sexta-feira, 19 de junho de 2015

As subconcessões da Carris e Metro de Lisboa - II


O grupo espanhol Avanza ficou classificado em primeiro lugar no relatório preliminar do júri do concurso para as subconcessões da Carris e do Metro de Lisboa, representando a sua proposta uma poupança para o Estado em mais de 215 milhões de euros.




O grupo espanhol Avanza que será responsável pela gestão do transporte público urbano de Lisboa divulgou em comunicado que vai receber 1075 milhões de euros do Estado pelos contratos das subconcessões da Carris e do Metro de Lisboa. Este montante inclui o custo por quilómetro percorrido e ainda 30% das receitas geradas pelas empresas de transporte público de Lisboa.

No caso da Carris, o contrato ascende a 625 milhões de euros e dura oito anos, contando a empresa com 2255 colaboradores, entre os quais 1353 motoristas e 138 guarda-freios para conduzir uma frota composta por 635 autocarros, 54 eléctricos, 3 ascensores e 1 elevador que serve 120 milhões de passageiros por ano.
No Metropolitano de Lisboa, o contrato é de 450 milhões de euros e prolonga-se por mais meio ano, dispondo a empresa de 334 carruagens para servir anualmente 140 milhões de passageiros.

Ao longo dos oito anos de contrato, os 70% das receitas representam 1713 milhões de euros — 833 milhões a gerar pela Carris e 880 milhões pelo Metro — a entregar pela Avanza ao Estado, o que significa que o Estado terá um encaixe de 638 milhões de euros.

O preço era o único critério do concurso para a entrega da operação das duas empresas de transporte público de Lisboa a privados, com o Governo a assumir a meta de atingir uma poupança de, pelo menos, 170 milhões de euros durante a vida destes contratos de concessão.
A proposta do grupo Avanza significa uma redução dos actuais encargos em mais de 215 milhões de euros durante o período das subconcessões.

O grupo Avanza foi uma das três empresas — a par da RATP-Régie Autonome des Transports Parisiens e da National Express — que apresentaram proposta conjunta para a Carris e para o Metro de Lisboa.

Controlado pelo grupo mexicano ADO, a Avanza é o maior operador privado de transporte público rodoviário em Espanha, tendo sido criado em 2002. No entanto, daquelas três empresas, era o concorrente de menor dimensão e de mais reduzida expansão internacional — apenas operava os transportes rodoviários urbanos de duas cidades portuguesas, Vila Real (Corgobus) e Covilhã (Covibus).
Tem 10 concessões de longa distância em Espanha, onde é o segundo maior operador a seguir à National Express, além da linha internacional que une Madrid e Lisboa.




Depois do júri do concurso apresentar o relatório preliminar, no qual propôs a ordenação das propostas, segue-se o período de audiência prévia aos cinco concorrentes, no final do qual será feito o relatório final. Esse documento será remetido ao conselho de administração da empresa Transportes de Lisboa a quem cabe aprovar a adjudicação.
O Governo tenciona assinar o contrato de subconcessão com o vencedor deste concurso até meados de Julho.

19 Jun, 2015, 20:50
O secretário de Estado dos Transportes, Sérgio Monteiro, revela que o caderno de encargos proíbe qualquer aumento extraordinário do preço dos bilhetes, ou seja, o preço dos bilhetes só pode aumentar à inflação. Caberá ao grupo Avanza a renovação da frota de autocarros, tendo de ser substituídos todos os autocarros com mais de 16 anos por outros com menos de 6 anos.

20 Jun, 2015, 13:32
Sérgio Monteiro sublinha a experiência do grupo Avanza na gestão dos transportes rodoviários da zona metropolitana de Madrid e um especialista em transportes do Instituto Superior Técnico prevê o despedimento de cerca de 560 trabalhadores nas empresas de transportes públicos de Lisboa. Um sindicalista da Federação dos Sindicatos de Transportes (FECTRANS) diz que o grupo Avanza receberá 50% das receitas de bilheteira da Carris e do Metropolitano de Lisboa (na verdade, são apenas 30%), daí concluindo que estas empresas públicas continuarão a endividar-se.


*

O metro de Paris e também quase todas as linhas de eléctrico, uma parte das linhas de autocarro e duas linhas de comboio regional da Île-de-France, uma região administrativa que corresponde aproximadamente à zona metropolitana de Paris, são geridas pela RATP.
Trata-se de uma empresa pública francesa que tem um contrato de exploração com o Syndicat des transports d'Île-de-France (STIF), tendo obtido resultados positivos de 304 milhões de euros em 2013. Este sindicato é a autoridade que organiza os transportes da região Île-de-France, é dirigido pelo presidente do conselho regional e o seu objectivo é o bem-estar dos utentes. Era o meu concorrente preferido.

No Metropolitano de Lisboa o leque salarial ilíquido variava, em 2006, entre os 1000 e os 3500 euros pois os trabalhadores recebem, além dos salários base, uma componente variável que vai desde o subsídio de alimentação até ao de turno, passando por prémios de assiduidade e de desempenho. Os maquinistas, em especial, recebem subsídios de trabalho nocturno, subsídio de turno e subsídio pela abertura e fecho das portas que oscilava entre 317 euros e 475,50 euros mensais, entre outros.
Depois tentam desculpar-se com os swaps cujas perdas potenciais ascendiam a 1131 milhões de euros mas que não explicam, por si só, que o Metro de Lisboa tenha encerrado 2013 com uma dívida de 4281 milhões de euros.

Por que é que em Lisboa o objectivo dos sindicatos é dar mordomias escandalosas aos funcionários das empresas de transportes, empurrar os resultados destas para prejuízos e prejudicar os utentes com greves constantes?

Alguns comentários à notícia do Negócios:


Anónimo
14:12
O Partido Comunista e os sindicatos são os grandes perdedores ao não apresentarem propostas. As obras estão feitas e os espanhóis vão explorar. Os governos tiveram tempo de deixar as empresas nas mãos dos empresários portugueses.

Bom negócio
14:29
O Estado deixa de ter prejuízos gigantescos e ainda recebe 215 milhões! O medo dos sindicalistas compreende-se, pois só têm emprego os trabalhadores necessários, ah pois é! A mama acaba para muita gente. Ganham os utentes porque haverá menos greves.

Papão
14:49
A Avanza é especialista em transportes rodoviários, não tem experiência nenhuma em "metros" urbanos. Pode ser bom para a Carris, duvido seriamente que o Metro de Lisboa venha a beneficiar com este negócio.

Viva Portugal
15:19
Carris, Metro, TAP, Metro do Porto, STCP, o povo português começa a respirar de alívio ao fim de 40 anos de greves, prejuízos, dívida e mais dívida. Falta a vaca sagrada, RTP.


segunda-feira, 15 de junho de 2015

As subconcessões da Carris e Metro de Lisboa - I


Das cinco propostas entregues para a subconcessão da Carris e do Metro, três são para a exploração de ambas as empresas de transporte público da capital.

A Régie Autonome des Transports Parisiens, a National Express e a Avanza foram os três concorrentes que entregaram propostas conjuntas para a exploração da Carris e do Metro de Lisboa.

O grupo Barraqueiro concorreu apenas à subconcessão da Carris, aliado com o consórcio catalão que ganhou a subconcessão das empresas de transporte público do Porto (STCP e Metro do Porto).
Por seu lado, a Transdev apresentou uma proposta somente para a exploração do Metro de Lisboa.

A Régie Autonome des Transports Parisiens (RATP) é uma empresa pública francesa de transporte público em Paris e arredores. Fundada em 1949, opera as dezasseis linhas do metro de Paris e também oito das nove linhas de eléctrico, uma parte das linhas de autocarro e duas linhas de comboio regional da Île-de-France, uma região administrativa que corresponde aproximadamente à zona metropolitana de Paris.
Desde 2000 está a desenvolver operações de rede e engenharia de transportes em 14 países:




O grupo National Express é uma empresa britânica de transporte público, privatizada na década de 1980, que opera serviços de autocarros urbanos, regionais e de longa distância, comboios e eléctricos no Reino Unido.
É o maior operador de serviços de autocarros de longa distância em Espanha e Marrocos, tem redes de autocarros escolares nos Estados Unidos e Canadá e gere ainda a rede pública de transportes no Bahrain.

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O grupo Avanza é uma empresa privada espanhola de transportes públicos rodoviários urbanos — presente em 28 cidades espanholas e 2 portuguesas, sendo o maior operador em Espanha —, regionais, em que é o maior operador em Málaga e Madrid, e longa distância, onde ocupa a segunda posição.



O Governo quer concluir este processo até ao final de Julho, prevendo uma poupança de 170 milhões de euros durante a vida dos contratos.


A dívida das empresas públicas de transportes

Segundo as contas efectuadas pelo Diário Económico, a dívida remunerada das sete empresas públicas de transportes tuteladas pelo Ministério da Economia atingiu 19,8 mil milhões de euros em 2013, mais 5,6% que no final de 2012.

A campeã das dívidas deste sector empresarial é a Refer. A gestora da rede ferroviária nacional fechou o ano passado com uma dívida de 7161 milhões de euros.
A seguir surge o Metropolitano de Lisboa que encerrou 2013 com uma dívida de 4281 milhões de euros.

Em terceiro lugar ficou a CP, com 3912 milhões de euros. Logo a seguir vem o Metro do Porto, cuja dívida subiu para 3181 milhões de euros.

Faltam ainda as duas transportadoras rodoviárias de passageiros nas zonas metropolitanas de Lisboa e do Porto. A Carris fechou 2013 com uma dívida de 777 milhões de euros e a Sociedade de Transportes Colectivos do Porto (STCP) com 397 milhões de euros.

A empresa responsável pelas ligações fluviais entre as duas margens do Tejo, a Transtejo/Soflusa, foi a que menos contribuiu para o total da dívida, apenas 173,6 milhões de euros.

*

Os concessionários privados não vão assumir a dívida das empresas públicas de transportes, pelo que serão os contribuintes a arcar com a dívida histórica destas empresas, quase 20 mil milhões de euros.

As pessoas começam a perceber que são obrigadas a pagar os prejuízos continuados destas empresas, ano após ano, através dos impostos — IVA, IRS, IRC, ... —, para além de serem prejudicadas gravemente pelas greves constantes. Como era de esperar, os comentários à notícia do Negócios são, em geral, favoráveis à subconcessão. Escolhemos este:

Cidadão
15 Junho 2015 - 18:52
Ganha o Estado que deixa de ter prejuízos e os cidadãos utentes do serviço, pois de certeza que não haverá tantas greves por tudo e por nada. Resumindo, ganha Portugal. Só a jumentaria é que não quer entender!


sábado, 13 de junho de 2015

A privatização da TAP - III


A dívida da TAP vai ficar nas mãos dos compradores — o consórcio Gateway formado por David Neeleman e Humberto Pedrosa — que têm de respeitar os direitos dos trabalhadores mas podem reduzir o seu número.

