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sexta-feira, 3 de julho de 2015

A Grécia em default parcial - I c. A dívida grega


A Grécia pretende negociar com os seus credores da Zona Euro para obter um acordo antes que o governo endividado fique sem dinheiro. Veja nesta página interactiva do Wall Street Journal quanto a Grécia deve e quando.

A unidade dos gráficos é o milhar de milhão de euros.

O FMI concedeu empréstimos à Grécia que ascendem a 21 mil milhões de euros, dos quais 1,6 mil milhões venceram em 30 de Junho e não foram pagos.

O BCE emprestou 27 mil milhões de euros, mas poderá ser preciso adicionar os 89 mil milhões de euros emprestados aos bancos gregos ao abrigo da Assistência de Emergência de Liquidez (ELA) — fixa desde domingo, 28 de Junho, o que obrigou ao encerramento dos bancos — que, por enquanto, são um risco do banco central grego.

A dívida aos investidores privados é apenas 34 mil milhões de euros porque, aquando do segundo resgate à Grécia, assumiram a perda de aproximadamente metade dos empréstimos.
Pior estão os Estados-membros da Zona Euro que emprestaram 53 mil milhões aos gregos no primeiro resgate, em 2010.

Depois do segundo resgate, em 2012, quem ficou a suportar a fatia de leão dos empréstimos foi o Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF), o antigo fundo de resgate do euro, que entrou com 131 mil milhões de euros.

Se o governo liderado por Alexis Tsipras mantiver o encerramento dos bancos e o controle de capitais na Grécia até 20 de Julho, conseguirá aguentar a banca grega com liquidez mas, nessa data, quando Atenas falhar o pagamento de 3,5 mil milhões de euros ao BCE, o país entra em bancarrota.








quinta-feira, 2 de julho de 2015

A Grécia em default parcial - I b. Quem paga um terceiro resgate?


A Grécia pediu aos seus credores da Zona Euro para negociar um terceiro resgate estimado em, pelo menos, 36 mil milhões de euros.

Imediatamente os contribuintes dos países da Zona Euro começaram a fazer contas para saber com quanto terão de contribuir. Veja um conjunto de perguntas e respostas sobre o processo e qual o impacto para Portugal.


Como o fundo de resgate do euro obtém capital e financiamento?
O fundo que tem actualmente a responsabilidade de financiar novos resgates ou outros apoios a Estados-membros da Zona Euro que enfrentem dificuldades — Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE) — tem o capital de 80 mil milhões de euros que já foi subscrito pelos vários Estados-membros, incluindo Portugal.

Este dinheiro serve como garantia para os investidores aceitarem comprar obrigações emitidas pelo MEE, permitindo-lhe endividar-se nos mercados financeiros até 500 mil milhões de euros, dos quais 47 mil milhões foram aplicados. No final de 2014 restavam 453 mil milhões de euros.

Depois o MEE usa este financiamento para emprestar a Estados-membros que precisem de ajuda financeira, cobrando uma taxa de juro igual ao custo de financiamento mais um spread.

Portugal terá de gastar mais dinheiro num terceiro resgate à Grécia?
Em princípio, não. O MEE tem um capital de 80 mil milhões de euros já subscrito pelos Estados-membros da Zona Euro, dos quais 2 mil milhões de euros saíram de Portugal, de acordo com a nossa participação no capital do BCE que é 2,5%.

No entanto, além dos 80 mil milhões de euros já subscritos, os Estados-membros da Zona Euro comprometeram-se a reforçar o capital do MEE até mais 625 mil milhões de euros, em caso de necessidade. Isto obrigaria Portugal a contribuir com mais 15,6 mil milhões de euros.

Qual o valor do terceiro resgate?
Na carta que dirigiu a MEE a pedir um novo programa de financiamento, o primeiro-ministro grego disse que esse financiamento seria somente para cumprir o pagamento de dívida e custos associados, tendo indicado que o montante de dívida (excluído títulos de curto prazo como bilhetes do Tesouro) que chega à maturidade até ao final de 2017 ascende a 29,1 mil milhões de euros.

No entanto, o programa anterior — que expirou a 30 de Junho sem que o governo liderado por Alexis Tsipras e os credores tenham chegado a acordo —, além de dinheiro para financiar dívida que chegava à maturidade, tinha disponíveis 10,9 mil milhões para financiar a recapitalização de bancos. Dinheiro que provavelmente será incluído num terceiro resgate.

O terceiro resgate vai mesmo acontecer?
O que houve até agora foi apenas um pedido formal da Grécia ao MEE a solicitar este programa com duração de dois anos (sem intervenção do FMI).

Os ministros das Finanças do Euro, na reunião de 30 de Junho, mostraram abertura para o negociar, mas um financiamento estará sempre associado a um programa de reformas que dêem a garantia de que será reembolsado.

Os outros líderes europeus já salientaram que não haverá negociações sobre um terceiro resgate antes do referendo de 5 de Julho, no qual os gregos vão ser chamados a pronunciar-se sobre a proposta dos credores que o Governo grego recusou.
Esta quarta-feira, 1 de Julho, foi notícia a carta que o primeiro-ministro grego enviou ao BCE, Comissão Europeia e FMI, disponibilizando-se para aceitar esta última proposta, embora com alterações.

Mas há risco para Portugal num terceiro resgate à Grécia?
Sim, como em todos os empréstimos, há juros e risco.

Se, no futuro, a Grécia não pagar os empréstimos ao MEE, este fundo europeu de resgate terá de abater as perdas no capital já subscrito.

Depois terá de solicitar aos Estados-membros que reforcem esse capital para garantir que a relação entre capital subscrito (actualmente 80 mil milhões de euros) e a capacidade de financiamento (os actuais 500 mil milhões de euros) é de, pelo menos, 15%.

Quando dinheiro é que Portugal já emprestou à Grécia?
Em 2012, Portugal estava sob um programa de resgate e, por isso, não teve de participar no empréstimo feito pelo Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF) que financiou o segundo resgate grego com 141,9 mil milhões de euros.

Ao abrigo do primeiro programa de resgate grego que foi financiado por empréstimos bilaterais, num total de 52,9 mil milhões de euros, o nosso País entrou com 1,1 mil milhões de euros.

A este montante junta-se uma exposição indirecta via BCE com duas componentes:
  • cerca de 0,7 mil milhões de euros das obrigações gregas compradas pelo banco central no pico da crise europeia ao abrigo do programa SMP (2,5% dos 27 mil milhões que estão no balanço do BCE)
  • e ainda 2,8 mil milhões de euros dos empréstimos do BCE aos bancos gregos através das operações regulares de liquidez (2,5% dos 110 mil milhões de euros).
    Este valor só estará em risco, se a Grécia sair da Zona Euro, tendo o BCE a possibilidade de descontar o colateral com valor em sua posse (dívida grega terá reduzido valor).


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Um comentário certeiro lido no Negócios:

Anónimo
02 Julho 2015 - 17:49
Eu acho que agora todos os países do euro deviam fazer um referendo para saber se os europeus aceitam fazer um terceiro resgate à Grécia.
Se eles podem escolher estar ou sair, nós devíamos escolher se queremos continuar a ajudar um país que é um saco sem fundo.


terça-feira, 30 de junho de 2015

A Grécia à beira da bancarrota - III h. O fim do resgate europeu


O governo grego solicitou ao Eurogrupo a extensão do actual programa de resgate. Ao fim da tarde, o fundo de resgate do euro declarou que o programa de assistência à Grécia termina hoje, terça-feira, 30 de Junho.

O fundo de resgate do euro — Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE) — emitiu esta tarde um comunicado oficial a alertar que o programa de assistência financeira à Grécia expira à meia-noite de hoje, terça-feira, 30 de Junho.

A instituição presidida por Klaus Regling alerta que, com o fim do programa do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF), que antecedeu o MEE, a Grécia perde o acesso à última tranche de 1,8 mil milhões de euros do empréstimo concedido. A Grécia vê também cancelado o acesso aos 10,9 mil milhões de euros destinados à recapitalização da banca que estavam previstos no programa.

