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terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

In Memoriam Laura Ferreira




27 de Setembro de 1965 - 25 de Fevereiro de 2020


Laura Maria Garcês Ferreira nasceu em Bissau numa família profundamente ligada a Cabo Verde e à Guiné-Bissau. Na verdade, embora ambos os progenitores fossem filhos de portugueses, o pai, Tomás Ferreira, era filho de uma cabo-verdiana, e a mãe, Domitília Garcês, era filha de uma guineense.

Como o pai era funcionário da administração pública portuguesa na Guiné-Bissau, Laura Ferreira também viveu em Teixeira Pinto (actual Canchungo).
Depois do 25 de Abril a família foi viver para o Mindelo, em Cabo Verde, e em 1978 para Coimbra, onde Laura estudou no Liceu José Falcão. Mais tarde, a família fixou-se no Cacém, perto de Lisboa. Laura matriculou-se em Medicina na Universidade de Lisboa, mas no segundo ano passou para o curso de Fisioterapia cuja licenciatura concluiu.

No início da década de 2000 começou a trabalhar como fisioterapeuta no Centro de Educação para o Cidadão Deficiente (CECD) em Mira Sintra. Vários anos depois passou a desempenhar as funções de coordenadora no Centro de Medicina e de Reabilitação.

Teve duas filhas, Teresa, de 24 anos, nascida num primeiro casamento, e Júlia, de 12, nascida no casamento de 2004 com Pedro Passos Coelho.

Em Janeiro de 2015, o então primeiro ministro confirmou publicamente que Laura sofria de uma doença oncológica, depois de esta ter surgido sem cabelo numa viagem oficial a Cabo Verde.

Posteriormente, em Maio desse ano, foi publicada uma biografia autorizada de Pedro Passos Coelho onde é narrado o contexto em que a doença apareceu: "No Verão de 2014, Laura sofreu uma lesão de trabalho, que não passou como devia. Os meses foram passando e a mobilidade foi ficando limitada, cimentando-se a suspeita de que podia ser algo mais sério. Confirmou-se o pior cenário. Foi-lhe diagnosticado um osteossarcoma, um tumor ósseo agressivo que a forçou, e força ainda, a várias sessões de quimioterapia pré e pós-operatória".
A seguir acrescenta-se que, em Fevereiro de 2015, Laura foi submetida a uma cirurgia para extracção do tumor na tíbia e no fémur, tendo recebido uma prótese no joelho.

Nesta biografia há um parágrafo onde a própria Laura revela as suas preocupações: "Ter a consciência da morte é duro. Mas é uma coisa real. Há momentos em que tive paz de espírito e em que pensei: 'É assim mesmo'. Olho ao espelho e penso que este corpo vai deixar de existir. Tenho muito medo de morrer, mas depois há um lado que se levanta e diz: 'Não, tens o teu marido, tens as tuas filhas e a tua família'. Eu tenho que viver! Tenho tanta coisa para fazer".

A sua luta contra o osteossarcoma no joelho, diagnosticado em Novembro de 2014, durou mais de um ano, tendo terminado os tratamentos de quimioterapia no Outono de 2015.

No entanto, em Março de 2017, quando a família pensava que Laura já estava livre da doença, exames de rotina mostraram que tinham surgido metástases do cancro ósseo nos pulmões, obrigando-a a regressar aos tratamentos no Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa.

Em Dezembro de 2019, o seu estado de saúde agravou-se e teve de ser internada no IPO de Lisboa, sempre contando com o apoio incondicional de Pedro Passos Coelho que passava os dias e até pernoitava no hospital de forma a acompanhar a esposa em permanência.

Ontem à noite, Laura entrou novamente na urgência do IPO, onde morreu esta madrugada. Viveu e morreu com dignidade.



Laura com os pais


Laura com o marido, as filhas Júlia e Teresa e outra criança, em 2011


O sorriso lindo de Laura


Laura com o marido em 2016


sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Crisântemos para Li Wenliang


Tinha 33 anos, era casado, com um filho de 5 anos, e estava à espera de outro. Trabalhava como médico oftalmologista no Hospital Central de Wuhan, na província de Hubei, China.

Em 30 de Dezembro de 2019, viu um relatório de um paciente com resultado positivo de alto nível de confiança para os testes de coronavírus SARS, um tipo de vírus agressivo.
À tarde, alertou o grupo privado do WeChat dos colegas da sua escola médica de que "havia 7 casos confirmados de SARS no mercado de Huanan", tendo compartilhado o relatório e o resultado da tomografia computadorizada do paciente. Passada uma hora, acrescentou: "Foi confirmado que são infecções por coronavírus, mas o vírus exacto está a ser subtipado".
Pediu aos colegas para prevenirem familiares e amigos. O alerta acabou por envolver um grupo de oito médicos e ganhou dimensão nas redes sociais. A sua identidade foi divulgada.

Imediatamente Li Wenliang foi admoestado pelo supervisor do hospital. Em 3 de Janeiro de 2020, as autoridades policiais de Wuhan interrogaram e censuraram o médico por "fazer comentários falsos na Internet", obrigaram-no a assinar uma carta de advertência prometendo não voltar a fazê-lo e avisaram-no que, se não cumprisse, seria processado. Na China, a divulgação de boatos é punida com pena de prisão de três anos.


李文亮的训诫书.png
Carta emitida por 武汉市公安局武昌分局中南路街派出所
Foto por 李文亮醫生 - 新冠肺炎“吹哨人”李文亮:真相最重要
(in zh-hans) 财新网. 财新传媒 (2020-02-07).
Recuperada em 2020-02-07. "李文亮的训诫书。第二个落款时间2019年应为2020年,李文亮称此系笔误。受访者提供", Domínio público, ver aqui.
A carta de advertência emitida pelo Departamento de Polícia de Wuhan ordenando-lhe que parasse de "espalhar boatos" sobre o SARS, assinada pelo médico e dois polícias. Em 31 de Janeiro, Li fez o upload para sua conta Sina Weibo que, na China, corresponde ao Twitter. A Wikipedia mostra a tradução em inglês que nos esclarece sobre a mentalidade da polícia chinesa.



Em 8 de Janeiro, teve de examinar um paciente que sofria de glaucoma agudo e desenvolveu febre no dia seguinte. Era um lojista do mercado de peixe e animais selvagens de Huanan que tinha uma alta carga de vírus. O médico começou com febre e tosse em 10 de Janeiro. No dia 12 foi internado nos cuidados intensivos, onde iniciou a quarentena, sendo realizados sucessivos testes para o coronavírus até que resultou positivo em 30 de Janeiro.

Em 31 de Janeiro, o médico publicou uma mensagem sobre a sua experiência com as autoridades que se tornou viral. Além de fazer o upload da carta de advertência, escreveu no Weibo: "Estava febril em 11 de Janeiro e fui hospitalizado no dia seguinte. Nessa altura, o governo ainda insistia que não havia transmissão humano para humano e disse que ninguém da equipe médica tinha sido infectado. Fiquei confuso.”
A China só tinha reconhecido a gravidade do surto epidémico em 20 de Janeiro e subsequentemente implementado o encerramento de Wuhan que tem 11 milhões de habitantes e é a capital da província de Hubei.
As pessoas começaram a questionar por que motivo todos os médicos que deram o primeiro alerta foram silenciados pelas autoridades.

No final da tarde de 6 de Fevereiro o médico teve uma paragem cardíaca. Vários jornais estatais chineses (Diário Popular, Global Times e Notícias de Pequim) noticiaram que os batimentos cardíacos de Li Wenliang tinham parado às 21:30.

