terça-feira, 9 de dezembro de 2014

O Príncipe - II


Depois do longo depoimento inicial, de hora e meia, de Ricardo Salgado na Comissão de Inquérito parlamentar à gestão do BES-GES, iniciou-se a primeira ronda de perguntas.

10:34
Carlos Abreu Amorim, coordenador dos deputados do PSD, acusa Salgado de "desonestidade intelectual" por comparar o BES com o país e o BdP com a troika e questiona se houve em algum momento manipulação de contas” no BES e no GES.
Ricardo Salgado responde que nunca comparou o BES ao país, apenas comparou "o método". “O GES está há 40 anos no Luxemburgo. Nunca tivemos qualquer problema com as nossas sociedades luxemburguesas”. “Devo dizer que a minha vida era dedicada” 100% à área financeira e não tinha responsabilidade directa sobre as contas da Espírito Santo International.

Carlos Abreu Amorim repisa: "Não sabia... Mas essa manipulação existiu."
Ricardo Salgado: "Todos os membros do Conselho Superior assinaram as contas. Não dei instruções para ocultação de passivos ao dr. Machado da Cruz [o contabilista da ESI]."

10:51
Carlos Abreu Amorim: "Para onde foi o dinheiro [relativo às imparidades do BES]?"
Ricardo Salgado: "Está-se a referir às imparidades do BES? Essas imparidades foram aceleradas por uma ordem do BdP. Portanto, o prejuízo que o BES realizou foi por ordem dessa provisão imposta. Ficou registado em acta que foi imposta. Estamos todos à espera da auditoria forense. Mas a provisão não se traduz em saída de dinheiro".
 E sublinha: "Ninguém se apropriou de um tostão, nem na administração, nem na família".




09/12/2014 - 11:21

10:57
Carlos Abreu Amorim mostra um gráfico, baseado no relatório da KPMG, para demonstrar a exposição do banco ao GES, em Dezembro de 2013, a diminuição referida por Ricardo Salgado, em Março de 2014, "mas depois há uma subida impressionante em Junho, o que comprova a violação das orientações do BdP".
Ricardo Salgado contorna a questão: “Eu julgo que consegui explicar, na medida do possível, a inexequibilidade do ring-fencing [barreira de protecção do BES em relação ao GES] num prazo de sete meses.” "O Grupo entrou em colapso por não haver tempo e não ser possível realizar a operação de médio prazo. Não houve fugas de dinheiro do banco."

11:04
Carlos Abreu Amorim: "Nas últimas semanas em que esteve à frente do banco há notícias de transferências para off-shores nas ilhas britânicas. De quem são esses off-shores?"


Ricardo Salgado: "Não tenho conhecimento de capitais que tenham saído do banco para terceiros."

Carlos Abreu Amorim: "Foi responsável por alguma operação bancária de capital superior a 1 milhão de euros desde Abril?"
Ricardo Salgado: "Era responsável do Comité de Crédito mas só tinha intervenção em operações de grande dimensão. Por isso, operações de um milhão de euros não caem dentro da alçada do Presidente da Comissão Executiva." 


11:16
Carlos Abreu Amorim questiona sobre o BES Angola (BESA).
Ricardo Salgado: "Se não tivesse havido um enorme problema em Angola, por que razão haveria uma garantia assinada pelo Presidente? A partir de certa altura começámos a ter informações em Lisboa... estranhas. Deve ter sido em meados da década. Os clientes queixavam-se que Álvaro Sobrinho não tinha tempo para receber os clientes. Houve um crescimento do crédito. Chegámos a uma altura, infelizmente, em que o BNA [Banco Nacional de Angola] diz que os bancos angolanos têm de ter total independência informática do exterior. Tivemos de dar autonomia informática a Angola em 2009. Acontece que começámos a ficar preocupados à medida que o tempo ia avançando. Começam a sair notícias... Está ali a dra. Cristina Ferreira, do PÚBLICO, que se deve lembrar disso."

Carlos Abreu Amorim: "Está a dizer-nos que sabia de tudo pelos jornais?"


