quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

O ataque ao jornal francês Charlie Hebdo


A sede do semanário satírico Charlie Hebdo, em Paris, foi alvo de um ataque terrorista, havendo 12 mortos, entre os quais se contam o director e caricaturista Charb e outros jornalistas do grupo de fundadores, e dois polícias.

A reconstituição dos acontecimentos deste dia trágico, passo a passo, com base numa infografia do BFMTV, testemunhos e vídeos (actualizados):

Pelas 11:20, um Citroën C3 preto com vidros fumados parou junto da sede do jornal satírico Charlie Hebdo, localizado na Rue Nicolas Appert, no 11.º bairro de Paris. Dois homens com a cara coberta saíram do carro e entraram no número 6 do edifício, onde estão os arquivos do jornal.

Apercebendo-se do engano, seguiram para o número 10. Ameaçada, uma jornalista que ia a entrar digitou o código de acesso. De imediato iniciaram o massacre, matando o recepcionista. Depois subiram ao primeiro andar, entraram na sala onde decorria a reunião semanal da equipa do jornal, e mataram oito jornalistas — entre os quais os quatro caricaturistas famosos Wolinski, Cabu, Charb, Tignous —, o polícia encarregado da protecção do director Charb e um visitante.
Testemunhas dizem que os dois encapuzados saíram do jornal a gritar "Allahu Akbar! Le prophète est vengé!" (Deus é grande! Vingámos o profeta!). Já na rua ainda dispararam alguns tiros. Depois recarregaram as Kalashnikov, entraram no carro e viraram à direita para a Allée Verte.

07/01/2015 - 12:24


13/01/2015 - 19:14


Sede do semanário satírico Charlie Hebdo na Rue Nicolas Appert, em Paris, onde ocorreu o massacre.
AFP/Philippe Dupeyrat


REUTERS/Philippe Wojazer

Na Allée Verte, que é um beco estreito, depararam com uma patrulha da polícia. Saíram do carro e abriram fogo. O carro patrulha recuou.


AFP/Anne Gelbard

Chegados finalmente ao Boulevard Richard Lenoir, saíram novamente do carro e alvejaram o carro patrulha, tendo ferido um dos polícias que depois mataram a sangue frio, indiferentes ao seu pedido de clemência. No momento da fuga gritaram: "Eh! On a vengé le prophète Mohammed! On a tué le Charlie Hebdo!" (Eh! Vingámos o profeta Maomé! Matámos o Charlie Hebdo!) Este confronto ficou registado em imagens que chocaram o mundo:


AFP


REUTERS


BFMTV 07/01/2015 - 13:38
Foi cortado o instante da execução do polícia Ahmed Merabet. Video integral aqui.

Na Rue de Meaux, no 9.º bairro, os dois homens abandonaram o carro em que seguiam e roubaram um Renault Clio cinzento. Antes de fugirem, informaram o condutor: "Se os jornalistas te fizerem perguntas, só tens de dizer que é a Al-Qaeda do Iémen."
A polícia perdeu-lhes o rasto em Pantin, um subúrbio no nordeste de Paris. Atrás deles deixaram 12 mortos.

Algumas horas mais tarde, a polícia difundiu o nome de três suspeitos: os irmãos Cherif e Saïd Kouachi, de 32 e 34 anos, e Hamyd Mourad de 18 anos.


*

Os caricaturistas mais conhecidos...


Wolinski
REUTERS/Vincent Kessler


Cabu
AFP/Joel Saget


Tignous
AFP/Alexander Klein


Charb, caricaturista e director
AFP/Francois Guillot


...e os seus últimos cartoons:








O cartoon de Charb foi premonitório.


Após o massacre ser conhecido, caricaturistas de todo o mundo sentaram-se a uma mesa com uma caneta, lápis ou pincel na mão, para prestar homenagem aos seus ídolos perdidos:



A liberdade no lápis
Na!


O nosso 11 de Setembro
Ruben L.


Covardes
Xavier Gorce


Obsoleta
Anónimo


Nunca vencidos
Lucille Clerc

Ver outros cartoons aqui.


Celebrando o 25º aniversário do Hubble com os Pilares da Criação


Para comemorar os 25 anos (1990-2015) de exploração do Universo a partir da órbita em torno da Terra, as câmaras do Telescópio Espacial Hubble foram usadas para revisitar a sua imagem mais icónica. O resultado é esta visão mais nítida e ampla da região designada por Pilares da Criação, fotografada pelo Hubble, pela primeira vez, há vinte anos:



2014 Hubble WFC3/UVIS Image of M16
Nome do objecto: M16, Nebulosa da Águia, NGC 6611
Constelação: Serpente
Distância: 6500 anos-luz
Crédito: NASA, ESA e equipa do Hubble Heritage
Data da exposição: Setembro de 2014
Tempo de exposição: 30,5 horas
Cores: A imagem é composta por exposições distintas captadas pela Wide Field Camera 3 (WFC3) do Telescópio Espacial Hubble. Foram usados vários filtros para amostrar diversos comprimentos de onda na banda do visível. A cor resulta da atribuição de um matiz (cor) diferente a cada imagem monocromática associada a um filtro individual.
Fonte: Hubblesite.org

2015-01


São três estruturas altaneiras onde estão a formar-se estrelas. Com uma altura de 5 anos-luz, estes pilares de gás hidrogénio frio misturado com poeiras estão situados na Nebulosa da Águia (M16), a cerca de 6500 anos-luz de distância da Terra e na direcção da constelação da Serpente.

Esculpidos pela radiação ultravioleta de alta energia e erodidos pelos ventos ionizantes oriundos do aglomerado de estrelas jovens e massivas da M16, estes pilares cósmicos serão fatalmente destruídos.

"A neblina azulada fantasmagórica em torno dos bordos densos dos pilares é matéria que aquece e se evapora no espaço. Apanhámos esses pilares num momento muito especial e efémero da sua evolução", explicou Paul Scowen da Universidade Estatal do Arizona que, com o astrónomo Jeff Hester, obteve a imagem de 1995.
"Estes pilares representam um processo activo muito dinâmico. O gás não está a ser passivamente aquecido e a afastar-se suavemente para o espaço. Na realidade, os pilares gasosos estão a ser ionizados (um processo pelo qual electrões são arrancados dos átomos) e aquecidos pela radiação oriunda de estrelas de grande massa. E em seguida estão a ser erodidos pelos ventos intensos das estrelas (barragem de partículas carregadas) que actuam como jactos de areia sobre os topos destes pilares".

As primeiras características detectadas pelos astrónomos Paul Scowen e Jeff Hester em 1995 foram as flâmulas de gás que pareciam flutuar para fora dos pilares. Os astrónomos tinham debatido anteriormente o efeito que estrelas próximas e de grande massa teriam sobre o gás circundante de berçários de estrelas.
"Há apenas uma coisa que pode iluminar uma vizinhança como esta: estrelas massivas que emitem radiação ultravioleta suficientemente potente para ionizar e fazer brilhar as nuvens de gás", continua Scowen. "As regiões nebulosas de formação de estrelas, como a M16, são anúncios de néon interestelares que dizem: 'Acabámos de fazer aqui um punhado de estrelas de grande massa.' Foi a primeira vez que obtivemos evidência observacional de que o processo erosivo, não só a radiação mas também a remoção mecânica do gás das colunas, estava realmente a ser visto."

O ambiente turbulento de formação de estrelas dentro da M16, cujos pormenores espectaculares foram captados neste instantâneo Hubble em luz visível, é provavelmente semelhante ao ambiente onde nasceu o nosso Sol. Há evidência de que o sistema solar em formação foi temperado com estilhaços radioactivos provenientes de uma supernova nas proximidades. Isto significa que o nosso Sol fazia parte de um aglomerado que incluiu estrelas com massa suficiente para produzir radiação ionizante de alta energia, como se vê na Nebulosa da Águia.
"Essa é a única forma que a nebulosa, da qual o Sol nasceu, podia ter sido exposta a uma supernova tão rapidamente, no curto período de tempo que representa, porque as supernovas só provêm de estrelas de grande massa, e essas estrelas só vivem algumas dezenas de milhões de anos", explicou Scowen. "Isto significa que, quando olha para o ambiente da Nebulosa da Águia ou de outras regiões de formação de estrelas, está a olhar exactamente para o tipo de ambiente em que o nosso Sol se formou.", conclui o astrónomo.