"Lamentamos muito a perda de qualquer trabalhador da linha de frente comprometido em cuidar de doentes [...] devemos celebrar a sua vida e lamentar a morte com os seus colegas", disse (video 11:16-12:10) Michael Ryan, director do programa de emergências em saúde da Organização Mundial da Saúde (WHO), ainda no dia 6.


Nas duas horas posteriores ao anúncio da morte de Li Wenliang pelos jornais oficiais chineses, muitos posts relativos ao acontecimento foram eliminados na Internet.

Pelas 00:38 de 7 de Fevereiro, o Hospital Central Wuhan divulgou uma declaração na conta oficial no Weibo contradizendo os relatos da sua morte: "No processo de combate ao coronavírus, o oftalmologista do nosso hospital, Li Wenliang, infelizmente foi infectado. Actualmente está em estado crítico e estamos a fazer o possível para resgatá-lo."

A WHO reformulou o tweet:



Após o hospital divulgar que o médico estava a ser tratado com oxigenação por membrana extracorpórea (ECMO), as mensagens dos chineses revelavam esperança. "Esta noite não dormimos, mas Li tem de acordar", era a frase que dominava no Weibo, relata uma jornalista do South Morning Post, de Hong Kong:



No entanto, pelas 03:48, o hospital confirmava o falecimento: "O oftalmologista Li Wenliang do hospital, infelizmente infectado na luta contra a epidemia de pneumonia da nova infecção por coronavírus, faleceu depois de todos os nossos esforços pelas 2:58 de 7 de fevereiro de 2020. Lamentamos profundamente a sua morte.”.

Foi cremado antes que os pais o pudessem ver uma última vez.




A morte do médico desencadeou uma onda de sofrimento e revolta nas redes sociais, que rapidamente se converteu na exigência de liberdade de expressão, prontamente bloqueada pela censura.

Como as autoridades policiais acusaram o médico de ser um "whistleblower" o que, literalmente, significa "soprador de apito", então os cidadãos de Wuhan começaram espontaneamente a organizar actividades como "Eu apitei para Wuhan hoje à noite", em que todos mantiveram as luzes apagadas nas suas casas por cinco minutos e depois tocaram apitos e lançaram purpurinas pelas janelas por mais cinco minutos.




Mas a mais bela homenagem realizada pelos seus concidadãos foi a deposição de crisântemos e outras flores à porta do Hospital Central de Wuhan, onde Li Wenliang trabalhou e morreu:



O memorial à porta do Hospital Central de Wuhan, uma cidade onde a incompetência, a opacidade e o secretismo das autoridades deixaram alastrar o surto epidémico que obriga os 11 milhões de habitantes a andarem pelas ruas com máscara cirúrgica:



O surto epidémico do novo coronavírus já causou mais casos confirmados e mortes que o surto de Síndrome Respiratória Aguda Severa (SARS) ocorrido no Sul da China, entre Novembro de 2002 e Julho de 2003, que causou 8098 casos confirmados e 774 mortes em 17 países. Parece estar a transformar-se numa pandemia.


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"Aqueles que tornam impossível a revolução pacífica,
tornarão inevitável a revolução violenta
.
"

John F. Kennedy, Address on the First Anniversary of the Alliance for Progress,
proferido na Casa Branca, Washington D.C., 13 Março 1962.



JJG
Do you hear the people sing?
R.I.P Doctor Li Wenliang
  • 张佳乐
    永远记得李文亮医生 永远!

    (Zhang Jiale
    Lembre-se o Dr. Li Wenliang para sempre!)

  • 凌滄海
    相信這次疫情結束後
    中共政權會出問題
    讓更多中國人認識自己的國家(真夠諷刺)
    願李文亮醫生的血不要白

    (Ling Canghai
    Eu acredito que depois da epidemia acabar
    Problemas com o regime PCC
    Deixe mais chineses conhecerem o país deles (é irónico)
    Que o sangue do Dr. Li Wenliang não corra em vão)

Kon
When there was a million people on the streets of Hong Kong.
  • verri123
    I don't get it, what's happening in hong kong?

  • Casey Chiu
    verri123 long story short: Basically, under the One Country Two Systems, China is not allowed to f*ck with Hong Kong and must let HK be of high autonomy and democracy. But the government would like to pass an extradition bill, which means people in HK might be extradited to mainland China (which everyone knows, has less transparency and democracy). HK people thinks this violates the One Country Two Systems rule and thus 1.03 millions of citizens took the streets on 9/6. Yet, the government only suspends the bill, but not to revoke it permanently. Citizens especially students are of course furious and thus we protested. The police forces used weapons like tear gas, pepper sprays and bullets against the unarmed protestors (even if they are armed, they only have umbrellas...). This angers the people even more and so we took the streets again on 16/6. This of course is a very brief timeline of what happened. If you wanna know more, you can search related news on the Internet.

    (Casey Chiu
    verri123 resumo da longa história: Basicamente, sob Um País, Dois Sistemas, a China não tem permissão para brincar com Hong Kong e deve deixar HK com autonomia e democracia elevadas. Mas o governo gostaria de aprovar uma lei de extradição, o que significa que as pessoas em Hong Kong podem ser extraditadas para a China continental (que todos sabem, tem menos transparência e democracia). O povo de Hong Kong acha que isso viola a regra Um País, Dois Sistemas e, portanto, 1,03 milhões de cidadãos saíram às ruas em 9/6. No entanto, o governo apenas suspende a lei, mas não a revoga permanentemente. Os cidadãos, especialmente os estudantes, ficam furiosos e, portanto, protestámos. As forças policiais usavam armas como gás lacrimogéneo, spray de pimenta e balas contra os manifestantes desarmados (mesmo que estejam armados, só têm guarda-chuvas...). Isso irrita ainda mais o povo e, por isso, voltámos às ruas em 16/6. É claro que este é um cronograma muito breve do que aconteceu. Se quiser saber mais, pode pesquisar notícias relacionadas na Internet.)


domingo, 25 de dezembro de 2016

In Memoriam Alexandrov Ensemble


Um avião, que partiu de Moscovo com 92 pessoas, caiu no Mar Negro dois minutos depois de descolar do aeroporto de Sochi, na Rússia, onde aterrara para reabastecer de combustível.

A bordo seguiam 64 elementos — cantores, músicos da orquestra e bailarinos — do famoso Alexandrov Ensemble que iam actuar na festa de Ano Novo de uma base aérea de Latakia, província do litoral da Síria.

Os destroços do avião foram encontrados a 1,5km de Sochi, a uma profundidade entre 50 e 70m. Não há sobreviventes.

REUTERS/Stringer
AFP PHOTO / Jacques Demarthon

Fundado em 1928 pelo compositor Alexander Vasilyevich Alexandrov, o Alexandrov Ensemble chamou-se inicialmente Coro do Exército Vermelho, tendo começado com 12 soldados artistas — um octeto vocal, um acordeonista, dois bailarinos e um recitador.
Cinco anos depois já contava com 300 elementos, reunindo um coro exclusivamente masculino, uma orquestra e um conjunto de bailarinos. Posteriormente foi reduzido para cerca de 80 artistas. A partir dos anos noventa passou a incorporar elementos femininos.

Alexander Alexandrov dirigiu o coro durante 18 anos. Sucedeu~lhe o filho, Boris Alexandrov, que conduziu o coro entre 1946 e 1987. O actual director, Valery Khalilov, seguia a bordo do avião que caiu no Mar Negro. Apenas três dos cantores do coro não seguiam a bordo.

O repertório actual continha mais de duas mil obras entre canções folclóricas, música sacra e trechos de óperas, sendo as interpretações musicais acompanhadas por danças e acrobacias. Em algumas das peças que executavam, o coro era dividido em contratenores, primeiros tenores, segundos tenores, barítonos, primeiros baixos, segundos baixos e baixos profundos.



