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quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Um Cidadão tenta evitar que estudantes atirem carrinhos de compras ao Mondego


No próximo domingo, quando terminar o cortejo da Festa das Latas, de recepção aos caloiros da Universidade de Coimbra, saber-se-á se o rio Mondego estará mais uma vez cheio de carrinhos de compras deitados para a água pelos estudantes universitários.





Roubar carrinhos dos hipermercados nos dias que antecedem a Latada, para transportar bebidas, trajes ou os próprios caloiros no cortejo, tornou-se há vários anos uma prática aceite na sociedade coimbrã. No final, muitos carrinhos são atirados ao Mondego.

Em Novembro do ano passado, Fernando Jorge Paiva, praticante semiprofissional de windsurf reparou, num dia em que as águas do Mondego estavam particularmente claras, que dezenas de carrinhos de compras submersos juncavam o leito do rio.

Resolveu agir. Juntou alguns amigos e, depois de três dias de trabalho, o grupo conseguiu retirar 64 carrinhos da água e 150 das margens. Estes 214 carrinhos equivaliam a mais de três toneladas de plástico e metal.




Este ano, Fernando Paiva enveredou pela via da prevenção. Convocou a associação de estudantes, os hipermercados e a câmara municipal de Coimbra para discutir soluções.
Os primeiros resultados foram promissores: depois da Queima das Fitas, em Maio, apenas três carrinhos de supermercado foram resgatados do rio.

Mas é no cortejo da Latada que a moda de atirar carrinhos ao rio está enraizada. E este ano os alunos já terão furtado cerca de 400 nos supermercados.
No final de Setembro, Fernando Paiva promoveu uma “reunião de cidadania” com todos os envolvidos e a solução encontrada foi a criação, pela câmara municipal de Coimbra, de seis parques onde os carrinhos poderão ser deixados no final do cortejo. Entretanto está em curso uma campanha de sensibilização intitulada “Não lixes o Mondego”, sendo distribuídos folhetos a chamar a atenção dos estudantes para os parques. O centro comercial Dolce Vita, onde há um hipermercado Jumbo, aceitou ajudar na concepção e impressão dos folhetos.

Fernando Paiva está optimista: “Vamos ver se isto resulta. Aquilo é uma moda, não é uma tradição académica. Não queremos criar guerras, mas apenas fazer entender que isto não tem cabimento nenhum. Andamos com naves espaciais a procurar água noutros planetas, e quando olhamos para a nossa atiramos para lá com lixo.”

O presidente da Associação Académica de Coimbra, Bruno Matias, concorda que a tradição está nos caloiros vestirem trajes com mensagens satíricas em relação à sociedade ou à própria universidade. Roubar carrinhos não fazia parte da festa. Acrescenta, porém: “É complicado conseguir que isto não aconteça de uma hora para outra.”


Fernando Paiva e os amigos retiraram 214 carrinhos de supermercados do leito e das margens do rio Mondego


*

Os comentários do fórum do Público abordam as várias facetas do problema, com uma excepção: os enormes lucros obtidos pelas cervejeiras com a venda das bebidas consumidas na Latada que explicam a passividade de autarcas e supermercados coimbrãos:

Miguel S.
Trondheim 15/10/2014 11:02
Não pretendo de forma alguma desculpabilizar a imbecilidade inerente a estas acções, mas será que toda a gente, em particular em grupo, já não fez algo extremamente estúpido e sem medir devidamente o impacto dos seus actos? São apenas miúdos a tentarem divertir-se... De uma forma imbecil, mas é só isso.
  • Gota
    A Gota que é Gutta... 15/10/2014 11:14
    Desculpe-me Miguel, aceito comportamentos imbecis num grupinho de adolescentes que saiu uma noite e se embebedou. Ficou a história para depois contarem aos netos.
    Agora 214 carrinhos no rio e nas margens e 400 carrinhos já furtados? Diversão? É imbecilidade e estupidez massiva. É falta de educação. É falta de consciência ecológica. É falta de civismo. É crime.
    Por roubar para comer já foi um sem-abrigo condenado. Mas estes energúmenos com cérebros de ervilha podem fazer tudo o que quiserem que nada lhes acontece.
  • aramospereira
    15/10/2014 11:20
    Não! Não é só isso! Começa por desconhecimento do conteúdo da palavra "civismo" e continua pela sugestão de "Miguéis S.s" de que ser estudante implica ser atrasado mental. Quem menoriza este tipo de acções com o simplismo de "não é mal, são apenas estudantes e miúdos" ofende gravemente os estudantes e está-se nas tintas para os miúdos!
  • Joaquim Moreira
    15/10/2014 11:49
    É verdade que muitos de nós já fizemos coisas de que hoje até teremos vergonha. No entanto, como pessoas inteligentes, reflectimos e procuramos não reincidir. Esta notícia relata um facto que se repete e que nenhum Dux ou alguém do género procura evitar.
    Não acho que seja diversão roubar seja o que for e, ainda por cima, atirar o objecto ao rio, com as implicações que isso acarreta (não só poluição, mas também eventuais danos pessoais a quem frequente a zona). Com a chancela de tradição, faz-se muito mal. A praxe até pode existir, mas que seja feita com inteligência e respeito pelos outros e pelos bens dos outros. Mais: seria desejável que a sociedade fosse muito mais exigente: enquanto há aulas, há muitos que estão a brincar. Alguém está a pagar para os meninos estarem a brincar!
  • Miguel S.
    Trondheim 15/10/2014 11:57
    Cara Gutta, é a minha opinião. E repare que nunca disse que deve ser desculpabilizada. Devia ter consequências, mas friso que não consigo inferir nada de particularmente significativo sobre o carácter, moral ou formação dos autores a partir destes actos.
    Caro aramospereira, lamento não ser perfeito como o caro e lamento ter ofendido os estudantes. E sim, apanhou-me! Estou-me nas tintas para os miúdos. Posso aprender a ser como o caríssimo ou já é algo que nasceu consigo?
  • Miguel S.
    Trondheim 15/10/2014 12:07
    Caro Joaquim, concordo integralmente consigo. E talvez isso fosse conseguido se houvesse consequências para estes actos e daí não querer desculpabilizá-los. Simplesmente enquadrar o valor simbólico que julgo merecerem.
  • aramospereira
    15/10/2014 12:07
    Meu Caro, é óbvio (pf NÃO tire o "b") que não nasceu comigo — foi-me inculcado pelos meus Pais! E assim sendo, francamente... não sei se irá a tempo! Eu já não ia, de certeza.
  • Miguel S.
    Trondheim 15/10/2014 12:17
    É pena. Suponho que perdi uma excelente oportunidade....
  • Gota
    A Gota que é Gutta... 15/10/2014 12:26
    Eu sei que é a sua opinião, caro Miguel. E também lhe disse que tolero casos esporádicos de "trenguice" adolescente. Eu, por exemplo, quando era adolescente, roubei um sinal de trânsito! E só o devolvi (coloquei-o sorrateiramente numa rua qualquer) quase dois anos mais tarde, justamente quando me apercebi do mal que tinha feito. Mas a coisa ficou por aí. Não houve recorrência.
    Mas este caso, Miguel, não é um caso isolado. São comportamentos a que a juventude tem tendência a aderir por imitação. E já vimos que quando as imbecilidades são levadas ao exagero, o resultado pode ser nefastamente irreversível.
  • Gonçalo
    15/10/2014 12:42
    Miguel, o problema é que não querendo desculpabilizar, acaba por fazê-lo. Se cedermos à crescente estupidez e barbárie dos "divertimentos dos miúdos" (até que idade serão miúdos?), com esse olhar condescendente, quando e onde se traça uma linha? A julgar pelo caso do Meco, nem quando morre gente! E são estes os comportamentos que queremos ver nos "doutores", supostas futuras cabeças pensantes do País?
    A própria Universidade tem a obrigação de intervir, e decidir se é gente desta que reflecte os seus valores. Brincadeira é uma coisa, mas vandalismo, roubo e poluição já entram noutro campeonato...
  • Miguel S.
    Trondheim 15/10/2014 13:02
    Sim Gutta, as pessoas são mamíferos gregários sociais que tendem a imitar comportamentos. É a natureza. O foco é que não vejo nada de particularmente significativo nisto.
    Se me dissessem que é inadmissível a impunidade e falta de consequências com que tal se repete, aí a conversa é outra. Há laxismo de diversas entidades responsáveis e até seria bom que actuassem para que os miúdos percebessem que, no mundo real, as acções ou omissões têm consequências.
  • Miguel S.
    Trondheim 15/10/2014 13:06
    Caro Gonçalo, não estou a desculpabilizar. Apenas a dizer que isto não é particularmente indicador de nada acerca dos seus autores. Se houvesse alguma consequência para eles, as coisas mudavam. O exemplo que refere do Meco é um extremo deste paradigma. Até ver, foi uma brincadeira que correu mal, ninguém os obrigou a ir de madrugada para a praia numa noite de tempestade no inverno. Pareceu-lhes boa ideia. Não foi. Quer apostar que este ano isso não se repete?
  • Gota
    A Gota que é Gutta... 15/10/2014 13:08
    Sim, Miguel, concordo absolutamente com o que diz, mas, não competirá aos pais uma melhor educação para que casos como estes sejam simplesmente uma excepção, excepção essa que deverão então as autoridades tentar debelar?
  • Miguel S.
    Trondheim 15/10/2014 13:20
    Sem dúvida que passa por mais formação cívica e social em casa, mas tenho dificuldade em acreditar que tal seja suficiente, será uma melhoria... Estou cada vez mais convencido que um amigo meu sociólogo que afirma "uma pessoa é inteligente, mas uma multidão é estúpida" tem razão.
  • tripeiro
    15/10/2014 13:48
    Bem, Miguel, há coisas estúpidas e coisas estúpidas e este caso parece-me exceder largamente a razoabilidade da estupidez.
    E excedeu largamente a razoabilidade da estupidez por ser uma prática, pelos vistos, rotineira e não algo que aconteceu uma vez isoladamente.