Hubble Revisits the Famous
Comparação da imagem de 1995 (à esquerda) com a imagem actual (à direita) que foi captada com filtros na banda do visível e representada em azul, verde e vermelho.

2014 Hubble WFC3/UVIS Image of M16 (Cropped)
Os pilares são banhados por radiação ultravioleta oriunda de um aglomerado de estrelas jovens e massivas situadas fora da parte superior da imagem. Observam-se flâmulas de gás saindo dos pilares à medida que esta radiação intensa aquece e faz evaporar o gás. As regiões mais densas dos pilares sombreiam a matéria abaixo delas, protegendo-a desta potente radiação que é ionizante.
As cores na imagem realçam a luz emitida pelos átomos ionizados. A emissão do oxigénio está representada em azul, as emissões do hidrogénio e do nitrogénio estão representadas em verde, e a do enxofre em vermelho.

2014 Hubble WFC3/IR Image of M16 (Cropped)
Outra imagem dos Pilares da Criação. Captada com filtros na banda do infravermelho, está representada em azul e amarelo.
A radiação infravermelha consegue atravessar algumas das poeiras, permitindo ver através dos pilares, e até mesmo através da parede posterior da cavidade da nebulosa. Os filtros usados pelos astrónomos isolam a luz das estrelas recém-nascidas que são invisíveis na imagem anterior. Deste modo, os astrónomos podem ver as próximas gerações de estrelas assim que começam a emergir no berçário.
Esta imagem mostra que a razão por que existem os pilares é que os topos são muito densos e sombreiam o gás debaixo deles, criando as longas estruturas em forma de pilar. Já o gás entre os pilares foi soprado pelos ventos ionizantes oriundos do aglomerado central de estrelas situado acima dos pilares.




Saiba qual o IMI que o seu concelho vai cobrar em 2015


Esta infografia do Negócios mostra a taxa do Imposto Municipal sobre Imóveis (IMI) aplicada em todos os concelhos do País em 2015.

A maioria das autarquias optou por manter inalteradas as suas taxas de IMI em 2015. Quase metade cobrará o mínimo, 0,3%, mas 11% das câmaras vão exigir 0,5% que é o valor mais elevado possível.
Mesmo mantendo as taxas, os proprietários vão pagar muito mais por causa da reavaliação dos imóveis e o fim da cláusula de salvaguarda, logo as câmaras vão aumentar a receita.





Tudo começa no "valor base dos prédios edificados". É composto pelo valor médio de construção, que o Governo decidiu voltar a manter nos 482,4 euros, e ainda pelo valor do terreno, que corresponde a 25% daquele montante, ou seja, 120,6 euros. Ao todo, são 603 euros por metro quadrado, um valor de 2010 que o governo Passos Coelho mantém congelado.

Este valor de base serve de referência para todo o país mas sofre majorações ou minorações, impostas pelas câmaras municipais, em função da zona onde o imóvel está inserido e as características próprias do imóvel. Fica assim fixado o "valor patrimonial tributário" do imóvel, sobre o qual recai a taxa de IMI que cada autarquia fixa anualmente.


*


A Assembleia da República discute amanhã uma petição da autoria da Plataforma Justiça Fiscal assinada por cinco mil cidadãos para que o IMI passe a ser igual em todo o País e a uma taxa reduzida de 0,2%.

Não vale a pena, porém, ter grandes esperanças na discussão de amanhã porque os autarcas não aceitarão facilmente perder a arbitrariedade de fixar a taxa de IMI a seu belo prazer. Além disso, cinco mil assinaturas não são nada.
Quase todos os cidadãos estão convencidos que o imposto vai parar aos cofres do Estado central, desconhecendo que é fixado pelas câmaras municipais, vai parar aos cofres das autarquias e depende das dívidas que os autarcas contraíram. É lamentável porque cidadãos desinformados deixam-se manipular e não sabem defender os seus legítimos interesses.

Felizmente há quem esteja bem informado e até conheça o Código do IMI, como se vê neste primeiro comentário:

Não esquecer
30 Dezembro 2014 - 12:57
Não esquecer de pedir nas finanças a reavaliação do imóvel (se ainda tem este valor a 615 euros) e também a actualização do coeficiente de vetustez. As finanças fazem-se de desentendidas e não actualizam NADA!

Anónimo
07 Janeiro 2015 - 15:56
O IMI serve para os presidentes de câmaras pagarem as despesas escandalosas, a todos os níveis.
Somos roubados de todas as maneiras e feitios. Vamos lutar para que haja avaliações justas e uma taxa fixa em todo o país.

NapoLeão
07 Janeiro 2015 - 16:03
Deputados incompetentes e sem espinha, obedientes aos seus "chefes" não têm coragem para rectificar uma injustiça chamada IMI e que castiga todas as Famílias que se esforçaram para ter um tecto!

Anónimo
08 Janeiro 2015 - 08:39
Vejo aqui comentários a dizer que o Estado mama, que o Estado rouba, etc, mas não vejo nenhum a dizer que nos concelhos onde o PCP tem predominância, os camaradas não são de modas e aplicam a taxa máxima, como é o caso do Seixal. Afinal quem rouba mais, o Estado ou as Câmaras comunistas?


terça-feira, 6 de janeiro de 2015

O drama grego novamente em cena - I


Os bancos alemães têm uma exposição à dívida da Grécia de cerca de 23,5 mil milhões de euros mas o risco sistémico é limitado porque os maiores bancos comerciais, o Deutsche Bank e o Commerzbank, detêm apenas uma pequena percentagem deste montante total, de acordo com dados recolhidos pela Reuters.

No entanto, o mesmo não se pode dizer do banco estatal de desenvolvimento KfW que emprestou 15 mil milhões de euros ao Estado grego, segundo o Bundesverband deutscher Banken (BdB), a entidade que representa os interesses dos bancos comerciais privados alemães.
O BdB revelou que, do crédito alemão à Grécia, 4,6 mil milhões foram para bancos, 3,6 mil milhões para empresas e particulares, e 15,2 mil milhões de euros para o Estado grego.

O Commerzbank tinha, no final de Setembro de 2014, cerca de 400 milhões de euros de exposição às empresas, bancos e dívida pública da Grécia, e o Deutsche Bank apenas 298 milhões de euros.

Por outro lado, um estudo elaborado pela JP Morgan, e citado pela Reuters, descobriu que o banco francês Crédit Agricole é o banco comercial europeu mais exposto à Grécia: a instituição, no final de 2013, tinha investido 3,5 mil milhões de euros no desenvolvimento da economia grega, dos quais 2,8 mil milhões no sector do transporte marítimo, e nada em dívida pública.

O maior banco da França, o BNP Paribas, tinha uma exposição à Grécia de cerca de 700 milhões, no final de 2013, tendo a maior parte dos empréstimos sido concedidos a empresas e nada em dívida do Estado grego, de acordo com dados fornecidos pelo próprio banco. Havia uma exposição adicional de mais 1,3 mil milhões de euros, mas é crédito concedido a empresas gregas não ligadas à situação económica grega, como sejam as empresas de transporte marítimo.
Por sua vez, a Société Générale tinha uma exposição de 300 milhões de euros a empresas gregas, mas não tinha dívida pública do país no final de Setembro.

"A exposição de crédito dos bancos alemães à Grécia é baixo", disse o presidente do BdB, Thomas Kemmer, em comunicado. "É por isso que, se a Grécia entrasse em insolvência, os efeitos directos sobre os bancos alemães poderiam ser superados. Até mesmo os efeitos de contágio que acompanhariam uma saída [da Zona Euro] poderiam ser melhor suportados do que há dois ou três anos."

Efectivamente, uma notícia do Wall Street Journal, de Fevereiro de 2010, três meses antes do primeiro resgate à Grécia ocorrido em Maio de 2010, apontava que a banca francesa e alemã, detinha, em conjunto, uma exposição à Grécia de cerca de 119 mil milhões de euros. Valor que subia até aos 900 mil milhões de euros, tendo em conta também a exposição à Irlanda, Portugal e Espanha.

No próximo dia 25 de Janeiro, os gregos vão escolher o próximo Governo e as sondagens mostram que o Syriza, um partido de extrema-esquerda, lidera as intenções de votos. Como este partido sempre disse ser contra a austeridade e querer uma segunda reestruturação da dívida pública grega, se vencer as eleições e não cumprir os compromissos financeiros assumidos com os parceiros europeus e internacionais, a Grécia poderá sair da Zona Euro.