Concurso Eurovisão da Canção 2009, Moscovo


Kalinka (Калинка), canção do folclore russo escrita em 1860 por Ivan Larionov.
Maestro: Igor Raevskiy
Solista: Vadim Ananyev (não embarcou no avião)


O último concerto no Teatro Bolshoi, em Moscovo


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Pessoas colocam velas num cais de Sochi, Rússia, para homenagear os passageiros e tripulantes do avião Tu-154 militar russo que caiu no Mar Negro.
REUTERS/Maxim Shemetov


segunda-feira, 14 de março de 2016

In Memoriam Nicolau Breyner




Nicolau Breyner
(Serpa, 30 de Julho de 1940 - Lisboa, 14 de Março de 2016)


Um grande actor que no "Senhor Feliz e Senhor Contente" — uma rábula que permanece tão actual — fez-nos rir da política à portuguesa.





sexta-feira, 10 de julho de 2015

In Memoriam Omar Sharif



Omar Sharif
(1932-2015)



Lawrence da Arábia, cena "Poço de Ali"
Realizador: David Lean
Sherif Ali: Omar Sharif
1962


Lawrence da Arábia, cena “Aqaba. Aqaba, a partir de terra”


Lawrence da Arábia, cena “Nada está escrito”


Doutor Jivago, cena "Tentativa de suicídio"
Realizador: David Lean
Dr. Yuri Jivago: Omar Sharif
1965


Doutor Jivago, cena "Strelnikov — A vida íntima está morta"


Doutor Jivago, cena "Partida de Lara"


Doutor Jivago, cena "Morte de Jivago"


sexta-feira, 5 de junho de 2015

In Memoriam Portugal Telecom





A PT SGPS entrou na bolsa de Lisboa em 1995 a valer 2,37 euros. Depois de anos de prémios e reconhecimento, chegou a ter o estatuto de cotada mais valiosa da praça portuguesa. A valorização de 40,36% registada em 2009 foi a última subida anual. Nessa altura valia cerca de 2000 milhões de euros.

Em Julho de 2010, Henrique Granadeiro, presidente do conselho de administração, e Zeinal Bava, presidente executivo, venderam a participação na brasileira Vivo à espanhola Telefónica por 7,5 mil milhões de euros.
Em Janeiro de 2011, Granadeiro e Bava fazem um desastroso acordo com a brasileira Oi a quem entregam a PT Portugal, dona do Meo e dos activos valiosos, em troca de uma participação de 25,58% no capital da Oi.

Em 2014, a Rioforte — holding não-financeira do Grupo Espírito Santo (GES) — entra em falência e descobre-se que Granadeiro e Bava tinham aplicado cerca de 900 milhões de euros da PT SGPS em títulos de dívida daquela holding do GES.
Foi precisamente devido ao default da Rioforte que a PT SGPS baixou da fasquia dos 1000 milhões de euros em bolsa.

A venda da PT Portugal ao grupo francês Altice foi concluída pela Oi, em 2 de Junho deste ano, por 5,7 mil milhões de euros, dos quais 4,9 mil milhões de euros “em caixa”.

Passados 20 anos, a PT SGPS perdeu praticamente 80% do seu valor, estava no sexto ano consecutivo de perdas e os accionistas aprovaram a mudança de nome para Pharol. Hoje chegou ao fim.





A empresa liderada desde o final de Maio por Palha da Silva é hoje bem diferente. Além da alteração de nome para Pharol e da transferência da sede, de Picoas para as Amoreiras, a empresa tem actualmente como única actividade a gestão de uma posição na brasileira Oi e uma carteira de dívida da Rioforte.

A capitalização bolsista da Pharol corresponde agora a pouco mais de 400 milhões de euros, aproximadamente metade do valor investido na dívida da Rioforte.


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Os pequenos accionistas, que enterraram as poupanças na PT SGPS, fazem o velório:

tojornais
02 Junho 2015 - 16:02
Grande Sócrates, conseguistes fazer mais um grande negócio para Portugal com esta venda da PT aos teus amigos da Oi brasileira. Devias de apodrecer aí na gaiola. Regado com gasolina super e atear um fósforo. E andam estes bastardos dos socialistas a apregoar banha da cobra. Falem das auto-estradas e das PPP, desses negócios bem manhosos.

SALAZAR
02 Junho 2015 - 22:01
Se o Salazar cá estivesse, nada era assim. Andava tudo na ordem e hoje eramos um dos países mais ricos do mundo. A "Finlândia" da Europa do Sul.
Hoje com a fantochada dos PS e PSD e o 25 de Abril somos o cu da Europa.

Jé
04 Junho 2015 - 18:13
Eu ainda não consegui entender isto. Afinal a Pharol é que detém uma participação na Oi ou é a Oi que detém a Pharol? Afinal o que diabo foi vendido para a Altice? A Altice é dona da Pharol ou a Oi é que é a dona da Pharol ou nem uma coisa nem outra? Alguém me elucide, por favor.

Anónimo
04 Junho 2015 - 18:35
"Jé", a história é assim:
A PT Portugal pertencia à PT SGPS (que estava cotada em Lisboa). Com a integração entre os activos da PT SGPS e da OI, a OI ficou com a totalidade da PT Portugal e a PT SGPS ficou com uma participação (25,58%) na OI mais a dívida de 900M da Rioforte. Agora a OI vendeu a PT Portugal à Altice e a PT SGPS muda de nome para Pharol que, tirando a dívida, não tem nenhum activo em Portugal.

portulord
05 Junho 2015 - 03:38
O engraçado é que, neste momento, a dívida da RIOFORTE (896 milhões de euros que corresponde a 3162 milhões de reais) dava para comprar mais de 60% das ações da OI que neste momento, se considerarmos a média de 6,75 reais para cada uma das 856 milhões de acções, vale 5830 milhões de reais.
E mais engraçado é que venderam a PT Portugal à Altice por 17.000 milhões de reais, ou seja, quase 3 vezes o valor da OI.
Pergunto: ninguém vai preso em Portugal por terem feito este negócio? Concluindo, isto foi mesmo uma pharolada.

labareda
05 Junho 2015 - 10:26
O Fim da PT ficou marcado quando Sócrates resolveu que ia usar o Fundo de Pensões da PT para tapar o Défice de 2010...
Interveio directamente na venda da óptima VIVO. Depois, com ajuda do Camarada (e também ladrão) Lula, meteu a PT num buraco chamado OI. Tudo sob aplausos da parolada accionista. Agora o Estado é responsável por mais essas pensões e acabamos todos na miséria a cantar o Grândola...

J. SILVA
05 Junho 2015 - 10:55
A PT SGPS vale menos de metade do empréstimo à RioForte. Mas sejamos realistas, o que levou a empresa a esta degradação foi a entrada na OI e a pseudo fusão. A RioForte foi um pretexto para os brasileiros nos tratarem com atrasos de vida com a conivência dos bandidos que a geriram.

portulord
05 Junho 2015 - 19:39
Mas afinal quanto vale hoje cada acção da Pharol?
Será que o Jornal de Negócios não poderia colocar uma calculadora, como faz com os dividendos, em que se pudesse verificar em tempo rápido o valor indexado á OI? Ou seja, nº de acções da oibr3 (277.730.251), da oibr4 (565.035.885), colocava-se o valor de cada uma e somava-se. Desse total, a Pharol tem 25,58% e o quociente pelo nº de acções da Pharol que são 896.512.500 dava-nos o valor da acção sem o investimento na Rioforte.


sábado, 2 de maio de 2015

In Memoriam Maya Plisetskaia



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"Nasci em Moscovo. No reino de Estaline. Depois vivi sob Khrushchev, Brezhnev, Andropov, Chernenko, Gorbachev, Ieltsin... E terei de congratular-me, não renascerei.
Viver a nossa vida... E eu vivi-a. Não esqueço aqueles que foram bons para mim.
Nem aqueles que morreram, esmagados pelo absurdo. Vivi para a dança.
Nunca soube fazer mais nada. Obrigada por esta natureza graças à qual me mantive firme, não me deixei quebrar, não capitulei."

in Maya PLISETSKAIA, Moi, Maya Plisetskaia, Gallimard, colecção “Témoins”, 1995 (tradução)


Estaline mandou fuzilar o seu pai e deportar a mãe para o Cazaquistão por ser a mulher de um "inimigo do povo". Se uma tia materna não tivesse lutado pela sua tutela, teria sido educada num orfanato. Tornou-se na melhor bailarina da segunda metade do século XX. Ninguém conseguiu ainda substituí-la: foi a última prima ballerina assoluta do Teatro Bolshoi.