Miguel Soares
15/10/2014 13:48
Penso que roubar carrinhos de supermercado e atirá-los ao rio é contra a lei. Ainda por cima às centenas. Ainda por cima repetidamente ao longo de anos. Ainda por cima sempre com a complacência das mesmas “associações”.
No entanto, a resposta é uma campanha de sensibilização. Ainda por cima da total (e louvável) iniciativa e organização de um Cidadão. As autoridades não têm nada a ver com o assunto, como é evidente. Repetidamente, alunos universitários são tratados como inimputáveis. Se essa é a realidade, temos, pelo menos, que aumentar a idade da maioridade.


segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Procuram-se novos pais


O artigo de opinião, que a seguir transcrevemos com a devida vénia, foca um dos problemas mais graves da sociedade portuguesa contemporânea — a demissão da actual geração de pais da educação dos filhos.

O autor, um conhecido professor catedrático de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, há décadas que se debruça sobre este comportamento aberrante, que continua a agravar-se, e já tinha escrito, em 1994, o livro “Inventem-se novos pais“ sobre o tema. Que infelizmente não foi lido pelos pais portugueses que permanecem na senda da permissividade.


"Porque Sim
Filhos tiranos, pais mártires

Daniel Sampaio

Este é o título de parte da habitual crónica de João Garcia, publicada no Expresso de 4 de Outubro. Repito a qualificação, porque me parece muito oportuna.

João Garcia refere-se a um estudo da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, onde se revela que há cada vez mais filhos com menos de 25 anos que agridem os pais, surgindo um novo caso de três em três dias.

Não conheço a metodologia da investigação citada nem, sobretudo, o contexto familiar em causa. No entanto, a minha percepção clínica é a de que a situação ocorre com alguma frequência, o que torna essencial reflectir sobre este tema.

Garcia acrescenta: “Pelo que se assiste nas ruas, nos centros comerciais e nos restaurantes, estes números só podem piorar. E muito.”

É provável que tenha razão. Os pais dos jovens de hoje têm um claro défice de autoridade. Compreende-se porquê. Os seus pais (avós dos jovens actuais) foram a geração que se rebelou contra o poder instituído. Em Portugal, muitos desses homens e mulheres tentaram ser diferentes: as mulheres foram todas para o trabalho e os homens recusaram o autoritarismo de que tinham sido vítimas.

Os pais das crianças de hoje foram educados em famílias democráticas, em que a sua voz foi ouvida e respeitada. De uma época em que as crianças cedo eram mandadas para a cama e ninguém se esforçava para saber o que pensavam, caminhou-se para o oposto, em que o menino-rei desde muito cedo quer impor a sua lei. É frequente crianças acompanharem o serão dos pais, irem ao restaurante com a família para uma refeição tardia, ou passarem horas em centros comerciais, a disputarem presentes que depressa abandonarão. Nas inevitáveis zangas familiares, os pais são indulgentes e tudo aceitam, ou então tentam castigos que não conseguem fazer cumprir, porque o passado relacional entre aquele progenitor e o seu filho não criou a distância mínima necessária ao cumprimento de uma ordem.

Nos anos 1980 começou a moda da “negociação”, em que pais e filhos gastavam horas antes de ser tomada uma decisão sobre uma saída nocturna ou um fim-de-semana em casa de amigos. Se o diálogo e a escuta activa dos mais novos é uma das grandes conquistas do século XX, é bom saber que as questões de saúde e segurança dos mais novos não admitem negociação. Se o pai ou a mãe sabem que um adolescente vai para uma festa onde o álcool e as drogas circulam livremente, a decisão só pode ser uma: o adolescente não pode ir, seja qual for o seu protesto e ameaça.

Na maior parte dos casos, os filhos que agridem os pais pertencem a duas categorias: ou têm perturbações mentais e devem ser encaminhados para uma consulta de Psiquiatria; ou ganharam demasiado poder na família e querem, a todo o custo, impor a sua lei. Neste último caso, houve um momento crítico no passado familiar: aquele em que o filho “cresceu” para o pai e este fez de conta que nada se estava a passar. Nesse instante decisivo, os pais em causa devem fazer cessar imediatamente esse comportamento da criança ou do adolescente, de outra forma haverá repetição e o ciclo de violência nunca mais parará, sendo particularmente grave nos adolescentes mais velhos, que ameaçam com o seu maior poder físico.

A única solução passa pela esfera relacional, em que pais e filhos constroem uma relação de respeito mútuo, mas onde a palavra final terá de pertencer sempre aos progenitores."


*

Foi a descontinuidade provocada pelo 25 de Abril — a interrupção das aulas no ano lectivo 1973/74, a ausência de aulas em 1974/75 e 1975/76, as passagens administrativas de ano, com ocupação das escolas pelos alunos — e a canalização de milhares de milhões de euros para a sociedade portuguesa em pouco mais de duas décadas, ou seja, ao longo do tempo de crescimento de uma geração de jovens que viu todos os desejos a poderem ser satisfeitos pelos pais, que criou o problema da educação na sociedade portuguesa.

E que ninguém duvide, a palmada pedagógica dada no traseiro, e apenas no traseiro para não provocar qualquer dano anatómico, é indispensável.
Cito o caso de um miúdo de 12 anos que estava com o joelho em cima do banco do laboratório de Física, enquanto os outros alunos estavam sentados, e que recusou cumprir as minhas instruções durante as três passagens que fiz pelas mesas. À quarta passagem pelo seu lugar apanhou uma palmada no traseiro, olhou surpreendido para mim e sentou-se imediatamente. Passou a cumprir as minhas ordens e o nosso relacionamento não foi afectado. Semanas mais tarde consertou de livre vontade um dinamómetro que estava avariado e recebeu um caloroso elogio meu perante a turma.
Quando cheguei à sala de sala de professores, contei o episódio. Uma colega, professora de Português e directora da Biblioteca da escola, que se gabava de ter entrado pela primeira vez numa biblioteca no 10º ano de escolaridade e que tinha idade para ser minha filha, avisou-me que me arriscava a receber uma acusação de pedofilia. Respondi-lhe que nunca ninguém se tornou pedófilo aos 61 anos e virei-lhe as costas, até porque era uma lambe-botas da directora do agrupamento e esse tipo de comportamento mete-me nojo.

O artigo do professor Daniel Sampaio gerou um fórum de opiniões onde estão os argumentos que habitualmente aparecem numa discussão deste grave problema:


Miguel Martel Lima
12/10/2014 00:22
Bom artigo, mas que omite o essencial: os filhos são tiranos e cada vez mais, graças ao "democrático" espírito do 25 de Abril, ou seja a bandalheira, manda aquele que tem mais força e a Justiça, o Respeito pelos Outros, ..., não interessam.
Afinal, os políticos são os primeiros a dar um mau exemplo: o estado em que Portugal está é a prova da incompetência deles, ou a corrupção e impunidade não fossem as grandes características!

Rui Matias
13/10/2014 00:34
Caros Senhores, Com o devido respeito que tenho pelas V/ opiniões, permitam-me dizer que o comportamento actual das crianças e jovens em nada tem a ver com o 25 de Abril ou a corrupção latente no sistema político actual português.
A verdade é que estamos perante uma geração mal-educada cujos valores e princípios de respeito foram desvirtuados ou mal transmitidos. Por isso, os verdadeiros culpados da actual situação não são mais do que os pais dos actuais jovens e adolescentes que não souberam/entenderam que têm a obrigação de educar e não mimar. Tenho dito.

