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quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Sobre a primeira greve laboral na Autoeuropa


Depois de 26 anos de paz laboral, a Autoeuropa teve a sua primeira greve por razões laborais, sete meses após a reforma do carismático coordenador da comissão de trabalhadores da fábrica da Volkswagen em Palmela.

De acordo com o novo modelo de horários que deveria ser implementado a partir de Novembro, cada trabalhador iria rodar nos turnos da manhã e da tarde durante seis semanas e faria o turno da madrugada durante três semanas consecutivas, com uma folga fixa ao domingo e uma folga rotativa nos outros dias da semana.

A greve foi marcada após a rejeição de um pré-acordo entre a administração e a nova Comissão de Trabalhadores — que apresentou a demissão e convocou eleições para 3 de Outubro —, devido aos novos horários de laboração contínua retirarem a folga fixa ao sábado.

O conflito laboral na Autoeuropa é uma questão de dinheiro ou de tempo para a família?

A Autoeuropa existe há 26 anos mas o trabalho ao sábado numa base permanente é desconhecido para os trabalhadores da empresa. Até agora, quando a produção assim o exigia, a fábrica trabalhava aos sábados de manhã, o que era remunerado como horas extraordinárias.

Agora, os trabalhadores apontam que os 175 euros mensais extra oferecidos pela administração ficam muito abaixo dos 400 euros mensais a que teriam direito se trabalhassem o sábado em regime de horas extraordinárias. Por outro lado, dizem que trabalhar todos os sábados, e turnos nocturnos, vai ter consequências negativas para a sua vida familiar e também em termos de saúde.

Já a administração da Autoeuropa precisa que a fábrica trabalhe sem parar durante seis dias por semana, em três turnos diários, num total de 18 turnos semanais, para produzir 240 mil automóveis em 2018.

Em entrevista ao Negócios, António Chora, o coordenador da comissão de trabalhadores durante 20 anos, descreve o contexto em que eclodiu o conflito. Primeiro, vejamos, resumidamente, o seu percurso de vida:
António Chora nasceu em Montemor-o-Novo, em 1954. Começou a trabalhar com 12 anos, primeiro na construção civil, de seguida numa empresa de tecidos, em Lisboa.

A partir dos 14 anos começou a estudar à noite no ensino técnico, tendo feito o curso industrial e o comercial. Mais tarde completou o ensino secundário, fazendo o complementar de Mecanotecnia.

Entrou na Siderurgia em 1977 e, como era militante do PCP, foi chamado para a actividade sindical embora não tenha sido delegado sindical a tempo inteiro. Passou para a Autoeuropa, em 1992, e aí trabalhou até à sua reforma, em Janeiro de 2017. Foi o coordenador da comissão de trabalhadores (CT) desta empresa entre 1996 e 2016, um período que é recordado pelo aumento do número de postos de trabalho e por relações laborais estáveis.

Desde o 25 de Abril, tem sido deputado municipal do concelho da Moita, onde reside. Em 1999, nove anos depois da implosão dos regimes socialistas nos países europeus do Leste, pediu a demissão do PCP e, no final desse ano, ligou-se ao Bloco de Esquerda. Entre 2006 e 2007, foi deputado do parlamento, em substituição de Fernando Rosas, durante seis meses.

O coordenador demissionário da CT, Fernando Sequeira, disse que o sindicato SITE Sul, afecto à CGTP, estava a realizar um assalto ao castelo na Autoeuropa. Concorda?
Sim, é claramente o assalto ao castelo e a tentativa do PCP pressionar o Governo para algumas cedências noutros lados. Mas isso tem sido a prática ao longo dos anos.

Este sindicato aproveitou a sua saída para entrar na CT?
Vamos ver se entram. Ainda tem que haver eleições. O sindicato montou-se em cima de quatro ou cinco populistas. É lamentável porque é um sindicato com história.

Está admirado com este conflito laboral?
Estou espantado. Nunca pensei ver tanta verborreia como tenho visto ultimamente, mas o populismo é assim.

Vai haver muita adesão à greve de dia 30 de Agosto?
Penso que sim, é capaz de haver uma adesão significativa porque as pessoas estão demasiado instrumentalizadas e demasiado confiantes nas palavras de pessoas que nunca viram na vida delas.

Mas a administração diz que não negoceia com sindicatos...
Sim, é o que se passa em todas as fábricas da Volkswagen, tirando o caso de Bratislava [Eslováquia] onde há dois sindicatos, mas em que cada dia de greve é pago pelos sindicatos a 50 euros, aqui não se passa nada disso.

Pode haver um acordo até ao final do ano?
Penso que sim, se houver uma nova comissão de trabalhadores com carisma. Gostaria que uma lista independente ganhasse as eleições. Normalmente aparecem quatro ou cinco listas, vai depender da divisão de votos por essas listas.

Tem-se falado em deslocalizar parte da produção do novo modelo T-Roc...
Eu já vi isto acontecer, em 2005 e 2006, na Volkswagen, em Pamplona, e na Seat, em Barcelona. Num caso não foram admitidos trabalhadores, noutro caso foram para a rua. Mas depois desta euforia vamos acompanhar esta situação com muita calma, com muita atenção.

Os 2000 novos postos de trabalho [criados por causa do T-Roc] ficariam em risco com a deslocalização?
Uma parte significativa sim, se calhar 700 ou 800 estão.

Tem-se comparado a Autoeuropa com a Opel na Azambuja [que fechou em 2006]...
Penso que a Volkswagen não trabalhará assim. Quando decidem é a longo prazo. Mas se a Volkswagen não conseguir produzir os automóveis aqui, há-de produzi-los noutro lado. Quanto mais próxima está a produção de um automóvel da produção dos seus motores ou da sua caixa de velocidade, mais barato se torna. Todos sabemos o preço que a logística tem hoje.

A Autoeuropa já esteve em risco de fechar?
As únicas vezes que a fábrica teve esse risco foi em 1999, quando a Ford desistiu do projecto, e depois em 2005 quando a Volkswagen falou em encerrar uma fábrica na Europa. Na altura falou-se na Autoeuropa por causa das questões logísticas e a outra era a fábrica de Bruxelas por questões salariais, custos de produção. Na altura estive quase três semanas na Alemanha com muitas reuniões com administrações e com comissões de trabalhadores e optou-se "por vender" a fábrica de Bruxelas à Audi. Em Dezembro de 2005 tinha havido também a recusa de um acordo, mas em Janeiro de 2006 foi aprovado por uma esmagadora maioria e tudo isso contribuiu para a manutenção da fábrica até hoje.

Quando se reformou já previa este conflito laboral?
Eu atrasei a minha saída um ano exactamente por causa disto. Eu era para ter saído em Dezembro de 2015, mas tinha assinado um acordo a dizer que até Fevereiro de 2016 tinha que ter os horários prontos por causa do T-Roc, mas a empresa não encetou negociações, e acabei por sair em Janeiro de 2017. Mas poderia ter-se arranjado algum tempo no meio disto tudo para negociar. Não podia estar a prolongar eternamente a minha saída. Não se negociou durante esta altura porque penso que havia a necessidade de defender os postos de trabalho que estavam em risco. A Autoeuropa teve que negociar com a Volkswagen para distribuir pessoas pela Alemanha até à vinda do T-Roc.

Saiu com o sentimento de dever cumprido?
Fui o trabalhador número 144 a entrar na Autoeuropa. Estive na liderança da comissão de trabalhadores de 1996 até 2016. E orgulho-me de ter sido membro de uma CT que começou numa fábrica com 144 pessoas. Saí de lá com 4 mil, contrariamente a muitos sindicatos que entraram com 11 mil trabalhadores e saíram com ninguém, como na Lisnave, CUF ou Quimigal. Tenho muito orgulho no meu trabalho.



T-Roc, o veículo que substituirá o modelo Sharan, cuja produção será descontinuada. Será produzido em Palmela pela Autoeuropa?


A greve teve uma adesão de 41%, mas bastava a ausência de apenas uma equipa da linha de montagem para o sindicato SITE Sul conseguir paralisar a produção de automóveis.

No parque industrial de Palmela existe um total de 13 empresas fornecedoras da Autoeuropa, actualmente com 1600 trabalhadores, metade das quais também foi afectada pela greve.

"Estão fábricas paradas devido à greve da Autoeuropa. Umas seis a sete fábricas foram atingidas pela greve, umas parcialmente, outras totalmente", afirmou Daniel Bernardino, coordenador da comissão de trabalhadores deste parque.

A maioria destas fábricas utilizam um processo de produção industrial conhecido por "just in time", isto é, os componentes não são armazenados, são enviados diariamente para a Autoeuropa.

"Esta paragem afecta-nos, porque como trabalhamos "just in time" é tudo escoado em poucas horas. Não temos espaço para armazenar a produção de um dia inteiro nas nossas empresas. O processo "just in time" obriga a que tenhamos stocks muito reduzidos", explica Daniel Bernardino.

