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domingo, 21 de junho de 2015

Entrevista de Henrique Neto ao Jornal i


Numa longa entrevista concedida ao Jornal i na sua casa em Lisboa, sem a presença de assessores ou conselheiros, o candidato presidencial Henrique Neto alerta que os partidos estão a fazer promessas que podem não conseguir cumprir.


Henrique Neto por uma nova república.


Se for eleito, será o primeiro Presidente da República que não é doutor nem professor e que foi operário...
E que não é de nenhum partido...

Vai utilizar essas características como trunfos na campanha?
Vou, claro. O facto de ter sido operário ou não ser doutor, não creio que seja uma questão muito relevante do ponto de vista político. Mas não ter o apoio de partidos tem um significado. Um dos grandes problemas da democracia portuguesa, nos últimos 20 anos, foi os partidos terem cerceado a liberdade dos cidadãos e essa menor participação das pessoas tem como consequência a degradação da vida pública, nomeadamente do ponto de vista ético, do ponto de vista do crescimento da corrupção, dos interesses, da relação promíscua entre os negócios e a política.

É de prever que, se for eleito, tenha uma relação difícil com os partidos.
Espero que não. Se os partidos políticos compreenderem que têm em Belém um Presidente que não vai fazer cedências e que não vai assistir impávido e sereno a políticas que são prejudiciais para o interesse nacional, como tem acontecido, tentarão acertar o passo com aquilo que o Presidente considerar necessário. Não se trata de dirigir a política portuguesa, mas de evitar erros que sejam prejudiciais para a economia ou para o prestígio de Portugal no mundo.

Cavaco Silva não tentou evitar esses erros?
Não. A última intervenção que fez no 10 de Junho é a prova disso. Eu tenho uma grande preocupação com a questão dos comportamentos. Há comportamentos desviantes, há comportamentos pouco correctos na sociedade portuguesa — e na política em particular — que têm de ser mudados. Nesta última intervenção, o Presidente da República fez aquilo que já tinha sido iniciado pelo primeiro-ministro quando elogiou Dias Loureiro. O Presidente reincidiu de duas formas: por um lado, chamando “pessimistas profissionais” àquelas pessoas que, no fundo, avisaram a Presidência da República e o governo, durante os últimos anos, dos erros que estavam a ser cometidos nas finanças públicas, no endividamento, nas PPP...

Criticou os profissionais da descrença e os profetas do miserabilismo.
Sim. Aqueles que se bateram por um país mais decente são acusados de pessimismo. Ao mesmo tempo, pessoas que tiveram um papel relevante no empobrecimento, com uma política financeira trágica para o país, como foi o caso do ministro Teixeira dos Santos, são condecoradas. E, por exemplo, o prof. Campos e Cunha, que teve um acto de coragem logo no início da governação, porque teve a hombridade e a coragem de sair quando se apercebeu de que o governo estava a caminhar no sentido contrário ao interesse nacional, foi esquecido.

Mas o Presidente não fez nenhuma referência a Dias Loureiro.
Mas em relação ao Dias Loureiro, quem é que não sabia o passado dele quando o Presidente da República o fez membro do Conselho de Estado? E depois manteve-o lá, mesmo depois de estar a ser investigado pela Procuradoria-Geral da República. Este Presidente presidiu durante estes anos a uma das mais trágicas situações que o nosso país viveu em cem anos. Uma crise com proporções trágicas. Com cortes de pensões, cortes de ordenados, desemprego elevado. Isso tudo foi consequência de uma governação aventureira e o Presidente da República assistiu a tudo isto calado. E muitas vezes até enganou os portugueses, como aconteceu no caso do BES, sobre a PT... Tudo coisas que aconteceram e a que um Presidente não pode assistir como se não fossem com ele.

Acha que o Presidente da República devia ter mais poderes? Cavaco Silva tentou, por exemplo, que os partidos fizessem compromissos e nunca o conseguiu.
Isso só serviu para desvalorizar a palavra do Presidente. O Presidente poderia, em vez de dizer “entendam-se”, apresentar uma base estratégica de acordo, semelhante àquela que eu apresentei, a dizer para onde é que o país vai nos próximos 10 ou 15 anos. É provável que os partidos tivessem mais dificuldades em não se entender.

O Presidente não está a ultrapassar os seus poderes se apresentar uma estratégia que condiciona as políticas dos governos?
O governo só a segue se quiser. Os portugueses lêem essa estratégia e julgam se quem tem razão é o Presidente ou os partidos. E isso era importante, porque todo o poder, desde o 25 de Abril, tem estado entregue aos partidos. Tudo passa pelos partidos. Se esse caminho tivesse resultado e estivéssemos numa situação próspera como, por exemplo, a Irlanda, era sinal de que os partidos estariam a fazer um bom trabalho, mas não é isso que acontece. O país está a viver uma crise que não vai passar de um dia para o outro.

Os programas da coligação e do PS têm boas soluções para ultrapassar a crise?
Os programas são até relativamente parecidos.

Preferia que ganhasse o PS?
Naturalmente.

Algumas pessoas do PS reagiram à sua candidatura com alguma agressividade e até com algum desprezo. O ex-ministro Santos Silva escreveu que “os bobos estão a ocupar a cena”.
O PS, infelizmente, mantém em cena pessoas que se desacreditaram na governação. As pessoas podem ter muito boa vontade em relação ao partido, e eu tenho, mas contra a realidade é muito difícil esgrimir argumentos. São factos — e contra factos não há argumentos.

Nunca deu sequer o benefício da dúvida a Sócrates. Desde que ele chegou à liderança do partido que o critica.
Não. Não dei. Eu sabia o que se estava a passar, conhecia suficientemente a personagem para saber que ele tinha características que não eram próprias de um primeiro-ministro. Se as políticas fossem diferentes, eu teria apoiado. Se em vez de tanta auto-estrada se tivesse apostado na via férrea, eu teria apoiado.