Música: Piotr Tchaikovski, Лебединое озеро/Lebedinoye ozero (Lago dos cisnes)
Coreografia: Marius Petipa
Odette, rainha dos cisnes/Odile, cisne negro: Maya Plisetskaia (entra aos 19:30)
Príncipe Siegfried: Nikolai Fadeyechev
Teatro Bolshoi, Moscovo, União Soviética, 1957



Música: Ludwig Minkus, Don Quixote
Coreografia: Marius Petipa
Teatro Bolshoi, Moscovo, União Soviética, 1959


Música: Ludwig Minkus, Don Quixote
Coreografia: Marius Petipa
Kitri/Dulcineia: Maya Plisetskaia
Basilio: Maris Liepa
Teatro Bolshoi, Moscovo, União Soviética, 1968

Música: Sergei Prokofiev, Ромео и Джульетта/Romeo i Dzhul'yetta (Romeu e Julieta)
Teatro Bolshoi, Moscovo, União Soviética, 1961



Música: Piotr Tchaikovski, Лебединое озеро/Lebedinoye ozero (Lago dos cisnes)
Coreografia: Marius Petipa
Príncipe Siegfried: Valery Kovtun
Teatro Bolshoi, Moscovo, União Soviética, 1973


Música: Georges Bizet-Rodion Shchedrin, Carmen Suite
Coreografia: Alberto Alonso
Don José: Alexander Godunov
1974


Música: Camille Saint-Saëns, Le Carnaval des animaux - Le Cygne
Coreografia de "La Mort du cygne": Michel Fokine
Teatro Bolshoi, Moscovo, União Soviética, 1975


Música: Maurice Ravel, Boléro
Coreografia: Maurice Béjart
Ballet du XXe siècle, 1975


Música: Gustav Mahler, Sinfonia No 5 mov 4 - Adagietto
Coreografia de "La mort de la rose": Roland Petit
Jeunesse: Valery Kovtun
1978


Música: Georges Bizet-Rodion Shchedrin, Carmen Suite
Coreografia: Alberto Alonso
Don José: Alexander Godunov
Escamillo: Sergei Radchenko
Teatro Bolshoi, Moscovo, União Soviética, 1978


A homenagem do Teatro Bolshoi, Moscovo, Rússia


sexta-feira, 17 de abril de 2015

In Memoriam Mariano Gago




(16 de Maio de 1948 - 17 de Abril de 2015)


José Mariano Rebelo Pires Gago nasceu em Lisboa em 16 de Maio de 1948. Licenciou-se em Engenharia Electrotécnica pelo Instituto Superior Técnico, actualmente integrado na Universidade de Lisboa, em 1971.

A partir de 1971, governava então o País o Professor Marcello Caetano, foi bolseiro do Instituto de Alta Cultura no Laboratório de Física Nuclear das Altas Energias (LPNHE-X) da École Polytechnique, até que, em 1976, se doutorou em Física pela Faculdade de Ciências da Universidade de Paris.

Após o doutoramento, permaneceu mais dois anos como bolseiro do Instituto de Alta Cultura, agora em Genebra, no Centro Europeu de Investigação Nuclear (CERN). Em 1979 tornou-se professor agregado em Física no Instituto Superior Técnico.

Mais tarde pertenceu ao Conselho do CERN (1985–1990), tendo influenciado o acordo de adesão de Portugal a este centro europeu de investigação nuclear em 1985. Influência que lhe deu o cargo de presidente da Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica (1986-1989), o instituto que geria a pesquisa científica portuguesa, por convite do secretário de Estado da Investigação Científica do primeiro governo de Cavaco Silva.

Foi ministro da Ciência e da Tecnologia entre 1995 e 2002, nos governos liderados por António Guterres.
Substituiu a Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica pela Fundação para a Ciência e Tecnologia e implementou a avaliação dos centros portugueses de investigação científica. A política de incentivo aos doutoramentos e pós-doutoramentos através da concessão de bolsas de cerca de mil euros permitiu criar muitos jovens investigadores, embora tenha atraído bolseiros em áreas de emprego saturadas (e.g. ciências sociais) e até estrangeiros que fizeram currículo e regressaram aos países de origem, dissipando recursos.
Criou o Programa Ciência Viva (1996) para aproximar os cientistas da generalidade da população e desenvolver nesta a atracção pela ciência.
Além de concentrar as suas energias no impulsionamento da investigação científica portuguesa, apostou na sua internacionalização, tendo desempenhado um papel decisivo nos acordos de adesão de Portugal ao ESRF - Laboratório Europeu de Radiação de Sincrotrão (1997), à ESA - Agência Espacial Europeia (2000) e ao ESO - Organização Europeia para a Investigação Astronómica no hemisfério sul (2000).

Três anos depois, assumiu a pasta da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, entre 2005 e 2011, durante os governos de José Sócrates.
Distinguiu-se por ter logrado aproveitar a divulgação das trapaças que envolviam a licenciatura do então primeiro-ministro na universidade Independente para conseguir o encerramento compulsório não só desta decadente instituição do ensino universitário privado, como também das suas congéneres Moderna e Internacional.
Incentivou a formação de parcerias entre as mais reputadas instituições do ensino superior público português e três grandes instituições de ensino superior norte-americanas: o MIT (Massachusetts Institute of Technology) (2006), a Carnegie Mellon University e a Universidade do Texas, em Austin. Os acordos assinados destinam-se a permitir o intercâmbio de alunos, professores e programas de doutoramento.
Também criou o RJIES - regime jurídico das instituições de ensino superior (2007) que foi alvo de contestação.

Actualmente era Professor Catedrático no Departamento de Física do Instituto Superior Técnico (IST), investigador na área de Física de Partículas e presidente do Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas (LIP).





O departamento de Física do IST homenageia-o hoje com estas memórias:

"José Mariano Gago marcou várias gerações de estudantes e colegas do IST. Destacou-se na implementação dos laboratórios de física experimental para todos os cursos do IST. São muitos os que lembram os seminários de Física de Partículas às terças-feiras à noite para os alunos do IST. Nesses seminários participava quem queria e o bilhete de entrada era o entusiasmo. Destes encontros partiram muitos engenheiros e investigadores que se lançaram em desafios no CERN."



terça-feira, 7 de abril de 2015

In Memoriam Tolentino de Nóbrega


“Sem uma imprensa livre não há democracia. Se há, numa região de Portugal, pressões e coacções contra jornalistas, restrições ao acesso às fontes de informação, não há democracia plena, há défice democrático."
Tolentino de Nóbrega


Nasceu no concelho de Machico, na Madeira, em 1952. Licenciou-se na Escola Superior de Artes Plásticas da Madeira e ao longo da sua vida leccionou Geometria Descritiva na escola secundária herdeira da antiga Escola Industrial do Funchal.

