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sábado, 2 de agosto de 2014

Quem é Carlos Moedas, o novo comissário europeu


Carlos Manuel Félix Moedas nasceu em Beja, em 10 de Agosto de 1970, sendo o mais novo dos dois filhos de um casal formado por um jornalista e uma educadora de infância.

Passou a infância e a juventude no meio alentejano da época, a brincar na rua com os amigos e a esfolar os joelhos. "Lembro-me de andar na rua das oito às oito, sem telemóvel e sem que os meus pais se preocupassem. Chegava a meter-me à estrada de bicicleta, com os meus amigos, e a ir tomar banho nas barragens da zona. Era outro mundo!", disse à Visão.
A única regra exigida pelos pais era não ter problemas da escola e nunca teve. "Conheço-o há mais de 30 anos, desde que fomos para o ciclo. Além da mãe e da irmã [o pai faleceu em 1993], ele mantém por cá um grupinho de amigos que foi sempre acompanhando o seu trajecto, mais ou menos à distância", conta Eduardo Mira Cruz, seu amigo da escola. "As notas dele eram sempre mais altas do que as dos outros todas juntas. Às vezes até irritava. Quando alguma coisa corria mal, nós costumávamos dizer: 'Hoje é dia de lhe caírem as pestanas'", lembra Eduardo.

Teimoso e persistente, aos 18 anos, em vez de seguir a carreira de médico que os professores lhe destinavam, foi para Lisboa estudar Engenharia Civil no Instituto Superior Técnico. Fez quatro anos de curso mas, apesar de estudar no IST garantir um emprego bem remunerado no País, candidatou-se ao programa Erasmus e foi fazer o último ano à École Nationale des Ponts et Chaussées em Paris.

Terminado o curso em 1993, arranjou trabalho no Grupo Suez Lyonnaise des Eaux. Quando tencionava ir projectar estações de tratamento de águas e esgotos foi chamado a Portugal para vir fazer quatro meses de tropa. "Fui para a Escola de Engenharia em Tancos e depois vim para a Pontinha, mas no primeiro fim de semana em que me deixaram ir a casa só pensava no que me estava a acontecer. Como é que eu, numa semana, estava em França a começar a trabalhar e, na outra, estava ali metido?", desabava Carlos Moedas.

Feita a tropa, regressou à Lyonnaise des Eaux onde foi gestor de projectos entre 1993 e 1998. Três anos depois de voltar a França conhecera Céline Abecassis, uma francesa de origem judaica doutorada em Gestão, com quem se haveria de casar em 2000 depois de ambos fazerem uma passagem pelos EUA. Ela em Nova Iorque, a trabalhar na Lectra, ele em Boston, a fazer o MBA (Master in Business Administration), na Harvard Business School.

Carlos Moedas descreve os dois anos passados numa das mais reputadas universidades do mundo, como "os melhores anos" da sua vida. Inicialmente partilhou um quarto do campus, mas depois concorreu a um apartamento com o amigo Hugo Gonçalves Pereira. Compravam bacalhau nas lojas portuguesas da zona e faziam especialidades nacionais. "Não éramos propriamente chefs gourmets, mas tínhamos lá amigos e gostávamos de os receber", recorda Hugo. "Era sobretudo o Hugo que cozinhava. Eu sabia fazer uns bifes com arroz", confessa Carlos Moedas.
Em Harvard, estudavam e sociabilizavam com excepção das actividades na área do desporto. Diz Moedas: "Eu sempre fui demasiado pequeno para ser bem sucedido no desporto. O meu hóbi era ser bom aluno. Mais tarde ainda tentei o golfe, mas aquilo demora muito tempo".

De Harvard sai-se para um emprego de sucesso. Após um estágio no banco de investimento Goldman Sachs, em Londres, ofereceram-lhe um lugar na empresa onde permaneceu entre 2000 e 2002. Aí teve a oportunidade de trabalhar com António Borges na área de fusões e aquisições, nomeadamente no sector imobiliário, que o atraiu para o PSD. E também aí aprenderia métodos de trabalho que ainda conserva. "É muito pontual, organizado e metódico e tem a escola americana do fazer acontecer. As coisas são para pensar, mas também para executar", descreve Stephan Morais, mais um amigo feito fora do País, este em Paris.