Tem alguma convicção sobre se José Sócrates é culpado ou inocente?
Não faço ideia se vai ser condenado na justiça, mas sei que é culpado pela forma como conduziu o país e o prejuízo que o país teve por meros actos de governação. Foi a maior destruição de riqueza do Portugal moderno. Não há sobre isso nenhuma dúvida. É evidente que um primeiro-ministro corrupto é uma coisa impensável.

Concorda com o discurso do PSD de que Sócrates é o culpado pela crise que o país atravessa?
Concordo porque é uma evidência. Claro que o PSD tem objectivos ideológicos em reduzir o valor do trabalho, em favorecer os sectores da sociedade mais privilegiados. Eu sei disso. Mas isso foi muito facilitado pela situação em que o país foi deixado pelos governos anteriores.

E também concorda que o país está melhor do que em 2011?
O país está melhor do ponto de vista da credibilidade das finanças públicas, da credibilidade internacional, mas isso deve-se essencialmente a acções do Banco Central Europeu, e não tanto deste governo. E essa maior credibilidade pode ser alterada de um momento para o outro, seja por causa da situação da Grécia, seja pela subida de juros.

Os partidos estão a fazer promessas que não sabem se têm condições para cumprir?
Não tenho a certeza que, quer a coligação, quer o PS, as possam cumprir, principalmente porque eles baseiam tudo na gestão da situação como existe e não numa alteração da situação, nomeadamente a situação económica. Para mim é impensável que o país possa continuar a crescer 0,5 ou 1% mais 12 anos, em cima de 12 anos em que não cresceu praticamente nada.

Teria consequências complicadas?
Se isso acontecer, os portugueses vão ter enormes dificuldades. Não sei o que pode acontecer e fico preocupado porque nem a coligação nem o PS apresentam ideias claras para o crescimento da economia. O PS espera que a economia cresça através de alguma animação do mercado interno. Eu tenho muitas dúvidas dessa animação. Não acredito que Portugal possa resolver os seus problemas antes de ter 60% do PIB em exportações.

É possível acabar com a austeridade nos próximos anos?
Se houver crescimento económico digno desse nome, à volta dos 3% ou 4%, como acontece na Irlanda, é fácil fazer toda essa reposição. Se não crescer, não vai ser fácil. E, portanto, as promessas são baseadas numa certa manipulação dos dados existentes.

Os partidos são geralmente optimistas nas campanhas. Sempre foi assim.
Há muitos anos que são optimistas. E se o optimismo tivesse demonstrado a sua validade, todos quereríamos dar razão ao Presidente da República ou aos partidos. Optimistas devem estar os irlandeses, a crescer a 4% ao ano. Tiveram políticas que, no fundo, eram aquelas que eu sempre defendi. Fiz duas moções aos congressos do PS, há 15 anos, em que dei a Irlanda como exemplo a seguir. Quinze anos depois, basta olhar para a economia irlandesa.

No PS diz-se que foi crítico de António Guterres porque ele não o convidou para o governo. Jorge Coelho diz que “ao não o ter convidado, o Guterres arranjou um inimigo para a vida inteira”.
Esses ditos do Jorge Coelho e de outros provam a mediocridade de quem os diz. Eu não podia ser ministro, mesmo que quisesse. E disse isso ao Guterres. Mas não é isso que conta. O que conta é o que eu disse e escrevi. Eles têm de julgar se o que eu disse, ao longo de 15 anos, estava certo ou errado. Fiz propostas, estão escritas.

Nunca pensou em sair do PS quando estava isolado? Sócrates tinha o apoio de 90% dos militantes...
Não, não. Continuei porque tenho razão. Se eu tivesse estado calado, como outros que agora são candidatos, não me candidatava agora à Presidência da República. Se eu tivesse ficado a assistir ao descalabro do país sem dizer nada, ia candidatar-me para quê? A minha candidatura baseia-se na convicção de que tive razão e gostaria, nesta campanha, que as pessoas me dissessem onde é que eu errei.

O facto de ter sido deputado e dirigente do PS e de ter conhecido a política por dentro foi determinante para a opinião que tem hoje sobre os partidos?
Foi. Dois anos depois de estar no parlamento, eu já dizia que não queria continuar. As cartas estão viciadas no parlamento. Disse isso, mas agora dizem que eu queria continuar. O que é espantoso é que as pessoas julgam-me a mim com os critérios que eles próprios têm. Como a única coisa que querem é ocupar lugares, acham que toda a gente tem a mesma motivação. Eu não tenho.

Não vale a pena ser deputado? Não se consegue mudar nada?
Vale a pena, se verdadeiramente se representar os portugueses. Se houver uma relação directa entre o eleitor e o eleito. Se o eleitor puder escolher o seu deputado e o deputado souber que, se não defender os interesses dos seus eleitores, não vai ser reeleito.

O Presidente da República deve impor aos partidos uma reforma no sistema político?
Impor, não posso. Vou defendê-la com convicção. Vou bater-me por isso.

Os partidos nunca a conseguiram fazer e provavelmente não a vão fazer tão cedo?
Não, mas o Presidente da República tem de ter sempre como seu aliado o povo português, e o povo português já percebeu isso muito bem, daí que surjam por todo o lado grupos de cidadãos. Os partidos políticos, em Portugal, não representam os cidadãos. Por isso é que os cidadãos andam a encontrar outras formas de representação.

Será uma espécie de candidato do povo?
Sim, quando digo que os poderes do Presidente são suficientes é porque acho que a aliança com o povo permitirá ao Presidente, sem populismo e sem demagogia, convencer os governos a enveredar por políticas mais de acordo com o interesse nacional.

Qual é o seu eleitorado natural?
Não sei. Na minha candidatura tenho pessoas do PS, do CDS e do PSD.

Mas é uma pessoa de esquerda.
Sou. Continuo a considerar-me uma pessoa de esquerda, mas também considero que a maioria dos problemas que o país tem não são de esquerda nem de direita. Os erros que foram cometidos não são de esquerda nem de direita. O desemprego não é de esquerda nem de direita. Eu tenho apoio de gente do CDS.