Ricardo Salgado: "Recorro à sua sapiência jurídica. É crime em Angola violar o segredo bancário. Os nossos sócios angolanos sugeriram a substituição do doutor Álvaro Sobrinho. Pois bem, a partir da altura em que Álvaro Sobrinho sai, os órgãos de imprensa da propriedade dele, que adquiriu o Sol e o i, começa o bombardeamento na imprensa do doutor Álvaro Sobrinho a meu respeito, e não só."


11:31
Ricardo Salgado: Às equipas do BES que depois chegaram a Angola “foram-lhe levantadas as maiores resistências e ameaças”. E foi isso que nos levou a pedir apoio” ao presidente de Angola, justificando que a garantia foi dada porque as autoridades angolanas consideraram o BESA “um banco essencial para o desenvolvimento de Angola”.



09/12/2014 - 11:29

Carlos Abreu Amorim: “Mas o Banco de Portugal sabia da situação?
Ricardo Salgado: “Procurávamos informar o banco de Portugal sempre na medida do possível”. O supervisor português “levantou sempre as maiores dúvidas sobre a garantia” ao ponto de não a aceitar para efeitos de rácios de capital. “[Foi] extremamente lamentável que isso tenha acontecido”.

 “A forma da resolução, com a divisão do BES em banco bom e banco mau, deixando as acções do banco angolano no banco mau, significou considerar a garantia dada pelo governo de Angola como um produto tóxico. Tenha em consideração que há três bancos em Portugal com participações de grupos angolanos, BPI, BCP, e BIC. E colocar a garantia do sr. presidente da República de Angola no banco mau, como sendo um activo tóxico, é no mínimo uma enorme ofensa diplomática”.



09/12/2014 - 11:44

11:34
Carlos Abreu Amorim: "Falo do benefício que lhe foi atribuido pelo construtor José Guilherme que primeiro teria sido 8 milhões de euros e mais tarde veio a saber-se que era 14 milhões de euros. Teve algum proveito, nomeadamente neste último exemplo?"
Ricardo Salgado: "É um assunto do foro pessoal que está enquadrado em segredo de justiça."




09/12/2014 - 11:34

Carlos Abreu Amorim, resumindo as respostas de Salgado: “Embora fosse o principal responsável, era sempre o último a saber.”
Ricardo Salgado: “Eu não era o responsável do Grupo Espírito Santo como um todo. A minha responsabilidade era apenas na área financeira como presidente do conselho de administração da Espírito Santo Finantial Group e presidente executivo do BES. Vivia dentro do BES. Era dos primeiros a chegar e sempre dos últimos a sair. Passei 70% dos fins-de-semana a trabalhar em casa. Considero-me um verdadeiro trabalhador. Não posso aceitar, tendo dedicado a minha vida ao banco, e exclusivamente ao banco, de ser responsável pelo que se passou fora da área financeira.”


11:36
Começam as perguntas do coordenador dos deputados socialistas.
Pedro Nuno Santos: "Como é que pede a Machado da Cruz para continuar, depois do que fez?"
Ricardo Salgado admite alguns erros, mas garante: “Fui sempre um profissional consciente. Não houve desvios de capital para fora do banco, nem para administradores, nem para directores do banco. Os cenários apresentados nas televisões sobre saídas de dinheiros são totalmente falsos”.

11:46
Pedro Nuno Santos: “O BESA acabou por se transformar numa transferência de 3 mil milhões de euros dos contribuintes portugueses para outros, empresários angolanos, ou portugueses, não sabemos... Há uma responsabilidade de quem decidiu conceder o crédito ao BESA, que é do BES. É sua."
Ricardo Salgado: “O problema do crédito do BESA “emerge agora” porque a garantia do Presidente de Angola caiu. “Não acredito por outra questão que não a separação do Banco Espírito Santo num banco bom e no banco mau”. Aos deputados, deixa a interpretação deste facto.