Com o início da produção do T-Roc estas empresas tencionavam recrutar, pelo menos, mais 400 trabalhadores.


*


O pré-acordo previa que o horário de trabalho na Autoeuropa manteria as 40 horas semanais e a redução de folgas em dias consecutivos para 2/6 — teriam dias de folga consecutivos de três em três semanas, quando, a juntar ao dia de folga fixa, domingo, a folga rotativa fosse ao sábado ou à segunda-feira — teria a compensação financeira de 175 euros mensais.

No entanto, Arménio Carlos, secretário-geral da CGTP, explicou claramente o motivo da greve: "A Autoeuropa pura e simplesmente não pode deixar de se reunir com os sindicatos, tem que falar com os sindicatos porque são estes que representam os trabalhadores. Da mesma forma que pode e deve falar com a comissão de trabalhadores".

E fez exigências à administração da Autoeuropa: "Agora o que importa é dar o passo seguinte. Retomar o diálogo, expurgar tudo aquilo que possa gerar problemas na proposta que a empresa apresentou e apresentar alternativas. Depois deste passo, se se concretizar ou não, veremos se temos de dar o terceiro passo [nova greve], ou se porventura não é necessário".

Portanto, mais do que um conflito laboral, é uma guerra de poder político entre o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista Português. Sem quaisquer preocupações com o destino dos trabalhadores, quer da Autoeuropa, quer do parque industrial de Palmela. E, ainda menos, com a economia do país.

Alguns comentários lidos no Negócios:

abelavida
Há 16 horas
Se as condições não interessam aos trabalhadores da Auto Europa, estes só têm de não aceitar. Da mesma forma a VW também está no seu direito de mudar a produção para outro lado.
A questão é que se calhar há muita gente que gostava de trabalhar na fábrica dentro das condições que a mesma oferece.
Se falhar o bom senso de parte a parte quem acaba por perder é o país, ou seja, todos os portugueses.

Anónimo
Há 16 horas
Não vi aqui ninguém a defender 48h de trabalho para os seus colegas: tanto quanto sei, a proposta em causa visa que o pessoal trabalhe aos sábados e faça uma folga semanal rotativa, que também pode ser aos sábados. E por isso recebem 175,00€ extraordinários!

Tentando Perceber
Há 15 horas
As Guerras Políticas são assim, não querem saber do mal que fazem à Economia, a Portugal, daí que, por alguma simpatia que se possa ter pelo BE e pelo PCP, mete receio votar neles, por causa da irresponsabilidade que demonstram numa pequena luta de poder entre BE-Comissão de Trabalhadores e PCP-Sindicatos.

Anónimo
Há 15 horas
Este é o dilema global da globalização.
Aceitar imposições ou ir para o desemprego.
Tudo começou quando comprámos a primeira pechincha numa loja do chinês.
Agora estamos a competir com o chinês que trabalha em regime de cama quente.
Solução difícil, mas nunca com a demagogia sindical.

Anónimo
Há 10 horas
A CGTP só quer protagonismo. Em 26 anos de existência e em situações de redução da produção não houve greves, agora que esta vai aumentar é que fazem greve, realmente dá que pensar.

Ó palermas dos trabalhadores da AE
Há 13 horas
Os sindicatos são sempre contra o patrão mas tal não significa que estejam do vosso lado.
Vocês estão a ser manipulados e usados pelos terroristas económicos.
Abram a pestana e aprendam a negociar sozinhos, sem interferências exteriores, caso contrário os parasitas sociais ganham e vocês perdem.

Leão_da_estrela
Há 11 horas
Não estejam preocupados porque se a VW se chatear e levar a fábrica daqui para fora, o sindicato sustenta os 3500 trabalhadores até arranjarem emprego similar em ordenado e condições. Se não querem trabalhar dêem o lugar a outros. Esquecem-se que querem o fim-de-semana para ir aos centros comerciais e aos supermercados onde estão pessoas a trabalhar porque precisam de ganhar a vida.

Anónimo
Há 1 dia
Coitadinhos (dos empregados da AE, claro) onde eles se estão a meter...
A grande maioria deles são jovens e não conhecem a maneira destes sindicalistas negociarem! Já os da minha idade, ainda se lembram (ontem nos noticiários das televisões às 8 h deu para relembrar) das imagens às portas da LISNAVE, SETENAVE, SIDERURGIA NACIONAL, QUIMIGAL, SOREFAME, e por aí fora, e todos sabemos como acabaram. Resta a LISNAVE (chegou a ser das maiores construtoras/reparadoras navais mundiais) em Setúbal a fazer umas coisitas de nada, com meia dúzia de gatos pingados.
Não sei se já será tarde demais, mas abram a pestana, senão estão fecundados com um F muito grande...

Anónimo
Há 1 dia
A AE deve negociar com os trabalhadores (comissão) e não com sindicatos. A CGTP não deve atirar achas para a fogueira numa altura em que a empresa precisa de se concentrar no arranque da produção do novo modelo, pois é isto que vai dar continuidade e pagar o salário aos trabalhadores.


quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Reviver o passado no estádio 1º de Maio


No dia 1 de Maio de 1975, o Estádio baptizado com esse nome foi palco de um dos muitos momentos tensos que marcaram esse ano.

O País tinha um governo provisório onde se evidenciavam os ministros sem pasta Álvaro Cunhal, Mário Soares e Francisco Sá Carneiro, dirigido por um simpatizante comunista, o General Vasco Gonçalves.

No Alentejo, os comunistas haviam desencadeado o movimento Reforma Agrária com ocupação das herdades dos distritos de Évora e Beja, controlavam também o distrito de Setúbal e procuravam implantar-se no Norte. A Intersindical dominava as ruas de Lisboa com as suas manifestações que mobilizavam centenas de milhares de adeptos enquadrados pelos tractores e reboques apinhados de trabalhadores rurais alentejanos.
Em 11 de Março foram decretadas as nacionalizações da banca, da CUF, da Siderurgia Nacional e de outros grupos empresariais.

No entanto, os eleitores chamados a eleger os deputados da Assembleia Constituinte, em 25 de Abril, deram a vitória ao Partido Socialista de Mário Soares com mais de 2 milhões de votos.

Com apenas 700 mil votos, o PCP preparava-se para ganhar na rua o que havia perdido há alguns dias nas urnas. Em 1 de Maio, a delegação socialista deparou-se com os portões do estádio fechados pela justificação de que o espaço já se encontrava repleto. E quando Soares contornou o edifício para aceder à tribuna, a entrada foi-lhe novamente negada.


15/11/2015 - 00:01

José Maria de Freitas Branco, militante comunista, então com 20 anos, tinha sido convocado para a segurança da tribuna e, nessa condição, interveio no segundo momento. O seu testemunho, recolhido pelo Público no passado mês de Julho, dá uma versão dos acontecimentos diferente da narrativa de Mário Soares.


*


A exactidão das palavras e dos actos estará algures entre as duas versões. É, porém, verdade que a classe média desceu à rua — a manifestação na alameda Dom Afonso Henriques ficou célebre — e que Soares se transformou no seu paladino e no defensor da economia de mercado contra a economia marxista. Disso dependia a sua sobrevivência política, que ficou assegurada após o golpe abortado de 25 de Novembro de 1975, e a sua ascensão a primeiro-ministro em resultado das eleições legislativas de 25 de Abril do ano seguinte.

Passou-se há 40 anos a divisão da esquerda portuguesa. Uma divisão que, ironia do destino, outro político socialista, António Costa, teve de sanar também para sobreviver politicamente e realizar a ambição de ser primeiro-ministro. Só que, agora, após perder eleições, pondo em causa a descida dos défices públicos, a recuperação económica do País e, consequentemente, os interesses dos portugueses.

Estes acontecimentos são-me particularmente dolorosos: no 1º de Maio de 1974, o meu pai e eu subimos a avenida Almirante Reis, depois percorremos parte da Almirante Gago Coutinho, virámos para a Rio de Janeiro e entrámos no estádio no meio de uma multidão auto-disciplinada, sem megafones, sem bandeiras partidárias, na mais genuína manifestação de liberdade, igualdade e fraternidade que ocorreu em Portugal.

Depois surgiram os partidos políticos, geraram-se as clientelas que destruíram a indústria, a qualidade do ensino público e o prestígio do professorado, substituiu-se o mérito pelo facilitismo e pela cunha, com os interesses daquela gentinha que pulula nos pântanos partidários a sobreporem-se ao interesse nacional e ao desenvolvimento do País em benefício de todos os portugueses de boa vontade.

Outro desabafo:

Veríssimo Silva
15/11/2015 14:46
Temos aqui reproduzido pelo dr. Mário Soares que o inimigo do PS é o PCP e o BE e não a Coligação.
Não queremos voltar a viver em 2015 o que vivemos em 1975, porque o General Ramalho Eanes está na reforma e o Coronel Jaime Neves já faleceu.


quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Um oportunista político


No início de Outubro, António Costa afirmou que havia condições para desenvolver um trabalho sério com o PCP nos próximos dias para haver uma alteração da política em Portugal.