A Alemanha, a maior economia europeia, já disse que há duas vias: a Grécia pode permanecer na Zona Euro após as legislativas desde que mantenha os compromissos assumidos pelo governo ainda em funções; se o futuro governo grego recusar cumprir os compromissos assumidos pelo Estado e insistir em reestruturar a dívida pública, a União Europeia está preparada para a saída da Grécia da Zona Euro.

O presidente francês secundou: "Os gregos são livres de decidir o seu destino. Dito isto, há determinados compromissos que foram assumidos e todos eles devem naturalmente ser respeitados." Contudo deixa aos gregos a decisão sobre a permanência no euro "porque é uma escolha que só a eles cabe". François Hollande sabe que os tratados europeus não prevêem a expulsão de países da Zona Euro.



Cartoon publicado no jornal "Ekathimerini"


*

Após a adesão da Grécia à União Europeia em 1981, os gregos usufruíram dos fundos estruturais europeus sem se preocuparem com a corrupção que grassava nos partidos políticos onde votavam, e também entre políticos e empresários, porque o dinheiro chegava para todos.

Passado o período de transição, os fundos diminuíram. Então “embelezaram” as contas públicas para poderem entrar na Zona Euro em 2001, gozarem dos benefícios da moeda única e acederem a empréstimos com taxas de juros reduzidas. A máquina administrativa do Estado engordou e prosperou, as prestações sociais multiplicaram-se e os gregos desfrutavam de um óptimo nível de vida.
A dívida pública crescia, mas ninguém se importava, até que as taxas de juro dos empréstimos pedidos para financiar os défices também começaram a crescer e a dívida grega tornou-se incontrolável. No final, o crédito cessou e o governo socialista de maioria absoluta do PASOK pediu assistência financeira externa em Maio de 2010, no valor de 110 mil milhões de euros.

O problema é que as ajudas financeiras vêm sempre associadas a medidas de austeridade e, apesar de ficarem longe de ter sido cumpridas, a Grécia passou a viver entre manifestações e greves. O governo do primeiro-ministro George Papandreou viu-se obrigado a pedir um segundo resgate de 130 mil milhões que só foi concedido em Fevereiro de 2012.

Este segundo resgate à Grécia impôs a perda de 53,5% da dívida soberana grega detida pelas instituições financeiras privadas, tendo sido responsável pelos elevados prejuízos da banca portuguesa em 2011.

Entretanto os deputados do PASOK fugiram em debandada, o governo deixou de ter apoio parlamentar, Papandreou pediu a demissão em Novembro de 2011 e a Grécia partiu para eleições antecipadas.

No dia 6 de Maio de 2012 foi a vez dos eleitores fugirem do PASOK e repartirem os votos pelos novos partidos que nasciam da instabilidade como os cogumelos nascem depois da chuva. Não foi possível formar um governo e os gregos tiveram de voltar às urnas em 17 de Junho desse ano.

O Syriza, um partido da esquerda radical, liderava as sondagens e já se imaginava no poder, mas foi o Nova Democracia, um partido de centro-direita, que voltou a ganhar as eleições e agora com um número de deputados suficientes para formar um governo de coligação com o socialista PASOK e a Esquerda Democrática.

No final de 2014, este governo de bloco central caiu porque não conseguiu eleger o Presidente da República e o país seguiu para novas eleições antecipadas.
Voltou a estar em cena a peça teatral estreada na Primavera de 2012: o Syriza lidera as sondagens referentes às legislativas do próximo dia 25 de Janeiro e as cotações dos bancos caiem nas bolsas mundiais para antecipar as perdas causadas por uma hipotética futura insolvência da Grécia.

O Syriza promete electricidade grátis para os mais pobres e subida do salário mínimo nacional para chegar ao poder. No entanto, estas medidas não assustam os investidores: serão pagas pela classe média grega com um aumento de impostos.
E se um governo do Syriza exigir um segundo perdão da dívida pública grega, os bancos da França e da Alemanha já diminuíram radicalmente a exposição à Grécia para superarem as consequências e as bolsas mundiais já estão a antecipar os prejuízos. A Grécia vai ficar isolada na Zona Euro, assumir a insolvência e sair.

Não acredito, porém, que tal situação venha a ocorrer: os gregos vão preferir a austeridade à fome e o Syriza, se ganhar as eleições, vai ser o filho rebelde da Zona Euro, sempre tentando equiparar robalos e douradas com audis e mercedes, mas cumprindo o suficiente para usufruir dos fundos estruturais europeus e manter o conforto de pertencer à família mais rica do planeta.


quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Mensagem do Ano Novo 2015 do Presidente da República


Na sua última mensagem de Ano Novo com plenos poderes, Cavaco Silva defendeu os partidos políticos mas advertiu contra os perigos do populismo, um aviso sobre os novos movimentos políticos que tentam explorar a insatisfação dos eleitores com a classe política com promessas demagógicas, defendendo que Portugal não pode regressar ao início de 2011 quando o governo de José Sócrates cortou os salários na função pública e teve de pedir ajuda externa.
Terminou a mensagem apelando à esperança num futuro melhor, responsabilizando os agentes políticos pela preparação de compromissos pós-eleitorais:




"Boa noite.

Desejo a todos um Feliz Ano de 2015.

Os meus votos dirigem-se a todos os Portugueses, quer aos que residem no nosso País, quer aos que se fixaram no estrangeiro.

Saúdo também os cidadãos de outros países que escolheram Portugal como lugar de residência ou de trabalho. Orgulhamo-nos que tenham decidido viver em Portugal, uma terra aberta e plural, onde todos são recebidos com hospitalidade e sem quaisquer discriminações.

A todos, desejo um Bom Ano Novo.

Portugueses,

Em 2014, celebrámos os 40 anos do 25 de Abril, a revolução que nos trouxe a liberdade e a democracia.

Uma democracia consolidada exige o pluralismo e a diversidade de opiniões. Os regimes democráticos pressupõem também a capacidade das diversas forças políticas encontrarem as soluções que melhor sirvam o interesse nacional.

Actualmente, é consensual que só através de uma estratégia orientada para a competitividade das exportações, para a atracção de investimento e para a criação de emprego será possível vencermos os desafios do futuro.
Uma estratégia acompanhada do controlo das contas públicas e do endividamento externo.

Portugal tem ainda um longo caminho a percorrer. Esse caminho deve ser feito em conjunto, com abertura e diálogo entre as diversas forças partidárias, contando com o contributo dos agentes económicos e dos parceiros sociais e unindo os Portugueses, como foi possível fazer em momentos decisivos da nossa democracia.

O ano de 2015 será um ano de escolhas decisivas para o futuro do País. Os Portugueses irão ser chamados a pronunciar-se através do exercício do direito de voto.

É essencial participar activamente nas eleições. Só assim podemos esperar — e até exigir — que os agentes políticos actuem com responsabilidade, elevação e sentido cívico, colocando o interesse nacional acima dos interesses partidários.

É fundamental evitar crispações e conflitos artificiais que têm afectado a confiança dos cidadãos nas nossas instituições e, em particular, na classe política.

Ao fim de quarenta anos de democracia, devemos desenvolver uma cultura política mais esclarecida e mais esclarecedora.
As forças partidárias devem ser claras nas suas propostas, por forma a que os cidadãos possam avaliar as suas implicações.

Rejeito em absoluto uma ideia demagógica e populista, que alguns pretendem incutir na opinião pública, segundo a qual os partidos e os seus dirigentes se alheiam dos interesses do país e das aspirações dos cidadãos.

Devemos recusar o populismo e fazer um esforço de pedagogia democrática, tendo presente que os partidos políticos são essenciais para a qualidade da democracia e para a expressão do pluralismo de opiniões.

Mas esse esforço de pedagogia democrática só pode ser feito através da força do exemplo. Os partidos e os agentes políticos têm de demonstrar, pela sua conduta, que são um exemplo de transparência, de responsabilidade e de civismo para os Portugueses.

Há que ser cuidadoso nas promessas eleitorais que se fazem e que, não podendo depois ser cumpridas, acentuam perigosamente a desconfiança dos cidadãos em relação à classe política e às instituições.
Há que evitar promessas demagógicas e sem realismo.

Devo ser claro: é errado pensar que os problemas que o País enfrenta podem ser resolvidos num clima de facilidades.
Tal como os outros países da Zona Euro, Portugal está sujeito às exigências de disciplina orçamental e de sustentabilidade da dívida pública. Nem os países de maior dimensão conseguem eximir-se ao seu cumprimento, como se viu recentemente.
Portugal não pode regredir para uma situação semelhante àquela a que chegou em princípios de 2011, em que foi obrigado a recorrer a auxílio externo de emergência.