Não tem é os chamados notáveis consigo. Não conseguiu convencer mais pessoas?
Tenho alguns. O Mira Amaral, o Medina Carreira. Tenho muitos que me apoiam na sombra. Reconheço que a minha candidatura pode causar alguma estranheza, porque as pessoas estão tão habituadas a que quem manda são os partidos que não concebem que fora dos partidos se possa fazer seja o que for.

Sampaio da Nóvoa tem o apoio dos três ex-Presidentes. Isto é uma vantagem?
Sim. É legítimo que os portugueses sejam influenciados por isso. Claro que convido os mesmos portugueses a pensarem que foram os três Presidentes do sistema que nos conduziu até aqui. Se quiserem continuar nesse sistema, se quiserem continuar com esta desgraçada promiscuidade entre os negócios e política, é continuarem...

O discurso de Sampaio da Nóvoa também é claramente contra essas relações de promiscuidade...
Era melhor que ele viesse dizer que defendia isso. Mas eu gostaria de o ter visto a distanciar-se, falando alto e grosso, durante os últimos 12 anos. Ele não nasceu agora. Como, aliás, as elites portuguesas em geral. Os últimos 15 anos foram uma destruição permanente de riqueza, atraso, endividamento, empobrecimento. Só não viu quem não quis.

Sampaio da Nóvoa tem essa fragilidade?
Acho que sim.

Surpreende-o o apoio do PS a Sampaio da Nóvoa?
O PS não quer enfrentar a realidade. O PS teve seis anos desgraçados. O normal teria sido que viesse outra equipa, que limpasse a casa dos erros do passado e se apresentasse de cara limpa. Isso não aconteceu e temos as mesmas pessoas. A dificuldade que o PS está a ter em subir nas sondagens tem a ver com isso. Foram fracos, não se distanciaram.

E não tem que ver com o facto de Sócrates estar preso preventivamente?
Se for condenado ou se for acusado, isso causa um rombo no PS, mas causa porque foram fracos e não se distanciaram. Não souberam distinguir o bem do mal. Não há nada mais básico na sociedade e no ser humano do que a distinção entre o bem e o mal. O PS não reconhece o mal ou não distingue o mal do bem. Mas eu prefiro que a campanha se faça à base dos problemas do país. Se dependesse de mim, esse tema não entraria na campanha, porque os problemas do país são muito sérios. Eu já apresentei uma estratégia para o país...

Esse não é o papel dos partidos?
O que pretendo é dizer aos portugueses que o país tem soluções e que não é verdade que não haja soluções ou que só haja uma solução. Há muitas. Devem ser os governos a assumir essas soluções.

Mas tendo uma posição crítica em relação a quase todos os governos, não é previsível que tenha uma relação conflituosa com o próximo?
Creio que não. Ao longo da minha vida, nunca deixei de dizer aquilo que pensava, mas procuro sempre o consenso e pontes de compreensão. O grande problema dos partidos é que eles cortaram as pontes com a sociedade. Um dos grandes objectivos que eu tenho é trazer os empresários para a definição de políticas. É impensável que os empresários estejam tão afastados da vida política. São eles que criam a riqueza. Os partidos chamam economistas para fazerem os programas, mas não chamam empresários. Como se explica isto?

Há um preconceito em relação aos empresários?
Há. É que os empresários sabem mais, têm mais experiência, podem provar o que fizeram, e os políticos não podem. Ou melhor, os políticos só podem provar que nos conduziram até esta desgraça.


*


Henrique Neto sabe que a reanimação da economia do País não se pode fazer à custa do consumo interno porque as pessoas, se tiverem maior disponibilidade financeira, vão desatar a adquirir produtos importados — roupas de marcas estrangeiras, televisores de plasma, consolas de jogos, smartphones americanos, sul-coreanos ou japoneses, automóveis alemães, ...

Além de ser um bom avaliador de políticas económicas, Neto também sabe apreciar caracteres e no de José Sócrates destacava-se a prepotência, a aldrabice, a ostentação e a ausência de escrúpulos, pelo que nada de bom se podia augurar da sua governação.

Sendo um operário que estudava à noite e acabou por se tornar um empresário, conhece as tentações mas também as dificuldades por que passam as pequenas e médias empresas que, será bom não esquecer, constituem a maior parte do tecido empresarial português e, por isso, podem ser grandes criadoras de emprego em Portugal.
E, ao contrário dos outros deputados socialistas, nunca idolatrou José Sócrates, nem alienou a sua liberdade de opinião para conservar o lugar na assembleia da República ou ganhar prebendas, optando por defender o desenvolvimento económico do distrito que o elegeu para o parlamento.

Henrique Neto nunca aceitará que os partidos políticos façam promessas falsas ao eleitorado. Até agora é, sem dúvida, o melhor candidato presidencial.

Um comentário à entrevista resume os últimos 40 anos da política portuguesa:


SIULUX • há 3 horas
Não sou e nunca serei socialista, mas votaria em Henrique Neto! Porque ele também quer eliminar a gangrena de Portugal como escrevi há anos:

QUARTA-FEIRA, 31 DE MARÇO DE 2010
A nossa luta: erradicar a gangrena de Portugal!
Como já escrevi há mais de 30 anos, Portugal nunca foi capaz de se libertar dos "bufos e dos chulos" que haviam servido Salazar e a ditadura, mas pior que esses foram os parasitas e sanguessugas "perfilhados", adoptados e "paridos" pela democracia, desde 25 de Abril de 1974.

Primeiro foi a democracia "proletária" da foice e do martelo que meia dúzia de gatos pingados conseguiram, graças às conivências e complacências dos mentores do PREC, COPCON e dos larápios da propriedade privada que, para compensar a descolonização cobarde, se apropriaram de milhares de hectares de terrenos de cultivo, a pretexto de uma reforma agrária igualitária. Era a única forma de contentar os "operários" que se armavam em revolucionários e erguiam o punho ameaçador, quando o PC e os partidos esquerdistas precisavam de capangas para intimidar os "reaccionários".

Depois tivemos uma década de "mama" comunitária com a adesão à, então, CEE e os governos do PSD liderados por Cavaco Silva, em que alguns "laranjinhas" puderam entrar para a função pública, saneando e vingando-se dos "comunas" e dos otários que o compadrio reinante havia premiado.