Pedro Nuno Santos: “A garantia caiu por causa da resolução. Mas esse não é o problema. O problema é anterior. Rui Guerra está desde 2013 à frente do BESA. Dou-lhe só 5 empresas que receberam 1600 milhões de euros. Empresas desconhecidas e que boa parte desse dinheiro não se destinou a actividade produtiva. Era altura de começarmos a falar um pouco mais sobre este assunto."


Ricardo Salgado: “Não podemos discutir esses assuntos, por causa do sigilo bancário angolano. O doutor Rui Guerra diz que a responsabilidade desses créditos cabe a Álvaro Sobrinho. Também se sabe que a partir de certa altura, Sobrinho nomeou a cunhada para responsável da atribuição de crédito."

12:02
Ricardo Salgado: “Enquanto o GES estava em plena reorganização, pedimos tempo ao Banco de Portugal. Ora, tempo foi aquilo que não nos foi dado. Simplesmente não tivemos tempo e ainda há aí muitas empresas que ainda estão à venda”. A única que diz ter conseguido “fugir à pressão dos supervisores foi a Espírito Santo Saúde”, empresa que depois do colapso do GES foi alvo de várias OPA, acabando por ficar nas mãos dos chineses da Fosun. “A sentença de morte veio quando não foi possível fazer o aumento de capital da Rioforte. A sentença de morte é uma sentença que evolui ao longo do tempo. Nós estávamos a defender a credibilidade do grupo e dos clientes do BES, mas com sete meses para resolver um problema desta magnitude era impossível.
”

12:16
Pedro Nuno Santos: "Uma estratégia que pusesse em risco as suas empresas, nunca poderia ser liderada por si, que queria proteger o ramo não-financeiro. À medida que foi implementando as medidas do BdP, foi encontrado, segundo o Banco de Portugal, um esquema fraudulento para continuar a financiar o GES. Doutor Ricardo Salgado, como é que conseguiu convencer o senhor governador do BdP a mantê-lo?"
Ricardo Salgado: "Ouvi surpreendido as declarações do Governador do BdP segundo o qual teve um braço de ferro comigo. Nunca me foi sugerido que estava em avaliação a minha idoneidade. Bastaria um sinal [do Banco de Portugal] para eu abandonar a liderança do banco."


12:36
Começam as perguntas do CDS.
Cecília Meireles: "Esta é a parte que não consigo de todo entender: como é que a holding de topo não era auditada, não tinha revisor oficial de contas, e porque é que ninguém se questionou sobre a ESI..."
Ricardo Salgado: "A ESI, não era uma holding financeira e, portanto, não era supervisionada. Estivemos 40 anos no Luxemburgo e nunca tivemos um processo e agora parece que o céu nos desabou em cima da cabeça."

12:40
Cecília Meireles: "Quando é que o senhor governador lhe disse que se deveria afastar da liderança do BES?"


Ricardo Salgado: "O senhor governador nunca me disse que eu deveria sair da administração do BES. O que me disse, foi que a família, toda, deveria sair da administração do BES. Nunca, por nunca, eu tive uma reacção negativa. E se o senhor governador alguma vez me tivesse dito que eu deveria sair, eu sairia na hora, mas é que era na hora!"
"O senhor governador perguntou-me quem me deveria suceder. Foi algures antes do aumento de capital. Eu disse: o doutor Morais Pires e em segundo o doutor Joaquim Goes. O senhor governador disse-me que havia uma certa preferência pelo doutor Joaquim Goes, que gozava de muito apreço na área da supervisão. Por isso fiquei muito surpreendido quando ele foi suspenso. Como íamos para o aumento de capital, considerava essencial pôr o dr. Amílcar Morais Pires [para presidente executivo] e a dra. Isabel Almeida como CFO [responsável financeira]”.
Salgado lê um email enviado ao governador do BdP no dia 20 de Junho às 12h27, pedindo “mais uma vez e com urgência que fosse dada autorização ao nome de Morais Pires”, e frisando que João Moreira Rato, então presidente do IGCP [entidade responsável pela gestão da dívida do Estado] apontava dificuldades de mercado. Na resposta, às 13h35, Carlos Costa refere que “o Banco de Portugal não estava em condições de validar o nome proposto por um accionista sem avaliar os requisitos de idoneidade”.
"Quando em fins de Junho perguntei ao senhor governador se podia indicar o Amílcar, respondeu que precisava de dois dias para pensar. Depois telefonou-me a dizer que “será quem o senhor presidente entender"".