Regling afirma ser "de lamentar que o programa do FEEF termine hoje sem que haja qualquer acordo e que os resultados positivos do programa sejam colocados em risco", acrescentando que "devido às políticas económicas adoptadas no âmbito do programa do FEEF, o país estava num bom caminho para um forte crescimento até ao segundo semestre de 2014". Realça que "os grandes sacrifícios exigidos ao povo grego estavam a dar resultado" e havia "perspectivas encorajadoras de crescimento".

O programa do FEEF começou em 21 de Fevereiro de 2012. Previsto para terminar a 31 de Dezembro de 2014, foi estendido por dois meses a pedido do governo de Antonis Samaras e, em Fevereiro deste ano, já com o governo de Alexis Tsipras, foi prolongado por mais quatro meses.
O montante do empréstimo em dívida ascende a 130,9 mil milhões de euros, o que torna o FEEF, de longe, o maior credor da Grécia.

O comunicado sublinha a singularidade do programa que hoje termina:
O programa de assistência financeira da Grécia foi único em muitos aspectos. Devido à gravidade das deficiências estruturais do país e das necessidades de ajustamento, foi o maior programa do FEEF ou do MEE de sempre. Também tinha, de longe, as condições de crédito mais favoráveis jamais concedidas a um programa do FEEF ou do MEE de um país. Incluiu o envolvimento do sector privado, com perdas consideráveis para os investidores privados. A Grécia beneficia de um empréstimo com a maturidade média de mais de 30 anos. O país não paga, nem taxas de juros, nem de resgate, sobre parte esmagadora dos empréstimos do FEEF até 2023.

O governo grego também solicitou um terceiro programa de resgate e reestruturação da dívida ao fundo de resgate do euro.
Os ministros das Finanças da Zona Euro já fizeram uma primeira avaliação negativa da proposta da Grécia, em reunião por teleconferência nesta terça-feira, mas pediram a Atenas para aprofundar e pormenorizar a sua proposta.


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A Grécia gastava 17,5% do PIB com os pagamentos de pensões, mais do que qualquer outro país da União Europeia, de acordo com os dados de 2012, os últimos disponíveis no Eurostat. Os cortes efectuados pelo Governo de Samaras baixaram este valor para 16%, mas Tsipras recusa fazer mais cortes de pensões porque a taxa de desemprego é elevadíssima, mais de 25% da população activa, e os pensionistas estão a sustentar as famílias dos filhos desempregados.

De 2010 a 2014, as pensões foram cortados 27%, em média, e 50% para os mais ricos. A idade média de reforma subiu dois anos em 2013. Mesmo assim, agora os homens gregos aposentam-se, em média, aos 63 e as mulheres aos 59 anos.

Actualmente as pensões gregas rondam 833 euros por mês, em média. Mas baixaram de 1350 euros, que era a média em 2009, segundo o instituto do maior sindicato do país, o INE-GSEE. Além disso, o governo de Tsipras fixou a linha de pobreza em 665 euros mensais e 45% dos pensionistas recebem pagamentos mensais abaixo desse valor.

A título de comparação, recorde-se que, em 2015, o Complemento Solidário para Idosos (CSI) dos pensionistas portugueses, com mais de 66 anos de idade, é 4909 euros por ano, ou seja, 409 euros mensais.

Se aos gastos com as pensões juntarmos os salários, obtém-se 80% dos gastos primários do Estado, ou seja, antes dos custos do serviço da dívida. "Os 20% restantes já foram cortados até o osso, de facto foi longe demais", disse uma fonte ligada às negociações. "Os funcionários públicos não têm lápis para escrever, os edifícios que necessitam de manutenção estão a desmoronar-se. Não é possível tornar sustentáveis as finanças públicas sem trabalhar sobre os salários e pensões."

Agora a Grécia perde tranches que totalizam 12,7 mil milhões de euros, a taxas de juro quase nulas, por recusar fazer as reformas profundas que a economia grega precisa e insistir numa nova reestruturação da dívida pública grega que iria penalizar os restantes 18 países da Zona Euro.


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Eurogrupo dá mais quatro meses à Grécia


Os ministros das Finanças da zona Euro acordaram, em princípio, estender o programa de resgate da Grécia por quatro meses, para evitar uma crise de liquidez em Março que forçaria o país a sair do euro.

Obtido apenas na terceira reunião do Eurogrupo em dez dias, o acordo exige que, na próxima segunda-feira, o governo grego apresente uma carta ao Eurogrupo listando todas as medidas políticas que pretende tomar durante o restante período do resgate, para garantir que vai cumprir as condições do mesmo.

Se a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o FMI ficarem satisfeitos, os Estados-membros da Zona Euro vão ratificar a prorrogação, quando necessário através dos seus parlamentos, como lembrou o ministro das Finanças irlandês Michael Noonan:
"É um importante primeiro passo que esperamos que venha a conduzir a uma segunda etapa de sucesso na noite de segunda/manhã de terça-feira, mas depois há uma terceira etapa com as ratificações nos parlamentos [da Alemanha, Holanda, Estónia e Eslováquia]."

A firmeza dos outros 18 Estados-membros da zona Euro, que cerraram fileiras contra as pretensões do governo grego em beneficiar de financiamento europeu mas sem contrapartidas, isolou o primeiro-ministro radical Alexis Tsipras e forçou-o a um grande recuo político uma vez que ele havia prometido acabar com o programa de resgate, terminar a cooperação com a troika de credores internacionais e reverter a austeridade.

Todavia terá sido o conselho de governadores do Banco Central Europeu (BCE), que anteontem se reuniu para avaliar novamente a linha de liquidez de emergência (ELA) concedida aos bancos gregos, quem exerceu a pressão decisiva sobre o governo grego. Ao alterar de 65 para 68,3 mil milhões de euros o limite dos fundos disponibilizados, uma subida muito inferior aos 10 mil milhões de euros solicitados pela banca helénica para poder suportar a enorme fuga de depósitos, deixou os bancos na iminência de falirem no curto prazo.
Por sua vez o Mecanismo Único de Supervisão, o regulador para a banca europeia, alertou os bancos gregos para não emprestarem dinheiro às entidades públicas porque os tratados europeus não permitem que o programa ELA seja usado para financiar directamente os Estados-membros.

Confrontado com a exigência de um compromisso claro até ao final da semana, o ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, enviou esta carta ao seu homologo holandês, Jeroen Dijsselbloem, presidente do Eurogrupo, pretendendo que a resposta dos seus colegas fosse apenas "sim", ou "não", e dada em reunião por teleconferência (negrito é meu):

Atenas, 18 de Fevereiro de 2015

Caro Presidente do Eurogrupo,

Ao longo dos últimos cinco anos, o povo da Grécia realizou esforços notáveis de ajustamento económico. O novo Governo está empenhado num processo de reforma mais amplo e profundo que visa melhorar de forma duradoura o crescimento e as perspectivas de emprego, alcançar a sustentabilidade da dívida e a estabilidade financeira, aumentando a equidade social e atenuando o custo social significativo da crise em curso.

As autoridades gregas reconhecem que os procedimentos acordados pelos Governos anteriores foram interrompidos pelas recentes eleições presidenciais e legislativas, e que, em resultado, várias disposições técnicas foram invalidadas. As autoridades gregas honram as obrigações financeiras da Grécia para com todos os seus credores, assim como afirmam a nossa intenção de cooperar com os nossos parceiros, a fim de evitar obstáculos técnicos no âmbito do Acordo-Quadro que reconhecemos como obrigatório no que diz respeito às suas disposições financeiras e processuais.

Neste contexto, as autoridades gregas estão agora a pedir a prorrogação do Acordo-Quadro de Assistência Financeira para um período de seis meses, a contar após a sua conclusão, período durante o qual vamos proceder em conjunto, e fazendo o melhor uso da flexibilidade dada pelo actual plano, com vista à sua conclusão bem-sucedida e avaliação com base nas propostas de, por um lado, o governo grego e, por outro, as instituições.