Negócios/Miguel Baltazar

07 Out, 2015, 20:24

O secretário-geral socialista reuniu em 7 de Outubro com os representantes do Partido Comunista Português (PCP). No final da reunião, António Costa afirmou que havia “condições para desenvolver um trabalho sério com o PCP nos próximos dias para haver uma alteração da política em Portugal”.

“Quanto às divergências [entre o PCP e o PS] são por demais conhecidas e acho que nos devemos concentrar naquilo que é essencial que são os pontos de convergência, o que estamos a discutir não são os programas de cada partido, mas as medidas de política que são prioritárias para o nosso país para podermos ter uma inversão da política que tem sido até agora seguida”, acrescentou Costa.

Integraram a comitiva socialista o presidente do PS, Carlos César, os deputados socialistas Pedro Nuno Santos e Ana Catarina Mendes e o coordenador do cenário macroeconómico socialista, Mário Centeno.




Ontem, após o encontro com o Presidente da República, o líder do PCP reafirmou que António Costa tem condições para formar Governo e para governar com políticas alternativas à austeridade dos últimos anos.

Numa curta intervenção sem direito a perguntas, ao contrário do que aconteceu com os anteriores líderes partidários que foram recebidos por Cavaco Silva, Jerónimo de Sousa garantiu que há condições para uma solução de governação "duradoura", mas sublinhou que tal dependia das políticas que forem adoptadas, com a solução a ser "tanto mais duradoura conforme defender os interesses nacionais".
Entendia, por isso, que o Presidente da República não devia sequer indigitar Passos Coelho como primeiro-ministro.

No entanto, não esclareceu como estão a decorrer as negociações entre o PCP e o PS, quais as exigências concretas que os comunistas fizeram ou que tipo de solução estável estão dispostos a garantir.



Hoje, a Frente Comum de Sindicatos da Administração Pública, afecta à central sindical do PCP — a CGTP —, começou a levantar o véu ao desafiar o PS, o BE e o PCP a aprovarem de imediato a redução do horário de todos os trabalhadores do Estado para as 35 horas.

"Fazemos esse desafio: tomem posse e façam a revogação da lei das 35 horas", disse Ana Avoila, a coordenadora da Frente Comum, na conferência de imprensa a seguir à cimeira que aprovou a resolução "por unanimidade" esta manhã.
"A revogação das 35 horas foi uma promessa do PS, do PCP e do Bloco de Esquerda", acrescentou, lembrando que independentemente do Governo que for formado estes partidos têm deputados suficientes para aprovar a medida.

O documento aprovado na cimeira da Frente Comum baseia-se numa lista de reivindicações que começaram a ser elaboradas no final da última legislatura, antes das eleições e da hipótese de um acordo à esquerda, e apresenta uma série de reivindicações, desde a reposição "imediata" dos cortes salariais à reposição do valor das pensões, passando pela reposição das 35 horas na administração pública e pela revogação "imediata" da sobretaxa de IRS.

Na conferência de imprensa, Ana Avoila esclareceu que há uma hierarquização das reivindicações:
"As questões que queremos ver resolvidas em primeiro lugar é o aumento dos salários, as 35 horas, o alargamento dos escalões do IRS e o descongelamento de carreiras, por esta ordem."

Apesar do documento aprovado determinar "a reposição imediata do valor integral dos salários, subsídios e pensões roubados desde 2011, incluindo as prestações sociais, bem como o descongelamento das progressões", Ana Avoila não afastou a hipótese de uma solução semelhante à que estará a ser negociada entre PS e Bloco de Esquerda: a da continuação dos cortes salariais nos primeiros três trimestres de 2016, com redução progressiva.
"Se em 2016 os cortes forem repostos nós ficamos muito contentes, porque não é mais que a obrigação que os governos têm. Se é uma ou duas ou três ou quatro vezes depois logo se vê, na altura de estarmos a negociar", respondeu Ana Avoila, quando questionada sobre a solução que está a ser negociada.

Embora não estejam afastados outros cenários numa futura negociação, para já a Frente Comum defende como primeira reivindicação não só a anulação imediata dos cortes dos salários mas também um "aumento de 4%, com um mínimo de 50 euros por trabalhador".


*


António José Seguro ganhou todas as eleições enquanto foi o secretário-geral socialista e António Costa, inebriado com a maioria absoluta que obteve em Lisboa nas autárquicas de 2013, lançou-se na corrida ao cargo com o argumento de que eram vitórias por “poucochinho”.
Esqueceu-se que Seguro era um opositor interno de José Sócrates enquanto ele pertencia à facção socratista: a função pública não lhe perdoou o corte de salários de Janeiro de 2011 e, nas legislativas de 4 de Outubro, Costa averbou uma derrota expressiva.

Na noite das eleições Costa era um político em situação desesperada. Mas não era um político desesperado. Não se demitiu para não pôr um fim na carreira política: nunca fez outra coisa, senão jogos políticos, nem sabe fazer mais nada.

Para ter maioria no parlamento precisava de juntar aos seus escassos 86 deputados socialistas, não só os 19 bloquistas, como também os 17 deputados comunistas. O PCP é um osso duro de roer devido à sua central sindical. Sofreu, porém, um rude golpe ao ser ultrapassado em número de votos e de deputados pelo Bloco de Esquerda, sendo relegado para quinta força política. É apanágio dos comunistas transformarem derrotas em vitórias e não fugiram à regra propondo um governo “de esquerda”.
Era justamente o que Costa precisava e acarinhou de imediato as ambições de poder dos comunistas. Afagou também os sonhos políticos dos bloquistas que fantasiam substituir o PS — tal como o Syriza esvaziou o PASOK, o partido socialista grego — e logo alinharam na mesma estratégia.

Costa, porém, é exímio em golpes traiçoeiros e vai devorar paulatinamente a actriz Catarina Martins e o economista teórico Francisco Louçã.

Primeiro vai satisfazer a exigência bloquista de reposição dos salários da função pública já no próximo ano 2016.
Se fosse uma medida viável do ponto de vista económico, durante a campanha eleitoral Costa teria prometido eliminar os cortes de José Sócrates, recolhendo de certeza os votos dos trabalhadores do Estado que votavam socialista mas, agastados, acabaram por cair no regaço bloquista. Não é. Agora, porém, a sua sobrevivência política é mais importante que a economia do País. Mercê da reposição dos salários na função pública, esses votantes vão regressar ao curral de Costa e ajudá-lo a ganhar as prováveis eleições legislativas de 2016.

Depois, quando os juros da dívida pública começarem a subir e o défice a descontrolar-se, diz que lamenta e repõe os cortes. Não foi a estratégia adoptada por José Sócrates, no ano das eleições legislativas 2009, com o aumento salarial de 2,9% dos funcionários públicos, seguido pelo corte de 5%, em média, em 2011, quando o dinheiro acabou e só os agiotas chineses lhe faziam empréstimos à taxa de juro de 6,7%?

Resta recordar que Seguro alertou Costa que era preciso controlar a fuga de eleitorado para a extrema-esquerda. Mas este rodeia-se de gente com a mesma falta de carácter dele. Carlos César é o socialista que rescindiu o contrato de compra do navio Atlântida, acelerando o fim dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo. Ao aceitarem negociar com os actuais dirigentes socialistas, os comunistas deixaram transparecer que estão realmente desesperados. Pedro Nuno Santos é o deputado que se está "marimbando que nos chamem irresponsáveis" e que tem uma bomba atómica para usar na cara dos alemães e franceses que emprestaram dinheiro a Portugal. Alguém acredita que discursos destes atraiam investimento para a economia portuguesa?

A golpada pode não correr bem a Costa. O PS é um partido de centro esquerda e os eleitores do centro podem não apreciar as consequências económicas das jogadas de Costa com a esquerda radical e ir votar na coligação PSD/CDS em 2016. Mas não se pode ter tudo...

No entanto, o grande problema de António Costa é a formação de um governo estável no quadro do actual parlamento.

Um governo de Costa com participação do BE e do PCP é impossível porque estes dois partidos afastaram a hipótese de aceitarem um convite do PS para formar governo.

Se conseguir fazer um acordo no parlamento, Costa vai provavelmente esbarrar logo na etapa de aprovar o orçamento de Estado para 2016 porque o PCP é ferozmente anti-euro.
No âmbito da campanha para as eleições legislativas, Jerónimo de Sousa defendeu a saída de Portugal da zona Euro, apesar dessa medida obrigar a maioria dos estabelecimentos comerciais a encerrar portas e a lançar os seus trabalhadores no desemprego.
Medida que também impediria os portugueses de ter acesso a produtos que se tornaram indispensáveis na vida quotidiana — máquinas de lavar, frigoríficos, placas e fornos, televisores, telemóveis, computadores, automóveis, ... — e que só uma moeda forte como o Euro nos permite adquirir.