13:08
Segue-se Miguel Tiago, do PCP: "As provisões eram referentes a que imparidades, de que créditos, de que clientes?"
Ricardo Salgado: "Pois... Em relação à promiscuidade política, vi alguns comentários de políticos altamente colocados de que o grupo teria tido uma ligação especial ao governo anterior e ao PS. Todos os bancos em Portugal, de alguma dimensão, contribuíram com colaboradores seus para o Governo. Não tivemos uma bolha à espanhola, ou à irlandesa, mas tivemos imparidades no sector imobiliário. Não posso dar-lhe de memória clientes que tivessem créditos provisionados."



Miguel Tiago: "Entre os clientes do banco estavam também as empresas do GES. Não respondeu, portanto...Temos as listas dos grandes clientes dos bancos, mas os nomes foram apagados e a alguns deles foram cortados 100% do crédito."
Ricardo Salgado: "Tem toda a razão de levantar a questão, mas não lhe posso responder, mesmo que soubesse."

13:19
Miguel Tiago: "Como é que diz que o departamento de risco era eficaz e eficiente, quando se perderam 5 mil milhões de euros?"


Ricardo Salgado: "Senhor deputado, tenha paciência... O departamento de riscos angolano foi pervertido. Per-ver-ti-do. Aquilo não funcionou."

Miguel Tiago: "Em Portugal também surgem imparidades de 100%..."

13:31
Ricardo Salgado: "Se houve um braço-de-ferro com o governador do Banco de Portugal eu não senti..."
Miguel Tiago: "Tal era a força do governador.."

Ricardo Salgado: "Oh senhor deputado Miguel Tiago, eu não tenho por sistema mentir. Nunca menti nestas coisas. É fundamental que a governação do Banco de Portugal seja clara. Se o Banco de Portugal tivesse querido que eu saísse era muito fácil... [lê duas cartas enviadas a Carlos Costa em que se dispõe a sair e uma outra, ao chefe da supervisão, em que propõe um calendário para a sua saída] Portanto, fará o favor de entender que eu nunca pus qualquer obstáculo à mudança de governance do BES."


13:43
Ricardo Salgado: "Eu saio no dia 13 [de Julho]. No dia 12 enviei uma carta ao BdP a dar conta de financiadores interessados. O BdP não esteve na disposição de receber os investidores interessados. Remeteu o assunto para a nova comissão executiva. Eles não resolveram o assunto. Adiaram para o fim do mês. E no dia 30, o BdP dá 48 horas para o aumento de capital. Julgo que essa carta do BdP é uma forma de se desresponsabilizar. 48 horas para fazer o aumento de capital? Só se fosse um milagre. O que parece é que tudo estava orientado para o mesmo..."

13:45
A primeira ronda termina com Mariana Mortágua, do BE. "Quem detinha o resto do capital da ESI?"
Ricardo Salgado: "De cabeça, não sei..."

14:07
Ricardo Salgado: “No final do mês de Novembro, sabíamos que era essencial reforçar os capitais e ainda pensámos começar pela ES Control e a ESI [holdings de topo do grupo]. Mas quando nos apercebemos da situação real, entendemos que era completamente impossível estar a chamar capital para essas holdings. Daí passar-se a reforçar capitais na Rioforte”.

14:23
Ricardo Salgado confirma que o Governo foi informado, em Maio, sobre o risco sistémico do grupo, a ministra das Finanças, Carlos Moedas e também Durão Barroso, à data presidente da Comissão Europeia. 

“Isto não tinha nenhuma finalidade de obter vantagens estranhas ou promíscuas com o Governo. O que foi feito foi comunicar ao Governo, pela última vez (...), a eventualidade de um risco sistémico e a necessidade de obter um apoio intercalar para financiar a área não financeira”.