O objectivo da prorrogação solicitada de seis meses da duração do Acordo é:

a) Chegar a acordo sobre os termos financeiros e administrativos cuja implementação, em colaboração com as instituições, estabilizará a posição orçamental da Grécia, atingindo excedentes primários apropriados, garantindo a estabilidade da dívida e apoiando a realização dos objectivos orçamentais para 2015, tendo em conta a actual situação económica.

b) Assegurar, em estreita colaboração com os nossos parceiros europeus e internacionais, que quaisquer novas medidas serão totalmente financiadas, e ao mesmo tempo abster-se de acções unilaterais que prejudiquem as metas orçamentais, a recuperação económica e a estabilidade financeira.

c) Permitir ao Banco Central Europeu reintroduzir a cláusula de excepção [para as obrigações do tesouro gregas] de acordo com seus procedimentos e regulamentos.

d) Prolongar a disponibilidade das obrigações do FEEF [Fundo Europeu de Estabilização Financeira que financia em nome da zona Euro], que estão na posse do HFSF [Fundo Helénico de Estabilização Financeira], durante a vigência do Acordo.

e) Iniciar as conversações técnicas com vista à assinatura de um novo Contrato para a Recuperação e Crescimento [terceiro resgate] que as autoridades gregas desejam entre a Grécia, a Europa e o FMI, para dar seguimento ao actual Acordo.

f) Chegar a acordo sobre a supervisão no quadro da UE e do BCE e, no mesmo espírito, com o FMI durante o período alargado do Acordo.

g) Discutir o modo de desencadear a decisão do Eurogrupo de Novembro de 2012 relativamente a novas possíveis medidas sobre a dívida e a assistência para a implementação após a conclusão do Acordo prorrogado e enquanto parte do Contrato de acompanhamento [mecanismos de alívio de dívida previstos desde 2012].

Com o acima referido em mente, o governo grego exprime a sua determinação em cooperar estreitamente com as instituições da União Europeia e com o Fundo Monetário Internacional, de modo a: a) atingir a estabilidade orçamental e financeira, e b) permitir ao governo grego introduzir reformas substantivas e de longo alcance que são necessárias para restaurar os padrões de vida de milhões de cidadãos gregos através de um crescimento económico sustentável, emprego produtivo e coesão social.

Atenciosamente,
Yanis Varoufakis
Ministro das Finanças
Grécia


Depois de Atenas ter enviado a Bruxelas este pedido de prorrogação de seis meses, o ministro grego do Trabalho, Panos Skourletis, desvalorizou o pedido, afirmando que apenas estava em jogo o contrato de empréstimo assinado com a zona Euro: "O pedido é referente à extensão do acordo de empréstimo, não é para o programa de assistência em curso."

Vários países do euro ficaram descontentes com as declarações contraditórias das autoridades gregas e mostraram-se dispostos a deixar sair a Grécia da moeda única.

"A zona Euro está, certamente, mais estável e mais forte do que há cinco anos, pelo que a eventualidade hipotética de um dos seus membros sair deverá ter pouco impacto", disse o ministro estónio das Finanças, Maris Lauri, que fez notar que a Grécia não cairia na insolvência, se não quiser uma extensão do resgate europeu, pois obteve um superavit em 2014. Contudo, acrescentou, o país teria de passar a viver por conta própria.

O primeiro-ministro eslovaco Robert Fico, em entrevista ao Finantial Times, também disse que a Eslováquia encarava com "calma" a eventualidade da Grécia sair da zona Euro, se o país se recusasse a honrar os seus compromissos, tendo acrescentado ser "impossível" explicar aos eslovacos que tinham de pagar salários e pensões na Grécia.

Hoje, de manhã, foi a vez do ministro das Finanças de Malta, Edward Scicluna, dizer horas antes da reunião do Eurogrupo: "Penso que chegámos agora a um ponto em que vão dizer à Grécia 'se querem realmente sair, saiam'. E penso que eles vão levar isto a sério, porque a Alemanha, Holanda e outros vão ser duros e vão insistir que a Grécia pague de volta a solidariedade demonstrada pelos Estados-membros ao respeitar as condições."
O ministro de Malta criticou também o método de actuação de Alexis Tsipras e de Yanis Varoufakis: "Infelizmente para a Grécia, eles não sabem as regras e como o Eurogrupo trabalha. Eles são completamente novos e isso é negativo para eles."

Mas o aviso mais forte veio de Berlim, quando porta-voz de Wolfgang Schäuble considerou que a carta de Atenas não verificava os critérios acordados pelo Eurogrupo na segunda-feira, indo noutra direcção: “Na verdade, vai na direcção de um financiamento intercalar sem responder às exigências do programa [de ajustamento].”

Os esclarecimentos necessários exigiram o adiamento da reunião dos ministros das Finanças da zona Euro para as 16h30, em Bruxelas, para se poder realizar um encontro entre o ministro grego, Yanis Varoufakis, o homólogo alemão, Wolfgang Schäuble, o comissário europeu dos Assuntos Económicos, o francês Pierre Moscovici, a directora-geral do Fundo Monetário Internacional, Christine Lagarde, e o presidente do Eurogrupo, Jeroem Dijsselbloem.
O acordo aí delineado foi depois apresentado na reunião do Eurogrupo, tendo merecido a concordância de todos os ministros das Finanças. Pelas 20h começaram as conferências de imprensa e uma hora depois era divulgada a declaração do Eurogrupo (negrito é meu):

O Eurogrupo reitera o seu apreço pelos esforços de ajustamento notáveis realizados pela Grécia e pelo povo grego ao longo dos últimos anos. Durante as últimas semanas, envolvemo-nos, em conjunto com as instituições [Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI], num diálogo intenso e construtivo com as novas autoridades gregas e atingimos hoje uma base comum.

O Eurogrupo toma nota, no âmbito do acordo existente, do pedido das autoridades gregas para uma prorrogação do Acordo-Quadro de Assistência Financeira (MFFA), que é sustentado por um conjunto de compromissos. O objectivo da prorrogação é a conclusão com êxito da avaliação [do programa grego] com base nas condições do actual acordo, fazendo o melhor uso da flexibilidade que será considerada em conjunto com as autoridades gregas e as instituições. Esta extensão também serve de ponte no tempo para discussão de um possível acordo de acompanhamento entre o Eurogrupo, as instituições e a Grécia.

As autoridades gregas vão apresentar uma primeira lista de medidas de reforma, com base no actual acordo, até o final de segunda-feira, 23 de Fevereiro. As instituições vão fazer uma primeira análise sobre se esta é suficientemente abrangente para ser um ponto de partida válido para uma conclusão com êxito da avaliação. Esta lista será melhor especificada, e então alvo de acordo com as instituições, até ao final de Abril.

Apenas a aprovação da avaliação final do acordo prorrogado por parte das instituições, permitirá qualquer desembolso da parcela remanescente [7,2 mil milhões de euros] do actual Programa FEEF e a transferência dos lucros [1,9 mil milhões de euros] de 2014 do SMP [programa de compra de valores mobiliários]. Ambos ficam novamente sujeitos à aprovação pelo Eurogrupo.

Tendo em vista a avaliação das instituições, o Eurogrupo chegou a acordo que os fundos, até agora disponíveis no buffer FHEF [Fundo Helénico de Estabilização Financeira] [11 mil milhões de euros], devem ser confiados ao FEEF [Fundo Europeu de Estabilização Financeira], livres de direitos de terceiros para o período de extensão do MFFA. Os fundos continuam a estar disponíveis para o período de extensão do MFFA e só podem ser usados para custos de recapitalização e resolução da banca. Só serão libertados a pedido do BCE/SSM [Mecanismo Único de Supervisão].

Nesta perspectiva, congratulamo-nos com o compromisso das autoridades gregas de trabalhar em estreita parceria com instituições e parceiros europeus e internacionais. Neste contexto, recordamos a independência do Banco Central Europeu. Também concordámos que o FMI vai continuar a desempenhar a sua função.