Harukiri
13/10/2014 11:20
Esta questão tem nada a ver com o 25 de Abril mas sim com o laxismo instaurado na nossa (e em outras) sociedade.
Sou pai e nunca deixarei um filho meu chegar a estes extremos. A educação deve ser algo transmitido pelo progenitores sempre. A questão que se coloca é: E quando os próprios progenitores não têm educação ou quando falham em passá-la?
A sociedade, como um todo, anda a dormir à sombra da bananeira e a deixar todos os problemas para outro resolver. Neste caso concreto, tem que se dar novamente poder às escolas para agir e punir o mais simples acto de desrespeito por um professor ou até por um funcionário da escola, isto é algo que é fundamental. Não se pode continuar a criminalizar as chapadas nos meninos, senão o comboio continuará a descarrilar.
  • Nuno Carvalho
    13/10/2014 12:10
    Concordo com o que disse, uma chapada de vez em quando faz milagres, infelizmente hoje um pai que dê uma simples chapada a um filho, sujeita-se logo a ter a segurança social à porta, o que poderá ser um exagero.
    É preciso fazer a distinção entre uma chapada/palmada correctiva/educativa e o espancar uma criança, para que não se confundam.
  • Harukiri
    13/10/2014 13:09
    Nem mais, caro Nuno, é precisamente disso que falo. Contudo acho que esse tipo de ação disciplinar também tem que ser permitido a terceiros, nomeadamente a professores que bem vistas as coisas, passam a maior parte do tempo com as nossas crianças!
  • Gota
    A Gota que é Gutta... 13/10/2014 15:07
    Estou cem por cento de acordo, caros Harukiri e Nuno Carvalho. É preciso pôr termo a esta permissividade absurda que mais tarde resulta obrigatoriamente em libertinagem. Aquilo que se passa nas escolas actualmente é uma aberração. Como diz o caro Nuno, uma bofetada oportuna evitará muitos dissabores futuros!

luamar
13/10/2014 15:15
Infelizmente é mais fácil usar a força para 'educar', ou melhor, adestrar é a palavra correta, ao invés do cérebro. Pais que batem não educam, mas adestram os filhos. Pais que dialogam educam. A linha que separa umas bofetadas de um espancamento é ténue, a tendência é sempre usar mais força. Conversem e deem um castigo sem usar a violência.
  • Gota
    A Gota que é Gutta... 13/10/2014 15:40
    Desculpe, mas dar uma palmada merecida no momento oportuno não é violência e se a coisa se repetir (e repare que digo se) não tem que ser mais forte.
    Todos os pais que se preocupam com a verdadeira educação dos filhos sabem que há alturas em que as palavras são insuficientes e uma palmada oportuna pode ser a diferença entre uma tomada de consciência e uma aprendizagem, ou um futuro desregrado e socialmente prejudicial!
  • tripeiro
    13/10/2014 16:12
    Eu diria que umas boas palmadas são necessárias a uma educação completa. Eu levei algumas e não morri nem fiquei traumatizado e estou certo que o facto contribuiu para algo que agora é muito difícil ver: respeito pelos adultos.
  • Harukiri
    13/10/2014 16:20
    A questão, caro luamar, é que muito poucas crianças vão ao sítio apenas com palavras e castigos brandos (tais como retirar coisas que gostam), para muitas esse tipo de castigo só piora a revolta interna que sentem em relação aos pais.
    Uma palmada não é violência, apanhei várias ao longo do meu crescimento, todas merecidas e cada uma com a sua lição.
    Agora tem que haver é a outra parte. Da mesma maneira que tem que se castigar o errado, também tem que se recompensar o certo. Só assim se cria uma pessoa com carácter capaz de perceber a diferença entre o certo e o errado.

Maria Do Rosário Palma
Excelente Artigo. É uma realidade constante esta que Dr. Daniel Sampaio relata. Vivemos na era em que a maior parte dos filhos é que manda nos pais.
Observei uma situação em que uma criança, com cerca de 5 anos, num lugar público pontapeava uma cadeira. A mãe limitava-se a dizer "Martim não faça isso" e o miúdo continuava e ainda dizia "Faço porque quero". A mãe, impávida e serena, estava mais preocupada em devorar a sua literatura 'cor de rosa' do que mandar o filho parar com aquela falta de respeito. Um senhor chegou ao pé do miúdo e disse-lhe: "Ouve lá, a cadeira fez-te algum mal?" A mãe muito ofendida perguntou: "Por que está a chamar o meu filho à atenção? A mãe sou eu e eu é que mando nele", ao que o senhor respondeu, e muito bem, "Manda? Olhe que não me parece, acho que manda mais ele na senhora, do que a senhora nele".

Ricardo Cardoso
Entre outras coisas, o fenómeno social denunciado no artigo de Daniel Sampaio (assim como na crónica original que lhe serviu de mote) comprova, de forma insofismável, os efeitos deletérios da excessiva democratização de determinados tipos de relações.
Entre pais e filhos, professores e alunos, patrões e empregados (apenas para citar alguns exemplos), embora assente numa lógica de respeito mútuo, tem de ser preservada uma hierarquia, sob pena de se resvalar para a anarquia. A qual, de resto, parece afigurar-se assaz apelativa para alguns defensores mais fundamentalistas dos direitos das crianças e dos jovens. Esquecendo-se, muito convenientemente, de enfatizar que só tem legitimidade para reivindicar direitos quem cumpre os seus deveres.

De tão permissiva e condescendente, esta sociedade onde prevalece uma torpe inversão (ou um aterrador vazio) de valores e em que os progenitores se demitem sistematicamente das suas funções de educadores, produz em série pequenos tiranos que, respaldados na sua inimputabilidade, adotam todo o tipo de comportamentos disfuncionais e antissociais à medida que se vão acercando da idade adulta. Incluindo-se nesse lote de condutas reprováveis as agressões aos próprios genitores.

É, pois, um erro crasso pais e filhos colocarem-se em idêntico patamar, na medida em que isso cerceia a autoridade dos primeiros. Essa é também, por outro lado, a contrapartida que muitos progenitores estão dispostos a conceder a troco do afeto da respetiva prole, cada vez mais tirânica e egoísta. Como se afeto e autoridade parentais fossem conceitos antagónicos e, portanto, absolutamente inconciliáveis.

Termino este meu singelo comentário com um pedido de desculpas antecipado às mentes mais liberais que o mesmo venha, porventura, a melindrar. Para mais tendo em conta o facto de que não possuo qualquer formação nas áreas de Psicologia, Sociologia, Pedopsiquiatria e quejandos. A minha modesta análise resulta, portanto, apenas e só da mera observação empírica, nos mais diversificados contextos, das condutas intoleráveis de muitos petizes malcriados (ainda que camuflados por conceitos decorrentes de uma certa nomenclatura politicamente correta).
Os mesmos que, não reconhecendo sequer a autoridade parental, se insurgem violentamente na sala de aula, agredindo verbal e fisicamente professores, funcionários e colegas. E que amanhã poderão muito bem vir a agredir os seus cônjuges e a sua descendência. Que me perdoem, pois, os especialistas (encartados ou amadores) nessas ciências a minha ousadia por este desabafo de alma.


quarta-feira, 23 de julho de 2014

Guiné Equatorial passou a fazer parte da CPLP


A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) mudou as normas do protocolo na X cimeira da organização, que decorre esta quarta-feira em Díli, capital de Timor-Leste, para dar protagonismo a Teodoro Obiang.



Desde o início, o protocolo da cimeira reservara o tratamento de Chefe de um Estado-membro para o presidente da Guiné Equatorial.

Estava prevista a sua presença imediata na tribuna de honra na sessão de abertura da cimeira, com Teodoro Obiang a ser chamado para a tribuna entre os aplausos dos presentes e dos outros chefes de Estado. Cavaco Silva não aplaudiu.

A tradicional foto de família dos mandatários dos oito países membros da CPLP foi agendada para antes da reunião plenária dos Chefes de Estado. Mas na fotografia já figurava Teodoro Obiang, presidente da Guiné Equatorial, ainda antes do órgão cimeiro da CPLP aprovar a entrada do regime de Malabo.

Também estava programada a presença do presidente da Guiné Equatorial na primeira parte da reunião plenária durante a qual os chefes de Estado iriam decidir a entrada do seu país na CPLP. Parece ter sido uma observação da delegação portuguesa chefiada por Cavaco Silva que evitou este absurdo.

Comentando com os jornalistas estas alterações do protocolo, o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros português, Rui Machete, afirmou não estar surpreendido. Na verdade, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Guiné Equatorial, Agapito Mokuy, já tinha figurado na foto de família dos chefes da diplomacia dos países membros da CPLP da reunião de 20 de Fevereiro, em Maputo. Uma reunião em que os ministros apenas tomaram a decisão de recomendar a entrada da Guiné Equatorial à cimeira de Díli.



23/07/2014 - 12:10

23 Jul, 2014, 08:21


Na primeira parte da reunião plenária da cimeira, Cavaco Silva introduziu a questão da adesão do regime de Malabo, tendo chamado a atenção para os princípios estatutários da CPLP no que refere ao respeito pelos Direitos Humanos. A intervenção do Presidente da República provocou um debate intenso, que demonstrou a relação de forças já conhecida, ou seja, o isolamento de Portugal se se opusesse à entrada da Guiné Equatorial.