O ministro da Economia, António Pires de Lima, referiu que vai ser possível aos novos donos da TAP dispensar trabalhadores: "Por rescisões amigáveis podem ser dispensados em qualquer empresa."

O ministro congratula-se que a dívida da TAP — 1062 milhões de euros — ficará nas mãos dos compradores. Pires de Lima esclarece que a dívida da transportadora pode vir a ser renegociada, mas "em qualquer circunstância ficará na TAP".

"Esta é a melhor garantia que podemos ter de que a TAP vai ter novos aviões, vai poder crescer, que a TAP vai poder aproveitar todas as oportunidades desenvolvimento que teve no passado, mas não pode concretizar, e vai pagar de forma mais adequada aos seus profissionais", defendeu o ministro da Economia.


13 Jun, 2015, 13:32

O secretário de Estado dos Transportes, Sérgio Monteiro, reforçou que "não há qualquer aval da dívida da TAP, transferência da dívida da TAP do seu balanço para o balanço da Parpública, transferência da dívida da TAP para o balanço do Estado, isso podemos garantir". Nem um cêntimo vai sair do bolso dos portugueses.


12 Jun, 2015, 08:17


A venda da TAP está explicada em pormenor aqui.




A Espírito Santo International assinou um contrato de venda da Portugália à TAP, em Novembro de 2006, pelo valor de 140 milhões de euros e sem passivo.


Capitalização: o consórcio comprometeu-se a injectar 338 milhões de euros na TAP para cobrir a maior parte da sua situação líquida negativa que ascende a 512 milhões de euros. Daquele montante, 269 milhões entrarão na TAP até ao fecho do negócio, garantindo 80% do total. O restante virá em quatro parcelas trimestrais de 17 milhões de euros até ao fim de 2016.

Preço inicial: o Governo encaixa 10 milhões de euros de imediato. Dois milhões virão na assinatura do contrato de venda e os restantes oito milhões no fecho do negócio.

Opção de venda dos restantes 34%: ficou registada a opção de venda da participação de 34% que a Parpública ainda mantém na TAP ao consórcio que já assegurou 61% da empresa (continuam reservados 5% para os trabalhadores), embora o Estado possa anulá-la. No mínimo, o Estado encaixará 6 milhões de euros com a venda da participação restante. Este valor poderá subir para 50 milhões, se a TAP registar um EBITDA (resultado antes de juros, impostos, apreciações e amortizações) superior a 250 milhões de euros em 2015. A alienação poderá ser feita nos dois anos após o fecho do negócio.

Oferta Pública Inicial (IPO, na sigla inglesa): se houver uma oferta pública inicial (isto é, se a TAP entrar em bolsa) até quatro anos após o fecho do negócio, o Estado recebe mais 90 milhões de euros. Para tal, o desempenho da TAP em 2015 terá de ser como acima referido, podendo o próprio Estado tomar a iniciativa da IPO enquanto ainda for accionista da empresa.

Portanto o preço mínimo da proposta conjunta de Neeleman e Pedrosa é 354 milhões de euros — capitalização de 338 milhões, preço inicial de 10 milhões e 6 milhões com a opção de venda. Foi este o valor utilizado como termo de comparação com a proposta de Germán Efromovich.





O consórcio trará 53 novos aviões para a TAP que deverão chegar entre 2017 e 2025. Também ficou prevista a partilha de aviões com a companhia aérea brasileira Azul que já voa para dois destinos nos Estados Unidos. Aliás a aposta no mercado norte-americano é uma das prioridades.
A sede da empresa em Portugal e as rotas estratégicas ficam asseguradas por dez anos e a plataforma (hub) no aeroporto de Lisboa por trinta anos.

A intenção do Governo é assinar o contrato de venda ainda este mês de Junho, depois de o processo passar pelo crivo dos reguladores nacionais e europeus, nomeadamente a Direcção-Geral da Mobilidade e Transportes da Comissão Europeia.


*

Os actuais governantes afirmam que o Estado ainda poderá arrecadar mais 134 milhões de euros, se a TAP tiver um resultado operacional superior a 250 milhões no corrente ano. Com todos nós a lembrarmo-nos que a greve de dez dias dos pilotos, no passado mês de Maio, causou prejuízos de cerca de 35 milhões de euros, ou são utópicos ou estão a tomar-nos por parvos.

Pode parecer incompreensível que o Governo não procure manter, pelo menos, a participação de 34% no capital da TAP uma vez que o Estado irá encaixar uma insignificância de 6 milhões com a sua alienação.
Obviamente que nenhum empresário aceitaria pagar 354 milhões por uma empresa com mais de 500 milhões de capitais negativos, sem deter o seu controle. Mas se o Estado retivesse uma participação minoritária, podia acompanhar a gestão numa posição privilegiada no interior do grupo. O problema é que, nesse caso, seria responsável por uma parte significativa da colossal dívida do grupo TAP.

Quanto à luta feroz que trabalhadores, sindicatos e outros interesses associados à TAP desencadearam para manter a empresa na esfera do Estado, como é bem visível no jornal 2 da RTP, no dia 11 de Junho, em que até houve quem tivesse tentado denegrir o empresário David Neeleman, só mostra quanto esta gentinha tem ganho à sombra da companhia aérea nacional.

Entalado entre os interesses dos políticos do Governo, por um lado, e os interesses dos políticos da oposição e suas clientelas, por outro, no final, quem é depenado é sempre o contribuinte que não chafurda na política.

No entanto, como é preciso acabar com a bandalheira das greves e com a bola de neve da dívida que continua a rolar e a crescer pela encosta abaixo, a reprivatização da TAP é indispensável. Finalizemos, pois, com esta pérola de bom humor:


Pecas
Político de Bancada, Lisboa 13/06/2015 14:16
Aí está a lógica capitalista a imperar na gestão de uma empresa. Em vez de comprar o dobro dos aviões e aumentar exponencialmente a dívida, aumentar o ordenado dos pilotos para o triplo e reduzir a semana de trabalho para 24 horas, estes capitalistas de meia tigela parece que querem impor uma gestão de rigor onde até hoje reinou o regabofe. Inadmissível!


quinta-feira, 11 de junho de 2015

A privatização da TAP - II


O Conselho de Ministros escolheu o consórcio Gateway — constituído pela Barraqueiro e pela Azul — como vencedor do processo de reprivatização de 61% do capital da TAP por 354 milhões de euros. O Estado encaixa 10 milhões de euros no imediato.

David Neeleman, dono da Azul, que é a terceira maior companhia aérea brasileira, concorreu em parceria com Humberto Pedrosa, da Barraqueiro. A empresa portuguesa tem uma participação de 50,1% no consórcio Gateway, cumprindo assim o requisito da nacionalidade europeia que é obrigatório para poder controlar companhias aéreas da União Europeia.




Perfil de David Neeleman

Filho de americanos, nascido em São Paulo em 1959, criou até agora quatro companhias aéreas, a Morris Air e a JetBlue, nos Estados Unidos, a WestJet no Canadá e a Azul no Brasil.
É considerado um empreendedor no negócio da aviação, sendo-lhe atribuídas inovações desta industria como o e-ticket e a TV ao vivo durante os voos. Orgulha-se de nunca ter feito despedimentos em massa, de todas as companhias que fundou serem lucrativas e de ter sempre distribuído lucros pelos colaboradores.

Na passada sexta-feira 5 de Junho, data em que terminou o prazo para entregar ao Governo uma proposta melhorada de compra da transportadora aérea portuguesa, Neeleman tinha revelado por escrito alguns pormenores da proposta do consórcio:

"Uma parte importante do nosso plano é a renovação da frota. Iremos comprar 53 aviões novos e tecnologicamente avançados. Além de serem um elemento adicional de motivação para os nossos colaboradores são também um factor muito relevante para os nossos clientes já que ao serem mais cómodos, silenciosos e económicos constituem um factor adicional para que continuem a dar preferência à TAP."

Comprometeu-se também a reforçar o hub de Lisboa "para que a TAP possa continuar a contribuir com cerca de dois mil milhões para a economia portuguesa". E a "dar continuidade ao legado da TAP em matéria de segurança e profissionalismo de todos os que lá trabalham e, simultaneamente, criar uma companhia financeiramente sólida, no longo prazo, de modo a que todos se sintam orgulhosos por trabalhar numa companhia aérea que perdurará para as gerações futuras".

"Somos um grupo de parceiros fortes e comprometidos com uma história de sucesso e crescimento que fala por nós. Este é um compromisso que o Humberto Pedrosa e eu assumimos juntamente com os nossos parceiros perante o País, a TAP, os seus colaboradores e os seus clientes."

A proposta inicial previa um investimento de 350 milhões de euros com a compra de 53 aviões novos para a TAP.
Os planos de David Neeleman para a TAP passam, no que diz respeito à operação, por um reforço dos destinos no Brasil e em África, para os quais a companhia aérea voa actualmente, bem como dos destinos nos Estados Unidos para onde a Azul já voa. Qualquer uma destas estratégias exige o reforço da frota.
Neeleman tencionava distribuir anualmente 10% dos lucros da empresa aos trabalhadores, uma política que tem seguido em todas as transportadoras que criou.

Além da operação para o Brasil e para África, os pontos fortes da TAP eram a marca e a segurança.
Pelo contrário a sua elevada dívida — 1062 milhões de euros no final do exercício de 2014 —, a instabilidade laboral e a actual incerteza política sobre o desfecho do processo de privatização em curso desvalorizavam a companhia.


11 Jun, 2015, 16:15

Agora Isabel Castelo Branco, secretária de Estado do Tesouro, acaba de revelar que o Governo entregou 61% do capital da TAP ao consórcio Gateway, "no mínimo a 354 milhões de euros, valor que pode chegar aos 488 milhões de euros, em função da performance económico-financeira da empresa, durante o ano 2015". O valor também depende da possibilidade de efectuar uma operação de colocação no mercado de capitais que pode ser realizada até quatro anos após a conclusão da venda.


*


Depois dos prejuízos causados pela greve de dez dias dos pilotos no início de Maio, contar com resultados positivos na TAP, em 2015, será como considerar o ovo dentro do sim senhor da galinha. A venda será feita por 354 milhões de euros, dos quais 344 milhões para capitalizar a empresa e os restantes 10 milhões para o Estado, ponto final.