As autoridades gregas expressaram o forte compromisso com um processo de reforma estrutural mais ampla e profunda que visa melhorar de forma duradoura o crescimento e as perspectivas de emprego, garantindo a estabilidade e resiliência do sector financeiro, e melhorar a equidade social. As autoridades comprometem-se a implementar reformas há muito necessárias para combater a corrupção e a evasão fiscal e melhorar a eficiência do sector público. Neste contexto, as autoridades gregas comprometem-se a fazer o melhor uso do prosseguimento da prestação de assistência técnica.

As autoridades gregas reiteram o seu compromisso inequívoco de honrarem plena e atempadamente as obrigações financeiras para com todos os seus credores.

As autoridades gregas também se comprometeram a garantir o superavit orçamental primário [saldo positivo sem os juros da dívida] adequado ou os recursos de financiamento necessários para garantir a sustentabilidade da dívida, de acordo com a declaração do Eurogrupo de Novembro de 2012. As instituições, para a meta de superavit primário de 2015, vão tomar em consideração as circunstâncias económicas em 2015.

À luz desses compromissos, congratulamo-nos que, numa série de áreas as prioridades políticas gregas podem contribuir para um reforço e uma melhor aplicação do actual acordo. As autoridades gregas comprometem-se a abster-se de qualquer reversão de medidas e alterações unilaterais de políticas e reformas estruturais que teriam um impacto negativo nas metas orçamentais, na recuperação económica ou na estabilidade financeira, tal como avaliadas pelas instituições.

Com base no pedido, nos compromissos assumidos pelas autoridades gregas, no parecer das instituições, e no acordo de hoje, vamos lançar os procedimentos nacionais com vista a chegar a uma decisão final sobre a extensão do actual Acordo-Quadro de Assistência Financeira do FEEF para quatro meses, pelo Conselho de Administração do FEEF. Também convidamos as instituições e as autoridades gregas a retomarem imediatamente o trabalho que permitiria a conclusão bem-sucedida da avaliação.

Continuamos empenhados em fornecer um apoio adequado à Grécia até que recupere o acesso total ao mercado, desde que respeite os seus compromissos no horizonte acordado.

Friday, February 20, 2015 - 01:48
Excerto das duas conferências de imprensa, a da troika com Christine Lagarde (FMI), Pierre Moscovici (Comissão Europeia) e o representante do Banco Central Europeu, com Jeroem Dijsselbloem (Eurogrupo) entre estes últimos, e a do ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis.

20/02/2015 - 22:07


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Ficam assim adiadas as promessas que permitiram ao Syriza ganhar as eleições legislativas gregas em 25 de Janeiro — em especial, as subidas do salário mínimo grego para 876 euros e do limiar de pagamento de IRS para 12.000 euros —, bem como o recente perdão fiscal (que anularia 90% dos 76 mil milhões de euros que os gregos devem ao fisco e à segurança social) para quando conseguirem derrotar a corrupção e a tradicional evasão fiscal grega.

O governo de Alexis Tsipras vai ficar o fim-de-semana prolongado (segunda-feira é feriado na Grécia) a fazer um trabalho de casa que será avaliado na próxima terça-feira pela Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI, ou seja, pelas equipas técnicas lideradas por Jean-Claude Juncker, Mario Draghi e Christine Lagarde e, se passar neste exame técnico, será aprovado pelos restantes 18 ministros das Finanças da zona Euro na reunião do Eurogrupo.

Não é um trabalho nada fácil: têm de elaborar uma lista de medidas de reforma de modo a manter este ano o superavit primário (saldo positivo, não contabilizando os juros da dívida) alcançado pelo governo de Antonis Samaras em 2014. Se as instituições julgarem que as reformas apresentadas pelo governo grego não cumprem o princípio de se compensarem financeiramente, para não colocar os objectivos orçamentais e de competitividade da economia em causa, “a Grécia estará em apuros e este acordo morto e enterrado”, reconheceu o próprio Yanis Varoufakis.
No entanto, o governo grego pode contar com o apoio técnico da troika CE/BCE/FMI para fazer o trabalho de casa...



Se o governo grego for capaz de passar nos exames técnicos de 24 de Fevereiro e do final de Abril, tem uma terceira etapa para ultrapassar logo a seguir. É que, em vez do prolongamento de seis meses pedido por Varoufakis, foram dados apenas quatro meses, o que coloca o final da vigência do empréstimo antes das amortizações de obrigações do tesouro previstas para Julho e Agosto, num total de cerca de 7 mil milhões de euros. E, ao contrário dos bilhetes do tesouro que podem ser pagos com a emissão de novos bilhetes, as obrigações do tesouro e a dívida ao FMI só podem ser amortizadas com o apoio dos parceiros europeus.

Além disso, ficou decidido que os 11 mil milhões de euros que estavam na posse da Grécia para capitalizar os seus bancos vão regressar ao FEEF, o fundo europeu de estabilização financeira. “É para garantir que não é usado pelo Estado”, explicou o presidente do Eurogrupo, Jeroem Dijsselbloem, com uma sinceridade desarmante.
No caso de Portugal, a parte não usada do montante destinado à banca permaneceu em Lisboa, mesmo depois do fim do programa.

A questão do BCE ter deixado de aceitar as obrigações do tesouro gregas como colateral para ceder liquidez aos bancos não foi abordada por ser uma instituição independente do Eurogrupo. Estas obrigações têm notação de 'lixo' das quatro grandes agências de rating mas beneficiavam de uma cláusula de excepção que foi retirada pelo BCE no início deste ano porque não tinha a garantia de que o programa de assistência grego, supervisionado por uma troika de instituições de que fazia parte, vai terminar com sucesso.

Em Março de 1985, a Grécia exigiu como contrapartida para aceitar a entrada de Portugal e de Espanha na CEE “um auxílio adicional no quadro das verbas para os PIM [ajuda às regiões mais desfavorecidas]: “dois mil milhões de dólares (cerca de 350 milhões de contos)”. Qualquer coisa como 1750 milhões de euros.
Desta vez foi servido aos gregos o prato frio (parece que foi quente) da vingança por Maria Luís Albuquerque que defendeu como uma leoa os 5000 milhões que, entre empréstimos e garantias, devem a Portugal.
Há 30 anos com o socialista PASOK, hoje com o socialista radical Syriza, os gregos lá vão mungindo a vaquinha europeia.


quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O duunvirato europeu fez um ultimato aos gregos





Numa reunião de emergência com o primeiro-ministro grego George Papandreou, os líderes da Alemanha e da França disseram hoje à Grécia que não receberia nem mais um centavo da ajuda europeia até decidir se quer ficar na Zona Euro.
Esclareceram, ainda, que salvar o euro passou a ser mais importante do que resgatar a Grécia.

Na entrevista que concederam após a reunião, os dois líderes falaram em uníssono:
"Preferimos alcançar uma estabilização do euro com a Grécia do que sem a Grécia, mas a meta de estabilizar o euro é mais importante", disse a chanceler Angela Merkel.
"Os nossos amigos gregos têm de decidir se querem continuar a viagem connosco", reforçou o presidente Nicolas Sarkozy.

Papandreou indignou os parceiros europeus e provocou ontem o pânico nos mercados financeiros ao anunciar na segunda-feira à tarde que a Grécia iria referendar o segundo plano de resgate de 130 mil milhões de euros negociado com os líderes da Zona Euro na passada quinta-feira.

Depois de um jantar, que Merkel classificou como "duro e difícil" na véspera da cimeira do G20 em Cannes, Papandreou disse que o plebiscito pode ocorrer em 4 de Dezembro, clarificando o objectivo:
"Não é o momento de indicar as palavras exactas mas, na essência, não é apenas a questão do programa, é saber se queremos permanecer na Zona Euro."
Apesar das sondagens revelarem que a maioria dos gregos, cansados de dois anos de austeridade crescente, consideram o pacote de resgate como um mau negócio para a Grécia, Papandreou espera mais apoio da população que do parlamento:
"Acredito que os cidadãos gregos são sábios e capazes de tomar a decisão certa em benefício do nosso país."
No entanto, em toda a imprensa grega, mesmo nos jornais tradicionalmente defensores do governo, é quase unânime a condenação de Papandreou.
O Eleftherotypia, um jornal de centro-esquerda, chama-lhe "O Senhor do Caos" e o Ethnos, outro jornal pró-governo, classificou o referendo como "suicida".