Durante o almoço, o presidente de Timor-Leste e anfitrião da cimeira, seguindo uma sugestão de Cavaco Silva, propôs a Obiang que se referisse, na segunda parte da reunião plenária onde já ia participar como presidente de um Estado-membro da CPLP, ao cumprimento pelo seu país do roteiro imposto na cimeira de Luanda, em 2010. Um roteiro que previa alguma humanização do regime de ditadura da Guiné Equatorial, nomeadamente a abolição da pena de morte que foi contornada por Obiang pela adopção de uma moratória que se quedou apenas pela suspensão.

Para evitar constrangimentos para Portugal, a entrada do novo Estado-membro fez-se por consenso não submetido a votação. Foi assim que, nesta quarta-feira, em Díli, a Guiné Equatorial, país chefiado há 35 anos por Teodoro Obiang onde existe a pena de morte e se fala o espanhol, passou a fazer parte da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.


*



23/07/2014 - 00:38

Os ex-ministros Martins da Cruz (PSD) e Severiano Teixeira (PS) debatem a entrada da Guiné Equatorial na CPLP.

Muito dinheiro sujo vem das antigas colónias, sobretudo de Angola, é lavado na banca portuguesa, entra na nossa economia e contribui para melhorar o nível de vida dos portugueses. A distribuição desta riqueza não é equitativa, obviamente, alguns são mais beneficiados do que outros, mas todos lucramos. Ora a Guiné Equatorial tem o maior Produto Interno Bruto per capita de África, cerca de 20 mil dólares, graças ao petróleo, além de ser um paraíso para a indústria de construção civil.

Cavaco Silva sabe-o, aceita-o, eventualmente até desfrui. No entanto, os políticos portugueses movem-se nos corredores da União Europeia. Há que fazer figura de estadista europeu, culto, avançado, legalista, respeitador de normas e defensor dos direitos humanos no seio de países primitivos. Há que exigir à CPLP um comportamento de organização respeitável e os outros países membros fazem-lhe a vontade, desde que cultivar as aparências não coarcte as negociatas.

Muitos portugueses fingem que não reparam nesta vergonha, tudo o que vier à rede é peixe. A notícia do Público mereceu apenas uma dezena de comentários. Destacamos estes:


A Antunes
Investigação Científica 23/07/2014 10:30
O primeiro critério para entrar na "Comunidade dos Países de Língua Portuguesa" devia ser falar a Língua Portuguesa. Se não, trata-se apenas de uma palhaçada. Só não percebo qual o ganho da Guiné Equatorial para querer entrar na CPLP.

vitor pereira
23/07/2014 12:27
A entrada da Guiné Equatorial para a CPLP é a maior vergonha e escândalo desde o nosso 25 de Abril!
Admitem um País de língua espanhola, com um ditador da pior espécie que tem um filho que é pior que ele, onde há pena de morte, ..., só porque a Guiné Equatorial tem petróleo? Isso justifica as barbaridades, assassinatos, roubos e miséria naquele Pais e recebem o presidente de mãos abertas? Portugal devia pura e simplesmente, já que a sua oposição é mínima, suspender como membro até que esse país saia da CPLP.
Aliás Portugal só gasta dinheiro com isso tudo e ninguém vê quaisquer proveitos em ser membro da CPLP. O Governo nunca reconheceu os golpistas da Guiné-Bissau, que foi nossa colónia, e agora aceita a entrada desse país miserável? Políticos metem nojo!

Antonio Silva Ferreira
23/07/2014 23:56
Caro A Antunes,
A Guiné Equatorial tem tudo a ganhar. Trata-se um país ostracizado que, por isso, necessita de aproveitar todas as plataformas possíveis "para dizer que existe". É lamentável que todos os países da CPLP se tenham prestado a ser esse veículo, não respeitando, inclusive, aquilo que é o fio condutor de tal Comunidade: a língua portuguesa.
E Portugal não tem as suas responsabilidades diminuídas, como parece ser a ideia que se quer criar junto da opinião pública. Há que lembrar que o cidadão português que mais se empenhou nesta adesão da Guiné Equatorial foi o ex-ministro dos negócios estrangeiros Luís Amado. Hoje é presidente do Banif. Coincidência? Não creio...


quarta-feira, 11 de junho de 2014

Laboratórios doaram 28 milhões de euros, profissionais de saúde só declararam 8 milhões


De Janeiro até 9 de Junho, a indústria farmacêutica concedeu apoios e subsídios no valor de mais de 28,6 milhões de euros a profissionais e organizações do sector da saúde, mas estes comunicaram que neste período receberam apenas 8,4 milhões de euros dos laboratórios.

A Interrelate, uma empresa especializada no processamento de dados, analisou a informação disponibilizada na plataforma informática da Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde (Infarmed) criado para divulgar os apoios da indústria farmacêutica a profissionais e organizações do sector, associações de doentes e sociedades médicas incluídas.

No início desta semana, o sistema albergava quase 35.000 declarações de doações, mas apenas pouco mais de 5400 comunicações de recebimentos. A discrepância entre os valores declarados pela indústria farmacêutica e os declarados pelos profissionais e entidades do sector da saúde no portal era já superior a 20 milhões de euros.
Embora haja um prazo de trinta dias para efectuar as declarações, os montantes declarados em mais de cinco meses deveriam ser aproximados.

Em vigor desde Fevereiro de 2013, a lei que tornou obrigatórias as declarações dos apoios superiores a 25 euros concedidos pelos laboratórios farmacêuticos a todos os intervenientes no circuito do medicamento está, obviamente, a ser ignorada pela maioria das entidades e profissionais de saúde.

A Ordem dos Médicos prepara-se para publicar um parecer do seu departamento jurídico que esclarece os clínicos sobre o dever de notificar o Infarmed de tudo o que recebem acima dos 25 euros.
“Isto não faz sentido, é uma burocracia”, acrescenta, porém, o bastonário José Manuel Silva, que considera suficiente apenas a indústria farmacêutica declarar os donativos.
“A indústria tem um secretariado para tratar disto, agora os médicos por vezes esquecem-se, têm muito que fazer, não é por mal e muitos deixaram de notificar porque pensam que não faz sentido”, alega.

Questionado se tinha conhecimento do desfasamento dos valores concedidos e recebidos, qual a justificação para este diferencial e se tinha havido, entretanto, algum tipo de punição para os eventuais infractores, como está previsto na lei, o Infarmed garantiu apenas que “tem vindo a monitorizar esta ferramenta, prosseguindo com as alterações necessárias com vista à melhoria do seu funcionamento”.

Segundo os investigadores da Interrelate, a plataforma informática é muito rudimentar. Só para consultar os milhares de declarações de 2014 foram necessárias 36,5 horas de trabalho, sendo muito complicado para um leigo efectuar qualquer tipo de pesquisa nesta plataforma. Além disso, a memória é excessiva, impedindo o portal de ser usado em muitos portáteis.
Inquirido sobre a disponibilidade para aperfeiçoar o portal, o Infarmed respondeu que “tomará as medidas que se considerem necessárias ao cumprimento das obrigações previstas na lei”.


Actualização em 9 de Fevereiro de 2015

Em 2014, a indústria farmacêutica concedeu apoios e subsídios de mais de 60 milhões de euros a profissionais e organizações do sector da saúde, mas estes apenas declararam ter recebido cerca de 21 milhões de euros. Agravou-se, assim, o fosso entre os valores notificados pelos laboratórios e os declarados pelos profissionais e sociedades de saúde no portal da “transparência” do Infarmed.


*

Já agora, recordemos a reacção do bastonário, há menos de um mês, ao novo Código de Ética que está a ser preparado pelo Ministério da Saúde:
"O Ministério da Saúde não sabe o que é Ética, não sabe o que é Deontologia, não sabe o que é Democracia, não sabe o que é um Estado de Direito, não sabe o que é uma missão pública, não sabe o que é defender os interesses dos doentes, não sabe o que são verdadeiros conflitos de interesses, não sabe avaliar as consequências e as possibilidades de cumprimento das suas iniciativas legislativas (o que são incentivos institucionais? vai instituir um sistema nacional de recolha de livros, de esferográficas, de galinhas, de ovos e de couves?!)."

O novo código prevê que os funcionários do Serviço Nacional de Saúde (SNS) passem a encaminhar qualquer presente que recebam para a Secretaria-Geral do ministério, ofertas que depois serão doadas a instituições de solidariedade.

Afinal são galinhas e ovos de ouro. Palmas para o ministro Paulo Macedo.