Jerónimo de Sousa afirmou à saída da reunião de ontem com o Presidente da República que há condições para uma solução de governo duradoura que será “tanto mais duradoura conforme defender os interesses nacionais". Esta frase sibilina começou a ser esclarecida já hoje com as exigências delirantes da coordenadora da Frente Comum dos sindicatos da função pública. Se o PCP insistir nesta via, o governo de António Costa será pouco duradouro...


A opinião dos outros:

Anónimo
21 Outubro 2015 - 11:59
Já se derem posse ao PCP ficamos todos a ganhar. Saímos do euro e vamos pró Alentejo cantar "Oh rama e oh que linda rama"... Trocamos os telemóveis pela enxada e ficaremos todos mais saudáveis.

Anónimo
21 Outubro 2015 - 12:26
Tanto quanto o PS, BE e PCP disseram, estão em "condições" para criar as "condições" para se criar um governo. O que quer dizer que não há um acordo, mas apenas intenções. Ou seja, estão a ser aldrabões e querem um cheque em branco.

Kolla
21 Outubro 2015 - 13:18
"Camaradas, a fome, a miséria é o resultado da política de direita deste Governo do Partido Socialista, camaradas! O povo exige uma verdadeira política patriótica de esquerda, camaradas!" Esta era a retórica estalinista do Jerónimo no tempo do Sócrates. Pelos vistos a pregação deu resultado: o Tó Costa converteu-se!

cslr4017
21 Outubro 2015 - 14:01
Francamente, até me custa acreditar que isto está mesmo a acontecer. Um partido como o PCP que só sabe estar na sociedade a falar em "derrota das políticas de direita, derrota disto, derrota daquilo...", ou seja, um partido que só sabe estar na oposição ser chamado a dar propostas de governação que são contrárias a tudo o que Portugal precisa e tem pela frente, francamente não entendo... A mesma coisa para o BE.
Será que quem lhes coloca o voto tem real consciência daquilo que faz?

Pontodevista...
21 Outubro 2015 - 14:26
Pode ser que seja uma perca de tempo ou não. Eu gostava de ver se todos os deputados do PS aprovam a moção de rejeição. Quero ver se os deputados do PS estão todos com o Costa, o oportunista (não consigo ver este homem como uma pessoa séria. Ele é do mais baixo que há).
Temos que saber se o PS actual é o PS do futuro e o que se pode esperar dele. Bastavam 9 deputados do PS não votar contra o orçamento para o governo não cair e a estabilidade não ser posta em causa.
Temos que ver se os interesses partidários prevalecem sobre os interesses nacionais. Se o governo cair, então que governe o PS e depois a ver vamos o que sairá... Ficamos é com a certeza que o PS em peso assim o desejou (para o bem e para o mal). Eu como português não quero saber dos políticos para nada, o que eu quero é que eles sirvam o país e não se sirvam dele.

Anónimo
21 Outubro 2015 - 15:47
Mas o PCP com 8% dos votos servirá para alguma coisa? Os 8%, número insignificante de portugueses, insiste em atrapalhar o rumo do país e vive em delírios e utopias. É tempo de correr com esta gente que tanto mal tem feito a nação. Emigrem para os países comunistas e deixem-nos em paz.

Luso
21 Outubro 2015 - 17:40
Sejam arrojados ó parasitários sorvedouros dos impostos de privados: proponham já 30, 25, 20 horas, não mais, mas atenção, igual no sector privado. Depois sentem no sofá observando o empobrecimento geral. Parabéns, chegaram a Cuba.

Rui
21 Outubro 2015 - 17:43
Ana Avoila para as finanças, já. A WORTEN já anunciou que irá fornecer as impressoras para imprimir os euros que irão pagar estas promessas. O regabofe está instalado. No fim, isto será tudo pago pelos do costume: o povo.

J. SILVA
21 Outubro 2015 - 19:21
Penso, que uma das importantes razões que levou o PCP a sugerir o acordo com o PS, foi a perda do poder que se estava a verificar nos sindicatos afectos à CGTP. Sentem o cheiro do poder e toca de imediato a atacar a exploração e a exigir os direitos da classe operária...

T
18:08
O amor é lindo... Este vai ficar conhecido como o "Outono da Esquerda", mas o problema é que a seguir vem o Inverno, provavelmente do nosso descontentamento...

CALMA, CGTP. MAIS DEVAGAR
18:17
Sou partidário do acordo à esquerda.
Porém, aconselha-se um pouco de contenção por parte da CGTP e que não queiram matar a galinha dos ovos de ouro, que é como quem diz não queiram passar do zero para mil com estalar de dedos.
Só darão argumentos aos pulhas da coligação.


quarta-feira, 24 de junho de 2015

A privatização da TAP - IV


A assinatura do contrato de venda de 61% da TAP realizou-se hoje no Ministério das Finanças. Maria Luís Albuquerque e António Pires de Lima assinaram o documento pelo Governo, Humberto Pedrosa e David Neeleman pelos compradores.

Um Neeleman radiante pediu aos portugueses para confiarem nos novos donos da TAP que reconhecem a importância da empresa para Portugal, confirmou a vontade de reforçar as ligações ao continente americano, voando para mais destinos nos Estados Unidos e no Brasil, e prometeu fortalecer o hub português:

24 Jun, 2015, 09:43

Humberto Pedroso, dono da Barraqueiro, garantiu que ele e David Neeleman têm um projecto ambicioso para a empresa, mas sólido e realista, deixando uma promessa: "Somos empreendedores. Não somos investidores financeiros. Ambos somos fiéis às empresas que criamos e fazemos crescer."
Também garantiu que o centro de decisões e o hub continuam em Lisboa e afirmou ter orgulho em que a TAP seja portuguesa:

24 Jun, 2015, 10:07

O ministro da Economia, António Pires de Lima, lembrou que a TAP precisa urgentemente de ser capitalizada e que as regras europeias impediam o Governo de o fazer sem uma profunda reestruturação da empresa. Deixou bem claro: "As companhias de bandeira mais bem sucedidas na Europa são todas, repito, são todas empresas privadas."
No final, ficou um elogio à administração e trabalhadores da TAP: "O sucesso desta privatização é também, ou se calhar sobretudo, o reconhecimento por parte dos novos investidores das competências e capacidades de gestão e de trabalho desta empresa. Para aqueles que quiserem, e sobretudo merecerem, esta privatização significa também a capacidade de, profissionalmente, poderem voar mais alto."

24 Jun, 2015, 10:18

Maria Luís Albuquerque, ministra das Finanças, encerrou o período reservado aos discursos classificando a privatização da TAP como um marco: "Muito mais que um novo sucesso no programa de privatizações, ao assegurar a viabilidade da companhia aérea e a continuidade do seu contributo para a economia nacional, marca um verdadeiro momento de viragem."

24 Jun, 2015, 10:37

O momento da assinatura e as declarações de Fernando Pinto, o ainda presidente executivo da TAP que vai assegurar a transição e, eventualmente, poderá permanecer na empresa:



24 Jun, 2015, 19:22

Depois da assinatura do contrato que os tornou donos da TAP, David Neeleman e Humberto Pedrosa realizaram uma conferência de imprensa para revelar o plano estratégico da empresa:



24 Jun, 2015, 19:25

O consórcio Gateway quer criar 10 novas rotas para os Estados Unidos, passando a voar para Boston, Washington e Chicago. Para Africa e Europa o objectivo é aumentar a frequência de voos. No Brasil vai aproveitar a ligação à companhia aérea Azul.
A frota será renovada com 53 novos aviões que deverão começar a chegar em 2017. Com a renovação da frota e a capitalização da TAP, David Neeleman e Humberto Pedrosa pretendem investir entre 600 e 800 milhões de euros.


*


Alea jacta est. O fim das greves no Verão e nas épocas festivas, será proveitoso para o turismo e para as exportações portuguesas. Que todos beneficiemos, em vez de uma minoria privilegiada, sem demérito da qualidade do seu trabalho.

A reduzidíssima adesão ao protesto contra a privatização da empresa, convocado pela Comissão de Trabalhadores da TAP junto ao ministério da Economia, parece mostrar que os trabalhadores reconhecem que exorbitaram nas exigências de outrora e estão dispostos a colaborar lealmente com os novos donos da empresa e em proveito do nosso País.

O contrato de venda da TAP é claro: o encaixe para o Estado vai variar entre 16 e 150 milhões de euros, dependendo do EBITDA (resultado antes de juros, impostos, apreciações e amortizações), em 2015, e da entrada em bolsa que também está condicionada pelo desempenho da empresa.
O EBITDA, que em 2014 foi 90 milhões de euros, terá de atingir 280 milhões no corrente ano, uma meta que só será alcançada, se os trabalhadores colaborarem. No final, os portugueses farão a sua avaliação e lavram o veredicto: o peso da opinião pública é tremendo.