Os líderes da UE também já reagiram à carta de Papandreou, dizendo que queria negociar os detalhes do segundo pacote antes do referendo.
A UE e o FMI endereçaram uma mensagem à Grécia informando que não receberia, até à votação do referendo, a parcela urgente de € 8 mil milhões prometida para este mês, porque os credores oficiais queriam ter certeza de que Atenas iria cumprir o programa de austeridade.
Segundo diz Papandreou, a Grécia tem dinheiro suficiente para continuar a funcionar até meados de Dezembro, momento em que vai precisar de resgatar um empréstimo superior a € 6 mil milhões.

Sarkozy e Merkel já anunciaram que os ministros das finanças da Zona Euro vão reunir-se na próxima segunda-feira para acelerar decisões sobre a alavancagem do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF), a porta corta-fogo que pretende proteger os membros fracos que existam entre as 17 nações da Zona Euro.
Depois do caos nos mercados desencadeado pelo anúncio do referendo grego, o FEEF foi forçado a adiar o plano para levantar 3 mil milhões de euros no mercado obrigacionista.
Se Papandreou perder o referendo e a Grécia entrar em falência desordenada, os bancos europeus perdem muito mais do que os 50% da dívida soberana grega já acordados e entram em risco países com economias muito maiores, como a Itália e a Espanha, que o fundo não tem meios para socorrer.

A dúvida sobre a capacidade europeia em conter a crise da dívida colocou a Itália na linha de fogo dos investidores.
O prémio de risco dos títulos italianos sobre as obrigações alemãs atingiu hoje novo máximo, apesar do Banco Central Europeu (BCE) ter ido ao mercado secundário comprar dívida soberana italiana.
Enquanto o primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi realizava uma reunião de emergência do gabinete para criar medidas no orçamento que acalmem os mercados, no parlamento pedia-se a sua demissão.
O ministro das Finanças da Irlanda acredita que o BCE será forçado a prometer "uma muralha de dinheiro" para comprar títulos, algo que incomodou muitos políticos.
Apesar disso, o BCE é, neste momento, o único baluarte europeu contra os ataques dos mercados.

Por isso, os membros asiáticos do G20 estão a pressionar a Europa para enfrentar a crise antes que provoque danos graves na economia mundial.
O ministro das Finanças chinês, Zhu Guangyao, manifestou a indisponibilidade de Pequim em investir mais no FEEF e o colega japonês Jun Azumi acrescentou que "todos estamos confusos".
O presidente sul-coreano Lee Myung-bak disse esperar rapidez e ousadia da parte do G20 na contenção da crise, antes que transborde para o resto do mundo.





O homem que quis disciplinar os gregos, por um lado, e, por outro, obter mais benesses para a Grécia pregando um valente susto à banca europeia e ao eixo franco-alemão — a estratégia Jerónimo/Louçã — corre o risco de atirar os gregos para fora da Zona Euro.
Desta vez o cavalo de Tróia falhou a sua missão.


terça-feira, 17 de maio de 2011

Este acordo com o FEEF/FMI é um desastre?


"Estamos mais isolados do que queremos admitir. A saída do euro seria uma catástrofe para Portugal mas estamos a usar o argumento errado para nos garantirmos: que seria uma catástrofe também para os outros. Isso pode não ser verdade. O euro é mais importante para nós do que nós somos para o euro.

O argumento de que seremos socorridos porque temos dívida colocada em bancos estrangeiros é falacioso: se alemães, franceses e espanhóis nos ajudarem com dinheiro por causa dos seus bancos, podem preferir ajudar directamente esses bancos. E o argumento de que o ideal da União seria traído, sendo verdade, é apenas uma súplica final. De um dia para o outro, outros dirão que fomos nós que traímos esses ideais ao produzirmos as nossas falências depois das suas subsidiações. É uma visão egoísta? É. Mas não deixará um grama nas suas consciências.

(...)
O plano da troika é, mesmo, mas mesmo, uma última oportunidade, que temos de agarrar sem submissão mas com humildade. Só nós nos salvaremos, os outros apenas nos emprestam dinheiro. É bom acabar com a ilusão de que jamais nos deixarão cair e, em vez disso, olharmos para os compromissos brutais de redução dos défices."


carlos.gaspar 16 Maio 2011 - 17:30
CG - A reestruturação da dívida para um garoto de 5 anos
Será que aquilo a que chamamos "Economia" não funciona em Portugal?

Vejamos o que acontece quando a Deco aborda o problema do sobre endividamento de uma família.
Vamos usar como exemplo uma família com a prestação da casa e carro para pagar e que chega ao fim do mês sem dinheiro para pagar uma das prestações, a título de exemplo a prestação do carro.

A opção errada e desaconselhada pela Deco seria utilizar por exemplo um cartão de crédito para pagar a prestação em falta.
Ao se pagar um crédito com outro crédito estamos pagar uma dívida com uma nova dívida que estaremos obrigados a pagar. Assim rapidamente esta família poderá entrar em incumprimento de agora três contratos em vez de dois e perder o acesso não só ao carro mas também à casa pois os montantes em dívida ao aumentarem poderão vir a superar o valor dos seus activos ou bens já pagos ou seja a família vir a ser privada da sua casa e carro já parcialmente pagos.

A opção correcta e aconselhada pela Deco e seus economistas passa sempre por uma renegociação da dívida.
Esta opção passa pelo passo dado pela família reconhecer ao banco credor que se está a tornar difícil senão impossível, face aos rendimentos disponíveis pagar as suas dívidas nos modelos contratados inicialmente. Então o banco vai propor a renegociação da dívida em falta ou seja alargar os prazos de pagamento baixando assim as prestações mensais ainda que o valor da dívida aumente, as prestações ficarão dentro dos rendimentos disponíveis dessa família.
Se apesar deste alargamento dos prazos a prestação for ainda elevada procede-se à venda do carro ou mesmo da casa para se saldar dívidas com o intuito de se poder comprar uma casa ou carro mais económico e não se perder o direito a eles por acumulação de dívidas.

O que é que se está a fazer neste momento em Portugal?
Em Portugal foi reconhecido pelo governo, PS, PSD e CDS que não tínhamos capacidade de honrar os nossos compromissos de pagamento de dívida com os credores, basicamente bancos e sucedâneos, e como solução para o pagamento de uma dívida foi-nos apresentado como inevitável o recurso a um novo crédito. Ou seja pagar uma divida recorrendo a uma nova dívida.
Ora este é exactamente o modelo que todos os economistas denunciam como errado e meus Srs. e Sras. não existem dois modelos "certos" diferentes na economia!
No final de 2010 a nossa divida externa segundo alguns seria de aproximadamente 94% do PIB ou seja aproximadamente 160 mil milhões de euros e para honrarmos o pagamento das “prestações” desta dívida vamos contratar uma nova dívida de 78 mil milhões de euros ao que vai acrescer cerca de 30 mil milhões de euros em juros num total de nova potencial dívida de 110 mil milhões de euros potenciando uma quase duplicação da nossa dívida actual.

Esta pergunta impõe-se, na altura em que tivermos de pagar efectivamente mais de 200 mil milhões de euros e os seus juros, iremos imediatamente para a bancarrota? Teremos a hipótese de renegociar a dívida? Teremos a hipótese de apoiar o correcto funcionamento da economia? Ou teremos de recorrer a ainda mais créditos?

Estará tudo doido em Portugal? Será que só o PCP e o Bloco de Esquerda é que se opõem a uma opção deste tipo, que é extremamente danosa para a nossa sustentabilidade económica?

Eu não sou apoiante do BE ou do PCP, quem me conhece sabe que nunca fui, nem venho para aqui incitar ao voto, faço parte de um sem número de cidadãos, de entre os quais muitos economistas, que advogam que este acordo com o FEEF/FMI é um desastre e que este desastre pode ser explicado a qualquer pessoa mesmo que seja leigo em economia.