Fica-nos apenas uma dúvida. Porquê a investigação ao portal do Infarmed não foi feita por funcionários administrativos do ministério da Saúde? Se são incompetentes por que foram admitidos?
Se queremos dignificar a função pública, temos de questionar tanto a competência dos seus funcionários e os meandros da sua admissão, como os da contratação de empresas privadas para investigações aos intervenientes no circuito do medicamento.


sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Os apelos à violência e a sabedoria popular


Depois dos apelos à violência do encontro promovido ontem, em Lisboa, por Mário Soares, convém perceber o porquê desses apelos caírem em saco roto. O artigo que transcrevemos reflecte sobre o assunto:


"O povo pede desculpa por ainda não ter escolhido a violência

JOSÉ MANUEL FERNANDES 22/11/2013 - 01:01

Apesar de tanta gente antecipar a violência popular, o país parece ter descoberto uma sabedoria dos tempos difíceis

Se os tempos fossem outros, o “encontro das esquerdas” promovido ontem por Mário Soares na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa teria sido convocado para um espaço bem mais amplo.

Se os tempos fossem outros, a criação de um novo partido que afirma a ambição de federar as esquerdas não teria decorrido numa sala meio vazia de um cinema de Lisboa. Se os tempos fossem outros, os quase 500 dias de protestos e greves no sector público de transportes já teriam desembocado em múltiplas greves gerais capazes de paralisarem o país e não de ficarem quase só pelas empresas e pelos funcionários do Estado.

Mas então por que é que os tempos não são outros? A acreditar nas previsões dos mais avisados políticos e dos mais ponderados senadores, o país devia estar a ferro e fogo. Pessoas aparentemente tão diferentes como Mário Soares – que há mais de um ano escreve sobre “a violência que aí vem” e esta quarta-feira anunciou que “os portugueses não iam ficar parados” — ou Januário Torgal Ferreira — que entendeu que a melhor forma de criticar o Governo era chamar-lhe “profundamente corrupto” — convergem numa mesma inquietação: o povo está muito parado, muito apático. Talvez por isso, como se cantava noutros tempos, o que seja preciso “é agitar a malta”.

Por outro lado, se olharmos para uma banca de jornais ou nos sentarmos para ouvir um telejornal, o rol de desgraças e malfeitorias é tão interminável que se entende a incompreensão de tantos dos nossos opinadores por os tempos não serem outros. Num país onde tudo é sempre apresentado como mais um cataclismo social, custa a entender por que não surgiu ainda uma moderna Carbonária.

Não sei, ninguém sabe, se o nosso país vai conseguir atravessar estes dias difíceis sem episódios com a gravidade de alguns que já ocorreram noutros países. Nunca se está livre de um episódio, que até pode ser isolado — como foram, esta semana, os tiroteios em Paris —, atear tempestades maiores. Mas julgo sinceramente que não é o cenário mais provável. Mais: isso não decorrerá dos nossos míticos “bons costumes”, antes de existir a percepção, mesmo que difusa e poucas vezes assumida, de que houve um tempo de fartura (relativa) que passou e que agora há um tempo de contenção que durará vários anos e vários governos.


Recentemente, a propósito da fraca afluência à que deveria ter sido a terceira grande manifestação do movimento Que Se Lixe a Troika, não faltou quem culpasse o medo pela ausência das esperadas multidões. Mas medo de quê? Medo do Governo? Não faz sentido. Medo de perder o emprego? Mas quem o perderia por desfilar a um sábado, dia de descanso? Medo do futuro? Sem dúvida. Mas não deveria esse medo do futuro convocar ainda mais manifestantes?

Talvez seja esta última interrogação a mais pertinente. Se há medo do futuro, há talvez ainda mais medo das alternativas aos dias que correm. Até pelo que elas omitem. Tomemos um caso desta semana. Mário Soares entendeu que era chegado o momento não apenas de pedir a demissão do Governo, como a saída do Presidente da República. Não faço ideia, e julgo que ninguém fará, como quereria que se gerisse depois o longo interregno, que duraria muitos meses, de incerteza política e caos institucional. Com um primeiro-ministro tecnocrata? Com um Presidente designado pelas Forças Armadas? E quem negociaria com a troika? Os partidos, cada um por si? E seria que o PS devia ficar de fora, para não legitimar nada? E como iria Portugal conseguir os mais de 20 mil milhões de euros de que necessita para financiar o défice de 2014 e pagar os empréstimos que vencem ao longo do próximo ano? Incumpria, declarando bancarrota?

Ao mesmo tempo, o PS, apesar de alguns esforços para formular uma política mais coerente e de algumas tiradas sobre “responsabilidade orçamental”, praticamente só apresentou na Assembleia propostas de alteração ao Orçamento que fariam aumentar o défice de 2014. É simpático, mas não é suficientemente sólido para que António José Seguro seja levado a sério.

Faço parte dos que sentem — dos que sabem — que “não há dinheiro”, mas já não sou dos que defendem que não há alternativa. Alternativas há sempre, é preciso é saber se são melhores. O que me custa ver em Portugal é pouca gente assumir que todas as alternativas têm também os seus custos. Podemos, por exemplo, defender que há cortes nas despesas do Estado que são intoleráveis — mas então devemos também dizer como fazemos crescer as suas receitas, e não vale falar das quimeras do crescimento económico, pois esse quase desapareceu desde a viragem do milénio e não regressará apenas pondo o Estado a gastar mais dinheiro. Depois de ter comprado tantas ilusões durante tantos anos e tantos ciclos eleitorais, o povo quer mais, não se satisfaz apenas com propostas de acabar com a austeridade — porque não acredita nelas.

A forma como os portugueses têm vindo a alterar os seus padrões de consumo ajuda-nos a perceber este novo estado de espírito. Um estudo de mercado muito alargado elaborado no final do ano passado indicava, por exemplo, que havia entre os consumidores aquilo a que os especialistas chamaram um novo “frugalismo”. Não se abdica apenas do que não se tem dinheiro para comprar, abdica-se do que se pensa que é supérfluo. Isso acontece tanto nas escolhas feitas nas prateleiras de um hipermercado como no recurso a mercados de bens em segunda mão (como nos sites de leilões). E não corresponde apenas a uma alteração de comportamento, corresponde também a uma nova atitude anticonsumista que é verbalizada nas entrevistas. Isto significa que tais alterações de comportamento não são tão sofridas como se deduziria apenas da leitura muitas vezes alarmista da imprensa e dos fazedores de opinião.

Outro aspecto importante é a forma como os sacrifícios são percepcionados. Por exemplo: fala-se sempre de “cortes nas pensões”, nunca se refere que a maioria esmagadora das pensões não sofreu até hoje nenhum corte pela razão simples de que são demasiado baixas. Outro exemplo: apresenta-se como uma catástrofe social os cortes a partir de 700 euros na administração pública (cortes que também eu lamento profundamente começarem nesse nível salarial), mas esquece-se que metade dos salários no sector privado é inferior a 650 euros, o que significa que esses trabalhadores não se chocam tanto como as elites com os cortes acima dessa fasquia. Mais: até são capazes de achar que assim se repõe alguma equidade.

Como dizia o Herman José, “a vida dos pobrezinhos é um mistério”, e neste país há muito mais rendimentos realmente baixos do que aquilo que a alta classe média imagina. Essa distância ajuda a perceber por que tantos não entendem por que é que o povo ainda não encontrou uma nova Maria da Fonte. Essa distância e a percepção da maioria que, mesmo sendo estes dias difíceis, há alguma coisa que pode perder (o apartamento nos subúrbios, o carro em terceira mão). Ao contrário dos mitológicos proletários de Marx, que só tinham a perder as suas cadeias...

Jornalista, jmf1957@gmail.com"


quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Caos na colina do Capitólio



Ver Caos na colina do Capitólio em mapa maior


Uma mulher de 34 anos, desarmada, com a filha de 1 ano no carro, terá batido num posto de controle de segurança junto à Casa Branca, no cruzamento das ruas 15ª e E NW, pelas 14:12, nesta quinta-feira, terceiro dia da paralisação do governo dos Estados Unidos. Agentes do serviço secreto estavam a gritar para o carro, diz uma testemunha, Joseph Shawn, 29 anos: "Parecia [que a condutora estava] amedrontada ou perdida. Pensei que poderia ter sido uma turista". Fugiu.

As autoridades iniciaram, então, uma perseguição com dezenas de polícias e carros. Meia dúzia de carros patrulhas conseguiram encurralá-la em Garfield Circle, junto ao Capitólio. Recuou e voltou a fugir.

18:38 GMT, 3 October 2013
Bloqueada pela polícia e agentes à paisana em Garfield Circle, junto ao Capitólio, Miriam Carey, com a filha no banco traseiro do Nissan Infiniti preto, foge.


O Capitólio dos EUA foi colocado em bloqueio de segurança, os congressistas e senadores receberam ordens para se trancarem nos gabinetes e adiaram o debate para obtenção de um acordo que permita a aprovação do orçamento e ponha fim à paralisação do governo federal. Os polícias — intervieram o FBI, a US Capitol Police e a DC Police —, tal como o restante milhão de funcionários públicos que estão a assegurar os serviços mínimos nos EUA, não estão a receber salário.
Os jardins do Capitólio foram evacuados. Transeuntes e turistas fugiram espavoridos. Um dos polícias espatifou o carro patrulha numa barreira na Constitution Avenue.
Noutra barreira erguida mais à frente, no cruzamento com a 2ª Rua NE, a mulher abrandou a velocidade do carro e foi morta a tiro.