Também não se percebe onde vão estacionar os 53 novos aviões e, ainda menos, onde a Gateway vai arranjar o dinheiro para a locação operacional dos ditos, se a operação de colocação no mercado de capitais não se realizar. Mesmo assim, o contribuinte português exulta por ir deixar de pagar os prejuízos anuais da TAP:

Hip Hip Hurra
15:00
Agora falta a Carris/Metropolitano, Transtejo e outros ninhos de comunas sindicalistas parasitas.

Anónimo
15:11
Só ainda não percebi aonde é que vão estacionar os 53 novos aviões.
Aonde moro não temos garagem.

Anónimo
15:24
Obrigado, David, por ficares com o cancro da TAP! Uffa. Mais um 'sofreguedouro' do Estado fora da carteira dos Portugueses!

morador propr.na alta de lisboa
15:30
Os novos aviões vão ficar estacionados nos terrenos da Musgueira Norte e Sul. Vão deitar abaixo as casas que deram de borla aos ciganos e pessoal da Musgueira e também ao pessoal das Calvanas que construíram casas nos terrenos da câmara.

aa
15:38
100 milhões não dá para 53 novos aviões! Um avião custa, no mínimo, 15 milhões de euros. Só se vão comprar avionetas. Um Airbus 320 tem capacidade para cerca de 110 pessoas e custa cerca de 85 milhões.

anonimo
16:09
Obrigado, grande David, agora os grevistas vão fazer greve no *aralho! Os pilotos vão ficar com os ditos cujos entalados como merecem. Hoje foi um grande dia! Mas ainda falta os cancros malignos: Refer, metros de Lisboa, Porto e Sul do Tejo, STCP, Carris e RTP.

mestris
17:04
Não entendo este PS.
Então não se lembram que há 15 anos tentaram vender directamente à Swissair, sem concurso, e que o negócio não foi para a frente porque já na altura a Swissair estava em vias de falir. Se tivessem efectuado a venda, onde estaria hoje a TAP? Na massa falida da Swissair.
Vergonhosa a postura do PS em dizer que anulará a venda, se for governo. É a caça aos votos da malta da TAP, sempre são 8000 alminhas e mais o resto da família.

mestris
17:06
Mais um reparo: quem vai colocar lá os 400 milhões de euros que a TAP tem que pagar nos próximos 3 meses? A TAP está em falência técnica há mais de 10 anos.

00SEVEN
19:02
Ufff!
Que alívio!
Vender mais de 1 mil milhões de Euros de dívidas, acrescidos de mais de 500 milhões de Euros de capitais negativos e 11 mil grevistas por 10 milhões de Euros!
Grande negócio!
Quero este governo mais 10 anos no poder!


quarta-feira, 10 de junho de 2015

Discurso do Presidente da República no 10 de Junho de 2015


O discurso de Cavaco Silva na sua última sessão solene das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, em Lamego, é um elogio aos portugueses que trabalharam para vencer as dificuldades financeiras que o País atravessou e, em especial, aos autarcas.

Neste ano derradeiro, o discurso foi centrado em “Portugal, País com futuro”, se forem cumpridos os quatro objectivos enunciados — o equilíbrio das contas do Estado e a sustentabilidade da dívida pública; o equilíbrio das contas externas e o controlo do endividamento para com o estrangeiro; a competitividade da nossa economia face ao exterior; e finalmente, um nível de carga fiscal em linha com os nossos principais concorrentes —, não tendo esquecido o “emprego dos portugueses”.
Além de ter-se esmerado no panegírico ao poder local, o escriba lamecense arrastou por dois parágrafos do discurso o louvor à sua cidade natal e, mais à frente, ainda criou o ensejo de divulgar a beleza e a gastronomia do Vale do Douro:

10 Jun, 2015, 20:29




"Comemoramos hoje o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

Celebramos Portugal na nobre cidade de Lamego, cujas raízes milenares são bem testemunho da nossa identidade colectiva, forjada durante séculos.

Celebramos Portugal neste ponto de observação privilegiado do que somos como nação europeia e como comunidade de destino dispersa pelas sete partidas do Mundo.

Ao longo da sua História multissecular, Portugal viveu tempos de abundância e de acalmia que alternaram com períodos de escassez e de convulsões profundas.

Mas aqui estamos hoje, neste Dia de Portugal. Aqui estamos, juntos, todos, para comemorar uma Pátria que existe devido a uma razão: a vontade de vencer do nosso povo.

Somos um Estado soberano e independente porque, mesmo nas alturas mais difíceis, em tempos de graves crises, não nos deixámos abater pelo desânimo e pelo pessimismo.

Comemoramos o Dia de Portugal porque nunca perdemos a confiança num futuro melhor.

Alguns têm a tendência para não acreditar no futuro, para duvidar da capacidade e da força do nosso povo. Há mesmo quem faça da crítica inconsequente um modo de vida, um triste modo de vida.

Aos que preferem dizer mal de tudo e de todos, aos que optam pela crítica destrutiva sem apresentar soluções ou alternativas, devemos mostrar o exemplo do nosso povo, que ao longo da História sempre conseguiu vencer adversidades e encontrar caminhos de futuro.

Se os nossos antepassados se tivessem deixado abater pelo pessimismo, teríamos baixado os braços, voltando as costas ao Atlântico e aos mundos que demos ao Mundo.

Se nos tivéssemos resignado, não teríamos resistido aos invasores estrangeiros nem teríamos conquistado a liberdade e a democracia.

Portugueses,

Portugal viveu recentemente tempos muito difíceis. A crise que tivemos de enfrentar deixou sequelas profundas em muitos Portugueses, algumas das quais ainda persistem. Os níveis de desemprego mantêm-se demasiado elevados. Muitas famílias continuam privadas de um nível de vida digno.

Com o esforço e sacrifício de todos, ultrapassámos a situação de quase bancarrota a que o País chegou no início de 2011 e, nos últimos tempos, tem vindo a verificar-se uma recuperação gradual da nossa economia e da criação de emprego.

Os Portugueses foram exemplares na atitude, na coragem e no sentido de responsabilidade.

Portugal tem hoje motivos de esperança num futuro melhor.

Se, para além da estabilidade política e da governabilidade do País, forem asseguradas orientações de política económica que permitam a realização de quatro grandes objectivos, estou certo de que poderemos olhar o nosso futuro colectivo com confiança, independentemente de quem governe. Esses quatro grandes objectivos são: em primeiro lugar, o equilíbrio das contas do Estado e a sustentabilidade da dívida pública; em segundo lugar, o equilíbrio das contas externas e o controlo do endividamento para com o estrangeiro; como terceiro grande objectivo, a competitividade da nossa economia face ao exterior; e finalmente, um nível de carga fiscal em linha com os nossos principais concorrentes.

Só desta forma será possível assegurar o crescimento económico e a criação de emprego.

Pelos meus contactos com os mais diversos sectores da nossa sociedade, posso, neste Dia de Portugal, dar testemunho dos sinais de confiança no futuro que tenho encontrado junto de empresários, trabalhadores e parceiros sociais, jovens empreendedores, cientistas e académicos, autarcas, instituições de solidariedade e comunidades portuguesas dispersas pelo Mundo.

De igual modo, podem colher-se sinais de confiança no futuro do nosso País observando a nova atitude dos nossos parceiros europeus e dos investidores e o comportamento dos mercados financeiros.

Os empresários e os agentes económicos não se acomodaram nem se resignaram. Desde logo, importa sublinhar o aumento de 10 pontos percentuais do peso das exportações na produção nacional, entre 2010 e 2014. Um valor como este atinge-se com trabalho e coragem, e não com descrença ou conformismo.

Nos encontros que frequentemente mantenho com os nossos empresários, tenho constatado a sua firme determinação em aumentar a produção de bens e serviços de qualidade, capazes de ombrear com os melhores do Mundo e de conquistar novos mercados.

Destaco a aposta no conhecimento e na inovação que tem sido realizada pelas empresas portuguesas, as quais, em alguns sectores, são líderes europeias na produção de bens e de tecnologias. Registo o extraordinário aumento do número de empresas que satisfazem os exigentes critérios de selecção para integrar a rede PME Inovação da COTEC, associação a cuja Assembleia Geral tenho a honra de presidir.

Através da iniciativa «Roteiros para uma Economia Dinâmica», tenho tido contacto com múltiplas empresas industriais de dimensão intermédia, empresas que souberam adaptar a sua produção às exigências dos novos mercados, com um impacto muito positivo na criação de emprego local, na capacidade exportadora do País e no crescimento económico.

Emergem também sinais de esperança da cultura de responsabilidade que impera na generalidade dos parceiros sociais, um activo da maior relevância para a realização das reformas indispensáveis ao reforço da coesão social e de competitividade das empresas portuguesas.

Aqui, junto ao Vale do Douro, onde se reúnem de forma particularmente frutuosa alguns dos melhores vinhos do Mundo, uma gastronomia de excepção e paisagens de ímpar beleza, não posso deixar de sublinhar o sucesso dos operadores turísticos na melhoria e diversificação da oferta, que se tem traduzido em múltiplas distinções internacionais atribuídas ao nosso País e, sobretudo, no número recorde de visitantes que procuram Portugal como destino.

Os empresários e os trabalhadores, verdadeiros heróis a quem Portugal tanto deve na ultrapassagem da recente crise, poderão agora olhar o futuro com melhores perspectivas.

Aumentou significativamente o número de jovens empreendedores que, nas mais diversas áreas, mostram a sua ambição e vontade de vencer. São jovens de coragem que, desafiando o risco, abraçam uma ideia inovadora e procuram transformá-la numa actividade rentável, criadora de emprego. São o fermento de uma classe empresarial mais dinâmica, orientada para o mercado global, que aposta na inovação e que sabe que o sucesso não pode basear-se em subsídios ou privilégios concedidos pelo Estado.

Permitam-me que destaque os jovens agricultores que assumem a gestão de empresas familiares e lhes dão novos rumos, aplicando técnicas inovadoras e conseguindo melhorias significativas da produtividade. Devemos saudar e incentivar este sangue novo que está a chegar às explorações agrícolas e que contribui já, de forma significativa, para o crescimento das exportações do sector e para a redução do nosso défice alimentar.

Noutro domínio, o do ensino superior e da investigação científica, temos assistido a um aumento significativo da quantidade e da qualidade da nossa produção académica. Ainda recentemente, há poucos dias, cem mil engenheiros químicos de toda a Europa elegeram um jovem português como o melhor investigador europeu na sua área de especialização. Não se trata de um caso isolado; exemplos como este ocorrem frequentemente, sendo os cientistas nacionais distinguidos pela excelência do seu trabalho e das suas pesquisas.