Jornal de Negócios


sexta-feira, 19 de junho de 2015

As subconcessões da Carris e Metro de Lisboa - II


O grupo espanhol Avanza ficou classificado em primeiro lugar no relatório preliminar do júri do concurso para as subconcessões da Carris e do Metro de Lisboa, representando a sua proposta uma poupança para o Estado em mais de 215 milhões de euros.




O grupo espanhol Avanza que será responsável pela gestão do transporte público urbano de Lisboa divulgou em comunicado que vai receber 1075 milhões de euros do Estado pelos contratos das subconcessões da Carris e do Metro de Lisboa. Este montante inclui o custo por quilómetro percorrido e ainda 30% das receitas geradas pelas empresas de transporte público de Lisboa.

No caso da Carris, o contrato ascende a 625 milhões de euros e dura oito anos, contando a empresa com 2255 colaboradores, entre os quais 1353 motoristas e 138 guarda-freios para conduzir uma frota composta por 635 autocarros, 54 eléctricos, 3 ascensores e 1 elevador que serve 120 milhões de passageiros por ano.
No Metropolitano de Lisboa, o contrato é de 450 milhões de euros e prolonga-se por mais meio ano, dispondo a empresa de 334 carruagens para servir anualmente 140 milhões de passageiros.

Ao longo dos oito anos de contrato, os 70% das receitas representam 1713 milhões de euros — 833 milhões a gerar pela Carris e 880 milhões pelo Metro — a entregar pela Avanza ao Estado, o que significa que o Estado terá um encaixe de 638 milhões de euros.

O preço era o único critério do concurso para a entrega da operação das duas empresas de transporte público de Lisboa a privados, com o Governo a assumir a meta de atingir uma poupança de, pelo menos, 170 milhões de euros durante a vida destes contratos de concessão.
A proposta do grupo Avanza significa uma redução dos actuais encargos em mais de 215 milhões de euros durante o período das subconcessões.

O grupo Avanza foi uma das três empresas — a par da RATP-Régie Autonome des Transports Parisiens e da National Express — que apresentaram proposta conjunta para a Carris e para o Metro de Lisboa.

Controlado pelo grupo mexicano ADO, a Avanza é o maior operador privado de transporte público rodoviário em Espanha, tendo sido criado em 2002. No entanto, daquelas três empresas, era o concorrente de menor dimensão e de mais reduzida expansão internacional — apenas operava os transportes rodoviários urbanos de duas cidades portuguesas, Vila Real (Corgobus) e Covilhã (Covibus).
Tem 10 concessões de longa distância em Espanha, onde é o segundo maior operador a seguir à National Express, além da linha internacional que une Madrid e Lisboa.




Depois do júri do concurso apresentar o relatório preliminar, no qual propôs a ordenação das propostas, segue-se o período de audiência prévia aos cinco concorrentes, no final do qual será feito o relatório final. Esse documento será remetido ao conselho de administração da empresa Transportes de Lisboa a quem cabe aprovar a adjudicação.
O Governo tenciona assinar o contrato de subconcessão com o vencedor deste concurso até meados de Julho.

19 Jun, 2015, 20:50
O secretário de Estado dos Transportes, Sérgio Monteiro, revela que o caderno de encargos proíbe qualquer aumento extraordinário do preço dos bilhetes, ou seja, o preço dos bilhetes só pode aumentar à inflação. Caberá ao grupo Avanza a renovação da frota de autocarros, tendo de ser substituídos todos os autocarros com mais de 16 anos por outros com menos de 6 anos.

20 Jun, 2015, 13:32
Sérgio Monteiro sublinha a experiência do grupo Avanza na gestão dos transportes rodoviários da zona metropolitana de Madrid e um especialista em transportes do Instituto Superior Técnico prevê o despedimento de cerca de 560 trabalhadores nas empresas de transportes públicos de Lisboa. Um sindicalista da Federação dos Sindicatos de Transportes (FECTRANS) diz que o grupo Avanza receberá 50% das receitas de bilheteira da Carris e do Metropolitano de Lisboa (na verdade, são apenas 30%), daí concluindo que estas empresas públicas continuarão a endividar-se.


*

O metro de Paris e também quase todas as linhas de eléctrico, uma parte das linhas de autocarro e duas linhas de comboio regional da Île-de-France, uma região administrativa que corresponde aproximadamente à zona metropolitana de Paris, são geridas pela RATP.
Trata-se de uma empresa pública francesa que tem um contrato de exploração com o Syndicat des transports d'Île-de-France (STIF), tendo obtido resultados positivos de 304 milhões de euros em 2013. Este sindicato é a autoridade que organiza os transportes da região Île-de-France, é dirigido pelo presidente do conselho regional e o seu objectivo é o bem-estar dos utentes. Era o meu concorrente preferido.

No Metropolitano de Lisboa o leque salarial ilíquido variava, em 2006, entre os 1000 e os 3500 euros pois os trabalhadores recebem, além dos salários base, uma componente variável que vai desde o subsídio de alimentação até ao de turno, passando por prémios de assiduidade e de desempenho. Os maquinistas, em especial, recebem subsídios de trabalho nocturno, subsídio de turno e subsídio pela abertura e fecho das portas que oscilava entre 317 euros e 475,50 euros mensais, entre outros.
Depois tentam desculpar-se com os swaps cujas perdas potenciais ascendiam a 1131 milhões de euros mas que não explicam, por si só, que o Metro de Lisboa tenha encerrado 2013 com uma dívida de 4281 milhões de euros.

Por que é que em Lisboa o objectivo dos sindicatos é dar mordomias escandalosas aos funcionários das empresas de transportes, empurrar os resultados destas para prejuízos e prejudicar os utentes com greves constantes?

Alguns comentários à notícia do Negócios:


Anónimo
14:12
O Partido Comunista e os sindicatos são os grandes perdedores ao não apresentarem propostas. As obras estão feitas e os espanhóis vão explorar. Os governos tiveram tempo de deixar as empresas nas mãos dos empresários portugueses.

Bom negócio
14:29
O Estado deixa de ter prejuízos gigantescos e ainda recebe 215 milhões! O medo dos sindicalistas compreende-se, pois só têm emprego os trabalhadores necessários, ah pois é! A mama acaba para muita gente. Ganham os utentes porque haverá menos greves.

Papão
14:49
A Avanza é especialista em transportes rodoviários, não tem experiência nenhuma em "metros" urbanos. Pode ser bom para a Carris, duvido seriamente que o Metro de Lisboa venha a beneficiar com este negócio.

Viva Portugal
15:19
Carris, Metro, TAP, Metro do Porto, STCP, o povo português começa a respirar de alívio ao fim de 40 anos de greves, prejuízos, dívida e mais dívida. Falta a vaca sagrada, RTP.


quinta-feira, 11 de junho de 2015

A privatização da TAP - II


O Conselho de Ministros escolheu o consórcio Gateway — constituído pela Barraqueiro e pela Azul — como vencedor do processo de reprivatização de 61% do capital da TAP por 354 milhões de euros. O Estado encaixa 10 milhões de euros no imediato.

David Neeleman, dono da Azul, que é a terceira maior companhia aérea brasileira, concorreu em parceria com Humberto Pedrosa, da Barraqueiro. A empresa portuguesa tem uma participação de 50,1% no consórcio Gateway, cumprindo assim o requisito da nacionalidade europeia que é obrigatório para poder controlar companhias aéreas da União Europeia.




Perfil de David Neeleman

Filho de americanos, nascido em São Paulo em 1959, criou até agora quatro companhias aéreas, a Morris Air e a JetBlue, nos Estados Unidos, a WestJet no Canadá e a Azul no Brasil.
É considerado um empreendedor no negócio da aviação, sendo-lhe atribuídas inovações desta industria como o e-ticket e a TV ao vivo durante os voos. Orgulha-se de nunca ter feito despedimentos em massa, de todas as companhias que fundou serem lucrativas e de ter sempre distribuído lucros pelos colaboradores.

Na passada sexta-feira 5 de Junho, data em que terminou o prazo para entregar ao Governo uma proposta melhorada de compra da transportadora aérea portuguesa, Neeleman tinha revelado por escrito alguns pormenores da proposta do consórcio:

"Uma parte importante do nosso plano é a renovação da frota. Iremos comprar 53 aviões novos e tecnologicamente avançados. Além de serem um elemento adicional de motivação para os nossos colaboradores são também um factor muito relevante para os nossos clientes já que ao serem mais cómodos, silenciosos e económicos constituem um factor adicional para que continuem a dar preferência à TAP."

Comprometeu-se também a reforçar o hub de Lisboa "para que a TAP possa continuar a contribuir com cerca de dois mil milhões para a economia portuguesa". E a "dar continuidade ao legado da TAP em matéria de segurança e profissionalismo de todos os que lá trabalham e, simultaneamente, criar uma companhia financeiramente sólida, no longo prazo, de modo a que todos se sintam orgulhosos por trabalhar numa companhia aérea que perdurará para as gerações futuras".