Só o rigor e a transparência na condução da política nacional permitirão a melhoria continuada das condições de vida das pessoas. O combate à corrupção é uma obrigação de todos.

No ano que terminou foram ainda muitos os Portugueses que viveram momentos particularmente difíceis, mas surgiram sinais de esperança.
Não nos podemos deixar abater pelo desânimo nem cultivar o pessimismo. Devemos olhar o futuro com confiança renovada.

Portugal concluiu a execução do programa de ajustamento subscrito em 2011 com as instituições internacionais sem necessidade de solicitar assistência financeira adicional.
A economia está a crescer, a competitividade melhorou, o investimento iniciou uma trajectória de recuperação e o desemprego diminuiu.

É preciso criar condições políticas para que esta tendência se reforce no ano que agora começa.

Os fundos europeus colocados à disposição do País são um trunfo que não podemos desperdiçar. A utilização destes fundos será eficaz se reforçar o crescimento da produção, a criação de emprego e a coesão social e territorial.

A situação das famílias atingidas pelo desemprego e pela pobreza e a correcção das desigualdades sociais devem merecer particular atenção da parte de todos os agentes políticos.

Seja qual for o resultado eleitoral, o tempo subsequente à realização de eleições será marcado por exigências de compromisso e de diálogo.
Este espírito de abertura não poderá ser prejudicado por excessos cometidos na luta política que antecede o sufrágio.

Em devido tempo, chamei a atenção do País para preparamos o período pós-troika.

Agora, interpelo os Portugueses — e, em especial, os agentes políticos — a prepararem o período pós-eleitoral.
Não é só no dia a seguir às eleições que se constroem soluções governativas estáveis, sólidas e consistentes, capazes de assegurar o crescimento económico e dar esperança aos Portugueses.
O período pós-eleições deve corresponder à consolidação de um tempo de confiança no nosso País, quer no plano interno, quer no plano internacional.

Existem razões de esperança no futuro. Mas a esperança não se proclama com meras palavras. A esperança constrói-se com sentido de interesse nacional, com atitudes e gestos concretos que contribuam efectivamente para resolver os problemas reais do País.

Para se construir um país melhor no futuro, a esperança tem de ser semeada no presente.

A todos os Portugueses, e às suas famílias, renovo os votos de um Bom Ano de 2015, feito de paz e de esperança."



*

Uma mensagem adequada à realidade política portuguesa — os nossos líderes políticos estão há 40 anos a colocar os interesses partidários acima do interesse nacional, enriquecendo vergonhosamente — que, se fosse posta em prática, poria o País no rumo da prosperidade, mas que apetece comentar recordando um genuíno provérbio luso: "Bem prega frei Tomás, faz o que ele diz e não o que ele faz."


Feliz Ano Novo 2015


Para festejar a chegada do Ano Novo 2015, o Google criou um logotipo especial — um Doodle — que aqui recordamos:






14:31 31.12.2014
As ilhas Kiribati foram o primeiro país a entrar em 2015, eram 10:00 de 31 de Dezembro de 2014 em Lisboa.
Na Nova Zelândia, outro dos primeiros países a dar as boas-vindas ao Ano Novo, a cidade de Auckland festejou a chegada do ano 2015 com fogo-de-artifício quando eram 11 horas em Lisboa.
Como habitualmente, a festa mais deslumbrante fez-se duas horas depois em Sydney, na Austrália.


AFP/Saeed KHAN

Fogos de artifício iluminam a Opera House e a Harbour Bridge durante a festa para iniciar 2015, em Sidney, na Austrália.
REUTERS/Jason Reed

31 Dez, 2014, 14:25
A festa em Sydney, na Austrália, com uma temperatura de 23º C.


Largada de balões durante as festas de Ano Novo 2015 em Tóquio, Japão.
REUTERS/Thomas Peter


Festa de fim de ano organizada pelo Estado, na Coreia do Norte.
REUTERS/KCNA

31 Dez, 2014, 21:28
Milhões de pessoas festejaram o início de 2015 na Oceania e na Ásia, da Nova Zelândia e Austrália, passando pelo Japão e Coreia do Norte, até Hong-Kong, Xangai e Pequim, na China.


A entrada no novo ano em Moscovo, Rússia.
AFP PHOTO/DMITRY SEREBRYAKOV


Fogos de artifício iluminam o céu sobre o Arco do Triunfo na Avenida dos Campos Elísios, durante as celebrações do Ano Novo, em Paris, França.
REUTERS/Christian Hartmann


Festejos em Londres, Reino Unido.
REUTERS/SUZANNE PLUNKETT

01 Jan, 2015, 20:35
O espectáculo da noite de fim de ano no Funchal, na ilha da Madeira, Portugal.


Festejos na praia de Copacabana, Rio de Janeiro, Brasil.
REUTERS/MAURO PIMENTEL


Folgazões atiram confetes sobre a Times Square durante as celebrações do Ano Novo 2015, em Nova Iorque, EUA.
REUTERS/Keith Bedford


Espectáculo do início de 2015 na Times Square, Nova Iorque, EUA.
EUAREUTERS/CARLO ALLEGRI

01 Jan, 2015, 15:02
Em todo o mundo muitos espectáculos e fogos de artifício assinalaram a chegada de 2015. De Tóquio, Pyongyang e Pequim, passando pelo Dubai, Moscovo, Paris e Londres, até ao Rio de Janeiro e Nova Iorque, milhões de pessoas celebraram a entrada em 2015.


domingo, 21 de dezembro de 2014

Estados Unidos e Cuba anunciam normalização de relações


Barack Obama e Raúl Castro anunciaram, em simultâneo, na passada quarta-feira, o início da normalização de relações entre os Estados Unidos da América e Cuba, cortadas há 53 anos:

17 Dez, 2014, 20:46


O presidente dos Estados Unidos reconheceu que o corte de relações não teve o efeito de defender os interesses americanos em Cuba.
O presidente de Cuba pediu que, depois de reatadas as relações diplomáticas, fosse posto fim ao bloqueio económico e agradeceu a intervenção decisiva do Vaticano dirigida pelo papa Francisco.

Antes dos discursos de reaproximação de Obama e Castro, Havana tinha libertado um espião norte-americano, Alan Gross, que estava em Cuba alegadamente ao serviço de uma agência de desenvolvimento, enquanto os Estados Unidos davam a liberdade aos três espiões cubanos restantes, de um grupo de cinco, que haviam sido condenados em 2001, depois da denúncia de um alto funcionário cubano.

O reatar de relações não significa o levantamento do embargo norte-americano a Cuba. O embargo só pode ser levantado por ordem do Congresso, que actualmente é dominado pela oposição republicana, tanto na Câmara dos Representantes como no Senado. O presidente pode anunciar o restabelecimento de relações diplomáticas e libertar espiões mas não pode sequer nomear o embaixador em Cuba, sem obter o acordo do Congresso.
Para já, vai haver um levantamento parcial do embargo das viagens dos norte-americanos a Cuba, que são proibidas neste momento. Haverá também o restabelecimento de relações bancárias, com a possibilidade de bancos norte-americanos instalarem caixas ATM em Cuba.


O embargo americano enraíza em acontecimentos ocorridos há mais de meio século:

17 Dez, 2014, 20:46

Em Janeiro de 1959, Fidel Castro conquistou o poder em Cuba depois de encabeçar uma guerra de guerrilha, durante dois anos, contra o governo repressivo e corrupto do ditador Fulgencio Batista que, a partir de 1952, estabeleceu relações com a máfia americana a quem entregou os negócios da droga, do jogo e da prostituição.

Depois de se tornar primeiro-ministro, Fidel de Castro visitou os Estados Unidos, procurando manter relações cordiais com a potência vizinha enquanto desenvolvia projectos sociais nos sectores da educação, saúde e infra-estruturas para melhorar o nível de vida da população cubana.

O governo era apoiado pelos camponeses, operários e estudantes, que constituíam a maioria da população do país, enquanto a classe média se deslocava para a oposição, com milhares de médicos, engenheiros e outros profissionais altamente qualificados a emigrarem para a Florida, nos EUA. Em consequência desta fuga de cérebros, a produtividade diminuiu e as reservas financeiras do país ficaram esgotadas em dois anos. A imprensa conservadora tornou-se hostil ao governo de Castro que decidiu prender centenas de opositores apelidados de contra-revolucionários.
Grupos anti-castristas financiados por exilados, pela Agência Central de Inteligência (CIA), dos EUA, e pelo governo da República Dominicana estabeleceram bases de guerrilha nas montanhas de Cuba, donde conduziam ataques contra o governo de Fidel de Castro. As forças castristas envolveram-nos em cercos cada vez mais apertados e fuzilaram sistematicamente os guerrilheiros capturados até à extinção dos grupos.