Na economia global, onde impera uma forte concorrência, o futuro passa muito pela boa articulação entre a educação, a investigação e a inovação, por um lado, e a actividade das empresas, por outro. A esta prioridade nacional dediquei várias jornadas dos meus “Roteiros” pelo País.

A acção das nossas universidades e institutos politécnicos, a par dos laboratórios e dos centros de investigação, e a qualificação e o talento das novas gerações, dão-nos motivos de confiança no nosso futuro colectivo.

Sinais de confiança resultam também da acção desenvolvida pelos nossos autarcas, a quem é devida uma palavra de reconhecimento pelo trabalho feito.

Pelos meus frequentes contactos com Presidentes de Câmara de todo o País, posso afirmar que o poder local, uma das grandes conquistas do Portugal democrático, dispõe hoje de uma nova geração de autarcas que conhecem os problemas das suas terras e das suas gentes, mas possuem uma perspectiva mais abrangente e integrada dos desafios que emergem no quadro da União Europeia. O País possui actualmente um poder autárquico dinâmico, informado e motivado.

Sou testemunha de que os autarcas são hoje agentes activos do desenvolvimento económico e social do País. Empenhados no fortalecimento da base produtiva dos seus municípios e na criação de emprego, promovem a captação de investimento, o apoio à competitividade das empresas, a difusão da cultura do empreendedorismo e da inovação, o aproveitamento dos recursos das suas regiões, a preservação do ambiente e a recuperação do património histórico e cultural.

Cabe agora às autarquias desempenhar o papel catalisador indispensável ao bom aproveitamento dos recursos disponibilizados pelo programa “Portugal 2020”, contribuindo para a redução das assimetrias territoriais de desenvolvimento.

Vale a pena lembrar, igualmente, o papel essencial que as autarquias tiveram no apoio aos mais atingidos pela crise. O esforço do poder local juntou-se a uma rede imensa de instituições e voluntários que, pela sua acção em prol dos mais vulneráveis da sociedade, conquistaram a admiração dos Portugueses. Posso testemunhar o trabalho verdadeiramente excepcional que foi feito pelas instituições de solidariedade e por milhares de cidadãos, com dedicação e generosidade exemplares.

Destaco ainda, a este propósito, os agentes económicos que, em resposta a um apelo que lhes dirigi, se congregaram em torno da associação “Empresários para a Inclusão Social” no combate ao abandono e ao insucesso escolar.

As nossas comunidades dispersas pelo Mundo, que saúdo com especial afecto, um dos activos estratégicos do País, são uma razão acrescida para termos confiança no futuro.

Nos encontros que tenho realizado com os Portugueses e Luso-descendentes da diáspora, tenho constatado a sua firme vontade de contribuir para o desenvolvimento do País e para vencermos os desafios que temos à nossa frente.

O Conselho da Diáspora Portuguesa, constituído sob o meu patrocínio e que reúne Portugueses que, nos países onde vivem, se destacam pelo seu mérito nas áreas da ciência, da cultura, da economia e da cidadania, tem vindo a contribuir para a difusão da imagem positiva de Portugal, dando a conhecer ao Mundo as realizações e as potencialidades do nosso País.

Das minhas visitas ao exterior e dos contactos que mantenho com governantes, representantes de instituições internacionais e investidores estrangeiros, posso assegurar como se alterou, em sentido positivo, a atitude em relação a Portugal. Somos vistos como um destino atractivo e, acima de tudo, como um destino em que se pode confiar.

Somos elogiados pela correcção dos graves desequilíbrios económicos e financeiros que quase levaram o País a uma situação de ruptura, pelas reformas levadas a cabo para a melhoria da competitividade das empresas, pelo caminho de crescimento económico e criação de emprego que temos vindo a trilhar, pelo cumprimento das regras de disciplina orçamental que aprovámos no âmbito da União Europeia.

As taxas de juro dos títulos da dívida pública portuguesa desceram muito significativamente. Portugal é reconhecido como um destino competitivo para o investimento estrangeiro e os nossos recursos humanos são procurados e valorizados. A qualidade dos produtos portugueses é apreciada em mercados particularmente exigentes.

Por outro lado, no âmbito da União Europeia, reforçada que foi a capacidade para enfrentar crises financeiras e de supervisão dos Estados-membros, existe agora um claro empenho numa agenda de crescimento económico e de criação de emprego.

São sinais positivos que nos chegam do exterior e que contribuem para reforçar a nossa confiança no futuro de Portugal.

Portugueses,

Num tempo marcado por tantas incertezas, em que de quase todos os pontos do globo afluem notícias de dramas humanitários, alguns dos quais bem perto de nós, Portugal atravessou, sem sobressaltos profundos, um dos mais exigentes períodos da sua História recente.

É certo que, no passado, na primeira década da nossa democracia, o Estado português se vira já, por duas vezes, obrigado a recorrer ao auxílio externo de emergência. Na memória de muitos ainda existe a recordação da pesada factura que tivemos de suportar, quando à crise económica se associou uma crise social com fortes tensões e uma elevada conflitualidade, por vezes muito violenta.

Agora, diferentemente do que ocorreu nas intervenções externas do passado, a crise económica e social surgiu num tempo em que as expectativas de bem-estar são muito mais elevadas do que há trinta ou quarenta anos. A qualidade de vida dos portugueses aumentou de uma forma significativa, os padrões e os hábitos de consumo alteraram-se, as legítimas ambições dos cidadãos tornaram-se mais vastas.

Foi neste contexto que, após uma década de reduzido crescimento económico, Portugal chegou a uma situação que qualifiquei como quase «explosiva». Em Maio de 2011, fomos obrigados a recorrer ao auxílio do exterior para satisfazer as necessidades de financiamento do Estado e da economia. Sem o apoio externo, o País teria entrado numa situação de ruptura, com consequências sociais catastróficas. Aliás, não é por acaso que outros países da zona euro também seguiram o caminho de solicitar o auxílio do exterior. E nem todos conseguiram, como Portugal, Irlanda e Espanha, ultrapassar as dificuldades.

Na aplicação do programa de assistência financeira, fomos obrigados a fazer grandes sacrifícios. A dado passo, foi necessário alertar para a existência de limites aos sacrifícios impostos aos Portugueses. Por outro lado, chegou a existir o risco de o País entrar numa espiral recessiva. Felizmente, conseguimos pôr-lhe cobro.

Nesse tempo, foi necessário dar voz aos que não tinham voz — aos desempregados, aos excluídos, aos reformados e pensionistas.

É certo que ainda temos um longo caminho a percorrer. Mas existem hoje razões fundadas para encararmos o futuro com mais optimismo e mais confiança.

Da mesma forma que nunca vendi ilusões ou promessas falsas aos Portugueses, digo claramente: não contem comigo para semear o desânimo e o pessimismo quanto ao futuro do nosso País. Deixo isso aos profissionais da descrença e aos profetas do miserabilismo.

Se fizermos o que nos compete — e ninguém o fará por nós —, se assegurarmos a estabilidade política e a governabilidade, se definirmos, num horizonte de médio prazo, uma linha de acção favorável ao crescimento económico, à criação de emprego, à sustentabilidade das finanças públicas e à promoção da justiça social, poderemos festejar este dia que é o nosso, o Dia de Portugal e dos Portugueses, com confiança no futuro.

Muito obrigado."






Variações sobre o encontro internacional de Matemática no Porto


Vai decorrer na cidade do Porto um encontro internacional de Matemática que reune cerca de mil professores e investigadores.

O encontro internacional de Matemática do Porto tem início às 17 horas desta quarta-feira, prolongando-se até sábado, e o programa inclui três oradores portugueses: Rui Loja Fernandes, que já ensinou no IST e actualmente trabalha na Universidade de Illinois, Irene Fonseca, professora da Universidade de Carnegie Mellon, e André Neves, do Imperial College, Londres, que em 2011 foi o primeiro matemático português a receber do Conselho Europeu de Investigação uma bolsa de mais de um milhão de euros.



O gabinete de imprensa da Universidade do Porto (UP) destaca que este encontro foi organizado pela Sociedade Americana de Matemática (AMS), pela Sociedade Europeia de Matemática (EMS) e pela Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM), sendo a primeira reunião conjunta destas sociedades de Matemática. Haverá sessões na Faculdade de Ciências da UP, no Seminário do Vilar e na Casa da Música.

Para o ministro da Educação e Ciência, Nuno Crato, que é também matemático e será um dos oradores da cerimónia de abertura, o encontro, “tendo mais de mil participantes, testemunha a vitalidade e a internacionalização da investigação matemática no nosso país e mostra a capacidade da Sociedade Portuguesa de Matemática e dos centros de matemática portugueses para reunir matemáticos europeus e norte-americanos na troca e debate de resultados de investigação”.



O que é que as obras do escritor Jorge Luis Borges, do pintor Salvador Dalí ou do compositor Olivier Messiaen têm a ver com Matemática?

A resposta será dada, a partir das 21 horas na Casa da Música, pelo professor da Universidade de Oxford, Marcus du Sautoy, na conferência Os Matemáticos Secretos integrada no encontro e destinada ao grande público.

Sautoy pensa que “de forma subconsciente, os artistas esboçam as mesmas estruturas que fascinam os matemáticos”. Por exemplo, a forma do Universo é similar à da biblioteca assim descrita por Borges: “A Biblioteca é ilimitada e periódica. Se um eterno viajante a atravessasse em qualquer direcção, comprovaria ao fim dos séculos que os mesmos volumes se repetem na mesma desordem (que, reiterada, seria uma ordem: a Ordem)”.


Salvador Dalí, La Cara de la Guerra (A Face da Guerra), 1940. Óleo sobre tela, 100 cm × 79 cm. Museum Boijmans Van Beuningen, Roterdão, Países Baixos. É um fractal.


Salvador Dalí, El sagrament de l'Últim Sopar (O Sacramento da Última Ceia), 1955. Óleo sobre tela, 268 cm × 167 cm. National Gallery of Art, Washington, Estados Unidos da América. A ceia decorre no interior de um dodecaedro.



O dodecaedro é um dos 5 sólidos platónicos


Para Sautoy, que considera a Matemática como a ligação entre a ciência e a arte, Borges, com a sua Biblioteca de Babel, Dalí, com as obras O Sacramento da Última Ceia ou A Face da Guerra, e Messiaen com o seu Quarteto para o Fim do Tempo, composto no campo de concentração de Gorlitz, são matemáticos secretos.