Tolentino de Nóbrega começou a actividade de jornalista aos 20 anos, como colaborador no jornal Comércio do Funchal. Presenciou o 25 de Abril, o início da autonomia e toda a história recente da Madeira. Entre 1974 e 1993 integrou a redacção do Diário de Notícias do Funchal. Foi colaborador do Público desde a fundação, em 1990, entrando para o quadro dois anos depois.

O jornalista Vicente Jorge Silva lembra "o papel histórico único" do colega e “grande amigo” dos tempos em que juntos fizeram o Comércio do Funchal, como "representante do que é mais nobre no jornalismo — a capacidade de contar a realidade com tanta verdade quanto for possível e sem depender da versão oficial que se quer impor às pessoas".
Foi alvo de atentados da FLAMA (Frente de Libertação da Madeira), que defendia a independência da região no período pós-25 de Abril, e “sofreu muito ao longo do período jardinista”.
A doença impossibilitou-o de cobrir as primeiras eleições na Madeira sem Alberto João Jardim. Uma impossibilidade que, lembra Vicente Jorge Silva, se abateu sobre quem era "um exemplo absolutamente admirável de resistência ao regime paraditatorial que existiu durante 40 anos na Madeira" e uma pessoa portadora de um "heroísmo quixotesco" numa ilha pequena em que quase todos se curvavam perante "um ditadorzeco".


quinta-feira, 2 de abril de 2015

In Memoriam José da Silva Lopes




(Ourém, Seiça, 10 de Maio de 1932 — Lisboa, 2 de Abril de 2015)


03 Abr, 2015, 14:40


Durante o Estado Novo, José da Silva Lopes teve uma acção relevante no processo negocial da adesão de Portugal à EFTA entre 1956 e 1960, de tanta importância para o fulgurante desenvolvimento económico do País até 1973, e foi administrador da Caixa Geral de Depósitos porque os governantes de então, embora não apreciassem as posições políticas que assumiu, valorizaram a sua competência.

Fez parte do I Governo provisório, liderado por Adelino da Palma Carlos e que tomou posse a 16 de Maio de 1974. Era secretário de Estado das Finanças de Vasco Vieira de Almeida, ministro da Coordenação Económica.
No II Governo Provisório, que toma posse a 18 de Julho já com Vasco Gonçalves no cargo de primeiro-ministro, passa a ser ministro das Finanças e vive dois casos surpreendentes. Quando tenta distribuir por todos um prémio que até aí era dado só a alguns, esses privilegiados revoltam-se; no outro caso teve de sair pelo sótão do edifício do ministério cercado por trabalhadores de uma tinturaria que queria o aval do Estado.
Em Setembro mantém a mesma pasta no III Governo Provisório, integrando, com Vítor Constâncio e Rui Vilar, a equipa que elaborou o que ficou conhecido como "Plano Melo Antunes". Este plano foi deitado para o lixo pelas nacionalizações da banca e das maiores empresas nacionais, em 11 de Março de 1975, e todos acabarão por ser considerados "o ventre mole da revolução".
No IV Governo Provisório, que toma posse em 26 de Março, passa para a pasta do Comércio Externo, saindo em Julho quando o PS abandonou o Executivo. Foi criticado por não criar empresas públicas exportadoras e viveu outro caso caricato quando foi ameaçado por alguns ourives, depois de ter posto uma sobretaxa sobre o ouro.

Ficou na memória como governador do Banco de Portugal, no período de 1975 a 1980, quando teve um papel primordial nas negociações que impediram o colapso financeiro do País, primeiro com o Bundesbank para conseguir um empréstimo para Portugal enquanto decorria o 25 de Novembro de 1975 e, dois anos depois, com o FMI para obter assistência financeira externa em 1978.

Era uma pessoa sem papas na língua, como demonstrou quando convidado pela "Redacção Aberta" do Negócios, em Setembro de 2011:
"Não aceito que a Caixa tenha andado a financiar operações de capitalistas privados para comprar acções."

Numa entrevista ao mesmo jornal em 2013, ano em que a troika estava ainda em Portugal, Silva Lopes asseverou:
"Estamos a ver revoltas, mas não dos que mais sofrem. É dos que podem."

Há um ano afirmou, em entrevista à Lusa, que Portugal é um país "profundamente desigual" e "bastante corrupto":
"Temos um dos níveis de desigualdade maiores da Europa (talvez também um ou dois países à nossa frente) e principalmente não temos organizações nem instituições para combater estes problemas.
(...)
Apesar dos progressos na educação, temos uma população muito pouco educada no sentido formal, e com um grau de instrução muito inferior ao da média europeia, das piores da Europa. Depois também somos um país bastante corrupto, não somos o mais corrupto da Europa (haverá três ou quatro mais corruptos), mas temos um nível de corrupção que é alto.
Vemos a corrupção campear em frente por aí e não se ataca como deve ser. Vemos a fraude do BPN (Banco Português de Negócios), por exemplo. Não há nenhum país da Europa, penso eu, nenhum, em que um indivíduo que causa um prejuízo ao país de 4,5 mil milhões de euros não esteja na prisão.
"

O Nobel da Economia Paul Krugman prestou-lhe homenagem, no seu blogue, publicando o artigo Jose da Silva Lopes RIP onde recorda os momentos que passou no Banco de Portugal, no Verão de 1976, quando integrou uma equipa de cinco estudantes de economia do MIT na sequência da amizade de Silva Lopes com Richard Eckaus.
Krugman recorda as piadas — como aquela no momento em que Portugal, como uma nação de baixos salários na Europa, exportou um monte de roupa: "Nós não somos uma república das bananas, somos uma república dos pijamas" —, assumindo que algumas das ideias de Silva Lopes deram-lhe pistas para os seus primeiros trabalhos académicos. Conclui o artigo, dizendo: "O mundo perdeu um homem grande, bom e incrivelmente simpático".

No ano seguinte chegou uma segunda equipa da qual fazia parte Kenneth Rogoff. A acompanhar a equipa esteve também Rudiger Dorndusch, tendo sido ele quem concebeu o modelo de desvalorização cambial deslizante (crawling peg). Silva Lopes fala do conceito nesta entrevista, concedida à revista Exame em Dezembro de 2004, em que deixou desfilar as suas memórias:


"Quais eram as suas funções no Ministério da Economia e como é que surge nas negociações da EFTA?
Comecei a trabalhar em questões de comércio internacional e de integração europeia. A Comissão de Coordenação Económica era o órgão do Ministério da Economia onde se fazia alguns estudos. Acabei por me ver envolvido nas negociações da EFTA (zona de comércio livre europeia) e do GATT (acordo geral sobre impostos aduaneiros). Era muito novo, mas era uma das poucas pessoas no Ministério da Economia, e em Portugal, que falavam bem inglês.

Como é que Portugal se envolveu?
Inicialmente foram convidados seis países. Portugal, por ser um país pobre e muito atrasado, não foi convidado. O mesmo sucedeu, por idênticas razões, com a Irlanda e a Grécia. Mas Portugal, um bocado à força, conseguiu ser convidado. Graças à habilidade e insistência de José Correia de Oliveira, então ministro encarregado das coisas europeias, e do embaixador Teixeira Guerra, que era director-geral dos Negócios Económicos e já tinha estado na OCDE.