Em 1960, as duas superpotências — os Estados Unidos, uma democracia capitalista, e a União Soviética, um estado socialista marxista-leninista governado pelo Partido Comunista único — travavam a Guerra Fria. Fidel de Castro afasta-se dos EUA e defende claramente a visão ideológica da URSS, estabelecendo relações com os países marxistas-leninistas da Europa de Leste.

O presidente americano Eisenhower apoiou um plano da CIA para derrubar Castro que culminou, em Abril de 1961, já na época do seu sucessor John F. Kennedy, na invasão da Baia dos Porcos por exilados cubanos. Foram capturados pelas forças de Fidel de Castro 1.189 dos cerca de 1400 rebeldes que participaram na invasão, sendo 14 levados a julgamento, enquanto os outros foram devolvidos aos EUA em troca de 25 milhões de dólares de alimentos e remédios. Foi instituído o embargo económico e financeiro a Cuba.


18 Dez, 2014, 14:12

O anúncio do reatar de relações diplomáticas entre os dois países, nesta quarta-feira, foi comemorado por muitos cubanos que vivem na ilha, que tem uma população de 11 milhões, como o início de uma nova era para Cuba.


18 Dez, 2014, 14:18

Como era expectável, a notícia foi recebida com apreensão em Miami, nos Estados Unidos, onde vive a maior comunidade dos cerca de 2 milhões de exilados cubanos. Embora alguns pensem que vai provocar, primeiro, a abertura do regime comunista, e depois a sua desintegração, grande parte dos exilados considera-se traída pela administração Obama.
A cidade de Miami foi palco de uma manifestação de exilados cubanos que protestaram contra o governo de Raúl Castro e apelaram ao Congresso para impedir o levantamento do embargo a Cuba.

Já para os norte-americanos o fim do embargo representaria a possibilidade de criar negócios em Cuba, principalmente no sector do turismo, e poderia ter um impacto anual de 6 mil milhões de euros em exportações.
Em Washington, há quem considere que o restabelecimento das relações diplomáticas entre os dois países poderá mesmo levar ao desaparecimento de Guantánamo, a base norte-americana localizada em território cubano, para onde os militares americanos levaram os prisioneiros afegãos que nenhum estado americano quis receber.

*

Começou o princípio do fim do embargo norte-americano a Cuba. Começou o enfraquecimento do regime castrista.
Raúl Castro sabe-o, mas reconhece que o socialismo já fez tudo o que era possível para melhorar o nível de vida da população cubana. Para ir mais além precisa de atrair empresas estrangeiras e reconciliar-se com a classe média cubana exilada nos Estados Unidos. Vai procura singrar a via chinesa: um país capitalista — tão ferozmente capitalista que só os empresários gozam do direito de propriedade privada através das suas empresas — governado por um partido comunista.

Mas não é certo que uma solução que funcionou na Ásia, vai funcionar na América latina. Um papa polaco acelerou a implosão dos regimes socialistas marxistas-leninistas da Europa de Leste, um papa latino-americano poderá desencadear a implosão do regime cubano. Não deixa de ser irónico.


quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Governo decreta requisição civil na TAP


O Governo quer que todos os voos programados entre 27 e 30 de Dezembro se realizem e, para isso, vai obrigar os trabalhadores da TAP a apresentarem-se ao serviço nos quatro dias da greve marcados para esse período:

18 Dez, 2014, 20:16


A requisição civil vai abranger 70 por cento dos funcionários da empresa que o Governo entende serem os necessários para garantir os 1141 voos previstos para o período da paralisação. O ministro da Economia Pires de Lima tornou claro que se trata de uma medida excepcional para proteger o direito das famílias se reunirem no Natal e fim de ano.

É a terceira requisição civil na TAP. O ministro da Economia estranhou as críticas do PS e lembrou que as duas anteriores requisições civis da TAP foram feitas por governos socialistas, um de Mário Soares e outro de António Guterres, e sublinhou que o último desses governos integrava António Costa.

*

Em Agosto de 1997, o governo socialista de António Guterres que tinha António Costa na secretaria de Estado dos Assuntos Parlamentares, elevada em Novembro desse ano à categoria de ministério, decretou a requisição civil na TAP. A decorrência jurídica que essa decisão teve foi considerada válida pelo Supremo Tribunal Administrativo.

Opor-se indiscriminadamente a todas as medidas do Governo, procurando cavalgar o natural descontentamento popular com as medidas de austeridade, foi a estratégia de António José Seguro e nunca lhe permitiu alcançar uma maioria absoluta nas sondagens.
O actual secretário-geral dos socialistas prossegue na mesma senda: apenas procura ganhar votos para poder instalar-se no poder, apoiado pelo bando dos socratistas. No entanto, a sua atitude na questão da TAP é grave porque, além de ausência de ideias para desencadear o desenvolvimento económico que o País carece, vem demonstrar uma enorme hipocrisia.
Portanto não deve ser surpresa que António Costa esteja a cair nas sondagens e já comece a falar das virtudes do governo do Bloco Central, liderado por Mário Soares e tendo como vice-primeiro-ministro o social-democrata Mota Pinto, professor da Universidade de Coimbra.


terça-feira, 9 de dezembro de 2014

O Príncipe - II


Depois do longo depoimento inicial, superior a uma hora, de Ricardo Salgado na Comissão de Inquérito parlamentar à gestão do BES-GES, iniciou-se a primeira ronda de perguntas.

09:10

10:31
Carlos Abreu Amorim, coordenador dos deputados do PSD, acusa Salgado de "desonestidade intelectual" por comparar o BES com o país e o BdP com a troika e questiona se "houve em algum momento fraude e manipulação de contas no GES e no BES”.
Ricardo Salgado responde que nunca comparou o BES ao país, apenas comparou "o método". “O GES está há 40 anos no Luxemburgo. Nunca tivemos qualquer problema com as nossas sociedades luxemburguesas (...) Devo dizer que a minha vida era dedicada a 100% à área financeira, 100% ao BES e às instituições financeiras subjacentes à Espírito Santo Financial Group e que não tinha responsabilidade directa sobre as contas da Espírito Santo International [ESI]”.

Carlos Abreu Amorim repisa: "Não sabia (...) Mas essa manipulação existiu."
Ricardo Salgado: "Todos os membros do Conselho Superior assinaram as contas. Não dei instruções para ocultação de passivos ao dr. Machado da Cruz [o contabilista da ESI]."

10:46
Carlos Abreu Amorim: "Para onde foi o dinheiro, designadamente as imparidades que o relatório da KPMG de Junho de 2014 revela na ordem de 4253 milhões de euros?"
Ricardo Salgado: "Está-se a referir às imparidades do BES? Essas imparidades foram aceleradas devido às operações da área financeira por uma ordem do BdP. (...) Portanto, o prejuízo que o BES realizou, em grande parte, vem dessa provisão que foi constituída e que foi largamente contestada por administradores do BES, nomeadamente os administradores do Credit Agricole. Foi imposta. Ficou registado em acta que foi imposta. Estamos todos à espera da auditoria forense. Mas a provisão não se traduz em saída de dinheiro".
 E sublinha: "Ninguém se apropriou de um tostão, nem na administração, nem na família".




09/12/2014 - 11:21

10:52
Carlos Abreu Amorim mostra um gráfico, baseado no relatório da KPMG, para demonstrar a exposição do banco ao GES, em Dezembro de 2013, a diminuição referida por Ricardo Salgado, em Março de 2014, "mas depois há uma subida impressionante em Junho, o que comprova a violação das orientações do BdP".
Ricardo Salgado contorna a questão: “Eu julgo que consegui explicar, na medida do possível, a inexequibilidade do ring-fencing [barreira de protecção do BES em relação ao GES] num prazo de sete meses.” "O Grupo entrou em colapso por não haver tempo e não ser possível realizar a operação de médio prazo. Não houve fugas de dinheiro do banco."

11:04
Carlos Abreu Amorim: "Nas últimas semanas em que esteve à frente do banco há notícias de transferências para off-shores nas ilhas britânicas. De quem são esses off-shores?"