Já com dois filhos, decidiu mudar para o Eurohipo Investment Bank (Grupo Deutsche Bank), um banco especializado em aconselhamento imobiliário e em montagem de operações de dívida estruturada. O seu perfil na rede de talentos portugueses Star Trecker revela que "esteve envolvido em transações de grande relevo, como a compra da empresa imobiliária sueca Tornet pelo Grupo Lehman Brothers". Nesta referência se baseiam os seus detractores para o acusarem de ter colaborado com um dos grandes responsáveis pela futura crise financeira de 2008.

O regresso a Portugal ocorreu em 2004, depois de 11 anos passados no estrangeiro, como director de uma empresa imobiliária espanhola, a Aguirre Newman. "Sempre senti a necessidade de voltar. E não posso esconder que sempre tive um certo interesse pela política. Mas até para não ir contra o meu pai, que era comunista convicto, optei por nunca me meter em associações de estudantes ou coisas do género", conta Carlos Moedas.
"Essa primeira fase foi difícil. Estava no gabinete de estudos, mas não me conheciam bem. A primeira pessoa que me deu valor foi o primeiro-ministro que me disse: 'Sei que é trabalhador e gostava de contar consigo. Se ganhar as eleições internas, telefono-lhe no dia seguinte, de manhã.' E telefonou mesmo, o que me impressionou logo."

Entretanto Carlos Moedas vira nascer mais uma filha e criara a sua própria empresa de gestão de investimentos — a Crimson Investment Management — em 2008. "Fui eu que sugeri o nome Crimson porque era a cor oficial da Universidade de Harvard (vermelho-escuro) e fazia sentido", conta um dos seus sócios, Hugo Gonçalves Pereira, o amigo de Harvard (os outros sócios eram Pais do Amaral, João Brion Sanches, Filipe de Botton e Alexandre Relvas). Foi com esta empresa que o Grupo Carlyle assinou um contrato de exclusividade para a gestão dos seus activos em Portugal.

Integrou a equipa do PSD liderada por Eduardo Catroga que negociou o Orçamento do Estado de 2011 com Teixeira dos Santos, numa altura em que as taxas de juros dos empréstimos contraídos pelo governo eram insuportáveis e já se previa um pedido de assistência financeira externa. Passados seis meses, foi um dos representantes do PSD nos encontros com a delegação da UE/FMI/BCE no âmbito da negociação do programa de ajustamento económico e financeiro. Em 5 de Junho foi eleito deputado à assembleia da República pelo distrito que o viu nascer.

Três anos depois da fundação da Crimson, Carlos Moedas tornou-se secretário de Estado Adjunto do primeiro-ministro e iniciou o processo de alienação de todas as suas participações na empresa. Agora vai gerir uma das 28 pastas da Comissão Europeia presidida pelo ex-primeiro-ministro luxemburguês Jean-Claude Juncker.


sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Passos Coelho escolheu Carlos Moedas para comissário europeu


Pedro Passos Coelho comunicou na noite de quinta-feira ao recém-eleito presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, que já convidou Carlos Moedas, até aqui seu secretário de Estado Adjunto, para ser o próximo comissário europeu português na equipa que vai iniciar funções no dia 1 de Novembro:
O Primeiro-Ministro Pedro Passos Coelho comunicou ao Presidente eleito da Comissão Europeia Jean Claude Juncker, que vai indicar o nome do Engenheiro Carlos Moedas para integrar o elenco da próxima Comissão Europeia.





Na cimeira de 16 de Julho, em Bruxelas, onde foram abordados os nomes dos membros da futura Comissão Europeia, Carlos Moedas terá sido o nome apresentado por Passos Coelho. Mas nessa altura Juncker, recém-eleito pelo Parlamento Europeu, surpreendeu o primeiro-ministro ao dizer-lhe que gostaria de ter no seu executivo comunitário, Maria Luís Albuquerque. O primeiro-ministro português dispôs-se a reflectir nessa opção.