Como foram as negociações para a entrada de Portugal?
Fiz parte de vários comités porque éramos poucos na delegação portuguesa. Portugal tinha duas grandes pretensões a defender. Em primeiro lugar, conseguir que alguns produtos da nossa exportação fossem considerados não agrícolas, porque a EFTA não abrangia os produtos agrícolas. Eram o vinho, as conservas de sardinha e o concentrado de tomate. Não estávamos interessados na liberalização do comércio agrícola porque a nossa agricultura precisava de ser protegida, mas queríamos que estas áreas, onde tínhamos potencialidades, fossem abrangidas. As conservas de peixe entraram facilmente, até porque os noruegueses queriam o mesmo. No caso do concentrado de tomate foi difícil porque os britânicos se opunham. Conseguimos e isso deu um grande empurrão a essa indústria. No caso dos vinhos não foi possível, por oposição britânica e suíça. Mas, depois, negociámos acordos bilaterais e, por exemplo, nos mercados sueco e dinamarquês os nossos vinhos tinham entrada livre.

A coisa mais importante na negociação da EFTA foi o chamado anexo G, que dava a Portugal um período mais longo de protecção das suas indústrias. Esse período era de 20 anos e depois ainda foi prolongado. E permitia novas protecções para indústrias recém-criadas. Foi um impulso extraordinário à industrialização portuguesa e à abertura de Portugal ao exterior.

Na sequência da adesão à EFTA, Portugal adere ao GATT, em 1961. Foram negociações complicadas?
Portugal era o único país da EFTA que não fazia parte do GATT. Mas a EFTA devia ser reconhecida pelo GATT e, por isso, Portugal teve de se tornar membro. As negociações foram complicadas, porque tinham começado as guerras coloniais. Ora, vários países africanos independentes tinham entrado no GATT. Havia contra nós o voto destes países, de alguns do Leste e de Cuba. Também houve alguma dificuldade do ponto de vista comercial. Tínhamos um regime de proteccionismo agrícola muito fechado, e países como a Nova Zelândia e a Austrália opunham-se muito. Mas o embaixador Guerra, mais uma vez chefiava a delegação portuguesa, tinha um bom entendimento com o secretário-geral do GATT. Além disso, tínhamos o apoio dos parceiros da EFTA, e mesmo da Europa Ocidental.

Em 1961-1962 acaba por sair do Ministério da Economia...
Não possuía um vínculo ao quadro do Ministério da Economia. E não possuía vínculo à Caixa Geral de Aposentações. Ora, foi nessa altura que me casei e achei que era necessário começar a pensar no futuro. Nessa altura a AIP convidou-me para chefiar o gabinete de relações económicas internacionais e aceitei. Mas passado pouco tempo Correia de Oliveira pediu-me para voltar a trabalhar para o Ministério da Economia. Penso que a AIP até via alguma vantagem nisso. E trabalhava nos dois sítios simultaneamente. Até porque o que o assunto era o mesmo: integração europeia.

Como são os anos até 1969, quando é que se torna administrador da CGD?
Continuei a acompanhar os problemas da integração europeia. Inclusive as tentativas de adesão ao Mercado Comum. Depois, o Correia de Oliveira saiu do governo, já no tempo de Marcelo Caetano, e foi para o Banco Fonsecas & Burnay. Quem o substituiu foi o Dias Rosas, que eu conhecia, e me pediu para ser o director do gabinete de estudos do Ministério das Finanças e Economia. Aceitei o convite. Passados poucos dias o Correia de Oliveira convidou-me para administrador do Banco Fonsecas & Burnay, em que ganharia dez vezes mais do que ganhava. Mas, como já me comprometera, não aceitei.

O que é que acontece depois?
O Correia de Oliveira falou com o Dias Rosas e este ofereceu-me o lugar de administrador da CGD, em que a remuneração não era dez, mas quatro vezes maior do que no ministério. Naquela altura um administrador da CGD ganhava um pouco mais do que um ministro. Trabalhava a maior parte do dia na CGD, mas também várias horas diárias no Ministério das Finanças como director do gabinete de estudos. E quando havia negociações internacionais, ia eu.

Acontecem então as negociações para o acordo de comércio livre com a CEE...
Mais uma vez trabalhei com o embaixador Guerra. As negociações deram-se por causa da entrada do Reino Unido na CEE. Logo a seguir todos os países da EFTA pediram para fazer um acordo comercial preferencial com a CEE. Portugal fez o mesmo. As negociações foram complicadas porque Portugal estava no meio da Guerra Colonial. Não contávamos com a boa vontade política de muitos países europeus. As suas opiniões públicas manifestavam alguma hostilidade. Lembro-me, por exemplo, dos suecos; na fase final já faziam manifestações contra nós.

A negociação foi complicada na parte agrícola. Mais uma vez. O acordo era muito parecido com o da EFTA, mas perdemos algumas coisas, nomeadamente, as conservas de peixe. Depois havia a cláusula dos produtos sensíveis, que lhes permitia ter quotas para algumas exportações portuguesas, como os têxteis. O que nos causava problemas, porque era a área mais importante da nossa exportação. Fizemos o acordo, mas não funcionou muito tempo porque veio o 25 de Abril.

Na altura das negociações para o acordo com a CEE fez um discurso que foi recebido com hostilidade pelo regime...
Penso, aliás, que foi por causa disso que depois me convidaram para ser secretário de Estado das Finanças, após o 25 de Abril. Não tive uma actividade política muito clara, mas era sabido que não era adepto do regime. Correia de Oliveira chegou a convidar-me para um lugar governamental, não aceitei. Também fui convidado uma vez para ser secretário provincial de Economia em Angola, e também não aceitei. Porque eram lugares políticos. Depois, em 1969, participei em sessões da CDE (movimento da oposição) durante a campanha eleitoral, apesar de ser administrador da CGD.

Após o nosso acordo com a Comunidade Europeia participei numa reunião organizada pela Sedes. Aí perguntaram-me por que é que não tínhamos feito antes um acordo de associação. Expliquei que Portugal não reunia condições porque não era democrático e tinha uma política colonial, que os países europeus não aceitavam. Isto não foi bem recebido pelo regime. Pior ainda foi outra sugestão que fiz. Mal eu sabia o que estava para acontecer! O escudo forte era considerado intocável e, nessa reunião, disse: "Se tivermos muitas dificuldades de competição com a Comunidade Europeia, é fácil: desvalorizamos o escudo". Vários jornais publicaram isto no dia seguinte e fui ameaçado com a demissão. Mas isso não aconteceu. Suponho que por não ser fácil encontrar pessoas para me substituir.

Dá-se o 25 de Abril. Onde estava?
Estava em Paris, num comité, juntamente com o embaixador Guerra. Quando estávamos para regressar a Lisboa disseram-me que se dera a revolução. Fiquei bastante emocionado, quis logo voltar, mas não havia aviões. Com o embaixador Guerra meti-me num avião para Madrid, onde alugámos um táxi para Lisboa.

Logo após a revolução o professor é convidado para secretário de Estado das Finanças. Como é que isso aconteceu?
Era administrador da CGD. Estava provavelmente para ser saneado! Foi o que aconteceu aos outros administradores da CGD poucos dias depois. Mas entretanto recebi um telefonema da Junta de Salvação Nacional a convidar-me para ser secretário de Estado das Finanças. Era ministro Vasco Vieira de Almeida. Aceitei. Era o primeiro Governo Provisório. Funcionava com o Ministério da Coordenação Económica e nove secretários de Estado. Foi uma forma de despromoção do Ministério das Finanças que nunca acontecera na história portuguesa, e espero que nunca mais volte a acontecer.

Logo no segundo Governo o professor passa a ministro das Finanças...
Exactamente. Já com o general Vasco Gonçalves naquela altura coronel, penso, como primeiro-ministro. Dos nove secretários de Estado do Ministério de Economia e Finanças ele convidou todos para ficarem. Dois deles foram a ministros. Rui Vilar passou a ministro da Economia e eu tornei-me ministro das Finanças. Foi comigo que se deu o primeiro défice orçamental em 50 anos. Fiquei com essa glória! Mas era um défice pequenino, comparado com o que veio depois.