"Somos um grupo de parceiros fortes e comprometidos com uma história de sucesso e crescimento que fala por nós. Este é um compromisso que o Humberto Pedrosa e eu assumimos juntamente com os nossos parceiros perante o País, a TAP, os seus colaboradores e os seus clientes."

A proposta inicial previa um investimento de 350 milhões de euros com a compra de 53 aviões novos para a TAP.
Os planos de David Neeleman para a TAP passam, no que diz respeito à operação, por um reforço dos destinos no Brasil e em África, para os quais a companhia aérea voa actualmente, bem como dos destinos nos Estados Unidos para onde a Azul já voa. Qualquer uma destas estratégias exige o reforço da frota.
Neeleman tencionava distribuir anualmente 10% dos lucros da empresa aos trabalhadores, uma política que tem seguido em todas as transportadoras que criou.

Além da operação para o Brasil e para África, os pontos fortes da TAP eram a marca e a segurança.
Pelo contrário a sua elevada dívida — 1062 milhões de euros no final do exercício de 2014 —, a instabilidade laboral e a actual incerteza política sobre o desfecho do processo de privatização em curso desvalorizavam a companhia.


11 Jun, 2015, 16:15

Agora Isabel Castelo Branco, secretária de Estado do Tesouro, acaba de revelar que o Governo entregou 61% do capital da TAP ao consórcio Gateway, "no mínimo a 354 milhões de euros, valor que pode chegar aos 488 milhões de euros, em função da performance económico-financeira da empresa, durante o ano 2015". O valor também depende da possibilidade de efectuar uma operação de colocação no mercado de capitais que pode ser realizada até quatro anos após a conclusão da venda.


*


Depois dos prejuízos causados pela greve de dez dias dos pilotos no início de Maio, contar com resultados positivos na TAP, em 2015, será como considerar o ovo dentro do sim senhor da galinha. A venda será feita por 354 milhões de euros, dos quais 344 milhões para capitalizar a empresa e os restantes 10 milhões para o Estado, ponto final.

Também não se percebe onde vão estacionar os 53 novos aviões e, ainda menos, onde a Gateway vai arranjar o dinheiro para a locação operacional dos ditos, se a operação de colocação no mercado de capitais não se realizar. Mesmo assim, o contribuinte português exulta por ir deixar de pagar os prejuízos anuais da TAP:

Hip Hip Hurra
15:00
Agora falta a Carris/Metropolitano, Transtejo e outros ninhos de comunas sindicalistas parasitas.

Anónimo
15:11
Só ainda não percebi aonde é que vão estacionar os 53 novos aviões.
Aonde moro não temos garagem.

Anónimo
15:24
Obrigado, David, por ficares com o cancro da TAP! Uffa. Mais um 'sofreguedouro' do Estado fora da carteira dos Portugueses!

morador propr.na alta de lisboa
15:30
Os novos aviões vão ficar estacionados nos terrenos da Musgueira Norte e Sul. Vão deitar abaixo as casas que deram de borla aos ciganos e pessoal da Musgueira e também ao pessoal das Calvanas que construíram casas nos terrenos da câmara.

aa
15:38
100 milhões não dá para 53 novos aviões! Um avião custa, no mínimo, 15 milhões de euros. Só se vão comprar avionetas. Um Airbus 320 tem capacidade para cerca de 110 pessoas e custa cerca de 85 milhões.

anonimo
16:09
Obrigado, grande David, agora os grevistas vão fazer greve no *aralho! Os pilotos vão ficar com os ditos cujos entalados como merecem. Hoje foi um grande dia! Mas ainda falta os cancros malignos: Refer, metros de Lisboa, Porto e Sul do Tejo, STCP, Carris e RTP.

mestris
17:04
Não entendo este PS.
Então não se lembram que há 15 anos tentaram vender directamente à Swissair, sem concurso, e que o negócio não foi para a frente porque já na altura a Swissair estava em vias de falir. Se tivessem efectuado a venda, onde estaria hoje a TAP? Na massa falida da Swissair.
Vergonhosa a postura do PS em dizer que anulará a venda, se for governo. É a caça aos votos da malta da TAP, sempre são 8000 alminhas e mais o resto da família.

mestris
17:06
Mais um reparo: quem vai colocar lá os 400 milhões de euros que a TAP tem que pagar nos próximos 3 meses? A TAP está em falência técnica há mais de 10 anos.

00SEVEN
19:02
Ufff!
Que alívio!
Vender mais de 1 mil milhões de Euros de dívidas, acrescidos de mais de 500 milhões de Euros de capitais negativos e 11 mil grevistas por 10 milhões de Euros!
Grande negócio!
Quero este governo mais 10 anos no poder!


segunda-feira, 18 de maio de 2015

A privatização da TAP - I


O prazo para os interessados na compra até 61% do grupo TAP apresentarem uma proposta vinculativa terminou às 17 horas desta sexta-feira, 15 de Maio.


16 Mai, 2015, 13:49


Foram apresentadas três propostas vinculativas e pouco a pouco vão sendo conhecidos os pormenores das propostas que estão resumidos neste quadro:




18 Mai, 2015, 14:02


Miguel Paes do Amaral é português, Gérman Efromovich, dono da Avianca, tem nacionalidade polaca e David Neelman, accionista da Azul Linhas Aéreas Brasileiras, é norte-americano.
O Governo português tem, portanto, de confrontar-se com o facto de haver candidatos de fora da União Europeia e já contratou uma sociedade de advogados estrangeira, a Freshfields, para avaliar se os consórcios que estão a concorrer à reprivatização do grupo TAP cumprem as regras da União Europeia relativamente ao controlo de companhias aéreas, que impede cidadãos de fora da região de deter mais de 50% do capital.

Por outro lado, as ofertas para 61% do capital do grupo TAP, ao proporem uma injecção de capital de 350 milhões de euros, no máximo, não poderão retirar o grupo da situação líquida negativa de 512 milhões de euros em que se encontrava no final do ano passado.

As próximas etapas

No prazo de cinco dias úteis após a recepção das propostas, ou seja, até à próxima sexta-feira, e após ser ouvido o conselho de administração do grupo TAP quanto às propostas de projectos estratégicos, a Parpública — holding que gere as participações do Estado — terá de elaborar um relatório.
Esse relatório deve descrever pormenorizadamente as propostas recebidas e fazer a apreciação de cada um dos proponentes e das respectivas propostas, determinando o seu mérito relativo em função dos critérios de selecção definidos, o primeiro dos quais é a contribuição para o reforço da capacidade económico-financeira do grupo TAP.

Também a comissão especial de acompanhamento da reprivatização do grupo, liderada por João Cantiga Esteves, terá de se pronunciar sobre as propostas.

As regras do concurso, admitem que o Conselho de Ministros decida a realização de uma fase ulterior de negociações, com a finalidade de permitir a apresentação de propostas vinculativas melhoradas e finais pelos proponentes.

O Governo pretende que a escolha do vencedor seja feita duas semanas depois da entrega das propostas, ou seja, até ao final de Maio e quer assinar o contrato com o comprador de 61% do capital do grupo TAP até ao fim de Junho.
O futuro vencedor da privatização do grupo será obrigado a adquirir as acções destinadas aos trabalhadores, se estes não estiverem interessados. No limite pode vir a controlar 66% do grupo TAP.


A dívida do grupo TAP atingiu 1062 milhões de euros, no final de 2014, um valor tão elevado que os activos — aviões, terrenos e edifícios, equipamento, valor das rotas, ... — não conseguem cobrir a dívida e restante passivo, ficando o grupo com 512 milhões de euros de capitais próprios negativos, ou seja, em situação de falência técnica.

Mas, apesar da dívida do grupo ter atingido um valor excessivo, não vai ser o único motivo de preocupação para o eventual comprador.
É que o grupo registou prejuízos de 85,1 milhões de euros, um valor que representa um colossal agravamento face aos 5,9 milhões de euros registados em 2013 (p.25 do Relatório e contas).

A TAP Manutenção e Engenharia Brasil, unidade que nos últimos anos foi responsável pelo agravamento da situação líquida do grupo, ainda registou um prejuízo de 22,6 milhões de euros mas, se compararmos com os 40,3 milhões de euros registados no ano anterior, apresentou uma notável melhoria.

Donde veio, então, o descalabro nas contas de 2014?
Do transporte aéreo — a TAP SA — que passou de lucros de 34,0 milhões para prejuízos de 46,4 milhões. A administração do grupo explicou este resultado com "o impacto das greves na operação, pelo custo associado ao fretamento de aviões e, na vertente dos proveitos, pela redução de yield [receita média por cliente] no Brasil e na Europa, fenómeno transversal à globalidade da Indústria".


*

A Avianca é a maior companhia aérea da Colômbia e a segunda maior da América Latina. Tem várias subsidiárias: Avianca Brasil, que é a quarta maior companhia de aviação do Brasil, Avianca Costa Rica, Avianca Equador, Avianca El Salvador, Avianca Peru. A sua frota inclui 4 Boeing e 120 Airbus, dos quais 10 aviões A330.