Mariana Mortágua: “Qual foi a resposta de Carlos Moedas e de Durão Barroso?”
Ricardo Salgado: “Eles ouviram, compreenderam”.
Mariana Mortágua: “Em que datas ocorreram essas reuniões?”
Ricardo Salgado, consultando uma folha A4: “A reunião com Passos foi a 20 de Maio. A reunião com a ministra das Finanças julgo ter acontecido a 14 de Maio, pensava terem ocorrido no mesmo dia; e a reunião com Carlos Moedas foi a 2 de Maio; da reunião com Durão Barroso, não tomei nota, o encontro não teve lugar em Bruxelas, mas sim em Lisboa.”

14:24
Ricardo Salgado, sobre o BESA: “O que pude constatar pessoalmente é que os dois accionistas angolanos do BESA, os generais Leopoldino de Nascimento e Helder Vieira Dias [estavam] muito indispostos com o dr. Álvaro Sobrinho. Houve mesmo uma reunião no BNA complicadíssima e os investidores angolanos disseram que queriam uma mudança de governação no BESA e a saída do dr. Álvaro Sobrinho.”
“Mostrei a garantia [do Governo angolano] ao Presidente da República e disse-lhe que estava convencido que ela se devia também ao bom relacionamento de Cavaco Silva com a Presidência de Angola.”



09/12/2014 - 14:45

14:34
Mariana Mortágua questiona o papel da ESCOM (Espírito Santo Commerce).
Ricardo Salgado: “Não posso avançar muito mais, porque a Escom está integrada num processo em que estou arguido.”
Mariana Mortágua: “Imagino que não me possa confirmar se recebeu ou não dinheiro do consórcio alemão que vendeu submarinos ao Estado português.”


Ricardo Salgado: “O assunto dos submarinos não está abrangido pelo segredo de justiça, que eu saiba. Foi, visto à luz de hoje, um dos erros de julgamento do GES ter entrado nessa operação para a qual contribuí com a decisão de participação. Foi uma operação pontual e única. Imediatamente a seguir decidimos não fazer mais nenhuma operação dessa natureza, pelo efeito terrível que teve sobre o grupo, em termos de reputação.
O Estado estava interessado em reequipar a marinha portuguesa com duas unidades novas. O BES foi consultado para estudar uma operação de financiamento que permitisse ao Estado pagar a aquisição desse material em condições de prazo o mais longo possível e o BES e o Credit Suisse montaram uma operação de leasing de longo prazo para a aquisição dos submarinos. A Escom fez um acordo com o grupo alemão para o representar, não sei em que altura, que deu origem a um benefício. Este benefício teve custos. Houve uma parte que foi distribuída em resultados, apurados pelo conselho superior do grupo, através de uma subsidiária da Escom.
Esses custos foram analisados pelo Ministério Público. A garantia que tenho dos administradores da Escom é que não foram pagas comissões a quem quer que seja a nível político.”

14:36
Ricardo Salgado, sobre o processo de resolução do BES, aplicado pelo Banco de Portugal a 3 de Agosto: “Foi um erro. A avaliação ainda está por fazer. Há uma leitura que não deixo de fazer, tendo em conta os valores perdidos com a intervenção pública. O nível de capitalização do BES foi completamente dizimado e, se o banco for vendido por um valor inferior ao da intervenção, é preciso ter em conta esse diferencial. E também ao nível do crédito, a situação do Novo Banco vai criar uma crise maior ao nível do emprego e das empresas.
”