Logo após a conferência de Sautoy, realizar-se-á um concerto pela Orquestra Clássica da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto.


*

Descendo do público adulto para o infantil, este excerto do filme Frozen dos estúdios de animação da Disney induz as simetrias radiais ou os fenómenos periódicos na mente dos mais pequenos:





sexta-feira, 5 de junho de 2015

In Memoriam Portugal Telecom





A PT SGPS entrou na bolsa de Lisboa em 1995 a valer 2,37 euros. Depois de anos de prémios e reconhecimento, chegou a ter o estatuto de cotada mais valiosa da praça portuguesa. A valorização de 40,36% registada em 2009 foi a última subida anual. Nessa altura valia cerca de 2000 milhões de euros.

Em Julho de 2010, Henrique Granadeiro, presidente do conselho de administração, e Zeinal Bava, presidente executivo, venderam a participação na brasileira Vivo à espanhola Telefónica por 7,5 mil milhões de euros.
Em Janeiro de 2011, Granadeiro e Bava fazem um desastroso acordo com a brasileira Oi a quem entregam a PT Portugal, dona do Meo e dos activos valiosos, em troca de uma participação de 25,58% no capital da Oi.

Em 2014, a Rioforte — holding não-financeira do Grupo Espírito Santo (GES) — entra em falência e descobre-se que Granadeiro e Bava tinham aplicado cerca de 900 milhões de euros da PT SGPS em títulos de dívida daquela holding do GES.
Foi precisamente devido ao default da Rioforte que a PT SGPS baixou da fasquia dos 1000 milhões de euros em bolsa.

A venda da PT Portugal ao grupo francês Altice foi concluída pela Oi, em 2 de Junho deste ano, por 5,7 mil milhões de euros, dos quais 4,9 mil milhões de euros “em caixa”.

Passados 20 anos, a PT SGPS perdeu praticamente 80% do seu valor, estava no sexto ano consecutivo de perdas e os accionistas aprovaram a mudança de nome para Pharol. Hoje chegou ao fim.





A empresa liderada desde o final de Maio por Palha da Silva é hoje bem diferente. Além da alteração de nome para Pharol e da transferência da sede, de Picoas para as Amoreiras, a empresa tem actualmente como única actividade a gestão de uma posição na brasileira Oi e uma carteira de dívida da Rioforte.

A capitalização bolsista da Pharol corresponde agora a pouco mais de 400 milhões de euros, aproximadamente metade do valor investido na dívida da Rioforte.


*


Os pequenos accionistas, que enterraram as poupanças na PT SGPS, fazem o velório:

tojornais
02 Junho 2015 - 16:02
Grande Sócrates, conseguistes fazer mais um grande negócio para Portugal com esta venda da PT aos teus amigos da Oi brasileira. Devias de apodrecer aí na gaiola. Regado com gasolina super e atear um fósforo. E andam estes bastardos dos socialistas a apregoar banha da cobra. Falem das auto-estradas e das PPP, desses negócios bem manhosos.

SALAZAR
02 Junho 2015 - 22:01
Se o Salazar cá estivesse, nada era assim. Andava tudo na ordem e hoje eramos um dos países mais ricos do mundo. A "Finlândia" da Europa do Sul.
Hoje com a fantochada dos PS e PSD e o 25 de Abril somos o cu da Europa.

Jé
04 Junho 2015 - 18:13
Eu ainda não consegui entender isto. Afinal a Pharol é que detém uma participação na Oi ou é a Oi que detém a Pharol? Afinal o que diabo foi vendido para a Altice? A Altice é dona da Pharol ou a Oi é que é a dona da Pharol ou nem uma coisa nem outra? Alguém me elucide, por favor.

Anónimo
04 Junho 2015 - 18:35
"Jé", a história é assim:
A PT Portugal pertencia à PT SGPS (que estava cotada em Lisboa). Com a integração entre os activos da PT SGPS e da OI, a OI ficou com a totalidade da PT Portugal e a PT SGPS ficou com uma participação (25,58%) na OI mais a dívida de 900M da Rioforte. Agora a OI vendeu a PT Portugal à Altice e a PT SGPS muda de nome para Pharol que, tirando a dívida, não tem nenhum activo em Portugal.

portulord
05 Junho 2015 - 03:38
O engraçado é que, neste momento, a dívida da RIOFORTE (896 milhões de euros que corresponde a 3162 milhões de reais) dava para comprar mais de 60% das ações da OI que neste momento, se considerarmos a média de 6,75 reais para cada uma das 856 milhões de acções, vale 5830 milhões de reais.
E mais engraçado é que venderam a PT Portugal à Altice por 17.000 milhões de reais, ou seja, quase 3 vezes o valor da OI.
Pergunto: ninguém vai preso em Portugal por terem feito este negócio? Concluindo, isto foi mesmo uma pharolada.

labareda
05 Junho 2015 - 10:26
O Fim da PT ficou marcado quando Sócrates resolveu que ia usar o Fundo de Pensões da PT para tapar o Défice de 2010...
Interveio directamente na venda da óptima VIVO. Depois, com ajuda do Camarada (e também ladrão) Lula, meteu a PT num buraco chamado OI. Tudo sob aplausos da parolada accionista. Agora o Estado é responsável por mais essas pensões e acabamos todos na miséria a cantar o Grândola...

J. SILVA
05 Junho 2015 - 10:55
A PT SGPS vale menos de metade do empréstimo à RioForte. Mas sejamos realistas, o que levou a empresa a esta degradação foi a entrada na OI e a pseudo fusão. A RioForte foi um pretexto para os brasileiros nos tratarem com atrasos de vida com a conivência dos bandidos que a geriram.

portulord
05 Junho 2015 - 19:39
Mas afinal quanto vale hoje cada acção da Pharol?
Será que o Jornal de Negócios não poderia colocar uma calculadora, como faz com os dividendos, em que se pudesse verificar em tempo rápido o valor indexado á OI? Ou seja, nº de acções da oibr3 (277.730.251), da oibr4 (565.035.885), colocava-se o valor de cada uma e somava-se. Desse total, a Pharol tem 25,58% e o quociente pelo nº de acções da Pharol que são 896.512.500 dava-nos o valor da acção sem o investimento na Rioforte.


quinta-feira, 4 de junho de 2015

A Grécia à beira da bancarrota - II


O FMI anunciou o pedido do governo de Alexis Tsipras em comunicado enviado por e-mail pelo seu porta-voz Gerry Rice:
As autoridades gregas informaram hoje o Fundo que tencionam juntar os quatro pagamentos devidos em Junho num só, que terá agora de ser realizado em 30 de Junho.

No âmbito de uma decisão do Conselho Executivo adoptada em finais da década de 1970, os países membros podem pedir para agrupar vários pagamentos de empréstimos com vencimento num mês do calendário [os pagamentos de juros não podem ser incluídos nesse pacote]. A decisão destinava-se a atender às dificuldades administrativas de fazer vários pagamentos num curto período.

William Murray, porta-voz adjunto do Departamento de Comunicação do FMI, já havia informado que os países têm a opção de agrupar vários pagamentos, num determinado mês, em um único pagamento no final do mês, na conferência de imprensa do passado dia 28 de Maio:

May 28, 2015


"Pergunta: A Grécia solicitou o agrupamento dos quatro próximos pagamentos em um? Qual é a posição do FMI sobre isso? Quem toma essa decisão, o Director-Geral ou o conselho, e isso é algo comum? Já aconteceu antes?

SR. MURRAY: Obrigado por essas questões. A resposta curta é não, não houve pedido para este agrupamento que tem obtido a atenção dos media, penso que, na semana passada. Não é específica para a Grécia, porque não houve nenhum pedido para o agrupamento, mas um país, apenas como cenário para sua orientação, os países possuem as opções de agrupamento, quando têm uma série de pagamentos num determinado mês. Têm a opção de agrupar, fazer um único pagamento no final do mesmo mês. Esta é uma política que foi adoptada na década de 1970. É usada raramente. Só estou ciente de um caso e passou-se em meados dos anos 80 em que um país agrupou pagamentos ao Fundo.

Pergunta: Sabe qual o país?

SR. MURRAY: Sim. Foi a Zâmbia.

Pergunta: E quem toma tal decisão?

SR. MURRAY: É um pedido das autoridades. É uma notificação por parte das autoridades de que vão agrupar. Esta política foi adoptada pelo Conselho Executivo, por isso, se um país diz, como sabe temos quatro pagamentos devidos no mês de Junho, vamos fazer um pagamento em 30 de Junho, um pagamento único em 30 de Junho. Têm todo o direito de fazê-lo, se quiserem.

Pergunta: As autoridades gregas têm ameaçado não pagar ao FMI os próximos três pagamentos. Está confiante de que eles vão reembolsar o FMI, e o que pode acontecer se não o fizerem? A Grécia pode ser eventualmente excluída do FMI, é algo que pertence à gama de opções?

SR. MURRAY: Obrigado. Dizer que já ameaçaram, essa caracterização não é o caso. No nosso entendimento, e o Sr. Varoufakis e outros declararam isto, é que pretendem pagar ao Fundo. Então, enquanto estivermos exactamente nesta situação, esperamos que as autoridades gregas vão pagar-nos.

Pergunta: E o que pode acontecer se não o fizerem?

SR. MURRAY: Para qualquer país que não cumpra os seus compromissos com o Fundo há um processo, um processo muito longo no tempo mas, inicialmente, o processo é que são declarados em mora e não têm acesso a financiamento do FMI.

Pergunta: Então, poderia descrever-nos essa mecânica? O primeiro pagamento, exactamente quando é devido, em que data e que horas? E quão rapidamente o FMI vai enviar, como sabe, um telegrama para a Grécia dizendo que falharam esse pagamento?

SR. MURRAY: Não tenho essa granulosidade em termos do que fazer, enviamos um telegrama ou qualquer coisa assim. Quer dizer, penso que a política em 1970 pelo agrupamento foi um resultado — Telex foi amplamente usado nos anos 70, mas não tenho a certeza sobre telegramas agora. É basicamente no fecho das operações na data do pagamento que é devido que um país seria declarado em atraso.

Pergunta: Fecho das operações na Grécia ou aqui?

SR. MURRAY: Aqui. Sim, seria, como sabe, meia-noite. Não é tão forte e rápido, mas é — nós damos-lhes um dia, como sabe, o dia em que é devido.

Pergunta: Quero dizer, o senhor apenas disse que eles não poderiam ter acesso ao financiamento do FMI, se falharem um pagamento. Isto é --

SR. MURRAY: Se um país, não estou a ser profético em qualquer extensão ou em qualquer país agora, mas se um país não cumprir os seus compromissos financeiros com o Fundo, que é um reembolso do que é devido, é declarado em mora e sob a nossa política já não tem acesso até que pague a mora. Não tem mais acesso a novo financiamento.