A Azul Linhas Aéreas Brasileiras é a terceira maior companhia do Brasil em número de passageiros transportados e frota de aeronaves e a que mais cresce em termos de passageiros por quilómetro voado. Em Dezembro do ano passado, tornou-se uma companhia aérea de bandeira do Brasil ao começar rotas internacionais — 2 destinos nos Estados Unidos. Tem 5 Airbus A330.

A TAP SA garante ligações para 88 destinos, espalhados por 38 países e a sua frota é composta por 61 aeronaves de modelo Airbus, dos quais 14 aviões A330 e 4 aviões A340.

Um Airbus A320 custa 85 milhões de euros.
No caso do Airbus A330, o preço começa em 205 milhões de euros.
E para comprar o Airbus A350 mais baratinho, é preciso despender 240 milhões de euros.

Como contribuinte anseio pela privatização do grupo TAP, mas estas propostas de uma companhia latino-americana e de outra que está a iniciar a sua internacionalização causam-me algum desconforto. Mas quem quer investir num grupo que, assombrado por constantes greves, está a caminhar para o abismo?


sexta-feira, 8 de maio de 2015

Resultados da componente específica da PACC 2015


O Instituto de Avaliação Educativa (IAVE), responsável pela elaboração das provas que compõem a Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades (PACC), divulgou os resultados da componente específica da PACC, que se realizou entre os dias 25 e 27 de Março de 2015. Fica assim concluída a última etapa da PACC do ano escolar 2014-2015 que, como previsto, teve uma componente comum e uma componente específica.

Realizaram a componente específica os candidatos que foram aprovados na componente comum que decorreu a 19 de Dezembro de 2014 e cujos resultados foram divulgados em 26 de Janeiro.

Em nota divulgada no Portal do Governo, o Ministério da Educação e Ciência (MEC) afirma (o negrito é meu):
O domínio de capacidades básicas tais como o raciocínio lógico e a capacidade de comunicação em língua portuguesa são transversais à leccionação de todas as disciplinas. Para garantir a qualidade do ensino dos nossos alunos, é importante que os candidatos a seleccionar e recrutar como professores demonstrem o domínio dessas capacidades básicas. Por outro lado, é fundamental o domínio dos conhecimentos e capacidades específicas e essenciais para a docência em cada grupo de recrutamento e nível de ensino. Como sempre temos dito, não se pode ensinar bem o que não se sabe muito bem.

Sendo a qualidade da docência fundamental para a qualidade do sistema educativo e, por conseguinte, do sucesso na aprendizagem dos alunos, o Ministério da Educação e Ciência tomou uma série de medidas no sentido de garantir que sejam os candidatos melhor preparados a ensinar os nossos alunos. A Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades é parte fundamental de um conjunto de medidas, no qual se enquadra também:

- a obrigatoriedade de realização de exames de Português e de Matemática para admissão aos cursos de licenciatura de Educação Básica;

- o reforço da componente científica nos cursos de formação inicial — através de alterações introduzidas no decreto-lei das habilitações para a docência;

- a formação contínua de professores.

É fundamental que, à medida que se renovem os quadros docentes das escolas, o que irá acontecer de forma acelerada na próxima década, se garanta a entrada de uma geração de professores altamente preparada e qualificada. É ambição do Ministério da Educação e Ciência que esta prova seja também um incentivo a uma maior exigência na formação inicial dos candidatos a professores.

Apresentamos a tabela de resultados da PACC, no ano escolar 2014-2015:



O número de candidatos admitidos à realização da componente específica da prova foi 1565, para um total de 2338 inscrições válidas a 24 disciplinas distintas.
E por que existem mais inscrições do que professores inscritos? Porque cada candidato pôde inscrever-se em mais do que uma prova, consoante os grupos de recrutamento para os quais tem habilitação profissional. Por exemplo, se um candidato tem habilitação profissional para leccionar Português (nível 2) e Francês, então podia fazer as provas das duas disciplinas.

As provas específicas, cujos enunciados e critérios de classificação se encontram aqui, realizaram-se em estabelecimentos de ensino da rede pública, em Portugal, e em outros estabelecimentos fora do território nacional.
Foram classificadas 2153 provas, porque houve 176 faltas, 6 desistências e 3 provas anuladas. Estas provas foram classificadas na escala de 0 a 100 pontos, sendo aprovados os candidatos que obtiveram uma classificação igual ou superior a 50 por cento da cotação total.
A reprovação de um candidato impede-o de candidatar-se a um lugar nas escolas no próximo ano lectivo, mas não o impede de realizar novas provas nos anos subsequentes.

Em comunicado de imprensa, o IAVE destaca, numa análise preliminar dos resultados, que as médias globais se situam entre os valores 41,8 da Educação Especial 2 e 88,2 da Educação Especial 3, distribuindo-se da seguinte forma:
  • igual ou superior a 70: Artes Visuais (nível 1 e 2), Educação Especial (1 e 3), Electrotecnia, Informática e Música;
  • entre 60 e 69: Alemão, Educação Pré-Escolar, Espanhol, Filosofia, Geografia, Inglês e Matemática (nível 2);
  • entre 50 e 59: Economia, Educação Física, Francês, História, Matemática (nível 1) e Português (nível 1);
  • entre 40 e 49: Biologia e Geologia, Educação Especial 2, Física e Química e Português (nível 2).

No universo dos candidatos que realizaram as diversas provas específicas registam-se as seguintes taxas de aprovação:
  • superiores a 90%: Artes Visuais (níveis 1 e 2), Educação Especial (1 e 3), Educação Pré-escolar, Electrotecnia, Geografia, Informática e Música;
  • entre 70% e 90%: Alemão, Educação Física, Espanhol, Filosofia, Francês, Inglês, Matemática (nível 2) e Português (nível 1);
  • entre 50% e 70%: Biologia e Geologia, Economia, História e Matemática (nível 1);
  • inferiores a 50%: Educação Especial 2, Física e Química e Português (nível 2).


*


Biologia e Geologia surge em quarto lugar nas disciplinas com pior classificação média, 48,8 numa escala de 0 a 100 pontos, sendo 42,3% os candidatos que reprovaram.

O resultado obtido em Educação Especial 2 (apoio a crianças e jovens com surdez moderada, severa ou profunda, com graves problemas de comunicação, linguagem ou fala), com a média de 41,8 pontos e uma taxa de reprovação de 100%, ainda foi pior, mas só houve um candidato a fazer a prova.

No entanto, o que é grave e necessita de reflexão é o que se passou nas disciplinas Física e Química e Português, ambas do 3º ciclo e ensino secundário.
Mais de metade dos 106 candidatos (60,4%) que fizeram o exame de Português e dos 68 candidatos (63,2%) que fizeram a prova de Física e Química ficaram reprovados. Foi também nestas duas disciplinas que a classificação média das provas foi mais baixa: 46,2 e 44,4, respectivamente.
Física e Química é também a disciplina onde os alunos costumam ter piores resultados nos exames do ensino secundário.

Em 2006, a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa deixou de receber inscrições para a licenciatura em ensino da Física e Química porque a quase totalidade dos alunos, depois de anos de sucessivas reprovações, pedia transferência para universidades privadas tipo Lusófona. Aí licenciavam-se rapidamente e com elevadas classificações, o que lhes permitia passar à frente dos candidatos oriundos de universidades públicas nos concursos do ministério da Educação.
Trata-se de um dos cursos mais difíceis, a par das engenharias, porque para aprender Física tem de ser-se, à partida, um profundo conhecedor de Matemática.

Recordemos que os professores com mais de 5 anos de serviço não são obrigados a fazer a PACC. Mas se fossem obrigados, não seria de esperar por melhores resultados porque o problema já vem de longe.
Ora são estes docentes que na próxima década vão ocupar os lugares nos quadros das escolas, pelo que as expectativas do ministro Nuno Crato de que “à medida que se renovem os quadros docentes das escolas, o que irá acontecer de forma acelerada na próxima década, se garanta a entrada de uma geração de professores altamente preparada e qualificada” vão ser goradas.
Vai levar quatro décadas, tantas quantas houve de declínio na escola pública, para que esta volte a ter a elevada qualidade que desfrutava antes do 25 de Abril.