Ricardo Salgado: "Não tenho conhecimento de capitais que tenham saído do banco para terceiros."

Carlos Abreu Amorim: "Foi responsável por alguma operação bancária de capital superior a 1 milhão de euros desde Abril?"
Ricardo Salgado: "Era responsável do Comité de Crédito mas só tinha intervenção em operações de grande dimensão. Por isso, operações de 1 milhão de euros não caem dentro da alçada do Presidente da Comissão Executiva." 


11:16
Carlos Abreu Amorim questiona sobre o BES Angola (BESA).
Ricardo Salgado: "Se não tivesse havido um enorme problema em Angola, por que razão haveria uma garantia assinada pelo Presidente? A partir de certa altura começámos a ter informações em Lisboa... estranhas. Deve ter sido em meados da década. Os clientes queixavam-se que Álvaro Sobrinho não tinha tempo para receber os clientes. Houve um crescimento do crédito. Chegámos a uma altura, infelizmente, em que o BNA [Banco Nacional de Angola] diz que os bancos angolanos têm de ter total independência informática do exterior. Tivemos de dar autonomia informática a Angola em 2009. Acontece que começámos a ficar preocupados à medida que o tempo ia avançando. Começam a sair notícias... Está ali a dra. Cristina Ferreira, do PÚBLICO, que se deve lembrar disso."

Carlos Abreu Amorim: "Está a dizer-nos que sabia de tudo pelos jornais?"


Ricardo Salgado: "Recorro à sua sapiência jurídica. É crime em Angola violar o segredo bancário. Os nossos sócios angolanos sugeriram a substituição do doutor Álvaro Sobrinho. Pois bem, a partir da altura em que Álvaro Sobrinho sai, os órgãos de imprensa da propriedade dele, que adquiriu o Sol e o i, começa o bombardeamento na imprensa do doutor Álvaro Sobrinho a meu respeito, e não só."


11:31
Ricardo Salgado: Às equipas do BES que depois chegaram a Angola “foram-lhe levantadas as maiores resistências e ameaças. E foi isso que nos levou a pedir apoio” ao presidente de Angola, justificando que a garantia foi dada porque as autoridades angolanas consideraram o BESA “um banco essencial para o desenvolvimento de Angola”.



09/12/2014 - 11:29

Carlos Abreu Amorim: “Mas o Banco de Portugal sabia da situação?
Ricardo Salgado: “Procurávamos informar o banco de Portugal sempre na medida do possível”. O supervisor português “levantou sempre as maiores dúvidas sobre a garantia” ao ponto de não a aceitar para efeitos de rácios de capital. “[Foi] extremamente lamentável que isso tenha acontecido”.

 “A forma da resolução, com a divisão do BES em banco bom e banco mau, deixando as acções do banco angolano no banco mau, significou considerar a garantia dada pelo governo de Angola como um produto tóxico. Tenha em consideração que há três bancos em Portugal com participações de grupos angolanos, BPI, BCP, e BIC. E colocar a garantia do sr. presidente da República de Angola no banco mau, como sendo um activo tóxico, é no mínimo uma enorme ofensa diplomática”.



09/12/2014 - 11:44

11:34
Carlos Abreu Amorim: "Falo do benefício que lhe foi atribuido pelo construtor José Guilherme que primeiro teria sido 8 milhões de euros e mais tarde veio a saber-se que era 14 milhões de euros. Teve algum proveito, nomeadamente neste último exemplo?"
Ricardo Salgado: "É um assunto do foro pessoal que está enquadrado em segredo de justiça."




09/12/2014 - 11:34

Carlos Abreu Amorim, resumindo as respostas de Salgado: “Embora fosse o principal responsável, era sempre o último a saber.
Ricardo Salgado: “Eu não era o responsável do Grupo Espírito Santo como um todo. A minha responsabilidade era apenas na área financeira como presidente do conselho de administração da Espírito Santo Finantial Group e presidente executivo do BES. Vivia dentro do BES. Era dos primeiros a chegar e sempre dos últimos a sair. Passei 70% dos fins-de-semana a trabalhar em casa. Considero-me um verdadeiro trabalhador. Não posso aceitar, tendo dedicado a minha vida ao banco, e exclusivamente ao banco, de ser responsável pelo que se passou fora da área financeira.”


11:36
Começam as perguntas do coordenador dos deputados socialistas.
Pedro Nuno Santos: "Como é que pede a Machado da Cruz para continuar, depois do que fez?"
Ricardo Salgado admite alguns erros, mas garante: “Fui sempre um profissional consciente. Não houve desvios de capital para fora do banco, nem para administradores, nem para directores do banco. Os cenários apresentados nas televisões sobre saídas de dinheiros são totalmente falsos”.

11:46
Pedro Nuno Santos: “O BESA acabou por se transformar numa transferência de 3 mil milhões de euros dos contribuintes portugueses para outros, empresários angolanos, ou portugueses, não sabemos... Há uma responsabilidade de quem decidiu conceder o crédito ao BESA, que é do BES. É sua."
Ricardo Salgado: “O problema do crédito do BESA “emerge agora” porque a garantia do Presidente de Angola caiu. “Não acredito por outra questão que não a separação do Banco Espírito Santo num banco bom e no banco mau”. Aos deputados, deixa a interpretação deste facto.



Pedro Nuno Santos: “A garantia caiu por causa da resolução. Mas esse não é o problema. O problema é anterior. Rui Guerra está desde 2013 à frente do BESA. Dou-lhe só 5 empresas que receberam 1600 milhões de euros. Empresas desconhecidas e que boa parte desse dinheiro não se destinou a actividade produtiva. Era altura de começarmos a falar um pouco mais sobre este assunto."


Ricardo Salgado: “Não podemos discutir esses assuntos, por causa do sigilo bancário angolano. O doutor Rui Guerra diz que a responsabilidade desses créditos cabe a Álvaro Sobrinho. Também se sabe que a partir de certa altura, Sobrinho nomeou a cunhada para responsável da atribuição de crédito."

12:02
Ricardo Salgado: “Enquanto o GES estava em plena reorganização, pedimos tempo ao Banco de Portugal. Ora, tempo foi aquilo que não nos foi dado. Simplesmente não tivemos tempo e ainda há aí muitas empresas que ainda estão à venda”. A única que diz ter conseguido “fugir à pressão dos supervisores foi a Espírito Santo Saúde”, empresa que depois do colapso do GES foi alvo de várias OPA, acabando por ficar nas mãos dos chineses da Fosun. “A sentença de morte veio quando não foi possível fazer o aumento de capital da Rioforte. A sentença de morte é uma sentença que evolui ao longo do tempo. Nós estávamos a defender a credibilidade do grupo e dos clientes do BES, mas com sete meses para resolver um problema desta magnitude era impossível.
”

12:16
Pedro Nuno Santos: "Uma estratégia que pusesse em risco as suas empresas, nunca poderia ser liderada por si, que queria proteger o ramo não-financeiro. À medida que foi implementando as medidas do BdP, foi encontrado, segundo o Banco de Portugal, um esquema fraudulento para continuar a financiar o GES. Doutor Ricardo Salgado, como é que conseguiu convencer o senhor governador do BdP a mantê-lo?"
Ricardo Salgado: "Ouvi surpreendido as declarações do Governador do BdP segundo o qual teve um braço de ferro comigo. Nunca me foi sugerido que estava em avaliação a minha idoneidade. Bastaria um sinal [do Banco de Portugal] para eu abandonar a liderança do banco."


12:36
Começam as perguntas do CDS.
Cecília Meireles: "Esta é a parte que não consigo de todo entender: como é que a holding de topo não era auditada, não tinha revisor oficial de contas, e porque é que ninguém se questionou sobre a ESI..."
Ricardo Salgado: "A ESI, não era uma holding financeira e, portanto, não era supervisionada. Estivemos 40 anos no Luxemburgo e nunca tivemos um processo e agora parece que o céu nos desabou em cima da cabeça."

12:40
Cecília Meireles: "Quando é que o senhor governador lhe disse que se deveria afastar da liderança do BES?"


