos subsídios de férias e do Natal para, depois, numa contradição total, promulgar o Orçamento do Estado para 2012, que contempla esse corte.
O seu lamento público de que mal ganhava para manter a sua vida, afirmação que constituiu, de facto, uma afronta para muitos portugueses que todos sabemos que não têm, literalmente, de comer, nos seus lares, nem para o dar aos seus filhos.
Muito mais haveria para dizer sobre esta fraude de presidente, mas fiquemo-nos por aqui, sendo que há duas coisas de que teremos ampla certeza:
Uma é a de que o tempo que falta para o final do seu mandato irá constituir uma agonia, em que o homem se irá arrastar, penosamente, entremeando silêncios, mais ou menos prolongados, com intervenções públicas cada vez mais desastrosas, visto que sempre que abre a boca, há a certeza antecipada de que não entra mosca...
Outra certeza que podemos ter, desde já, é que o retrato que a História irá fazer deste homem será deprimente.
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