Finalmente, e depois da travessia do deserto, surgiram os "boys" cor-de-rosa a reclamar "jobs" ao engenheiro Guterres e, aí sim, foi o descalabro total, como o próprio reconheceu ao fugir como um rato no meio de um pântano de promiscuidade e opacidade.

Se alguém pensou que os "meninos e as meninas" do partido da rosa estavam fartos, enganou-se porque, com o golpe de Estado constitucional do Presidente Sampaio e a consequente eleição de um "boy" genuíno e com pedegree "apparatchick", foi fartar vilanagem, como provam as escutas "casuais" deste caudilho "sui generis" engendrado pelo socialismo da chupeta e da esmola, com que o "general" foi matando a fome aos inúteis e aos "boys" que, por falta de bestunto e de "canudo", nunca conseguiram arranjar assento à mesa dos "eleitos" da grande confraria PS.

É esta promiscuidade e a consequente opacidade que há mais de 35 anos vem gangrenando o Estado e saqueando impunemente a república portuguesa, para mal do nosso futuro.

Agora, face a esta ameaça fatal, ou exercemos corajosamente a nossa responsabilidade e erradicamos de vez este problema cultural e social ou nos acovardamos e nos tornamos cúmplices da morte lenta da pátria-mãe, que nunca foi merecedora de filhos tão degenerados.

Hoje, sob pena de não conhecermos os arcos-íris de amanhã, é nosso dever lutar para erradicar a gangrena de Portugal.


quarta-feira, 1 de maio de 2013

Só se pode gastar o que consegue obter nos mercados


O antigo primeiro ministro irlandês, responsável pelo rápido crescimento da Irlanda no início deste século, está em Portugal para participar nas Conferências do Estoril.

John Bruton foi primeiro-ministro da Irlanda entre 1994 e 1997, tendo chefiado um governo de coligação formado pelo Fine Gael, o partido conotado com a democracia-cristã que liderava, pelo Partido Trabalhista e pela Esquerda Democrática. A economia irlandesa cresceu a uma taxa média de 9,4% entre 1995 e 2000. Portanto convém reflectir nestas suas palavras:



01 Mai, 2013, 12:02


"Portugal está a atravessar um tempo de mudanças, mudanças estruturais que tem de fazer relativamente à dimensão do sector público, comparada com a dimensão do sector privado que tem de suportar o sector público via impostos e estas mudanças têm de ser feitas gradualmente, ao longo do tempo, mas teriam de ser feitas quer houvesse, ou não, uma crise financeira. A crise financeira limitou-se a acelerar o ritmo do processo, criando as condições políticas nas quais o processo de reestruturação da economia portuguesa se tornou possível."

Perguntado se Portugal está no limite da austeridade, respondeu:

"Penso que se trata de saber como obter dinheiro. Neste momento, muitos dos serviços prestados pelo Governo Português estão a ser fornecidos com dinheiro emprestado, dinheiro esse que tem de ser pago. Têm pois de adaptar o que gastam ao que podem conseguir nos mercados de forma responsável e ser capazes de reembolsar. É isso que está em causa aqui, não é só a austeridade que está em causa. Ninguém gosta de austeridade mas, numa abordagem realista, só se pode gastar aquilo que se consegue obter."


terça-feira, 19 de junho de 2012

Países do G20 reforçam reservas do FMI


No final da Cimeira do G20 em Los Cabos, no México, Christine Lagarde revelou que os compromissos para reforçar as reservas do FMI ascendem já a 456 mil milhões de dólares americanos, superando o valor prometido na cimeira de Abril, apesar de alguns países emergentes se sentirem frustrados por não terem obtido maior poder de voto dentro desta instituição credora mundial.
São recursos disponibilizados através de empréstimo bilateral ou acordo de compra entre cada país credor, ou o seu banco central, e o FMI, comprometendo-se esta instituição a devolver os valores sacados com juros.

Reforçadas as reservas do FMI, estas poderão ser usadas para financiar os seus 188 países-membros, se tiverem dificuldades em obter financiamento nos mercados e se aceitarem a orientação económica do FMI. Mas, num momento em que três países da Zona Euro estão a receber crédito do FMI — Grécia, Irlanda e Portugal — e vai ser preciso intervir na banca espanhola, este reforço destina-se a reduzir a especulação financeira sobre a dívida soberana destes países.

Portanto correu bem a cimeira para os países da Zona Euro porque, apesar da recusa dos Estados Unidos e Canadá, conseguiram captar do resto do mundo uma quantia superior à que vão disponibilizar. O quadro seguinte lista os 37 países que aceitaram contribuir:

Países
_____________________
Zona Euro
• Alemanha
• França
• Itália
• Espanha
• Países Baixos
• Bélgica
• Áustria
• Finlândia
• Luxemburgo
• Eslováquia
• Eslovénia
• Chipre
• Malta
UE não-Zona Euro
• Reino Unido
• Suécia
• Polónia
• Dinamarca
• República Checa
Não-UE
• Japão
• China
• Coreia
• Arábia Saudita
• Brasil
• Rússia
• Índia
• México
• Suíça
• Noruega
• Austrália
• Turquia
• Singapura
• África do Sul
• Colômbia
• Filipinas
• Malásia
• Nova Zelândia
• Tailândia
_____________________
total

______

54,7
41,4
31,0
19,6
18,0
13,2
8,1
5,0
2,7
2,1
1,2
0,6
0,3

15,0
10,0
8,2
7,0
2,0

60,0
43,0
15,0
15,0
10,0
10,0
10,0
10,0
10,0
9,3
7,0
5,0
4,0
2,0
1,5
1,0
1,0
1,0
1,0
______

mil milhões $
_____________
197,9













42,2





215,8



















_____________
455,9




O G20 é o Grupo dos Vinte ministros das Finanças e governadores dos Bancos Centrais das maiores economias industrializadas — 19 países e a União Europeia — e foi criado em 1999 para discutir as questões-chave da economia global.