Agora o senhor tem de lembrar-se que o Fundo é um fundo de 188 países. É a nossa responsabilidade fiduciária. Somos os guardiões dos recursos de 188 países que reciclamos, que emprestamos a outros países. É por isso que é importante que os países reembolsem o Fundo, porque estão a receber empréstimos de 187 outros países. Vou seguir em frente a partir daqui. Não tenho muito mais a dizer, mas deixe-me ir para outra pessoa e, em seguida, vamos seguir em frente.

Pergunta: A última vez que perguntámos a Gerry [Rice, Director de Comunicação] sobre isto, ele disse que o FMI não tinha uma boa noção de quanto dinheiro a Grécia tem, porque não tinham tido discussões técnicas. Agora que as discussões técnicas estão a decorrer há algum tempo, estava a pensar se podia fornecer uma avaliação mais detalhada sobre a situação? Sei que é difícil por causa do local — algumas cidades locais têm dinheiro.

SR. MURRAY: Quer que lhe dê um valor de quanto dinheiro a Grécia tem?

Pergunta: Bem, qual é a avaliação do FMI?

SR. MURRAY: Sim, não tenho --"





*

Este é o segundo passo de gigante da Grécia no caminho que vai conduzir o país à bancarrota.

Recordemos que o primeiro passo foi dado em 12 de Maio passado quando a Grécia esvaziou a conta de reserva que os países-membros têm junto do FMI para pagar o reembolso de 750 milhões de euros devidos... ao próprio FMI.

A derradeira etapa estará percorrida dentro de pouco tempo, precisamente à meia-noite do dia 30 do corrente mês de Junho.
Os pormenores são claramente explicados na conferência de imprensa acima referida e os restantes países-membros do FMI vão suportar o calote do governo de Tsipras.

Por coincidência, o prazo para pagar os 1,5 mil milhões ao FMI coincide com o prazo de validade do actual programa de assistência da troika.

Resta fazer uma pequena, mas importante correcção: nem todos os restantes 187 países-membros do FMI vão aguentar com o calote grego, porque só alguns aceitaram encher os cofres do FMI para ajudar os países europeus que revelaram dificuldades financeiras.
Em especial, dois importantes países-membros do FMI recusaram emprestar sequer um dólar com o argumento de que, sendo a zona Euro a região mais rica do mundo, os seus países-membros não merecem ajuda.

A opinião dos outros:

Anónimo
04 Junho 2015 - 21:17
O circo do governo grego lá continua com o seu número e por cá há muita gente que comprou bilhete para ver o circo!
Enquanto não pagarem ao FMI ou outro credor qualquer vão bater palmas, quando não pagarem salários e reformas vão bater em alguém. No entanto, será mais certo a ditadura.

Anónimo
04 Junho 2015 - 22:10
"A vitória do Syriza marca o início de um novo ciclo na Europa"
António Costa - Janeiro de 2015

Criador de Touros
05 Junho 2015 - 13:39
Sou a favor de encarar os problemas de frente: antes prefiro a Grécia fora do sistema do que dentro. Com pessoas que não são sérias não se pode fazer negócios.

05 Junho 2015 - 14:03
As pessoas já sabem o que eu penso da política portuguesa: a esquerda é um inferno, a direita vale pouco. Os portugueses terão de evoluir muito, mas irá demorar bastante tempo.

05 Junho 2015 - 17:21
Esta possibilidade de os gregos ganharem tempo já tinha sido prevista por muitos, para mim, a Grécia entra em default hoje e, torno a dizer, não estou a ver como haverá acordo até ao fim de Junho. A UE tem medo, não há Homens a mandar.


terça-feira, 2 de junho de 2015

Saiba qual é o melhor município para viver, visitar e fazer negócios


Esta infografia do Negócios permite-lhe descobrir em que lugar está o seu município no ranking dos melhores concelhos para viver, para visitar e para fazer negócios:





Lisboa continua a ser o melhor município, sendo o primeiro classificado nas necessidades específicas dos públicos-alvo relacionados com cada uma das dimensões talento, turismo e investimento, ou sejam, a qualidade de vida, a experiência no acolhimento aos turistas e as vantagens dadas aos investidores. Seguem-se o Porto e Braga.
Os lugares do fundo da tabela continuam a ser ocupados por municípios do interior ou das ilhas mais remotas do arquipélago dos Açores.

O estudo de 2015 foi feito pela consultora Bloom Consulting e o City Brand Ranking tem como objectivo medir o valor da marca dos municípios, podendo cada um deles consultar uma análise mais fina do seu desempenho junto daquela empresa.

Para elaborar este ranking, a Bloom Consulting cruza dados estatísticos que já existem, como a população, a percentagem de criação de novas empresas ou as dormidas por habitante, com as pesquisas que são feitas na Internet sobre todos os 308 municípios portugueses — a que chama Digital Demand.

As dimensões que são alvo de medição estão indicadas na imagem seguinte e a metodologia usada na sua medição é explicada pormenorizadamente pela consultora neste pdf.





sábado, 30 de maio de 2015

11 anos de construção do One World Trade Center em 2 minutos


É sempre um prazer observar a construção de um belo arranha-céus de 104 andares e 417 m de altura.

Entre Outubro de 2004 e Maio de 2015, centenas de milhares de imagens de alta definição foram capturadas durante a preparação do local e construção do One World Trade Center que agora foram usadas na produção deste filme em time-lapse:





domingo, 24 de maio de 2015

A entrevista de Marinho e Pinto ao Público


Nesta entrevista ao jornal Público, Marinho e Pinto, líder do Partido Democrático e Republicano, adoptou um discurso social-democrata, habitualmente conotado com o centro-esquerda:

O PDR é de esquerda ou direita?
Não nos preocupa essa definição porque a geometria tradicional está em constante transformação. Que sentido tem falar de esquerda e direita, quando os dois partidos de esquerda se aliaram com os dois de direita para derrotarem um Governo de centro-esquerda?

Mas qual é a ideologia do PDR?
A ideologia é democrática e republicana. Defendemos os valores da democracia e dos modernos Estados democráticos e republicanos. A liberdade, acima de tudo. A justiça, no seu sentido concreto e amplo de justiça social, de todos participarem no progresso e desenvolvimento. E a solidariedade, enquanto operativo ético-político dos Estados modernos. Não na dimensão assistencialista, caritativa, associada às religiões, mas no sentido político. O Estado tem o dever de permitir condições de dignidade aos sectores mais frágeis.

Aproxima-se da social-democracia? Do liberalismo?
Estamos numa óptica de social-democracia, defendendo uma economia de mercado, a liberdade de empresa e de investimento. A ideia que o Estado socialista conduzia à abundância morreu. A dignidade dos cidadãos depende do emprego e quem o faz são empresas privadas. Mas o Estado não abandona o mercado às suas leis, como tem havido em Portugal. Portanto, mais regulação e intervenção do Estado, não para intervir na dinâmica do mercado, mas para moderar os seus excessos e suprir as suas deficiências. O Estado não dá tudo, não traz tudo.

Fundou o PDR com o objectivo de participar num Governo. Não é desejo de poder a mais?
Não tenho desejo de poder. Não foi por isso que decidi fundar o PDR aos 63 anos, a dois anos da reforma. Fundámos o PDR não para engrossar o folclore partidário, mas para, justamente, ter soluções de Governo. O país tem tido bloqueios graves na governação. O PS não pode fazer coligações, à direita tem o seu principal adversário, à esquerda uma muralha de aço. O PSD, que tem dimensões sociais-democratas relevantes, teve de as anular e foi capturado por uma lógica direitista do CDS. É preciso criar alternativas que desbloqueiem esta situação que tem causado graves entorses ao funcionamento do regime democrático. Há metade do eleitorado que já não vota nas legislativas, dois terços nas europeias. O objectivo essencial é mobilizar esse eleitorado.

Como o mobiliza, na condição de muleta de partidos instalados?
Nunca seremos muleta de qualquer desses partidos.

Mas está disponível para fazer coligações com ambos?
Isso, no concreto, vamos ver. Estamos disponíveis para encontrar soluções para os graves problemas do país. Aqueles que pensam que vão conseguir o apoio do PDR apenas dando lugares estão enganados.

Não terá ministros?
Teremos, ou não, consoante aceitarem determinadas regras que são fundamentais, a definição de políticas e não a distribuição de lugares. O que tem havido até agora é: "Eu dou-te isto, tu levas aquelas empresas públicas e fazemos aquilo". Tenho dito repetidamente e di-lo-ei no congresso: quem entrou para este partido convencido que vai ter lugar enganou-se.

Não se vê como ministro?
Vejo-me nos lugares onde possa ser útil a resolver este problema.

Vai abandonar as suas crónicas?
Temos um prazo de validade, faço 65 anos dentro de alguns meses. Digo, sinceramente, estou a ficar cansado, estas coisas cansam.

Antes que fique cansado, está disponível para ser ministro se for útil, foi o que disse?
Não. Estou disponível para ocupar os cargos no Governo ou na oposição que possam contribuir para a solução dos problemas nacionais.

Mas que cargos no Governo?
O que for, eu sei lá. Vou candidatar-me a primeiro-ministro.

Como todos.
Como todos. Fundámos um partido, não para o folclore partidário. É para ser poder.

Tem preferência em coligar-se com o PS ou com o PSD?
Tenho dito que nos aliamos ao diabo, se for útil ao país.

Tem criticado o PS e o PSD por serem partidos clientelares.
Se o eleitorado nos der responsabilidades políticas, seremos criteriosos. Não estamos disponíveis para tudo.

Não será um "queijo limiano"?
Não há trocas dessas, não há tráficos. Vamos fazer política. Muitas vezes é fácil confrontar esses partidos, pegar nos programas e dizer: "Prometeu isto? Então vamos fazê-lo".

Qual é o projecto de país que defende? Dizer liberdade, justiça e solidariedade é muito vago.
Estranho ouvir isso de um jornalista. A liberdade não é uma coisa muito vaga.

Concretize. Por exemplo: defende o ensino público, o Serviço Nacional de Saúde, a Segurança Social?
Sim, sim. O Estado tem a obrigação de garantir determinados bens: o ensino, a saúde, os transportes públicos.

Os transportes devem continuar públicos?
Todos não, mas o Estado pode concorrer com os privados nos transportes. Nos serviços postais, nas telecomunicações, na distribuição da água, na produção da energia. O Estado não pode abdicar esses sectores à voracidade do sector privado.