09/12/2014 - 16:12

15:34
Começa a segunda ronda de perguntas, depois de uma pausa de 40 minutos.
Carlos Abreu Amorim, depois de criticar a "habilidade" de Ricardo Salgado em "compor uma narrativa alindada":
“À cautela foi-se munindo de elementos, para inviabilizar o eventual processo de levantamento da idoneidade, por parte do BdP. Autoriza que o Banco de Portugal revele a troca de correspondência que o regulador manteve consigo a propósito da idoneidade?”
O BES faliu por má gestão, por uma gestão pouco rigorosa, pouco sã e pouco prudente. O BES não faliu porque foi forçado a falir. Finou-se por culpa própria. Neste sentido julgo que a sua versão dos acontecimentos cai pela base.”
”Ainda na questão da recomendação dos livros: foi a primeira vez que vi alguém vir a uma comissão de inquérito recomendar aos deputados que expandissem os seus horizontes culturais. Recomendou, entre outros, o livro do Paulsen que considero de segunda categoria, o livro e a pessoa. Vou recomendar-lhe o livro de alguém que morreu há 1586 anos, mas que me parece muito indicado para uma pessoa que chegou a esta comissão de inquérito, não aceitou responsabilidades de coisa nenhuma, assinou durante cinco anos, de cruz, as contas que Machado da Cruz lhe colocou à frente na ESI, a culpa é do BdP, de Álvaro Sobrinho, ... O livro que recomendo para quem tem este tipo de postura é o livro Confissões, de Santo Agostinho.”

Ricardo Salgado: “O senhor deputado fez uma exposição bastante extensa. Nunca fui uma pessoa presunçosa, ou que pretendesse assumir posições de destaque. Sou uma pessoa sóbria e não tenho por costume alindar narrativas. Volto a dizer exactamente o mesmo: se tivesse sido levantada a questão da minha idoneidade, eu tinha imediatamente pedido a demissão. Aquilo que me levou a aceitar uma determinada liberalidade foi o facto de ter consultado juristas. O BdP podia ter-me dito que esses pareceres, por mais sábios que sejam, eu teria de sair. Eu teria saído imediatamente. Estamos abertos a dar tudo o que entender. Os elementos que tivermos estão abertos. O Banco de Portugal, por mim, está completamente livre de dar esses elementos ao senhor deputado.”
”Eu sou gestor bancário há 40 anos. Passei por 5, 6, 7 grandes crises internacionais. Fomos considerados um dos melhores bancos em termos europeus. Estou de consciência tranquila. Não tenho nada de que me arrependa. Tenho uma carga pesadíssima em cima de mim. Há responsabilidades do nosso lado. Mas também há responsabilidades de outros lados.”
”Recomendei aos senhores deputados aquelas obras porque elas são muito valiosas para compreender o actual contexto de crise. Sou católico praticante. Tenho o maior respeito por Santo Agostinho. Sempre que posso leio as meditações do Santo Agostinho.”



09/12/2014 - 16:56

15:59
A segunda ronda prossegue com Pedro Nuno Santos, do PS: "O país aceita com dificuldade, mas percebe, que o Estado possa intervir num banco com impacto sistémico, mas não percebe que interviesse num grupo não financeiro.”
“Temos nas transcrições das reuniões do Conselho Superior do GES isto [sobre a Escom]:
Vocês [os representantes dos cinco ramos da família Espírito Santo] têm todo o direito de perguntar “Mas como é que aqueles três tipos [os administradores da Escom] receberam 15 milhões?” A informação que temos é que há uma parte que não é para eles. Não sei se é, ou não é. Como hoje em dia só vejo aldrabões à nossa volta... Os tipos garantem que há uma parte que teve de ser entregue a alguém, em determinado dia.
Diz-nos que foi-lhe garantido que não foram entregues comissões a pessoal político. E a pessoal não político?”

Ricardo Salgado: “Gostaria que ficasse muito claro que não se pedia que o Estado capitalizasse a área não-financeira do Grupo.”
“Não sei quando essas gravações se iniciaram. Os senhores referiram várias vezes que eu mandava no grupo e tinha o domínio completo do grupo. Posso garantir que nem sequer sabia que estava a ser gravado... Alguém desencadeou as gravações dentro do grupo e as passou cá para fora. O que posso dizer é que se tratava de uma estrutura informal, com uma liberdade de linguagem não permitida em outras organizações. No meu entender cometemos um erro de julgamento ao ter entrado no negócio dos submarinos. Tive a garantia, tanto quanto se pode ter, da administração da Escom de que não tinham sido pagas comissões da área política. De facto, pareceu-nos que o montante que foi entregue aos accionistas nos parecia relativamente baixo. O Ministério Público tem uma acta assinada pelo Conselho Superior do grupo. O valor recebido foi superior a 5 milhões de euros. Não lhe sei dizer mais nada, a não ser que toda a envolvente, a situação terrível das contrapartidas, me levou a um excesso de linguagem a dizer que estava rodeado de aldrabões. As investigações que foram feitas criaram um mal estar muito grande, o que foi uma pena."