Depois das autoridades policiais terem inspeccionado o automóvel e concluído que não tinha armas nem explosivos, foram inspeccionar a residência de Miriam Carey com um robô.



Oct 3, 2013
O alarido da perseguição policial junto ao Capitólio dos EUA e o pânico dos transeuntes.



(clicar para ampliar)


O carro patrulha que chocou contra uma barreira embutida na Constitution Avenue.


O carro de Miriam no posto de controle da US Capitol Police onde foi morta a tiro.



Friday, Oct 4, 2013 | Updated 6:07 EDT


domingo, 29 de setembro de 2013

Humor em Lisboa






Lisboa chumbou no teste da carteira

Top das Cidades Mais Honestas
  1. Helsínquia, Finlândia (11 carteiras em 12)
  2. Bombaim, Índia (9 em 12)
  3. Budapeste, Hungria (8 em 12)
    Nova Iorque, EUA (8 em 12)
  4. Moscovo, Rússia (7 em 12)
    Amesterdão, Holanda (7 em 12)
  5. Berlim, Alemanha (6 em 12)
    Ljubljana, Eslovénia (6 em 12)
  6. Londres, Reino Unido (5 em 12)
    Varsóvia, Polónia (5 em 12)
  7. Bucareste, Roménia (4 em 12)
    Rio de Janeiro, Brasil (4 em 12)
    Zurique, Suíça (4 em 12)
  8. Praga, República Checa (3 em 12)
  9. Madrid, Espanha (2 em 12)
  10. Lisboa, Portugal (1 em 12)


quarta-feira, 25 de setembro de 2013

A degradação dos costumes


O Tribunal da Relação do Porto considerou que expressões como “incompetentes de merda” ou “abaixo estes ladrões” dirigidas a um serviço de Finanças não podem ser consideradas um “crime de ofensa a organismo, serviço ou pessoa colectiva”.

A 30 de Março de 2010, um contribuinte enviou um e-mail às Finanças de Gaia a verberar a ausência de resposta a um seu protesto sobre a cessação de benefícios fiscais a que teria direito onde considera os serviços fiscais “incompetentes de merda”.
A 5 de Abril decide enviar outro e-mail a reprovar, mais uma vez, a falta de resposta por parte das Finanças e descarrega a sua fúria escrevendo “Abaixo estes ladrões”.

As Finanças levaram o caso a tribunal e o 3.º Juízo Criminal de Vila Nova de Gaia condenou o contribuinte a uma pena de 70 dias de multa à taxa diária de sete euros, num total de 490 euros.

O arguido recorreu da decisão e o Tribunal da Relação do Porto decidiu em seu favor.
Diz o douto juiz desembargador na sua sentença que, apesar de “difamatórias” para com “as pessoas concretas que têm tido intervenção nos processos que o arguido tem pendentes nesse serviço [Finanças de Gaia]”, as expressões utilizadas não representam um “crime de ofensa a organismo, serviço ou pessoa colectiva” porque este tipo de crime “supõe a imputação de factos inverídicos, não a formulação de juízos”.
Acrescenta que a expressão “abaixo estes ladrões” pode “ofender a honra e consideração de uma pessoa singular, mas não o crédito, o prestígio ou a confiança de uma pessoa colectiva” e só seria possível uma condenação, se a queixa tivesse partido dos funcionários que o contribuinte considera incompetentes e não da instituição onde trabalham.

*

É verdade que muitos serviços da função pública funcionam mal, sempre devido às suas chefias incompetentes e desonestas que depois se armam em virgens ofendidas.
É verdade que, fora de épocas eleitorais, governantes e autarcas estão acostumados a tratar as pessoas que deles dependem com sobranceria e desdém, sem o mínimo pudor, sem o mais ténue estremecimento ético quando as prejudicam gravemente, bem protegidos pela segurança que lhes proporciona a pertença a grupos de compadrio e a teias de influência política.

Mas é inaceitável sempre que uma pessoa tem, ou julga ter, razão numa desavença se arrogue o direito de insultar o interlocutor e de usar linguagem de carroceiro. E ainda mais inaceitável que um tribunal de segunda instãncia venha acarinhar um comportamento social tão nefasto.
Que tipo de sociedade é que, por este caminho, vamos construir? Uma sociedade onde se vai procurar resolver as divergências com agressões verbais.

Criticar, sim, mas de forma civilizada. Pobre culturalmente é, e pobre financeiramente será, a sociedade em que as pessoas têm de recorrer aos impropérios para se fazerem ouvir.
Que saudade dos tempos em que se aprendia nos bancos da escola a educar a raiva com a prosa vernácula dos nossos maiores escritores, como esta sublime carta de Eça de Queirós:


"Il.mo e Ex.mo Senhor Pinto Coelho, digno director da Companhia das Águas de Lisboa e digno membro do Partido Legitimista.

Dois factores igualmente importantes para mim me levam a dirigir a V. Ex.ª estas humildes regras: o primeiro é a tomada de Cuenca e as últimas vitórias das forças carlistas sobre as tropas republicanas, em Espanha; o segundo é a falta de água na minha cozinha e no meu quarto de banho.
Abundaram os carlistas e escassearam as águas, eis uma coincidência histórica que deve comover duplamente uma alma sobre a qual pesa, como na de V. Ex.ª, a responsabilidade da canalização e a do direito divino.
Se eu tiver a fortuna de exacerbar até às lágrimas a justa comoção de V. Ex.ª, que eu interponha o meu contador, Ex.mo Senhor, que eu o interponha nas relações da sensibilidade de V. Ex.ª com o mundo externo! E que essas lágrimas benditas, de industrial e de político, caiam na minha banheira!

E, pago este tributo aos nossos afectos, falemos um pouco, se V. Ex.ª o permite, dos nossos contratos. Em virtude de um escrito, devidamente firmado por V. Ex.ª e por mim, temos nós — um para com o outro — certo número de direitos e encargos.
Eu obriguei-me para com V. Ex.ª a pagar a despesa de uma encanação, o aluguer de um contador e o preço da água que consumisse. V. Ex.ª, pela sua parte, obrigou-se para comigo a fornecer-me a água para meu consumo. V. Ex.ª forneceria, eu pagava. Faltamos evidentemente à fé deste contrato: eu, se não pagar, V. Ex.ª, se não fornecer.
Se eu não pagar, V. Ex.ª faz isto: corta-me a canalização. Quando V. Ex.ª não fornecer, o que hei-de eu fazer, Ex.mo Senhor? É evidente que, para que o nosso contrato não seja inteiramente leonino, eu preciso no caso análogo àquele em que V. Ex.ª me cortaria a mim a canalização, de cortar alguma coisa a V. Ex.ª... Oh! E hei-de cortar-lha!...

Eu não peço indemnização pela perda que estou sofrendo, eu não peço contas, eu não peço explicações, eu chego a nem sequer pedir água! Não quero pôr a Companhia em dificuldades, não quero causar-lhes desgostos, nem prejuízos!
Quero apenas esta pequena desafronta, bem simples e bem razoável perante o direito e a justiça distributiva: quero cortar uma coisa a V. Ex.ª!

Rogo-lhe, Ex.mo Senhor, a especial fineza de me dizer imediatamente, peremptoriamente, sem evasivas, nem tergiversações, qual é a coisa que, no mais santo uso do meu pleno direito, eu possa cortar a V. Ex.ª.

Tenho a honra de ser.
De V. Ex.ª
Com muita consideração e com umas tesouras.

Eça de Queirós”


quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Trabalhar na vindima para pagar propinas


Mais de cem mil adolescentes passaram pela Zambujeira do Mar nos últimos dias pagando bilhetes de 95 euros para ouvir música de fraca qualidade que, na opinião de Luís Montez, promotor do festival, é "o que os nossos fãs querem ouvir".

Enquanto o genro de Cavaco Silva vai promovendo a estupidificação dos jovens, exaurindo os bolsos dos respectivos progenitores, há quem arrisque e dê oportunidades de trabalho aos jovens para que possam pagar os seus estudos.
Duas dezenas de alunos do Instituto Politécnico de Beja estão a vindimar na Herdade do Vale da Rosa, em Ferreira do Alentejo. A retribuição que vão receber por um trabalho de seis semanas é o pagamento das propinas do próximo ano lectivo:

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

É preciso dizer não


Matar um animal para comer é uma questão de sobrevivência, matar pelo prazer de exibir o troféu, ou para condicionar terceiros, é simplesmente abjecto.





27 Fev, 2013, 20:24

Queixam-se os jovens, que cometeram os desacatos na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa aquando da intervenção de Passos Coelho na conferência "A reforma do Estado", que não têm mil euros para pagar as propinas. Não nos venham atirar areia para os olhos, por favor, muito mais do que isso costumam gastar estes jovens, ao longo do ano, em discotecas, álcool, tabaco e cannabis.