É contra a privatização de sectores estratégicos como a água e os transportes aéreos?
Os transportes aéreos é diferente da água, mas a privatização da água é uma traição. Não podemos entregar um recurso público, que é de todos, à iniciativa privada. Por que é que a iniciativa privada pega nisso? Porque dá lucro. Por que é que o Estado não é capaz de ficar com esses lucros, de gerir essas coisas? A questão da CP é paradigmática. O Governo prepara-se para privatizar as linhas de Cascais e Sintra, que dão lucros enormes. E as outras? Pagamos todos. Está absolutamente errado. Por que é que o Estado privatizou os CTT, uma empresa como a EDP, uma privatização aliás estranha, pois foi vendida a um país estrangeiro. Hoje, a EDP está ao serviço do povo chinês, não ao serviço do povo português.

E a TAP concorda?
Não, claro que não. É mais um passo na estratégia de traição nacional. Puseram este país em saldo. Um país que tem cinco milhões de portugueses espalhados pelo mundo, Canadá, Estados Unidos, Venezuela, Brasil, África do Sul, Angola, Moçambique, Austrália, França, Luxemburgo, Alemanha, não tem que ter uma transportadora aérea? Devia ter, é um imperativo nacional. Era uma situação de respeito para com os emigrantes.

Como financia o Estado social?
Respondo com uma frase: com a economia. O Estado social paga-se com a criação de condições para que haja desenvolvimento, paga-se com os impostos de todos, através de cuja cobrança se realiza uma das dimensões fundamentais do Estado social, que é a justiça social e a repartição.

É o que diz António Costa.
Ele não diz só asneiras, ele não diz só mentiras.

Concretizando: em que aspectos diminuiria a austeridade?
Não concordo com a parte da política de austeridade em que ela foi além do que era necessário.

Defende o memorando?
Parte do memorando. Não podemos ter sessenta e tal por cento do PIB em dívida. Aprendi aos 20 anos que para ser independente tinha de pagar as minhas despesas, a vida ensinou-me isso, e fui trabalhar. Pagava os sapatos, as calças que vestia, as cervejas que bebia, os cigarros que fumava, pagava tudo. E aí, sim, fui independente. As empresas e o Estado são assim. Os Estados só são independentes quando pagarem as suas despesas. Não pode o Estado estar permanentemente a pedir dinheiro emprestado e dizer: "Depois se vê se se paga". Não. Isso acabou. Isso é pura demagogia.

Admite a renegociação da dívida?
Somos devedores; os devedores não podem ter a arrogância de alguns credores. Quem pediu dinheiro emprestado e gastou não pode portar-se como o caloteiro sem vergonha nenhuma que diz: "Não pago".

Renegociar não é não pagar.
A renegociação da dívida não depende dos devedores, depende dos credores. Mas isto não é para o debate eleitoral, é, com humildade e decência, sentar à mesa com os credores e discutir.

Mais uma semelhança com António Costa?
António Costa está a "virar" esquerdista, está a prometer tudo e o seu contrário.

O Tratado Orçamental deve ser revisto?
Sim. Mas a sua revisão não depende só de nós. Depende da capacidade que tivermos de sensibilizar outros. Mas não é com o discurso populista e demagógico de certa esquerda, porque não tem outras bandeiras para pegar.

Tem criticado o modelo de poder europeu. Defende mais federalismo?
Mais democracia.

A que nível?
O povo ser chamado a pronunciar-se.

Propõe referendos?
Claro. Quem tem medo do povo, quem tem medo dos referendos? A questão é esta. Toda a estrutura de poder da União Europeia foi feita pelas cúpulas, pelas elites, fogem do referendo como o diabo da cruz, têm medo do povo, não têm confiança no povo. Esta Europa não tem futuro enquanto estiver distanciada, como está, dos povos europeus. Por isso mesmo, muitos discursos populistas e de extrema-direita e até de extrema-esquerda têm tido algum sucesso.

Tem caracterizado o Parlamento Europeu como "um faz-de-conta muito bem pago". Mas continua lá. Não teme que pensem que está lá pelo ordenado?
Não temo nada. Nunca me guiei pelo que as pessoas pensam. Nunca fez essa pergunta a quem esteve calado, a quem está lá há anos calado.

Não dizem que é faz-de-conta...
Está a misturar. Deixe-me dizer, com toda a frontalidade, que essa pergunta tem pressupostos de ordem moralista e não política.

Mas é o que evoca.
Como político, evoquei uma situação política. Que é indecente que representantes de um povo, cujo salário mínimo seja 500 euros, ganhem mais de 20 mil euros por mês. E atiram-me: "Então o que vai fazer com esse dinheiro, porque não se vem embora?" Isso é a abordagem moralista de um problema político. Faço do dinheiro que ganho o que quero, se é ganho licitamente.

Não sente que atira a pedra e esconde a mão?
Não. Dei a cara. Estou a dizer que é uma ignomínia que um deputado eleito pelo PE tem um vencimento que é uma indecência comparado com um povo que tem 500 euros de salário mínimo e a maior parte dele é esmagada com impostos. E os eurodeputados estão isentos de impostos.

Fala de moralismo. Quando diz que os políticos têm privilegiado os seus interesses e enriquecido, não faz uma generalização irresponsável?
Não faço. Quando digo que biliões de dólares resultam do tráfico de droga, outros tantos resultam de carne de branca, não tenho que apresentar nomes.

Não?
Não. Há entidades públicas encarregadas pelos Estados de descobrir. Constato a existência de um problema, seja no campo da corrupção, seja no campo do tráfico de droga, do tráfico de armas ou da exploração da prostituição, e não tenho que estar a apontar. Tenho que debater politicamente as situações.

Tem dito que há partidos e políticos corruptos. Por que não apresenta provas?
Não tenho provas.

Mas tem certezas.
Uma coisa é ter provas processuais. Sou contra o enriquecimento ilícito porque distorce as regras sãs do verdadeiro processo penal democrático. Mas é óbvio que, politicamente, apoio. Algum político que tenha adquirido um património enorme, devia justificá-lo politicamente na Assembleia. Esta devia-lhe pedir. Não nos tribunais, porque só a palavra ilícito é uma presunção de culpa, de culpabilidade. O debate político é uma coisa, o moralista é outra, e o debate jurídico é outro. Sempre sobre o mesmo facto.

Por que é que os eleitores devem achar que a sua candidatura é diferente?
Até por isto. Procuro fazer rupturas criadoras. Procuro desestabilizar aquilo que está demasiado estável e debaixo do qual se escondem essas coisas todas. Que todos sabemos, a começar pelos jornalistas.

Propõe apenas um abanão, ou quer construir alguma coisa?
Proponho a transparência até aos limites mais inacessíveis do segredo de Estado. Por que é que a Assembleia não divulga todos os anos as subvenções que dá aos partidos?

Estão nas contas da Assembleia.
Estão no Orçamento do Estado.

Pois e nas contas da Assembleia.
Ninguém sabe, ninguém sabe.

Queria que fizessem cartazes?
Que pusessem lá que o partido tal recebeu tanto, uma lista.

Está no site da Assembleia.
Os vencimentos de todos os cargos políticos por que é que não estão? Se são cargos de representação política, deviam estar.

Não sabe quanto ganha o primeiro-ministro?
Sabia quanto ganhava um deputado ao Parlamento Europeu antes de eu ir para lá? Havia um partido que dizia que era 12 mil euros, um escândalo, e todos se calaram. É mais de 20 mil. Primeiro, transparência. Segundo, responsabilidade. Ninguém é responsável, as pessoas depois de eleitas deixam de ter qualquer responsabilidade com quem os elegeu, só têm compromissos com quem os escolheu como candidatos, porque os partidos têm o monopólio absoluto sobre a actividade política.

Acusa genericamente políticos e partidos por convicção e não por provas, porque é judicial. Mas é bastante veemente quando diz que o ex-primeiro-ministro José Sócrates não devia estar preso porque não há provas. Onde estão as provas?
A acusação há-de ser feita. O que digo é que, quando houver provas, prendam.

É contra a prisão preventiva?
Tenho muitas reservas, a prisão preventiva devia ser o último recurso, a última maneira de prender um cidadão. Um arguido é acusado disto e daquilo e depois vai preso porque pode perturbar o inquérito, pode chatear o Ministério Público quando está a investigá-lo? Prenderam Sócrates e andam à procura das provas para o manter preso, para salvar a própria face.

Quando diz que os partidos e os políticos são corruptos...
Não digo que os partidos são corruptos, disse que tem havido demasiada corrupção na política. Há políticos muito sérios, pelos quais eu tenho o máximo respeito.

Mas faz a acusação genérica.
É como quando digo que há tráfico de droga em Portugal. Há políticos corruptos, mas não são todos.

Mas não diz os nomes.
Não tenho de dizer os nomes, por amor de Deus! Eu não sou polícia nem tenho de andar a investigar. Tenho a minha percepção como cidadão, tenho as minhas fontes como político e como cidadão.

Que reforma propõe do sistema partidário?
Uma reforma que responsabilize os eleitos perante os eleitores. Para nós, não há democracia sem partidos, mas nenhuma democracia é saudável se os partidos tiverem o monopólio absoluto da actividade política. Defendemos um sistema misto de representação proporcional e de responsabilização maioritário. Em que 115 deputados sejam eleitos por sistema proporcional com listas partidárias, num círculo único nacional. Mas os outros 115 sejam eleitos em 115 círculos uninominais pelo sistema maioritário, em uma ou duas voltas, consoante os resultados.

Defende a limitação de mandatos?
O período do Presidente é adequado. Admito que para um órgão como a Assembleia possa ser três mandatos. E uma rigorosa estrutura de incompatibilidades, nomeadamente para aquelas profissões que trabalham com as leis feitas pela Assembleia. O dr. Paulo Rangel escreveu um artigo a tapar o sol com a peneira, a dizer que os médicos e os arquitectos podem ficar, só saem os advogados. Saem os advogados porquê? Porque a função deles é aplicarem as leis.

Há 20 anos, o "pacote da transparência" proposto por Fernando Nogueira, quando líder do PSD, previa o conflito de interesses dos advogados e um dos primeiros despachos do dr. Almeida Santos, como presidente da AR, foi a revogar a aplicação da norma aos advogados.
Sabe por que é que ele fez isso? Porque o dr. Almeida Santos é advogado e foi um dos advogados que mais negócios fizeram neste país à custa do que é público. Não estou a dizer isto em off, é em on: o dr. Almeida Santos é um advogado de negócios e é uma das pessoas que mais negócios fizeram em Portugal na sua condição de líder político e de advogado, mesmo que tenha tido em alguns momentos a sua inscrição na Ordem suspensa. É vergonhoso esse acto que ele praticou contra a essência da democracia, porque permite que a Assembleia se tenha transformado numa plataforma onde circulam interesses absolutamente opacos, muitas vezes ilegítimos, tráficos de influências. Vá ver o que foram os debates sobre amnistia...