Europa: Alemanha, França, Itália, Reino Unido, Rússia, União Europeia
América: Argentina, Brasil, Canadá, Estados Unidos da América, México
África: África do Sul
Ásia e Oceânia: Arábia Saudita, Austrália, China, Índia, Indonésia, Japão, República da Coreia, Turquia

Os chefes de governo, ou os chefes de Estado, passaram a participar nas cimeiras desde a crise financeira de 2008, sendo a União Europeia representada pelo Presidente do Conselho Europeu e pelo Banco Central Europeu.
As economias do G20 representam mais de 80% do PIB mundial, 80% do comércio mundial (incluindo o comércio dentro da UE) e dois terços da população mundial.


domingo, 22 de abril de 2012

EUA e Canadá recusam encher os cofres do FMI


O Fundo Monetário Internacional (FMI) recebeu promessas de 430 mil milhões de dólares (325 mil milhões de euros) durante a reunião dos países do G20.

Actualmente dispõe de 380 mil milhões de dólares em fundos que agora serão reforçados para mais do dobro.

Este dinheiro poderá ser usado para financiar países em dificuldades de todo o Mundo, se aceitarem as condições impostas pelo FMI. Mas num momento em que três países da zona euro estão a receber crédito do FMI — Grécia, Irlanda e Portugal — e pode ser preciso reforçar os pacotes já acordados ou intervir noutro país do euro, como a Espanha ou a Itália, este contributo destina-se a evitar o agravamento da crise do euro.

Na prática são mais 230 mil milhões de dólares com que a Zona Euro fica para usar, porque 200 mil milhões dos novos contributos vêm justamente de países dessa zona.
Os países emergentes, nos quais se incluem o Brasil, a Rússia, a Índia e a China (BRIC) participaram com um reforço de 68 mil milhões de dólares, mas impuseram duas condições: um limite para a exposição do Fundo à crise do euro e mais poder dentro do Banco Mundial e, principalmente, no FMI.
Outros países que decidiram reforçar o seu contributo foram Noruega, Suécia, Dinamarca, Polónia, Suíça e Japão.

No entanto, alguns dos membros com maior peso no FMI recusaram, desta vez, contribuir, defendendo que é a própria Zona Euro que tem de resolver os seus problemas. Foi o caso dos EUA e do Canadá.


*


Ficou claro que o dinheiro está a chegar ao fim. Pode, portanto, a esquerda radical — PCP e BE — regozijar-se que a troika tem cada vez mais dificuldade em obter fundos para nos emprestar.
O problema é que isto significa que vêm aí mais sacrifícios para os portugueses.


sábado, 12 de novembro de 2011

A queda dos políticos europeus


Os investidores mundiais estão a impor o afastamento de primeiros-ministros europeus débeis ou coniventes com a degradação financeira e a corrupção dos agentes económicos dos seus países.
Parece existir um tecto de 7% nas yields da dívida soberana cuja transposição motiva a queda.

No início de Abril de 2010, o primeiro-ministro Papandreou viu os juros das obrigações do tesouro gregas, a dez anos, ultrapassarem os 7%. Quinze dias depois, pediu ajuda à UE e ao FMI.
Desde então a Grécia passou por vários pacotes de austeridade, viveu entre manifestações e greves da função pública, das empresas do Estado e dos beneficiários de subsídios e pensões, nunca tendo conseguido cumprir os défices orçamentais acordados ou avançar nas privatizações. Na passada terça-feira, 8 de Novembro de 2011, o terceiro primeiro-ministro da dinastia Papandreou demitiu-se para provocar a formação de um governo de unidade nacional entre o partido socialista grego e a Nova Democracia, o maior partido da oposição de direita.
Quem vai chefiar este governo? Lucas Papademos, governador do Banco da Grécia, entre 1994 e 2002, época da sua adesão ao euro, e vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE), entre 2002 e 2010. O banco de investimento que assessorou a adesão grega à Zona Euro, colaborando na mistificação das contas públicas gregas, foi o banco norte-americano Goldman Sachs.

A Irlanda foi o segundo país a transpor o tecto dos 7%. Em Fevereiro deste ano, o então primeiro-ministro Brian Cowen, do partido centrista Fianna Fail, perdeu as eleições legislativas para Enda Kenny, do partido de centro-direita Fine Gael que formou uma coligação com o partido trabalhista irlandês.

Em Portugal as yields da dívida soberana furaram o tecto de 7% em Novembro de 2010. Quando o Parlamento rejeitou um quarto programa de austeridade, em Março de 2011, o primeiro-ministro, José Sócrates, pediu a demissão.

Espanha viu os juros das obrigações de dívida soberana, a dez anos, subir acima dos 6% enquanto o movimento dos indignados acampava na Puerta del Sol. Prudentemente, José Luis Rodríguez Zapatero, o primeiro-ministro socialista, antecipou as eleições legislativas para o próximo dia 20 de Novembro. Prevê-se que o Partido Popular, de direita, liderado por Mariano Rajoy, obtenha maioria absoluta.

Também se prevê para breve a queda de Iveta Radicova, a primeira-ministra da Eslováquia, pois o parlamento eslovaco só permitiu o alargamento do Fundo Europeu de Estabilização Financeira depois da convocação de eleições antecipadas para Março de 2012.

Na Itália os juros da dívida chegaram aos 7% esta quarta-feira. Ontem o parlamento italiano aprovou um pacote de austeridade. Hoje Berlusconi, o homem classificado pela revista "Forbes" como a 2ª pessoa mais rica da Itália e o 74.º homem mais rico da Europa, com uma fortuna estimada em 9 mil milhões de dólares, o dono da maior empresa da comunicação social, o político acusado em quase duas dezenas de processos de corrupção, o rei das festas e dos escândalos sexuais mas que ganhou por três vezes o voto do eleitorado, pediu a demissão.
Berlusconi caiu quando os mercados repararam que estavam a investir num País governado por um indivíduo sem credibilidade que criara uma pirâmide de clientelismo. Quando os investidores se afastam, surge a austeridade. Quando lhe diminuem a mesada, o povo retira o apoio aos políticos.