Nessa altura convida professores do MIT a virem a Portugal...
Os primeiros vieram em Novembro de 1974. Eu tinha relações no MIT (Massachussets Institute of Technology), nomeadamente com o professor Eckaus. E ele trouxe cá um conjunto de professores ilustres, entre os quais estava Robert Solow, futuro Prémio Nobel, naquela altura ainda não era. Disseram-me: "Não tenhas medo do défice. Faz um défice ainda maior. Vocês precisam de um défice para estimular a economia." Vieram cá reforçar a tese keynesiana de que nós fazíamos bem em ter um défice. De facto o défice que se fez naquela altura não foi muito grande, até podia ter sido maior.

E quanto à política monetária?
A política monetária que estava a ser aplicada, também por orientação do Ministério das Finanças, era relativamente expansionista. Mas só relativamente. Havia muita gente a levantar depósitos dos bancos, a convertê-los em notas, e isto gerava um efeito contraccionista sobre a oferta monetária. Por outro lado, nós estávamos a aumentar o crédito do Banco Central ao sistema bancário. Estas duas tendências equilibravam-se, e posso dizer que a política monetária e fiscal do tempo em que fui ministro das Finanças, se alguma crítica se lhe pode fazer, é que talvez pudesse e devesse ter sido mais expansionista do que foi.

Mas havia o problema das reservas do Banco de Portugal...
Esgotámos rapidamente as reservas de divisas. As de ouro eram bastante grandes por causa das remessas dos emigrantes e porque Salazar, à semelhança do general De Gaulle, resolvera que uma boa parte das reservas deviam estar em ouro. Acho que foi uma inspiração divina, porque se tivéssemos mais divisas tinha-se ido tudo ainda mais depressa. O ouro é mais difícil de vender. Ficou 1 bilião em divisas, e esse bilião ao fim de um ano já estava gasto.

Regra geral atribui-se a crise económica à revolução, mas vai muito além disso...
Exactamente. O primeiro choque petrolífero, em finais de 1973, já estava a provocar dificuldades enormes na economia portuguesa no primeiro trimestre de 1974. A inflação estava a disparar; o défice da Balança de Pagamentos estava a reaparecer, coisa que não sucedera nos anos anteriores; a Bolsa, que estivera num boom, já estava a descer; o défice orçamental estava a engrossar por causa do apoio que se dava aos preços fixados através do Fundo de Abastecimento. Ora, veio o 25 de Abril na pior ocasião da economia mundial, e passa uma espécie de véu sobre as dificuldades anteriores.

Dá-se a revolução e a situação económica complica-se ainda mais...
O 25 de Abril agravou as dificuldades, nomeadamente por causa da subida disparatada dos salários. Dispararam quase 50% naqueles dois anos. Os preços foram congelados. Foi, no meu entender, uma das medidas mais nocivas dos primeiros governos provisórios. As rendas de casa também foram congeladas, e ainda hoje estamos a pagar esse erro. Isto introduziu na economia uma distorção tal que a maioria das empresas, mesmo que fossem eficientes e fizessem o melhor possível, não conseguiam aguentar. Claro que aumentou muito a procura. Com estes aumentos de salários as pessoas passaram a consumir muito mais. As empresas que produziam para exportação e bens de investimento estavam em dificuldades. E as que vendiam bens de consumo tinham muita procura, mas como os preços estavam congelados, quanto mais vendiam mais perdiam.

Naquela altura acusava-se logo as empresas de sabotagem económica. Na maior parte dos casos não era nada disso. Depois houve intervenções. E ainda bem, senão as empresas tinham ido mesmo todas à falência. O Ministério das Finanças e o Ministério da Economia fizeram os primeiros decretos sobre as intervenções e assim se manteve a economia a funcionar com o Banco de Portugal a produzir crédito para essas empresas. Quando vieram os retornados, a mesma coisa. Mais uma vez a expansão do crédito para aguentar a economia. Saí a 15 de Março de 1975. Estive naquela sessão nocturna que decidiu a nacionalização da banca. Este episódio está relatado em muitos sítios, mas às vezes de forma incorrecta. Quando se dá o 11 de Março, de certo modo, o sindicato dos bancários toma conta da banca. A única maneira de abrir os bancos era preparar uma forma qualquer que afastasse as antigas administrações. Chamei Jacinto Nunes, que era governador do Banco de Portugal, e Medina Carreira e preparámos um projecto de decreto para a intervenção do Estado em todos os bancos. Suspendíamos as administrações e nomeávamos administradores por parte do Estado por um período transitório. Depois se veria.

Na altura vivia-se muito o presente...
Sim. Acho que o prazo que definimos era seis meses ou um ano. Levámos o projecto ao Conselho da Revolução, que se reuniu só por causa disto, e o rejeitou liminarmente. E apareceu logo o projecto da nacionalização da banca. Quando o projecto foi discutido não me pronunciei contra. Disse: "Se acham que é esse o caminho, pode ser esse o caminho; a única coisa que não podem fazer é nacionalizar os bancos estrangeiros, porque isso levanta dificuldades muito sérias." Queriam nacionalizar o Montepio, e eu disse que não fazia sentido. Até houve uma pessoa muito conhecida, não vale a pena dizer o nome, que queria nacionalizar a CGD! Disse-lhe que a CGD já estava nacionalizada.

A ideia da nacionalização da banca não partiu de mim, não era o meu projecto, mas tenho de reconhecer que acabei por apoiá-la. Só que, para nomear administradores para os bancos nacionalizados, fiz uma reunião com os gestores da banca pública Caixa Geral de Depósitos, o Banco Nacional Ultramarino, o Banco de Angola e o Banco de Portugal para me darem sugestões de nomes. Mas quando apresentei a lista numa reunião em que também estava gente dos sindicatos, percebi que quem mandava eram os sindicatos e os meus nomes não interessavam. Dirigi-me ao primeiro-ministro e demiti-me.

Mas permanece no governo...
O general Vasco Gonçalves tentou convencer-me a ficar, disse que não, mas ele insistiu muito. Um dos argumentos que usei foi de que a minha especialidade não era a parte financeira, mas o comércio externo, embora nessa altura já fosse, possuía seis anos de actividade no sector financeiro. "O senhor vai para Ministro do Comércio", disse-me ele. "Não", respondi. "Eu sou perito é em comércio externo." E ele criou o Ministério do Comércio Externo. Mas fui sempre marginalizado. O IV Governo funcionava em sistema de politburo: só alguns ministros iam ao conselho de ministros. Quando levava lá algum projecto esperava cá fora. Embora fosse ministro, era menos do que secretário de Estado. Como estava a ser muito atacado por não ter nacionalizado o comércio externo, assim que o PS declarou que ia sair do governo, saí no mesmo dia.

O que é que acontece depois?
Estive desempregado durante o V Governo Provisório. E quando veio o VI Governo Provisório, do almirante Pinheiro de Azevedo, Salgado Zenha, que era ministro das Finanças, convidou-me para governador do Banco de Portugal.

Como é que encontrou o Banco?
Tive logo as dificuldades de não haver divisas. A única hipótese que tínhamos era vender ou hipotecar ouro junto dos bancos privados, em condições bastante desfavoráveis. Felizmente Mário Soares e Salgado Zenha foram à Alemanha, falaram com o chanceler Helmut Schmidt e este persuadiu o Deutsch Bundesbank a emprestar-nos dinheiro, contra ouro. Foi isso que acabou por nos salvar.