O que aconteceu?
A última lei de amnistia e perdão de penas de 1999: os advogados até se arranhavam uns aos outros para meter crimes dos seus clientes que pagavam melhor ou que tinham mais poder. A lei foi aprovada em Assembleia e foi alterada na ida para a Presidência para promulgação. A lei aprovada que consta do boletim da Assembleia é diferente da que foi publicada no Diário da República e não é uma diferença só de correcções. Têm crimes diferentes abrangidos. Os advogados deputados que lá estão actuam muitas vezes mais em nome dos seus clientes privados do que do interesse público.

Como líder partidário, vai ser diferente?
Sim.

Que qualidade deve ter um líder?
Humildade. Saber ouvir.

É humilde?
Acho que sim. Apesar deste meu tom que classificam como truculento. Às vezes para percorrer 500 metros levo uma hora, porque sou abordado. Eu ouço as pessoas, tenho de ouvir. Mesmo que elas estejam a dizer uma coisa que eu já ouvi milhares de vezes. Aprendi isso no tribunal com os casos. Muitos advogados diziam: "Ah, isto é uma bagatela". Não. Cada caso, por muito insignificante que seja para nós, para a pessoa que lá está é muitas vezes a coisa mais importante da sua vida.

Para si, o importante são as pessoas, é isso?
Aprendi no Direito que a primeira dimensão da ideia do Direito é o respeito absoluto pela pessoa humana.

O que pensa da Maçonaria?
Um sentimento contraditório. O seu ideário é do mais nobre do que pode ser gerado pelo ser humano, a sua prática transformou-se em muitos aspectos no pior do que pode haver numa sociedade humana. O que posso dizer de bom é que a Maçonaria não é diferente de outras organizações, tem bons e tem maus.

E o Opus Dei?
Eu não sou adepto. Sou ateu, não acredito em Deus, acho que Deus não acreditará muito em mim. Mas penso que os ideais que a Maçonaria pretende realizar são ideais de maior densidade humana, mais próprios dos problemas dos homens, mais dirigidos aos problemas dos homens, da liberdade, da igualdade da fraternidade, do que os do Opus Dei. O Opus Dei é mais a questão do poder. Conseguir o poder para servir a Deus.

Mas disse que a Maçonaria se transformou numa plataforma de negócios.
Temos hoje tantos exemplos de pessoas que dão mau exemplo quanto ao ideário da Maçonaria, são tantos os casos, que a própria Maçonaria devia fazer uma profunda reflexão interna e encarar a possibilidade de expulsar muitos dos seus membros. Agora eu não sou nem serei da Maçonaria, nem do Opus Dei.

Nunca será da Maçonaria?
Dentro do que se pode dizer, nunca, nunca serei. Já não estou na idade de me filiar. E há uma outra razão: ideais tão nobres como os que a Maçonaria defende e prossegue, pelo menos teoricamente, são para se defender em público e não através de uma forma discreta de organização.

Continua a defender o salário mínimo europeu? Quanto deve ser o seu valor?
A Europa devia definir um mínimo abaixo do qual seria indigno remunerar o trabalho humano. Depende das economias dos países. Pode ser 300 euros, pode ser 400 euros. A Europa devia fazer isso, assim como definir uma pensão mínima e alimentos mínimos para crianças.

Propõe um tecto para salário máximo. Como é que isso é compatível com a liberdade de mercado?
Não. As empresas podem pagar o que quiserem, agora o Estado pode tributar como quiser. Quando falo em vencimento máximo, é valor acima do qual o Estado criaria normas especiais de tributação. Sabe que na Inglaterra e nos países nórdicos há impostos que podem chegar aos 85%? Se uma pessoa ganha 300 mil euros por mês, não acha que devia ser tributada de forma especial? Suponha que se estabelece um valor máximo português de cem mil euros; o que ganharem acima disso será tributado com um imposto próprio. Agora, ninguém pode impor um salário máximo, é incompatível com a liberdade de mercado.

É opositor de que casais do mesmo sexo se candidatem à adopção de crianças. Por que considera que estes têm menos condições do que os casais de sexos diferentes?
A natureza ou Deus, para mim a evolução organizou as coisas em masculino e feminino. O homem e a mulher podem conceber. Entendo, por uma multidão infinita de razões, que uma criança necessita de um pai e de uma mãe, os afectos jogam-se no feminino e no masculino. Não nego que casais do mesmo sexo não sintam afectos.

Conhece os direitos individuais?
Conheço. Mas ninguém tem direito a adoptar, é um engano seu. As crianças têm direito a serem adoptadas e o mecanismo da adopção é criado para que possa ser dado à criança uma imagem da família natural que o gerou.

É essa a concepção que faz de adopção?
Nasceu assim. Não tem a ver com o direito das pessoas a casarem. Porque o casamento é uma instituição criada pelo homem para fins políticos, sociais, económicos. Por isso pode ser alterado pelo homem. Ninguém me pode impedir se eu quiser estabelecer uma comunhão de vida com outro homem.

E às mulheres e homens que tiveram casamentos, têm filhos e têm uma relação com pessoas do mesmo sexo?
Que sejam felizes mesmo com os filhos. O problema não está em dois homens viverem com o filho de um deles. É o padrasto. É o parceiro do meu pai, não é o meu segundo pai. Mãe há só uma. Pai há só um. Essa ideia de que pode ter dois pais e duas mães é uma lei perversa, é uma lei que viola as próprias leis naturais da evolução.

Continua a considerar que a violência doméstica não deve ser crime público?
Continuo. Cada vez mais. Uma das causas deste aumento de mulheres assassinadas é o fundamentalismo das leis que regulam esse problema. Deixe-me perguntar-lhe: se a minha mulher me der uma bofetada em público, por que é que eu não posso desistir de um processo que alguém decidiu instaurar no Ministério Público?

Não faz parte dos comportamentos considerados normais estar a esbofetear. E estamos a falar de mortes. Quando recorre a uma caricatura de uma estalada, está a fazer um raciocínio intencional?
Não estou a fazer nenhum raciocínio enviesado que está a insinuar. Até lhe digo que a morte por violência doméstica é punida menos severamente que a por homicídio. Se da violência resultar a morte, é punido com uma pena até 10 ou 12 anos, o homicídio simples é punido de oito a 16.

Mas há mais crimes registados porque há mais visibilidade, mais preocupação...
Hoje nenhum homicídio fica sem ser registado. E há mais por causa do fundamentalismo das leis. A partir de um certo grau de violência, estamos a lidar com monstros e deve-se lidar de forma especial, não é como tem sido feito. Há casos de pessoas que são mortas depois de iniciados os processos, porque as coisas são conduzidas de uma forma fundamentalista, justiceira. E é preciso maleabilizar os processos. Há o crime semipúblico.

Era o regime anterior.
O que eu defendi é o crime semipúblico especial atípico. A queixa pode ser feita por qualquer cidadão, mas a vítima pode desistir, desde que o faça em liberdade, perante um juiz, porque há casos de coacção. Há crimes gravíssimos que se deixa ao critério da vítima, porque a publicidade do processo causa às vezes mais danos ou danos tão relevantes quanto o próprio crime. Na violação a vítima pode não querer procedimento criminal. Sabe qual é o massacre às vezes de uma vítima num julgamento? Deve deixar-se uma margem, não deixar aos profissionais da acusação, aos burocratas do Ministério Público o poder absoluto sobre o processo. Este crime só é público para os pobres. A juíza que foi espancada há uns anos em Coimbra e fugiu para casa dos pais é crime particular. Toda a gente soube, mas toda a gente abafou.

Lista de pedófilos, concorda?
Lembra os piores momentos da história da humanidade. Daqui a pouco só falta pôr campainhas ao pescoço de alguns criminosos ou de alguns doentes.


*

Era um advogado desconhecido que chegou a bastonário da ordem dos advogados graças à saturação do mercado que deixava sem trabalho milhares de jovens advogados de quem prometeu ser o tribuno. É certo que não pactuou com facilitismos e impôs exigência no exame de acesso à ordem.

No entanto foi o primeiro bastonário a exigir um salário, nem mais , nem menos do que 5000 euros, superior ao salário de um professor catedrático de Direito, algo que não acredito que alguma vez tenha alcançado por mérito profissional enquanto trabalhou na profissão. E os jovens advogados nada mais ganharam senão uma voz que falava contra os grandes escritórios de advogados que vivem à sombra do poder político na nossa peculiar democracia.

O cargo e o estilo truculento deu-lhe lugar nas televisões, tornou-o conhecido e agradou ao homem da rua. Isso permitiu-lhe catapultar um pequeno partido para o estrelato nas eleições para o parlamento europeu de 2014 e valeu-lhe o lugar de eurodeputado.

Antes disso apoiou a candidatura a bastonária de um elemento da equipa com que havia concorrido à ordem dos advogados e que alegadamente tinha prejudicado gravemente uma cliente por não cumprir o código deontológico da profissão. Algo que se tornou uma constante na advocacia portuguesa mas que não o incomodou.

Chegado a eurodeputado, teve um deslize num programa de rádio em que considerou excessivo um eurodeputado ganhar mais de 20.000 euros mas reduzido o salário dos nossos deputados, que ascende a cerca de 4000 euros, com o argumento de que não é possível viver em Lisboa por menos de 5000 euros mensais.

Os resultados obtidos nas eleições para o parlamento europeu decidiram-no a afastar-se do partido que lhe deu a possibilidade de sentar-se nas bancadas de Bruxelas e abalançou-se na criação de um partido de que seja o único dono.

Diz-se contra o comportamento dos autarcas, dos deputados, dos ministros e até um primeiro-ministro que, em geral, nada mais procuram na política senão poder e dinheiro e contra a corrupção que esses políticos instalaram no nosso País.
É, sobretudo, notável a coragem com que denuncia "o dr. Almeida Santos é um advogado de negócios e é uma das pessoas que mais negócios fizeram em Portugal na sua condição de líder político e de advogado".

Mas o seu percurso profissional e político não inspira confiança e pode estar apenas à procura de polémica para evidenciar-se. Para já, esse percurso leva-me a considerá-lo mais um arrivista à procura das prebendas que a política passou a dar em Portugal depois do 25 de Abril.