Já não é o povo que elege os deputados, são os investidores.

Nicolas Sarkozy e Angela Merkel estão a lutar denodadamente para salvar o euro, tendo já delineado um plano B: uma Zona Euro mais pequena que vai aprofundar a integração, inclusive em áreas sensíveis como a tributação das empresas e dos trabalhadores e levantar barreiras contra a crise da dívida soberana, enquanto os restantes países da UE vão formar uma ‘confederação’ que, possivelmente, se expandirá de 27 para 35 na próxima década, com o alargamento aos Balcãs e países de leste, noticiou na quarta-feira a Reuters.
Se as populações dos países europeus meridionais não ambicionarem pertencer à Europa culturalmente mais avançada, se não abandonarem a mentalidade da subserviência e da cunha, se não souberem distinguir entre tempo de estudo e trabalho e tempo de lazer, se não começarem a exigir competência, frugalidade, transparência e honestidade aos seus políticos, acabarão por ser afastadas da Zona Euro.

É uma luta difícil: pior que dominar o cavalo de Tróia dos PIGS, é vencer o do ‘amigo’ americano.
E ainda pode haver outros cavalos: Mario Draghi, que assumiu a 1 de Novembro a presidência do BCE, sucedendo a Jean-Claude Trichet, foi vice-presidente do Goldman Sachs International que se suspeita ter sido o banco de investimento que ajudou a Itália a falsear as suas contas para poder entrar na Zona Euro. E o homem que vai substituir Berlusconi e conduzir a Itália em tempo de crise — Mario Monti — fez também parte do banco norte-americano Goldman Sachs.
O que já levou o jornal “National Journal” a publicar uma reflexão sobre o mesmo assunto, num artigo intitulado ’Government Sachs’, Italian Style, onde pergunta:
"É apenas uma coincidência que algumas das figuras-chave da crise europeia sejam ‘Goldman guys’? Não. É provavelmente uma das razões porque estamos metidos nesta confusão."


sexta-feira, 28 de outubro de 2011

"Estado Social à alemã"


"O Estado Social é uma relativa novidade em Portugal — a criação da actual Segurança Social data de 1982.

Na Alemanha, criadora do conceito, remonta ao final do século XIX. Nos anos 1950 e 1960, o Estado Social viveu os seus anos dourados, suportados por uma demografia favorável e fortes acréscimos de produtividade reflectidos em aumentos de rendimento. O modelo social germânico assenta num mecanismo de protecção social generoso indissoluvelmente relacionado com a estrutura produtiva.

A redução da pobreza nos exemplos por excelência do Estado Social — os países nórdicos, Alemanha, Áustria e Países Baixos — esteve associada a estratégias nacionais de promoção do trabalho bem remunerado (evitando empregos com baixos salários), privilegiando a especialização industrial em sectores geradores de elevado valor acrescentado e com potencialidade exportadora.

O seu sucesso radicou em exportações de produtos com alto conteúdo tecnológico e com pouca sensibilidade do preço, capitalizando vantagens competitivas ancestrais. Dado o alto valor acrescentado incorporado, os salários pagos eram elevados, limitando a incidência de pobreza associada ao factor trabalho: numa visão que se distingue do modelo anglo-saxónico, menos protector e mais flexível.

Nos anos 70, a crise petrolífera desferiu um rude golpe nas economias no Norte da Europa, as quais na maioria dos casos, com os países nórdicos à cabeça, numa tentativa de aumento da produtividade e reciclagem das suas indústrias, promoveram uma renovação geracional da força de trabalho mediante esquemas massivos de reformas antecipadas, que engrossaram os beneficiários da Segurança Social, num momento em que as taxas de fertilidade atingiam patamares mínimos.

Nos anos 80, a dívida e os défices públicos revelaram-se insustentáveis, dando azo a crises graves e posterior reforma da Segurança Social. Impuseram-se significativos cortes dos benefícios, evoluiu-se no sentido de esquemas de capitalização de contributo definido, e repensaram-se os incentivos à natalidade. Em paralelo, no mercado de trabalho, a legislação foi alterada com vista à obtenção de maior flexibilidade nos despedimentos e formação dos desempregados (nascimento da flexigurança).

Na Alemanha, as reformas foram mais tardias, mas consubstanciaram-se em medidas semelhantes (excepto natalidade). Antecipando a concorrência asiática e contrariando previsões de futuro recessivo, nos anos 90 e 2000, reformulam-se os mecanismos de protecção social e a força de trabalho suportou perdas de rendimento nominal.

Entre 2000 e 2008, os custos unitários do trabalho na Alemanha caíram (5%). No mesmo período (cumulativamente), subiram 20% em Portugal, 25% em Itália, 30% em Espanha e Grécia, e 35% na Irlanda. Contudo, nos sectores manufactureiros, a realidade foi muito diversa. Na Alemanha e Irlanda, desceram 10%; enquanto em Portugal aumentaram 10%; em Espanha e Itália subiram 30% e 55% na Grécia. Desta forma, não será surpreendente o comportamento das exportações portuguesas nos últimos anos e o facto da Grécia ser o país com menor contributo das exportações para o PIB e o maior desequilíbrio externo na área do euro.

O ajustamento do Estado Social em curso em Portugal, mas também em Espanha, Itália e Grécia, consiste numa compressão temporal (mais notória em Portugal onde a Segurança Social chegou mais tarde) do processo observado na Europa do Norte ao longo dos últimos trinta anos. Como os países nórdicos, também Portugal viveu o seu apogeu das reformas antecipadas nos anos 90 para promoção de produtividade e modernização da estrutura produtiva. Hoje, defronta rácios de dependência insustentáveis.

Recorde-se que, em 1982, existiam cerca de sete contribuintes para um beneficiário; hoje existem pouco mais de três por cada pensionista e, segundo a proposta de Orçamento do Estado para 2012, serão menos de dois por cada beneficiário em 2050. A pressão manifesta-se no acréscimo do peso das prestações sociais: desde 1977, subiram de 8% do PIB para 21% em 2010. A despesa pública corresponde a cerca de 50% do PIB, dos quais 42% são prestações sociais e 23% são remunerações de empregados. A composição não difere, contudo, substancialmente da observada na média da UE.