Nos últimos dias, os contactos telefónicos de Passos Coelho com Juncker foram intensos. Como não lhe foi revelado qual a pasta que seria entregue a Portugal, embora o futuro presidente da Comissão Europeia garantisse sempre que seria bem posicionada, Passos regressou à sua opção inicial. Até porque não convinha a ministra das Finanças sair do Governo a um ano das eleições legislativas.

Conselheiro de Passos desde os tempos da oposição — pertenceu à equipa que esteve a negociar o último Orçamento (2011) do governo de José Sócrates —, Carlos Moedas é um dos elementos do Governo em quem o primeiro-ministro mais confia.

Desde 2011, teve a missão de acompanhar as sucessivas negociações do memorando com a troika, sendo, em conjunto com o Ministério das Finanças, a ponte de ligação entre o Governo e os representantes da UE/BCE/FMI no controlo da execução técnica das medidas acordadas.

Ainda sem saber a pasta que pode ocupar, Carlos Moedas terá agora que enfrentar uma audição no Parlamento Europeu, exame onde nem todos os candidatos a comissários europeus têm passado. Se for aceite, tomará posse no início de Novembro nas novas funções.

A reacção do líder do PS, António José Seguro, não se fez esperar:
“O PS discorda desta escolha porque esta era a oportunidade de o país escolher uma personalidade com resultados europeus, com prestígio europeu, com peso político para que pudéssemos obter um pelouro na comissão europeia que pudesse defender os interesses nacionais.
O engenheiro Carlos Moedas não corresponde a nenhum dos itens deste perfil — o do prestígio político europeu, o de reconhecimento pelos seus pares, o do trabalho europeu. Aliás, não se lhe conhece uma ideia nem nenhuma proposta, nem nenhum pensamento sobre as questões europeias.
”

Questionado pelos jornalistas sobre a sua preferência pela eurodeputada Maria João Rodrigues para a comissão, Seguro respondeu que “é um dos nomes que se insere num conjunto de personalidades que o país tem com prestígio, com provas dadas, com reconhecimento. Desse ponto de vista, compare os perfis, compare a qualidade da competência, as provas dadas e sobretudo a prioridade que a professora Maria João Rodrigues tem dado sobre o que deve ser a prioridade da Europa.”

Maria João Rodrigues é licenciada em Sociologia pelo ISCTE e doutorada em Economia pela Universidade da Sorbonne, em Paris, uma escola que não consegue aceder aos QS MBA Rankings em qualquer especialização, ao contrário da prestigiada escola de negócios francesa INSEAD ou das americanas Harvard e Stanford. Foi ministra para a Qualificação e Emprego do governo Guterres, de Outubro de 1995 a Novembro de 1997, quando o ministério foi dividido em partes entregues a outros ministros. Foi consultora da Comissão Europeia em 2005 e agora tinha a ambição de ser escolhida para a Comissão Europeia.

O social-democrata Eduardo Catroga, com quem Carlos Moedas trabalhou durante as negociações do Orçamento do Estado de 2011, resume numa frase o perfil do ainda secretário de Estado:
“Tem formação de engenheiro, de gestão, tem experiência no sector público e privado, e uma polivalência que se adapta a vários tipos de funções desde a área do desenvolvimento regional à área dos assuntos económicos, à área da concorrência. Está em boas condições para ser um óptimo comissário porque reúne valências que fazem dele não já uma promessa, mas um executivo de alto gabarito.”

Nascido em Beja em 1970, Carlos Moedas é licenciado em Engenharia Civil pelo Instituto Superior Técnico — a mais prestigiada escola de engenharia portuguesa —, trabalhou até 1998 na área de engenharia para o grupo Suez Lyonnaise des Eaux, em França. Depois de tirar um MBA em Harvard, regressou à Europa para trabalhar na área de fusões e aquisições no Banco de Investimento Goldman Sachs.