O problema nasceu há uma década quando estes rapazes e raparigas tinham treze ou catorze anitos e começaram a bater o pé aos pais porque queriam sair à noite durante os fins-de-semana. Os pais cederam, deram-lhes dinheiro para se divertirem e aceitaram que regressassem a casa embriagados às cinco da madrugada.

Deixaram de ter aproveitamento escolar mas os pais fizeram recair a culpa sobre a puberdade ou sobre os professores a quem acusaram de ensinar mal e traumatizar as ‘crianças’ ao atribuírem notas negativas.
No final do ensino básico os adolescentes escolheram as vias que permitiam acesso a cursos fáceis — literaturas modernas, jornalismo, comunicação social, relações públicas, relações internacionais, sociologia, ciências políticas, gestão de empresas à moda do ISCTE, e por aí fora — sem se preocuparem com a empregabilidade dos mesmos.

Quando o País entrou em situação de pré-bancarrota, os subsídios escolares foram reduzidos e, além disso, os pais deixaram de poder suportar aquele estilo de vida. Daí a enfiarem-se num partido adequado à sua raiva foi um passo. Depois especializaram-se em organizar, primeiro, manifestações, e agora arruaças.

Longo e tortuoso vai ser o caminho de regresso ao trabalho e à disciplina destes jovens numa sociedade que, de alto a baixo, se habituou ao facilitismo e ao divertimento. É de esperar que, em muitas escolas do ensino básico e secundário e nas instituições do ensino superior de pior qualidade, cenas de pura violência física e psicológica passem a ser o pão nosso de cada dia. Quando nos pedirem a concordância com tais actos, em nome das dificuldades financeiras das famílias, temos de saber dizer não. Quando nos exigiram a adesão, temos de aprender a lutar. Não há alternativa.


sábado, 23 de fevereiro de 2013

A incrível estratégia do PCP e do BE


Tudo começou em 15 de Fevereiro durante o debate quinzenal no parlamento, quando um grupo de manifestantes do movimento "Que se lixe a troika", sentados na galeria central do hemiciclo, interrompeu a intervenção do primeiro-ministro cantando a "Grândola, Vila Morena" e toda a gente sorriu:


15.02.2013 11:24

Depois tornou-se rotina:


20.02.2013 13:37
Quando o ministro da Saúde, Paulo Macedo, ia discursar num debate na Aula Magna da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, seis pessoas cantaram o "Grândola, Vila Morena", seguido de várias palavras de ordem.

19 Fev, 2013, 20:20
Num debate do clube dos pensadores, em Vila Nova de Gaia, Miguel Relvas foi interrompido por um grupo de manifestantes que entoaram "Grândola, Vila Morena" seguido de insultos. Relvas não é propriamente um santo, mas tem razão ao afirmar que em democracia os governos são demitidos em eleições.


19 Fev, 2013, 22:24
Logo a seguir Miguel Relvas foi vaiado e impedido de falar por estudantes no ISCTE que o perseguiram pelos corredores. Ora nem o ISCTE é uma instituição de referência — tem dado licenciaturas e doutoramentos a tudo o que é político socialista ou comunista —, nem alunos que vão procurar cursos fáceis na área das ciências sociais se podem comportar como virgens ofendidas.


23 Fev, 2013, 09:47
O ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira, foi recebido em São João da Madeira por manifestantes que entoaram "Grândola, Vila Morena".


23 Fev, 2013, 09:48
O ministro da Administração Interna, Miguel Macedo, foi também recebido na Guarda com vaias e ao som de "Grândola, Vila Morena" cantada por José Afonso. Usaram a voz, mas esqueceram-se de ir depositar hoje um cravo na sua sepultura.


Portugal é, decididamente, um país alegre. É o foguetório minhoto, é o folclore beirão, é o bailinho da Madeira. Mesmo em crise, com um brutal desemprego, com famílias endividadas, com jovens a emigrar, o país canta. Na Grécia os manifestantes arremessam com fúria contra a polícia de choque; em França, os habitantes dos bairros periféricos incendeiam carros; nos Estados Unidos, os psicopatas fazem fogo real em escolas e universidades. Mas em Portugal não, em Portugal os descontentes cantam o "Grândola, Vila Morena"!

Gonçalo Portocarrero de Almada, publicado em 23 Fev 2013 no jornal "i".


Acontece que os incêndios de carros nos subúrbios de Paris, os cocktails Molotov nas ruas de Atenas, as carnificinas nas escolas dos Estados Unidos são actos extremistas rejeitados instintivamente por pessoas de todas as idades e estratos sociais.

Pelo contrário, a canção “Grândola, Vila Morena” ficou ligada à memória do 25 de Abril que ainda permanece gravado no imaginário dos portugueses como o momento feliz da entrada do País numa via de justiça e prosperidade — pura ilusão! —, tocando afectivamente toda a gente. O poema que apela à amizade e à fraternidade e a doçura da melodia provocam a adesão emocional das pessoas, estando a ser adoptado como música de intervenção nas manifestações recentemente ocorridas em Madrid.

Assim, sorrateira e mansamente vai-se instilando em jovens e idosos o desrespeito, primeiro pelos governantes, depois por tudo o que for autoridade neste País, sem provocar a criação de anticorpos mesmo nas mentes mais vigilantes.
Dentro em pouco, um polícia dá uma ordem a um grupo de pessoas e estas embargam-lhe as palavras cantando “Grândola”. Um professor procura começar a aula e vê alguns alunos levantarem-se e entoarem a música de José Afonso, impedindo-o de falar. Os pais tentam mandar os filhos deitarem-se, e os miúdos vão insistir em ficar a jogar no computador gritando o Grândola a plenos pulmões.

Num momento em que o desemprego atinge níveis históricos e o País sofre a pior recessão dos últimos quarenta anos, o PCP e o BE nem sequer 20% dos votos alcançam nas sondagens. Mas com uma canção conseguem condicionar subtilmente 10 milhões de portugueses e instaurar um clima de desrespeito propício a uma sublevação nacional.
A estratégia não podia ser mais fabulosa.


domingo, 27 de janeiro de 2013

Grave acidente de autocarro na Sertã


Um autocarro com 44 pessoas a bordo despistou-se e caiu numa ravina, por volta das 8:30, no nó de acesso do IC8 ao Carvalhal, na Sertã, distrito de Castelo Branco.
O acidente provocou 11 mortos, com idades entre os quarenta e os setenta anos, e 33 feridos, dos quais cinco em estado grave.
As sete crianças que seguiam na excursão sofreram apenas ferimentos ligeiros.

Trinta e quatro tinham partido de Portalegre, quatro de Monforte, três de Marvão, dois de Arronches e um de Castelo de Vide, com destino a Santa Maria da Feira onde iam visitar o presépio de São Paio de Oleiros que é considerado o maior de mundo.



27 Jan, 2013, 20:28


Segundo a mulher do motorista, apenas os passageiros da frente utilizavam cinto de segurança, já que os lugares traseiros deste autocarro de matrícula espanhola não dispõem deste sistema de retenção.


27/01/2013 - 14:35
O depoimento da mulher do motorista


Para ajudar no resgate foram deslocados 323 bombeiros e agentes da protecção civil, 124 veículos, gruas e um helicóptero. Um hospital de campanha foi montado no local e dezenas de ambulâncias foram posicionadas na estrada para transportar os feridos.

Na sequência deste acidente, o ministro da Administração Interna Miguel Macedo, que esteve a visitar alguns dos feridos internados nos Hospitais da Universidade de Coimbra, apercebeu-se da necessidade de exigir à organização de excursões que tenha listas dos passageiros porque facilitaria a operação de socorro.

Miguel Macedo apelou ainda aos condutores para reforçarem os cuidados de segurança quando há mau tempo e elogiou as forças de segurança e de socorro que estiveram envolvidas na operação.



27 Jan, 2013, 20:43
A remoção do autocarro


terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Calcule o seu rendimento líquido mensal em 2013


Ontem foi publicado o Despacho 796-B/2013 com as tabelas de retenção na fonte de IRS para 2013, por isso tornou-se possível fazer a simulação do salário ou pensão líquida mensal.
Aqui ficam os simuladores da PricewaterhouseCoopers (PwC) para usar em computadores com o Microsoft Excel:

  • Sector privado
    Como os trabalhadores podem optar pelo pagamento de 50% do subsídio de férias e de Natal em duodécimos, o simulador PwC privado permite calcular o rendimento líquido com ou sem diluição destes subsídios.
    Para saber quanto receberá, basta inserir o seu salário mensal bruto, o estado civil e o número de dependentes.
    No final, compare com o que recebia em 2012.

    Nota: apesar das tabelas de retenção na fonte já terem sido publicadas, o Governo permite que as empresas do sector privado apenas as apliquem no salário de Fevereiro, mês em que também poderá ter início o pagamento dos duodécimos.