Ricardo Salgado: "O senhor governador nunca me disse que eu deveria sair da administração do BES. O que me disse, foi que a família, toda, deveria sair da administração do BES. Nunca, por nunca, eu tive uma reacção negativa. E se o senhor governador alguma vez me tivesse dito que eu deveria sair, eu sairia na hora, mas é que era na hora!"
"O senhor governador perguntou-me quem me deveria suceder. Foi algures antes do aumento de capital. Eu disse: o doutor Morais Pires e em segundo o doutor Joaquim Goes. O senhor governador disse-me que havia uma certa preferência pelo doutor Joaquim Goes, que gozava de muito apreço na área da supervisão. Por isso fiquei muito surpreendido quando ele foi suspenso. Como íamos para o aumento de capital, considerava essencial pôr o dr. Amílcar Morais Pires [para presidente executivo] e a dra. Isabel Almeida como CFO [responsável financeira]”.
Salgado lê um email enviado ao governador do BdP no dia 20 de Junho às 12h27, pedindo “mais uma vez e com urgência que fosse dada autorização ao nome de Morais Pires”, e frisando que João Moreira Rato, então presidente do IGCP [entidade responsável pela gestão da dívida do Estado] apontava dificuldades de mercado. Na resposta, às 13h35, Carlos Costa refere que “o Banco de Portugal não estava em condições de validar o nome proposto por um accionista sem avaliar os requisitos de idoneidade”.
"Quando em fins de Junho perguntei ao senhor governador se podia indicar o Amílcar, respondeu que precisava de dois dias para pensar. Depois telefonou-me a dizer que “será quem o senhor presidente entender"".

13:08
Segue-se Miguel Tiago, do PCP: "As provisões eram referentes a que imparidades, de que créditos, de que clientes?"
Ricardo Salgado: "Pois... Em relação à promiscuidade política, vi alguns comentários de políticos altamente colocados de que o grupo teria tido uma ligação especial ao governo anterior e ao PS. Todos os bancos em Portugal, de alguma dimensão, contribuíram com colaboradores seus para o Governo. Não tivemos uma bolha à espanhola, ou à irlandesa, mas tivemos imparidades no sector imobiliário. Não posso dar-lhe de memória clientes que tivessem créditos provisionados."



Miguel Tiago: "Entre os clientes do banco estavam também as empresas do GES. Não respondeu, portanto...Temos as listas dos grandes clientes dos bancos, mas os nomes foram apagados e a alguns deles foram cortados 100% do crédito."
Ricardo Salgado: "Tem toda a razão de levantar a questão, mas não lhe posso responder, mesmo que soubesse."

13:19
Miguel Tiago: "Como é que diz que o departamento de risco era eficaz e eficiente, quando se perderam 5 mil milhões de euros?"


Ricardo Salgado: "Senhor deputado, tenha paciência... O departamento de riscos angolano foi pervertido. Per-ver-ti-do. Aquilo não funcionou."

Miguel Tiago: "Em Portugal também surgem imparidades de 100%..."

13:31
Ricardo Salgado: "Se houve um braço-de-ferro com o governador do Banco de Portugal eu não senti..."
Miguel Tiago: "Tal era a força do governador..."

Ricardo Salgado: "Oh senhor deputado Miguel Tiago, eu não tenho por sistema mentir. Nunca menti nestas coisas. É fundamental que a governação do Banco de Portugal seja clara. Se o Banco de Portugal tivesse querido que eu saísse era muito fácil... [lê duas cartas enviadas a Carlos Costa em que se dispõe a sair e uma outra, ao chefe da supervisão, em que propõe um calendário para a sua saída] Portanto, fará o favor de entender que eu nunca pus qualquer obstáculo à mudança de governance do BES."


13:43
Ricardo Salgado: "Eu saio no dia 13 [de Julho]. No dia 12 enviei uma carta ao BdP a dar conta de financiadores interessados. O BdP não esteve na disposição de receber os investidores interessados. Remeteu o assunto para a nova comissão executiva. Eles não resolveram o assunto. Adiaram para o fim do mês. E no dia 30, o BdP dá 48 horas para o aumento de capital. Julgo que essa carta do BdP é uma forma de se desresponsabilizar. 48 horas para fazer o aumento de capital? Só se fosse um milagre. O que parece é que tudo estava orientado para o mesmo..."

13:45
A primeira ronda termina com Mariana Mortágua, do BE. "Quem detinha o resto do capital da ESI?"
Ricardo Salgado: "De cabeça, não sei..."

14:07
Ricardo Salgado: “No final do mês de Novembro, sabíamos que era essencial reforçar os capitais e ainda pensámos começar pela ES Control e a ESI [holdings de topo do grupo]. Mas quando nos apercebemos da situação real, entendemos que era completamente impossível estar a chamar capital para essas holdings. Daí passar-se a reforçar capitais na Rioforte”.

14:23
Ricardo Salgado confirma que o Governo foi informado, em Maio, sobre o risco sistémico do grupo, a ministra das Finanças, Carlos Moedas e também Durão Barroso, à data presidente da Comissão Europeia. 

“Isto não tinha nenhuma finalidade de obter vantagens estranhas ou promíscuas com o Governo. O que foi feito foi comunicar ao Governo, pela última vez (...), a eventualidade de um risco sistémico e a necessidade de obter um apoio intercalar para financiar a área não financeira”.


Mariana Mortágua: “Qual foi a resposta de Carlos Moedas e de Durão Barroso?
Ricardo Salgado: “Eles ouviram, compreenderam”.
Mariana Mortágua: “Em que datas ocorreram essas reuniões?
Ricardo Salgado, consultando uma folha A4: “A reunião com Passos foi a 20 de Maio. A reunião com a ministra das Finanças julgo ter acontecido a 14 de Maio, pensava terem ocorrido no mesmo dia; e a reunião com Carlos Moedas foi a 2 de Maio; da reunião com Durão Barroso, não tomei nota, o encontro não teve lugar em Bruxelas, mas sim em Lisboa.

14:24
Ricardo Salgado, sobre o BESA: “O que pude constatar pessoalmente é que os dois accionistas angolanos do BESA, os generais Leopoldino de Nascimento e Helder Vieira Dias [estavam] muito indispostos com o dr. Álvaro Sobrinho. Houve mesmo uma reunião no BNA complicadíssima e os investidores angolanos disseram que queriam uma mudança de governação no BESA e a saída do dr. Álvaro Sobrinho.
Mostrei a garantia [do Governo angolano] ao Presidente da República e disse-lhe que estava convencido que ela se devia também ao bom relacionamento de Cavaco Silva com a Presidência de Angola.



09/12/2014 - 14:45

14:34
Mariana Mortágua questiona o papel da ESCOM (Espírito Santo Commerce).
Ricardo Salgado: “Não posso avançar muito mais, porque a Escom está integrada num processo em que estou arguido.
Mariana Mortágua: “Imagino que não me possa confirmar se recebeu ou não dinheiro do consórcio alemão que vendeu submarinos ao Estado português.”


Ricardo Salgado: “O assunto dos submarinos não está abrangido pelo segredo de justiça, que eu saiba. Foi, visto à luz de hoje, um dos erros de julgamento do GES ter entrado nessa operação para a qual contribuí com a decisão de participação. Foi uma operação pontual e única. Imediatamente a seguir decidimos não fazer mais nenhuma operação dessa natureza, pelo efeito terrível que teve sobre o grupo, em termos de reputação.
O Estado estava interessado em reequipar a marinha portuguesa com duas unidades novas. O BES foi consultado para estudar uma operação de financiamento que permitisse ao Estado pagar a aquisição desse material em condições de prazo o mais longo possível e o BES e o Credit Suisse montaram uma operação de leasing de longo prazo para a aquisição dos submarinos. A Escom fez um acordo com o grupo alemão para o representar, não sei em que altura, que deu origem a um benefício. Este benefício teve custos. Houve uma parte que foi distribuída em resultados, apurados pelo conselho superior do grupo, através de uma subsidiária da Escom.
Esses custos foram analisados pelo Ministério Público. A garantia que tenho dos administradores da Escom é que não foram pagas comissões a quem quer que seja a nível político.


14:36
Ricardo Salgado, sobre o processo de resolução do BES, aplicado pelo Banco de Portugal a 3 de Agosto: “Foi um erro. A avaliação ainda está por fazer. Há uma leitura que não deixo de fazer, tendo em conta os valores perdidos com a intervenção pública. O nível de capitalização do BES foi completamente dizimado e, se o banco for vendido por um valor inferior ao da intervenção, é preciso ter em conta esse diferencial. E também ao nível do crédito, a situação do Novo Banco vai criar uma crise maior ao nível do emprego e das empresas.
”



09/12/2014 - 16:12


15:34
Começa a segunda ronda de perguntas, depois de uma pausa de 40 minutos.