A sustentabilidade do Estado Social não se esgota com a reforma da Segurança Social, falta a componente associada às estruturas produtivas e à demografia. A esse respeito, os progressos demográficos são inexistentes; mas constatam-se avanços materiais ao nível da orientação produtiva para sectores com vantagens competitivas e sua capacidade de conquista de mercados internacionais, como o desempenho recente do sector exportador revela. Falta-lhes escala suficiente (necessidade de maior investimento: logo, poupança; sendo que o crédito é um canal de transferência de poupanças) para promover a criação de empregos associados a elevada produtividade e salários compatíveis, suficientes para combater a fragilidade e assimetria sociais.

Este é o receituário que a Europa do Norte pretende que a Europa do Sul perfilhe; criando, segundo a chanceler Merkel uma "união de estabilidade" por contraponto a uma "união de transferências ou de dívidas"; ou seja, um Estado Social europeu à luz do conceito original germânico (esquecendo, todavia, os diferentes pontos de partida de rendimento por habitante).


Cristina Casalinho
Economista-chefe do Banco BPI"


segunda-feira, 8 de agosto de 2011

"Missão impossível: parar uma nova recessão"


Ontem à tarde, Nouriel Roubini escreveu este artigo no Finantial Times, sob o título "Mission impossible: stop another recession":

7 de Agosto de 2011 18:19


"O primeiro semestre de 2011 mostrou uma desaceleração do crescimento — se não mesmo uma contracção — nas economias mais avançadas. Os optimistas disseram que era uma correcção temporária. Uma ilusão frustrada. Mesmo antes do pânico da semana passada, os EUA e outras economias avançadas estavam a caminho de uma segunda recessão grave.

Os dados recentes da América foram ruins: houve reduzida criação de emprego, fraco crescimento e estagnação do consumo e da produção industrial. A habitação permanece deprimida. Caiu a confiança de consumidores, empresários e investidores e, agora, vai cair ainda mais.

Do outro lado do Atlântico a periferia da Zona Euro está agora em contracção ou, na melhor das hipóteses, a crescer fracamente. O risco de que a Itália ou a Espanha — e talvez ambos — venham a perder o acesso aos mercados de dívida é, agora, muito alto. Ao contrário da Grécia, Portugal e Irlanda, estes dois países são demasiado grandes para serem resgatados.

Entretanto, o Reino Unido viu o crescimento a aplanar à medida que a austeridade vai ferroando e o Japão, estruturalmente estagnado, vai recuperar durante alguns trimestres — após a dupla recessão a seguir ao terramoto — apenas para estagnar de novo quando os estímulos fracassarem. Pior ainda, os principais indicadores da produção global estão a diminuir drasticamente — quer nas economias emergentes, como a China, Índia e Brasil, quer nos países orientados para a exportação ou ricos em matérias-primas, como a Alemanha e Austrália.

Até ao ano passado os políticos podiam tirar um coelho da cartola para accionar a deflação dos activos e a recuperação económica. Taxas de juro zero, QE1, QE2, crédito facilitado, estímulos orçamentais, delimitação, provisão de liquidez no montante de biliões de dólares e resgate a bancos e instituições financeiras — tudo foi tentado. Mas agora esgotámos os coelhos.

A decisão desacertada da Standard & Poor’s de descer a notação dos EUA num momento de turbulência do mercado e fraqueza económica tão graves só aumenta a probabilidade de uma recessão em W e ainda maiores défices orçamentais. Paradoxalmente, porém, o Tesouro dos EUA provavelmente continuará a ser o activo seguro menos desagradável: a aversão ao risco, o declínio de capital e uma crise iminente podem até mesmo fazer a taxa das obrigações do Tesouro cair em vez de subir.

Agora, tanto na Zona Euro como no Reino Unido, a política orçamental é contraccionista. Mesmo nos EUA a questão é apenas o montante da redução, à medida que as autoridades estatais e locais, e agora o governo federal, cortarem despesas, reduzirem as transferências e (em breve) aumentarem os impostos. Outra rodada de resgates a bancos é politicamente inaceitável. Mas mesmo se não fosse, a maioria dos países, especialmente na Europa, estão tão enfraquecidos que o risco soberano está a gerar risco bancário — porque os bancos estão carregados de dívida pública.

A esperança numa flexibilização quantitativa [quantitative easing (QE), vulgo 'imprimir dinheiro'] será limitada pela inflação que está bem acima dos níveis-alvo no mundo ocidental. A Reserva Federal vai começar, provavelmente, uma terceira rodada de QE, mas será um pouco tarde demais. No ano passado, um QE2 de 600 mil milhões de dólares (juntamente com 1 bilião de dólares de cortes de impostos e transferências) produziu uma taxa de crescimento de apenas 3%, durante um trimestre. Um QE3 será muito menor e vai fazer muito menos.

Nem as exportações ajudam. Todos os países desenvolvidos precisam de uma moeda mais fraca, mas nem todos podem tê-la — se um é mais fraco, outro tem de ser mais forte. É um jogo de soma zero que tem o risco de reacender guerras monetárias. Estão a começar as escaramuças iniciais com o Japão e a Suíça a tentarem enfraquecer as taxas de câmbio. Em breve outros vão seguir-se.

Assim, podemos evitar uma nova recessão grave? Pode ser uma missão impossível. A melhor aposta para aqueles países que não perderam o acesso ao mercado — os EUA, Reino Unido, Japão e Alemanha — é introduzirem um novo estímulo orçamental no curto prazo, enquanto se comprometem com uma austeridade orçamental a médio prazo. A descida da notação dos EUA irá acelerar os pedidos de redução orçamental mas a América, em particular, deve comprometer-se com cortes significativos no médio prazo, não um corte orçamental imediato que vai piorar o crescimento e os défices.