O acordo com o FEEF/FMI não faz sentido e é fraudulento para as expectativas dos portugueses pois só induz a mais e maiores "prestações" aos nossos credores que teremos de pagar com o nosso suor e trabalho, via impostos de todo o tipo sejam eles directos ou indirectos.


segunda-feira, 16 de maio de 2011

Aprovado o empréstimo externo a Portugal


"Comunicado do Eurogrupo e dos Ministros do ECOFIN

Hoje, os ministros aprovaram por unanimidade a concessão de assistência financeira, em resposta ao pedido de 7 de Abril de 2011 das autoridades Portuguesas. Concordam os ministros com a Comissão e o BCE que o fornecimento de um empréstimo a Portugal garante a preservação da estabilidade financeira na zona euro e da integridade da UE.

O apoio financeiro da zona euro e da UE será prestado nos termos de um programa negociado com as autoridades Portuguesas pela Comissão, em colaboração com o BCE e o FMI. Os ministros subscreveram o acordo sobre um programa de assistência financeira conjunto UE/FMI com a duração de três anos que é ambicioso, embora salvaguardando os grupos mais vulneráveis da sociedade. Baseia-se em três pilares:
  • Um ajuste orçamental ambicioso, mas credível, para assegurar a sustentabilidade orçamental, nomeadamente através da correcção do défice excessivo até 2013, respeitando o prazo original estabelecido pelo Conselho. A sustentabilidade orçamental será apoiada por (i) uma rigorosa execução orçamental, que inclui vigilância e relatórios reforçados, uma administração fiscal mais eficiente e um melhor controle das Parcerias Público-Privadas e das Empresas Estatais, (ii) reformas do sistema de saúde e da administração pública, (iii) um ambicioso programa de privatizações.
  • Reformas, promotoras do crescimento e aumento da competitividade, no mercado laboral, sistema judicial, indústrias de rede e sectores de habitação e serviços, para promover o crescimento sustentável e equilibrado e diminuir os desequilíbrios macroeconómicos internos e externos.
  • Medidas para garantir um processo de desalavancagem equilibrada e ordenada do sector financeiro e fortalecer o capital dos bancos, incluindo fundos de apoio adequados.
O programa foi anunciado pelas autoridades Portuguesas em 5 de Maio. Os ministros congratularam-se com o apoio manifestado pelos partidos da oposição e apelam a todos os partidos políticos para garantirem uma aplicação rigorosa e rápida do programa.

O pacote financeiro do programa vai cobrir as necessidades de financiamento até 78 mil milhões de euros, que serão repartidos equitativamente (26 mil milhões de euros, cada), entre: (i) o Mecanismo Europeu de Estabilização Financeira (MEEF), (ii) o Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF) e (iii) o FMI. Em simultâneo, as autoridades Portuguesas comprometem-se a encorajar os investidores privados a manterem voluntariamente o seu nível de exposição.

Os Ministros do Eurogrupo e do ECOFIN confiam que o programa de ajuste económico e financeiro vai responder de forma decisiva aos desafios orçamentais, financeiros e estruturais que a economia Portuguesa enfrenta. Assim, vai também ajudar a restaurar a confiança e a preservar a estabilidade financeira na zona euro.
"


Depois dos sobressaltos que antecederam esta aprovação pelos 27 ministros das Finanças da UE, será a vez do FMI, dirigido interinamente por John Lipsky, aprovar na próxima sexta-feira a sua participação na ajuda financeira a Portugal.

Recordemos os elevadíssimos fundos europeus enviados para Portugal entre 1985 e 1995 e que sumiram como água na areia.
Recordemos que em 1995 a dívida pública ascendia a 52 mil milhões de euros e correspondia a 59.2% do PIB.
Recordemos que em 2004 subira para 86 mil milhões, mas correspondia a 57,6% do PIB, e no fim de 2010 atingiu a enormidade de 160 mil milhões de euros, abraçando 94,2% do PIB, mas o autor desta proeza vai candidatar-se às eleições de 5 de Junho.

Que destino será dado pelos futuros governantes a este empréstimo de 78 mil milhões de euros que vai vigorar ao longo de sete anos e meio e acrescer à dívida pública?
Valha-nos os técnicos do FMI para vigiar esta gente.


domingo, 17 de abril de 2011

"O tesourinho"


"Pedro Santos Guerreiro - psg@negocios.pt


O salário? Corta. A pensão? Reduz. O contrato? Rasga. O emprego? Despede. A dívida? Adia. O certificado? Já não certifica.

Todas as certezas se estão a relativizar. Afinal, até o ferro se liquidifica, é apenas uma questão de temperatura. E o calor está de estoirar termómetros.

A Europa não perdeu a cabeça porque não se pode perder o que já não se tem. E os portugueses já perceberam que, se querem cumprimentar os seus chefes, têm de começar a aprender nomes alemães. É preciso aprender mais este: Wolfgang Schaeuble. É o ministro das Finanças de Angela Merkel e, ontem, quebrou um tabu: admitiu a necessidade de reestruturar a dívida pública da Grécia. E assim incendiou os mercados.

Reestruturar a dívida é uma maneira educada de dizer que não se consegue pagá-la. Primeiro aumenta-se o prazo de pagamento (tal como muitos portugueses fizeram com o seu crédito à habitação). Depois... bom, depois há várias formas de fazer perdões de dívidas. Eis o tabu para a Grécia, para a Irlanda... e para Portugal: conseguiremos algum dia pagar o que devemos?

O que Schaeuble disse ontem não era impensável, era apenas indizível. As opiniões públicas europeias (como a alemã ou a finlandesa) não estão disponíveis para "hair cuts" (que na prática significam perdões de dívida) ou de empréstimos que subsidiam, pela baixa taxa de juro ou pelo elevado prazo, os países falhados. Mas esse é um cenário que temos pela frente.

Mesmo vendendo "tudo" o que temos, através de privatizações, e reduzindo drasticamente o consumo e o crédito da banca, precisamos de tempo para reduzir o volume de endividamento. Mesmo o empréstimo da missão externa é, ainda assim, um empréstimo. É preciso pagá-lo.

A necessidade eventual de rever as condições de resgate de certificados de Aforro e de Tesouro é, apenas, mais uma das medidas de excepção. O dramatismo actual leva a que tudo o que dávamos por adquirido seja posto em causa. Começou pelos salários no Estado, já se agendaram as pensões mas não se vai ficar apenas pelos que não têm poder de contestar.

Aprendemos no último ano que a austeridade também tem uma cadeia alimentar: primeiro mastigam-se os mais fracos e apenas se rosna aos mais fortes. Os funcionários públicos, os trabalhadores por conta de outrem e os consumidores foram já a carne para canhão. Mas é preciso ir ao osso também dos lobbies e dos grupos de interesse.

Anulou-se meio TGV? A Mota-Engil processa. Anula-se o outro meio? Processa a Soares da Costa. Estão cobertas de razão. Mas os advogados mandam menos que os políticos. E os políticos têm de rever estes contratos com a mesma crueldade com que reviram os dos funcionários do Estado para lhes cortar salários.

O Estado deixa de ser paternalista mas continuará a agir como pai: um pai tirano. Com a mesma necessidade com que pedem ajuda para pagar as dívidas. Ou com a mesma urgência com que vão ter de rever as parcerias público-privadas. Rendibilidades de 12%?! Baixa para metade. Se não gostam, processem.

Os funcionários públicos, os pensionistas e os contribuintes não podem ser os únicos a pagar as facturas. É preciso entrar nos lobbies, económicos e políticos. Nas PPP. Nas empresas do Estado, nos institutos, nas fundações, nas empresas com monopólios protegidos. Sim, vamos chegar aos poisos de "boys" e aos financiadores dos partidos. Afinal, o FMI não é um saco de dinheiro nem um saco de pancada. Também está cá para isto."