Arquivamos outras opiniões recolhidas nos comentários à notícia no Público, jornal que sempre se manifestou contra a PACC, e que por acaso, ou talvez não, teve de corrigir o texto que revelava um profundo desconhecimento do conteúdo das provas específicas e dos grupos de recrutamento a que se destinavam. Ei-las:

manuel vieira
lisboa 07/05/2015 20:03
Que rico panorama. Será que Mário Nogueira tem alguma coisa a dizer? Claro que tem, vai defender que estes senhores não deviam ser sujeitos a provas de avaliação de conhecimentos.
  • Jose Antonio Fundo
    Professor e Ilustrador, Porto 08:57
    É pá! Trocar assim alhos com bugalhos é de uma acrobacia intelectual própria de quem percebe zero do assunto. Ainda bem que não lhe fizeram a prova!
  • CARS
    11:23
    Meu caro José,
    Ninguém diria que é professor porque, em interpretação de comentários, deixa um pouco a desejar. Ser professor é muito mais do que dizer "sou professor", é ter conhecimentos necessários para leccionar sem ter receio de ser avaliado nos seus conhecimentos.
  • manuel vieira
    lisboa 11:58
    Resposta para o senhor professor:
    1. Lembro-lhe que eu não sou seu aluno, logo contenha-se.
    2. Percebo alguma coisa, tenho sete netos que são o meu barómetro do estado do ensino.
    3. Tenho duas filhas que são professoras.
    4. Picou-se por eu ter mencionado o inútil Mário Nogueira?
    5. Durante toda a minha vida profissional fui avaliado. Quem não deve, não teme. Fique bem.

Paulo Alexandre
07/05/2015 22:16
Grupo 910 significa "Domínio Cognitivo e Motor"; Grupo 920 - Domínio da Audição e Surdez; Grupo 930 - Domínio da Visão.
Erro grave por parte do Público. Os números atribuídos aos grupos nada têm a ver com o nível de ensino, mas sim com os diferentes domínios.

Jose Antonio Fundo
Professor e Ilustrador, Porto 08:56
Como é evidente, tais diferenças demonstram desadequações e diferenças nos graus de dificuldade das provas. Dificilmente se pode julgar um grupo de professores num tão alargado conjunto de conhecimentos por um teste escrito. Os testes escritos são um processo muito pouco exacto de avaliação. São populares porque são fáceis de aplicar. Estas provas provam pouco. Quem duvidar disso percebe pouco de educação. O professor é muito mais do que a ciência que ensina. Ser professor é uma ciência em si mesmo e sobre isso houve zero perguntas.
  • tripeiro
    Alguém informe a Princesa44 sobre os horários de visita em Évora 09:43
    Foi pena ter-se limitado a dizer que os testes não são adequados para avaliar o domínio das matérias e não ter dito qual é a alternativa.
  • Miguel S.
    Trondheim 10:27
    Concordo José, em certa medida. E, como refere o tripeiro, não sei como tornar as provas mais representativas do que pretendem avaliar. No entanto, procurar desvalorizar o básico — um professor deve dominar os conteúdos científicos que vai ensinar — serve apenas para perpetuar a mediocridade do sistema.
  • No Mercy
    11:12
    Pois, é extremamente difícil avaliar "setôres" através de testes escritos. Mas os "setôres" têm imensa facilidade em avaliar alunos através de testes escritos, o que não deixa de ser curioso...
    Pois, o "setôr" "é muito mais do que a ciência que ensina". E o aluno? E, já agora, se mal pergunte, o que é que a classe de "setôres" fez para que os testes não fossem apenas escritos e houvesse uma bateria de testes que avaliassem as múltiplas competências necessárias ao ensino?
  • Sousa da Ponte
    12:01
    @ Tripeiro: Um licenciado num curso de ensino foi submetido a mais de uma centena de provas e testes, onde teve positiva a todos. Esta prova vale mais do que isso tudo junto? A alternativa existe: é a avaliação aos professores em exercício.
    @ Miguel: Tem toda a razão. Mas se um professor não sabe os conteúdos científicos que vai ensinar, a culpa não é dele: é de que o certificou sabendo que ele não sabia. E a mediocridade do sistema continua a ser perpetuada nas universidades e ESEs de onde saíram estes professores.
    @ No Mercy: Está a deitar para o lixo 4 ou 5 anos de estudos superiores quando pergunta "(...) houvesse uma bateria de testes que avaliassem as múltiplas competências necessárias ao ensino?" Essa bateria de testes existe e os professores superaram-nas. Vale a PAAC mais do que as provas todas prestadas em 4 ou 5 anos?
    Relativamente aos testes que os professores fazem aos alunos, esses só valem ~70% da avaliação e os alunos não condensam um ciclo de ensino numa única prova. Fazem vários testes apropriados a cada disciplina.
    Dito isto, pergunto: Há professores mal preparados, medíocres ou que não deviam sequer ser professores? Há, sim, senhor! E há-os porquê? Porque há instituições que os formam assim. O que faz o Nuno Crato quanto a isso? Nada! É forte com os fracos e fraco com os fortes!
  • tripeiro
    Alguém informe a Princesa44 sobre os horários de visita em Évora 12:19
    Sousa da Ponte,
    Eu não estou aqui a defender o sistema de avaliação de professores — com o qual não concordo, a avaliação nestes moldes é para ser feita nas universidades, e se alguma coisa está a falhar, é aí, e o ministério da Educação não pode descartar as suas responsabilidades na matéria —, mas tão somente a pôr em causa a afirmação do José de que os testes não são adequados para avaliar (penso que ele não se está a referir a este caso em concreto da avaliação de professores, mas à avaliação em geral).
    E quanto a mim, o problema na qualidade do ensino não está ao nível cientifico, mas sim pedagógico. Penso que todos nós tivemos professores que eram autênticas nódoas e não era por causa dos conhecimentos científicos.
  • José Cid Adão
    12:32
    Caro Sousa da Ponte,
    Infelizmente a verdade é que, em muitos casos, ter sido aprovado a centenas de exames durante 5 anos pouco valor tem.
    De quem será a culpa? Dos estabelecimentos de ensino que facilitam para assim conseguirem mais alunos/clientes? Ou dos próprios professores que, na altura, conscientemente fizeram a escolha de estudar numa universidade de fraca qualidade, mas com boas notas garantidas?
    Sinceramente não sei, mas a culpa não é de certeza dos alunos de agora. Dou mais valor a um exame, por mau que seja, se for igual para todos, do que a uma avaliação feita durante 5 anos mas que foi diferente de professor para professor. Acho por isso que todos os professores deviam ser sujeitos aos exames.
  • No Mercy
    12:39
    1. O Sousa da Ponte tem razão numa coisa, quando faz as perguntas e dá as respostas: "Há professores mal preparados, medíocres ou que não deviam sequer ser professores? Há, sim, senhor. E há-os porquê? Porque há instituições que os formam assim. O que faz o Nuno Crato quanto a isso? Nada! É forte com os fracos e fraco com os fortes!"
    2. O Sousa da Ponte não tem razão noutras. Precisamente porque muitos dos tais testes que os "setôres" fazem, terem sido feitos por instituições medíocres, é que contam pouco. Acresce que lá por se fazerem testes em inicio de carreira não devia obstar, nem obsta nos países que têm uma Educação a sério, que eles se façam ao longo da vida profissional. Nos EUA, os professores estão em constante avaliação. Faça o mesmo cá e vai ver a resposta das corporações...

No Mercy
11:08
Eu só não compreendo é porque é que estas avaliações não são feitas a todos os "setôres". Não compreendo a discriminação que é feita em relação à avaliação. Ou será que alguém tem dúvida que se estas avaliações fossem feitas a todos os "setôres" os resultados seriam, em percentagem, semelhantes?
Será que esta gente não percebe que, se querem ter uma Educação Pública competente, têm que ter Professores, e não "setôres"? Mas esta gente acha que se melhora a qualificação dos alunos com a medíocre qualificação que existe entre a classe que "ensina"? Podem criar as políticas que quiserem, enquanto a mediocridade da matéria-prima for a que é, jamais passaremos da cepa torta!

Hugo
12:44
Acho este governo corrupto e ignóbil, mas esta é das poucas coisas que acertou e deveria fazer regra para todo o serviço público, que deveria reger-se pela qualidade e não pela complacência e mediocridade. Aliás deveria fazer provas obrigatórias de x em x anos para confirmar que os professores têm capacidade e competência para continuar com as responsabilidades atribuídas, com eventual progressão ou regressão na carreira a verificar-se na folha salarial.
A administração pública não pode, nem deve, ser comparada com o privado, porque no privado as consequências estão limitadas à respetiva organização e na administração pública afeta-nos a todos. A avaliação por prova escrita deveria ser regra, além de que deveria ser evitada qualquer avaliação subjetiva.

Aliocha
13:04
Depois do facilitismo progressivo que reinava há anos na Educação e que culminou no ex-governo socrático (o ex-primeiro-ministro era um exemplo vivo disso!), era preciso um novo rumo. Alguma coisa tinha que ser feita.
Custa sempre mais endireitar o que muito entortou ao longo do tempo. Criaram-se hábitos arreigados de "laissez-faire, laissez-passer". Com todos os seus defeitos e podendo ser melhorados, estes testes, doa a quem doer, são um crivo.
A melhor forma de melhorar a qualidade no ensino é ter bons professores e exigir mais dos alunos, a começar na disciplina e passando pela diversificação de escolas.
  • Maria Manuela Granés Gonçalves
    15:49
    Muito Bem!