A maioria dos bancos centrais ocidentais deve apresentar ainda mais QE, apesar do efeito ser limitado. O Banco Central Europeu não deve parar a caminhada das taxas: deve reduzir as taxas a zero e fazer grandes compras de obrigações soberanas para evitar que a Itália ou a Espanha percam o acesso ao mercado — o que teria como resultado uma crise verdadeiramente colossal, a exigir o dobro (ou o triplo) dos recursos para resgates, ou insolvências e a implosão da Zona Euro.

Finalmente, uma vez que esta é uma crise de solvência, assim como de liquidez, deve começar uma reestruturação ordenada da dívida. Isto significa uma redução da dívida hipotecária para a metade das famílias dos Estados Unidos que estão debaixo de água, e bail-ins para os credores dos bancos em perigo. Devem ser concedidas extensões de maturidade coercivas nas taxas livres, ao estilo grego, também para Portugal e Irlanda, com a Itália e Espanha a seguir, se perderem o acesso ao mercado. Pode não ser possível prevenir outra recessão. Mas a política pode parar uma segunda depressão. Isso é um motivo suficiente para uma acção rápida e bem localizada."




terça-feira, 26 de julho de 2011

"Os bancos vão ter de perder dinheiro"


"A guerra deixou de ser surda: bancos e Banco de Portugal estão em braço-de-ferro.
(...)
Primeiro, os caldos de galinha: não há risco para os depositantes. E não há, precisamente, porque há dinheiro do Estado, da troika, 12 mil milhões para capitalização e 35 mil milhões para liquidez. O risco não é hoje dos depositantes. É dos accionistas. É de quem precisa de crédito.

Decifremos: o Banco de Portugal quer que os bancos vendam carteiras de crédito. Mas como o risco de Portugal é alto, os bancos têm de vender essas carteiras com desconto. Ou seja, com prejuízo. Isso reduz dividendos e aumenta as necessidades de capital. E como dificilmente se encontra quem queira investir num banco português, a alternativa é pedir ao Estado: recorrer aos 12 mil milhões de euros.

Os bancos não querem. Temem saída de capitais. Não querem prejuízos, não querem ficar mais pequenos, não querem perder o controlo do presente e do futuro — e não querem o que uma intervenção estatal obriga: a entrada dos políticos (embora esteja previsto que o Estado seja "accionista silencioso"), limites aos salários das administrações e suspensão de dividendos. As acções desvalorizariam. Para os accionistas de referência, ainda pior, pois sem dividendos não podem pagar as suas próprias dívidas nem amealhar para mais tarde recomprar a posição do Estado. E lá vão os bancos para o controlo estrangeiro.
(...)
Os bancos nunca estiveram preocupados com as novas regras de malparado e não stressaram com os testes de resistência porque estes não simularam o valor de mercado nos seus balanços da dívida pública dos países aflitos. O medo dos bancos está noutro teste, que arranca depois do Verão: a reavaliação das carteiras de crédito. É disso que Salgado e Ulrich falam quando falam de critérios "fundamentalistas".

Em Setembro, dezenas de técnicos da troika vão entrar nos bancos com uma tarefa que já fizeram na Irlanda: "varrer" os créditos e verificar se os activos que estão dados como garantia são suficientes. Na Irlanda, foram esses critérios "fundamentalistas" que levaram às nacionalizações.

Exemplo: um crédito à habitação de 200 mil euros tem como garantia o imóvel avaliado em 250 mil euros. A troika aplica uma nova métrica e diz que o imóvel vale apenas 170 mil euros. Então, ou o cliente reforça as garantias ("dá" mais património), ou o banco tem de "cobrir" a diferença com provisões. Multiplique este exemplo por milhares de créditos, empresas de imobiliário e construção, PME aflitas: dá uma imparidade enorme. Um buraco. E portanto pede-se intervenção do Estado.
(...)
Os bancos juram que não. O Banco de Portugal parece convencido de que sim. E, portanto, quer antecipar. Não é para ganhar tempo, é para salvar a economia em vez de salvar os bancos. Se não houver aumentos de capital, a alternativa será tapar a desvalorização das carteiras de crédito, encarecendo ainda mais o crédito às empresas. E as empresas estão a morrer de asfixia financeira. A quebra do investimento a que se assiste é dramática. Sem investimento, a economia não descola, a única coisa que crescerá é o desemprego.

Chegados aqui, é essencial perceber o que é hoje o Banco de Portugal. Já não é o "sindicato" dos bancos, como no passado. É o membro do Banco Central Europeu que tem mais de 40 mil milhões emprestados aos nossos bancos e é o interlocutor do FMI, que passa um terço do cheque da troika. É por isso que o Banco de Portugal tomou o controlo do Ministério das Finanças e, agora, da Caixa. Não é o Banco de Portugal: é a troika. Quem paga é a troika. Quem manda é a troika. E ainda bem. Porque o Governo parece, afinal, enclausurado no passado, desperdiçando a oportunidade de mudança da economia e cismando nos mesmos vícios: falta de corte de despesa, partidarização da Caixa — e falta de comando.

Chegará a hora de vermos as vantagens e as desvantagens das nacionalizações parciais da banca. De repartir culpas. Mas uma trave continua mestra: a economia precisa de uma banca forte. E isso vai, muito provavelmente, exigir uma nacionalização temporária, que mudará para sempre a propriedade e a gestão da banca em Portugal, menos alinhada com o Estado e que lute pela poupança. E mais estrangeira.

Como Sócrates dizia, o mundo mudou. E a banca, que sempre foi visionária, é quem está agora em negação. Vai ter de perder dinheiro. Vai ter de tirar as pequenas e médias empresas do espremedor. Vai ter de deixar de achar que a troika é idiota.

Eis o grande paradoxo: os liberais é que defendem a entrada temporária do Estado nos bancos. Vai ser impossível explicar, mas a ajuda do Estado aos bancos não será a ajuda aos donos dos bancos. Ao contrário do que parece, isso é que vai trazer perdas para os seus accionistas. Por isso é que eles não querem. Mas isso é que a economia precisa. Como veremos nos próximos meses."