Eis um artigo de opinião do Negócios que deu origem a um fórum espontâneo merecedor de registo, para o qual juntámos mais uma excelente infografia deste jornal sobre as vantagens e desvantagens da saída do país da Zona Euro:


PR1967 16 Abril 2011 - 12:58
A verdade que custa
Nos últimos anos os EUA e a UE, de um modo geral, e Portugal, em particular, têm vivido de forma absolutamente irreal:
  • não produzindo: as fábricas fecham, a agricultura é abandonada, as pescas idem,...
  • consumindo de forma crescente e absolutamente desnecessária
  • criando empregos em áreas sociais
  • construindo imóveis para ficarem desabitados
  • mudando de casa como quem muda de camisa
  • reduzindo horários de trabalho e "inovando nas reivindicações"
  • colocando nos governos pessoas absolutamente incompetentes
    enfim, fugindo à realidade.
E o resultado é a falência total deste modelo de "desenvolvimento". Em 15 anos, Portugal
  • desbaratou vários pacotes de incentivos comunitários
  • destruiu o aparelho produtivo (com o apoio da grande distribuição, i.e., SONAE, J. Martins, ...)
  • tem um sistema de justiça em que ninguém acredita
  • tem um sistema de ensino que atribui graus por simples presença (Como é possível que alguém, que não sabe ler e escrever, conclua o 9º ano?)
  • tem um sistema de saúde que serve essencialmente os profissionais de saúde.
Numa palavra, estamos falidos e hipotecados aos mais diferentes níveis.

Mas para este estado de (des)graça muito contribuíram:
  • os políticos do governo central, em primeiro lugar, porque deveriam dar o exemplo e, na maioria das vezes, o exemplo foi despesismo, corrupção, fraude e incompetência
  • os políticos das autarquias que, por absoluta falta de bom senso, acharam que uma cidade, vila ou região se desenvolve com grandes superfícies e amontoados de betão
  • o sector da justiça que tem feito figuras absolutamente miseráveis
  • a banca que tresloucadamente incentivou ao endividamento
  • os cidadãos que trabalham e pagam os seus impostos que continuam a aceitar este estado de coisas.

E agora:
  • diz-se mal do FMI e da Europa por estarem dispostos a nos emprestar dinheiro, mas também se diz mal se eventualmente não estiverem
  • esgotam-se os mais apetecidos destinos de férias (vamos aproveitar enquanto é tempo...)
  • temos os políticos, de manhã à noite, na TV, a dizerem-nos que as mentiras que nos disseram ontem foi para o nosso bem
  • temos uma rede de centros comerciais lindíssima (se não fosse o Belmiro a criar emprego "rasca" e a fechar mais umas lojas e fábricas, ninguém sobrevivia...)
  • temos passeios aos domingos nos hipermercados, com toda a família
  • temos muitas casas
  • não temos maternidades, mas temos "abortonidades"
  • temos a associação na hora (Tínhamos poucas, “né”?)
  • temos um aeroporto em Beja. (Viva!)
  • vamos ter um bocadinho de TGV (e muitos, muitos estudos)
  • temos o centro das cidades livre para os ratos nidificarem
  • consumimos quase tudo de fora (Somos mais "in"!)
  • temos licenciados em Matemática que mal sabem a tabuada e em Português que não sabem o presente do indicativo do verbo ser
  • já não temos temas fracturantes para iludir o "Zé Povinho"
  • temos uma economia social fortíssima (mas idosos a morrer como moscas e a serem encontrados 9 anos depois!)
  • temos cada vez mais telemóveis
Que bom!


Olisipone 16 Abril 2011 - 13:09
Oportunidade única
A verdadeira crise não é económica nem financeira: é contabilística e política. Reparem:
A UE, ou pelo menos a Zona Euro, não está insolvente. O Euro flutua nos mercados, devido a factores psicológicos, não económicos. A UE no seu todo continua a ser o maior Exportador mundial, acima da China. É também o maior Importador e tem o maior PIB do Mundo (dados do FMI).
O que se passa é que há diferenças muito grandes no seio da UE. Penso, e não sou o único, que o erro foi pensar que o Mercado Único ia trazer um desenvolvimento mais ou menos uniforme através da dissolução das fronteiras internas da UE. Na realidade, pondo em concorrência directa países fortes e fracos, 20 anos de experiência demonstraram que os mais fortes, ficaram mais fortes, e os mais fracos, mais fracos!

Mas, a questão de fundo é a seguinte: se todos devem uns aos outros, ou mesmo uns mais que outros, dentro do mesmo universo económico, na realidade a riqueza dos 16, ou mesmo dos 27, mantém-se a mesma. O problema é a forma como está distribuída e os direitos que foram sendo adquiridos sobre os excedentes e as dívidas.

Comunismo? Não! A UE estava disposta a partilhar os lucros, mas não as perdas! Isto é absurdo.

A solução está na UE assumir em conjunto as dívidas, emitindo, se necessário, títulos de dívida conjunta. Em funcionar, na realidade, como um só País com regiões mais rentáveis do que outras. Para isso seria necessário, obviamente, ter uma fiscalidade e uma economia únicas e acabar com as soberanias.

Porém, se verificarmos que ninguém está disposto a abdicar dos juros, ou a emprestar mais dinheiro, ou mesmo a anular as dívidas internas no seio da UE através de uma solução contabilística, nesse caso, o que temos é uma crise política no seio da UE que põe em causa a sua própria sobrevivência.

E nesse caso, qual é o nosso papel? Não vejo vantagem absolutamente nenhuma em continuarmos reféns de uma moeda que não controlamos, metidos num universo sem fronteiras onde não temos competitividade e a pagar dívidas em que incorremos, largamente, pelas condições que nos foram impostas.

Devíamos, pois, aproveitar a oportunidade única que temos até Maio e declarar-nos insolventes. Sair do euro e negociar apenas com o FMI! Aliás, decorre neste momento uma luta entre a UE, que nos quer penalizar, e o FMI, que nos quer dar uma taxa de juro mais baixa.

Esta é a última oportunidade que temos de nos vermos livres de uma UE que nos estrangula e nos arrasta para o abismo!


PR1967 16 Abril 2011 - 15:25
Comentário a olisipone "Oportunidade única"

Caro amigo(a) "Olisipone" do fórum,

Peço desculpa por discordar do seu comentário, pois no meu entender a realidade é diferente daquela que apresenta.

A Europa não é o bloco mais importante do mundo e está a perder competitividade para as novas potências (China, Índia, Brasil, ...) sendo, politicamente, um saco de gatos...
A Europa tem, aliás, meia dúzia de países, com a Alemanha à cabeça, que ainda têm um aparelho produtivo dinâmico e competitivo, mas aos quais estão ancorados países — entre os quais Portugal — sem uma estratégia, sem rumo e, pior que tudo, sem valores. Mas todos os europeus acham que devem ter os mesmos direitos embora o menor número de deveres possível.
A realidade é que, na Europa, os povos que menos produzem e mais gastam devem aos países que mais produzem (ex: Portugal deve à Alemanha) e no mundo acontece a mesma coisa (ex: os EUA devem à China).
Por isso aquilo que irá acontecer, quer nós queiramos quer não, é que, não por vontade própria e inteligência mas por não ser possível contornar a realidade eternamente (embora isso parecesse possível nos últimos anos), vamos ser obrigados a mudar de vida, gastando, não mais (como até agora), mas menos do que aquilo que ganhamos (pois teremos que pagar dívidas).
O que eu quero dizer é que, por mais conversa "mole" que tenhamos para ludibriar a realidade e culpas que possamos atribuir aos outros — mercados, FMI, UE, Globalização —, ninguém vai trabalhar e criar riqueza por nós e isso é o que todos devíamos assumir.
O único grande problema é que aqueles que nos transportaram para o abismo (políticos principalmente) e os que usufruíram deste regabofe (sector empresarial do estado, alguns funcionários públicos, responsáveis por fundações e institutos que para nada servem, grande distribuição, alguma banca, corruptos de quaisquer sectores, boys dos partidos, filhos e enteados de gestores de sei lá o quê e, também, pessoas que se endividaram para passar férias, ter iates, mudar de carro anualmente, ...) não sejam os únicos a pagar, pois se assim fosse a única coisa que existia era justiça.
P.S.: Em todas as classes existem pessoas competentes e incompetentes, contudo há sectores onde o desperdício é clamoroso.