  • Função pública
    Os trabalhadores não podem optar. O simulador PwC publico, mostra que, para contribuintes solteiros ou casados 2 titulares com rendimento mensal bruto superior a 1850 Euros, a diluição do subsídio de Natal não absorve na totalidade o aumento do imposto mensal (retenções na fonte de IRS e sobretaxa).

    Portanto os funcionários públicos com rendimentos brutos mensais superiores a 1850 Euros, mesmo com o pagamento do referido subsídio em duodécimos, vão auferir rendimentos líquidos inferiores aos que auferiam em 2012.

  • Pensionistas
    Também não podem optar. O simulador PwC pensoes, que já reflecte o impacto da contribuição extraordinária de solidariedade (CES) aplicada às pensões superiores a 1350 euros, permite saber o valor da pensão líquida que irão receber em 2013.



Actualização em 18 de Janeiro com o comunicado do Ministério das Finanças sobre a CES:

Para obter o rendimento líquido que receberá ao fim do mês, os pensionistas terão de subtrair três parcelas à pensão bruta:
  • a retenção de IRS aplicada sobre o valor bruto da pensão;
  • a CES;
  • a retenção da sobretaxa especial:
    sobretaxa = 3,5% x (pensão bruta - retenção de IRS - CES - 485€).
Além dos valores e limites, a única diferença em relação a 2012 é que a CES passa a aplicar-se a todos os rendimentos provenientes de pensões, independentemente da natureza da entidade pagadora, incluindo as pensões dos bancários que foram objecto de transferência para a Segurança Social no final de 2011.

O comunicado faz ainda algumas considerações sobre a justiça e a constitucionalidade da CES, realçando que a esmagadora maioria (92%) dos pensionistas permanece isenta da CES. Com efeito, do universo de cerca de 3,4 milhões de pensionistas em Portugal, tem-se:

______________________________
Pensões inferiores a 1350 euros
Pensões superiores a 1350 euros
Pensões superiores a 5030 euros
**das quais
**SS
**CGA
______________________________
Total

____________________
cerca de 3.100.000
cerca de * 300.000
2.430

965
1.465
____________________
3.400.000

_________
92,0%
8,0%
0,1%



_________
100,0%


*

terça-feira, 22 de maio de 2012

"O que é que tudo isto significa?"


Uma Terapia, o anúncio publicitário que o cineasta Roman Polanski realizou para a Prada, é uma pequena obra-prima que vai obrigar os furiosos opositores da publicidade — mea culpa — a desperdiçar alguns minutos.

Neste “antianúncio”, como o qualificou o cineasta, Ben Kingsley e Helena Bonham Carter interpretam um psicanalista e uma paciente numa sessão interrompida por um casaco sedutor.

Para saborear:





terça-feira, 1 de maio de 2012

Dia do Consumidor


Uma promoção da cadeia Pingo Doce, que oferecia 50% de desconto em compras superiores a cem euros, levou milhares de pessoas a acorrer aos vários supermercados espalhados pelo País.
Nalguns gerou-se o caos e a PSP interveio para controlar as entradas e saídas e resolver conflitos, com registo de ocorrências em quase todos os distritos do país.
As televisões foram filmar as longas filas às portas das lojas e a notícia foi difundida pelos jornalistas nos telejornais e pela população nas redes sociais.
Os sindicalistas, que estavam a comemorar o 1º de Maio, consideraram que a medida era concorrência desleal e criticaram-na no seu tempo de antena, ajudando a amplificá-la.

A Jerónimo Martins agradece a vossa colaboração nesta campanha de publicidade.
Os trabalhadores agradecem a despensa cheia por metade do preço.





Gravado numa das lojas do Pingo Doce de Lisboa, o vídeo da realizadora Teresa Villaverde mostra a multidão, as prateleiras da carne, das bebidas alcoólicas e a banca do peixe vazias e as enormes filas de espera nas caixas.


01.05.2012 22:06


domingo, 25 de março de 2012

Morreu mais um jovem finalista do secundário em Lloret de Mar


Um jovem de 17 anos, residente em Castro Verde, morreu hoje depois de cair do 5º andar do hotel onde estava alojado na localidade de Lloret de Mar, em Espanha.

Fonte policial diz que não se tratou de um caso de balconing, prática em que jovens se lançam das varandas dos hotéis para as piscinas. Há testemunhos que confirmam ter sido uma queda acidental em circunstâncias que estão a ser averiguadas.

Era aluno do 12.º ano da Escola Secundária de Castro Verde e o director deste estabelecimento de ensino disse que o adolescente partiu na sexta-feira ao final do dia para a viagem de finalistas do ensino secundário com cerca de 20 colegas da mesma escola. Acrescentou que a escola não esteve envolvida na organização da viagem e os alunos não foram acompanhados por professores.


Há dois anos um jovem de Lamego, também de 17 anos, morreu na sequência de uma queda da varanda do 4º andar de um hotel em Lloret de Mar.
A Polícia de Girona disse, nessa altura, que os indícios apontavam para uma “queda acidental” ocorrida quando o jovem se encontrava numa varanda de um empreendimento turístico daquela cidade.



24.03.2012 21:03
A fiscalização da GNR não foi suficiente para evitar mais uma morte


Milhares de jovens portugueses continuam a deslocar-se todos os anos a Lloret de Mar na altura da Páscoa, em viagem de finalistas.

Há algumas décadas, quando os pais ainda se preocupavam com o futuro dos seus filhos, as férias da Páscoa eram bem aproveitadas pelos jovens.
Em parte, para descansarem porque tinham pela frente o último período do final de ensino secundário seguido por uma época de seis exames exigentes e, noutra parte, para reverem as matérias sobre as quais incidiam esses exames.

Lloret de Mar não é um local de descanso ou de saudável distracção. É uma estância balnear em que só há discotecas onde circulam álcool e outras drogas. Os acidentes são frequentes e esta já é a segunda morte entre os estudantes portugueses.

Quantas mais mortes serão necessárias para que os pais portugueses compreendam que não devem autorizar a participação dos filhos em viagens de finalistas do ensino secundário para destinos perigosos para os adolescentes como Lloret de Mar?

Um pouco de amor aos filhos, precisa-se!








Actualização
O relato de uma testemunha da morte de Victor Mota e um comentário para os pais reflectirem:


Maria Firmino. 26.03.2012 22:56 Via Facebook
Viagens de finalistas?
Sou professora numa escola secundária e todos os anos é arrepiante vê-los partir para uma viagem que não sabem se tem regresso. São acidentes de moto, lembram-se? São quedas de varandas. São comas alcoólicos. São abortos que se fazem porque nem se imagina quem é o pai. É horrível o que se sabe destas viagens. Basta ser amigo de alguns alunos para eles relatarem à sucapa o que se passa lá. Tenho tido ao longo destes anos conhecimento de casos dramáticos que deixaram marcas para o resto da vida.
Quando o meu filho foi finalista não o autorizei a ir e ele aliás nem pediu pois já sabia as histórias que eu contava e não tem pena nenhuma de não ter ido. Às vezes é engraçado dizerem que não têm dinheiro para comprar os livros mas chega a viagem e logo aparece dinheiro para a pagarem. Enfim...


sábado, 24 de março de 2012

O cidadão português comum é sensato


Na imprensa on-line, no meio de comentários revelando a maior ignorância sobre os problemas do País e apresentando propostas de solução mirabolantes, de vez em quando surgem pequenas pérolas como a que se segue.
O artigo alvejado falava do regresso aos mercados financeiros como se fosse uma ventura. Como este comentário foi o mais votado, estão os cidadãos lusos de parabéns.
Sem pretender desmerecer o comentador, só acrescentamos que o único inconveniente da troika é o elevado preço dos seus excelentes serviços, mas não se pode ter tudo!


tuga 23 Março 2012 - 08:39
Jesus... que tacanhez!
Parece que o facto de nos conseguirmos financiar nos "mercados" é a porta do paraíso. Quando se trata de pagar juros mais altos e ter mais dívida. Que, se não falirmos, terá que ser paga.
Teoricamente, estarmos sob a alçada da troika, é bem melhor porque eles obrigam a que façamos o necessário para melhorarmos.
Naturalmente que os políticos não gostam da troika porque não lhes dá tanto à vontade para esbanjar e dar a ganhar à escumalha que os rodeia. A troika empresta-nos dinheiro, a juros não muito altos, evita que andemos a esbanjar (tanto) e tenta que tenhamos uma agenda do crescimento.
E querer o contrário disto é que é a maravilha? Está tudo doido? Dra. Helena, quer voltar à maravilha dos últimos 15 anos? Por mim, bem podia viver com a troika mais 30 anos.
Os "mercados" são como os bancos, só gostam daqueles que estão bem... depois fogem.
Eu acho uma estupidez repudiar a troika. E acho que o jornalismo devia estar muito interessado era no que crescemos, no controlo das contas públicas, na melhoria do ensino, da justiça, da formação profissional, da produtividade. Isso é que é importante para o país. E com a troika mais depressa lá chegamos.