09/12/2014 - 17:13

09/12/2014 - 17:13

16:30
Segue-se Miguel Tiago, do PCP: “Em primeiro lugar, registamos a ironia de ouvir o presidente de um grupo que durante décadas faz a apologia do Estado mínimo e a retirada do Estado da economia e que depois, perante o colapso de um grupo, não financeiro também, não hesita em fazer contactos com o governo da República para que a República, que combateu activamente durante tanto tempo, seja a salvação. Mais valia não ter saído da esfera pública o banco que lhe foi entregue.
Ao que parece, o Banco de Portugal foi enganado pelo BES; ficamos a saber que o BES acha que também foi enganado pelo Banco de Portugal. Quem é que forçou a instituição financeira a desaparecer?”
”Qual a origem das verbas, e em que contexto, da bolsa de Durão Barroso nos Estados Unidos da América com carro e motorista assegurados pelo grupo?”

Ricardo Salgado: "O Estado mínimo e a iniciativa privada são sempre conceitos fundamentais na organização da sociedade que é bom ter presente. O Grupo investiu em Portugal 8 mil milhões de euros e criou 25 a 30 mil postos de trabalho. Julgo que, a seguir às privatizações, em que o Estado realizou encaixes substanciais, e comparativamente às indemnizações que foram pagas, o Estado conseguiu resolver na altura [1992] uma parte importante da sua equação financeira através das privatizações.”
”Sobre a Escom não lhe posso dizer mais, porque não sei. A Escom teve que pagar encargos, muitos encargos, técnicos, jurídicos. Não era a minha área, mas que não foram pagas comissões a políticos foi o que me garantiram que aconteceu.”
”O BES, segundo os dados da auditora KPMG, apresentou um património líquido de 3700 milhões, sem contar com os 2 mil milhões de provisões, em 29/8. Gostaria de ver as auditorias forenses para perceber. Mas o BES estava com 3700 milhões. O BES escusava de ter desaparecido. Não estávamos muito longe do que era necessário para ter sobrevivido. Era escusada esta resolução.”
”De facto, o doutor Durão Barroso tinha uma relação de aconselhamento connosco. Não me recordo do montante, mas não era nada de significativo.
Não sei o número de colaboradores que transitaram para o Governo. Houve vários ilustres membros do Governo que estiveram no BCP, no BPI.”

16:54
Mariana Mortágua, do BE: "É incrível que o 'dono disto tudo' apareça aqui como a vítima disto tudo... Quis fazer-nos acreditar que o seu império ruiu sem que soubesse?”
”Percebe-se que o Governo seja contactado por um banco em risco sistémico, mas não se percebe como Durão Barroso é contactado, ou Carlos Moedas...”
”Houve um acordo com o Banco de Portugal para que saísse após o aumento de capital?
”Passaram-se activos arriscados para o BESA para limpara o BES?”
”E por que razão o Conselho Superior recebe lucros do negócio dos submarinos da Escom?"


Ricardo Salgado: "Esta classificação do "dono disto tudo" é irrisória. Para mim, "dono disto tudo" é o povo português e os senhores são os representantes do povo português. Isto foi uma caracterização que me foi colada. Por fim, o dono disto tudo passa a responsável disto tudo ou vítima disto tudo. Não foi com a ideia de me vitimizar que presto esclarecimentos, mas para, com a objectividade possível, dar a minha visão dos acontecimentos. A minha responsabilização será certamente apurada pela via jurídica e pelos tribunais...
[No BES procurei] defender os interesses dos clientes dentro de uma envolvente política, económica e financeira extremamente complexa. Nunca passei por uma crise desta dimensão.”



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