Olisipone 17 Abril 2011 - 08:51
Resposta A PR1967
Uma coisa que nunca deixará de me espantar, é a capacidade dos portugueses para transformarem os seus desejos em realidades.

Uma coisa é uma hipótese como a que eu apresento e que me parece correcta. Pode, evidentemente, ser debatida. Foi para isso que a publiquei.
Outra coisa é negar as bases de um raciocínio em vez de debater o conteúdo.

"No seu entender" a realidade é diferente. Pois olhe, "no entender" do FMI, nas últimas projecções até 2016, o PIB nominal estimado da UE este ano será de 17,452.406 biliões de dólares, o da China 6,515.861 e o do Brasil 2,421.637. Em 2016, de acordo com o mesmo documento, estes números serão 20,791.880, 11,220.173 e 3,302.858, respectivamente.


JMGPI 18 Abril 2011 - 09:47
Olisipone - Portugal sair do Euro?
Portugal sair do Euro?
Certamente terá vantagens e desvantagens, como tudo na vida...

Eu não sou economista, mas interesso-me por estes assuntos e tento, na medida do possível, manter-me informado.
Se Portugal saísse da zona Euro, não iríamos ficar com uma moeda fraquíssima, desvalorizada e, mais preocupante que isso, extremamente volátil, desprotegida e que levaria muito, muito tempo até voltarmos a ter (se é que alguma vez tivemos) poder de compra no estrangeiro?


PR1967 18 Abril 2011 - 10:26
Sobre a última oportunidade (novamente)
Caro(a) Olisipone,

A sua visão para a discussão é, de facto, válida embora me pareça em alguns aspectos (saída da UE) algo radical.
As estatísticas que refere evidenciam a tendência que eu refiro, i.e., a perda da Europa e dos EUA, face aos países emergentes.
Agora o que seria importante em reflectir, também, era sobre o endividamento dos países e, se quiser verificar essas estatísticas, constatará que são assustadoras.
Mas há mais índices sobre os quais a nossa sociedade está em perda:
  • envelhecimento da população
  • qualificação da sociedade (Imagina quantos engenheiros são formados anualmente na China ou na Índia? Em contrapartida, Portugal forma advogados, sociólogos, psicólogos, comunicólogos, especialistas em acção social, ...)
  • qualidade do ensino (preocupante, excepto nas línguas e informática em que evoluímos imenso)
  • justiça (a falta de um sistema credível é, de facto, penoso)
  • valores (vivemos numa sociedade em que, para uma grande parte das pessoas, os valores são os do consumo)
E é por isso que, no meu entender, nós temos que encarar a realidade! Sendo certo que ainda temos uma qualidade de vida muitíssimo superior aos chineses, indianos, ... Mas os gregos na antiguidade também tiveram um grande império!

P.S.: Não se deduza do que escrevo que as profissões da área social não são úteis, simplesmente não são o motor da criação de riqueza, mas sim da distribuição da riqueza já gerada.


Olisipone 18 Abril 2011 - 11:56
Mais uma achega...
Na minha opinião, que sou historiador e não economista, parece-me que:
a) era melhor assumir o default agora, e não depois de assinado o pacto com a Tróica e
b) anteciparmo-nos, trar-nos-ia muito maior credibilidade

Claro que estamos em recessão. Mas seja de que modo for, Portugal encontrou-se com o seu destino e tem mesmo de reinventar a sua economia.

Não podemos continuar a ter um desequilíbrio de -35,7% na Balança Comercial (ou seja, a importar mais 20 mil milhões do que exportamos), importando 6950 milhões de bebidas e refrigerantes, quando importámos 8027 milhões de lubrificantes e combustíveis em 2010, por exemplo!

É preciso um controlo das fronteiras e produzir essencialmente para o mercado nacional e para exportação, em vez de importarmos 80% do que comemos, e de termos à venda por todo o lado produtos importados que só cá deixam as margens de lucro dos comerciantes e eventualmente o IVA, se for declarado...

Em política, (quase) tudo é possível. E a melhor estratégia é sempre surpreender o adversário.

Se Portugal optasse por tomar a dianteira neste processo, com uma moeda desvalorizada, o investimento estrangeiro iria vir de todo o lado. Sobretudo se soubéssemos gerir as nossas parcerias, não de acordo com os interesses da UE, mas com os nossos! Vocês dão-se conta de que o comércio com a UE nos é extremamente deficitário? Dos 56 mil milhões importados em 2010, 43 mil vieram da UE! E só exportámos para a UE 27 mil milhões, dos 36 mil que exportámos.

Claro que não podemos deixar de exportar para a UE. Mas devemos fazê-lo como todos os outros países de fora da UE e não numa situação de dependência como aquela em que nos encontramos.

E quanto à "honorabilidade" do nosso default, pergunto-vos: Qual é a moral de uma UE que se serve de nós para escoar os seus produtos há 25 anos, que compra os nossos ainda assim bastante baratos e nos vai emprestar dinheiro a um juro mais alto, e a um prazo mais curto, do que o FMI?


(actualizado)


terça-feira, 5 de abril de 2011

Banqueiros portugueses tiram o tapete a José Sócrates


Faria de Oliveira (CGD), Santos Ferreira (BCP), Ricardo Salgado (BES), Fernando Ulrich (BPI) e Nuno Amado (Santander Totta)


Líderes dos maiores bancos reuniram-se ontem secretamente no Banco de Portugal. Foram dizer que não emprestarão mais dinheiro ao Estado.
E agora?
Resta pedir ajuda ao FMI/FEEF. E já: 15 mil milhões de euros de apoio intercalar à Comissão Europeia, só para chegar até Julho.

Em 6 anos José Sócrates conduziu Portugal à falência. A banca portuguesa não está em risco de colapso, mas pode ter problemas devido à descida do rating da República. Daí os banqueiros optarem por salvar os seus bancos e abandonarem o barco.
A estrela de José Sócrates começou a empalidecer...


quinta-feira, 31 de março de 2011

Anatomia do apoio financeiro a Portugal


O ministério da Educação autorizou a promoção de um concurso nas escolas cujo prémio é a participação num episódio do "Morangos com açúcar", o estupidificante programa da TVI que dura há oito anos. Pelos vistos quanto mais ganham, pior são as decisões dos técnicos do “Eduquês” que infestam os gabinetes do ME.

Em contrapartida há empresas privadas que se preocupam em esclarecer e educar os cidadãos: aqui fica uma infografia do Jornal de Negócios sobre o apoio financeiro a Portugal, inspirada no PEC IV, em informação disponibilizada pela Bloomberg e nas conclusões da última Cimeira da União Europeia.
Sendo o resultado do trabalho de uma equipa com um economista e um engenheiro informático, pelo menos, é basicamente uma apresentação, com quatro diapositivos, cinco links internos e animação especializada, que pela sua simplicidade e clareza atrai a atenção do leitor:





Vamos assinalar alguns erros cuja correcção valorizaria esta infografia:
  • No diapositivo “Para onde iria” os dois membros da expressão numérica não representam o mesmo número.
    A parcela 10.000 deveria ser colocada no primeiro membro, com uma seta curva a ligá-la à expressão “Ajuda à banca”. E escrever 71.954 no segundo membro.
  • A ajuda estimada a Portugal não é apenas para reembolso da dívida mais défice. Ainda vai ajudar a banca.
  • O rectângulo de 2013 está mal dividido: a parte azul cresceu demais obrigando a preta a ficar demasiado pequena. Pode levar o leitor a concluir que a rubrica “Outras despesas” vai diminuir, o que é falso.

Mais uma infografia notável que, ao mostrar o peso das várias parcelas da despesa pública — prestações sociais, remunerações da função pública, outras despesas, juros e investimento — faz nascer a necessidade de perguntar:
Que despesas se ocultam na rubrica “Outras” capazes de igualar, no curto prazo, o valor das remunerações do pessoal?

E não vale a pena bramar contra as directrizes emitidas pelos chefes de governo da Alemanha ou da França, pois metade da quantia disponibilizada pelo Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF) será paga pelos contribuintes desses países. Nada mais resta aos devedores que baixar as orelhas e cumprir.

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