Também se deslocou à Alemanha?
Fui a Frankfurt, ao Deutsch Bundesbank. No dia 25 de Novembro estava a explicar tudo sobre a situação portuguesa, numa reunião com todo o conselho do Bundesbank. Ora, as informações que apresentei coincidiam com as que eles já haviam recolhido junto da embaixada alemã em Portugal, como depois me disseram. Mas eu não sabia disso durante a minha exposição! Como expusera a situação real, depois do almoço assinaram um acordo e emprestaram-nos dinheiro contra ouro. Atrás deles vieram outros bancos europeus, como o BRI, que já nos fizera um empréstimo no tempo em que o professor Jacinto Nunes era governador do Banco de Portugal. Passámos a ter vários empréstimos contra ouro, e vivemos com eles durante um ano. Mas depois começaram a dizer-nos que não.

Como é que isso se resolveu?
Começámos a tentar empréstimos junto dos americanos, até que o embaixador Carlucci convenceu o governo americano a fazer o Grande Empréstimo: 750 milhões de dólares. Era sem garantia ouro, mas com uma condição: precisávamos de negociar um acordo com o FMI. Em Portugal havia uma grande resistência, mas ficámos obrigados a isso. O Grande Empréstimo, além do dinheiro, trouxe um grande aumento da confiança da banca internacional em Portugal. A partir desse momento os bancos internacionais privados, que não nos emprestavam um tostão, abriram-nos as portas.

Como é que acontece a desvalorização do escudo?
A primeira foi em 1976, graças ao Michel Rocard, que veio cá a pedido de Mário Soares. Usei a definição do FMI. Dessa maneira a desvalorização foi de 15%, mas da outra forma dava cerca de 16%. Os tais ministros que nos queriam controlar começaram logo a fazer barulho. Entretanto a situação continuou a piorar, porque uma desvalorização de 15% não era suficiente. E no Verão de 1977 estávamos numa situação extremamente difícil. Já se acabara o dinheiro dos empréstimos contra ouro, o Grande Empréstimo ainda não estava concluído. Chegámos a ter reservas que davam para pagar só um dia de défice! Em desespero, ainda consegui mais um empréstimo do BRI, de 100 milhões de dólares. Foi o que nos valeu.

Veio de novo uma equipa do MIT...
Vieram cá várias equipas. Nessa altura estavam cá o Rudiger Dornbusch e o Paul Krugman; este ainda era um jovem estudante. O Dornbush trouxe a ideia do crawling peg do escudo, que foi uma ideia brilhante, e mudou isto tudo! O crawling peg foi um dos milagres da economia portuguesa. Todas as vezes que o meu pessimismo histórico não funcionou foi por causa de um milagre qualquer!

Como era o crawling peg?
Nós desvalorizávamos 1% ao mês e garantíamos que se nos afastássemos disso reembolsávamos os investidores que tivessem contraído empréstimos a prazo. No fundo fazíamos uma espécie de seguro cambial.

Foi uma das grandes contribuições do Dornbusch e do Lance Taylor, professores do MIT. Funcionou e, em conjunto com o Grande Empréstimo, levou a que, a partir de meados de 1977, deixássemos de ter dificuldades na Balança Cambial.

Entretanto Portugal fez também um acordo com o FMI. Como é que foi?
Correu muito bem. A delegação do FMI e o director do departamento europeu do FMI eram pessoas inteligentes. Mais tarde fui consultor do FMI e estudei os acordos que fizeram com vários países. Acho que o acordo com Portugal foi dos mais inteligentes que eles fizeram. Tudo porque o FMI não nos obrigava a baixar a inflação de forma absurda. Este era um objectivo secundário. Os objectivos principais eram resolver o problema da Balança de Pagamentos e conseguir crescimento económico. Agora seria impossível. Toda a gente tem a mania de que é preciso baixar a inflação. Já nessa altura havia no Fundo quem pensasse assim. Felizmente, no nosso caso, ninguém pensava dessa maneira. Foi óptimo. Poucas vezes o FMI fez acordos com sucesso como com Portugal.

A equipa do MIT ajudou...
Uma vez, no FMI, quando era governador do Banco de Portugal, um inglês disse-me: "Vocês são o Banco Central do mundo com melhor equipa de research, excepto talvez o Banco de Inglaterra." Com o MIT tínhamos o melhor que podia haver em matéria de aconselhamento económico. Entre as coisas que fiz no Banco de Portugal, com algum valor, estão as equipas do MIT e a introdução do crawling peg. Outra, foi a criação do gabinete de estudos económicos do Banco. Nessa altura entraram os professores Cavaco Silva e Miguel Beleza, entre outros. Hoje o gabinete de estudos do Banco de Portugal é uma referência.

Que balanço faz de todos estes anos de evolução da economia portuguesa?
Tenho de reconhecer que se me pusesse agora na década de 50, a pensar o que pensava naquela altura, nunca conseguiria imaginar o que de facto aconteceu. Se considerarmos o período 1950 a 2004, penso até que o crescimento português foi superior ao da Irlanda. Portugal é um dos países do mundo que cresceram mais. Talvez haja uns dez ou quinze que cresceram mais. Tivemos um grande sucesso entre 1960 e 1973, como outros países europeus. Foi uma época dourada de crescimento económico. Depois, a seguir ao 25 de Abril, o nosso comportamento não foi tão mau como isso. Foi muito mais variável do que era anteriormente, mais lento, mas o país modernizou-se e transformou-se.

Como vê o futuro da nossa economia?
A situação tem-se degradado nos últimos dez anos. E aqui já entra o meu pessimismo. O nosso crescimento económico tornou-se progressivamente mais fraco. E desde 2001 está abaixo da média europeia. Estamos a divergir da Europa. Pode dizer-se que é uma flutuação cíclica, que vamos sair da crise. Mas acho que é mais do que isso.

À escala europeia as perspectivas também não são brilhantes. O mundo tem um fenómeno novo: a China e a Índia. Os europeus avançados podem refugiar-se em indústrias de ponta ou em produtos e marcas reconhecidas mundialmente. Os chineses ainda vão demorar algum tempo a chegar lá. Mas já chegaram a onde nós estamos: vestuário, calçado, plásticos.

Acresce que as nossas condições estruturais para crescer são assustadoras. Com destaque para o problema da educação. Apenas 20% da população activa tem o 12.º ano de escolaridade. O normal na Europa é 80%. Temos um abandono escolar até ao 12.º ano superior a 40%. Mesmo que se faça alguma coisa, que não se está a fazer, daqui a 30 anos estaremos com uma qualificação da mão-de-obra inferior à média europeia de agora. Assim não podemos pensar em ter o mesmo crescimento económico que o resto da Europa. É completamente impossível. E o que mais me revolta, quando falo de educação perco a serenidade, é que as pessoas em Portugal sabem isto e não há capacidade para fazer seja o que for. Anda-se a fingir que se faz reformas educativas. Temos também o problema da justiça. Talvez custe 2% ou 3% do PIB em custos de ineficiência.

O professor está muito pessimista...
A verdade é que vejo o futuro com muito pessimismo. Mas, no passado, sempre que achei que não havia forma de as coisas se resolverem na economia portuguesa, acabou por acontecer sempre um milagre. Pode ser que desta vez também aconteça algum. Mas milagre para a educação não estou a ver como."


In Memoriam Manoel de Oliveira



Aniki-Bóbó, 1942


Vale Abraão, 1993


terça-feira, 24 de março de 2015

In Memoriam Herberto Helder




Herberto Helder diz "Fonte II"
(23 Nov 1930 - 24 Mar 2015)


No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São
silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos, porque
os filhos estão como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudeza de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.

Poema "Fonte II", A Colher na Boca, 1961