Carlos Abreu Amorim, depois de criticar a "habilidade" de Ricardo Salgado em "compor uma narrativa alindada":
“À cautela foi-se munindo de elementos, para inviabilizar o eventual processo de levantamento da idoneidade, por parte do BdP. Autoriza que o Banco de Portugal revele a troca de correspondência que o regulador manteve consigo a propósito da idoneidade?”
O BES faliu por má gestão, por uma gestão pouco rigorosa, pouco sã e pouco prudente. O BES não faliu porque foi forçado a falir. Finou-se por culpa própria. Neste sentido julgo que a sua versão dos acontecimentos cai pela base.”
”Ainda na questão da recomendação dos livros: foi a primeira vez que vi alguém vir a uma comissão de inquérito recomendar aos deputados que expandissem os seus horizontes culturais. Recomendou, entre outros, o livro do Paulsen que considero de segunda categoria, o livro e a pessoa. Vou recomendar-lhe o livro de alguém que morreu há 1586 anos, mas que me parece muito indicado para uma pessoa que chegou a esta comissão de inquérito, não aceitou responsabilidades de coisa nenhuma, assinou durante cinco anos, de cruz, as contas que Machado da Cruz lhe colocou à frente na ESI, a culpa é do BdP, de Álvaro Sobrinho, ... O livro que recomendo para quem tem este tipo de postura é o livro Confissões, de Santo Agostinho.”

Ricardo Salgado: “O senhor deputado fez uma exposição bastante extensa. Nunca fui uma pessoa presunçosa, ou que pretendesse assumir posições de destaque. Sou uma pessoa sóbria e não tenho por costume alindar narrativas. Volto a dizer exactamente o mesmo: se tivesse sido levantada a questão da minha idoneidade, eu tinha imediatamente pedido a demissão. Aquilo que me levou a aceitar uma determinada liberalidade foi o facto de ter consultado juristas. O BdP podia ter-me dito que esses pareceres, por mais sábios que sejam, eu teria de sair. Eu teria saído imediatamente. Estamos abertos a dar tudo o que entender. Os elementos que tivermos estão abertos. O Banco de Portugal, por mim, está completamente livre de dar esses elementos ao senhor deputado.”
”Eu sou gestor bancário há 40 anos. Passei por 5, 6, 7 grandes crises internacionais. Fomos considerados um dos melhores bancos em termos europeus. Estou de consciência tranquila. Não tenho nada de que me arrependa. Tenho uma carga pesadíssima em cima de mim. Há responsabilidades do nosso lado. Mas também há responsabilidades de outros lados.”
”Recomendei aos senhores deputados aquelas obras porque elas são muito valiosas para compreender o actual contexto de crise. Sou católico praticante. Tenho o maior respeito por Santo Agostinho. Sempre que posso leio as meditações do Santo Agostinho.”



09/12/2014 - 16:56

15:59
A segunda ronda prossegue com Pedro Nuno Santos, do PS: "O país aceita com dificuldade, mas percebe, que o Estado possa intervir num banco com impacto sistémico, mas não percebe que interviesse num grupo não financeiro.”
“Temos nas transcrições das reuniões do Conselho Superior do GES isto [sobre a Escom]:
Vocês [os representantes dos cinco ramos da família Espírito Santo] têm todo o direito de perguntar “Mas como é que aqueles três tipos [os administradores da Escom] receberam 15 milhões?” A informação que temos é que há uma parte que não é para eles. Não sei se é, ou não é. Como hoje em dia só vejo aldrabões à nossa volta... Os tipos garantem que há uma parte que teve de ser entregue a alguém, em determinado dia.
Diz-nos que foi-lhe garantido que não foram entregues comissões a pessoal político. E a pessoal não político?”

Ricardo Salgado: “Gostaria que ficasse muito claro que não se pedia que o Estado capitalizasse a área não-financeira do Grupo.”
“Não sei quando essas gravações se iniciaram. Os senhores referiram várias vezes que eu mandava no grupo e tinha o domínio completo do grupo. Posso garantir que nem sequer sabia que estava a ser gravado... Alguém desencadeou as gravações dentro do grupo e as passou cá para fora. O que posso dizer é que se tratava de uma estrutura informal, com uma liberdade de linguagem não permitida em outras organizações.
No meu entender cometemos um erro de julgamento ao ter entrado no negócio dos submarinos. Tive a garantia, tanto quanto se pode ter, da administração da Escom de que não tinham sido pagas comissões da área política. De facto, pareceu-nos que o montante que foi entregue aos accionistas nos parecia relativamente baixo. O Ministério Público tem uma acta assinada pelo Conselho Superior do grupo. O valor recebido foi superior a 5 milhões de euros. Não lhe sei dizer mais nada, a não ser que toda a envolvente, a situação terrível das contrapartidas, me levou a um excesso de linguagem a dizer que estava rodeado de aldrabões. As investigações que foram feitas criaram um mal estar muito grande, o que foi uma pena."




09/12/2014 - 17:13

09/12/2014 - 17:13

16:30
Segue-se Miguel Tiago, do PCP: “Em primeiro lugar, registamos a ironia de ouvir o presidente de um grupo que durante décadas faz a apologia do Estado mínimo e a retirada do Estado da economia e que depois, perante o colapso de um grupo, não financeiro também, não hesita em fazer contactos com o governo da República para que a República, que combateu activamente durante tanto tempo, seja a salvação. Mais valia não ter saído da esfera pública o banco que lhe foi entregue.
Ao que parece, o Banco de Portugal foi enganado pelo BES; ficamos a saber que o BES acha que também foi enganado pelo Banco de Portugal. Quem é que forçou a instituição financeira a desaparecer?”
”Qual a origem das verbas, e em que contexto, da bolsa de Durão Barroso nos Estados Unidos da América com carro e motorista assegurados pelo grupo?”

Ricardo Salgado: "O Estado mínimo e a iniciativa privada são sempre conceitos fundamentais na organização da sociedade que é bom ter presente. O Grupo investiu em Portugal 8 mil milhões de euros e criou 25 a 30 mil postos de trabalho. Julgo que, a seguir às privatizações, em que o Estado realizou encaixes substanciais, e comparativamente às indemnizações que foram pagas, o Estado conseguiu resolver na altura [1992] uma parte importante da sua equação financeira através das privatizações.”
”Sobre a Escom não lhe posso dizer mais, porque não sei. A Escom teve que pagar encargos, muitos encargos, técnicos, jurídicos. Não era a minha área, mas que não foram pagas comissões a políticos foi o que me garantiram que aconteceu.”
”O BES, segundo os dados da auditora KPMG, apresentou um património líquido de 3700 milhões, sem contar com os 2 mil milhões de provisões, em 29/8. Gostaria de ver as auditorias forenses para perceber. Mas o BES estava com 3700 milhões. O BES escusava de ter desaparecido. Não estávamos muito longe do que era necessário para ter sobrevivido. Era escusada esta resolução.”
”De facto, o doutor Durão Barroso tinha uma relação de aconselhamento connosco. Não me recordo do montante, mas não era nada de significativo.
Não sei o número de colaboradores que transitaram para o Governo. Houve vários ilustres membros do Governo que estiveram no BCP, no BPI.”

16:54
Mariana Mortágua, do BE: "É incrível que o 'dono disto tudo' apareça aqui como a vítima disto tudo... Quis fazer-nos acreditar que o seu império ruiu sem que soubesse?”
”Percebe-se que o Governo seja contactado por um banco em risco sistémico, mas não se percebe como Durão Barroso é contactado, ou Carlos Moedas...”
”Houve um acordo com o Banco de Portugal para que saísse após o aumento de capital?
”Passaram-se activos arriscados para o BESA para limpara o BES?”
”E por que razão o Conselho Superior recebe lucros do negócio dos submarinos da Escom?"


Ricardo Salgado: "Esta classificação do "dono disto tudo" é irrisória. Para mim, "dono disto tudo" é o povo português e os senhores são os representantes do povo português. Isto foi uma caracterização que me foi colada. Por fim, o dono disto tudo passa a responsável disto tudo ou vítima disto tudo. Não foi com a ideia de me vitimizar que presto esclarecimentos, mas para, com a objectividade possível, dar a minha visão dos acontecimentos. A minha responsabilização será certamente apurada pela via jurídica e pelos tribunais...
[No BES procurei] defender os interesses dos clientes dentro de uma envolvente política, económica e financeira extremamente complexa. Nunca passei por uma crise desta dimensão.”